3 de outubro de 2017

Capítulo 16

NÃO ESPEREI PARA REUNIR O GRUPO. Aquilo era muito importante. Ainda não sabia o nível do perigo que estávamos enfrentando, mas não queria correr o risco. Escolhi a casa de Clarence como ponto de encontro, já que os caçadores ainda não sabiam nada sobre ela. Mesmo assim, fiquei insegura. Teria ficado insegura mesmo se nos encontrássemos no abrigo subterrâneo dos alquimistas.
E, aparentemente, “caçadores” não era o termo certo. De acordo com aquele panfleto caseiro, eles se autodenominavam “Guerreiros da Luz”. Não sei se mereciam um título tão pomposo, ainda mais porque, no texto sobre sua missão, escreveram “pressipício” em vez de “precipício”. O panfleto era realmente muito vago, declarando simplesmente que havia um mal andando em meio à humanidade e que os guerreiros eram a força destinada a destruí-lo. Eles pediam insistentemente aos outros humanos que estivessem prontos e permanecessem puros. Nenhum vampiro era mencionado pelo nome — o que me deixou aliviada. O panfleto também não falava muito sobre o histórico que diziam ter em comum com os alquimistas.
Antes de irmos até a casa de Clarence, Eddie verificou se havia algum dispositivo de rastreamento no Pingado. Só essa ideia já me causava arrepios, assim como a ideia de ter sido vigiada na casa de Adrian. Aquilo tudo me dava uma sensação de violação. Apenas minha falta de fé na tecnologia deles me fez me sentir um pouco melhor.
— Acho improvável que eles estejam tão avançados — eu disse a Eddie, enquanto ele se contorcia embaixo do carro. — Quer dizer, aquele panfleto parecia ter sido impresso numa máquina dos anos 1980. Não sei se é porque eles usam o mesmo panfleto há muito tempo ou se realmente têm uma máquina daquelas... mas, enfim, eles não parecem do tipo que curte altas tecnologias.
— Talvez — ele concordou, com a voz um tanto abafada. — Mas não podemos arriscar. Não sabemos do que eles são capazes. Tudo que sabemos é que estão tentando se aliar aos alquimistas para terem acesso à tecnologia.
Senti um calafrio. A ideia de que os alquimistas e aquele grupo dissidente violento pudessem estar relacionados era repulsiva. Era uma loucura o que eu e Adrian tínhamos especulado, e ainda difícil de aceitar mesmo em face de provas tão contundentes. Agora pelo menos eu tinha informações suficientes para levar aos meus superiores sem ser ridicularizada. Mesmo sem eu nunca ter ouvido falar de caçadores como aqueles, parecia plausível que, em algum momento, eles tivessem tentado se aliar à organização. Com sorte, algum alquimista poderia ajudar.
Eddie saiu rapidamente de debaixo do Pingado.
— Está limpo. Vamos.
Jill e Angeline estavam esperando ao meu lado, ambas tensas e ansiosas. Jill lançou um olhar admirado para Eddie.
— Não imaginava que você sabia fazer essas coisas. Nunca nem teria pensado nisso.
— Você achava que o treinamento dos guardiões era só dar porrada? — ele disse, limpando o suor da testa.
— Meio que sim — ela respondeu, vermelha.
— Você poderia me ensinar essas coisas algum dia? — Angeline perguntou. — Acho que seria bom eu saber isso.
— Claro — Eddie respondeu, parecendo sincero, o que a fez abrir um sorriso radiante.
Ele andava muito mais calmo perto de Angeline desde que ela ficara mais séria e contida. Acho que esse bom comportamento foi um dos fatores para que eu conseguisse permissão para ela nos acompanhar naquela noite. Tecnicamente, ela ainda estava suspensa, mas eu consegui uma dispensa especial com base na “religião” de nossa família. Tinha usado uma justificativa parecida quando Jill fora suspensa no mês anterior e eu precisava levá-la aos fornecimentos. Mesmo assim, tínhamos que obedecer ordens muito rigorosas em relação a Angeline naquela noite. Ela não poderia ficar fora por mais de duas horas, e o custo daquilo seria acrescentar mais um dia de suspensão ao seu castigo.
