23 de outubro de 2017

Capítulo 14

Adrian

EU QUERIA ACREDITAR EM SYDNEY quando ela dizia que tinha tudo sob controle, mas era difícil, ainda mais porque ela continuava sendo vaga sobre os detalhes do que estava acontecendo na reeducação. Em vez de me preocupar, tentei me focar nos pontos positivos, como o fato de que conseguia falar com ela agora e que, embora me escondesse informações, pelo menos parecia bem e saudável.
Tia Tatiana, que às vezes ajudava e às vezes agia como a advogada do diabo, não facilitava muito a situação.
Vai saber o que estão fazendo com ela, ela disse, na minha cabeça. Pode estar sofrendo agora mesmo, gritando por ajuda, e aqui está você.
Sydney está bem, respondi com firmeza. Claro que não em condições ideais, mas ela é forte.
Tia Tatiana não deu trégua. É o que ela quer que você pense, mas, no fundo, queria que você fosse atrás dela.
Raiva e culpa se acenderam dentro de mim. Estou tentando! Já estaria lá se tivesse como. Não faça eu me sentir pior do que já me sinto.
— Adrian?
Foi a voz de Marcus que me chamou. Ele me examinou do outro lado da mesa do restaurante, me tirando da minha conversa imaginária.
— Onde você estava? — ele perguntou. — Chamei seu nome três vezes.
— Desculpa, só estou cansado — menti.
Ele assentiu, acreditando em mim.
— Está pronto pra ir?
Depois da conversa com Carly, havíamos jantado e, agora, estávamos prontos para retomar a viagem até Boise. Era um trajeto mais longo do que daria para fazer em um só dia, então acabamos passando a noite nos arredores de Las Vegas, num hotel de estrada simples longe de todo o alvoroço dos cassinos que eu costumava frequentar quando estava na região. Mas não importava. O que eu mais queria era uma viagem rápida e um bom lugar para dormir onde pudesse entrar em contato com Sydney. Na manhã seguinte, atingidos esses objetivos, Marcus e eu estávamos de volta na estrada, rumo a Idaho, o estado das batatas.
— Estado das pedras preciosas — Marcus corrigiu quando me ouviu dizer isso.
— Quê?
— Idaho é o estado das pedras preciosas, não das batatas.
— Tem certeza? — perguntei, sem tentar esconder meu ceticismo. — Sempre ouço falar das batatas de Idaho. Nunca ouvi nada como “uau, meu anel de noivado tem um diamante raro de Idaho”.
Um sorriso se abriu em seus lábios enquanto ele mantinha os olhos na estrada.
— Absoluta — ele respondeu.
Eu não era masoquista o suficiente para discutir conhecimentos gerais com um ex-alquimista, mas quando atravessamos a fronteira de Idaho e comecei a ver placas de carro em que estava escrito BATATAS FAMOSAS, me senti confiante sobre quem tinha razão nesse assunto.
Falar sobre pedras preciosas me lembrou de que ainda estava com as abotoaduras da tia Tatiana no bolso da calça. A princípio, as guardara ali para que não se perdessem no avião, mas, agora, enfrentava um perigo de outra espécie, levando comigo uma fortuna que poderia facilmente cair se eu não tomasse cuidado. Peguei uma delas, admirando a maneira como o sol se refletia nos diamantes e rubis. Bobagem ou não, eram como um amuleto para mim, como se eu tivesse a ajuda da tia Tatiana em pessoa — minha tia de verdade, quero dizer. Não o fantasma que me perturbava.
Chegamos a Boise mais ou menos na hora do jantar e seguimos para o endereço que Carly tinha nos dado. Era um complexo de apartamentos modestos, e o de Keith ficava no primeiro andar, com uma varanda particular onde nos sentamos quando ninguém atendeu à porta. A escuridão e a ausência de movimento do lado de dentro sugeriam que ele realmente não estava em casa — e não simplesmente se escondendo de nós. Era uma daquelas noites gostosas de verão, agradável para humanos e Moroi, mas fiquei com medo de permanecermos ali por muito tempo.
