3 de outubro de 2017

Capítulo 15

NO DIA SEGUINTE, me senti tão culpada pelo que tinha feito com Brayden que cheguei a ligar para ele em vez de mandar uma mensagem ou e-mail como de costume.
— Sinto muito — eu disse. — Por ir embora daquele jeito... Não costumo fazer isso. Não mesmo. Não teria ido se não fosse uma emergência de família.
Talvez estivesse exagerando. Talvez não.
— Tudo bem — ele disse. Sem poder ver seu rosto, não sabia dizer se estava tudo bem mesmo. — Acho que as coisas já estavam degringolando mesmo.
Fiquei pensando o que ele queria dizer por “coisas”. Será que estava se referindo à festa em si? Ou à nossa relação?
— Vamos sair para que eu possa compensar — eu disse. — Você sempre faz as coisas, então vou cuidar de tudo pra variar um pouco. O jantar vai ser por minha conta e eu até busco você.
— Na perua?
Ignorei o tom de desprezo.
— Você topa ou não?
Ele topou. Combinamos os detalhes e desliguei me sentindo melhor em relação a tudo. Brayden não estava bravo. A visita surpresa de Adrian não tinha arruinado meu relacionamento incipiente. As coisas estavam voltando ao normal — pelo menos para mim.
Passei o dia seguinte à festa cuidando das minhas coisas, para não ficar para trás nos trabalhos da escola e não precisar me preocupar com assuntos sociais. A manhã de segunda deu início à semana, de volta às aulas como de costume. Eddie chegou ao restaurante do campus leste na mesma hora que eu, e esperamos juntos na fila para pegar a comida. Ele queria saber o que Adrian tinha ido fazer na festa, e contei uma versão resumida da noite, dizendo simplesmente que ele havia bebido demais e precisava de uma carona para casa. Não mencionei que eu tinha dado um jeito de fazer com que a rainha falasse bem dele para o pai, nem a parte sobre eu ser “a criatura mais linda que já caminhou sobre a terra”. E certamente não contei sobre o jeito que me senti quando Adrian me tocou.
Eddie e eu fomos até a mesa e encontramos Angeline tentando alegrar Jill, algo raro de se ver. O normal teria sido eu repreender Angeline pelo que ela fez na festa, mas não havia acontecido nada de ruim... daquela vez. Além disso, fiquei distraída demais com Jill. Era impossível vê-la triste sem imediatamente supor que havia algo de errado com Adrian. Antes que eu falasse alguma coisa, Eddie se adiantou, percebendo o que eu não havia percebido.
— Micah não veio? Ele saiu antes de mim. Pensei que já estivesse aqui.
— Você tinha que perguntar, né? — Angeline disse, com a cara amarrada. — Eles brigaram.
Eu podia jurar que Eddie parecia mais triste que a própria Jill.
— Sério? Ele não me contou nada. O que aconteceu? Vocês pareciam estar se divertindo tanto no sábado.
Jill assentiu com a cabeça, devagar, sem desviar os olhos da comida em que nem havia tocado. Pude ver lágrimas em seus olhos.
— Pois é, nos divertimos tanto que ele veio falar comigo ontem e perguntou se... se eu queria passar o Dia de Ação de Graças com a família dele. Eles são de Pasadena. Ele imaginou que poderia pedir a permissão da escola ou falar com vocês.
— Não parece tão ruim — Eddie disse, cuidadoso.
— Passar o fim de semana com a família dele é assunto sério! Uma coisa é ficarmos aqui, mas se começarmos a ir além... Se virarmos um casal fora da escola... — Ela suspirou. — As coisas vão andar rápido demais. Por quanto tempo eu conseguiria esconder quem eu sou? E mesmo se esse não fosse o problema, é perigoso. O motivo de eu estar aqui é justamente por ser um ambiente seguro e controlado. Não posso simplesmente sair para encontrar pessoas estranhas.
Aquele era outro passo para Jill em seu processo de aceitação das dificuldades de um relacionamento “casual” com Micah. Procurei fazer um comentário neutro:
— Parece que você pensou muito a respeito disso.