Pegamos uma rota incomum para a casa de Clarence, e Eddie ficou observando a traseira do carro atentamente, procurando qualquer sinal de que estaríamos sendo seguidos. Ele tentou nos explicar algumas coisas em que deveríamos prestar atenção quando estivéssemos sozinhos. Eu estava tão nervosa que mal conseguia ouvir. Após um trajeto tenso, chegamos em segurança à mansão de Clarence, onde encontramos Adrian, que já esperava por nós. Aparentemente, Dimitri havia passado no centro mais cedo e dado uma carona para ele, certamente tomando as mesmas precauções que Eddie tomara ao longo do caminho.
Eu já havia dado informações sobre os caçadores a Eddie e Dimitri, mas todos pediram uma explicação mais detalhada. Nos reunimos no lugar de sempre, a sala de estar, enquanto Dimitri andava de um lado para o outro, como se estivesse se preparando para um ataque a qualquer momento. Clarence, sentado em sua poltrona, tinha o olhar distraído de sempre. Contudo, quando peguei o panfleto, ele se manifestou.
— São eles! — gritou. Pensei que daria um salto da poltrona e arrancaria o folheto da minha mão. — São os símbolos deles! — Quase todos os símbolos alquimistas desenhados na espada estavam na capa do panfleto. — Esse círculo. Eu me lembro desse círculo.
— O símbolo do ouro — confirmei. — Ou, no caso deles, o símbolo do Sol, já que são tão obcecados com a luz e as trevas.
Clarence olhou ao redor, agitado.
— Eles voltaram! Precisamos sair daqui. Vim para esta cidade para escapar deles, mas eles me encontraram. Não temos muito tempo. Onde está Dorothy? Cadê o Lee? Preciso fazer as malas!
— Sr. Donahue — eu disse, com o tom mais gentil possível —, eles não sabem que o senhor está aqui. O senhor está seguro. — Não sabia se eu mesma acreditava naquilo, mas esperava que tivesse soado convincente.
— Ela está certa — Dimitri disse. — E, mesmo se soubessem, o senhor pode ter certeza de que eu não os deixaria machucá-lo. — Havia tanta convicção e força na maneira como Dimitri falava que tive a sensação de que acreditaríamos nele mesmo se um grupo de Strigoi estivesse invadindo a casa e ele dissesse: “Está tudo bem, vocês estão seguros”.
— Se o que você está dizendo for verdade — Sonya falou —, então sou eu que estou em perigo. — Ela parecia muito mais calma do que eu estaria no lugar dela.
— Eles não vão causar nenhum mal a você — Dimitri disse, incisivo. — Principalmente se você não sair desta casa.
— Mas a pesquisa... — ela começou.
— ... não é tão importante quanto sua segurança — ele concluiu. A força em seu olhar dizia que ele não estava disposto a ouvir nenhum argumento. — Você precisa voltar para a Corte. Já estava nos seus planos, afinal. Apenas adiante a viagem.
Sonya não parecia nada contente com essa ideia.
— E deixar vocês correndo perigo?
— Talvez não estejamos correndo perigo — Eddie disse, apesar de a tensão em seu corpo dizer outra coisa. — Pelo que Sydney disse, e pelo manifesto deles, o foco do grupo são os Strigoi, não os Moroi. — Ele olhou de soslaio para Jill. — Não que devamos baixar a guarda. Se eles acham que Sonya é uma Strigoi, vai saber de que outra loucura eles são capazes. Mas não se preocupem. Não vou deixar que se aproximem de você. — Jill parecia prestes a desmaiar.
— É uma boa ideia — eu disse. — Eles acham que os Moroi são uma ameaça, mas não tão grande quanto os Strigoi.
— Assim como os alquimistas — Adrian disse. Ele estava sentado numa poltrona no canto, em silêncio até então. Eu não o via desde a noite da festa, nem tinha me comunicado com ele de outro jeito, o que era estranho. Mesmo quando ele não mandava os e-mails patéticos sobre os experimentos, quase sempre tinha alguma piada espertinha para me mandar.
— Verdade — admiti, com um sorriso. — Mas não estamos tentando matar nenhum de vocês. Nem mesmo os Strigoi.
— E tem um problema — Dimitri acrescentou. — Esses guerreiros têm certeza de que Sonya é Strigoi e está usando algum tipo de truque para se disfarçar.
— Eles podem ter algum sistema de rastreamento ou um banco de dados — Sonya disse. — Devem acompanhar vários Strigoi pelo país, tentando caçá-los.
