23 de outubro de 2017

Capítulo 15

Sydney

NÃO TIVE TEMPO PARA ENFEITIÇAR TODAS AS SERINGAS de uma só vez. Afinal, só podia fazer isso em meus raros momentos de privacidade. Consegui encantar cinco na primeira vez e as distribuí para Emma e os poucos detentos em que ela achava que podíamos confiar.
Fiquei animada depois que Adrian contou que Carly lhe dera o endereço de Keith, e estava louca para perguntar sobre o progresso deles desde então. Saber que ele e Marcus estavam avançando me fez perceber a importância de lidar com a questão do “protocolo de emergência” o mais rápido possível. Outro problema urgente era o fato de que eu só conseguiria me mover pelo prédio se o crachá roubado ainda estivesse funcionando.
Imaginava que, depois que o rapaz comunicasse que o havia perdido, os alquimistas iriam desativá-lo, e sabotar o sistema ficaria ainda mais difícil se eu não tivesse como usar o elevador. Eu precisava agir rápido.
Emma ficou impressionada ao ouvir que eu tinha estado na sala de operações, mas não ofereceu muita ajuda em relação ao problema maior.
— Os controles de gás não estavam lá?
— Os controles sim — eu disse. — Eles têm a capacidade de deixar todo mundo inconsciente de uma vez, em qualquer hora e em qualquer lugar. Mas preciso de acesso às partes mais básicas do sistema. Preciso saber de onde vem o gás, pra começar. Como ele entra no sistema de ventilação.
Ela balançou a cabeça, parecendo sinceramente triste por não ter como ajudar.
— Não faço ideia. Nem sei quem pode saber.
Eu sabia, e mencionei o assunto com Duncan mais tarde, na aula de artes. Enquanto Emma tinha ficado perplexa com as minhas perguntas, Duncan ficou chocado.
— Não, Sydney, chega. Isso é loucura. Já é ruim você ter desativado o gás no seu quarto! No andar inteiro é maluquice.
Ainda estávamos trabalhando nos vasos de argila. A lição agora era fazer um conjunto de vasos idênticos, o que ia ao encontro da ideologia de conformidade dos alquimistas.
— Loucura é que, apertando um único botão, eles podem apagar todo mundo em questão de segundos.
— E daí? — ele perguntou. — Eles só fariam isso se acontecesse uma revolta ou coisa do tipo. Ninguém é tão idiota assim. — Como não respondi, seus olhos se arregalaram. — Sydney!
— Está dizendo que quer ficar aqui pra sempre? — perguntei.
Ele balançou a cabeça.
— É só entrar no jogo que você vai sair. É muito mais fácil e dá muito menos problemas do que um plano mirabolante fadado ao fracasso.
— Sair como você saiu? — Minha resposta o fez hesitar, mas só me senti um pouco mal por isso.
— Eu sairia se pudesse — ele murmurou.
— Não acredito nisso — eu disse. — Você está aqui há tanto tempo que devia conhecer o jogo melhor do que ninguém. Poderia dizer e fazer exatamente o que precisa pra conseguir sua liberação; em vez disso, faz exatamente o que precisa pra continuar preso! Você tem medo de agir.
A primeira chama de raiva que eu já vira nele se acendeu em seus olhos.
— Agir pra quê? O que exatamente você espera que eu faça, Sydney? O que tem lá fora pra mim? Eu não estaria seguro. Eles rastreiam alquimistas reeducados pra sempre. Pra não ser mandado de volta pra cá, eu teria que abandonar todos os meus princípios morais sobre os Moroi ou ficar de olho pra esconder meus sentimentos o tempo todo. Não temos como ganhar. Nascemos num sistema com que não concordamos e fomos pegos. Aqui, lá fora, não importa. Não resta nada pra nós.
— E Chantal? — perguntei, em voz baixa. — Ela não está lá fora?
Suas mãos, que estavam trabalhando com a argila habilmente, vacilaram e caíram ao lado do corpo.
