30 de outubro de 2017

Capítulo 14

Adrian… de novo

DEPOIS DE GARANTIR QUE TÍNHAMOS ESCAPADO DOS ALQUIMISTAS, pelo menos por enquanto, a primeira coisa que precisava fazer era proteger Declan e minha mãe.
— Onde você está? — perguntei para ela quando atendeu o telefone. Estava sentado no banco de trás enquanto Marcus dirigia rumo ao que esperava ser um esconderijo seguro. Sydney estava no banco do passageiro, mandando atualizações por mensagens para quase todo mundo que a gente conhecia.
— Na casa do Clarence — minha mãe respondeu. — Onde mais eu estaria?
Soltei um suspiro aliviado.
— Ótimo. Você precisa ficar aí por um tempo. Não saia. Você tem coisas suficientes para Declan? — Tinha achado que ela exagerara na primeira compra. Agora estava grato por isso.
— Bom, acho que sim, embora ele não goste muito daquelas chupetas que comprei. Talvez precise de uma diferente…
— Não saia — repeti. — É muito provável que a casa esteja sendo vigiada. Os alquimistas sabem que estamos aqui.
Imediatamente minha mãe entendeu a gravidade da situação.
— Vocês estão bem?
— Estamos, conseguimos fugir. Mas eles vão vigiar todos os nossos pontos de encontro para nos encontrar. Vão saber que não voltamos para a casa do Clarence, o que é ótimo. Mas também não podem saber que você e Declan estão aí. Precisamos que continue assim. Fiquem aí dentro.
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Adrian, tem alguma coisa… diferente no Declan, não tem?
— Especial — corrigi. — Ele é muito, muito especial. E por enquanto é melhor que os alquimistas não saibam que ele existe. Se quiserem vir atrás de mim e de Sydney, tudo bem. Mas o bebê precisa ficar fora do radar deles.
— Entendi — ela disse. — Se precisarmos de alguma coisa, mando entregar aqui ou peço para Rose e Dimitri comprarem. Eles podem sair?
Hesitei.
— Sim. Os alquimistas não têm interesse neles. Podem ficar curiosos para saber por que estão na cidade, mas não vão invadir a casa de Clarence para descobrir, não sem outro motivo. Outros Moroi e dampiros já se hospedaram aí antes. Posso falar com um deles?
Depois de algum movimento, Rose atendeu.
— Estou vendo pela cara da sua mãe que alguma coisa deu errado.
— Os alquimistas sabem que eu e Sydney estamos aqui — disse para ela. — Conseguiram rastrear Marcus quando ele chegou à cidade e viram a gente junto.
Não tinha como ter certeza, mas tive a impressão de que Rose xingou em russo.
— Então qual é o plano?
— Estamos indo para um lugar que é, teoricamente, seguro — eu disse para ela. — De lá, Sydney vai investigar os guerreiros e, depois, vou interrogar Alicia.
— Quero ir junto — Rose disse, prontamente.
— Eu sei, mas preciso muito, muito mesmo, que vocês fiquem com Declan e minha mãe. Estava falando para ela agora que não pode sair da casa. Acho que os alquimistas não sabem que ela está na cidade e quero que continuem sem saber. Mas, se acontecer alguma coisa esquisita, preciso que vocês os protejam.
— Como assim, “alguma coisa esquisita”? Por que alguém se importaria com eles? — Assim como minha mãe, Rose estava começando a desconfiar que tinha algo estranho acontecendo.
— Não posso contar — eu disse. — Mas confie em mim: é importante. Pelo menos um de vocês precisa ficar com eles o tempo inteiro. Se der pra você me encontrar com segurança quando eu for falar com Alicia, tudo bem. Mas, enquanto isso não acontecer, prometa que vai cuidar deles.
Houve um longo silêncio e pude adivinhar o porquê. Assim como todo mundo, Rose queria encontrar Jill. Com tantas pistas em potencial, era compreensível que preferisse estar envolvida nessa missão a ficar cuidando de um bebê. Mas Rose vira o suficiente na comunidade e era minha amiga, então enfim aceitou.
