19 de outubro de 2017

Capítulo 15

Adrian

A GENTE DORMIU JUNTO NAQUELA NOITE — literal, não sexualmente.
E foi maravilhoso. Eu nunca imaginei que podia sentir tanto prazer com uma coisa tão simples. Havia tanto tempo que desejava passar mais tempo com Sydney, estar com ela sem a pressão de todas as coisas que conspiravam contra nós. E ali estávamos.
Mas foi um pouco torturante também. Fez a tensão da viagem do dia anterior parecer fácil. Mesmo de camiseta e calça de flanela, Sydney era insuportavelmente sedutora. Com ela envolvida em meus braços, dormindo com a cabeça encostada no meu peito, me peguei pensando sobre como o tecido de sua camiseta era fino e como não havia nada sob ela. Pensei muito sobre como seria tirar aquelas roupas. Pensei muito sobre o que faria depois. Eu amava Sydney por sua alma linda e a desejava por seu corpo lindo. Não havia nada de sórdido nisso. Era natural.
Por isso, demorei um pouco para dormir. A soneca de antes também não ajudou. Quando não estava fantasiando sobre Sydney, minha mente se voltava à nossa missão e à ideia possivelmente maluca de usar o sangue de Olive para fazer uma tatuagem semelhante à dos alquimistas em Neil. Todos estavam esperando que Sydney e eu resolvêssemos o problema. Eu tinha quase certeza de que o sangue infundido de espírito não faria mal a Neil, assim como a tatuagem experimental de Sydney não fizera a Trey, e achei que valia a pena tentar. Afinal, não tínhamos muitas outras opções para o sangue. A ideia não era ruim, e não era o que me incomodava.
O que me incomodava era meu controle cada vez menor do espírito. Quando Sonya tinha me perguntado sobre o que eu sentia no frasco, precisei mentir. Ela era uma das melhores usuárias de espírito para identificar mentiras, mas, felizmente, estivera distraída demais para notar. O problema era que eu não tinha conseguido perceber nada no frasco. Eu sabia que deveria ter espírito no sangue, pelos comentários dela e de Lissa, mas não consegui senti-lo. Não conseguia mais ver auras e, embora não houvesse tentado curar ninguém, podia imaginar quais seriam os resultados.
As revelações de Jill sobre o laço tinham sido um tapa na cara. O desaparecimento do espírito sempre fora uma possibilidade, mas eu nunca havia parado para pensar nas consequências para ela. Jill havia explicado que, embora ainda sentisse que tínhamos uma ligação, era como se houvesse uma cortina entre nós que impedia minha mente de chegar até ela. Não era exatamente uma coisa ruim. Significava que minha vida voltaria a ser particular e que ela ficaria protegida de qualquer escuridão que eu pudesse passar para ela.
E eu não podia negar a verdade mais óbvia: agora, eu também parecia estar protegido do espírito. Eu me sentia… bem. Meu mundo estava calmo. Não tinha mais aquela necessidade febril de pintar uma galeria inteira por noite, mas ainda estava cheio de ideias — ideias que conseguia pôr em prática, porque minha concentração estava melhor. Ficar triste ao ouvir Pink Floyd não me fazia entrar em depressão. Meu amor por Sydney continuava forte como sempre. A vida era boa.
Acordar com ela deixou isso claro para mim. Eu tinha finalmente adormecido, mas despertei quando a senti se mexendo. Tínhamos trocado de posição durante a noite, mas em momento nenhum nos separamos. Para mim, ela nunca estivera tão bonita quanto naquele instante, sonolenta e com o cabelo desgrenhado. Eu me aproximei para um beijinho e ela desviou o rosto.
— Preciso escovar os dentes — ela murmurou.
— Mal acordou e já está prática. Não sei por que estou surpreso.
— É só uma questão de bom senso. — Ela virou para o lado e a abracei por trás, envolvendo sua cintura.
— Quer tomar café? — perguntei.
