13 de outubro de 2017

Capítulo 14

O DOMINGO COMEÇOU CALMO. Estávamos nos aproximando do próximo ataque de Veronica, e senti um frio na barriga ao pensar em qual seria o próximo passo dela... e em como estávamos de mãos atadas para impedi-la. Então, recebi ajuda de uma fonte inesperada quando meu celular tocou e um número desconhecido apareceu na tela.
Normalmente eu nem atenderia, mas minha vida estava muito longe do normal nos últimos dias. Além do mais, o código de área era de Los Angeles.
— Alô?
— Oi! Por favor, a Taylor?
Levei um tempo para me lembrar da minha identidade secreta. Não me lembrei, no entanto, de ter dado meu número verdadeiro a nenhuma das meninas que tínhamos avisado sobre Veronica.
— Pois não? — respondi, desconfiada.
— Aqui é Alicia, da Pousada do Velho Mundo.
— Oi — eu disse, ainda sem saber por que ou como ela estava me ligando.
Ela estava animada e alegre, como quando nos conhecemos.
— Queria saber se vocês já tomaram uma decisão sobre o quarto para o aniversário de vocês.
— Ah... então. Ainda estamos pensando. Mas, hum, acho que vamos escolher algum lugar mais perto da costa. Sabe como é, passeios românticos na praia e tudo o mais.
— Entendo, claro — ela disse, embora parecesse decepcionada com a perda de hóspedes. — Se mudar de ideia, me avise. Estamos com uma promoção este mês, então vocês poderiam alugar a Suíte Coelhinho a um preço muito bom. Lembro que você comentou que fazia você se lembrar do seu coelho de estimação. Como era o nome dele?
— Pulinho — eu disse, inexpressiva.
— Pulinho! Verdade. Que nome fofo.
— É, demais. — Tentei pensar numa maneira delicada de formular a pergunta seguinte, mas acabei decidindo ser direta. — Alicia, como conseguiu meu número?
— Ah, Jet me deu.
— Ele deu?
— Sim. — Ela parecia ter superado a decepção e agora soava alegre e animada de novo. — Ele preencheu uma ficha enquanto vocês estavam aqui e colocou seu número.
Quase soltei um resmungo. Típico.
— Bom saber — eu disse. Fiquei me perguntando com que frequência Adrian dava meu número para as pessoas. — Obrigada por avisar.
— É um prazer. Ah! — Ela deu uma risadinha. — Já ia me esquecendo. Sua amiga voltou.
Congelei.
— Que amiga?
— Veronica. Ela chegou ontem.
Minha primeira reação foi de felicidade. A segunda, de pânico.
— Você contou que perguntamos sobre ela?
— Ah, não. Lembrei que vocês disseram que queriam fazer uma surpresa.
Quase soltei um suspiro de alívio.
— Obrigada. Nós, hum, não queríamos estragar a surpresa. Acho que vamos passar aí e fazer uma visitinha, mas não conte nada pra ela.
— Pode deixar!
Desliguei e fiquei olhando para o celular. Veronica estava de volta, exatamente quando pensávamos ter perdido o rastro dela. Liguei imediatamente para a sra. Terwilliger, mas caiu na caixa postal. Deixei uma mensagem de voz e, logo depois, mandei uma de texto, dizendo que tinha uma notícia urgente. Meu celular tocou quando estava prestes a ligar para Adrian. Quase quis que fosse Alicia com mais informações para me dar, mas vi que o número era de Stanton. Respirei fundo e tentei atender com a maior calma possível.
— Srta. Sage — ela disse. — Recebi sua mensagem ontem.
— Sim. Obrigada por me ligar de volta.
Eu havia ligado no dia anterior, pouco antes de encontrar Adrian. O treinamento mágico da sra. Terwilliger tinha ganhado prioridade naquele dia, mas eu não havia me esquecido do meu acordo com Marcus.
— Eu tenho, hum, um favor pra pedir — continuei.
Stanton, que raramente se surpreendia, ficou claramente surpresa agora.
— Você sem dúvida tem o direito de pedir... mas não faz o tipo que geralmente pede favores.
