3 de outubro de 2017

Capítulo 14

— AI, DEUS — exclamei.
— Que foi? — Brayden perguntou. — Está tudo bem?
— Não sei dizer. — Coloquei o celular de volta na bolsa. — Detesto fazer isso, mas preciso resolver uma coisa lá fora. Volto o mais rápido possível.
— Quer que eu vá com você?
Hesitei.
— Não, tudo bem. — Não fazia ideia do que me esperava lá fora. Era melhor não expor Brayden a isso. — Vai ser rápido.
— Sydney, espere — Brayden disse, segurando meu braço. — Esta... esta é a música que você pediu, não é? — A que vínhamos dançando tinha terminado e uma nova começava a tocar... ou, melhor dizendo, uma velha, de trinta anos antes.
Suspirei.
— Sim, é ela. Vai ser rápido, prometo.
A temperatura do lado de fora estava agradável — quente, mas não demais. Tinham dito que choveria um pouco. Enquanto seguia para o estacionamento, algumas das lições de Wolfe me vieram à mente. Examine os arredores. Cuidado com pessoas à espreita atrás dos carros. Fique na luz. Procure...
— Adrian!
Todos meus pensamentos racionais desapareceram. Adrian estava deitado em cima do meu carro.
Corri para o Pingado o mais rápido que pude com aquele vestido.
— O que você está fazendo? — perguntei. — Saia já daí!
Automaticamente, procurei por algum amassado ou arranhão. Como se não bastasse, Adrian estava fumando deitado no capô, olhando para o céu. Era possível entrever uma meia-lua entre as nuvens que se moviam.
— Relaxa, Sage. Não deixei nenhum arranhão. Sinceramente, este carro é surpreendentemente confortável para um carro de família. Esperava...
Ele virou a cabeça para mim e ficou paralisado. Nunca o tinha visto tão imóvel... ou tão silencioso. O choque foi tão grande e intenso que ele chegou a derrubar o cigarro.
— Ahh — gritei, pulando para a frente, tentando evitar que o carro fosse queimado pelo cigarro. Ele acabou caindo, inofensivo, no asfalto, e o apaguei depressa com o calcanhar. — Pela última vez, dá pra sair daí?
Adrian se sentou lentamente, com os olhos arregalados. Saiu do capô sem deixar nenhuma marca aparente. Obviamente, seria preciso confirmar depois.
— Sage — ele disse —, que vestido é esse?
Suspirei e abaixei os olhos.
— Eu sei. É vermelho. Nem começa. Estou cansada de ouvir isso.
— Engraçado — ele disse. — Acho que nunca vou cansar de ficar olhando.
Isso me pegou de surpresa e senti uma onda de calor. O que ele queria dizer com aquilo? Será que eu estava tão bizarra que ele não conseguia parar de olhar para aquele espetáculo esdrúxulo? Ele... Ele não podia estar dizendo que eu estava bonita...
Logo recuperei a compostura, lembrando que precisava pensar no garoto que estava lá dentro, e não no que estava ali fora.
— Adrian, estou no meio de um encontro. Por que você está aqui? E em cima do meu carro?
— Desculpe interromper, Sage. Não estaria no seu carro se tivessem me deixado entrar na festa — ele disse.
Parte do seu espanto anterior esmaeceu e ele relaxou, assumindo uma postura mais típica dele, recostando-se no Pingado. Pelo menos ele estava em pé, então havia menos chance de causar dano ao carro.
— Pois é. Eles não costumam deixar caras de vinte e poucos anos entrarem em festas do ensino médio. O que você quer?
— Conversar com você.
Esperei que ele continuasse, mas a única reação que recebi foi um rápido relâmpago atravessando o céu. Era sábado e eu havia passado o dia inteiro no campus. Ele podia ter ligado facilmente durante esse período. Ele sabia que eu iria à festa naquela noite. Então, ao sentir o cheiro de álcool que ele exalava, percebi que nada que ele fizesse naquela noite deveria me surpreender.
— Por que não esperou até amanhã? — perguntei. — Você realmente tinha que vir até aqui hoje e... — Franzi a testa e olhei ao redor. — Como você conseguiu chegar até aqui?
— Peguei o ônibus — respondeu, quase com orgulho. — Foi muito mais fácil do que chegar na Carlton.
A Faculdade Carlton era onde ele estudava arte e, sem um carro próprio, ele dependia bastante do transporte público, o que era novidade para ele. Minha esperança era que Sonya ou Dimitri o tivessem levado até lá, o que significaria que poderiam levá-lo de volta. Mas é claro que isso não iria acontecer. Nenhum deles teria levado um Adrian bêbado até lá.
— Então acho que preciso levar você pra casa — eu disse.
— Ei, eu cheguei aqui sozinho. Então consigo ir embora sozinho.