— A gente não pode sair junto. Já vai ser ruim se alguém vir você saindo do meu quarto.
Dei uma olhada no relógio.
— Improvável. Eles estão indo pra cama agora.
— Então como a gente vai tomar café?
— Tem alguns lugares vinte e quatro horas aqui, porque sempre tem gente entrando e saindo do horário humano. — Dei um beijo em seu pescoço. — Vou liberar você da restrição de café, porque é uma ocasião especial.
— Ei, vou me manter fiel à promessa.
— Quero só ver quando os Moroi decidirem trabalhar até de madrugada.
Ela ficou em silêncio por alguns momentos.
— Faz tempo que você não bebe uma gota de álcool, não é? Nem seu drinque diário.
— É mais fácil assim. Não tem por que ficar testando meus limites.
A resposta dela foi simples e perfeita:
— Eu te amo.
Ela acabou me mandando embora para que a gente pudesse se arrumar cada um em seu quarto, apesar do meu ótimo argumento de que um banho juntos seria mais eficiente. Tomei uma ducha rápida, ao contrário do que costumava fazer, para poder dar uma passadinha no prédio ao lado, onde ficavam os fornecedores. Sydney e eu nos encontramos meia hora depois no saguão do prédio de hóspedes, como qualquer Moroi e alquimista decentes fariam. O cara trabalhando na recepção nem prestou atenção em nós, mas, mesmo assim, fizemos uma atuação digna de Oscar, com cumprimentos formais e a uma distância segura.
Do lado de fora, a pálida luz do sol não aquecia muito a manhã de inverno. Sydney parecia aconchegada e fofinha em seu casaco felpudo, e percebi a estupidez de ter levado apenas aquele casaco leve. Mas não reclamei. Precisava me manter firme à minha escolha de moda.
O lugar estava tão deserto quanto eu havia imaginado. As únicas pessoas que vimos foram guardiões ocasionais em suas patrulhas atentas, apesar das muralhas que protegiam a corte dos Strigoi. Claro, nos últimos tempos, com tantos Moroi se opondo ao reinado de Lissa, enfrentávamos muito mais perigos da nossa própria raça. Um dos restaurantes de que me lembrava ainda estava funcionando, e Sydney riu ao entrarmos.
— É incrível — ela disse. — Tem toda uma civilização escondida nesses prédios.
— Tem isso e muito mais. Um clube, um spa, uma pista de boliche. Não que eu seja besta de levar você pra lá. — Sydney era incrivelmente boa em quase todos os esportes. Não que tivesse poderes atléticos acima do normal. Na maioria das vezes, só usava lógica e cálculos matemáticos para medir seus movimentos.
O restaurante era mais uma lanchonete. Pedimos no balcão e depois nos sentamos em uma mesa com o café enquanto o cozinheiro fazia nossa comida. Ainda estávamos um tanto cansados e percebi o quanto eu adorava aquela normalidade.
— Um dia, Sage — falei para ela. — Todas as manhãs no nosso apartamento em Roma. Nós dois na cama, tomando café juntos… não sei como vamos fazer isso, mas a gente vai dar um jeito.
Ela voltou os olhos do cardápio que examinava na parede e sorriu.
— Roma, é? Qual plano de fuga é esse?
— Número um — respondi prontamente, sabendo que Roma era um dos sonhos dela. O sorriso ficou mais largo.
— Vai aprender italiano?
— Não precisa. Consigo me comunicar muito bem com os olhos.
— Vai ter que aprender a falar os números, pelo menos, pra poder negociar com as pessoas quando estiver vendendo seus quadros na rua — ela provocou.
Levei a mão ao peito.
— Assim você me magoa, Sage. Imagino você frequentando uma universidade importante na minha fantasia, mas você me põe na rua.
— Ei, todos têm que começar de algum lugar. Eu começo com as aulas. Você na rua. Depois de um tempo, vou ter meu doutorado e você vai fazer exposições mundialmente famosas.
Convencido, fiz que sim.