— Eu sei, e me sinto meio mal por isso. Então, se a senhora disser que não, vou entender. — Na verdade, se ela dissesse não, eu teria vários problemas, mas era melhor não parecer muito ansiosa. — Bom, estive pensando que vou ter que passar o Natal aqui... com os Moroi. E claro que entendo isso. Faz parte da missão, mas... bom, estaria mentindo se dissesse que isso não me incomoda. Então estava pensando se tem algum jeito de eu receber permissão para ir a uma das grandes cerimônias de fim de ano. Faria eu me sentir... ah, não sei. Mais ligada. Purificada, até. Estou sempre cercada por eles aqui, por essa corrupção, sabe? Às vezes sinto que nem consigo respirar direito. Deve parecer ridículo.
Cortei a tagarelice. Quando Marcus tinha sugerido que eu aproveitasse o fato de conhecer alguém em St. Louis, eu havia pensado imediatamente em Ian. Então percebi que não seria suficiente. Ausentar-se para algo mais espiritual e voltado ao grupo, como as cerimônias anuais de fim de ano dos alquimistas, era outra questão. Muitos alquimistas recebiam permissão para viajar e frequentar essas cerimônias. Elas estavam relacionadas à nossa fé e à nossa união de grupo. Inclusive, Ian tinha falado delas no casamento, com a esperança de me levar a visitá-lo. Mal sabia ele que daria certo. Mais ou menos.
— Não parece nem um pouco ridículo — Stanton disse. Isso soava promissor, e tentei abrir os punhos e relaxar.
— Estava pensando que talvez pudesse ir antes das férias de inverno — acrescentei. — Jill pode ficar dentro dos limites da escola, então não deve haver tanto risco. E Eddie e Angeline estão sempre com ela. Eu poderia dar uma passadinha em St. Louis para uma viagem rápida no fim de semana.
— St. Louis? — Quase pude vê-la franzindo a testa. — Tem cerimônias em Phoenix também. Seria muito mais perto para você.
— Eu sei. Só... — Torci para que meu nervosismo me ajudasse a parecer convincente. — Eu, hum, estava pensando em ver Ian de novo.
— Ah, entendi. — Houve uma longa pausa. — Essa é uma surpresa maior do que você querer comparecer às cerimônias. Pelo que vi no casamento, você não parecia tão encantada pelo sr. Jansen.
Então eu estava certa: Stanton percebera a paixonite dele. No entanto, ela também havia notado que não era recíproca. Ela era extremamente observadora, o que me fez lembrar dos avisos de Marcus sobre como os alquimistas prestavam atenção a tudo o que fazíamos. Comecei a entender os medos dele e por que retirava seus recrutas das garras dos alquimistas tão rapidamente. Será que eu já estava chamando atenção? Será que todas essas coisinhas que fazia, incluindo esse pedido, estariam lentamente me incriminando?
Mais uma vez, torci para que o nervosismo me fizesse parecer uma simples garota apaixonada, da qual Stanton teria pena. St. Louis não era tão longe de avião, e o resultado final dava na mesma.
— Bom, aquela era uma viagem profissional. Não queria desviar do nosso objetivo.
— Claro. — A pausa que ela fez a seguir foi de apenas alguns segundos, mas pareceu durar horas. — Bom, não vejo por que não deixá-la ir. Você tem feito um excelente trabalho e, claro, posso entender a vontade de reencontrar rostos conhecidos. Você está passando mais tempo com os Moroi do que muitos alquimistas passarão na vida e não hesitou quando aquele Ivashkov se jogou em cima de você no casamento.
Também não hesitei quando ele se jogou em cima de mim na fraternidade. Ou será que fui eu que me joguei em cima dele?
— Obrigada.
Ela me autorizou a ir no fim de semana seguinte e disse que eu poderia usar os fundos alquimistas para agendar a viagem. Quando desligamos, considerei ligar para Ian, mas então decidi por uma abordagem mais impessoal. Escrevi um e-mail rápido dizendo que estaria na cidade e que gostaria de encontrá-lo. Depois de pensar por alguns instantes, mandei uma mensagem para Marcus: Tudo preparado.
Chegou a hora do almoço, e Eddie me mandou uma mensagem perguntando se eu poderia encontrar Jill e ele no restaurante do meu alojamento. Desci as escadas na hora marcada e encontrei Eddie, taciturno, sentado sozinho em uma mesa. Fiquei me perguntando onde estava Angeline e lembrei que ela não tinha sido mencionada na mensagem. Em vez de falar dela, me foquei em quem Eddie havia mencionado.
