30 de outubro de 2017

Capítulo 15

Sydney

CALEXICO FICAVA A DUAS HORAS DE DISTÂNCIA, então a jornada foi longa e estranha. Quando estávamos no meio do caminho, Sabrina parou para nos vendar, seguindo o protocolo dos guerreiros. Durante o resto da viagem, repetiu informações que já tínhamos decorado e que nunca seriam suficientes para nos preparar para esse plano maluco. Consegui me manter calma, focando apenas em Jill e no meu objetivo ali, deixando de lado qualquer emoção. Tentei especialmente não me preocupar demais com Adrian. Senão, eu daria para trás. Em vez disso, ouvi os conselhos e as informações de Sabrina, fixando na memória junto com os objetivos daquela missão. Me sentia estranhamente fria e sem envolvimento emocional.
Então chegamos ao terreno dos guerreiros.
Sabrina avisou que estava perto e o carro diminuiu a velocidade ao se aproximar do portão. Ouvi a janela abrir.
— Sabrina Woods — ela disse —, com dois recrutas em potencial.
— Dois, hein? — respondeu uma voz grave, parecendo achar graça.
Sabrina manteve a calma.
— Não trouxe nenhum ano passado. Estou tentando compensar.
— Leva para a área de espera — foi a resposta.
A janela fechou e Sabrina acelerou devagar. Um suspiro aliviado foi o único sinal de que ela estava mais nervosa com o plano do que demonstrava. Ouvi os pneus rolando sobre cascalho e, um minuto depois, o carro parou. Ela o desligou e abriu a porta.
— Podem sair — disse.
Nos guiou na direção do som de pessoas conversando. Ali, finalmente, nossas vendas foram removidas. A paisagem do deserto era árida e desolada, e incluía um conjunto de prédios caindo aos pedaços. Lembrava mais ou menos o terreno de Wolfe, só que muito mais destruído. Dois caras enormes com armas na cintura conversavam amigavelmente na entrada de um prédio grande, mas suas expressões endureceram ao perceberem nossa chegada. Sabrina repetiu o que havia dito no portão, acrescentando:
— São irmãos.
Um dos homens pareceu gostar disso.
— Essa é uma organização familiar, afinal.
Não era exatamente o que me vinha à mente quando pensava nos guerreiros, mas abri um sorriso que esperava que parecesse tranquilo e corajoso. Os guardas nos revistaram em busca de armas ou equipamentos de rastreamento. A revista foi rápida e fria. Eu e Eddie tínhamos tomado o cuidado de deixar os celulares com Howie e, depois de não encontrar nada suspeito, um dos guardas fez sinal para atravessarmos a porta atrás deles. Sabrina fez menção de vir conosco, mas um dos guardas não deixou.
— Eles entram sozinhos — ele disse. — Você vai pela porta do público do outro lado.
Sabrina tinha nos avisado que em algum momento nos separaríamos, então tentei não deixar o pânico transparecer enquanto ela se despedia sem cerimônia e nos desejava boa sorte. Eddie e eu cruzamos a entrada, que nos levou para uma arena aberta com chão de terra, não muito diferente daquela onde estivera quando os guerreiros pegaram Sonya.
A arena parecia ter sido feita originalmente para jogos de beisebol ou futebol, mas os jogos daquele dia não seriam esses.
Dezenas de outras pessoas estavam lá. Algumas em grupos, outras visivelmente sozinhas, encarando todos como potenciais inimigos. Umas pareciam pessoas normais que você encontraria no shopping. Outras pareciam ter “sim, quero entrar para um grupo vampirofóbico fanático” estampado na testa. Todas tinham mais ou menos a nossa idade. Havia mais homens do que mulheres. Nas arquibancadas, outras pessoas entravam e assumiam seus lugares. Avistei Sabrina e acenei rápido com a cabeça antes de voltar a atenção para Eddie.
— Ela disse que começa ao nascer do sol — falei para ele. A leste, o céu tinha um tom laranja queimado envolto por uma luz púrpura. — Tecnicamente já estamos lá.
— Não faço a menor ideia de como vai ser — ele disse, com os olhos aguçados de dampiro analisando rapidamente os arredores enquanto falava. Mesmo em situações convencionais, sua tendência natural era ficar à procura de ameaças. Em momentos arriscados como aquele, ficava constantemente alerta.