— Certo, por mim tudo bem. Depois, acho que é só uma questão de tempo até levarmos os filhos pro treino de futebol.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Filhos?
— Calma, vai demorar alguns anos ainda. Mas imagine só. Sua inteligência, meu charme, nossa beleza… além das habilidades físicas dos dampiros, claro. — Ela pareceu mais divertida do que horrorizada com a ideia, o que era algo que eu nunca imaginaria ver. — Na verdade, nem é justo com as pessoas. Que bom que você está tomando anticoncepcional, porque é óbvio que o mundo não está preparado para nossos descendentes perfeitos.
— Óbvio — ela riu.
Nossos olhares se cruzaram e, como sempre, minha mente passou dos anticoncepcionais para o inevitável. Podia ser naquela viagem, pensei. Jill não era mais um problema e a noite anterior tinha provado que teríamos tempo de sobra. Pela maneira como ela me olhava fixamente, soube que estava pensando a mesma coisa. Será que ela estava pronta? Essa era a grande questão e eu esperaria o tempo que fosse necessário. Mas seria muito mais fácil se ela obviamente não desejasse tanto também.
— Não acredito! Ivashkov, é você?
Uma voz áspera me tirou do torpor. Devagar, abrindo o maldito sorriso que todos esperavam de mim, me voltei para a entrada da lanchonete. Lá estava Wesley Drozdov, uma das pessoas mais irritantes que já conhecera. E o pior era que ele estava com dois outros babacas da realeza, Lars Zeklos e Brent Badica.
Eu costumava beber com eles.
E os três estavam obviamente bêbados agora, a julgar pela maneira como cambalearam até nossa mesa. O cheiro de álcool emanando deles também os entregava. Wesley me deu um tapa nas costas, me fazendo ranger os dentes.
— Você voltou quando? — ele perguntou. — Por que não ligou?
— Ontem à noite. Quase não tive tempo — eu disse.
— Sério? Podia ter saído com a gente! A gente está na rua faz… — Brent se voltou para os outros, provavelmente porque a conta era difícil demais. — Seis horas. Abriu uma balada nova… depois Monique Szelsky deu uma festa insana e fomos os últimos a sair. Está na hora de comer um lanche e depois capotar.
Só então eles perceberam que eu não estava sozinho. Lars se aprumou e assumiu o ar pseudorresponsável que adotaria se seus pais chegassem mais cedo quando ele estava dando uma festa.
— Oi. — Ele estendeu a mão. — Sou Lars.
Sydney hesitou antes de apertar a mão dele, menos por medo de Moroi do que por desprezo por idiotas bêbados.
— Sydney Sage.
Os outros se aproximaram para apertar a mão dela e tive certeza de que aquele sorriso gélido de alquimista, que sugeria que ela só estava tolerando você e o qual costumava usar quando estávamos em público, era completamente sincero naquele momento.
— Fiquei sabendo que tinha humanos aqui. — Brent deu uma olhada na bochecha dela. — Você é um daqueles? Aqueles alqui… alquimistas? — Nem todos os Moroi sabiam quem eram os alquimistas.
— Isso — ela respondeu friamente.
— Ela está aqui pra fazer algum serviço ultrassecreto pra rainha. Um troço assim. — Ri e me recostei na cadeira. — Não faço ideia. Eles não me contaram as partes importantes. Só me pedem para ser o guia. Mas tem comida e bebida de graça, então vale a pena.
Wesley não tirava os olhos de Sydney.
— A gente vai sair de novo no pôr do sol. Quer vir? Você não vai conhecer a verdadeira vida Moroi se não for pra uma festa. Tem umas muito boas marcadas.
Sydney estava tão rígida que poderia ter se partido em duas.
— Não, obrigada. Preciso encontrar a rainha.
— Viu? — eu disse. — Não falei que esses alquimistas só pensam em trabalhar?
Lars me cutucou.