— Cadê a Jill?
Ele apontou com a cabeça para o outro lado do restaurante. Segui seu olhar e vi Jill em pé, perto de uma mesa, rindo e conversando. Ela estava segurando uma bandeja e parecia ter parado no caminho de volta da fila de comida. Micah e outros meninos estavam naquela mesa, e fiquei feliz de ver que ele realmente não parecia ter problemas em ser amigo dela de novo.
— Legal — eu disse, voltando a olhar para a comida. — Que bom que ela está se dando bem com todo mundo.
Eddie olhou para mim, assombrado.
— Não vê o que está acontecendo?
Eu estava prestes a morder minha maçã e parei. Odiava essas perguntas ardilosas. Significavam que eu não tinha visto alguma sutileza social, o que, aliás, não era meu forte. Ao olhar de novo para Jill, tentei adivinhar do que ele estava falando.
— Micah está tentando voltar com ela?
— Claro que não — Eddie disse, como se fosse minha obrigação saber. — Ele está saindo com Claire Cipriano agora.
— Desculpe. Não consigo acompanhar os namoros de todo mundo. Vou colocar na minha lista de coisas a fazer depois de, sabe, desvendar conspirações alquimistas e descobrir se os guerreiros estão atrás de Jill.
O olhar de Eddie ainda estava cravado em Jill, e ele assentiu, o que me fez pensar que não tinha ouvido uma palavra do que eu tinha dito.
— Travis e Juan querem chamar Jill pra sair.
— E daí? Ela aprendeu a lição sobre relações entre humanos e vampiros. — Eu também deveria ter aprendido. — Ela vai dizer não.
— Mesmo assim, eles não deveriam incomodá-la — ele resmungou.
Jill não parecia exatamente incomodada com a atenção. Na verdade, era bom vê-la sorridente e alegre de novo. A autoconfiança combinava com ela e destacava seu status real, e ela estava claramente curtindo a paquera que estava rolando. Uma coisa que eu havia aprendido na minha educação social era que paquerar não era o mesmo que sair com alguém. Minha amiga Julia era uma especialista nessa diferença. Se fazia Jill feliz, eu não via nenhum problema naquilo.
Para dizer a verdade, quem parecia mais incomodado com os pretendentes de Jill era Eddie. Em tese, ele tinha a desculpa de que queria protegê-la, mas aquilo parecia pessoal. Decidi trazê-lo de volta para sua própria vida amorosa, aquela com que ele realmente deveria se preocupar.
— E Angeline, cadê?
Jill começou a vir em nossa direção. Parecendo aliviado, Eddie se virou para mim.
— Bom, era sobre isso que queríamos conversar.
Sempre que alguém queria falar comigo, significava que algo estranho estava prestes a acontecer. Emergências de fato nunca tinham introdução. Elas eram ditas logo de cara. Já coisas premeditadas eram um mistério.
— O que está acontecendo? — perguntei quando Jill se sentou. — Com Angeline?
Ela trocou um olhar significativo com Eddie.
— A gente acha que ela está tramando alguma coisa — ela disse. — Alguma coisa ruim.
De novo não. Olhei para Eddie.
— Ela ainda está distante?
— Sim. Ela almoçou com a gente ontem. — Ele franziu a testa. — Mas estava estranha. Não conseguiu explicar por que anda tão ocupada.
Jill concordou.
— Na verdade, começou a ficar cada vez mais brava quando a gente insistiu. Era estranho. Acho que ela se meteu em alguma confusão.
Me recostei na cadeira.
— Angeline normalmente se mete em confusões espontâneas, não premeditadas. Vocês estão falando como se ela estivesse planejando alguma coisa em segredo. Não é o estilo dela. No máximo, está comprando roupas curtas escondida.
Eddie parecia querer sorrir, mas não conseguiu.
— É verdade.
Jill não pareceu tão convencida.
— Você precisa falar com ela. Descobrir o que está acontecendo.
— Por que vocês não falam com ela? — perguntei, olhando para os dois. — Vocês estão sempre com ela.
— Nós tentamos — Jill protestou. — Mas como eu disse, quanto mais falávamos, mais brava ela ficava.