— Tomara que a gente consiga…
Minhas palavras foram interrompidas pelo som de um trompete. Todos viramos na direção dele e vimos três homens de manto amarelo e elmo dourado. Fiquei tensa, recebendo um rápido olhar de preocupação de Eddie.
— O que foi? — ele murmurou. — Quer dizer, além do óbvio…
— Conheço dois deles. Mestre Angeletti e mestre Ortega. Estavam na última assembleia.
— Eles não têm como reconhecer você.
Concordei, mas ver aqueles rostos conhecidos me deixou nervosa. Achei que a qualquer momento um deles apontaria na minha direção e me declararia como inimiga, mandando todos os aspirantes a recruta na minha direção.
Mas os dois mestres não prestaram atenção em mim. Quando o terceiro homem parou de tocar seu trompete, mestre Angeletti falou, com a mesma voz grave e a mesma barba grisalha e desgrenhada de antes:
— Estão vendo aquilo? — ele perguntou, apontando para o sol nascente. — Aquele é o motivo por que estamos aqui, o que nos dá vida. O sol. A luz. Nascemos para a luz, para o bem. Isso me lembra de um dos meus salmos favoritos: “Os humanos nasceram na luz/ Com o bem que o brilho conduz/ Só o mal na noite se reproduz/ Vamos bani-los com o poder da cruz”.
Quase não consegui conter o riso ouvindo um poema que eu mesma poderia ter escrito com dez anos de idade. Mas o rosto do mestre Angeletti estava cheio de êxtase enquanto falava, e os outros guerreiros aprovavam balançando a cabeça, como se estivessem ouvindo um soneto de Shakespeare.
— Esse é o jeito natural das coisas — mestre Angeletti falou. — Aqueles que vivem na escuridão não fazem parte do plano divino. São forças perversas e abomináveis, e é função do nosso exército eliminá-las e salvar a humanidade.
Ao lado dele, mestre Ortega assumiu a fala:
— Todos vocês estão aqui porque demonstraram interesse em erradicar essa escuridão e porque seus padrinhos os consideraram dignos de se unir a nós. Mas não se enganem: somos nós que vamos decidir quem realmente merece servir conosco. Não será fácil. Vocês serão testados e avaliados de perto; até a alma de vocês será examinada. Se algum de vocês estiver com medo ou achar que não terá forças para enfrentar o que está por vir, convido-os a sair agora.
O silêncio tomou conta enquanto observávamos ao redor com expectativa. Alguns dos outros recrutas se remexeram, mas ninguém fez menção de sair.
— Muito bem então — mestre Ortega disse com a voz estrondosa. — Que comecem as provas!
Se algum dia me perguntara qual a diferença fundamental entre alquimistas e guerreiros, tive a minha resposta naquele momento. Apesar dos defeitos, os alquimistas quase sempre procuravam primeiro pensar e depois agir. Já os guerreiros, nem tanto. Terminadas as formalidades de abertura, mestre Ortega passou o comando para o diretor de recrutamento, que, para minha surpresa, era Chris Juarez, o primo de Trey.
Não o via desde que os guerreiros haviam capturado Sonya, e Trey não parou de falar sobre a família depois de ser deserdado. Trey os humilhara ao namorar uma dampira. Aparentemente, Chris se manteve na linha, fazendo por merecer essa posição de respeito. Ele caminhou na nossa frente, vestindo uma calça jeans e uma camiseta justa que evidenciava seu físico bem desenvolvido.
— Vocês não estariam aqui se não estivessem interessados em livrar o mundo do mal — ele disse. — E vamos determinar o grau desse interesse. Mas, antes disso, precisamos ver se vocês são capazes de se defender na hora de enfrentar o mal. Vocês têm medo de sentir dor? Têm medo de se sujar? Têm medo de fazer o que for necessário para manter a humanidade na luz? — Sua voz ficava mais alta a cada pergunta, agitando espectadores e recrutas em um frenesi. Algumas pessoas perto de mim e de Eddie gritavam em resposta. Um cara soltou um grito de guerra primitivo que ganhou vivas das pessoas na arquibancada. Tentei demonstrar ansiedade e interesse para esconder o medo e a repulsa que sentia.
Enquanto Chris falava, outros guerreiros espalhavam pela arena uma estranha variedade de objetos: caixas de madeira, latas de metal, baldes, blocos de concreto. Fiquei pensando se haveria algum tipo de corrida de obstáculos em seguida. Quando terminaram, vieram na direção dos recrutas e deram a cada um de nós um coração de madeira num cordão. Meu nome falso, Fiona Gray, estava escrito nele. Eddie, ou Fred Gray, também recebeu um.