— Bom, mas você eu sei que não. Por que não sai com a gente? Cara, se umas meninas soubessem que você voltou, elas… — Ele mordeu a língua e lançou um olhar de desculpas para Sydney.
Nesse momento, o cozinheiro avisou que nosso pedido estava pronto. Sydney se levantou tão rápido que a cadeira quase caiu.
— Eu pego. — Ela saiu a passos largos sem dizer outra palavra ou olhar para trás. Os três a observaram, sem tentar esconder suas intenções. Sydney e eu já tínhamos passado por muitas coisas no nosso namoro, mas essa era a primeira vez que eu sentia tanto ódio de outros caras. Queria socar todos eles.
— Caramba — Wesley disse. — Eu não sabia que uma bunda podia ficar tão boa numa calça cáqui.
— Como é que você consegue ficar sentado aí com tanta calma? — Lars me perguntou.
Apoiei os pés em cima de uma cadeira vazia, entrelaçando os dedos atrás da cabeça. Com as mãos presas, talvez não tentasse enforcar ninguém.
— Como assim?
— Você entendeu o que eu quis dizer. — Lars balançou a cabeça. — Meu Deus, a gente estava agora mesmo com os fornecedores e não tinha nada, nadinha, como aquilo. São sobras da semana passada comparados a ela. A gente nunca pega nada tão bom assim.
— Nenhuma marquinha no pescoço — Brent suspirou, com os olhos arregalados. — Dá pra ver que ela nunca fez. Imagina como seria enfiar os dentes naquilo? Néctar dos deuses, cara. E aposto que ela adoraria. As mais certinhas sempre adoram.
Apertei as mãos com tanta força que enfiei as unhas na pele. Mesmo para imbecis como aqueles, sexo com uma humana era impensável. Mas beber de uma? Uma garota bonita que nunca tinha sido tocada antes? Era tão enlouquecedor quanto sexo, e os deixava malucos com um tipo diferente de desejo.
— Calminha aí — eu ri. — Sabem alguma coisa sobre alquimistas? Ela mal consegue ficar no mesmo ambiente que a gente. Vocês nunca conseguiriam encostar no pescoço dela.
Wesley se aproximou de mim.
— Leva essa menina pra sair com a gente depois! A rainha não vai ficar com ela a noite toda.
Eu tinha quase certeza que as unhas enfiadas nas minhas mãos já estavam tirando sangue a essa altura.
— Você ouviu uma palavra do que eu disse? Ela não é pro nosso bico.
Brent estava com a boca aberta e as presas à mostra, observando Sydney dar meia-volta com a bandeja.
— Não se a gente entretê-la.
— Você ainda está bêbado, cara. — Consegui abrir um sorriso, mas gargalhar era impossível.
— Vai ser fácil — ele sussurrou. — Fala que vai levar a menina para uma experiência cultural. Arranjo alguma coisa pra ela e depois a gente reveza. Adoraria ver a cara dela quando…
— Não — eu disse.
Lars fechou a cara.
— Você amoleceu, Ivashkov. Nunca se importou em entreter alguém antes.
Mas Sydney tinha chegado à mesa e os três tiveram o bom senso de calar a boca.
— Está ficando tarde — eu disse. — Melhor vocês comerem e descansarem para depois.
Eles entenderam a indireta e saíram rindo e cochichando em direção ao balcão, mas não sem antes dizer para eu ligar se mudasse de ideia. Respirei fundo para me acalmar e tentei demonstrar interesse pela rabanada para que Sydney não notasse meu humor.
— Desculpe — eu disse. — Amigos de outros tempos.
— O que ele quis dizer com “entreter”? — ela perguntou.
Xinguei por dentro. Então ela tinha ouvido essa última parte. Obviamente não tinha ouvido o resto, senão não estaria tão calma. Precisei escolher as palavras com cuidado. Se contasse uma mentira absoluta, poderia ter problemas se um dia ela descobrisse a verdade. No entanto, não podia ser totalmente sincero, então dei uma resposta mais ou menos próxima da verdade.