— Está bem. Vamos ficar de olho nos dois. Mas, se houver alguma coisa que possamos fazer para encontrar Jill, qualquer coisa…
— Aviso vocês — prometi. Desliguei e observei ao redor. — É aqui?
Tínhamos saído da área urbana de Palm Springs e entrado no deserto. Paramos num lugar que fazia o terreno de Wolfe parecer completamente civilizado. Uma única cabana solitária se erguia na paisagem desolada, e os pneus do carro levantavam nuvens de poeira enquanto seguíamos na direção dela por uma estrada arenosa.
— Sim — Marcus disse.
— Bom, é definitivamente afastada — Sydney comentou. — Mas é segura?
— É o lugar mais seguro que vamos conseguir agora — Marcus nos garantiu, estacionando o carro na frente da casa. — Ninguém nos seguiu até aqui. Ninguém sabe da minha relação com essas pessoas.
Saímos do carro e seguimos Marcus até a porta. Ele precisou bater três vezes, cada vez mais alto, até a porta finalmente abrir. Um homem de cinquenta e poucos anos, com o cabelo desgrenhado e óculos de aro redondo, nos encarou, estreitando os olhos sob o sol como um Moroi. Seu rosto se iluminou quando reconheceu nosso amigo.
— Marcus, cara! Quanto tempo!
— Bom ver você também, Howie — Marcus respondeu. — Eu e meus amigos precisamos de um lugar pra ficar. Tudo bem se passarmos um tempo aqui?
— Claro, claro. — Howie deu um passo para o lado para podermos entrar. — Entra aí.
— Howie e a mulher dele, Patty, cultivam e vendem todo tipo de ervas — Marcus explicou.
Respirei fundo ao entrar na sala, que poderia ter saído diretamente de 1971.
— Especialmente uma erva em particular — acrescentei.
— Não se preocupa — Marcus disse, abrindo um sorriso com o canto dos lábios. — Eles são gente boa.
Sydney torceu o nariz.
— Não vai adiantar muito fugir dos alquimistas se formos presos numa batida de drogas.
Marcus não parecia preocupado.
— Esse é o menor dos nossos problemas. Eles vão nos dar um lugar para ficar. E a cozinha está sempre abastecida.
Isso, pelo menos, era verdade. Desde que pudéssemos sobreviver à base de porcarias, não correríamos risco de passar fome tão cedo. Nunca tinha visto tantas caixas de bolinhos recheados na vida. Patty era tão simpática e chapada quanto o marido, e nos garantiu que poderíamos ficar o quanto quiséssemos. Os dois deviam passar a maior parte do tempo no porão ou no jardim, cultivando as várias plantas que usavam ou vendiam. Depois que nos acomodamos, desapareceram no andar de baixo, deixando-nos a sós para continuar os planos. Descobri então que, enquanto conversava com minha mãe e Rose, Marcus e Sydney tinham recebido mais informações.
— Sabrina ligou para Marcus. Ela vai levar Eddie e eu até os guerreiros hoje à noite — Sydney disse. — Bem tarde. Parece que precisamos chegar ao amanhecer. A sra. Terwilliger vai vir mais cedo com Eddie para ajudar com alguns feitiços e nos preparar.
— Acho que não preciso dizer que Eddie vai ter que tomar cuidado ao vir pra cá — Marcus disse. — A essa altura, os alquimistas devem estar de olho em todos os seus conhecidos na região.
— Ele vai tomar cuidado — ela disse, confiante. — Ele sabe como não ser seguido. — Ela se voltou para mim. — Depois, a sra. Terwilliger vai levar você com ela para interrogar Alicia quando as bruxas a descongelarem. Promete pra mim que vai tomar cuidado, Adrian? Pega leve com ela. Use o mínimo de compulsão necessária. Lembre que são grandes as chances de ela sequer saber onde os guerreiros estão mantendo Jill.
Pegar leve com ela? Mesmo sabendo que Sydney tinha dito isso para me proteger, era impossível seguir essa recomendação. Como poderia pegar leve com a mulher que havia sequestrado Jill? Que era o motivo por que Jill podia estar sofrendo nas mãos daqueles malucos? Sonya estava em péssimo estado quando foi resgatada dos guerreiros e eles já estavam com Jill havia muito mais tempo.