— Como sabe que ele não está trabalhando no turno da noite? — perguntei a Marcus.
Marcus apoiou o pé no parapeito da varanda.
— Porque é um alquimista que foi pego quebrando as regras. Se fosse um alquimista que ficou tão fascinado com vampiros que corria o risco de colaborar com Strigoi, eles dariam um turno da noite pra ficar de olho nele. Mas, como foi só uma insubordinação geral, ele deve estar num horário das oito às cinco, só pra lembrar como é a vida humana normal, deixando os turnos da noite para os que correm riscos de verdade.
Marcus provou ter razão dez minutos depois, quando um Kia Sorrento entrou no estacionamento e Keith veio andando em direção à porta. Quando nos viu, especialmente quando me viu, ficou paralisado e visivelmente pálido.
— Não. Não — ele disse. — Você não pode estar aqui. Ai, meu Deus. E se for tarde demais? E se alguém já te viu? — Ele olhou ao redor freneticamente, como se esperasse que uma tropa alquimista fosse pular em cima dele a qualquer momento.
— Relaxa, Keith — eu disse, levantando. — A gente só quer conversar.
Ele balançou a cabeça, veemente.
— Não posso. Não posso falar com a sua espécie, a menos que seja um assunto de trabalho. E não tenho permissão de trabalhar com a sua espécie até eu...
— É sobre Carly Sage — interrompi.
Isso o calou. Ele nos encarou por longos momentos, tentando decidir.
— Está bem — ele disse, por fim. — Podem entrar.
Nervoso, ele deu um passo à frente e destrancou a porta, continuando a lançar olhares ansiosos para nós e para o estacionamento. Depois que entramos, fechou todas as cortinas e ficou o mais afastado possível de nós, com os braços cruzados em uma postura defensiva.
— O que está acontecendo? — ele perguntou. — Quem é esse cara? Carly está bem?
— Esse é meu amigo, hum, John — eu disse, me dando conta de que não deveria citar o nome de um dos desertores mais procurados pelos alquimistas. Marcus até havia passado algum tipo de maquiagem para cobrir a tatuagem azul. — E Carly está bem. A gente conversou com ela ontem.
Keith se acalmou um pouco.
— Vocês... vocês falaram com ela? Como ela está?
— Ótima — Marcus disse. — Foi ela quem nos deu seu endereço. Queria que a gente conversasse com você.
— Queria? — Os olhos de Keith se arregalaram de surpresa, o que era um pouco assustador, considerando que um deles era de vidro.
— Sydney está desaparecida — eu disse. — Carly quer sua ajuda pra encontrar a irmã.
Keith pareceu genuinamente surpreso por um instante, mas então assumiu uma expressão desconfiada.
— Desaparecida?
— Ela está na reeducação — respondi, sem rodeios.
— Não — ele resmungou. — Não. Sabia que não devia ter deixado vocês entrarem. Não posso ter nada a ver com isso. Não posso ter nada a ver com ela, não se ela está lá. — Ele fechou os olhos e sentou no chão. — Ai, meu Deus. Eles vão descobrir que vocês estiveram aqui e vão me mandar de volta.
— Ninguém vai saber — eu disse, torcendo para que fosse verdade. Até aquele momento, nunca pensei que sentiria pena de Keith. — A gente só precisa encontrar Sydney. Ela está no mesmo lugar onde você ficou. Só nos diga onde é.
Ele abriu os olhos e soltou uma risada embargada.
— Acha que eles falavam isso pra gente? Não nos deixavam nem ver o sol! Tínhamos sorte de ter alguma luz.
Franzi a testa.
— O que você quer dizer com isso?
Um olhar perturbado perpassou o rosto de Keith.
— É o que acontece quando você está no isolamento.