Jill levantou a cabeça abruptamente, como se só então tivesse notado que eu estava lá.
— Pois é. Acho que sim. — Ela me examinou por alguns instantes e, estranhamente, sua expressão desolada se abrandou, e ela sorriu. — Você está muito bonita hoje, Sydney. Essa luz... favorece muito você.
— Humm, obrigada — eu disse, sem saber o que havia provocado aquele comentário. Tinha quase certeza de que não havia nada de especial em mim naquele dia. Meu cabelo e maquiagem eram os de sempre, e eu estava usando a camiseta branca e a saia xadrez do uniforme, para compensar o excesso de cores do fim de semana.
— E a bainha vinho da sua saia realça muito a cor de âmbar dos seus olhos — Jill continuou. — Não é tão bom quanto aquele vermelho-vivo, mas ainda assim fica muito bem. Claro, você fica bem com qualquer cor, mesmo as mais sem graça.
Eddie ainda estava focado em Micah.
— Como começou a briga?
Para meu alívio, Jill tirou os olhos de mim e se dirigiu a ele.
— Ah, então. Disse a ele que não sabia se poderia ir no feriado de Ação de Graças. Talvez, se eu tivesse dado só um motivo, estaria tudo bem. Mas comecei a entrar em pânico, pensando em todos os problemas, e disparei a falar que talvez fôssemos passar na Dakota do Sul, ou que talvez minha família viesse para cá ou que talvez vocês não fossem deixar... ou, enfim, um monte de outras desculpas. Acho que ficou bem claro pra ele que eu meio que estava inventando tudo, e então ele me perguntou na cara dura se eu queria mesmo ficar com ele. Eu disse que sim, mas que era complicado. Ele perguntou o que eu queria dizer, mas claro que eu não pude explicar tudo, e aí... — Ela jogou as mãos para o alto. — Aí tudo foi pelos ares.
Nunca tinha pensado muito sobre o Dia de Ação de Graças nem que conhecer a família fosse um rito de passagem no namoro. A família de Brayden também morava no sul da Califórnia... será que era esperado que eu fosse conhecê-los algum dia?
— Micah não faz o tipo que guarda rancor — Eddie disse. — Além disso, ele é bastante razoável. Simplesmente conte a verdade.
— Que verdade? Que eu sou uma das últimas vampiras da minha linhagem e que para minha irmã manter o trono eu preciso estar viva e escondida? — Jill perguntou, incrédula.
A sombra de um sorriso passou pelos lábios de Eddie, embora eu pudesse ver que ele estava se esforçando muito para ficar sério em respeito a ela.
— Acho que esse é um caminho. Mas, não... O que quero dizer é: conte uma versão simplificada disso. Você não quer nada muito sério. Você gosta dele, mas quer que as coisas andem mais devagar. Faz sentido, sabe. Você tem quinze anos e está “namorando” há menos de um mês.
Ela ponderou as palavras dele.
— Você não acha que ele vai ficar bravo?
— Não se ele realmente gostar de você — Eddie afirmou, com veemência. — Se ele realmente gosta, vai entender e respeitar sua vontade, e ficar feliz por ter uma chance de ficar com você.
Fiquei imaginando se Eddie estava se referindo a Micah ou a si mesmo, mas era melhor ignorar esse pensamento. O rosto de Jill se iluminou.
— Obrigada — ela disse a Eddie. — Não tinha pensado nisso. Você está certíssimo. Se ele não puder aceitar como me sinto, não tem por que estarmos juntos. — Ela olhou de relance para um relógio de parede e levantou em um pulo. — Acho que vou procurar Micah antes que seja tarde.
E assim, de repente, ela foi embora.
Bom trabalho, Eddie, pensei. Você acabou de ajudar a menina dos seus sonhos a voltar para o namorado dela. Quando o olhar dele encontrou o meu, a expressão em seu rosto me disse que ele estava pensando exatamente a mesma coisa.
Com os olhos apertados de tanto pensar, Angeline ficou observando Jill sair rápido do restaurante.