— Mas mesmo assim não sabiam nada sobre você — eu disse, apontando para Dimitri. Ele permaneceu inexpressivo, mas eu sabia que devia ser difícil lembrar de seu período como Strigoi. — E, até onde eu sei, você era bem mais... hum... famoso do que Sonya. — Basicamente, ele tinha sido um Strigoi mafioso. — Então, se você não foi identificado por eles, é provável que não tenham uma cobertura internacional... ou pelo menos não na Rússia.
Angeline se inclinou para a frente, com os dedos entrelaçados, e olhou para Clarence com um sorriso digno de seu nome angelical.
— O que o senhor sabe sobre eles? Como foi que os encontrou pela primeira vez?
A princípio, ele parecia com medo até de responder, mas acho que a doçura dela o tranquilizou.
— Bem, eles mataram minha sobrinha.
Todos sabíamos que fora Lee quem matara a sobrinha de Clarence, mas ele não acreditava nisso, assim como também não acreditava que Lee estava morto.
— Você os viu fazerem isso? — Angeline interrogou. — Já os viu alguma vez?
— Não, não quando Tamara foi morta — ele admitiu. Seus olhos assumiram um ar distante, como se fitasse o passado. — Mas eu sabia os sinais que precisava procurar. Eu já os havia encontrado antes, quando morava em Santa Cruz. Eles gostam da Califórnia, sabe. E do sudeste dos Estados Unidos. Tem a ver com a fixação deles pelo Sol.
— O que aconteceu em Santa Cruz? — Dimitri perguntou.
— Um grupo de guerreiros jovens começou a me perseguir. Tentaram me matar.
Trocamos olhares nervosos.
— Então eles perseguem Moroi — Eddie disse, e se aproximou de Jill.
Clarence fez que não com a cabeça.
— Normalmente, não. Pelo que Marcus me disse, eles preferem os Strigoi. Esses guerreiros eram uns moleques indisciplinados da ordem, que caçavam por conta própria, sem que seus superiores soubessem. Acho que foi um do mesmo tipo que matou Tamara.
— Quem é Marcus? — perguntei.
— Marcus Finch. Ele me salvou dos caçadores há alguns anos. Me defendeu durante um ataque e depois entrou em contato com a ordem para manter aqueles delinquentes longe de mim. — Clarence estremeceu com a lembrança. — Não que eu tenha ficado por lá depois daquilo. Peguei Lee e fui embora. Foi nessa época que nos mudamos para Los Angeles e ficamos lá por um tempo.
— Esse Marcus — Dimitri começou — era um guardião?
— Humano. Ele tinha mais ou menos a sua idade naquela época. Sabia tudo sobre os caçadores.
— Imagino, já que conseguiu entrar em contato com eles — Dimitri cogitou. — Mas ele devia ser amigo dos Moroi para ter ajudado o senhor, não?
— Ah, sim — Clarence respondeu. — Muito amigo.
Dimitri se virou para mim.
— Você acha que...
— Sim — respondi, adivinhando a pergunta. — Vou ver se conseguimos encontrar esse tal de Marcus.
Seria bom ter uma fonte de informações sobre esses guerreiros malucos. Vou reportar tudo isso também, na verdade.
— Eu também — Dimitri disse.
Embora Clarence não fosse um especialista em caçadores como esse misterioso Marcus, o velho Moroi nos forneceu uma quantidade surpreendente de informações, informações essas a que nenhum de nós tinha dado ouvidos antes. Ele confirmou o que já havíamos deduzido sobre a “devoção à luz” dos caçadores. O foco do grupo (por enquanto) eram os Strigoi, e todas as suas caçadas eram planejadas e organizadas com cuidado. Eles seguiam uma série de rituais, sobretudo em relação a membros mais jovens — por isso o grupo independente que perseguira Clarence fora impedido. Pelo que Clarence havia descoberto, eles eram bastante duros com os jovens recrutas, enfatizando disciplina e excelência.
Como faltava pouco tempo para o fim da suspensão da pena de Angeline, precisávamos terminar logo a conversa. Também fiquei encarregada de levar Adrian para casa, pois imaginamos que seria melhor eliminar quaisquer chances de Dimitri ser seguido na volta para a mansão depois. Além disso, pude notar que Dimitri estava ansioso para colocar certas coisas em marcha. Ele queria finalizar os detalhes da partida de Sonya e verificar com os guardiões a possibilidade de Jill ser realocada. O rosto dela refletiu meu sentimento sobre essa possibilidade. Estávamos muito apegadas a Amberwood.