— Sydney não está no isolamento — eu disse, confuso. — Ela está com outras pessoas.
— É outra tortura — ele disse, amargurado. — Você aprende rápido o que fazer e o que não fazer pra facilitar a vida.
Eu estava ansioso para tirar mais detalhes dele, mas Marcus nos fez retomar o fio da meada.
— Certo, então eles não te falavam onde era, mas você saiu de lá em algum momento. Deve ter passado na frente do lugar.
— Sim. Vendado — Keith disse. — Só me deixaram ver alguma coisa quando estava bem longe. E não me peça pra calcular a distância porque não faço ideia. Troquei de carro e avião... perdi a noção depois de um tempo. E, pra ser sincero, voltar para aquele lugar era a última coisa na minha cabeça, então eu não estava prestando muita atenção.
— Mas você estava consciente — Marcus insistiu. — Não conseguia ver, mas tinha os outros sentidos. Lembra de alguma coisa? Sons? Cheiros?
Keith começou a balançar a cabeça, mas então vi uma faísca se acender em seu olho. Mesmo assim, continuou de boca fechada, com a mesma desconfiança de antes.
— Não sei se Carly vai te perdoar algum dia, mesmo se nos ajudar — eu disse, em voz baixa. — Mas tenho certeza de que nunca vai te perdoar se estiver escondendo informações que possam ajudar a irmã dela.
Keith reagiu como se eu tivesse dado um soco na cara dele.
— Tentei de tudo — ele murmurou. — Implorei. Supliquei. Fiquei até de joelhos.
Me dei conta de que ele estava falando sobre Carly agora, não sobre a reeducação.
— Por quê? — perguntei, sem conseguir me conter. — Por que se importa com o perdão dela? Onde estava a sua consciência anos atrás? Ou todos os anos desde então?
— Foi a reeducação — ele disse, olhando fixamente para os próprios pés. — Nunca me senti tão desamparado, sem nenhuma esperança, em toda a minha vida, como me senti lá. Ficar completamente nas mãos de outra pessoa, sem ninguém pra pedir ajuda, me sentindo culpado pelo mal que eles estavam me causando... Percebi que era exatamente o que tinha feito com Carly. Isso pesa na minha consciência todos os dias.
Voltei a sentir um pouco de pena dele, mas ainda não perdoava o que ele fizera com Carly. Até eu era rejeitado por garotas e, quando isso acontecia, sacodia a poeira do ego e seguia em frente. Nunca tinha considerado fazer o que ele fez. Ele tinha obrigação de saber que aquilo era errado antes que os alquimistas o mandassem para aquele acampamento de controle mental. A questão era entre ele e Carly, e, embora ele parecesse sinceramente arrependido, era direito dela fazer com que ele sofresse pelo resto da vida.
Explicar isso para ele provavelmente não me ajudaria na minha tarefa, então falei com a voz mais branda:
— A decisão agora é dela. Mas tenho certeza de que ficará grata se você puder nos dizer qualquer coisa que ajude Sydney. Qualquer detalhe que lembre de quando saiu da reeducação.
Recaiu um longo silêncio, que pareceu afligir Keith quase tanto quanto a nossa insistência. Por fim, ele respirou fundo e disse:
— Estava quente lá fora — ele respondeu. — Mais quente do que eu esperava. Mesmo no meio do dia. Saí no fim de novembro e pensei que estaria frio. Mas não estava. Parecia que eu ainda estava em Palm Springs.
Abri a boca de espanto e Marcus me lançou um olhar cortante antes que eu tirasse alguma conclusão precipitada.
— Ela não está lá. Palm Springs não está na lista. — Ele se voltou para Keith. — Quando você diz que parecia Palm Springs, quer dizer um calor seco, desértico? E não úmido e tropical?
Keith franziu a testa.
— Seco. Certeza.
— Muito quente ou pouco quente? — Marcus continuou. — Qual era a temperatura?