— Mesmo se eles voltarem, não acho que vá durar. Nessa situação... não tem como dar certo.
— Pensei que você fosse a favor de relações entre vampiros e humanos — comentei.
— Ah, claro. De onde eu venho, não tinha problema. Mesmo neste mundo de vocês, acho que não tem problema. Mas Jill é um caso à parte. Ela precisa ficar escondida e em segurança para ajudar a família. Namorar esse garoto não ajuda em nada, por mais que ela queira acreditar nisso. No fim, ela vai fazer a coisa certa. É o dever dela. É maior do que suas vontades pessoais. Jill entende isso.
Em seguida, Angeline falou que precisava voltar para o alojamento para fazer algumas tarefas da escola. Eu e Eddie ficamos observando.
Ele meneou a cabeça, surpreso.
— Nunca pensei que veria Angeline tão...
— ... calma? — sugeri.
— Eu ia dizer... coerente.
— Ah, vai — eu disse, rindo. — Ela é coerente muitas vezes.
— Você entendeu o que eu quis dizer — ele argumentou. — O que ela acabou de falar é totalmente verdade. Foi sábio da parte dela. Ela entende Jill e a situação toda.
— Acho que ela entende muito mais do que a gente pensa — eu disse, me lembrando de como ela vinha se comportando melhor desde o show, exceto pela parte de entrar de penetra na festa. — Ela só precisa de tempo para se acostumar, o que faz sentido considerando como foi uma mudança drástica para ela. Você iria entender se tivesse visto o lugar de onde ela veio.
— Talvez eu a tenha julgado mal — ele admitiu, surpreso com as próprias palavras.
Parte de mim estava esperando uma bronca de Trey por ter deixado Brayden sozinho na festa. Em vez disso, não o vi em nenhuma aula de manhã. Estava quase preocupada quando lembrei que o primo dele ainda estava na cidade, talvez o enrolando em “questões de família”. Trey era capaz. Ele daria conta do que quer que estivesse acontecendo. Então por que todos aqueles machucados?, me perguntei.
Quando cheguei ao estudo independente com a sra. Terwilliger, ela estava esperando ansiosamente por mim, o que tomei como um mau sinal. Normalmente ela continuava trabalhando com afinco em sua escrivaninha e só me fazia um aceno de confirmação com a cabeça quando eu pegava os livros. Naquele dia ela estava de pé, em frente à escrivaninha, com os braços cruzados e olhando para a porta.
— Srta. Melbourne, espero que tenha tido um bom fim de semana. Sem dúvida você foi a mais bela da festa do Dia das Bruxas.
— Você me viu? — perguntei.
Por um momento, pensei que ela fosse dizer que tinha assistido tudo pela bola de cristal ou coisa assim.
— Claro. Eu estava lá como monitora. Meu posto era ao lado do DJ, então não é nenhuma surpresa você não ter me visto. Até porque não fui nenhum destaque como você. Devo dizer que aquele vestido que você estava usando era uma lindíssima reprodução neogrega.
— Obrigada — respondi, cansada de receber elogios a torto e a direito naquele dia, embora o dela fosse muito menos assustador do que o de Jill.
— Então — a sra. Terwilliger disse, retomando a postura profissional —, pensei que poderia ser interessante discutirmos alguns feitiços que você tem pesquisado para o meu projeto. Anotá-los é uma coisa. Entendê-los é outra.
Senti um frio na barriga. Apenas anotar e traduzir feitiços repetitivamente, sem ter que pensar muito e evitando falar com ela, era uma situação confortável para mim. Enquanto não tínhamos de estudá-los com profundidade, me sentia segura de que não estava tendo nenhum contato real com a magia. Temia o que ela tinha em mente, mas não haveria como protestar se tudo estivesse expresso nos termos do meu estudo e não envolvesse nenhum mal a mim ou a outras pessoas.
— Pode fazer a gentileza de fechar a porta? — ela pediu. Obedeci, e a minha sensação de desconforto aumentou. — Queria examinar aquele livro extra que dei a você, o de feitiços de proteção.