— Isso representa o seu coração, a sua vida — Chris disse. — Agora precisamos saber quem quer isso de verdade, quem está disposto a fazer o que for preciso para vencer. Mulheres, por favor, se afastem e sentem lá. — Ele apontou para uma área das arquibancadas. — Rapazes, posicionem-se onde quiserem.
Encarei Eddie antes de nos separarmos.
— Boa sorte — eu disse.
— Não preciso de sorte com essa galera — ele respondeu.
Sorri e fui sentar ao lado de uma menina que estava com a cara fechada e era uns dez centímetros mais alta que eu, quase tão musculosa quanto Chris. Uns trinta recrutas homens se espalharam pela arena, assumindo posições que consideravam estratégicas. Alguns ficaram perto das caixas, outros procuraram objetos que poderiam ser usados como armas, como os blocos de concreto. Eddie escolheu sua posição de acordo com a dos outros combatentes: um lugar que lhe proporcionava espaço para movimentação e uma boa vantagem.
— Durante a próxima hora — Chris anunciou —, o objetivo de vocês é coletar o maior número possível de corações dos outros oponentes, usando todos os meios necessários. Vale tudo nesta arena, qualquer tática. Só pedimos que tentem não matar ninguém. Os seis competidores com mais corações no final vão para a próxima etapa. Se em algum momento se sentirem incapazes de continuar, simplesmente retirem-se para aquele banco — ele apontou para outra área das arquibancadas, onde estava um homem de chapéu vermelho — e abaixem as duas mãos. Isso vai liberar vocês do desafio e Bart lhes oferecerá os primeiros socorros necessários.
Bart, com camiseta lisa e jeans rasgado, não me parecia o tipo de pessoa com treinamento médico oficial, mas não podia me deixar levar pelas aparências.
Senti um frio na barriga quando Chris perguntou se havia alguma dúvida e observou ao redor para ver se estava tudo pronto. Sabrina tinha nos avisado que haveria algum tipo de competição física, mas não dera detalhes. Era diferente a cada ano para que nenhum padrinho pudesse avisar seus recrutas com antecedência. Pelo jeito os guerreiros queriam ser justos, o que parecia irônico, considerando como tinham deixado Sonya exausta e drogada antes de levá-la para uma tentativa de execução.
Chris ergueu a mão para marcar o início e um silêncio tenso preencheu o ar. Eddie se inclinou para a frente, ainda em seu lugar, com um olhar afiado e o corpo pronto.
— Comecem! — Chris gritou, abaixando a mão.
Então veio o caos.
Os rapazes se jogaram uns em cima dos outros feito membros de uma matilha lutando por um pedaço de carne. Alguns partiram para o combate corpo a corpo, tentando derrubar os oponentes no chão e roubar seus corações. Outros assumiram uma tática mais brutal, lançando blocos de concreto e usando outros entulhos como arma. Minha atenção se focou quase totalmente em Eddie, que seguiu uma tática mais comedida e esperou que viessem atrás dele. Sua força não era perceptível à primeira vista e muitos pensaram que seria presa fácil. Essas suposições logo se provaram falsas quando ele derrubou um competidor após o outro, nocauteando-os com socos e chutes precisos, e pegando seus corações na sequência. Perder o coração não significava que a pessoa estava fora da competição. Se ela conseguisse recuperá-lo, ou simplesmente tivesse coletado muitos ao fim de uma hora, tudo bem. Alguns daqueles de quem Eddie tirou corações tentaram recuperá-los. Outros partiram para adversários que pareciam mais fáceis.
Meu coração de verdade batia acelerado enquanto observava Eddie. Ele precisava continuar na competição. Nós dois precisávamos. Até agora, não parecia haver motivo para me preocupar. Ele era claramente mais rápido e mais forte do que a maioria dos homens ali, além de ter mais experiência. Outros, embora fortes, não tinham a habilidade necessária e simplesmente usavam a força bruta, o que, em alguns casos, se revelava eficaz.
Vi um cara bater com uma tábua no joelho de outro, fazendo com que a vítima caísse e berrasse de dor. Seu agressor roubou o coração, ignorando os pedidos do oponente por ajuda para chegar até Bart e receber os primeiros socorros. Eddie, que por acaso estava passando por ali no momento, parou para ajudar o menino caído a chegar ao banco.