— Não sei onde ela está. Talvez tenha sido mandada pra reeducação em outro país. Talvez tenha se matado pra não viver uma mentira. Talvez tenha sofrido uma punição pior. Você acha que confinamento na solitária e projetos de arte sem graça são as únicas armas deles? Existem coisas piores que podem fazer com a gente. Coisas piores que purgação e a exposição ao ridículo. Ter coragem parece ótimo em tese, mas ela tem um preço.
— Chantal tinha coragem, não tinha? É por isso que você tem medo. — A tristeza em seu rosto era tão intensa que a minha vontade era dar um abraço nele... mas, ao mesmo tempo, queria sacudi-lo pela covardia. — Você tem medo de agir! De terminar como ela.
Engolindo em seco, ele voltou a trabalhar no vaso.
— Você não entende.
— Então me ajude a entender.
Ele continuou em silêncio.
— Certo — eu disse. — Vou descobrir sozinha como funciona o sistema de controle de gás e não vou mais te incomodar. Acho que você pode jogar isso fora também.
Me ajoelhei como se tivesse derrubado alguma coisa e rapidamente passei uma seringa tampada da minha meia para a dele, cobrindo-a bem com a barra da calça para que ninguém visse.
— O que é isso? — ele murmurou.
— A última seringa do meu estoque atual com a solução que anula a tinta. Eu tinha guardado pra você, mas acho que vai ficar mais feliz se não usar. Na verdade, talvez devesse simplesmente pedir um retoque extraforte pra nunca mais ter que pensar por conta própria.
O sinal anunciou o fim da aula e virei para ir embora, deixando-o boquiaberto. No fim daquele dia, enquanto me arrumava no banheiro, consegui encantar mais algumas seringas que tinha trazido para o quarto. Também repeti o truque do chiclete, prendendo-o na porta para desativar a trava depois que as luzes se apagassem. Eu podia não saber exatamente onde ficavam os controles de gás, mas, com base nas minhas explorações, tinha alguma ideia. Emma notou quando prendi o chiclete na lateral da porta e disse, com a voz quase inaudível:
— Vai mesmo?
Fiz rapidamente que sim e me deitei com um livro para o nosso tempo de leitura predeterminado. Quando as luzes se apagaram, esperei de novo um tempo suficiente para que os alquimistas trocassem de turno antes de entrar em ação. Arrumei a cama e o travesseiro, murmurei o feitiço de invisibilidade e enfiei o crachá roubado na camisa antes de passar discretamente pela porta destrancada. No lado de fora, encontrei um cenário parecido com o da noite anterior: pouco movimento e o mesmo guarda posicionado na interseção dos corredores.
Caminhei devagar até o elevador e as escadas, passando o crachá no painel de segurança destas. Uma luz verde se acendeu, e suspirei de alívio por ainda ter acesso. Embora a porta da escada não fosse completamente silenciosa, consegui abri-la com cuidado e passar por ela mais discretamente do que quando usara o elevador, com seu ding alto. Só precisava tomar cuidado para abrir a porta o mínimo necessário para passar. Ao entrar na escada, notei algo que também havia observado no elevador. Não havia como subir. O único caminho era para baixo.
Como a gente sai daqui? me perguntei pela centésima vez. Era a questão que vinha me fazendo desde que chegara àquele lugar. Os detentos entravam de algum modo e, obviamente, os alquimistas que trabalhavam lá entravam e saíam. Duncan me explicara que eles tinham seus próprios aposentos em outro andar e moravam lá por turnos que duravam meses, até serem substituídos por outros funcionários. Como isso acontecia? Esse, porém, era um mistério para outra ocasião e, agora, me concentrei em alcançar o andar de operações e purgação. Investiguei todas as portas possíveis e não encontrei nada parecido com uma sala de máquinas. Ciente do tempo, voltei para as escadas e reforcei o feitiço de invisibilidade, ganhando mais meia hora. Não poderia fazer isso a noite toda, não com a energia que o feitiço exigia, mas, pelo menos, teria tempo para dar uma olhada no andar de baixo.