— Não estou com ele, senhora — disse, aliviada. — Mas, se a senhora quiser, posso ir buscá-lo no meu dormitório.
Se eu pegasse o ônibus certo — ou seja, o errado —, poderia passar uma parte gigantesca da aula no trajeto de ida e volta.
— Tudo bem. Comprei aquela cópia para seu uso pessoal — ela disse, pegando um exemplar da escrivaninha. — Tenho o meu. Vamos dar uma olhada?
Não tive como esconder minha decepção. Sentamos em carteiras lado a lado, e ela começou simplesmente lendo o sumário comigo. O livro era separado em três seções: Defesa, Ataques Planejados e Ataques Instantâneos. E cada seção era dividida por níveis de dificuldade.
— A parte de Defesa inclui vários amuletos de proteção e feitiços de fuga — ela me disse. — Por que você acha que eles vêm antes no livro?
— Porque o melhor jeito de vencer uma briga é evitar que ela aconteça — respondi imediatamente. — O resto é supérfluo.
Ela pareceu surpresa com a minha resposta.
— Sim... exatamente.
— É o que Wolfe disse — expliquei. — O instrutor do curso de defesa pessoal que estou fazendo.
— Bem, ele está certo. A maioria dos feitiços nesta seção faz exatamente isso. Este aqui... — ela disse, avançando algumas páginas no livro. — Este aqui é bem básico, mas muito útil. É um feitiço de ocultamento. Muitos componentes físicos, como é de se esperar de um feitiço para iniciantes, mas vale muito a pena. Você cria um amuleto e mantém o último ingrediente, pó de gipsita, em mãos. Quando estiver pronta para ativá-lo, basta acrescentar a gipsita e o amuleto ganha vida. Fica praticamente impossível alguém ver você. Aí você consegue sair do cômodo ou do local em segurança, sem ser vista, antes que a magia perca a força.
A escolha das palavras dela não passou despercebida e, apesar da minha resistência interna, não pude deixar de perguntar:
— Praticamente impossível?
— Não vai funcionar se souberem que você está lá — ela explicou. — Você não pode lançar e simplesmente ficar invisível, embora existam feitiços avançados para isso. Mas, se a pessoa não estiver esperando ver você... não vai conseguir vê-la.
Ela me mostrou outros, muitos dos quais eram básicos e precisavam apenas de um amuleto e de um método parecido de ativação. Um que ela classificou como intermediário tinha um efeito inverso, fazendo com que todas as pessoas em determinado raio de alcance ficassem temporariamente cegas. Somente quem lançava o feitiço mantinha a visão. Ao ouvir aquilo, me contorcia com a ideia de usar a magia para afetar os outros diretamente. Me ocultar era uma coisa. Mas cegar uma pessoa? Deixá-la tonta? Fazê-la dormir? Isso passava dos limites, usando meios repreensíveis e nada naturais para fazer algo que os humanos não tinham o direito de fazer.
Ainda assim... lá no fundo, parte de mim reconhecia a utilidade daquilo. O ataque me havia feito reconsiderar várias coisas. Por mais que me doesse admitir, agora podia ver que ceder meu sangue para Sonya talvez não fosse tão ruim assim. Talvez. Mas eu ainda não estava pronta para isso, absolutamente.
Ouvi com paciência enquanto ela folheava o livro, o tempo todo imaginando qual seria a intenção dela com aquilo tudo. Por fim, quando faltavam cinco minutos para o fim da aula, ela disse:
— Para a segunda que vem, quero que você recrie um destes, assim como fez com o amuleto de fogo, e escreva um relatório.
— Sra. Terwilliger... — comecei.
— Eu sei, eu sei — ela disse, fechando o livro e levantando. — Conheço muito bem seus argumentos e objeções, sobre como os humanos não têm o direito de usar esses poderes e toda essa baboseira. Respeito seu direito de pensar assim. Ninguém vai obrigar você a usar nada disso. Só quero que você continue a se familiarizar com a construção de um amuleto.
— Não consigo — respondi, obstinada. — Não vou fazer isso.