Outro cara (aquele que tinha soltado o grito primitivo no início) também estava se dando muito bem na competição. Seus músculos, que chegavam a ser grotescos de tão desenvolvidos, me deixaram em dúvida se ele tomava esteroides ou simplesmente vivia na academia. Pelo jeito, tinha alguns fãs na plateia, que gritavam seu nome toda vez que ele roubava um coração.
— Caleb! Caleb! Vai, Caleb!
Caleb abriu um sorriso malicioso para os fãs enquanto atravessava a arena à procura da próxima vítima. Embora sua força fosse enorme sem nenhuma ajuda, ele às vezes usava um bloco de cimento como arma. Não fui a única a perder o fôlego quando ele bateu com o bloco na cabeça de um cara, derrubando-o no mesmo instante. Caleb roubou os três corações que sua vítima carregava e seguiu seu caminho. Bart arrastou pessoalmente o caído de volta à segurança da arquibancada. Só voltei a respirar quando vi o pobre rapaz mover um braço com dificuldade.
Dois outros homens tinham chegado ao recrutamento juntos, assim como Eddie e eu, e estavam se unindo para derrubar os oponentes e dividir os corações entre si. Era uma estratégia inteligente, e desejei que eu e Eddie pudéssemos usá-la. Os guerreiros tinham algumas ideias ultrapassadas em relação a gênero, e Sabrina havia explicado que as garotas dentro da organização costumavam ser mantidas longe da linha de perigo e relegadas a funções mais tranquilas. Não sabia se deveria ficar feliz pelos guerreiros demonstrarem um pouco de consideração ou ofendida porque consideravam as mulheres incapazes daquela brutalidade sanguinária.
Com o passar da hora, cerca de metade dos competidores estava fora da briga, recebendo o cuidado médico que Bart administrava, fosse qual fosse. Alguns se destacaram claramente, como Eddie, Caleb e a dupla. O restante ficou tentando derrubar uns aos outros ou ir atrás da liderança. Chris avisou que faltavam cinco minutos e um dos rapazes, percebendo desesperado que estava quase fora da competição, lançou-se num ataque febril contra Caleb, na esperança de roubar seu enorme estoque de corações. Caleb o jogou no chão como se não passasse de um inseto, depois continuou chutando o rapaz caído, apesar das súplicas para parar.
— Pode levar! Pode levar! — O rapaz no chão tentava desesperadamente tirar os corações do pescoço e entregá-los a Caleb, que não parava de chutá-lo. Senti náuseas até Caleb finalmente deixar o menino em paz. Ele observou ao redor, pousando o olhar em Eddie, mas felizmente Chris avisou que o tempo tinha acabado. Todos se reuniram à frente, ansiosos para saber os resultados.
Como era de esperar, Caleb e Eddie eram os que tinham mais, seguidos por três outros rapazes em quem eu não havia prestado muita atenção. Os dois que trabalharam junto estavam empatados em sexto lugar. Fiquei curiosa para saber se os guerreiros aceitariam sete vencedores, mas, depois de deliberar com os mestres, Chris escolheu apenas um da dupla. Ele parabenizou o outro, incentivando-o a tentar outra vez no ano seguinte. Eu não tinha notado nada de diferente no comportamento dos dois no combate. Porém Wayne, o escolhido, era maior e mais musculoso. Algo me dizia que os guerreiros se importavam muito com a aparência física, provavelmente acreditando que aquele que parecia mais forte seria mais forte.
Esse não era um bom sinal para mim, uma vez que, quando todas as treze meninas foram chamadas, ficou claro que eu era a menor e menos musculosa de todas. As coisas pioraram quando Chris anunciou que apenas duas continuariam na disputa e que também seriam escolhidas pela quantidade de corações que tivessem ao final de uma hora. Ao ouvir isso, eu e Eddie nos entreolhamos. Duas meninas? Não havia uma boa margem de segurança, ainda mais por ser imprescindível que eu, mais do que Eddie, fosse aceita para poder pesquisar as informações sobre o paradeiro de Jill. Ele abriu um sorriso tenso e deu um aceno encorajador com a cabeça, como se dissesse “bom, então dê um jeito de ficar com mais corações”.
Claro. Sem problema.
Ver os homens competindo antes nos dera uma noção de qual poderia ser a melhor estratégia. Nos posicionamos na arena e muitas meninas correram em direção a possíveis armas. Vi algumas me encarando, por ser a menor, e me preparei para me defender. Por um lado achei bom, porque havia aprendido defesa pessoal com Wolfe. Mas a resistência não me faria ganhar nenhum coração. Não era violenta por natureza. Atacar era natural para Eddie, e ele não tinha dificuldades para assumir esse papel.