Enquanto ele dava as últimas instruções a Eddie, puxei Sonya de lado para uma conversa reservada.
— Eu estive... pensando uma coisa — disse.
Ela me examinou atentamente, talvez lendo minha aura e linguagem corporal.
— O quê? — ela perguntou.
— Se quiser... se quiser muito, posso ceder um pouco do meu sangue.
Era uma concessão muito, muito grande. Eu definitivamente não queria fazer aquilo; ainda tinha os mesmos medos instintivos de dar meu sangue a um Moroi, mesmo que para fins científicos. No entanto, os acontecimentos do dia anterior, somados ao ataque no beco, me fizeram repensar minha visão de mundo. Os vampiros não eram os únicos monstros à solta. Mal se podia dizer que eles eram monstros, ainda mais se comparados aos tais caçadores. Como eu poderia julgar um inimigo com base na raça? Cada vez mais eu pensava que os humanos eram tão capazes de causar o mal quanto os vampiros — e que os vampiros também eram capazes de fazer o bem. O importante eram as ações, e as de Sonya e Dimitri eram nobres. Eles lutavam para destruir o mal maior e, por mais reservas que eu tivesse em relação a ceder o meu sangue, sabia que era a coisa certa a fazer para ajudá-los.
Sonya entendia o tamanho do sacrifício que aquilo representava para mim. Ela permaneceu calma, sem pulos de alegria, e assentiu, séria.
— Estou com o meu kit aqui. Posso colher uma amostra antes de você ir embora, se tiver certeza.
Mas já? Bem, por que não? Era melhor acabar com aquilo de uma vez por todas, ainda mais se Sonya realmente iria embora da cidade mais cedo do que esperávamos. Fizemos a coleta na cozinha, que parecia um pouco mais higiênica do que a sala de estar. Sonya não era médica, mas seu treinamento era igual ao que eu observara nos hospitais. Antisséptico, luvas e uma seringa nova. Ela seguiu todos os procedimentos adequados e, com uma picada rápida da agulha, colheu uma amostra do meu sangue.
— Obrigada, Sydney — ela disse, colocando um band-aid. — Sei como deve ter sido difícil pra você. Mas acredite, isso pode ajudar muito a pesquisa.
— Eu quero ajudar — eu disse. — Muito mesmo.
Ela sorriu.
— Eu sei. E estamos precisando de toda ajuda que conseguirmos. Depois de ter sido um deles... — Seu sorriso desbotou. — Mais do que nunca acredito que o mal que eles representam precisa ser detido. Você pode ser a chave para esse mistério.
Por um segundo, as palavras dela me inspiraram — talvez eu poderia representar um papel maior na batalha contra o mal e até detê-lo. Imediatamente, essa ideia foi substituída pelo velho pânico de sempre. Não. Não. Eu não era nada especial. Não queria ser. Faria um esforço sincero para ajudar, mas tinha certeza de que não resultaria em nada.
Voltei para buscar os outros. Adrian e Jill estavam tendo uma conversa séria num canto. Eddie e Angeline também conversavam, e eu a ouvi dizer:
— Vou passar mais tempo com Jill na escola, só para garantir. Não podemos deixar que ela seja envolvida em algum acidente ou que a tomem pela pessoa errada.
Eddie concordou e pareceu impressionado com a sugestão dela.
— Ótimo.
Incrível, pensei.
Logo depois, saí com o carro cheio e passei no centro para deixar Adrian. Ao estacionar em frente ao seu prédio, vi uma coisa que me deixou boquiaberta. Admiração e descrença recaíram sobre mim. Com a baliza mais desajeitada que já fizera em toda a minha vida, estacionei o Pingado de qualquer jeito e saí do carro assim que tirei as chaves da ignição. Os outros me seguiram momentos depois.
— O que... — eu disse, tomando fôlego — ... é isso?
— Ah — Adrian disse, com um tom casual. — É o meu carro novo.
Avancei alguns passos e então me detive, com medo de me aproximar, como alguém que hesita diante da realeza.
— É um Ford Mustang 1967 conversível — eu disse, sentindo que meus olhos estavam prestes a saltar da órbita. Comecei a andar em torno dele. — O ano em que fizeram uma mudança geral e aumentaram o tamanho para ficar à altura dos concorrentes de alta potência. Estão vendo? É o primeiro modelo com lanternas traseiras côncavas, mas o último com o nome da Ford em maiúsculas na frente até 1974.