— Eu não tinha um termômetro pra olhar! — Keith exclamou, ficando irritado.
Marcus estava igualmente sem paciência.
— Então chute. Quarenta graus?
— Não... não tanto. Mas quente pra novembro, pelo menos pra mim. Eu cresci em Boston. Era mais como... sei lá. Entre vinte e cinco e trinta graus, acho.
Minha atenção estava concentrada em Marcus agora. Secretamente torcia para que ele dissesse de repente: “A-ha!”, e tivesse todas as respostas. Ele não disse, mas, pelo menos, pareceu achar a informação útil.
— Lembra de mais alguma coisa? — ele perguntou.
— Só isso — Keith disse, desconsolado. — Podem ir, por favor? Estou tentando esquecer aquele lugar. Não quero voltar por ter ajudado alguém a descobrir onde fica.
Olhei para Marcus e ele fez que sim.
— Espero que seja o suficiente — ele disse.
Agradecemos Keith e começamos a sair. Considerando sua insistência em nos expulsar, fiquei meio surpreso quando ele disse de repente:
— Esperem. Mais uma coisa.
— O quê? — perguntei, torcendo para que ele tivesse mais alguma informação útil sobre a reeducação.
— Se virem Carly de novo... digam que realmente sinto muito.
— Ainda quer que ela entregue você pra polícia? — perguntei.
Keith voltou a ficar com aquele olhar distante.
— Pode ser melhor. Sem dúvida melhor do que voltar pra lá. Talvez melhor até que isto. — Ele indicou o apartamento à nossa volta. — Tecnicamente, estou livre, mas eles vivem de olho, sempre esperando que eu cometa algum erro. Não era a vida que queria pra mim.
Quando entramos no carro, não pude deixar de comentar:
— Dois meses. Ele ficou na reeducação por dois meses. E olhe só pra ele.
— É o que aquele lugar faz com você — Marcus disse, com um tom sombrio.
— Sim, mas Sydney está lá faz mais que o dobro desse tempo.
Essas palavras pesaram entre nós por alguns segundos e tive a sensação de que Marcus estava tentando proteger meus sentimentos.
— Ela parecia derrotada? — ele perguntou.
— Não.
— Ela é mais forte do que Keith.
Senti uma pontada no peito.
— E deve ser por isso que ainda está lá. — Como ele não respondeu, tentei encontrar um assunto mais otimista. — Serviu pra alguma coisa o que ele disse? O lance do calor seco.
— Acho que sim. Venha. Vamos trocar. — Ele abriu a porta do motorista. — Dirija você pra gente economizar tempo. Preciso fazer algumas ligações.
Troquei de lugar com ele, mas não me contive e perguntei:
— Tem certeza de que é uma boa ideia? Talvez a gente devesse ficar aqui até conseguir descobrir onde ela está. Podemos estar indo na direção errada.
— Não se Keith falou a verdade. Ela pode não estar em Palm Springs, mas definitivamente está mais para o sul. — Ele tirou o celular do bolso enquanto eu dirigia rumo à I-84. — Estudei tanto essa lista de possíveis locações que quase a decorei. Não tem muitos lugares nos Estados Unidos onde faz essa temperatura em novembro.
— Tem, sim — retruquei, sentindo que estávamos voltando à discussão do estado da batata. — Havaí, Califórnia, Flórida, Texas. A gente estava em Las Vegas agora há pouco e estava um forno!
Ele balançou a cabeça.
— Não faz calor seco na maioria desses lugares. Eles têm temperaturas mornas e chuva no inverno. E muitos lugares de altitude elevada com climas desérticos, como Las Vegas, não são tão quentes em novembro. Pelo que sei da lista, das informações de Keith e da sua certeza de que ela está neste fuso-horário... bom, acho que só tem duas possibilidades. Uma é o Vale da Morte. A outra é perto de Tucson.
Quase saí da estrada de tanta surpresa.