— Não é muito diferente de dissecar um sapo na aula de biologia — ela argumentou. — Botar as mãos na massa para entender o assunto.
— Acho que sim... — cedi, pesarosa. — Qual a senhora quer que eu faça?
— O que você quiser.
Essa ideia me incomodou ainda mais.
— Prefiro que a senhora escolha.
— Não seja boba — ela disse. — Você tem liberdade para escolher o tema da sua dissertação e para isso também. Não ligo para qual você faça, desde que cumpra a tarefa. Escolha o que interessá-la mais.
Aí estava o problema. Ao me dar a opção de escolha, ela me obrigava a me envolver com a magia. Para mim era fácil alegar que não tinha participação nenhuma naquilo e dizer que tudo que fiz foi sob coação. Mesmo que ela tenha ordenado a tarefa, essa pequena escolha me obrigava a ser proativa.
Sendo assim, adiei a decisão, o que era quase inédito para mim em se tratando de lições de casa. Em parte eu pensava que, talvez, se ignorasse a tarefa, ela desapareceria ou a professora mudaria de ideia. Além disso, eu tinha uma semana. Não havia por que me estressar com isso ainda.
Embora eu soubesse que não devíamos nada a Lia por ela ter nos dado as fantasias, pensei que o certo seria devolvê-las, só para não deixar dúvidas sobre minhas intenções. Depois que a sra. Terwilliger me liberou, coloquei as roupas nos sacos com zíper e fui para o centro. Jill ficou triste por ter de devolver a dela, mas concordou que era a coisa certa a fazer.
Lia, porém, pensava de outro modo.
— O que vou fazer com isso? — ela perguntou quando apareci na loja. Fiquei tonta só de ver seus enormes brincos de argola cravejados com pedrinhas de strass. — Foram feitos sob medida para vocês.
— Tenho certeza de que você pode ajustá-los. Além disso, não devem ser muito diferentes do seu padrão de tamanhos. — Fiz menção de entregar os cabides, mas ela cruzou os braços, obstinada. — Veja, eles ficaram lindos. Ficamos muito felizes pelo que você fez. Mas não podemos ficar com eles.
— Vocês vão ficar com eles — ela declarou.
— Se você não pegar, vou simplesmente deixar aqui no balcão — adverti.
— E eu vou mandar de volta para o seu alojamento.
Suspirei.
— Por que isso é tão importante pra você? Por que você não consegue aceitar um “não” como resposta? Tem um monte de meninas bonitas em Palm Springs. Você não precisa de Jill.
— Exatamente por isso — Lia disse. — Um monte de meninas bonitas que não destoam umas das outras. Jill é especial. Ela não tem consciência de que nasceu para isso. Ela pode alcançar muito sucesso algum dia.
— Algum dia — repeti. — Mas não agora.
Lia tentou outra abordagem:
— A campanha é de chapéus e cachecóis. Não posso usar máscaras de novo, mas posso colocar óculos escuros nela, especialmente se tirarmos as fotos ao ar livre. Já pensei em tudo...
— Lia, por favor. Nem tenta.
— Apenas me ouça — ela pediu. — A gente faz o ensaio fotográfico. Depois, vocês olham todas as fotos, uma por uma, e descartam as que não atenderem aos critérios esdrúxulos da sua religião.
— Não — insisti. — E vou deixar os vestidos aqui.
Coloquei-os sobre o balcão e saí, apesar dos protestos de Lia sobre todas as coisas maravilhosas que ela poderia fazer por Jill. Talvez um dia, pensei. Quando todos os problemas de Jill tiverem acabado. Mas algo me dizia que esse dia estava muito, muito distante.
Apesar da minha fidelidade ao Spencer’s, um pequenino café francês chamou minha atenção no caminho até o carro. Ou melhor, o cheiro do café deles chamou minha atenção. Não tinha nenhum compromisso na escola e parei para tomar uma xícara. Eu estava com um livro da matéria de inglês e decidi ler um pouco sentada em uma das pequenas mesas do lugar. Passei metade do tempo trocando mensagens com Brayden. Ele queria saber o que eu estava lendo e trocamos algumas de nossas citações favoritas de Tennessee Williams.