Alicia vai pagar, tia Tatiana prometeu na minha cabeça.
Para Sydney, disse:
— Vou ver o que posso fazer.
Meu celular tocou e soltei uma risada irônica ao ver o nome na tela.
— Pouca gente pode dizer que falou com a rainha Moroi duas vezes no mesmo dia. Alô?
— Adrian? — veio a voz de Lissa. — O que você fez?
— Por que você parte do princípio que fiz alguma coisa? — perguntei.
Lissa suspirou.
— Porque um burocrata alquimista acabou de me ligar muito furioso e agitado porque você e Sydney estão à solta em Palm Springs! Deixaram bem claro que vão fazer de tudo para capturar Sydney de volta. Pensei que estavam sendo discretos.
— Nós estávamos, nós estávamos — eu disse. — Foi meio que um acidente. Mas estamos seguros por enquanto.
— Bom, tentem continuar assim. O lado bom é que consegui perguntar sobre a possibilidade de os alquimistas botarem pressão nos guerreiros.
Me enchi de esperança. Assim, Sydney não precisaria se infiltrar entre os guerreiros e eu não teria que interrogar Alicia. Os alquimistas simplesmente resgatariam Jill por nós.
— E aí? — perguntei.
— Aconteceu o que temia: querem mais provas. Quer dizer, a pessoa com quem conversei disse vagamente que faria algumas “investigações”, mas tive a impressão de que não estava me levando a sério. Acho que pensou que eu estava usando isso para desviar a atenção do fato de que você e Sydney estão fora da Corte.
Minhas esperanças desmoronaram enquanto meu olhar pousava em Sydney. Ela procurava espaço para sentar num pufe cheio de coisas do outro lado da sala. A ideia de ela partir para investigar o complexo dos guerreiros me deixava péssimo. Era diferente de quando tinha saído com Eddie e a sra. Terwilliger. Estava indo direto para as garras de um dos nossos inimigos. E se fosse descoberta? E se os guerreiros tentassem reatar a amizade com os alquimistas usando-a como moeda de troca? E se decidissem fazer dela um exemplo por ser uma mulher que casou com um vampiro?
Não tem como isso dar certo, tia Tatiana reiterou.
— Mas vou continuar tentando convencê-los — Lissa disse, sem saber dos meus pensamentos agitados. — Vocês vão tentar conseguir respostas por conta própria?
— Parece que sim — respondi.
— Certo, me avisa se eu puder ajudar em alguma coisa. Conversei com Rose mais cedo e ela contou que você já deixou uma missão pra ela. Use Rose, Dimitri e Neil como achar necessário para ajudar no resgate de Jill.
O tom de Lissa pareceu completamente inocente e percebi que Rose devia ter mantido Declan em segredo até da melhor amiga. Fiquei grato por isso, mesmo que me fizesse lembrar da situação precária do bebê. Ouvir o nome de Neil também me recordou que ainda não havíamos tido a oportunidade de explicar para ele o que estava acontecendo. Mas muitas complicações não paravam de aparecer.
Passamos o resto do dia esperando Jackie e Eddie chegar. Marcus, que havia passado boa parte da vida em fuga, parecia perfeitamente à vontade enfurnado na salinha da cabana. Eu e Sydney, que tínhamos nos acostumado logo com nossa recente liberdade, sofremos um pouco. Fizemos todos os planos que dava para fazer com nossos amigos remotamente e depois tentamos passar o tempo. Apesar da localização afastada, estávamos com medo de sair. A única TV da casa ficava no porão, e a fumaça que subia de lá era suficiente para nos manter afastados. Só nos restou uma pilha de revistas velhas para nos entreter.
— Tem um carro estacionando — Marcus disse no fim da tarde. Ele estava parado perto da janela, espiando por entre as cortinas fechadas de vez em quando. Seu rosto franziu. — Não estou vendo Jackie nem Eddie.
Sydney levantou em um salto e foi até a janela ao lado dele. Depois de um instante, sua tensão passou.
— Tudo bem. Conheço essas pessoas.
