19 de outubro de 2017

Capítulo 14

Sydney

É INCRÍVEL COMO AS PESSOAS FICAM LEGAIS quando acham que você vai morrer.
— Sydney, desculpe. Desculpe mesmo.
— Falei pra você deixar pra lá. — Nem olhei para a cara de Zoe enquanto remexia minha coleção de suéteres. Minhas roupas ficavam em um sistema organizado por temperatura e ocasião. O inverno da Pensilvânia exigiria alguns dos meus casacos mais pesados.
— Só fiquei chateada porque o papai não me deu atenção — ela continuou.
Bem-vinda ao meu mundo, pensei. Era irônico que agora que eu finalmente tinha a atenção dele, não a desejava mais. Pelo menos estava contente por termos aquela conversa. Tínhamos falado pouco sobre o jantar com nosso pai e, se ela estava arrependida por ter me criticado, era um bom sinal tanto para mim, em particular, quanto para a possibilidade de que um dia, no futuro, abandonasse as crenças alquimistas mais radicais. Eu me sentia um pouco mal que o assunto tivesse surgido porque ela achava que minha viagem à corte colocaria minha vida em risco, mas era melhor não contestar essa ideia.
— Ele estava certo: você é muito boa no seu trabalho — ela acrescentou. — Se você não tivesse se acostumado tanto com eles, nunca conseguiria ir para a corte agora. Sei como é importante você ter sido escolhida. Poucas pessoas conseguiriam. Eu não conseguiria. — Ela suspirou. — Mas preferia que você não fosse. Fico tão preocupada.
Finalmente olhei para ela, sentada na cama com as pernas cruzadas. Senti uma pontada no peito. Apesar de todo o ciúme e desconfiança, Zoe ainda era minha irmã e gostava de mim. Só estava confusa e insegura quanto à vida agora, o que era totalmente compreensível. Eu tinha certeza que ela também não desejava essa rixa entre nós. Era tudo culpa da situação em que estávamos.
— Vou ficar bem. Os Moroi são inofensivos e querem minha ajuda. Não vai acontecer nada comigo.
Ela pareceu cética.
— Mas você vai passar a noite com eles. Cercada por eles. Não podia arranjar um hotel numa cidade por perto? Não é o que a gente costuma fazer quando viaja pra lá? Assim você ficaria longe deles.
Assim eu também ficaria longe de Adrian.
— Ficando lá posso terminar o trabalho mais rápido e voltar logo — eu disse, sensata. Era uma lógica difícil de rebater. — E sobrevivi cercada por vampiros bêbados de champanhe naquela festa de casamento. Pior que aquilo não pode ser.
— Mande mensagens de hora em hora para eu saber se você está bem.
Não pude conter um sorriso.
— Farei o possível. E você me mande mensagens sobre como vão as coisas por aqui.
— Vou mandar — ela prometeu, fazendo que sim. — Vou ser igual a você.
— Sei que vai fazer um bom trabalho. — Eu estava falando a verdade. Ela era esperta e competente… e estava motivada agora.
— E vou providenciar a janta deles na mansão de Clarence e tomar cuidado para que Angeline não faça nada muito maluco. Maluco demais, pelo menos. — Ela abriu um sorriso malicioso. — Sabia que ela ameaçou processar a escola por informação enganosa quando a professora de história falou que a Guerra de 1812 durou até 1815?
— Não, dessa eu não sabia. — Abanei a cabeça, exasperada, mas por dentro estava contente ao ouvir Zoe rindo de alguém que ela via como uma conhecida excêntrica, e não uma criatura das trevas.
— Vou manter aquela menina na linha, não se preocupe. — Zoe ficou um pouco mais séria. — Será que… será que posso dirigir seu carro até lá? Você sabe que consigo. E não é muito longe.
— É ilegal — respondi suavemente, odiando ver o desejo nos olhos dela. — Se você bater…
— Não vou bater! Tomo cuidado.
— É com os outros motoristas que você tem que se preocupar — eu disse, sabendo que parecia uma instrutora de autoescola. — Continue praticando com Eddie. Uma hora você vai conseguir sua carteira.
Ela soltou um suspiro.
— Mas quando?
— Quando voltar para Utah, imagino.