Estava lá havia menos de dez minutos quando sombras pairaram sobre mim, bloqueando o sol do fim da tarde. Eram dois homens, ambos desconhecidos, um pouco mais velhos que eu. Um era loiro de olhos azuis, e o outro moreno e muito bronzeado. Suas expressões não eram hostis, mas também não eram simpáticas.
Ambos eram fortes, como se treinassem regularmente. E então, olhando mais atentamente, percebi que reconhecia, sim, um deles. O rapaz moreno era o que havia falado comigo e com Sonya na rua, alegando conhecê-la do Kentucky.
Imediatamente, todo o pânico que eu vinha tentando reprimir naquela semana voltou a tomar conta de mim, me afogando naquela sensação de estar encurralada e indefesa. Mas bastou lembrar que estávamos num lugar público, cercados por outras pessoas, para que eu pudesse encará-los com uma calma surpreendente.
— Pois não? — perguntei.
— Precisamos falar com você, alquimista — o rapaz loiro disse.
Não movi um músculo do rosto.
— Acho que vocês estão me confundindo com alguém.
— Mais ninguém aqui tem uma tatuagem de lírio — o outro sujeito disse. No outro dia, ele havia se apresentado como Jeff, mas duvidava que fosse verdade. — Seria ótimo se você pudesse dar uma voltinha com a gente.
Naquele dia, minha tatuagem estava coberta, mas algo me dizia que aqueles caras estavam me seguindo havia algum tempo e não precisavam ver o lírio para saber que ele estava lá.
— De jeito nenhum — retruquei. Nem precisava dos lembretes de Wolfe para saber que aquela era uma péssima ideia. Eu estava segura no meio da multidão. — Se quiserem conversar, é melhor puxarem uma cadeira. Senão, façam o favor de ir embora.
Baixei os olhos para o livro, como se não estivesse nem aí. Meu coração, porém, estava acelerado e precisei de todo o meu autocontrole para que minhas mãos não começassem a tremer. Alguns segundos depois, ouvi o som de metal sendo arrastado no concreto, e os dois rapazes se sentaram à minha frente. Levantei os olhos e dei de cara com seus rostos impassíveis.
— É preciso pedir o café lá dentro — comentei. — Eles não servem aqui fora.
— Não estamos aqui para falar sobre café — Jeff disse. — Estamos aqui para falar sobre vampiros.
— Por quê? Vocês estão fazendo um filme ou coisa assim? — perguntei.
— Nós sabemos que você anda com eles — o loirinho disse. — Incluindo aquela Strigoi, Sonya Karp.
Parte da magia da tatuagem de lírio servia para impedir que os alquimistas revelassem informações sobre o mundo dos vampiros a estranhos. Nós literalmente não conseguíamos. A magia entraria em ação e nos impediria caso tentássemos. Como aqueles sujeitos já sabiam sobre a existência dos vampiros, a tatuagem não censuraria o que eu dissesse. Em vez disso, porém, preferi me censurar por conta própria. Algo me dizia que fingir ignorância era a melhor tática naquele caso.
— Vampiros não existem — eu disse. — Olha, se isso é algum tipo de piada...
— Nós sabemos o que vocês fazem — o loirinho continuou. — Vocês os odeiam tanto quanto nós. Então por que os estão ajudando? Como seu grupo se desnorteou tanto a ponto de perder de vista nosso objetivo original? Séculos atrás, nós formávamos um único grupo, unido, determinado a varrer todos os vampiros da face da terra em nome da luz. Seus irmãos traíram esse objetivo.
Já tinha outro protesto pronto quando notei um brilho dourado na orelha de Jeff. Ele estava usando um brinco minúsculo, uma esfera dourada com um ponto escuro no meio. Não pude evitar dizer:
— Seu brinco — eu disse. — É o símbolo do Sol, o símbolo do ouro.
Era exatamente o mesmo símbolo que estava gravado no cabo da espada que pegamos no beco.
Ele tocou o brinco e assentiu.