— Califórnia e Arizona? Os dois estados em que a gente passou nas últimas vinte e quatro horas?
— São estados grandes — ele disse, com um sorriso irônico. — Mas sim, esses mesmos.
Minha cabeça estava a mil. Ambos os lugares ficavam a menos de um dia de viagem de Palm Springs. Não era possível que ela estivesse tão perto esse tempo todo, que eu tivesse sofrido tanto, quando havia apenas algumas horas de distância entre nós! Marcus começou a discar um número no celular mas então pareceu notar meu espanto.
— Ei, está tudo bem — ele me tranquilizou. — Você não tinha como saber.
Será?, perguntou tia Tatiana na minha cabeça. Ela estava tão perto! Esse tempo todo. Você poderia praticamente ter estendido o braço e tocado nela.
Eu não precisava das censuras dela. Estava me recriminando muito bem sozinho. Uma sensação pesada de culpa e desespero surgiu dentro de mim. Tão perto! Sydney estava tão perto, e eu falhara com ela... assim como falhara com tudo...
— Eu devia ter sentido — murmurei. — Não sei como, mas devia ter sentido aqui dentro. — Bati no peito. — Devia ter adivinhado que ela estava perto.
Marcus suspirou.
— Primeiro, ponha as duas mãos no volante. Segundo, você pode até ser um vampiro atormentado com poderes mágicos, mas nem você tem esse tipo de sexto sentido.
Suas palavras não dissiparam a nuvem de desespero ao meu redor.
— A questão não é a magia. É minha relação com Sydney. Se os alquimistas nos mantiveram próximos como algum tipo de tortura adicional, eu devia ter sentido isso. Você não entende. — Marcus, assim como Jackie Terwilliger, era uma das pessoas para quem Sydney e eu nunca havíamos contado sobre nossa relação, mas que haviam adivinhado por conta própria.
— Não foi uma tortura extra — ele insistiu. — Foi uma coincidência infeliz e irônica. Os alquimistas só têm um centro de reeducação em todo o país, que por acaso fica a algumas horas de onde ela foi capturada. Mas, pelo que Keith e os outros me contaram, poderia ter sido a anos-luz do lugar onde ela foi pega. Temos muito trabalho pela frente, mesmo se descobrirmos a localização exata. Agora, vai se concentrar na estrada ou preciso voltar pro volante?
— Faça o que precisa fazer — eu disse, frio.
Continuei em silêncio enquanto ele ligava para seus agentes disfarçados, pedindo que parassem o que quer que estivessem fazendo e tentassem descobrir se o centro ficava em Tucson ou no Vale da Morte. Também mandou alguns investigarem o máximo possível sobre o centro em si, para nos ajudar no resgate, e até fez pedidos frustrantes de pistolas tranquilizantes e “outros materiais similares”. Enquanto isso, aquela depressão sombria e debilitante crescia dentro de mim, junto com a censura da tia Tatiana. Quando Marcus finalmente terminou a última ligação, me explicou que só teria mais informações sobre a logística do lugar depois que conseguíssemos a localização exata.
— Quando tivermos um lugar concreto, vamos poder desenterrar documentos antigos. Nem os alquimistas poderiam construir um lugar sem deixar rastros. Eles vão ter disfarçado, claro, mas deve haver documentos públicos em algum lugar. Basta saber o que procurar. Conheço algumas pessoas internas que também vão poder ajudar quando tivermos parâmetros melhores de pesquisa.
Assenti e finalmente consegui esquecer meu desespero, substituindo-o por outro sentimento: raiva. Não apenas raiva. Fúria. Ódio das pessoas que fizeram aquilo com Sydney. O trabalho de reconhecimento era a especialidade de Marcus. O meu trabalho seria arrombar as portas daquele inferno e tirar Sydney de lá. Seria assim que consertaria as coisas.
Isso, sussurrou tia Tatiana. Vamos fazer os alquimistas pagarem pelo que fizeram.