Chris deu a largada e mais uma vez o caos se instaurou. Duas meninas vieram na minha direção na mesma hora. O sangue latejou nos meus ouvidos e, aos poucos, me enchi de uma concentração fria ao lembrar de todas as lições de Wolfe. Me mantive fora do alcance delas, desviando de seus ataques brutais e muitas vezes desajeitados. Pareceram frustradas quando provei que não era uma vítima fácil e, depois de um tempo, ficaram cara a cara uma com a outra. Com um rosnado, se atracaram, ambas caindo na terra num emaranhado de golpes e puxadas de cabelo. Uma saiu vitoriosa, levando o coração da outra, e avançou na minha direção. Finalmente, me permiti entrar na briga e a surpreendi com um soco que a fez cambalear graças à força mágica que corria pelo meu corpo. Tive a mesma sensação estranha de que a força ao mesmo tempo era e não era parte de mim, mas logo entrei no ritmo dela. Depois de mais alguns ataques fracassados, a menina se rendeu e me entregou os corações.
Observei ao redor, sem saber direito o que fazer em seguida. Sabia que precisava agir e atacar alguém, mas essa ainda era uma atitude estranha para mim. Você está representando um papel, Sydney, falei a mim mesma. Se concentre nele. Não se sinta mal. Lembre-se de quem são essas pessoas, do que estão fazendo com Jill.
Não precisei escolher minha próxima vítima porque outra menina veio atrás de mim, achando que minha vitória inicial era sorte de principiante. Houve um processo parecido, com mais uma longa série de golpes de defesa pessoal. A melhor luta é aquela que você evita, Wolfe sempre dizia. Obriguei minha adversária me perseguir em vão e, quando finalmente ficou impaciente e me atacou, consegui fazer com que ela tropeçasse e caísse no chão. Nisso, seu tornozelo torceu e consegui pegar seu coração sem muita resistência.
Ficou claro que ela estava fora do jogo e, embora me sentisse um pouco culpada por isso, estava aliviada por não ter causado um ferimento grave. Com base nos gritos das mulheres ao meu redor, outras não tiveram a mesma sorte.
Isso me deixou com três corações além do meu, e fiquei bastante orgulhosa. Um olhar rápido para Eddie, que estava sentado com os outros vencedores homens, me mostrou que não deveria ficar tão convencida. Ele fez um gesto frenético, como se dissesse “acelera o ritmo!”. Minha tática defensiva estava me mantendo protegida, mas não era efetiva para acumular corações. Uma olhada na arena deixou claro que outras tinham mais corações do que eu. Mas, antes que pudesse escolher minha próxima tática, a decisão foi tomada por mim.
A menina grande e musculosa que antes estava sentada ao meu lado veio na minha direção com força total. Colidimos e caímos. Seu punho se fechou em volta dos cordões no meu pescoço e ela os puxou, quase me enforcando no processo. Aquela força mágica cresceu dentro de mim, e a joguei para longe com um empurrão forte, levantando com dificuldade. Ela também levantou e me observou com curiosidade, claramente surpresa com a força oculta por trás do meu corpo pequeno. Chris gritou o aviso de cinco minutos. Me preparei para o ataque da garota, mas, dando de ombros, ela virou as costas e correu na direção de outra competidora. Levei apenas um segundo para entender o motivo. Ela obviamente tinha mais corações. Com o tempo se esgotando, não arriscaria perder todos para alguém cuja força a havia surpreendido. Preferiu não correr esse risco e deixar que o tempo passasse. Outras meninas estavam competindo pelo segundo lugar e ficaram cada vez mais desesperadas em seus ataques.
Eu? Eu estava exatamente em terceiro lugar. O problema era que não havia espaço para a terceira colocada.
Encarei Eddie novamente e, em seus olhos, vi uma grande preocupação. Então meu olhar pousou na pessoa ao lado dele: Caleb, com sua postura segura e arrogante. Sem pensar duas vezes, corri até lá e puxei Caleb pela camisa. Aquela força mágica ardeu dentro de mim, deixando-nos muito mais páreos do que jamais seríamos em circunstâncias normais. Pegá-lo de surpresa me deu uma vantagem extra. Dei um soco na cara dele que teria deixado Wolfe orgulhoso e, depois, um chute no joelho. Caleb não quebrou nada, mas tropeçou e caiu no chão. Rapidamente puxei os corações em volta do seu pescoço e desviei quando tentou me dar um soco, urrando de raiva. Eddie avançou para me defender, mas, a essa altura, Chris anunciou o fim da competição.