Caiu um momento de silêncio. Pelo rosto dela, pude imaginar em que estava pensando. Quando ela voltaria para Utah? Eu sabia que meu pai não deixaria que ela ficasse sem carteira para sempre. Era uma coisa de que ela precisava para o trabalho. No entanto, ele não via isso como uma prioridade agora, então ela teria que esperar. Mas, se voltasse a morar com nossa mãe…
— Acho… acho que vou ter paciência. — A tristeza em seu olhar se intensificou. — Enfim. Vou ficar preocupada até você voltar.
Dei um tapinha no ombro dela.
— Não se preocupe. Essa é uma daquelas vezes em que você não pode me ver como irmã. Tem que me tratar como se eu fosse só mais uma alquimista indo para uma missão.
— É difícil — ela disse, com uma voz que partiu meu coração.
Meu voo sairia em breve e passei o resto do nosso tempo juntas com uma atitude estoica e resignada àquela missão indesejada. Mas eu precisava admitir que, no fundo, estava feliz. Adrian e eu íamos viajar!
Claro, não estaríamos completamente livres, mas seria um alívio ficar longe de olhares desconfiados e ter uma justificativa para passar um tempo juntos.
Assim como da última vez que eu tinha viajado para a corte com Adrian, nos encontramos em Los Angeles para a escala até a Filadélfia. Ele e Neil já estavam esperando no portão quando cheguei, e parei para observá-los. Neil estava lendo um livro de artes marciais. Adrian tinha o livro de poesia que eu lhe dera aberto no colo e olhava pela janela. A luz iluminava sua pele clara e seus traços maravilhosos e, mesmo de longe, quis passar os dedos pelo seu cabelo escuro. Ele tinha um ar pensativo e me perguntei se estava preocupado com a missão diante de nós. As coisas estavam calmas e estáveis nas últimas semanas, o que me fazia pensar que logo haveria outro ataque do espírito.
— Sage — ele disse, quando me aproximei. O olhar melancólico desapareceu, substituído por um de ironia e preguiça. — Pronta para a expedição no Ártico? — Ele apontou para o casaco de pele que eu estava carregando. Pele falsa, claro. — Aposto que recebeu um monte de olhares estranhos levando isso por aí.
— Não viu como vai estar o tempo lá? Deixa pra lá. Claro que não viu. — Neil, pelo menos, estava com um casaco de esqui pesado, mas a jaqueta de Adrian não me tranquilizou. Embora fosse um alívio que ele estivesse levando alguma coisa. — Só trouxe esse?
— É meu casaco mais bonito — ele respondeu.
— Vou tomar isso como um sim.
— O que importa são as aparências, Sage. Tenho um monte de fãs lá que esperam que eu esteja o mais bonito possível. Não posso decepcionar as coitadas.
Assumi minha melhor expressão de desprezo.
— Só não venha choramingar quando fizer menos cinco graus. Estou aqui pra trabalhar, não para ser sua babá.
Neil balançou a cabeça e me lançou um olhar solidário antes de voltar ao livro. Assim que a atenção dele foi desviada, olhei nos olhos de Adrian. Nenhum de nós ousou sorrir, mas o brilho naquelas profundezas verdes fez meu coração acelerar.
E… ele continuou a bater acelerado pelo restante da viagem. Nós três ficamos juntos na terceira classe (o que rendeu um melodrama sem fim de Adrian), e eu sentei no meio. Neil ficou em silêncio, lendo sobre técnicas de ataque, e mal trocou duas palavras com a gente. Teoricamente, Adrian e eu também estávamos ocupados com nossas leituras, mas eu sabia que, assim como eu, ele estava mais fixado na proximidade entre nós. Nossas pernas estavam encostadas uma na outra e vivíamos nos tocando “sem querer”. Quando a aeromoça chegou com as bebidas, quase caí no colo dele enquanto pegava minha Coca Diet. E, quando Adrian quis outra coisa para ler, decidiu pegar as revistas no compartimento à minha frente primeiro, se debruçando de modo que sua mão encostasse na minha coxa. Mesmo sobre a calça, aquele toque foi provocante e me fez lembrar de todas as vezes que ele tinha passado a mão nas minhas pernas.
Era agonizante… e maravilhoso.