Fazia quase três semanas desde a última vez em que eu estivera naquele andar e, por um momento, fiquei paralisada ao entrar no corredor. Aquele era o andar onde ficava minha cela, onde eles tinham me mantido na escuridão por três meses. Não tinha pensado muito nisso desde que me juntara aos outros, mas, olhando para aquelas portas idênticas, me lembrei de tudo. Tive um arrepio quando pensei no frio que havia sentido, nas cãibras nos músculos por dormir no chão duro. Aquela escuridão era terrível, e fiquei impressionada com a diferença que fazia a fresta de luz entre a porta e a parede do meu quarto atual. Precisei de toda a minha força de vontade para tirar essas memórias antigas da cabeça e atravessar o corredor, me concentrando em meu objetivo.
Eu não havia notado quando fora liberada, mas cada porta estava marcada com a letra R e um número. R de reflexão, talvez? Havia vinte ao todo, mas eu não tinha como saber se todas estavam ocupadas. Não tive coragem de passar o crachá e tentar abrir alguma delas. O instinto me dizia que somente alguém do alto escalão teria o poder de abrir aquelas portas e, além disso, se estivessem sendo monitoradas, qualquer fresta de luz apareceria imediatamente na tela de vigilância. Por isso, passei reto por todas, apesar de me sentir mal sabendo que outras pessoas poderiam estar a poucos metros de mim, sofrendo o que eu sofrera.
Depois de passar pelas celas, dei de cara com uma porta dupla chamada CONTROLE DE REFLEXÃO. Muitas das portas administrativas e operacionais tinham janelinhas de vidro, mas essa não oferecia nenhuma indicação do que havia do outro lado. Eu estava cogitando se tentava ou não passar o crachá e entrar discretamente quando as portas se abriram de repente e dois alquimistas passaram por elas. Saí rapidamente do seu campo de visão e, felizmente, eles seguiram na direção oposta a passos largos. As portas pesadas se fecharam rápido demais para que eu entrasse, mas consegui dar uma olhada lá dentro antes que travassem com um bam.
Vários alquimistas estavam sentados em cabines pequenas com as costas voltadas para mim, olhando para monitores escuros e usando fones de ouvido. Havia grandes microfones em suas mesas, junto com um painel de controle que não consegui ler. Me dei conta de que era ali que os prisioneiros solitários eram monitorados. Cada prisioneiro devia ter sempre um vigia, com aquele microfone mascarando sua voz e o painel permitindo o controle do gás e das luzes.
Tinha suspeitado que eles revezavam os funcionários e essa era a prova. Não tive tempo de contar todos, ainda mais com parte da sala fora do meu campo de visão, mas havia pelo menos cinco vigias.
O que também vi, com absoluta clareza, foi uma placa de saída. Ficava do lado oposto da sala, atrás dos vigias e dos monitores, mas não era possível ter me enganado em relação àquelas letras vermelhas reluzentes. Meu coração bateu mais rápido. Era isso, a porta de entrada e saída! Por alguns segundos, me perguntei se poderia simplesmente sair andando daquele lugar. Pouco provável, admiti logo em seguida. Em primeiro lugar, não era uma sala fácil de infiltrar. Aquelas portas não permitiriam que alguém entrasse ou saísse correndo, e faziam barulho demais para que ninguém as notasse se abrindo sozinhas. Mesmo que nenhum alquimista as monitorasse diretamente, havia funcionários sentados perto demais delas.
Também havia a possibilidade de que ninguém pudesse simplesmente “sair andando” por aquela porta. Não ficaria surpresa se houvesse guardas de verdade, outros leitores de cartão, e talvez até códigos numéricos para entrada e saída. Os alquimistas já corriam um risco de incêndio considerável ao construir tão poucas saídas. Se a reclusão dos prisioneiros era tão importante para eles a ponto de assumir esse risco, sem dúvida não deixariam as saídas expostas.
Mesmo assim, foi difícil me afastar daquela porta, sabendo o que havia atrás dela. Em breve, disse a mim mesma. Em breve. Outra olhada no corredor não revelou nada digno de nota, e voltei para as escadas. Quando cheguei lá, a porta se abriu e Sheridan saiu por ela.