— Quanto tempo até descobrirem o lugar? — perguntei. — Você tinha falado que poderia levar uma ou duas semanas.
— Isso era quando a gente estava tateando às cegas. Saber que é definitivamente em um desses dois lugares ajuda muito. Se for no Vale da Morte, podemos descobrir bem rápido. Não tem muitos terrenos por lá. Tucson pode demorar um pouco mais, porque há uma grande área metropolitana em que eles podem ter escondido a instalação, sem falar do deserto em volta. Tenho gente trabalhando nos dois lugares. A gente pode dar sorte.
Paramos para dormir em um hotel ao norte de Nevada, perto de um dos muitos cassinos naquele estado. Não era um lugar muito luxuoso, mas até que era decente, considerando que ficava em uma cidade sem nome. Tinha TV a cabo e internet, além de um minibar que tive vontade de atacar. Minha abstinência repentina depois de deixar a Corte tinha sido brutal, mas, por Sydney, eu estava determinado a continuar no controle da minha mente e dos meus poderes.
Depois que nos acomodamos, mandei uma mensagem para Jill e marcamos uma chamada de vídeo com a turma de Palm Springs no laptop de Marcus.
— Vocês encontraram Sydney? — Eddie perguntou imediatamente. Jill sabia de todos os detalhes do dia por causa do laço, mas não tivera a oportunidade de contar para os outros.
— Estamos perto de descobrir a localização dela — disse Marcus. — E não vai ser muito longe de vocês. Vale da Morte ou Tucson. Estamos só esperando a confirmação.
Nossos amigos também ficaram surpresos ao descobrir que Sydney estivera tão perto esse tempo todo.
— Avise quando descobrir que a gente vai pra lá na mesma hora — Angeline exclamou.
Por um momento, não quis nada além do apoio de todos eles. Mas então me dei conta de que Sydney nunca me perdoaria se sua missão original fracassasse. Na tela do laptop, Jill fez uma careta ao sentir meus pensamentos.
— Não — eu disse. — Vocês ainda estão na semana de provas. E Jill não vai sair em nenhuma escapada maluca. A vida dela continua em risco.
— Só temos mais dois dias de provas — ela retrucou. — E praticamente não estou correndo mais nenhum risco. Você não ouviu quando estava na Corte? Lissa espera que a votação para emendar a lei que exige que o monarca tenha um membro da família vivo aconteça em menos de um mês. Depois que isso mudar e eu não for mais importante, ela vai mandar me buscarem. Só vou ficar no programa de verão de Amberwood até estar tudo resolvido.
Eu não tinha ficado sabendo, talvez porque passara minha temporada na Corte em um estado de embriaguez constante.
— Você sempre vai ser importante, Belezinha. E, como você mesma explicou, a lei ainda não foi aprovada. Você ainda é a chave pro trono e não vai sair da segurança desse abrigo que todo mundo lutou tanto pra criar. E não me peça pra levar os dampiros — acrescentei, lembrando da sugestão que ela havia feito no nosso último encontro. — Você precisa da proteção deles.
— Eu não sou um dampiro — disse Trey. — E não estou sob nenhuma ordem. É só me dizer pra onde ir que estarei lá.
Hesitei, mas então assenti. Trey estava certo. Ele não tinha as mesmas obrigações que os outros, e era bom de briga. Angeline deu um soco no braço dele que pareceu doer, mas provavelmente só fez com que gostasse ainda mais dela.
— Não é justo — ela disse. — Quero ajudar.
— Todos queremos — disse Neil.
— Você pode levar um dampiro — Jill disse, calmamente. — Vou ficar bem com dois, ainda mais se ficar no campus o tempo todo. Leve Eddie.
Ele se voltou para ela, surpreso.
— Você não... quer a minha proteção?
O sorriso que ela abriu era digno de uma rainha, quase um reflexo dos que eu já vira no rosto de Lissa.
