13 de outubro de 2017

Capítulo 15

A SRA. TERWILLIGER estava me esperando no saguão quando Julia e eu chegamos ao alojamento.
— Sério, você colocou um aparelho de rastreamento em mim? — perguntei.
Julia deu uma olhada no rosto severo da professora e foi embora rapidinho.
— Só muita coincidência — a sra. Terwilliger respondeu. — Soube que você tem uma novidade.
— Por incrível que pareça, tenho.
A sra. Terwilliger estava com uma expressão grave enquanto me levava para o lado de fora, para termos mais privacidade em mais uma reunião ultrassecreta ao ar livre. Nos últimos dias, ela mal parecia a mesma professora hippie e estabanada que eu havia conhecido quando entrara em Amberwood.
— Conte — ela mandou.
Contei sobre o telefonema de Alicia, e a expressão conturbada dela não inspirou muita confiança. Parte de mim estivera esperando que ela revelasse algum plano fantástico e infalível que vinha tramando secretamente.
— Bom, nesse caso — ela disse depois que terminei —, acho que terei de ir para lá.
— Eu é que vou pra lá — corrigi.
Ela abriu um sorrisinho.
— Você já fez mais que o suficiente. É hora de eu assumir o comando e lidar com Veronica.
— Mas a senhora já me mandou pra lá antes.
— Quando não tínhamos certeza de onde era o esconderijo ou do que ela estava fazendo. Dessa vez, temos testemunhas oculares confirmando que ela está lá. Não posso perder essa oportunidade. — Ela olhou para um relógio perto da porta e suspirou. — Iria hoje à noite se pudesse, mas não fiz as preparações necessárias. Vou começar a trabalhar nelas agora e partir amanhã à noitinha. Tomara que não a perca de novo.
— Não. — A insubordinação na minha voz foi uma surpresa até para mim. Eu não contradizia professores, nem nenhum tipo de autoridade, com frequência. Tá, na verdade nunca. — Ela já nos enganou antes. Vamos investigar primeiro. Você não pode se revelar ainda; vai que alguma coisa dá errado? Vai estar pronta amanhã à noite? Então deixe Adrian e eu irmos lá de dia... quer dizer, se alguém conseguir me tirar da escola.
Um pouco da tensão dela diminuiu, e ela abriu um sorriso.
— Acho que consigo fazer isso. Mas odeio continuar colocando você em perigo.
— Já ultrapassamos esse ponto faz tempo.
Ela não tinha como argumentar contra isso. Combinei com Adrian que me buscasse no dia seguinte, depois de dar uma bronca em “Jet” por ter dado o número de telefone da “Taylor”. Na manhã seguinte, a sra. Terwilliger foi fiel à sua palavra. Fui liberada das aulas por causa de uma “viagem de campo”. A vantagem de ser uma aluna-modelo era que nenhum dos professores arranjava problemas quando eu faltava às aulas. Eles sabiam que eu faria os trabalhos. Era provável que me deixassem tirar folga pelo resto do semestre.
Durante o trajeto, contei a Adrian que havia conseguido marcar a viagem para St. Louis para cumprir a tarefa sinistra de Marcus. A expressão dele foi ficando sombria, mas ele manteve silêncio a respeito do assunto. Eu sabia o conflito que aquilo era para ele. Ele não gostava do Marcus. Não gostava que eu me envolvesse numa missão potencialmente perigosa. No entanto, também confiava em mim para tomar minhas próprias decisões. Não era de sua natureza discordar de mim ou me dizer o que fazer, embora, secretamente, pudesse querer fazer isso. Seu único comentário foi de apoio.
— Tome cuidado, Sage. Pelo amor de Deus, tome cuidado. Já vi você fazer umas coisas loucas, mas isso já é demais, até mesmo pra você. Você deve ser a única pessoa capaz de fazer algo assim, mas... não baixe a guarda em nenhum momento.
Quando disse que pretendia usar Ian para conseguir maior acesso, a expressão conturbada de Adrian deu lugar a uma de incredulidade.
— Espere um pouco. Deixe eu ver se entendi. Você vai seduzir um cara pra conseguir espionar os alquimistas?
Seduzir Ian? Ugh.
— Não tire conclusões precipitadas — repreendi. — Só vou tentar usar os sentimentos dele por mim pra conseguir o que eu quero.
— Uau. Que frieza, Sage. Que frieza.