Encostei na parede na mesma hora, abaixando os olhos. Pelo canto do olho, vi que ela parou como se estivesse procurando alguma coisa e, então, continuou tranquilamente. Quando chegou ao final do corredor, ficou parada por alguns segundos e então voltou alguns passos até as portas da sala de controle, pelas quais logo desapareceu. Fui correndo para a escada antes que ela voltasse, seguindo para a última opção que me restava: o último andar.
Os elevadores não desciam além desse andar e a escada também terminava ali. Era o único andar em que nunca estivera, e nem imaginava o que acontecia ali embaixo. O que mais eles poderiam fazer? As portas que encontrei não me deram nenhuma resposta. Pareciam idênticas às do andar de reflexão, e me perguntei se não era apenas mais uma série de celas. No entanto, estavam marcadas com a letra P e números, e não encontrei nenhuma sala de controle correspondente que esclarecesse o que aquela letra significava. O que encontrei foram três portas marcadas como MAQUINÁRIO 1, MAQUINÁRIO 2 e MAQUINÁRIO 3. Atrás delas, pude ouvir o zumbido de geradores e outros equipamentos. Elas não tinham leitores de cartão, exigindo chaves tradicionais.
Depois de quebrar a cabeça, lembrei de um feitiço de chave que havia copiado uma vez para a sra. Terwilliger, um feitiço capaz de abrir uma fechadura comum. Murmurei as palavras em latim, trazendo a magia de dentro de mim e torcendo para que não houvesse nada de especial naquela fechadura. O poder irrompeu de mim e, um instante depois, ouvi um clique.
Senti uma leve tontura, mas a ignorei enquanto começava minha exploração, destrancando as outras portas à medida que precisava.
A primeira porta revelou uma sala com uma fornalha e outros equipamentos de aquecimento, ventilação e ar-condicionado, mas nada parecido com os controles de gás que eu imaginava. Foi na segunda sala que tirei a sorte grande. Junto com um gerador e alguns sistemas de encanamento, encontrei um enorme tanque marcado com uma fórmula química que parecia muito com um sedativo. Quatro canos partiam dele, cada um marcado com o número de um andar. Cada um também tinha uma válvula manual que podia ser ajustada. Todas estavam abertas.
Não vira sinal de nenhum sensor que alertasse sabotagens nesse andar. Assumindo um risco, fechei a válvula do andar dos detentos. Nenhum alarme e nenhuma sirene disparou. Ganhando coragem, considerei desativar todos os andares mas então percebi que estaria expondo o que havia feito. Poderia não haver sensores ali, mas os alquimistas notariam imediatamente se o gás fosse desligado no andar com as solitárias. Lá eles controlavam o gás manualmente e viam resultados instantâneos. Desativar o gás no andar dos detentos afetaria o sono deles, mas isso não ficaria óbvio para os alquimistas tão cedo. Era possível que nem os detentos notassem.
Como eles não deixavam que tivéssemos oito horas de sono, era improvável que alguém tivesse muitas dificuldades para dormir à noite.
Abandonar os prisioneiros no período de reflexão não foi uma decisão fácil, mas não havia nada que eu pudesse fazer agora. Por enquanto, teriam que permanecer do mesmo jeito. Eu precisava daquele gás desativado no meu andar pelo maior tempo possível. A julgar pelo tamanho do tanque, devia demorar para ser reabastecido, mas em algum momento alguém faria uma manutenção e descobriria a válvula. Era com esse prazo que eu precisava me preocupar.
Na mesma sala, descobri outro tanque com uma fórmula química que não conhecia, mas apostava que era da outra substância, aquela que sentira às vezes na cela e que me deixava agitada e paranoica. Eles não a usavam tão regularmente quanto o sedativo, mas desliguei essa válvula para o meu andar também, por via das dúvidas. Não precisávamos de mais incentivo para desconfiar uns dos outros.