— Bom, isso consigo entender — retruquei. — Vejam, sinto muito se tem alguma coisa estranha acontecendo com ela. Não quero que ela se meta em confusão, acreditem em mim. Mas não posso ficar levando a menina pela mão o tempo todo. Já arrumei um monitor de matemática pra ela. Meu trabalho é garantir que ela continue na escola e não destrua o disfarce. O resto é irrelevante, e simplesmente não tenho tempo pra isso. E, se ela não fala com vocês, por que acham que falaria comigo?
Eu tinha sido um pouco mais rude do que pretendia. Realmente gostava de todos eles. Também não queria que houvesse problemas no grupo. No entanto, era sempre um pouco frustrante quando vinham até mim com dramas como esse, como se eu fosse a mãe deles. Eles eram umas das pessoas mais inteligentes e competentes que eu conhecia. Não precisavam de mim, e Angeline não era nenhum gênio do crime. Descobrir os motivos dela não deveria ser tão difícil.
Nenhum dos dois falou nada de imediato.
— É só que você é muito boa em falar com as pessoas — Jill disse, finalmente. — Você se comunica muito bem.
Esse definitivamente não era um elogio que eu ouvia muito.
— Não faço nada de especial. Só sou persistente. Continuem tentando e talvez consigam. — Ao ver que Jill estava prestes a protestar, acrescentei: — Por favor. Não me peçam pra fazer isso agora. Vocês sabem que tem muita coisa acontecendo na minha vida no momento.
Lancei um olhar significativo para os dois. Ambos sabiam sobre Marcus, e Jill também sabia sobre a irmã da sra. Terwilliger. Depois de alguns momentos, eles caíram em si e ambos pareceram sem graça.
Eddie deu uma cutucadinha em Jill.
— Ela tem razão. Deveríamos continuar tentando com Angeline.
— Está bem — Jill disse. Meu alívio durou pouco. — Vamos tentar mais um pouco. Então, se não der certo, Sydney pode intervir.
Soltei um resmungo.
Quando nos separamos, não pude deixar de me lembrar do comentário de Marcus em San Bernardino, sobre como os alquimistas ficavam presos a trabalhos rotineiros. Tentei me tranquilizar pensando que Jill e Eddie cuidariam disso sozinhos, e que eu realmente não teria de intervir. Partindo do princípio, claro, de que Angeline realmente não estivesse planejando nada catastrófico.
Infelizmente, essas noções logo foram abaladas quando, mais tarde, entrei no circular que me levaria ao campus central. Nos fins de semana, só havia um ônibus que parava em todos os prédios, e aquele tinha acabado de passar no alojamento masculino.
Encontrei Trey sentado num banco, olhando pela janela com um sorriso no rosto. Quando me viu, o sorriso se desfez.
— Ei — eu disse, me sentando ao lado dele. Ele parecia meio nervoso. — Está indo estudar?
— Encontrar Angeline, na verdade.
Não tinha como fugir dela naquele dia, mas, pelo menos, se estava estudando matemática, parecia improvável que estivesse planejando um golpe ou um incêndio criminoso. No entanto, a expressão conturbada dele me preocupou.
— Ela... não bateu em você de novo, bateu? — Não notei nenhuma marca, mas, com Angeline, nunca dava para saber.
— Hum? Não, não. Não recentemente. — Ele hesitou antes de voltar a falar. — Melbourne, por quanto tempo precisa que eu faça isso?
— Não sei. — Eu vinha me concentrando em fazê-la passar pelos problemas atuais, não futuros. Um dia de cada vez. — A prova final dela vai ser antes das férias. Se ela passar, acho que você fica livre. A menos que queira continuar depois das férias... quer dizer, se ela não estiver cansando muito você.
Isso o assustou muito mais do que eu esperava.
— O.k. Bom saber.
Ele parecia tão triste quando desceu no ponto da biblioteca que fiquei pensando se aquelas respostas de química teriam valido a pena. Eu gostava de Trey. Nunca pensei que impor Angeline a ele causaria uma mudança tão radical em sua vida. Mas supus que esse fosse simplesmente o efeito dela no mundo.
Observei enquanto ele se afastava e então me dirigi ao prédio de ciências. Uma das professoras, a sra. Whittaker, era uma botânica amadora que sempre fornecia com prazer várias plantas e ervas para a sra. Terwilliger. Ela pensava que a sra. Terwilliger utilizava as plantas em projetos de artesanato, como pot-pourri e velas, e não era raro eu ter de pegar as últimas provisões. Quando entrei na sala dela, a sra. Whittaker estava corrigindo provas em sua mesa.