Ele veio correndo até nós, franzindo a testa diante do meu comportamento nada convencional.
— Que droga você pensa que está fazendo? — ele perguntou.
— Ganhando — respondi. Ergui meu coração junto com os três primeiros e mais o monte que havia roubado de Caleb. — Você disse que as mulheres vencedoras seriam escolhidas com base na quantidade de corações que carregassem no final. Essa sou eu.
Chris corou ao se ver acuado por suas próprias palavras.
— Sim, mas…
— E você disse que valia qualquer tática.
— Mas…
— E — continuei, triunfante — você perguntou se estávamos dispostos a fazer qualquer coisa para combater o mal. Eu estou. Mesmo se isso significar enfrentar alguém maior e mais forte, como obviamente aqueles demônios vampíricos vão ser. — Apontei com desprezo para as outras competidoras, que me encaravam boquiabertas. — Por que lutaria contra aquelas ali?
Um silêncio total tomou conta da arena, seguido por gargalhadas. Mestre Angeletti caminhou pela arquibancada na nossa direção, tomando cuidado para não tropeçar no manto dourado. Ele não parava de rir.
— Ela tem razão, Juarez. Foi mais esperta que você, e diria que, se conseguiu fazer isso e derrubar nosso maior competidor, mereceu o primeiro lugar.
Caleb ficou vermelho como um pimentão.
— Não usei toda a minha força. Ela é só uma garota.
Mestre Angeletti balançou a cabeça.
— Relaxa. Você ainda pode ficar. Essa garota… Qual é o seu nome?
— Fiona, senhor. Fiona Gray.
— Fiona Gray pode ficar com uma das vagas para mulheres. Parece que a outra vai para aquela jovem ali. — Mestre Angeletti apontou para a menina alta que preferira não correr riscos e deixar o tempo passar. Seu nome era Tara e, embora não parecesse animada ao me ver declarada vencedora, não reclamou, já que tinha sua vaga garantida.
Foi a garota que estaria em segundo lugar que me xingou. Os chefes dos guerreiros pareceram achar graça, mas não mudaram sua decisão. Ela e as outras recrutas foram dispensadas.
Na sequência, nós, os vencedores, fomos convidados para um banquete em nossa homenagem num lugar que funcionava como refeitório no complexo. Nós oito ficamos numa mesa enquanto os guerreiros experientes ocuparam as demais. Particularmente, preferia um banho, mas pelo menos pude reencontrar Eddie. Nós sorrimos para nossos pratos de costela enquanto os outros relembravam momentos marcantes dos combates anteriores e falavam que a gente “super” aniquilaria vampiros de verdade. A maioria dos competidores pareceu impressionada pelo que eu tinha feito com Caleb e riu bastante. No entanto, ficou claro que ele não tinha visto graça nenhuma. Ao longo da refeição, lançou vários olhares nervosos para onde eu e Eddie estávamos, e torci para não me arrepender da minha ideia no último minuto na arena.
Depois do almoço, os guerreiros decidiram que já tinham testado nossa brutalidade o suficiente — ao menos por enquanto — e que era hora de verificar nossas personalidades. Fomos chamados um a um para conversar com os mestres superiores e com alguns guerreiros sobre nossas intenções. Nos chamavam em ordem alfabética, o que significava que iria antes de Eddie e não teria nenhum aviso do que estava por vir. Essa etapa, pelo menos, quase não mudava de um ano para o outro, e Sabrina havia nos prevenido sobre o que esperar: basicamente um longo interrogatório durante o qual teríamos que repetir como odiávamos vampiros.
O que eu não esperava era o quanto aquilo me lembraria a reeducação.
Depois que sentei na frente dos mestres e dos membros do conselho, todos eles homens, direcionaram minha atenção para uma grande tela pendurada na parede. A imagem de um Moroi comum e feliz apareceu.
— O que você vê? — mestre Angeletti perguntou.
Meu coração subiu pela garganta e, de repente, parecia que estava de volta àquela prisão subterrânea, amarrada numa cadeira sob o olhar fixo do rosto bonito e cruel de Sheridan.
— O que você vê, Sydney?
— Moroi, senhora.
— Errado. Você vê criaturas do mal.