Feito isso, saí correndo e ignorei minha curiosidade sobre a terceira sala de maquinário e as portas marcadas com P. Havia atingido meu objetivo daquela noite e precisava voltar para o quarto antes que o feitiço passasse. Além disso, sabia que Adrian ficaria preocupado se eu demorasse demais. Peguei as escadas e subi de volta para o andar dos detentos, dando uma olhada pela janela da porta antes de abri-la. Não dava para ver ninguém. Abri uma fresta para não chamar a atenção das câmeras, me espremi para sair...
... e dei de cara com Sheridan.
Ela se escondera de propósito contra a parede, ao lado das portas do elevador, fora do meu campo de visão quando olhei pela janela. Eu tinha me preocupado com as pessoas que cumpriam as tarefas de seus turnos, mas não com alguém que estivesse procurando por mim. E ela estava claramente procurando por mim, ou pelo menos por alguém como eu. Fizemos contato visual e não houve dúvidas de que ela me reconheceu. O feitiço se desfez.
— Sydney — ela exclamou. Foi a última coisa que ouvi antes de ver o que parecia ser um taser em sua mão. Em seguida, senti um choque doloroso e tudo ficou preto.
Quando acordei, tudo ainda estava preto. Por uma fração de segundo pensei que estava de volta na solitária. Mas não, aquilo era diferente. O chão não era de pedra dura e eu ainda estava com meu uniforme. Em vez disso, estava deitada numa mesa de metal fria, com braços, pernas e cabeça amarrados.
— Ora, Sydney — disse uma voz conhecida. — Sinto muito por ver você aqui.
— Sei que é você, Sheridan — eu disse, entredentes. Dei um puxão para testar as amarras. Estavam apertadas. — Não precisa se esconder no escuro.
Uma pequena lâmpada se acendeu no teto, reluzindo apenas o bastante para iluminar seu rosto bonito e perverso.
— Não é esse o objetivo. Você está na escuridão porque sua alma também está envolta em trevas. Você não é digna da luz.
— Então por que estou aqui e não de volta na minha cela?
— A cela é pra refletir sobre seus pecados e perceber os erros em seu comportamento — ela disse. — Você é uma boa atriz, mas está claro que não aprendeu nada. Sua chance de reflexão e redenção já passou. Além disso, precisamos de algumas respostas sobre suas atividades recentes. — Ela ergueu o crachá furtado. — Quando e como conseguiu isto?
— Achei no chão — respondi prontamente. — Vocês deviam ser mais cuidadosos.
Sheridan soltou um suspiro dramático.
— Não minta pra mim, Sydney. Não gosto disso. Vamos tentar de novo. Onde conseguiu o crachá?
— Já disse.
De repente, uma dor aguda foi disparada por todo meu corpo. Era uma estranha mistura de sensações, rastejando pela minha pele e incendiando minhas terminações nervosas. Se desse para combinar o desconforto de choques elétricos, picadas de abelha e cortes de papel, seria mais ou menos o que senti. Durou apenas alguns segundos, mas gritei mesmo assim.
A luz sobre Sheridan se apagou, me lançando à escuridão novamente, mas, quando ela voltou a falar, ficou claro que não tinha mudado de lugar.
— Essa é a intensidade mais leve, só pra te dar um gostinho. Por favor, não me obrigue a fazer isso de novo. Quero saber como conseguiu o crachá e o que estava procurando.
Dessa vez, não menti para ela. Apenas fiquei em silêncio.
A dor voltou na mesma intensidade, mas durou muito mais dessa vez. Não consegui formular nenhum pensamento coerente enquanto a sentia. Cada partícula do meu ser estava fixada demais naquela agonia terrível e excruciante. Uma das coisas que eu adorava nos momentos íntimos com Adrian, além do fato óbvio de ele ser incrivelmente atraente e bom no que fazia, era que meu cérebro parava de pensar, me permitindo focar apenas na sensação física — algo que raramente acontecia. Era mais ou menos o que estava acontecendo agora, exceto que a experiência física em questão era a mais distante possível do que a que tinha com Adrian. Meu cérebro não conseguia pensar em nada. Tudo que havia naquele momento era meu corpo e a dor.