— Oi, Sydney — ela disse, quase sem levantar os olhos. — Coloquei tudo ali, em cima daquele balcão.
— Obrigada.
Fui até lá e fiquei surpresa ao encontrar um estoque de especiarias. Era a maior quantidade que eu já tinha buscado para ela.
— Ela pediu bastante coisa dessa vez — a sra. Whittaker comentou, como que imaginando meus pensamentos. — Realmente vai usar alho no pot-pourri?
— Ah, isso é para, hum, um prato que ela está fazendo. Sabe como é, festas de fim de ano e tudo mais.
Ela assentiu e voltou ao trabalho. Uma coisa que sempre ajudava em questões alquimistas (e de feitiçaria também) era que as pessoas raramente imaginavam motivos sobrenaturais para comportamentos e fenômenos estranhos.
Quase considerei visitar Trey e Angeline na biblioteca, para avaliar o comportamento dela com meus próprios olhos, mas concluí que seria melhor não me envolver. Eddie e Jill lidariam com o problema. Sem mais nada para fazer, me atrevi a ter esperança de que realmente poderia ficar em casa e ler naquele dia. Mas, quando voltei ao alojamento, fui recebida pela visão espantosa de Marcus, sentado num banco do lado de fora, tocando violão. Quatro meninas estavam paradas perto dele, ouvindo maravilhadas. Caminhei até o círculo e cruzei os braços.
— Sério? — perguntei.
Marcus levantou os olhos e abriu um sorriso. Uma das meninas chegou a suspirar.
— Oi, Sydney.
Quatro pares de olhos se voltaram para mim, exibindo um misto de incredulidade e ciúme.
— Oi — eu disse. — Você é a última pessoa que eu esperava ver aqui.
— Nunca faço o que é previsível. — Ele jogou o cabelo para trás e começou a guardar o violão de volta no estojo. — Desculpem, meninas. Eu e Sydney precisamos conversar.
Elas me olharam com ainda mais incredulidade, o que me incomodou um pouco. Era tão inacreditável assim que um cara bonito quisesse conversar comigo? As fãs dele se dispersaram com má vontade, e Marcus e eu fomos dar uma volta pelo campus.
— Você não deveria estar escondido? — perguntei. — Em vez de ficar pedindo esmola com o violão?
— Não pedi dinheiro pra elas em nenhum momento. Além disso, estou disfarçado hoje. — Ele apontou para a bochecha, e notei que sua tatuagem estava quase invisível.
— Você está usando maquiagem? — perguntei.
— Não me julgue — ele disse. — Assim posso andar por aí com mais liberdade. Sabrina me ajudou a encontrar o tom certo para a minha pele.
Paramos perto de umas árvores em que havia certa privacidade.
— Então por que está aqui? Por que não ligou ou mandou mensagem?
— Porque tenho uma entrega. — Ele colocou a mão no bolso da camisa e me deu uma folha de papel dobrada que parecia ter viajado o mundo antes de chegar até mim.
Quando abri e consegui alisar o papel, vi vários desenhos traçados meticulosamente.
Olhei de volta para ele.
— A planta do Wade.
— Como prometido. — Um pouco daquela presunção diminuiu, e ele pareceu sinceramente impressionado. — Você tem mesmo um jeito de ir para St. Louis?
— Está tudo fechado — respondi. — Quer dizer, tirando a parte em que invado o servidor deles. Mas tenho algumas ideias sobre como fazer isso.
Ele riu.
— Claro que tem. Nem vou me dar ao trabalho de perguntar. Toda garota tem seus segredos. Talvez algum dia você revele os seus. — Pelo seu tom, ele poderia estar falando de segredos não profissionais. — Quando isso tudo acabar.
— Algum dia vai acabar? — perguntei. Era para ser uma piada, mas minha voz soou mais triste do que eu pretendia.
Ele me olhou longamente.
— Não, na verdade não. Mas selar a tatuagem no México é divertido. Tomara que você venha com a gente. Pelo menos podemos aproveitar a praia e tomar margaritas enquanto desfazemos magias perversas. Você tem biquíni?