— Ei. — Fiquei um pouco indignada com a acusação. — Não vou prometer me casar com ele e depois dar um fora. Ele me convidou pra jantar enquanto eu estiver lá. Vamos nos divertir e vou tentar convencê-lo a me levar em um tour pela base. Só isso.
— E esse “convencimento” não envolve nada físico?
Lancei um olhar de censura para ele e torci para que pudesse me ver pelo canto do olho.
— Adrian. Pareço o tipo de pessoa que faria uma coisa dessas?
— Bom... — Ele parou, e imaginei que estivesse contendo algum comentário sarcástico. — Não, acho que não. Pelo menos não com um cara como ele. Você comprou um vestido?
Pronto, Adrian mudando de assunto aleatoriamente outra vez.
— Pro jantar e pra cerimônia? Já tenho um monte.
— Acho que isso responde à minha pergunta. — Ele parecia estar travando uma grande batalha mental. Enfim, disse: — Vou dar alguns conselhos a você.
— Ai, não.
Ele voltou a olhar para mim.
— Quem sabe mais sobre os pontos fracos dos homens, eu ou você?
— Tudo bem, desembucha. — Me recusei a responder diretamente.
— Compre um vestido novo. Um que mostre muita pele. Curto. Sem alça. Talvez com um sutiã com enchimento também. — Ele chegou a ter a audácia de dar uma avaliada rápida no meu peito. — Hum, talvez não. Mas definitivamente salto alto.
— Adrian! — exclamei. — Você viu como os alquimistas se vestem. Acha que eu poderia usar algo assim numa cerimônia na igreja?
Ele não estava nem ligando.
— Dê um jeito. Troque de roupa ou algo assim. Mas garanto que, se deseja que um homem faça algo potencialmente difícil pra você, a melhor maneira é distrair o cara para que ele não pense nas consequências.
— Você não confia muito nos homens.
— Ei, estou falando a verdade. Já me distraí muito com vestidos sensuais.
Eu não achava que fosse um argumento muito válido, pois Adrian se distraía com muitas coisas. Fondue. Camisetas. Gatinhos.
— Então é isso? Mostro um pouquinho de pele e vou ter o mundo aos meus pés?
— Não, mas ajuda. — O mais incrível era que ele estava falando muito sério. — E você tem que fingir confiança o tempo todo, como se o negócio já estivesse fechado. Depois, quando for fazer o pedido, não se esqueça de dizer que vai ficar “devendo uma para ele”. Mas não fale mais nada. A imaginação dele vai fazer o resto do trabalho por você.
Balancei a cabeça, contente por estarmos chegando ao destino. Não sabia quanto mais conseguiria ouvir.
— Esse é o conselho mais ridículo que já ouvi. É meio sexista também, mas não sei quem ofende mais, os homens ou as mulheres.
— Ouça, Sage. Não sei muito sobre química ou invadir computadores ou fotossíntere, mas tenho muita experiência com isso. — Acho que ele quis dizer fotossíntese, mas não o corrigi. — Use o meu conhecimento. Não desperdice meus conselhos.
Ele parecia tão sincero que eu finalmente disse que consideraria, embora fosse difícil me imaginar usando uma roupa como a que ele havia descrito. Minha resposta o deixou satisfeito, e ele não disse mais nada.
Quando chegamos à pousada, coloquei a peruca morena para que pudéssemos voltar a ser Taylor e Jet. Me preparei enquanto nos aproximávamos da porta.
— Onde estamos nos metendo? — murmurei. Eu tinha demonstrado muita coragem enquanto convencia a sra. Terwilliger, mas só agora estava me dando conta de que poderíamos dar de cara com uma feiticeira do mal. Eu ainda não tinha desenvolvido a capacidade de sentir a magia dos outros, então poderia muito bem ser pega de surpresa caso ela também tivesse encontrado um jeito de mudar a aparência. Tudo o que poderia fazer era confiar que o espírito de Adrian e o amuleto da sra. Terwilliger me disfarçariam. Se Veronica estivesse lá, pareceríamos um casal comum. Ao menos era o que eu esperava.
Alicia estava lendo outra revista quando entramos. Ela usava os mesmos óculos de aro grosso e os mesmos colares espalhafatosos. Seu rosto se iluminou ao nos ver.
— Vocês voltaram.
Adrian me abraçou imediatamente.