Estava com lágrimas nos olhos quando a dor parou e quase não ouvi Sheridan repetindo as perguntas. Ela acrescentou mais algumas dessa vez.
— Como evitou ser pega? Como conseguiu sair do quarto? — Mesmo se quisesse, não teria tido tempo de responder, pois a dor logo voltou. Quando acabou, uma eternidade depois, ela me lançou as mesmas perguntas. E então o ciclo se repetiu.
Durante um dos breves intervalos, consegui reunir coerência suficiente para entender o método dela. Ela estava fazendo perguntas diferentes com a esperança de que a dor me levasse a soltar uma resposta, qualquer resposta. Para eles, não importava qual. O objetivo era que eu começasse a falar, e tinha a impressão de que prisioneiros na minha situação não paravam depois que começavam. Haveria um impulso de contar tudo para que a dor passasse.
Definitivamente estava sentindo esse impulso e precisei morder o lábio para não obedecer. Tentei me concentrar no rosto das pessoas que amava, Adrian e meus amigos. Isso funcionou um pouco durante os intervalos, mas, quando a tortura recomeçava, nenhum pensamento ou imagem conseguia ficar na minha mente.
— Vou vomitar — disse a certa altura. Não sei quanto tempo havia passado. Segundos, horas, dias. Sheridan não pareceu acreditar até eu realmente começar a tossir e me contorcer.
Era um tipo de ânsia diferente da que sentia na purgação. Aquela era induzida por medicamentos; essa era a reação do meu corpo a mais do que era capaz de suportar fisicamente. Do lado oposto dela, uma pessoa se aproximou, afrouxou um pouco as amarras e me virou, então vomitei o pouco que tinha no estômago. Eu não sabia se eles haviam tido tempo de arranjar um recipiente para o vômito e realmente não me importava. Isso era problema deles.
Quando a ânsia passou, consegui ouvir com dificuldade o que Sheridan murmurou para uma pessoa do outro lado da sala.
— Chame um “assistente” pra nos ajudar — ela disse.
Uma voz masculina parecia cética:
— Não existe amizade entre nenhum deles.
— Já vi pessoas como ela. O que não vai entregar por si mesma, pode entregar por outra pessoa.
O som de uma porta indicou a saída de seu colega e, enquanto me limpavam e amarravam outra vez, suas palavras me fizeram perceber algo terrível. Alguém me traiu! O feitiço só fora desfeito porque Sheridan estava procurando especificamente por mim. Eu tinha sido tola de pensar que fazer a tinta de sal forjaria algum tipo de vínculo entre mim e os outros. O único ponto positivo era que havia desativado o gás, como planejado, mas a que preço?
Foi tudo que consegui especular quando a tortura recomeçou — e, por incrível que pareça, estava pior. Não vomitei, talvez porque meu corpo não conseguisse juntar forças para tanto, mas não consegui impedir que meus gritos enchessem a sala. Me odiava por demonstrar fraqueza diante deles, por admitir que estavam me atingindo... mas mal conseguia me segurar e não contar todos os meus segredos para eles durante aquelas pausas. Não vou falar, prometi. Mesmo que nunca saia daqui, vou mostrar a eles que não são tão poderosos quanto pensam.
— Por que nos obriga a continuar com isso, Sydney? — Sheridan perguntou, com aquela tristeza fingida. — Isso dói mais em mim do que em você.
— Sinceramente duvido disso — falei, quase sem ar.
— E pensei que você estivesse fazendo tanto progresso! Estava quase pronta pra te recompensar pelo bom comportamento. Talvez com uma visita da família. Talvez com isto.
O minúsculo ponto de luz surgiu sobre ela novamente e algo em sua mão reluziu. Era a minha cruz, o pequeno pingente de madeira que Adrian fizera para mim, pintado com glórias-da-manhã. Eles haviam tentando me subornar com ele quando chegara, como se um objeto material fosse suficiente para me destruir. Vê-lo causou uma dor no peito, embora talvez fosse efeito da tortura, e meus olhos se encheram de lágrimas, agora de tristeza, não de dor.