Marcus abriu a porta e duas mulheres que reconheci entraram. Uma era Maude, a integrante mais velha do clã de Sydney, que também havia ajudado no lago. A outra era a boa e velha Inez, que me deu uma piscadinha malandra. Maude ficou parada perto da porta, mantendo-a aberta como se esperasse que outra pessoa fosse entrar. Ninguém entrou e, depois de alguns segundos, ela fez sinal para Marcus fechar a porta. Convivia com Sydney havia tempo suficiente para entender que alguém invisível tinha entrado e, quando me toquei disso, o feitiço de invisibilidade se quebrou.
— Eddie! — Sydney exclamou, correndo para dar um abraço nele.
Ele sorriu.
— Vocês estão bem?
— Sim — respondi. — Só estocando carboidratos e esperando a próxima fase dessa loucura começar.
— Tem certeza de que ninguém seguiu vocês? — Marcus perguntou, fechando bem as cortinas da janela da frente.
— Absoluta — Eddie disse. — Nos encontramos num lugar público e os alquimistas que estão me vigiando nem perceberam que saí com essas duas.
Inez estava avaliando a sala com seu olhar crítico e não parecia impressionada.
— Jaclyn nos mandou porque não conseguia se livrar dos amigos de vocês. Estão vigiando a casa dela.
— Os alquimistas não são meus amigos — Sydney retorquiu.
— Bom, eles são um pé no saco, isso sim — Inez disse. — Mas prometemos para ela que ajudaríamos, então aqui estamos nós.
— Obrigada — Sydney disse, adoravelmente educada como sempre. — Imagino como deve ser um incômodo para as senhoras.
Maude abriu um sorriso doce para ela.
— Não é um incômodo tão grande quanto certas pessoas fazem parecer. — Ela depositou duas sacolas na mesa, cheias até a borda de ingredientes misteriosos. — Então, precisamos deixar você mais forte.
— Ah é? — Sydney perguntou, surpresa.
Inez arregaçou as mangas do vestido estampado de rosas e observou dentro de um dos sacos.
— Jaclyn disse que você vai se meter em brigas ou alguma loucura assim.
— Sim, mas pensei que usaria as técnicas de fuga que Wolfe me ensinou.
— Wolfe? — Inez bufou com desprezo. — Aquele hippie que Jaclyn está namorando? Acredite em mim, inteligência e “técnicas de fuga” são ótimas se forem tudo o que você tiver, mas, se tem a chance de ser a mais forte e violenta, sempre seja a mais forte e violenta.
Ela estava errada em vários sentidos, primeiramente ao se referir a Wolfe, que tinha mais armas do que qualquer pessoa que conhecia, como um hippie.
Com cuidado, Inez tirou da sacola um cantil de aparência inofensiva.
— O que é isso? — perguntei.
— Uma poção muito complexa e especial — Maude respondeu. — Várias de nós trabalhamos nela quase o dia todo.
Enquanto ela falava, percebi as olheiras em seu rosto e o cansaço em sua voz. Sydney também notou.
— Não precisavam fazer isso… — ela disse.
— Precisávamos — Maude disse, simplesmente. — Limpar a bagunça da Alicia é nossa responsabilidade e, se isso envolver preparar você para atos violentos, vamos ajudar com isso.
— O que tem aí? — perguntei. O poder e o alcance da magia humana ainda me fascinavam. E me concentrar nisso me distraía de pensar em Sydney e nos “atos violentos”.
— É melhor não saber — Maude me respondeu. — Então, agora precisamos terminar o feitiço…
Ouvimos o som de uma porta abrindo. Segundos depois, a cortina de miçangas que separava a sala da cozinha estremeceu e Howie entrou. Pareceu surpreso ao ver mais gente ali e pestanejou, como se quisesse se certificar de que todos eram reais. Imaginei que devia ter que fazer isso o tempo todo. E, considerando minhas interações cada vez mais constantes com tia Tatiana, entendia a sensação.
— Marcus, cara — ele disse, ajeitando os óculos. — Não sabia que você tinha chamado mais gente. A gente está procurando o Doritos. Você viu o Doritos?
Marcus apontou para uma mesa de canto ao lado do sofá. Howie abriu um sorriso ao pegar o pacote de Doritos, mas ficou desapontado quando viu que estava quase vazio.