— É idiota. — Revirei os olhos e mordi um pedaço de bacon para ganhar tempo. — Babacas como eles acham divertido tentar recrutar humanos como novos fornecedores. Levam um pra sair, falam um monte de besteira e tentam conquistar o coitado.
Ela até deixou o garfo cair.
— Você está falando sério? — Ela olhou para os três por sobre o ombro, incrédula. — Eles… eles queriam me convencer a virar fornecedora? — Ela estava tão chocada com a ideia que nem pensou nas implicações de ter vampiros conversando abertamente sobre a nossa raça com humanos. Os fornecedores costumavam ser recrutados entre as pessoas à margem da sociedade, normalmente aquelas que já eram viciadas em alguma coisa e não tinham muito futuro. Morar com os Moroi era um avanço para elas. Membros normais e ativos da sociedade humana nunca eram abordados.
— Está tudo bem — prometi para ela. — Avisei que não vai rolar. Eles não vão tentar nada. Só acharam você bonita, o que é verdade, mas só sabem falar. Não vão nem lembrar disso quando ficarem sóbrios.
Mesmo assim, Sydney pareceu incomodada e cortou seu bolinho em silêncio.
— Sério — eu disse, querendo tocar a mão dela. — São uns imbecis. Um bando de caras insignificantes. Nunca deixaria que fizessem alguma coisa desse tipo com você.
Ela acabou fazendo que sim, e abriu um sorriso com tanto carinho e confiança que me arrependi de ter mentido.
— Eu sei — ela disse.
Engoli em seco e tentei não prestar atenção na mesa de Wesley e seus amigos, que ainda olhavam de soslaio para a gente.
— Vamos comer logo e passear. É a melhor hora pra fazer isso, com todo mundo dormindo. E talvez, talvez, a gente devesse buscar outro casaco pra mim.
Como eu esperava, a satisfação por estar certa a reanimou.
— Eu sabia! Sabia que você estava congelando.
— Sim, sim, você é um gênio, Sage. A gente pega o casaco, dá uma volta e depois pode ficar na cama como todo mundo por um tempo.
Não demorou para que aqueles idiotas bêbados virassem uma lembrança longínqua. Entramos escondidos na casa do meu pai e encontrei um velho casaco de inverno. Meu pai estava lá, dormindo, e nem soube que demos uma passadinha. Depois, me esforcei para mostrar toda a arquitetura antiga pela qual achava que ela se interessaria. Não sabia nenhum detalhe técnico, mas, como imaginava, ela sabia, e adorou tudo. Depois voltamos para o quarto dela e ficamos deitados juntos até a hora da reunião. Foi um dia maravilhoso.
De volta ao palácio, Lissa tinha mandado preparar um enorme café da manhã para todos. Era hora do jantar para mim e Sydney, mas não vimos mal em repetir, e ela sem dúvida não viu mal na quantidade de café descafeinado à disposição. As pessoas conversavam em grupos enquanto comiam, e Charlotte me chamou para o outro lado da sala, onde estava com Neil e Olive. Sorri e mexi os lábios, dizendo “talvez mais tarde”.
Rose veio até nós, carregando um prato com cinco rosquinhas. O metabolismo dos dampiros era doido, e comecei a entender os estranhos problemas de Sydney com seu corpo considerando que passava tanto tempo perto de gente que podia comer daquele jeito e não engordar.
— Teve um bom dia? — Rose perguntou. — Imagino que não dormiu o dia todo como a gente.
Sydney riu.
— Não. Adrian também não. Ele foi convertido para o horário de Palm Springs, então me levou para dar uma volta e me mostrou todas as maravilhas da corte Moroi.
Rose me lançou um olhar contente e orgulhoso, como se mal pudesse acreditar que eu tivesse feito tamanha gentileza.
— Que bom. Tomara que seja mais um passo para convencer você de que nem todos somos criaturas do inferno sedentas por sangue.
Sydney começou a rir, mas então ficou com ar pensativo.