— Claro que quero. Não há ninguém em quem confie mais. Mas você precisa fazer isso. E você sabe que ele é um dos melhores, Adrian.
Duvidava que qualquer um deles, incluindo o próprio Eddie, entendesse a magnitude do que Jill estava oferecendo. Eu não era capaz de ler a mente dela, mas a conhecia o bastante para entender que daria tudo para participar da missão de resgate de Sydney. Obviamente, sabia que ninguém permitiria que isso acontecesse. Em vez de resistir, estava investindo suas energias em me fazer aceitar Eddie... não só porque ele seria um membro valioso para o grupo, mas também porque suas palavras eram completamente verdadeiras: ele precisava daquilo. Eu o vinha observando desde a captura de Sydney e tinha visto como aquilo o consumira, ainda que de uma maneira diferente do que acontecera comigo. Meus sentimentos em relação ao desaparecimento dela estavam relacionados à minha solidão e incapacidade de encontrá-la. Os dele tinham a ver com culpa: ele ainda se sentia responsável pela captura dela. Sydney o enganara, se sacrificando para salvá-lo, e Eddie não conseguia superar isso.
Jill, sempre mais sábia do que todos imaginavam, entendia a situação — e entendia que salvar Sydney era a única coisa que faria Eddie se sentir redimido. Jill entendia isso porque era sábia e observadora.
E também porque era apaixonada por ele.
Mas Eddie não sabia disso e se sentiu dividido.
— Eu estaria desobedecendo às minhas ordens... à minha promessa de te proteger.
— Estou te liberando dessas ordens — ela disse. — Tenho esse direito, tanto porque essas promessas foram feitas a mim como porque faço parte da família real. Na qualidade de princesa, estou pedindo que vá resgatar Sydney. E então volte para mim.
Nunca tinha visto Jill invocar sua condição real, muito menos seu título de princesa. Era em torno disso que girava a lei familiar. Se acontecesse alguma coisa com o monarca no poder e houvesse uma emergência que o Conselho Moroi não fosse capaz de resolver, um dos membros da família do antigo monarca poderia assumir como governante provisório até a eleição de um novo. Essa lei não havia sido invocada depois da morte de tia Tatiana. O Conselho tinha cuidado de tudo, mas, para que o governo funcionasse com tranquilidade, as antigas leis ainda exigiam um membro da família vivo, por precaução.
Eddie ficou olhando para ela com devoção, sem entender que Jill se dirigia a ele como alguém que o amava e não como uma princesa lhe dando ordens. Mas funcionou.
— Eu vou — ele disse a ela. — Vou resgatar Sydney. E depois volto pra te proteger, prometo.
Marcus, sem entender todo o drama dentro do drama, aprovou com a cabeça.
— Por mim, tudo bem. Nunca recusaria um ou dois dampiros lutando ao meu lado.
A parte do “ou dois” deixou Angeline e Neil esperançosos, mas fui rápido em destruir qualquer ideia maluca.
— Vocês dois ficam com Jill. Não abaixem a guarda e não me venham com ideias malucas de trazê-la junto pra todo mundo poder ajudar. O fato de que a lei pode acabar logo também significa que os inimigos dela podem estar redobrando os esforços para descobrir seu paradeiro enquanto isso ainda importa.
Os ânimos deles se acalmaram depois disso, e Neil e Angeline assentiram, relutantes. O celular de Marcus tocou e ele saiu para atender. Enquanto conversava com um de seus contatos, Trey disse:
— Ah, aliás, esqueci de falar. Uma menina passou aqui ontem procurando você e Sydney.
— Nós dois? — perguntei, surpreso. Não havia muita gente que nos tratava como um casal.
— Ela parecia mais interessada em Sydney, mas aceitaria você também. Era humana — ele acrescentou, adivinhando minha próxima pergunta. — Loira. Usava óculos. Nunca tinha visto antes.