— Você comeu esse Doritos aqui em cima na hora do almoço — Marcus o lembrou.
Howie pareceu não acreditar.
— Comi?
— Sim — confirmei. — Você disse que estava assistindo um filme de tubarão mutante na TV.
— Trey também estava assistindo esse filme hoje — Eddie comentou, num tom casual demais, o que me fez pensar que Trey não era o único que estava assistindo.
— Era no mesmo estilo de A vingança do Raptorbot? — Sydney perguntou, irônica.
Howie ergueu a mão para falar.
— Essas coisas não são inventadas, sabia? A vida real é mais estranha que a ficção, cara. O governo está escondendo isso de nós.
— Total — Marcus disse, levando Howie de volta para trás da cortina de miçangas. — Por que você não leva alguns biscoitos para o porão? Acho que vi uns de manteiga de amendoim na cozinha.
Marcus explicou um pouco a situação para nosso anfitrião e o mandou para outro cômodo. Nenhum de nós falou nada até ouvirmos a porta do porão fechar. Eddie comentou:
— A vida real é muito mais estranha que a ficção.
— Nem me fala — Sydney disse, voltando a encarar o cantil. — O que preciso fazer?
— Beber — Inez disse. — A gente misturou um pouco de Tang para melhorar um pouco o gosto. Veja bem, um pouco.
— Mas primeiro vamos terminar o feitiço — Maude disse. Ela e Inez deram as mãos em volta da mesa onde estava o cantil. Tinha ouvido Sydney recitar feitiços suficientes para reconhecer o som do latim. Também tinha aprendido o bastante para saber que a maioria dos feitiços que ela usava era simples, com resultados imediatos. O tipo que aquelas bruxas estavam fazendo agora — feitiços com múltiplas partes que exigiam várias usuárias de magia — era potente, o que a expressão impressionada de Sydney confirmou. Quando elas terminaram de falar, Maude entregou o cantil para Sydney com um movimento dramático. — Beba tudo.
Sydney abriu a tampa e fez uma careta ao encarar o conteúdo. Estava ao lado dela e também fiquei com nojo. O líquido tinha cheiro de corda molhada… e Tang.
— Quanto mais rápido você beber, melhor — Inez acrescentou. — Tampar o nariz pode ser uma boa também.
Sydney fez as duas coisas, mas nada a impediu de sentir ânsia de vômito.
— É melhor não vomitar — Inez avisou. — Porque é tudo que temos.
Sydney fez careta e balançou a cabeça enquanto devolvia o cantil.
— Não vou vomitar. E agora? Estou mesmo mais forte? A única coisa que sinto é vontade de escovar os dentes. — De fato, não haviam aparecido músculos e ela não começou a levantar peso compulsivamente.
— Quão mais forte? — Eddie perguntou, ansioso. — Tipo, capaz de levantar um carro?
Maude sorriu.
— Desculpa desapontar, mas não. Isso chamaria muita atenção, e imagino que não seja o que vocês querem. Nosso poder tem limites também. Não podemos sair por aí criando deuses. Diria que… — Ela olhou de Eddie para Sydney, especulando enquanto seu sorriso crescia. — Diria que você está com força suficiente para enfrentar um dampiro numa queda de braço.
— Adoraria ver isso — admiti. A expressão de Eddie mostrava que ele também.
Sydney resmungou.
— Sério? Que coisa mais primitiva!
Eddie se debruçou sobre a mesa e apoiou o cotovelo onde antes estava o cantil.
— Vamos lá, sra. Ivashkov. Vamos testar isso. Além do mais, se você tiver problemas com uma queda de braço, como vai lidar com os guerreiros cara a cara?
Ele tinha razão, pelo menos com base nas histórias que Sabrina havia nos contado.
Sydney sentou à mesa na frente dele e imitou a posição do braço. Seus dedos se entrelaçaram e Marcus fez a contagem regressiva, parecendo quase tão animado quanto Eddie. Para a minha surpresa, quando eles começaram, Eddie não virou o braço dela imediatamente. Seus olhos se arregalaram e seu sorriso se abriu ainda mais. Ele aumentou o esforço e começou a fazer algum progresso. Rangendo os dentes, Sydney forçou de volta e ficou na frente da disputa.