Ele começou a pegar outro cigarro, ao que eu adverti, rígida:
— Nem pense nisso. — Ele deu de ombros e guardou o maço. — E preciso levar você para casa, sim. Vai desabar um temporal daqui a pouco. Não vou fazer você andar na chuva.
Outro raio enfatizou minhas palavras, e uma leve brisa agitou o tecido do vestido.
— Ei — ele disse. — Não quero ser um estorv...
— Sydney? — Brayden estava atravessando estacionamento. — Está tudo bem?
Não, não mesmo.
— Vou ter que sair um pouquinho — respondi. — Preciso levar meu irmão pra casa. Tudo bem se você me esperar? Não devo demorar muito. — Só de sugerir isso, me senti mal. Brayden não conhecia quase ninguém da minha escola. — Você pode encontrar o Trey, talvez?
— Claro — Brayden disse, hesitante. — Ou posso ir com você.
— Não — respondi rápido, sem querer que ele entrasse no mesmo carro que Adrian bêbado. — Volte e se divirta.
— Bela toga — Adrian disse a Brayden.
— É um quitão — Brayden respondeu. — Grego.
— Certo. Esqueci que é o tema da noite. — Adrian examinou Brayden, olhou para mim e depois de volta para Brayden. — Então, o que você acha da roupa da nossa garota hoje? Demais, não? Parece a Cinderela. Ou uma Cinderela grega, talvez.
— Não tem nada de grego de verdade nessa roupa — Brayden disse. Pestanejei. Sabia que ele não queria ser insensível, mas suas palavras me machucaram um pouco. — O vestido é historicamente impreciso. Quer dizer, é bonito, mas as joias são anacrônicas, e o tecido não é nenhum que as mulheres gregas teriam. Muito menos dessa cor.
— E que tal aquelas outras mulheres gregas? — Adrian perguntou. — As inteligentes e espalhafatosas. — Franziu a testa, como se estivesse usando cada centímetro do cérebro para encontrar a palavra que queria. E, para minha surpresa, acabou encontrando. — As heteras.
Sinceramente, não conseguia acreditar que ele tinha guardado alguma coisa da nossa conversa em San Diego. Me esforcei para não sorrir.
— As heteras? — Brayden parecia ainda mais surpreso do que eu e me examinou de cima a baixo. — Sim... sim. Acho que, supondo que esses materiais existissem naquela época, isso seria algo que você esperaria uma hetera usar, e não uma mãe de família grega comum.
— E elas eram prostitutas, certo? — Adrian perguntou. — Essas heteras?
— Algumas eram — Brayden concordou. — Mas não todas. Acho que o termo correto é “cortesã”.
Adrian permaneceu completamente inexpressivo.
— Então você está dizendo que minha irmã está vestida como uma prostituta.
Brayden deu uma olhada no meu vestido.
— Bem, sim, se ainda estivermos falando em termos hipotéticos...
— Quer saber? — interrompi. — Precisamos ir embora. Vai chover a qualquer momento agora. Vou levar Adrian para casa e encontro você aqui na volta, tudo bem? — Me recusei a deixar que Adrian continuasse a jogar um de seus joguinhos para atormentar Brayden e, por extensão, me atormentar. — Mando uma mensagem quando estiver voltando.
— Certo — Brayden disse, com o ar incerto.
Ele voltou para a festa e comecei a entrar no carro, até perceber que Adrian estava tentando, sem sucesso, abrir a porta do passageiro. Com um suspiro, caminhei até ele e abri.
— Você está mais bêbado do que eu pensei — comentei. — E olha que pensei que você estivesse muito bêbado.
Ele sentou com dificuldade, e voltei para o meu lado do carro no exato instante em que as gostas de chuva começaram a cair sobre o para-brisa.
— Bêbado demais para a Belezinha sentir alguma coisa — ele disse. — O laço está entorpecido. Ela pode ter uma noite livre de mim.
— Muito atencioso da sua parte — ironizei —, embora eu ache que esse não seja o verdadeiro motivo para você ter enchido a cara. Ou ter vindo até aqui. Até onde eu sei, tudo o que você conseguiu foi encher o saco do Brayden.
— Ele chamou você de prostituta.
— Não! Você o manipulou para que dissesse isso.
Adrian passou a mão no cabelo e encostou a cabeça no vidro, observando a tempestade, que ficava cada vez mais forte.
— Não importa. Não vou com a cara dele.
— Porque ele é inteligente demais? — perguntei, antes de lembrar o que Jill e Eddie haviam comentado. — E “pouco memorável”?
— Não. Só acho que você pode fazer melhor.
— Como?