Mas também frustrante. Passei a maior parte do voo obcecada com cada movimento e com a próxima vez em que nos encostaríamos. Aqueles toques acidentais me deixavam em chamas, mas, quando nos aproximamos do destino, tudo em que eu conseguia pensar era quando teríamos a chance de ficar a sós e deixar aqueles subterfúgios de lado. A julgar pelo silêncio cada vez maior de Adrian e pela maneira como ele perdia o fôlego ao me olhar nos olhos, tive a impressão de que não era a única a ter esses pensamentos indecentes. Controle-se, SydneyOu pelo menos tome um banho frio. Você não deveria estar se concentrando na busca elevada por conhecimento?
Eu estava tão focada em minhas emoções turbulentas que Neil me pegou completamente desprevenida quando o voo estava aterrissando.
— Acham que vou conseguir ver Olive?
Adrian levantou os olhos do livro de poesia.
— Acho que sim. A viagem toda é por causa do sangue dela; tenho certeza de que vai estar lá.
— Não era isso que eu… — Neil mordeu o lábio e olhou pela janela. — Deixa pra lá.
— Ahhh — Adrian disse, dando uma piscadinha que Neil nem notou. — Existe ver e ver. Você está querendo dizer ver. Aposto que entre uma descoberta de tirar o fôlego e outra vocês vão ter tempo para perder o fôlego um com o outro.
Neil se voltou, corando.
— Não era disso que eu estava falando. Desde aquele dia temos trocado e-mails e nos damos muito bem.
— Bom, existe se dar bem e…
— Adrian, pare de ajudar. — Me virei para Neil. — Não conheço essa menina, mas seja lá o que for que vamos fazer não vai ser resolvido em cinco minutos. Você vai ter tempo livre. Afinal, não vai ficar em serviço o tempo todo. — Ele abriu um sorriso de orelha a orelha.
Quando chegamos à Filadélfia, alugamos um carro para o resto da viagem. Viagens normais à corte, que ficava no sopé das montanhas Pocono, costumavam depender de aviõezinhos que pousavam em um aeroporto rural a trinta minutos de distância, mas esses voos eram raros, e por isso pegamos o carro. A viagem durava cerca de duas horas e meia, um trajeto que seria maravilhoso durante o dia. Mas, por causa dos voos e do fuso-horário, a noite já havia caído, deixando Neil em alerta. Ele estava sentando ao meu lado enquanto eu dirigia, observando os arredores quase sem piscar. Eu tinha convencido Zoe de que estava em segurança, mas isso era em relação aos Moroi. Tinha esquecido que, onde quer que os Moroi se reuniam, os Strigoi estavam logo atrás, e as estradas sombrias que levavam à corte eram perigosas àquela hora da noite. Eu achava que nenhum Strigoi pularia em cima do carro a sessenta quilômetros por hora, mas estava grata pela diligência de Neil. Por mais que Adrian o provocasse, acho que também estava contente.
Era meia-noite quando finalmente atravessamos a fronteira da corte. Neil estava sério e rígido como sempre, mas Adrian havia se esparramado e dormido no banco de trás. Ele bocejou e se espreguiçou enquanto eu desacelerava para falar com os guardas no portão. Para a maioria dos humanos, a corte era um colégio particular muito especializado. Definitivamente parecia um, com seus prédios respeitáveis cobertos de hera e seus pátios lindos e amplos. Mas, enquanto dampiros perscrutavam o carro, me lembrei dos avisos de Zoe. Eu estava prestes a entrar num complexo de criaturas sobrenaturais.
— Lorde Ivashkov — um dos guardas disse ao ver Adrian. — Bem-vindo de volta.
Adrian abafou outro bocejo e o cumprimentou com a cabeça. Lorde Ivashkov. Às vezes eu esquecia que Adrian fazia parte de uma família real e que mesmo os membros menos importantes eram chamados de “lorde” e “lady” quando viravam adultos. Era surreal pensar que eu estava namorando alguém da realeza. Era ainda mais surreal que, nos últimos tempos, o título dele me chocava mais do que o fato de ele ser um vampiro.
O dampiro apontou para uma estradinha de terra que contornava o terreno central da corte.
— Deem a volta por ali e estacionem atrás do palácio — ele disse. — Estão esperando pelos senhores.