— É estranho — ela disse. — Sinto a força dentro de mim… como se fosse minha, mas não parte de mim. Como uma roupa que estou vestindo. — No fim, Eddie se esforçou ao limite e a derrotou, mas só depois de um bom tempo. Ergui o braço dela como o de uma vencedora numa luta de boxe, triunfante.
— Minha esposa, senhoras e senhores. Linda, inteligente e, agora, forte.
— Incrível — Eddie disse, num raro momento de diversão. — Quanto tempo vai durar?
— Quatro dias — Maude disse, como se pedisse desculpas. — Como falei, não podemos criar deuses.
— Quatro dias — Sydney repetiu. — Sabrina vai nos levar hoje à noite. Então vamos ter três dias e meio para descobrir o que os guerreiros estão escondendo sobre Jill.
— Ou só bate em todo mundo no primeiro dia pra deixarem você em paz depois — Marcus sugeriu, prestativo.
Encarando a segunda sacola que as bruxas haviam trazido, perguntei:
— O que mais tem aí além de superforça?
Maude começou a tirar itens da sacola.
— Jackie falou que precisamos fazer algumas mudanças na aparência dela também.
— Já fiz feitiços assim antes — Sydney disse para elas. — Não precisam fazer mais nada.
— Fica quieta, menina — Inez retrucou. — Você precisa poupar sua magia para a loucura em que vai se envolver. Além disso, manter um feitiço desses ativo não é tarefa fácil. Você já fez isso por uma semana? — Ela deu uma olhada de soslaio para Eddie. — Para duas pessoas?
— Não, senhora — Sydney admitiu.
Maude tirou duas caixas de tinta de cabelo no tom “castanho lustroso”.
— Uma pra cada — ela disse. — Vocês podem tingir depois que a gente for embora. Quanto mais pudermos disfarçar sem magia, melhor.
Eddie pegou uma das caixas e ergueu a sobrancelha, mas não fez nenhuma reclamação. Alguns caras teriam um ataque por ter que pintar o cabelo, mas Eddie não. Pensei que, quando você derrotava criaturas do mal cotidianamente, um pequeno tratamento de beleza não ameaçava nem um pouco sua masculinidade.
O resto que ela tirou da sacola eram ingredientes normais de feitiço: ervas, cristais e pós. Maude e Inez começaram a montar um círculo sobre a mesa e percebi que seria outro ato complicado de magia que exigia múltiplas partes e pessoas. Sydney também notou.
— É tanta coisa… — ela murmurou para mim. — Estão ajudando muito.
— Aceite — respondi, apertando sua mão. — Você vale a pena. Jill vale a pena.
Quando os materiais estavam prontos, Inez posicionou dois anéis de prata no meio de tudo. Ela encarou Maude.
— Você está pronta?
Maude assentiu e caminhou até Sydney, segurando uma varinha. Relutante, dei um passo para o lado e perguntei:
— Por que você nunca usa uma varinha?
Sydney sorriu.
— Apesar dos clichês, as bruxas raramente usam varinhas. Elas só são necessárias para trabalhos complicados ou se parte da varinha tiver um elemento que pode concentrar ou ampliar a magia. — Ela observou os cristais na varinha de Maude. — Chutaria concentração neste caso.
— Exato — Maude respondeu. — Agora fique parada e feche os olhos. — Ela recitou um verso em grego e um brilho tênue iluminou a varinha. Um momento depois, ela tocou a ponta do nariz de Sydney. Devagar e com cuidado, Maude foi mudando a varinha de lugar, passando pelos cílios de Sydney, depois pelas bochechas e pelo queixo.
Em cada lugar que a varinha tocava, era como se Maude estivesse pincelando uma pintura, mudando cada traço de Sydney. Suas bochechas ficaram um pouco mais cheias, e seu rosto mais estreito. Eram mudanças sutis, mas, quando somadas, a transformavam por completo. Mesmo com a cor natural do cabelo, duvidava que alguém a reconheceria. Em pouco tempo, até mesmo a tatuagem de Sydney desapareceu. A maior surpresa de todas foi quando Maude deu um passo para trás e mandou Sydney abrir os olhos. Seus olhos, antes castanhos, estavam de um azul tão vívido quanto os de Marcus.