— Quando ficamos sabendo que Veronica tinha voltado, ficamos com vontade de ver nossa amiga logo. Não é mesmo, favo de mel?
— Sim — respondi. Pelo menos ele estava usando apelidos mais saudáveis.
— Ah. — O sorriso exultante de Alicia se desfez um pouco. — Ela acabou de sair.
— Você está de brincadeira — eu disse. Como nossa sorte poderia ser tão ruim? — Quer dizer que ela já fez o registro de saída?
— Não, ainda está hospedada na Suíte Veludo. Acho que só saiu para resolver algumas coisas. Mas... — Ela ficou encabulada. — Talvez eu tenha, hum, estragado a surpresa.
— Ah, é? — perguntei, cautelosa. Senti o braço de Adrian ficar tenso ao meu redor, mas não havia nada de romântico nisso.
— Não consegui resistir. Disse a ela que poderia ter algumas visitas inesperadas em breve. Visitas agradáveis — ela acrescentou. — Queria garantir que ela não ficasse fora por muito tempo.
— Que gentil da sua parte — Adrian comentou. Seu sorriso estava tão tenso quanto o meu. Ao tentar nos “ajudar”, Alicia poderia muito bem ter destruído tudo.
O que fazer agora? Não precisei tomar uma decisão imediata porque uma mulher de meia-idade entrou pela porta.
— Oi — ela cumprimentou Alicia. — Queria saber se posso dar uma festa de casamento aqui. Para a minha sobrinha.
— Claro — Alicia disse, olhando de um lado para o outro. Ela pareceu um pouco confusa em relação a quem ajudar, e fui rápida em intervir.
— Ah — eu disse. — Já que estamos aqui, podemos dar outra olhada na Suíte Coelhinho? Não conseguimos parar de falar dela.
Alicia franziu a testa.
— Pensei que fossem passar o aniversário na costa...
— E vamos — Adrian disse, seguindo minha deixa. — Mas Taylor estava pensando sobre o Algodãozinho um dia desses e achamos que deveríamos reconsiderar. — Eu tinha que dar crédito a ele por reforçar a história que eu tinha inventado sobre viajarmos para a costa. Mas era de se esperar que ele lembrasse o nome do coelho de mentira que ele mesmo havia criado.
— Pulinho — corrigi.
— A Suíte Coelhinho ainda está vaga? — ele perguntou. — A gente pode dar uma olhadinha rápida enquanto você ajuda a moça.
Alicia hesitou um momento antes de entregar uma chave.
— Claro. Me avisem se tiverem alguma dúvida.
Peguei a chave e segui em direção à escada com Adrian. Atrás de nós, ouvíamos a mulher perguntando se havia problema em montar uma tenda no quintal e quantas placas elétricas a pousada poderia sustentar sem risco de incêndio. Quando chegamos ao segundo andar, Adrian disse:
— Deixe-me adivinhar. Você quer dar uma espiada na Suíte Veludo.
Respondi com um sorriso, contente por ele ter adivinhado meu plano.
— Sim. Muito boa a ideia, né? Se tivermos sorte, Alicia ficará distraída por um bom tempo.
— Eu poderia ter compelido a menina — ele me lembrou.
— Você já está usando espírito demais.
Encontrei a Suíte Veludo e enfiei a chave na fechadura, na esperança de que Alicia tivesse nos dado a chave mestra, e não a específica da Suíte Coelhinho. Quando ela nos mostrou o lugar da última vez, só tinha usado uma chave. Um clique me informou que tivemos sorte e que eu não teria que usar nenhuma substância química para derreter metal naquele dia.
Tínhamos visto a Suíte Veludo durante a última visita e, no geral, ela parecia igualzinha. Lençóis de veludo, móveis cobertos de veludo e até um papel de parede com textura de veludo. Só que, dessa vez, o quarto não estava mais intocado como antes. Indícios denunciavam que ele havia sido ocupado recentemente. A cama estava desfeita, e o cheiro de xampu no banheiro indicava um banho recente.
— Talvez Alicia tenha se enganado e Veronica foi embora, sim — Adrian disse. Ele abriu uma gaveta depois da outra e não achou nada. No armário, encontrou sapatos de salto alto enfiados num canto e um cinto no cabide, coisas fáceis de esquecer quando se arruma a mala rapidamente. — Alguém saiu daqui às pressas.