— Palácio — murmurei, depois que ele fez sinal para que avançássemos. — Não estamos mais em Palm Springs.
— É só o nome da casa da rainha — Adrian disse. Ele se debruçou e colocou a cabeça entre mim e Neil. — Parece um prédio acadêmico. Você vai se sentir em casa.
Não era exatamente verdade. Depois que estacionamos e entramos pela porta dos fundos, um guia nos levou por corredores grandiosos iluminados por lustres de cristal e decorados com quadros retratando os monarcas Moroi dos últimos séculos. Aqueles rostos pálidos e delicados me observavam, me lembrando de que eu realmente estava em outro mundo, um mundo de que não fazia parte. Um velho medo alquimista começou a surgir em mim e repeti várias vezes a mim mesma que era uma convidada ali. Ninguém tentaria me machucar. E, mesmo se tentassem, Adrian não permitiria que fizessem nada comigo.
Eu sabia que a residência da rainha tinha uma sala do trono e outras áreas para funções de Estado, mas, naquele noite, nos levaram para um ambiente muito mais casual: uma sala de TV. Definitivamente não era o que me vinha à mente quando eu pensava em palácios. Uma tela enorme na parede exibia um programa em que as pessoas pareciam estar competindo em equipes numa pista de obstáculos enlameada. Em torno da tela, havia sofás grandes e luxuosos, e os vários Moroi e dampiros sentados neles não notaram nossa entrada. Os guardiões que estavam em guarda do outro lado da sala nos viram imediatamente, claro. Voltei minha atenção para os telespectadores no sofá, uma das quais reconheci na mesma hora.
— Ah, vá! — Rose levantou de um salto e ergueu as mãos para a tela, suplicante. — Estava bem na sua frente, idiota! Você é cego ou o quê? Acabou de dar a vitória pra eles!
— Na verdade — Adrian disse, parando ao meu lado —, a equipe verde vence. É uma reprise.
Todos voltaram a atenção para nós e alguém colocou a TV no mudo. Ouvi um gritinho agudo e uma garota magra e loira correu até Adrian e o abraçou.
— Você veio!
Ele sorriu e deu um tapinha nas costas dela.
— O que eu disse, prima? Sou seu súdito e um súdito serve à sua rainha.
Lissa Dragomir não parecia exatamente uma rainha naquele momento. Ela tinha a mesma idade que eu, e seu longo cabelo platinado estava amarrado num rabo de cavalo malfeito que descia pelas costas de seu moletom universitário. Eu mal a conhecia, mas a semelhança com Jill — principalmente os olhos verde-claros e os maxilares altos — a tornava familiar. Ela se separou de Adrian e voltou a atenção para mim. O sorriso contente que havia dado a Adrian se tornou um pouco mais formal, mas igualmente sincero.
— Sydney, é um prazer ver você de novo. Se houver alguma coisa que eu possa fazer por você, por favor, me avise. E você deve ser Neil.
— Vossa Majestade. — Neil fez uma reverência tão exagerada que sua testa tocou o chão. Ao seu lado, Adrian revirou os olhos.
— Vai com calma, Lancelot — Adrian disse. — Acho que não precisa fazer reverência quando ela está de jeans e pantufas de coelhinho.
Neil se ergueu sem perder a elegância.
— O poder de uma rainha não varia com seus trajes.
Adrian olhou para os outros em busca de solidariedade.
— A gente está junto há quase dez horas hoje.
Uma expressão divertida perpassou o rosto de Lissa.
— É um prazer conhecê-lo.
Foram feitas as apresentações necessárias. Eu conhecia a maior parte das pessoas importantes da sala. Dimitri e Sonya estavam lá, cheios de sorrisos, e Rose chegou a me dar um abraço. Em outra ocasião, eu tinha sido brevemente apresentada ao namorado de Lissa, Christian Ozera, e, embora não o conhecesse muito bem, ele me cumprimentou com a cabeça. Ele e Adrian se olharam com desconfiança e me lembrei de uma coisa que Adrian me dissera certa vez: “A tia dele está na cadeia por matar minha tia. Eu não o culpo por isso. Ele não me culpa por isso. A gente ainda gosta um do outro. Mesmo assim, fica um clima meio estranho, sabe?”.