— Não sei. Talvez sejam. Eu precisaria saber mais sobre essas Moroi em particular.
— Você não precisa saber nada além do que eu disse. Elas são criaturas do mal.
E então ela me torturava, mergulhando minha mão numa solução ácida que dava a sensação de queimar minha carne, obrigando-me a suportar a dor até finalmente concordar com ela e repetir que os Moroi eram criaturas do mal. A lembrança foi tão intensa e tão vívida quando sentei ali com os guerreiros que minha pele ardeu. A sala parecia estreitar ao meu redor, como a prisão da reeducação, e fiquei com medo de desmaiar na frente deles.
— Fiona? — chamou mestre Angeletti, inclinando a cabeça ao me observar. Apesar do rosto severo, havia um tom complacente em sua voz, como se achasse que eu poderia estar intimidada pela presença deles. — O que você vê?
Engoli em seco, ainda paralisada pelo medo do meu passado. Como continuava em silêncio, os outros guerreiros começaram a me encarar curiosos. É uma atuação, Sydney!, exclamei para mim mesma. Conseguiu antes e pode conseguir agora. Aqui não é a reeducação. Você não está presa e a vida de Jill está em jogo.
Jill.
Foi só pensar nela, lembrar de seu rosto puro e inocente, que voltei à realidade.
Pisquei e encarei tela.
— Mal, senhor — eu disse. — Vejo criaturas malignas que não fazem parte da ordem natural.
E assim começou. Respondi como Sabrina havia me aconselhado, não que precisasse de muito treinamento. Era só responder como na reeducação. Contei uma história que tínhamos inventado, sobre como eu e meu irmão Fred fomos atacados por um Strigoi certa noite e quase não sobrevivemos. Expliquei que havíamos tentado contar às autoridades, mas ninguém acreditava. Sabíamos a verdade sobre o mal que presenciáramos e passamos os anos seguintes em busca de ajuda, até finalmente conhecer Sabrina e descobrir a luta dos guerreiros.
Quando a entrevista acabou, os guerreiros estavam sorrindo, o que me deixou confiante de que estavam satisfeitos com as minhas respostas. Retribuí o sorriso, mas me sentia péssima por dentro. Me esforçava para não tremer ou me perder naquelas lembranças horríveis. Dei um aceno encorajador para Eddie quando voltei à sala de espera com os outros, e então me afundei numa cadeira, contente por ninguém parecer interessado em falar comigo. Pude ficar sentada sozinha por um tempo, acalmando minha respiração e tentando esquecer aquelas memórias. Eddie voltou um pouco depois, irritado pela série de interrogações, mas no geral tranquilo.
— Doentes — ele murmurou para mim, mantendo um sorriso no rosto por causa dos outros na sala. — Fui fiel à história e gostaram.
— Comigo também — disse, invejando como havia sido mais fácil para ele. Não tinha a mesma bagagem que eu.
Depois que todos foram interrogados, era hora do jantar, ou seja, outro banquete no refeitório. Enquanto comíamos, mestre Ortega recitou um salmo e fez um longo sermão sobre a glória da humanidade e da luz, e como estávamos fazendo um excelente trabalho na luta contra o mal. Era uma variação do que ouvia dos alquimistas antes da reeducação, e fiquei pensando se algum dia ficaria livre de grupos tentando impor suas crenças a mim. Felizmente fomos liberados depois disso, e Sabrina veio falar com a gente num canto da sala. Outros padrinhos estavam conversando com seus recrutas, então ninguém achou estranho.
— Aguentando firme? — ela perguntou baixinho. Fizemos que sim e ela abriu um sorriso irônico. — Corajoso o que você fez, indo atrás de Caleb.
— Pensei que fossem curtir a ousadia — respondi.
— Sim e não — ela disse. — Vencer um desafio assim realmente te dá alguns pontos, mas há quem não goste de quem quebra as regras.
— Soa familiar — eu disse, pensando nos alquimistas.
— O que vai acontecer agora? — Eddie perguntou.
Sabrina observou ao redor e deu de ombros.
— Não muito por hoje. Tem alojamentos separados para homens e mulheres, então todo mundo vai dormir daqui a pouco. Essa vai ser sua chance de dar uma investigada, Sydney. Dei uma olhada pelo prédio mais cedo e não existem muitas portas fechadas. Você falou que esse seria um problema, né?
— Sim — concordei. Feitiços de invisibilidade poderiam me esconder, mas não adiantariam nada se alguém visse uma porta abrindo sozinha. — E câmeras de segurança.