Não consegui conter uma exclamação e Sydney virou para mim com um sorriso inocente.
— Ainda me reconhece?
— Te reconheceria em qualquer lugar — respondi, galanteador.
— Eu não — Eddie disse.
Imediatamente, Maude voltou sua atenção para ele.
— Sua vez. Feche os olhos.
Ele fechou e ela repetiu o feitiço. Fiquei observando admirado enquanto seu rosto mudava de aparência no lugar em que a varinha encostava. Quando ela terminou, ele não era mais o Eddie que conhecia, mas definitivamente parecia parente da nova Sydney.
— Posso ver? — Eddie perguntou, ansioso.
— Espera — Inez disse, tirando a varinha de Maude. — Precisamos agir rápido para salvar o feitiço. — Ela brandiu a varinha sobre os anéis e voltou a entoar em grego.
Faíscas saíram da varinha. Quando Inez terminou, entregou um anel para Eddie e o outro para Sydney. Eles os colocaram e Sydney perdeu o fôlego.
— Que estranho… — ela murmurou. — Sinto como se alguma coisa tivesse fechado.
— Esses anéis garantem os feitiços de vocês agora — Maude disse. — Se tirarem, vão retornar à aparência original. Caso contrário, os feitiços vão durar por mais ou menos uma semana.
— Esse é o seu verdadeiro prazo — Inez acrescentou. — Você pode disfarçar quando sua força for embora. Mas, quando seu rosto voltar ao normal, estão fritos. Aí realmente vai precisar da inteligência para se explicar.
Ela falou com o mesmo tom sarcástico e excêntrico de sempre, mas, mesmo assim, deu pra notar que estava exausta. Uma rápida conferida na sua aura comprovou isso. A magia que tinham realizado ali era substancial, sem contar o que já havia sido iniciado antes, com a ajuda das outras bruxas. Sydney se voltou para Maude e Inez.
— Não sei como agradecer pelo que fizeram. De verdade. Significa muito para mim e…
— Sem sentimentalismos — Inez interrompeu. — Sabemos que você está agradecida. E tem que estar mesmo. Mas agora precisa provar isso arrumando a bagunça da Alicia. Vai lá salvar sua amiga.
Sydney se endireitou.
— Sim, senhora.
As bruxas deram as instruções finais, tanto para Sydney quanto para mim, já que as encontraria mais tarde para interrogar Alicia. Depois foram embora. Eddie e Sydney seguiram direto para o espelho e se assustaram com a mudança de aparência. Eles já tinham sido confundidos como irmãos, mas depois dos feitiços pareciam ligados de um jeito diferente. Tinham os mesmos olhos azuis, e Maude tinha feito um ótimo trabalho tornando seus traços os mais comuns possíveis. Se tudo desse certo, isso garantiria que ninguém olhasse para eles duas vezes.
Sabrina chegou assim que terminei de ajudar os dois a pintar o cabelo na cor “castanho lustroso”, um tom castanho-escuro com um leve toque avermelhado. A personalidade normalmente presunçosa dela vacilou um pouco ao encarar os dois. Ela tinha se acostumado a várias estranhezas, mas magia humana não era algo com que tivesse muita experiência.
— Incrível — ela murmurou, olhando do rosto de um para o do outro. — Nunca acharia que são vocês. Podem passar bem debaixo do nariz dos alquimistas agora.
Marcus, que observava tudo com um sorriso no rosto, cruzou os braços e se recostou no sofá superestofado.
— Talvez suas amigas possam fazer esse feitiço em mim de vez em quando. Sair irreconhecível seria muito útil.
— Vou falar com elas — Sydney disse. Para Sabrina, ela mostrou a mão com o anel prateado. — Tem alguma regra sobre joias? Vão deixar a gente entrar usando isso?
— Provavelmente — ela respondeu. — Vão revistar em busca de armas ou alguma coisa que considerem suspeita. Celulares também. Não querem que exista um jeito de vocês serem rastreados. Vocês precisam estar vendados quando forem.