— Não. E não bebo.
— Então podemos sair pra tomar um café qualquer dia. Isso sei que você bebe.
— Ando muito ocupada — eu disse, pensando em tudo o que me afligia. — E você sabe que eu ainda não decidi nem se vou fazer a primeira fase de romper a tatuagem.
— Você deveria, Sydney. — Ele tinha retomado o ar profissional e apontou para minha bochecha. — Faça isso pelo menos. Não deixe que eles controlem você mais do que já controlaram. Sei que acha a gente meio maluco, mas isso é algo que levamos muito a sério.
— Oi, Sydney.
Olhei para o lado e vi minha amiga Julia Cavendish carregando uma grande pilha de livros. Alguns segundos depois, Marcus olhou para ela também. Os olhos dela se arregalaram, e ela tropeçou e derrubou tudo no chão, corando.
— Ai, meu Deus. Sou uma idiota.
Fiz menção de ajudar, mas em uma fração de segundo Marcus já estava ao lado dela, com aquele sorriso de astro de cinema.
— Acontece nas melhores famílias. Prazer, sou Dave.
— J-Julia — ela gaguejou. Desde que a conhecera, nunca a tinha visto encantada por um garoto antes. Normalmente, ela era uma devoradora de homens.
— Pronto. — Ele devolveu os livros para ela, todos numa pilha organizada.
— Obrigada. Muito obrigada. Não precisava. Tipo, a culpa foi minha. Não costumo ser tão destrambelhada. E você deve estar ocupado. Deve ter muita coisa pra fazer. Claro. — Nunca tinha visto Julia falar sem parar também.
Marcus deu um tapinha nas costas dela, e pensei que ela fosse desmaiar.
— É sempre um prazer ajudar uma donzela em apuros. — Ele me deu um aceno de cabeça. — Preciso ir, Sydney. Depois falo com você.
Respondi com outro aceno. Assim que ele se afastou, Julia derrubou os livros de novo e correu na minha direção.
— Sydney, você precisa me dizer quem é esse cara.
— Ele já disse. Dave.
— Sim, mas quem é esse cara? — Ela agarrou meu braço e parecia estar prestes a me chacoalhar até que eu desse respostas.
— Só um cara que conheço. — Pensei um pouco mais. — Um amigo, acho.
Ela segurou o fôlego.
— Vocês dois não estão... assim...
— Quê? Não! Por que você pensaria uma coisa dessas?
— Porque ele é lindo, ué — ela respondeu, como se isso bastasse para que fôssemos almas gêmeas. — Você não fica com vontade de arrancar a roupa dele?
— Nem um pouco.
— Sério? — Ela me examinou, como se eu estivesse brincando. — Nem um tiquinho?
— Não.
Ela deu um passo para trás e começou a pegar os livros.
— Caramba, Syd. Não sei o que pensar de você às vezes. Tipo, fico contente que ele esteja solteiro... ele está solteiro, né? Mas eu já teria partido pra cima dele se fosse você.
As palavras de Jill sobre como ele era humano e tinha “aquele lance de alquimista rebelde” me voltaram à mente. Talvez eu devesse começar a considerar Marcus ou algum outro ex-alquimista como opção romântica. Ter alguém que não fosse um vampiro proibido na minha vida poderia facilitar as coisas. Tentei procurar em mim a mesma reação que as outras meninas tinham perto de Marcus, mas não encontrei nada. Por mais que tentasse, simplesmente não sentia a mesma atração por ele. O cabelo dele era loiro demais, pensei. E seus olhos precisavam de um pouco mais de verde.
— Desculpe — eu disse a Julia. — Só não sinto nada por ele.
— Se é o que você diz... Ainda acho você maluca. Eu iria até o inferno por um cara desses.
Todas as reflexões sobre relacionamentos desapareceram, e senti um frio na barriga no caminho enquanto voltávamos para o alojamento. O inferno era uma boa analogia para aquilo em que eu estava me metendo.
— Você pode estar mais perto da verdade do que imagina.
Ela sorriu.
— Viu? Sabia que você não ia resistir.

Um comentário:

  1. "O cabelo dele era loiro demais. E seus olhos precisavam de um pouco mais de verde"... Qual é Sydney!!! Até o seu subconsciente quer o Adrian!!!

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