— Que diabo de cor é essa? — Eddie perguntou, nem um pouco impressionado.
— Amarelo-primavera — Adrian e eu dissemos em coro.
— Eu chutaria verde-torta-de-limão — Eddie disse. — Acho que dá para mandar pintar.
— Não! — exclamei. Larguei minha bolsa na grama e, com cuidado, toquei a lateral do carro. De repente, o lindo Mustang novo de Brayden não passava de algo comum. — Foi retocada, claro, mas é uma cor clássica. Qual é o código do motor? C, não é?
— Humm... não lembro — Adrian disse. — Mas sei que o motor é V8.
— Claro que sim — respondi, me controlando para não revirar os olhos. — É um 289. Quero saber quantos cavalos tem.
— Deve estar escrito na papelada — Adrian disse, sem graça.
Foi só então que realmente processei o que Adrian havia dito. Levantei os olhos para ele, sabendo que meu rosto transbordava descrença.
— Este carro é realmente seu?
— Sim — ele disse. — Falei pra você. Meu pai me arranjou a grana.
— E você escolheu este? — perguntei, espiando o interior pela janela. — Bacana. Interior preto, transmissão manual.
— Pois é — Adrian disse, com um tom constrangido na voz. — Esse é o problema.
Voltei o olhar para ele.
— Qual? Preto é ótimo. E o couro está em ótimas condições. Assim como todo o carro.
— Não, não o interior. A transmissão. Não sei dirigir com câmbio manual.
Fiquei em choque.
— Como não?
— Eu também não sei — Jill disse.
— Você não tem carteira — eu a lembrei. Se bem que minha mãe havia me ensinado a dirigir antes de eu tirar a carteira de motorista, tanto com transmissão manual quanto automática. Eu sabia que não devia ficar surpresa com o fato de o câmbio ser uma arte perdida, por mais brutal que essa carência me parecesse. Isso, claro, não era nada perto do problema óbvio. — Por que você foi comprar um carro como este se não sabe dirigir com transmissão manual? Existem inúmeros carros, veículos novos, com transmissão automática. Seria um milhão de vezes mais fácil.
— Eu gostei da cor — Adrian respondeu, dando de ombros. — Combina com a sala.
Eddie segurou o riso.
— Mas você não sabe dirigi-lo — ressaltei.
— Achei que não seria tão difícil. — Adrian parecia extremamente despreocupado com o que eu via como um absurdo. — É só praticar um pouco dando umas voltas no quarteirão que pego o jeito.
Não podia acreditar no que estava ouvindo.
— O quê? Você está maluco? Vai destruir o carro se não souber o que está fazendo!
— O que mais eu posso fazer? — ele perguntou. — Por acaso você vai me ensinar?
Olhei novamente para o magnífico Mustang.
— Vou — respondi, obstinada. — Se isso for preciso para proteger o carro de você.
— Também posso ensinar você — Eddie disse.
Adrian o ignorou e se concentrou em mim.
— Quando podemos começar?
Repassei mentalmente o horário escolar, sabendo que falar com os alquimistas sobre os Guerreiros da Luz era minha prioridade. Então, tive a ideia mais óbvia.
— Ah. Quando formos ao Wolfe esta semana. Vamos levar essa belezinha para passear.
— Você quer mesmo me ajudar? — Adrian perguntou. — Ou só está a fim de dirigir o carro?
— As duas coisas — respondi, sem medo de admitir.
Faltava pouco para o tempo de Angeline acabar, por isso tínhamos de ir embora logo. Dirigi três quadras até lembrar que esquecera a bolsa na grama. Com um resmungo, dei meia-volta até o prédio de Adrian. Minha bolsa estava lá, mas o Mustang não.
— Cadê o carro? — perguntei, em pânico. — Ninguém pode ter roubado tão rápido.
— Ah — Jill, que estava sentada atrás de mim, disse, com a voz um pouco nervosa. — Eu vi pelo laço. Ele... mudou o carro de lugar.
Era bom ter o laço como fonte de informações, mas as palavras dela me deixaram mais nervosa do que eu teria ficado se o carro realmente tivesse sido roubado.
— Ele fez o quê?
— Não está muito longe — ela respondeu depressa. — Atrás do prédio. Esta rua tem umas regras estranhas contra estacionar à noite.
Fechei a cara.
— Que bom que o carro não vai ser rebocado, mas ele devia ter pedido para eu mudá-lo de lugar! Mesmo sendo uma distância curta, ele podia destruir a transmissão.