Duas meninas estavam sentadas juntas num sofá de dois lugares e observavam o encontro em silêncio. Uma delas era dampira, e tinha o cabelo preto e a pele morena. A outra, Moroi, tinha volumosos cachos castanho-escuros e lindos olhos cinzentos. Pela maneira como Neil não tirava os olhos da dampira, pude imaginar quem eram. Adrian abriu um de seus sorrisos mais carismáticos.
— Ora, ora. Então sobreviveram à viagem, hein? Espero que estejam cuidando bem de vocês. Tratamento nobre e tudo o mais. Torneiras douradas. Roupões de veludo. Champanhe no café da manhã. E no almoço. E no jantar. Aliás, por que não tem uma garrafa aqui agora?
Olive e Charlotte Sinclair responderam com sorrisos, especialmente Charlotte.
— Você não trouxe? — ela perguntou, com simpatia demais para o meu gosto.
— Posso mandar trazer — Lissa disse.
Ela se voltou para um dos guardas na porta, mas Adrian a interrompeu:
— Não, a gente precisa ser responsável e tudo mais para lidar com o espírito, certo? A celebração fica pra depois. Além disso, Belikov não sabe beber.
Dimitri pareceu surpreso com essa e tive que conter uma risada com a mudança de assunto de Adrian. Ali, “lorde Ivashkov” devia conseguir o que quisesse, e eu estava orgulhosa por ele se manter fiel à promessa de evitar os vícios. Era bom que ele estivesse de costas para mim naquela hora, porque eu teria deixado transparecer meu carinho.
As irmãs Sinclair e eu fomos apresentadas formalmente. Elas murmuraram cumprimentos educados e me olharam, curiosas, antes de me esquecer e voltar a atenção para os demais. Uma alquimista era uma novidade, mas nada tão interessante.
Imaginei que voltaríamos a nos encontrar de manhã, mas, quando Sonya começou a discorrer sobre o que havia descoberto na amostra de sangue de Olive, percebi que o trabalho começaria imediatamente.
Quase soltei um resmungo, então me dei conta do óbvio. É o meio do dia para eles. Estão todos acordados e prontos para o trabalho. Devia ser por isso que Adrian havia tirado aquela soneca rápida no carro. Neil, por ser um dampiro, tinha uma resistência maior e conseguia ficar mais tempo sem dormir. Mas eu era uma simples humana e já tinha passado da minha hora de ir para a cama em Palm Springs. No entanto, se eles estavam prontos para começar, eu também estava. Contive o bocejo que ia subindo pela minha garganta.
— Não há dúvida — Sonya estava dizendo. — Aquela amostra de sangue está vibrando com um tipo de espírito que a gente nunca viu antes. E aquele feitiço que você colocou na prata foi inteligente, mas…
A porta se abriu com tudo e um Moroi entrou a passos largos seguido por um guardião.
— Já está todo mundo aqui. Devem ter esquecido de me chamar.
Rose revirou os olhos.
— Pai, você não foi convidado.
Abe Mazur, como sempre vestido com roupas extravagantes, estalou a língua em desaprovação.
— Sim, porque faz todo o sentido deixar as maiores descobertas do nosso mundo nas mãos de crianças.
— Eu tenho quase trinta anos — Sonya protestou.
— Pois é. — Abe olhou em volta e sorriu ao me ver. — Minha alquimista preferida. Que gentil da sua parte compartilhar seu conhecimento.
Abri um sorriso rígido.
— É um prazer ajudar.
Após um comando tácito, um servo apareceu com refrescos e lanches, mas sem champanhe. Depois que todos se resignaram com a presença indesejada de Abe, Sonya retomou a apresentação e mostrou uma caixinha para Adrian. Curiosa, me aproximei para examiná-la, ciente dos poucos centímetros entre mim e ele. A caixa abrigava um pequeno frasco de sangue envolto por anéis de prata. Depois de observar por alguns segundos, ergui os olhos e vi Sonya olhando atentamente para mim e para Adrian, com a testa franzida. Seu rosto se suavizou ao me notar.
— O que acha? — ela perguntou. — Tem alguma maneira de reforçar a vedação?
Adrian estava visivelmente desconcertado.
— Hum, acho que não. Usei todos os meus truques da primeira vez.
— Mas dá pra sentir como o espírito está ligado ao sangue — ela comentou.