Minhas esperanças caíram por terra. Ao revelar nossa “surpresa”, Alicia parecia ter assustado Veronica, fazendo com que ela abandonasse o quarto. Não encontramos nenhum sinal de que voltaria e, como Adrian havia dito, ela parecia ter saído às pressas, a julgar pelas coisas que foram deixadas para trás: uma gilete no boxe, um frasco de perfume na pia do banheiro, e uma pilha de folhetos de restaurantes na mesa de cabeceira.
Sentei na cama e dei uma olhada nos folhetos, não muito convencida de que pudessem me dizer alguma coisa. Comida chinesa, indiana, mexicana. Pelo menos Veronica tinha um gosto diversificado. Cheguei ao fim da pilha e joguei todos no chão.
— Ela foi embora — eu disse. Não dava para negar os fatos. — Aquela idiota da Alicia abriu o bico e agora perdemos Veronica de novo.
Adrian sentou ao meu lado, o rosto refletindo a mesma frustração.
— Vamos encontrá-la. Diminuímos a velocidade dela escondendo as outras meninas. Talvez isso nos dê tempo até a próxima lua cheia, e então você poderá usar o feitiço de clarividência outra vez.
— Tomara — eu disse, embora não estivesse tão otimista.
Ele ajeitou um pouco do cabelo da minha peruca e virou meu rosto para ele.
— Vai ficar tudo bem. Ela não sabe nada sobre você.
Sabia que ele estava certo, mas aquilo não era um grande consolo. Encostei a cabeça no ombro dele, desejando poder reparar toda a situação. Era o meu trabalho, não era?
— Isso significa que outra pessoa pode sofrer no meu lugar. Não quero que isso aconteça. Preciso deter essa mulher de uma vez por todas.
— Quanta coragem. — Ele entreabriu um sorriso e passou a ponta dos dedos no meu rosto, descendo devagar pelo pescoço até o ombro. Onde quer que me tocasse, deixava um rastro de arrepio. Como continuava a fazer aquilo comigo? Marcus, que seduzia todas as meninas do mundo, não tinha nenhum efeito sobre mim. Mas um leve toque de Adrian me desfazia por completo. — Você poderia competir com Castile — acrescentou.
— Pare com isso — adverti.
— De comparar você a Castile?
— Não é disso que estou falando, e você sabe. — As mãos dele eram perigosas demais, assim como estar na cama com ele. Com medo de ser beijada mais uma vez, me afastei de repente, e o movimento rápido o pegou de surpresa. Seus dedos ficaram presos no meu cabelo e nos dois colares, o que fez com que as duas correntes se rompessem e a peruca morena quase saísse. Rapidamente, segurei a granada antes que caísse, mas a cruz escorregou. Graças a Deus eu tinha segurado a mais importante. — Nada de beijos — avisei. Prendi o amuleto de novo e endireitei a peruca.
— Você tinha dito nada de beijos a não ser num lugar romântico — ele me lembrou. — Está querendo dizer que este lugar não é romântico? — Ele indicou com a cabeça toda a cafonice de veludo ao nosso redor. Então pegou a pequena cruz e a ergueu no ar, parecendo pensativo enquanto examinava a maneira como a luz era refletida na superfície dourada. — Você me deu isto uma vez.
— E você me devolveu.
— Eu estava bravo.
— E agora?
Ele deu de ombros.
— Agora só estou determinado.
— Adrian — suspirei. — Por que continua fazendo isso? Os toques... os beijos... sabe que não quero.
— Não parece que não quer.
— Pare de falar essas coisas. Dá raiva. Daqui a pouco vai dizer que eu estava pedindo. — Por que ele tinha que ser tão irritante? Tudo bem, eu realmente não tinha passado uma mensagem muito clara na fraternidade. Ou no Tortas e Tal. Mas, dessa vez, estava conseguindo resistir. — Acabei de me afastar de você. Precisa que eu seja ainda mais direta?
— Não são exatamente suas ações — ele disse, ainda segurando a cruz. — É a sua aura.
Soltei um resmungo.
— Não, não, isso não. Não quero mais ouvir sobre auras.
— Mas estou falando sério. — Ele se virou e se esticou na cama, deitando de lado. Então afagou o lugar ao lado dele. — Deite.
— Adrian...
— Não vou beijar você — ele disse. — Prometo.
— Você me acha idiota? — perguntei. — Não vou cair nessa.