Adrian não respondeu, e tive de ignorá-lo por um tempo para prestar atenção na estrada. Embora raras, as tempestades em Palm Springs eram violentas e vertiginosas. Enchentes inesperadas não eram incomuns, e a chuva estava ficando torrencial, dificultando a visibilidade. Felizmente, Adrian não morava muito longe dali, o que era uma bênção porque, quando estávamos a alguns quarteirões de seu apartamento, ele disse:
— Não estou me sentindo muito bem.
— Não — resmunguei. — Por favor, por favor, não vomite no meu carro. Estamos quase chegando. — Mais ou menos um minuto depois, estacionei em frente ao prédio dele. — Sai. Agora.
Ele obedeceu e eu o segui, embaixo de um guarda-chuva. Olhando de soslaio para mim enquanto seguíamos para o prédio, ele perguntou:
— Nós moramos num deserto e você tem um guarda-chuva no carro?
— Claro que sim. Por que não teria?
Ele derrubou as chaves e as peguei do chão, imaginando que seria mais fácil eu abrir a porta. Apertei o interruptor mais próximo, e nada aconteceu. Ficamos parados por um tempo, juntos no escuro, sem nos mexer.
— Tenho umas velas na cozinha — Adrian disse, cambaleando naquela direção. — Vou acender algumas.
— Não — ordenei, imaginando o prédio todo ardendo em chamas. — Deite no sofá. Ou vomite no banheiro. Eu cuido das velas.
Ele escolheu o sofá, aparentemente não se sentindo tão mal quanto temia. Enquanto isso, fui atrás das velas — eram daquele tipo horrível com aroma artificial de pinho. Pelo menos faziam um pouco de luz, então levei uma até ele, junto com um copo de água.
— Aqui. Beba isso.
Ele pegou o copo e conseguiu se sentar para dar alguns goles. Então me devolveu o copo e se jogou no sofá de novo, colocando um dos braços sobre os olhos. Puxei uma cadeira por perto e me sentei. As velas de pinho lançavam uma luz fraca e vacilante entre nós.
— Obrigado, Sage.
— Você vai ficar bem se eu for embora? — perguntei. — Tenho certeza de que a luz vai voltar até amanhã.
Ele não respondeu à minha pergunta. Em vez disso, falou:
— Sabe, eu não bebo só pra ficar bêbado. Quer dizer, faz parte, claro. Grande parte. Mas às vezes o álcool é a única coisa que me mantém lúcido.
— Isso não faz o menor sentido. Tome — eu disse, dando-lhe a água. Enquanto isso, olhei de relance no relógio do celular, preocupada com Brayden. — Beba mais um pouco.
Adrian obedeceu e então voltou a falar, com o braço sobre os olhos.
— Você sabe como é sentir que tem alguma coisa corroendo seu cérebro?
Estava prestes a dizer que precisava ir, mas as palavras dele me deixaram aturdida. Lembrei o que Jill havia dito sobre a relação dele com o espírito.
— Não — respondi honestamente. — Não sei como é... mas, pra mim, é uma das coisas mais assustadoras que posso imaginar. Meu cérebro... é quem eu sou. Acho que preferiria sofrer qualquer lesão a ter meu cérebro prejudicado.
Não podia deixar Adrian daquele jeito. Simplesmente não podia. Mandei uma mensagem para Brayden: Vou demorar um pouco mais do que imaginava.
— É assustador — Adrian disse. — E estranho, na falta de uma palavra melhor. E parte de você sabe... bem, parte de você sabe que aquilo não está certo. Que o que você está pensando não é certo. Mas o que você pode fazer? Tudo o que fazemos depende de como pensamos, de como vemos o mundo. Se você não pode confiar na sua própria mente, em que você pode confiar? No que os outros dizem?
— Não sei — eu disse, por falta de uma resposta melhor. As palavras dele me atingiram e me fizeram pensar em como boa parte da minha vida tinha sido guiada pelos comandos de outras pessoas.
— Uma vez Rose me falou de um poema que havia lido. Tinha um verso que era: “Se seus olhos não estivessem abertos, você não saberia a diferença entre sonhar e estar acordado”. Sabe do que tenho medo? Que algum dia, mesmo com os olhos abertos, eu não saiba.
— Ah, Adrian, não. — Senti meu coração partindo e sentei no chão, ao lado do sofá. — Isso não vai acontecer.
Ele suspirou.
— Pelo menos o álcool... Ele acalma o espírito e então eu sei que, se as coisas parecerem estranhas, deve ser porque estou bêbado. Não é um motivo nobre, mas é um motivo, sabe? Pelo menos eu realmente tenho um motivo para me sentir assim além de não confiar em mim mesmo.
Brayden respondeu a mensagem: Quanto tempo?
Irritada, respondi: Quinze minutos.
Levantei os olhos para Adrian. Seu rosto ainda estava coberto, mas a luz das velas iluminava bem os traços harmoniosos de seu perfil.