— Não esquecemos a missão ou nosso propósito original. Nós servimos à luz. Não às trevas que encobrem os vampiros.
Ainda assim, me recusei a reconhecer qualquer coisa que dissessem sobre vampiros.
— Foram vocês que me atacaram quando eu estava com a minha amiga no beco, semana passada.
Nenhum dos dois negou.
— Sua “amiga” é uma criatura das trevas — o loirinho disse. — Não sei como ela conseguiu fazer esse encantamento, fazendo-se passar pelo outro tipo de vampiro, mas vocês não podem se deixar enganar. Ela é demoníaca. Vai matar você e muitas outras pessoas.
— Vocês são malucos — respondi. — Nada disso faz sentido.
— Só nos diga onde é o covil dela — Jeff disse. — Sabemos que não é naquele apartamento do outro lado do centro. Temos vigiado e ela não voltou para lá desde nossa última tentativa de destruí-la. Se você não quer nos ajudar ativamente, essa informação bastará para livrarmos o mundo do mal que ela representa.
Temos vigiado. O apartamento de Adrian. Senti um calafrio atravessar meu corpo. Há quanto tempo vinham espionando a casa dele? E até que ponto? Será que simplesmente ficavam num carro do lado de fora, como os policiais dos filmes? Ou será que tinham equipamentos de vigilância altamente tecnológicos? Wolfe havia nos aconselhado sobre como evitar perseguições em estacionamentos, não em nossas próprias casas. Meu único consolo era que eles obviamente não sabiam nada sobre a mansão de Clarence. A vigilância deles não devia ter sido tão eficiente se ninguém a seguira até lá ainda. Mas será que estavam me seguindo? Será que sabiam onde eu estudava?
E, com suas palavras, eles haviam confirmado a terrível realidade sobre a qual eu mal me atrevia a especular. Aquela realidade confirmava que existiam forças ocultas à visão supostamente onisciente dos alquimistas, forças que trabalhavam contra nossos objetivos.
Caçadores de vampiros eram reais.
Com essa descoberta, vieram à tona centenas de outras questões ainda mais aterrorizantes. O que isso representava para os Moroi? Será que Jill estava em perigo?
E Adrian?
— A única coisa que vou fazer é chamar a polícia — respondi. — Não sei quem vocês são ou por que estão obcecados com a minha amiga, mas nós não temos nada a ver com vocês. Vocês são ainda mais loucos do que eu pensava se acham que vou dizer onde ela está para que possam persegui-la.
E então, por pura sorte, vi uma policial descendo a rua. Os dois rapazes seguiram meu olhar e, obviamente, adivinharam meus pensamentos. Seria muito fácil chamá-la até ali. Não havíamos feito nenhum boletim de ocorrência sobre o ataque no beco, mas acusar aqueles rapazes de um ataque recente os deteria, sem a menor sombra de dúvida. Em sincronia, ambos se levantaram.
— Você está cometendo um erro grave — Jeff disse. — Poderíamos ter erradicado esse problema há séculos se nossos grupos trabalhassem juntos. Primeiro os Strigoi, depois os Moroi. A decadência desnorteada do seu grupo à corrupção dos vampiros quase pôs tudo a perder. Felizmente, ainda seguimos o verdadeiro caminho.
O fato de ele ter mencionado o nome dos dois grupos de vampiros era particularmente alarmante. Sem dúvida aqueles caras eram perigosos, mas nem tanto se falassem sobre vampiros em termos vagos e obscuros. Usar “Moroi” e “Strigoi” indicava um grande conhecimento.
O loirinho colocou um pequeno panfleto caseiro sobre a mesa.
— Leia isso e talvez você encontre a luz. Entraremos em contato.
— Não faria isso se fosse vocês — respondi. — Mexa comigo de novo e farei muito mais do que ter uma conversinha agradável.
Minhas palavras saíram mais agressivas do que eu esperava. Talvez estivesse convivendo demais com Dimitri e Wolfe.
Jeff riu conforme os dois começaram a se afastar.
— É uma pena que você fique metida nos livros — ele disse. — Você tem espírito de caçadora.

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