Ele me olhou longamente.
— Você realmente acha que vou atacá-la ou coisa assim?
— Não — respondi rápido. — Claro que não.
— Então deite, por favor.
Desconfiada, me deitei de lado também, olhando para ele a poucos e intensos centímetros de distância. Um olhar arrebatado e um tanto disperso surgiu em seu rosto.
Ele havia se entregado nas mãos do espírito.
— Sabe o que estou vendo agora? A aura de sempre. Um amarelo-ouro estável, forte e saudável, com pontinhos de roxo aqui e ali. Mas, quando faço isso...
Ele colocou a mão no meu quadril e todo o meu corpo ficou tenso. Sua mão deslizou sob a camiseta e parou na minha cintura. Minha pele ardia sob o toque dele, e os lugares não tocados ansiavam por aquele calor.
— Está vendo? — ele disse. Ele estava no auge do espírito agora, mas, ao mesmo tempo, estava comigo. — Quer dizer, acho que não. Mas, quando toco em você, sua aura... arde. As cores ficam mais fortes, brilham com mais intensidade, o roxo aumenta. Por quê, Sydney? Por quê? — Ele me puxou para mais perto. — Por que reage assim se não significo nada pra você? — Havia um desespero sincero em sua voz.
Foi difícil falar.
— É instinto. Ou algo assim. Você é Moroi. Eu sou alquimista. Claro que eu teria uma reação. Ou achou que eu seria indiferente?
— A reação da maioria dos alquimistas envolveria nojo, repulsa e água benta.
Era um ótimo argumento.
— Bom... fico mais à vontade com os Moroi do que a maioria dos alquimistas. Talvez seja só uma reação puramente física, causada por hormônios e anos de evolução. Meu corpo não sabe que é errado. Sou suscetível ao desejo como qualquer outra pessoa. — Devia haver um livro sobre isso ou pelo menos um artigo em alguma revista feminina.
A sombra de um sorriso perpassou seus lábios. Ele estava em completa sintonia comigo agora.
— Não, não é. Quer dizer, é, mas não sem motivo. Conheço você o suficiente para saber disso agora. Você não é o tipo de pessoa “suscetível ao desejo” sem que exista um sentimento para amparar esse desejo. — Ele desceu a mão para o meu quadril, deslizando-a pela minha perna. Senti um calafrio e ele aproximou o rosto do meu. Havia tantas coisas em seus olhos, tanto desejo e tanto anseio. — Viu? De novo. Minha chama na escuridão.
— Não me beije — murmurei. Foi o único argumento que consegui formular. Se ele me beijasse, eu estaria perdida. Fechei os olhos. — Você disse que não me beijaria.
— E não vou. — Seus lábios estavam a um centímetro dos meus. — A menos que você queira.
Abri os olhos, pronta para dizer não — que não importava o que minha aura pudesse estar dizendo, aquilo não poderia continuar. Que não havia nenhum sentimento por trás daquele desejo. Tentei me agarrar ao meu argumento anterior. Eu me sentia tão à vontade perto dos Moroi agora que era óbvio que uma parte primitiva em mim ficava esquecendo o que ele era. Era um instinto básico. Eu estava tendo uma simples reação física a ele, às suas mãos, aos seus lábios, ao seu corpo...
Ele segurou meu braço e rolou para cima de mim. Fechei os olhos e pus os braços em volta do pescoço dele. Senti seus lábios tocarem os meus, não ainda como um beijo, mas um mero toque de...
A porta se abriu e me retraí. Alicia entrou, levou um susto e pôs a mão na boca para abafar um grito de surpresa.
— Ah... ah — ela gaguejou. — Desculpem... eu... não imaginei que...
Adrian e eu nos afastamos imediatamente e nos sentamos. Meu coração estava prestes a sair pela boca, e sabia que estava vermelha. Arrumei a peruca rapidinho, aliviada ao perceber que ainda estava no lugar. Ele recuperou a voz primeiro.
— Desculpe... nos animamos um pouquinho demais. Estávamos olhando os outros quartos e decidimos, hum, experimentar um pouco. — Apesar das palavras inocentes, ele estava com um ar presunçoso, do tipo que se vê em um menino que acabou de fazer uma conquista. Era fingimento ou ele realmente achava que tinha conseguido alguma coisa?
Alicia parecia tão constrangida quanto eu.