— Bom… nem todos.
— O que quer dizer? — Rose perguntou, as palavras abafadas por uma rosquinha de chocolate.
— Não é nada — Sydney disse. — Só uns caras bêbados que a gente encontrou que queriam… o que eles disseram, Adrian? “Entreter”?
Rose quase engasgou com a rosquinha.
— Eles fizeram o quê?
— Eles não fizeram nada — respondi, com cautela. Uma sensação desagradável surgiu em meu peito e torci para que mudássemos de assuntou ou que Lissa começasse logo os trabalhos.
— Quem teve a coragem de sugerir uma coisa dessas? — Reconheci aquele olhar de Rose que dizia que seu punho tinha um encontro marcado com a cara de alguém. — Quem são os caras?
Sydney pareceu tocada pela preocupação.
— Não é nada, e Adrian tem razão. Eles não fizeram nada. Ele assustou os idiotas. Além disso, não conseguiriam me convencer a fazer nada.
Eu estava me sentindo mal. Olhei ao redor da sala.
— Ei, cadê o Abe? Ele não tinha que trazer os ingredientes para Sydney?
Rose nem me deu ouvidos. Seu olhar estava cravado em Sydney.
— Você sabe o que é “entreter”?
— Sim — ela disse, sem muita certeza. — É quando tentam convencer você a virar um fornecedor.
— Eu não diria que “convencer” é a palavra certa — Rose grunhiu. — É quando os Moroi drogam um humano pra beber o sangue dele. Em geral, humana, já que costumam ser homens por trás disso. A pessoa apaga por causa da droga e não lembra de nada depois, apesar dos machucados no pescoço. É basicamente estupro pra beber sangue.
Sydney ficou tão pálida que poderia ser confundia com um dos Moroi.
— Como ass…
Rose pareceu se tocar de como aquilo poderia ser traumatizante para uma alquimista e tentou suavizar um pouco.
— Quase nunca acontece — ela disse rapidamente. — E nunca aconteceria aqui, ainda mais se você tem Adrian como seu defensor. E eu também.
Sydney não conseguiu formular uma resposta.
Alguém chamou Rose e ela mordeu o lábio, olhando preocupada para mim e para Sydney.
— Olha, desculpa. Eu não devia ter falado nada. Não entre em pânico. Não tem por que se preocupar. — Ela tocou o braço de Sydney, que estremeceu e deu um passo para trás. Rose ouviu seu nome de novo e olhou para mim. — Converse com ela. Já volto.
Ela saiu correndo e dei um passo em direção a Sydney, que, felizmente, não se afastou de mim.
— Ela tem razão, não tem…
Sydney estreitou os olhos.
— Por que mentiu pra mim?
Apontei para ela.
— Exatamente por isso. Não queria assustar você.
— Você devia ter me explicado direito — ela disse. — Sou forte o bastante pra lidar com uma coisa dessas.
— Sei que é — eu disse, com carinho. — Eu é que não sou forte o bastante pra contar coisas horríveis pra você. Imaginei que, no fundo, fosse a mesma coisa: um bando de cretinos se aproveitando de alguém.
Ela fez que sim, e prendi a respiração, torcendo para que a conversa acabasse por ali. Então, aquela maldita memória dela entrou em ação.
— Um deles disse que você nunca se importara com aquilo antes. Você já entrou nessa? — Ela ficou pálida de repente. — Já fez isso?
O mundo girou ao meu redor. Desejei ter o espírito de volta para poder compeli-la a conversar sobre O grande Gatsby. Em vez disso, tomei coragem e dei a resposta mais concisa possível:
— Mais ou menos.

Um comentário:

  1. Oh meu Deus Adrian, por favor não seja um cretino desse tamanho!
    Às vezes o Adrian me lembra o Damon Salvatore, essas atitudes arrogantes, sarcásticas e convencidas... Acho que é por isso que é impossível não se apaixonar ainda mais por ele, ó desgraça!.

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Boa leitura :)