— Deve ser como quando fui para a arena — Sydney comentou. Ela tirou as alianças de noivado e de casamento e se aproximou de mim. — Não quero que nada aconteça com elas enquanto estiver lá.
Segurei as duas mãos dela nas minhas.
— Não é com as alianças que estou preocupado.
Um leve sorriso perpassou seus lábios e, mesmo com um rosto diferente, aquele sorriso ninguém além dela teria.
— Vou ficar bem… mas quero que você cuide delas pra mim até eu voltar.
— Fechado — eu disse baixinho, para só ela poder ouvir —, mas sou eu que vou colocar as duas de volta no seu dedo.
— Está bem — ela disse.
— De joelhos — acrescentei.
— Está bem.
— E nós dois vamos estar pelad…
— Adrian — ela avisou.
— Depois a gente discute os detalhes — eu disse, com uma piscadinha. Mas senti uma pontada no peito quando soltei as mãos dela e fiquei segurando apenas as alianças, odiando o risco que ela estava prestes a enfrentar. Ela podia estar diferente, mas sua aura brilhava para mim como a de mais ninguém: cheia de coragem, apesar dos perigos.
Queria tanto ir com ela… mas sabia que não poderia fazer nada lá. Minha ajuda seria mais útil com Alicia, quando as bruxas a descongelassem.
— A gente devia comer alguma coisa antes de pegar a estrada — Sabrina disse.
— Espero que goste de bolacha recheada e salgadinho de queijo — Eddie falou para ela.
Fizemos uma refeição cheia de porcarias enquanto Sabrina explicava mais algumas coisas para nós.
— Vamos para Calexico, perto da fronteira — ela disse. — Mas vocês teoricamente não sabem disso. Precisamos manter as aparências. Depois que entrarmos, acho que vão nos separar, mas vou estar por perto. Além disso, posso ficar com o celular, assim dá pra mandar mensagens pro Marcus.
— E depois você me atualiza, certo? — perguntei a ele.
Marcus abriu um sorriso tenso.
— Certo. Não se preocupe. Sabrina vai cuidar deles.
Não era garantido, já que todos sabíamos que as coisas poderiam ir muito, mas muito mal no terreno dos guerreiros. E era provável que Sabrina não fosse capaz de fazer muito para ajudar. Como sempre, Sydney estava mais preocupada comigo quando saíram.
— Tome cuidado, Adrian. Também quero encontrar Jill, mas não quero perder você.
— Vou usar pouca compulsão — prometi. — É você que está entrando num ninho de cobras.
— É o que a gente faz — ela disse, simplesmente. — Você tem a sua função, eu tenho a minha. — Ela ficou na ponta dos pés e me deu um beijo leve na bochecha. É óbvio que não me contentaria com isso. Com um movimento rápido, a envolvi nos meus braços e dei um longo e intenso beijo de despedida, sem me importar com as testemunhas. Quando ela finalmente se afastou, seu rosto estava muito corado, mas continuou abraçada comigo.
— Não posso dizer que não esperava por essa — ela admitiu.
— É isso então — falei para ela. — Estamos perto de resgatar Jill. Depois vamos garantir nossa liberdade e finalmente ter aquele “felizes para sempre”.
Como exatamente vocês vão conseguir isso?, tia Tatiana perguntou. Voltando a morar na Corte? Ficando com aquelas Conservadoras em Michigan?
Tive a sensação de que Sydney estava prestes a fazer as mesmas perguntas, mas não falou nada. Em vez disso, sua expressão demonstrou apenas amor e esperança ao me dar outro beijo de despedida. Logo em seguida, Sabrina apressou os dois até o carro para começar a aventura bizarra. Fiquei com Marcus à porta, com o olhar perdido mesmo depois que partiram.
— Tomara que esse plano dê certo — eu disse, com o coração apertado.
Marcus suspirou e, pela primeira vez, sua expressão normalmente otimista pareceu cansada. Devia ser difícil ficar o tempo todo convencendo as pessoas de que todas as ideias arriscadas valeriam a pena.
— Não é uma questão de dar certo ou errado — ele admitiu. — É o único plano que temos.

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