Mais uma vez, ele pareceu desconfortável.
— Sim, percebi. Não é nada que eu consiga replicar.
— Nem eu — Sonya disse.
— Eu também não — Lissa acrescentou.
Sonya soltou um suspiro.
— E acho que é essa a questão. Mesmo que a gente não sinta mais o espírito no sangue de Olive, tenho certeza que ele causou uma mudança que impede a conversão em Strigoi. Se pudermos fazer o mesmo por outras pessoas…
Ele concordou com a cabeça.
— Pois é. Mas não sei como. A não ser…
Percebi então que todos na sala estavam olhando para Adrian com expectativa. Eles admiravam seu conhecimento. Ele estivera certo sobre uma coisa quando defendera o uso do espírito: tinha feito algo que ninguém mais poderia ter feito. Fiquei pensando se alguém, inclusive ele mesmo, teria imaginado que um dia ele seria uma autoridade respeitada, e não uma piada entre os Moroi. Esse tipo de responsabilidade e prestígio combinava com ele. Lorde Ivashkov.
Ele se virou para Lissa.
— Você tinha comentado que a gente podia transformar o sangue numa espécie de tatuagem, certo? Será que não é só isso mesmo? Quem sabe não basta injetar o sangue em alguém? Tipo, não é assim que funciona uma vacina? Quando alguém passa por uma doença, adquire… — Ele ficou buscando a palavra certa e olhou para mim em busca de confirmação. — … anticorpos? — Fiz que sim. — Será que não é a mesma coisa? A magia passa para outra pessoa?
— Não faço a menor ideia se existe uma equivalência — admiti. — Mas, quando o sangue de vampiro é misturado na tatuagem alquimista, parte da cicatrização rápida e da resistência a doenças que os Moroi têm passa pra gente. — Se o uso de magia realmente tinha anulado minha tatuagem, será que eu tinha perdido minha imunidade também? Eu odiava resfriados.
Adrian sorriu.
— Você conseguiria fazer uma tatuagem parecida com esse sangue?
Hesitei.
— Teoricamente, sim. Não dá pra saber se vai funcionar. E nunca fiz esse tipo de tinta antes.
— Seria fácil pra você — ele disse, confiante. — E sempre tem guardiões tatuadores por aqui. Do que mais você precisa?
— Consigo o que você quiser — Abe interpelou, confiante.
— Eu precisaria…
Parei e o mundo balançou um pouco. Consigo o que você quiser. Sim, ele provavelmente conseguiria. Abe Mazur era um homem capaz de obter qualquer coisa, inclusive os ingredientes para uma possível tatuagem de proteção contra Strigoi.
Ingredientes que deviam ser quase idênticos aos usados numa tatuagem alquimista normal. Eles estavam fora do meu alcance, mas não do de Abe. Ele nem devia precisar usar meios ilícitos. Certa vez, havia conseguido levar um explosivo para dentro da corte sem ninguém ver. Eu sabia que ele tinha contatos alquimistas e poderia argumentar que era importante que os Moroi fizessem aquele experimento. Sem dúvida os alquimistas me apoiariam. Mas para mim não importava se Abe conseguiria os ingredientes por meios legais ou não. A questão era que ele poderia arranjar tudo de que eu precisava sem que isso fosse ligado a mim e a meu projeto pessoal de acabar com a compulsão alquimista.
— Posso fazer uma lista — eu disse, com o ar mais despreocupado que consegui. — Mas a gente devia pegar o dobro. Caso eu cometa algum erro. — Adrian me olhou por um instante e percebi que tinha entendido em que eu estava pensando.
Rose ironizou:
— Você já cometeu algum erro na vida?
— É o que vamos ver — murmurei. Contive um bocejo. — Se vocês me derem um papel, faço a lista agora. — Não consegui conter o bocejo seguinte.
Sonya me olhou com pena.
— Vamos deixar a coitada da Sydney ir pra cama. Ela não segue nosso horário. Não podemos esperar que consiga fazer alguma coisa sem dormir e nem temos os materiais ainda.
Lissa pareceu arrependida.
— Tem razão. Desculpe, Sydney. Eu não estava pensando direito.