Também não fazia ideia de quem poderia ser. A única humana que procuraria por mim e por Sydney era Rowena, e o cabelo dela era verde-água (da última vez que a vira), sem mencionar que tinha meu celular caso realmente precisasse entrar em contato.
— Ela não falou mais nada? — perguntei. — Por que queria falar com a gente? Quem era?
— Não sei. Só disse que era uma velha amiga que queria bater papo. Quando contei que não sabia onde você estava, ela pareceu tão decepcionada que ofereci passar algum recado se tivesse notícias suas. Ela disse que não, usou o banheiro e saiu sem dizer mais nada.
— Nenhuma tatuagem de lírio? — perguntei, incisivo.
Trey bufou.
— Acha que não reparei? Óbvio que teria notado. Se ela tinha uma, estava coberta.
Eu não tinha respostas sobre a visitante misteriosa, e o retorno de Marcus logo me fez pensar em outras coisas. Ele estava praticamente irradiando euforia.
— Lembra que eu disse que a gente poderia dar sorte? — ele perguntou. — Pois demos. Vale da Morte. Acabei de receber a confirmação. Claro, ainda precisam verificar a localização exata naquela região, mas parece que sabemos para onde vamos amanhã.
— Eu e Trey encontramos vocês lá — Eddie disse rápido.
— Podem terminar as provas — Marcus disse. — Vamos levar alguns dias pra planejar e conseguir mais informações. Como disse, ainda precisamos encontrar o lugar, além de descobrir um jeito de entrar.
Vale da Morte. Menos de cinco horas de Palm Springs. Eu sabia que Marcus tinha razão, que eu realmente não tinha como saber que Sydney estava lá, mas era difícil aceitar. Tão perto, pensei. Tão perto esse tempo todo. Igualmente enlouquecedor era o fato de que, embora esse fosse um grande avanço em termos de informação, ainda não estávamos prontos para agir.
Tudo que pudemos fazer foi combinar o encontro com Eddie e Trey antes que o toque de recolher separasse os meninos das meninas. Depois que finalmente desligamos, Marcus fez mais algumas ligações e conteve um bocejo.
— Preciso descansar um pouco — ele disse, seguindo para uma das camas de casal do quarto. — Pode deixar a TV ligada se quiser. Consigo dormir com qualquer coisa. Aprendi a aproveitar boas condições de sono quando tenho a chance.
Depois de anos em fuga, não era de surpreender, mas, mesmo assim, deixei a TV no mudo e fiquei vendo as imagens enquanto me esparramava na cama e tentava entrar em contato com Sydney. Já havia passado da hora em que ela costumava dormir, mas não consegui encontrá-la, talvez porque ela estivesse acordada, ocupada com sabe-se lá que missão secreta que empreendera esta noite. A TV sem som dava muito sono e quase dormi duas vezes até encontrar um canal com legendas que pudesse acompanhar. Fiquei assistindo por boa parte da noite, lutando contra o sono enquanto continuava a fazer checagens periódicas atrás de Sydney.
A última coisa que lembrava era um programa de entrevistas por volta das quatro...
... e então acordei com um feixe de luz entrando no quarto enquanto Marcus saía do banheiro.
— Bom dia — ele disse. — Pronto pra ir?
— Eu... — Olhei ao redor, tentando entender o que havia acontecido. — Caí no sono.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Antes de falar com Sydney?
— Sim, mas não por falta de tentativa... tentei entrar em contato umas dez vezes. Não estava dando certo.
— Talvez ela tenha ido pra cama tarde — ele disse.
— Depois das quatro? — Mesmo com a missão secreta da noite anterior, eu tinha estabelecido contato antes da uma. — Estou com medo de que ela não tenha ido dormir.
— Isso é um problema?
— Na verdade, não — respondi. — Contanto que tenha sido porque estava em alguma missão.
O problema é se ela estava dormindo... bloqueada de mim outra vez.

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