— Você poderia ficar com ela agora — ela disse, suavemente. — Poderia ficar com ela e a dor acabaria. Tudo o que precisa fazer é contar o que queremos saber. Ela é realmente linda. — Sheridan ergueu a cruz para admirá-la e, para meu horror, a colocou em volta do pescoço. — Se não quiser, posso pegá-la pra mim.
Quase contei que a cruz havia sido feita por um vampiro, mas tive medo de que ela pudesse destruí-la. Assim, fiquei em silêncio, deixando que a raiva ardesse dentro de mim — pelo menos até a tortura recomeçar, e então senti apenas aquela agonia de novo.
Perdi a noção do tempo novamente até o colega dela voltar. Tive um alívio da dor e mais alguns pontos de luz se acenderam, inclusive um brilhando desconfortavelmente na minha cara.
A luz também revelou que o homem não voltara sozinho.
— Olhe, Sydney — Sheridan disse. — Trouxemos uma amiga sua.
O homem puxou uma pessoa até a minha mesa. Emma. Quase a acusei de ter me traído naquele exato momento. Afinal, era a candidata perfeita. Precisava compensar pelos crimes da irmã além dos dela própria. Conseguira a tinta de sal e não tinha nada a perder me entregando, ainda mais se pudesse convencê-los da sua inocência. Também era a única pessoa que sabia com certeza que eu estivera andando pelo prédio na noite anterior.
No entanto... havia um pavor em seus olhos que me impediu de fazer qualquer acusação. Ela era a traidora mais provável, mas, como talvez não fosse, eu não podia deixar que soubessem que ela estava a par dos meus planos.
— Quem disse que ela é minha amiga? — perguntei.
— Bom, ela está prestes a ter a mesma experiência que você — Sheridan disse. — Se essa não é a base de uma grande amizade, não sei o que é. — Ela deu um aceno curto e Emma foi levada para fora do meu campo de visão. Outro assistente se aproximou, me ajudando a sentar para que eu pudesse ver o que estava acontecendo. Eles estavam amarrando Emma a uma mesa igual à minha.
— P-por favor — ela balbuciou, se debatendo de maneira tão impotente quanto eu. — Não sei de nada. Não sei por que estou aqui.
— Ela está certa — eu disse. — Não sabe de nada. Vocês estão perdendo tempo.
— Não nos importamos com o que ela sabe — Sheridan disse alegremente. — Queremos saber o que você sabe. E, se nossos métodos de persuasão não funcionaram com você, talvez confesse ao vê-los serem usados em outras pessoas.
— Persuasão — eu disse, com repulsa. — É isso que o P das portas significa. Estamos no último andar.
— Exatamente — disse Sheridan. — Você fez um passeio e tanto essa noite, a julgar por todas as portas em que usou aquele cartão. Diga por que fez isso e como não apareceu em nenhuma câmera, senão...
Ela deu um aceno curto com a cabeça e, na fração de segundo antes de Emma gritar, entendi o que havia acontecido. Emma não tinha me traído. Ninguém tinha. Eu havia estragado tudo sozinha. Estava preocupada que o rapaz cujo crachá eu havia roubado pudesse comunicar o desaparecimento e fazer com que o cartão fosse desativado. Ele obviamente havia feito isso, mas, em vez de desativarem o cartão, os alquimistas tinham esperado para ver se alguém o usaria. O sistema devia ter registrado todas as vezes que o usei. Eu tinha sido uma idiota, deixando um rastro perfeito para que me seguissem, e apenas o feitiço de invisibilidade me salvara da captura imediata. Felizmente, estivera em lugares suficientes para ocultar minhas intenções, ainda mais porque as salas de maquinário não pediam o cartão de acesso. Havia boas chances de que ninguém soubesse o que eu tinha conseguido fazer.
Mas isso não salvou Emma de ser submetida à mesma tortura que eu. Minha pele formigou ao vê-la se contorcendo de dor e senti uma náusea inteiramente nova.
— Ela é inocente! — exclamei quando fizeram um intervalo. — Como podem fazer isso? Vocês são doentes!