— Entendi. Bom, este quarto está ocupado. É... — Ela franziu a testa ao olhar ao redor. — É da Veronica. Mas parece que ela foi embora.
Finalmente consegui falar.
— Foi por isso que achamos que estava vazio — eu disse rapidamente. — Não tinha nada aqui.
Felizmente, Alicia parecia ter se esquecido da nossa posição comprometedora.
— Que estranho. Ela não fez o registro de saída. Quer dizer, pagou adiantado em dinheiro, mas mesmo assim... Muito esquisito.
Saímos logo depois disso, mais uma vez dizendo para Alicia que entraríamos em contato. Nenhum de nós falou muito depois que entramos no carro. Eu estava perdida em meus próprios pensamentos, que se dividiam entre a frustração pelo sumiço de Veronica e a confusão causada por Adrian. No entanto, me recusava a admitir essa última parte, e escolhi minha tática de sempre. Quanto antes aquele momento fosse esquecido, melhor. Eu tinha quase certeza de que poderia continuar repetindo isso a mim mesma. Parte de mim, quase tão sarcástica quanto Adrian, sugeriu que eu pegasse um livro sobre negação da realidade da próxima vez que passasse pela seção de autoajuda.
— Mais um beco sem saída — eu disse quando estávamos de volta à estrada. Mandei uma mensagem para a sra. Terwilliger: V foi embora. Não precisa entrar em ação.
A resposta dela chegou alguns minutos depois: Vamos continuar tentando.
Eu quase podia sentir a decepção dela pelo celular. Ela não era a única. Adrian parecia especialmente melancólico no caminho de volta. Respondeu a tudo que eu disse, mas estava visivelmente distraído.
Quando me deixou em Amberwood naquela noite, encontrei tudo em um silêncio misericordioso. Nenhuma crise, nenhuma missão perigosa. Tinha a impressão de que fazia séculos que eu não tinha um momento para mim, e deitei, me sentindo reconfortada pelas tarefas rotineiras de lição de casa e leitura. Caí no sono com a cara afundada no livro de cálculo.
Tive um daqueles sonhos absurdos que todo mundo tem. O gato da minha família conseguia falar e estava dirigindo o Mustang de Adrian. Ele me perguntou se eu queria fazer uma viagem a Birmingham. Eu disse que tinha muitos trabalhos para fazer, mas que, se quisesse ir para Fargo, eu poderia considerar.
Estávamos negociando quem pagaria a gasolina quando, de repente, o sonho se dissolveu em trevas. Uma sensação fria tomou conta de mim, seguida por um pavor quase igual ao que senti quando Adrian e eu enfrentamos um Strigoi no apartamento dele. A gargalhada de uma mulher soou ao meu redor, sórdida e repulsiva, como uma fumaça tóxica. Uma voz surgiu da escuridão, ecoando em minha mente.
Ela escondeu você muito bem, mas não vai ser assim para sempre. Você não pode ocultar um poder como o seu eternamente. Estou no seu rastro. Ainda vou encontrar você.
Mãos surgiram das trevas para me pegar, envolvendo minha garganta e me impedindo de respirar. Gritei e acordei na minha cama, cercada por livros. Eu tinha deixado a luz acesa, o que afugentou parte do terror do pesadelo. Mas só um pouco. Estava pingando de suor, e minha camiseta estava empapada. Toquei meu pescoço, mas não havia nada de errado com ele. A granada continuava pendurada no lugar, mas não a cruz.
Não precisa ter medo de um sonho, pensei. Não tinha nenhuma importância e, aliás, com tudo o que vinha acontecendo nos últimos tempos, era uma surpresa eu não ter pesadelos com mais frequência. No entanto, quando me lembrei dele, não tive tanta certeza. Havia algo de muito terrível e real naquele sonho, um horror que parecia tocar minha alma.
Não quis dormir depois disso; fiz uma xícara de café e tentei voltar a ler. Funcionou por um tempo, mas, perto das quatro, meu corpo não aguentava mais. Caí no sono em cima dos livros de novo, mas dessa vez não sonhei.

Um comentário:

  1. Que raiva dessa Alicia!!! Primeiro estraga o plano e depois AQUELE MOMENTO!!! Me arrepiou todinha, nem eu aguento mais, Sydney por favor!!!
    E que finalzão de capítulo hein!!!!!!

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)