— Tenho certeza de que vai ficar tudo bem — Jill disse, com a voz um pouco estranha.
Não respondi. Jill não era especialista em carros. Nenhum deles era.
— É como deixar um bebê à solta numa sala cheia de porcelanas — resmunguei. — O que ele tinha na cabeça? Em relação a isso tudo?
Ninguém soube responder. Chegamos a Amberwood a tempo do toque de recolher de Angeline, e me refugiei na calma e na sanidade do meu quarto. Assim que garanti que meus amigos passariam a noite em segurança, mandei um e-mail relatando o que havíamos descoberto sobre os caçadores para Donna Stanton, uma alquimista do alto escalão com quem, inexplicavelmente, eu havia criado boas relações. Cheguei a tirar fotos do panfleto e enviá-las por e-mail junto. Feito isso, recostei-me na cadeira, tentando lembrar se havia mais alguma informação que eu pudesse dar a ela para ajudar.
Foi só depois de repassar exaustivamente todas as opções (e atualizar minha caixa de entrada algumas vezes para ver se ela já havia respondido) que finalmente passei para os trabalhos da escola. Como de costume, me concentrei em cada tarefa, exceto uma.
A da sra. Terwilliger.
Aquele livro idiota repousava sobre a minha escrivaninha, como se me encarasse, me desafiando a abri-lo. Eu ainda tinha alguns dias até o fim do prazo e poderia continuar protelando. Mas estava começando a aceitar que a tarefa não iria simplesmente desaparecer. Considerando que alguns dos preparativos levavam tempo, talvez fosse melhor segurar o touro pelos chifres e acabar com aquilo de uma vez por todas.
Decidida, levei o livro para a cama e abri no sumário, examinando alguns feitiços que ela havia lido comigo. Senti um embrulho no estômago diante da maioria, e todos os meus instintos me diziam que era errado tentar fazer aquilo. Magia é para vampiros, não para humanos.
Eu ainda acreditava nisso, mas a parte analítica do meu cérebro não podia deixar de imaginar como seria lançar alguns dos feitiços defensivos em diversas situações. Assim como minha decisão sobre ceder sangue, os acontecimentos recentes me levaram a enxergar o mundo de outra forma. A magia era algo errado? Sim. Mas aquele feitiço para cegar as pessoas teria sido útil no beco. Outro feitiço, um que imobilizava as pessoas temporariamente, poderia ter sido usado para fugir dos caçadores no café. Claro, ele só durava trinta segundos, mas era tempo suficiente para escapar.
Repassei a lista repetidamente. Todos eram tão errados e ao mesmo tempo... tão úteis. Se não tivesse visto com meus próprios olhos o amuleto de fogo que eu havia feito incendiar uma Strigoi, não acreditaria que nada daquilo fosse possível. Mas todos os indícios indicavam que era.
Tanto poder... a possibilidade de me proteger...
Imediatamente me repreendi por essa ideia. Não precisava de poder. Esse tipo de pensamento foi o que levou aberrações como Liam a querer se transformar em Strigoi. No entanto... será que era realmente a mesma coisa? Eu não queria a imortalidade. Não queria ferir ninguém. Só queria ser capaz de me proteger e proteger as pessoas de que gostava. Wolfe poderia me ensinar muitas coisas, mas suas técnicas preventivas não ajudariam se caçadores de vampiros obstinados voltassem a encurralar Sonya e eu. Com o tempo, estava ficando claro que os caçadores eram mesmo obstinados.
Voltei para o sumário, encontrando vários feitiços que poderiam ser úteis e que eu seria capaz de fazer. De acordo com a sra. Terwilliger, uma pessoa como eu tinha um excelente potencial para a magia por causa de um talento inato (algo em que eu não acreditava muito), e do rigoroso treinamento alquimista em relação a medidas e atenção aos detalhes. Não foi difícil imaginar quanto tempo eu levaria para produzir qualquer um dos possíveis candidatos.
A questão era: qual feitiço eu faria? Para qual eu tinha tempo?
A resposta era perturbadoramente simples.
Eu tinha tempo para fazer todos eles.

2 comentários:

  1. "Você é uma bruxa Sydney!
    Não, eu sou a Sydney, só Sydney!!!"
    Se entrega logo Sydney!!!

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  2. A Sydney vai causar uma revolução nos Alquimistas...

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Boa leitura :)