Sheridan riu baixo.
— Ninguém é inocente. Mas, se você acredita nisso, é ainda mais triste que a deixe sofrer desse jeito.
Fiquei olhando para Emma e me senti dividida. Não queria desistir dos meus planos. No entanto, como poderia permitir que aquilo continuasse? Ao me ver ponderando, eles acharam que eu estava resistindo e retomaram o procedimento. Era insuportável assistir e, no intervalo seguinte, exclamei:
— O que você acha que eu estava fazendo? Estava procurando uma saída!
Sheridan ergueu a mão para deter o torturador invisível que comandava os controles.
— Conseguiu encontrar?
— Acha que estaria aqui se tivesse conseguido? — retruquei. — A única coisa que vi foi sua sala de controle de reflexão, e ela está muito bem guardada.
— Como conseguiu andar de um lado para o outro sem ser vista? — ela perguntou.
— Evitei as câmeras — respondi.
Com um aceno de Sheridan, Emma foi submetida a mais dor e seu corpo se debateu como uma boneca de pano enquanto tentava lidar com as ondas de agonia que a atravessavam.
— Eu respondi! — exclamei.
— Você mentiu — Sheridan retrucou com frieza. — Não seria possível ter evitado todas. Ninguém notou nada na hora, mas depois de uma longa revisão dos vídeos encontramos um trecho que mostra a porta de uma das escadas se abrindo sozinha. Quase deixamos passar; só notamos nos últimos replays. Explique-se.
Continuei em silêncio, me perguntando se suportaria ver Emma sendo torturada novamente. Mas não consegui. Não quando sabia que era por minha causa. Os gritos dela pareciam preencher todos os cantos da sala e ela lutava contra as amarras numa tentativa desesperada de aliviar a dor. Ouvindo seus gritos, tentei argumentar comigo mesma dizendo que era apenas um desconforto temporário, que Emma sabia em que estava se metendo quando começara a me ajudar. O bem maior valia o sofrimento de uma pessoa, não?
Essa lógica fria tinha quase me convencido quando finalmente vi lágrimas escorrendo de seus olhos. Não aguentei mais.
— Magia! — berrei, tentando ser ouvida apesar dos gritos. — Foi magia. — Sheridan fez sinal para a tortura parar e me olhou com expectativa. — Andei por aí sem ser vista com magia. Magia humana. E se acha que vai me fazer falar mais torturando essa garota, está errada. Pode torturar todos os outros neste lugar que não vou dizer mais nenhuma palavra. Isso envolve gente de fora e, perto delas, as pessoas daqui não significam nada pra mim.
Era um blefe. Eu não sabia se realmente aguentaria ver os outros detentos sendo torturados, mas ou Sheridan acreditou em mim ou tinha preocupações maiores.
— Não achava que isso iria acontecer de novo — ela murmurou.
— Sempre acontece. Uma hora ou outra — disse seu colega. Ele fez sinal para um dos guardas levar Emma embora. — Leve a garota de volta para o andar dela. Não dá pra saber que tipo de propaganda negativa se espalhou. Vamos ter que fazer um retoque em massa.
Senti uma pontada no peito. Eu só tinha protegido metade dos detentos! O resto da tinta ainda estava escondido na minha cama.
— Não converti ninguém, se é com isso que você está preocupado — eu disse.
— Eu falei pra você, ninguém é inocente aqui — Sheridan disse. — Mande Emma de volta para o andar dela e coloque Sydney na maca.
— Já falei tudo que tinha pra falar — protestei enquanto os guardas se aproximavam e Emma era arrastada para fora da sala. — Sua tortura não funcionou em mim da outra vez.
Sheridan deu uma risada baixa e rouca, e todas as luzes se apagaram outra vez.
— Ah, Sydney. Agora que sei o que você é, não me sinto mal por aumentar bastante a intensidade. Não sabemos muito sobre usuários de magia humana, mas tem uma coisa que aprendemos ao longo dos anos: eles são excepcionalmente resistentes. Então vamos começar.

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