— Também não achei — ela respondeu. — A maior parte da segurança está no perímetro do complexo. Querem manter os outros do lado de fora e nós do lado de dentro. Se não puderem te ver, não vai ser muito difícil sair andando por aí. As áreas que querem proteger têm guardas armados e, se tudo der certo, você consegue passar por eles.
— Se tudo der certo. — Mal dava para acreditar que classificávamos guardas armados como obstáculos fáceis. — Só não sei direito para onde tenho que ir.
— Eu sei — ela disse. — Descobri enquanto fazia o reconhecimento. Se você observar pela janela atrás de mim, vai ver um grande prédio cinza. É o alojamento feminino. À direita, fica o alojamento masculino e, mais à direita, o quartel-general dos mestres. É lá que vai encontrar suas respostas.
Eu e Eddie observamos pela janela que ela indicou. Ele franziu a testa.
— Odeio que você tenha que fazer tudo isso sozinha. Me sinto inútil.
Toquei seu braço para reconfortá-lo.
— Você é meu reforço — eu disse. — Me sinto melhor com você aqui.
— E é possível que a gente precise da sua ajuda quando for hora de sair daqui — Sabrina acrescentou.
Notei o uso de “a gente”.
— Você vai conosco? — perguntei.
— Quando vocês desaparecerem, vou me meter em encrenca por ter trazido recrutas falsos. Mesmo se não acharem que faço parte de uma conspiração, vão me acusar de descuido. Não quero passar por isso. E sinceramente? — Ela suspirou. — Já estou cansada deste trabalho. Vou ajudar Marcus de outra forma.
Nosso tempo livre acabou e todos foram mandados para os alojamentos. Chris aconselhou os recrutas a descansar bastante, porque teríamos “um grande dia amanhã”. Tentei não fazer careta. Já estava dolorida e machucada e meu trabalho nem tinha terminado ainda.
Quando entrei no alojamento feminino, vi que Sabrina tinha razão. Havia muitas portas abertas ligando os corredores aos dormitórios. Como não tinha ar-condicionado, muitas janelas também estavam abertas. Havia cortinas penduradas nos batentes dos quartos para dar privacidade, mas nem tocavam o chão. Era quase um sonho transformado em realidade para alguém que precisava investigar o lugar usando a invisibilidade. Além disso, como havia poucas mulheres, o alojamento quase não era usado.
Infelizmente, meu dormitório não estava vazio. Alguém tivera a brilhante ideia de alojar Tara comigo. Ela me encarou feio enquanto nos preparávamos para dormir e fez algumas ameaças vazias sobre como provaria para todo mundo que era a melhor candidata. No entanto, não pareceu que iria me atacar durante o sono. O problema era que eu não podia correr o risco de ela acordar, ver minha cama vazia e me denunciar. Ou seja, precisaria lançar um feitiço de sono nela, o que nunca tinha feito antes.
Esperei até ela adormecer e então, sem fazer barulho, levantei no quarto escuro. A cortina pendurada na porta pendia até dois terços do batente, permitindo a entrada de um pouco da luz do corredor. Examinei a silhueta adormecida de Tara e me preparei para o feitiço. Não exigia muita energia, mas alguns cálculos complexos. Funcionava quase como uma droga. A quantidade de magia necessária dependia do tamanho da pessoa. Sob a luz fraca, arrisquei um palpite do peso dela. Uns setenta quilos? Se lançasse algo fraco demais, ela poderia acordar muito cedo. Então preferi me precaver e lancei um feitiço para alguém com noventa quilos.
Sua respiração ficou mais pesada quando a magia atingiu seu corpo, e seus traços pareceram muito mais relaxados. Talvez estivesse fazendo um favor a ela. Talvez uma noite de sono profundo a ajudaria na competição do dia seguinte. Mal sabia ela que era a única mulher competindo. Recuei e lancei um feitiço de invisibilidade em mim mesma.
Reuni o máximo possível de magia para garantir que durasse um bom tempo e não fosse quebrado facilmente.
Após tudo isso, me ajoelhei na frente da cortina e engatinhei embaixo dela com cuidado para não mexer no tecido. No corredor, um guarda armado estava parado perto, contendo um bocejo. Estava claro que ele não esperava nenhum distúrbio naquela noite. Passei por ele tranquilamente até chegar a uma janela aberta, por onde saí rumo à escuridão, partindo para explorar o acampamento dos guerreiros.

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