Entrei no banco de dados alquimista pelo celular para encontrar a lista de ingredientes. Enquanto eu escrevia do que precisava, Lissa chamou outro servo. Durante a espera, Christian perguntou:
— Em quem vocês vão fazer a tatuagem?
Caiu um silêncio.
— Em mim — Rose disse, finalmente. — Tem que ser um dampiro. Nosso corpo é mais forte e, se funcionar, temos mais chance de nos depararmos com um Strigoi.
— Você é importante demais para a rainha — Neil disse. — Eu faço, caso alguma coisa dê errado.
— Não vai dar nada errado — Adrian disse, irritado.
Rose ignorou o comentário e encarou Neil.
— Eu faço. Ninguém mais vai se arriscar por isso.
— Qual é o tipo sanguíneo de vocês? — perguntei, olhando para os dois. Então me virei para Olive. — E o seu?
— Não mete Olive no meio disso — Neil avisou.
— O+ — Olive disse, desconfiada.
— B – — Rose falou.
Neil olhou frustrado para as duas.
— A+.
— Você venceu — falei para Neil. Eu sinceramente achava que um receptor Moroi seria melhor, mas tive a impressão de que nenhum deles aceitaria. Naquele caso, seguir as regras de tipo sanguíneo parecia a opção mais segura.
A expressão magoada de Rose dava a entender que eu a tinha traído de propósito. Olive, ainda que decepcionada, logo transferiu sua ansiedade para Neil e foi correndo até onde ele estava. Ele se encheu de orgulho com a atenção e o lado cientista de Sonya decidiu que ela não tinha paciência para mais drama.
— Certo. Neil venceu. Agora, pelo amor de Deus, levem Sydney para um quarto de hóspedes.
— Eu também vou — Adrian disse. Ele bocejou e tive quase certeza que estava fingindo. — Estou passando tempo demais com os humanos.
— Não vai ficar na casa dos seus pais? — Lissa perguntou.
Adrian riu.
— Não se meu pai estiver lá. Quero um pouco de paz.
O servo de Lissa chegou e Rose decidiu nos acompanhar, pensando ser a única com quem eu realmente me sentia à vontade. Enquanto saíamos, Charlotte correu até Adrian e o puxou pela manga. Eu estava perto o bastante para ouvir a conversa, apesar de ela ter abaixado a voz.
— Queria conversar com você — ela disse. — Acha que vai ter tempo amanhã?
Adrian abriu o sorriso sedutor que dava para a maioria das mulheres.
— Eu adoraria, mas não sei se vou poder. Acho que eles querem que eu trabalhe. É um saco ser responsável.
Rose ouviu a conversa.
— Ah, sim. É tão chato contribuir para uma grande descoberta na vida dos Moroi. Coitadinho do Adrian.
Ele piscou para Charlotte.
— Aviso você amanhã.
Saímos, mas antes notei o desejo no olhar de Charlotte. Até eu consegui adivinhar as intenções dela.
As acomodações de hóspedes ficavam em outro daqueles prédios respeitáveis, e cortamos caminho pelo pátio para chegar lá. Estava caindo uma neve fininha e apertei o casaco com força ao meu redor.
Adrian não reclamou, mas estava um pouco azul quando chegamos ao saguão do prédio, que funcionava como um hotel. Rose tomou a iniciativa de providenciar nossos quartos. Fiquei esperando do outro lado do saguão e Adrian veio até mim.
— Você não faz ideia de como fica linda com todos esses flocos de neve no cabelo — ele murmurou.
— E você fica lindo com hipotermia. Tomara que consiga um casaco de verdade enquanto está aqui.
Ele sorriu.
— Você vai ter que me aquecer mais tarde. Sabe que eu estava fingindo com Charlotte, né? Só tenho olhos para uma garota, mas, aqui, preciso fingir que estou atrás de dez.
— Só dez? — questionei.
— Ei — Rose nos chamou. — Você ficou com um quarto com uma boa vista no segundo andar. Sydney, qual vai fazer você se sentir melhor em relação às criaturas das trevas? Uma rota de fuga fácil no primeiro andar ou mais distância no segundo?
— Segundo — eu disse, com o rosto neutro. — Saio descendo pela janela se precisar.
Ela nos guiou até nosso andar e deu boa-noite para Adrian. Ganhei uma escolta pessoal até meu quarto e ela o olhou com aprovação.
— É o mesmo que dariam para alguém da realeza. Vai ficar bem aqui?
Andei pela suíte gigantesca, observando os móveis de luxo e o centro de entretenimento de última geração.
— Hum, sim. Acho que sim.
— Sei que deve ser estranho — ela disse, suavemente. — Mas estamos fazendo coisas importantes. Pelo menos é o que todo mundo diz.
— Eles estão certos — eu disse. — E, depois de dividir o quarto com Jill e fugir das autoridades com você, isso não é nada de mais.
Ela me abriu um de seus sorrisos radiantes. Fiquei fascinada pela sua beleza e não pude deixar de sentir uma pontinha de insegurança ao lembrar que,  antigamente, Adrian e ela tinham sido muito próximos, tanto romântica como fisicamente. Rose saiu depois de mais promessas e insistiu que eu a avisasse caso precisasse de alguma coisa. Quando finalmente foi embora, me sentei para desfazer as malas. Cinco minutos depois, Adrian apareceu na porta.
— Caramba — ele disse, fechando a porta com o pé. Ele me puxou e me jogou contra a parede. — Você não faz ideia de como meu dia foi difícil.
Envolvi o pescoço dele nos braços e o puxei para perto.
— Na verdade, faço sim — eu falei, antes de nossos lábios se encontrarem em um beijo avassalador.
Havia uma urgência nele que se igualava à minha, e toda a forte tensão que eu vinha carregando ao longo do dia explodiu entre nós. Ele passou a mão pelo meu corpo, segurou minha perna e a ergueu na altura do quadril. Meu sangue ardia e eu não estava mais nem um pouco cansada.
Por mais sexy que fossem os beijos contra a parede, acabamos passando para a cama, que facilitava o acesso às roupas, à pele…
Eu me sentei e o ajudei a tirar meu suéter.
— Quem imaginava que o plano de fuga nº71 seria “Férias na corte Moroi”? — eu disse.
Ele riu e encostou os lábios na minha nuca, me dando calafrios.
— Ué, por que não? Sem Zoe… sem alquimistas… sem limite de tempo. — Ele desceu os lábios pelo meu ombro e, devagar, abaixou a alça do sutiã. — A gente tem muita liberdade, Sage, e muita privacidade.
Não pude evitar um gemido quando seus lábios habilidosos continuaram com a exploração. Fechei os olhos e me afundei na cama, puxando-o para perto. Poderia ser agora, percebi. O momento para o qual estava me preparando. Finalmente tínhamos a chance de transar sem sermos descobertos ou interrompidos. Era inebriante. Quando teríamos uma oportunidade daquelas de novo?
No entanto, à medida que seu toque continuava a me enlouquecer, um velho instinto temeroso me deteve. Pelo que eu estava esperando? Por que ainda tinha medo? Eu desejava Adrian, estava apaixonada por ele, mas parte de mim continuava hesitando. Era enlouquecedor, ainda mais porque meu corpo pedia que Adrian arrancasse minhas roupas. Abri os olhos e dei de cara com ele me olhando.
— Não tem problema — ele disse, adivinhando meus pensamentos.
— Desculpe. Não sei o que há de errado comigo.
Ele deu um beijo na ponta do meu nariz.
— Não há nada de errado com você.
— Eu quero. Quero mesmo. Só acho que estou esperando por alguma coisa.
— Então espere. — A doçura e a paciência em seus olhos verdes, mescladas àquele desejo inquestionável, me causaram uma dor no peito.
— É que odeio desperdiçar o quarto e a noite — admiti.
Ele tirou a camisa e a jogou no chão.
— Quem disse que a gente vai desperdiçar? — Ele se deitou ao meu lado e me deu outro beijo. — A gente pode não ir até o fim, Sage, mas acredite: existem muitas outras maneiras de passar o tempo.

2 comentários:

  1. Quem iria imaginar que logo o Adrian com a fama que tem, seria tão carinho, doce, meigo...?
    Todo mundo da corte vai si surpreender com ele❤😍

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  2. O Adrian deve ter um controle sobrenatural porquê, cacilces, quem consegue tá num clima desses e segundos depois tá bem? 😨 Os remédios dele devem tá ajudando mesmo... Hehe 😂

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Boa leitura :)