— Foi por isso... foi por isso que você bebeu hoje? O espírito está perturbando você? Quer dizer, você parecia estar melhorando nos últimos dias...
Ele respirou fundo.
— Não. Está tudo bem com o espírito... na medida do possível. Na verdade, fiquei bêbado hoje porque... era o único jeito de eu conseguir falar com você.
— A gente conversa o tempo todo.
— Preciso saber de uma coisa, Sage. — Ele tirou o braço do rosto para me olhar e de repente percebi como estava próxima dele. Por um momento, quase não consegui prestar atenção no que ele dizia, porque a dança vacilante de luz e sombra conferia uma beleza misteriosa ao seu belo rosto. — Você mandou Lissa conversar com meu pai?
— Quê? Ah. Isso. Espere um segundo.
Peguei o celular e mandei outra mensagem para Brayden: Ou melhor, trinta minutos.
— Tenho certeza de que alguém pediu para ela fazer isso — Adrian continuou. — Quer dizer, Lissa gosta de mim, mas tem muita coisa acontecendo na vida dela e ela não teria acordado um dia e pensado: “Ah, preciso ligar para Nathan Ivashkov e dizer como o filho dele é incrível”. Você deve ter pedido para ela fazer isso.
— Na verdade, nunca falei com ela — eu disse. Não me arrependia do que tinha feito, mas me senti estranha ao ser confrontada. — Mas, bem, posso ter pedido para Sonya e Dimitri falarem com ela em seu favor.
— E depois ela conversou com o velho.
— Algo assim.
— Eu sabia — ele disse. Pelo tom, não consegui identificar se estava contrariado ou aliviado. — Sabia que alguém tinha levado ela a fazer isso e, não sei por que, sabia que tinha sido você. Ninguém mais faria isso por mim. Não sei o que Lissa disse mas, cara, ela deve ter conquistado mesmo o velho. Ele ficou tão impressionado que vai me mandar dinheiro pra comprar um carro. E aumentar minha mesada a um valor aceitável.
— Isso é bom — eu disse —, não é?
Meu celular vibrou com outra mensagem de Brayden. Até lá a festa já vai ter terminado.
— Mas por quê? — ele perguntou. Ele sentou no chão ao meu lado, com o olhar quase angustiado. Inclinou-se para perto de mim e então pareceu surpreso ao perceber o que estava fazendo. Recuou um pouco para trás, mas só um pouco. — Por que você fez isso? Por que fez isso por mim?
Antes que eu pudesse responder, recebi outra mensagem. Você vai chegar a tempo?
Não consegui não ficar irritada com a falta de compreensão de Brayden. Sem pensar, respondi: Talvez seja melhor você ir embora. Amanhã te ligo. Desculpe. Virei o celular para não ver caso chegassem outras mensagens. Voltei a olhar para Adrian, que me observava atentamente.
— Porque ele não foi justo com você. Porque você merece crédito pelo que faz. Porque ele precisa entender que você não é a pessoa que ele sempre pensou que fosse. Ele precisa vê-lo como você realmente é, não pelas ideias e preconceitos que construiu em torno de você. — A intensidade do olhar de Adrian era tão forte que continuei falando, não querendo retribuir aquele olhar em silêncio. Além disso, parte de mim temia que, se eu refletisse demais sobre minhas palavras, perceberia que elas eram tão pertinentes à minha relação com meu pai quanto à de Adrian com o dele. — Falar pra ele quem você é, mostrar pra ele quem você é, já devia ser o bastante, mas ele não ouve. Não gosto da ideia de usar outras pessoas para fazer o que nós mesmos poderíamos fazer, mas essa me pareceu a única saída.
— Bom — Adrian disse, por fim —, acho que funcionou. Obrigado.
— Ele disse a você como entrar em contato com a sua mãe?
— Não. Ele não ficou orgulhoso de mim a esse ponto.
— Acho que consigo descobrir onde ela está — eu disse. — Ou... tenho certeza de que Dimitri consegue. Como você mesmo disse, eles devem deixar ela receber cartas.
Ele quase abriu um sorriso.
— Lá vem você de novo. Por quê? Por que continua me ajudando?
Eu tinha milhões de respostas na ponta da língua, desde É a coisa certa a fazer até Não faço ideia. Em vez disso, respondi:
— Porque eu quero.
Dessa vez conquistei um sorriso sincero, mas havia algo sombrio e introspectivo nele. Ele se aproximou de mim novamente e perguntou:
— Porque você tem pena desse cara maluco?
— Você não vai ficar maluco — eu disse, firme. — Você é mais forte do que imagina. Da próxima vez que se sentir assim, se concentre em alguma coisa, para se lembrar de quem você é.
— Como o quê? Você tem algum objeto mágico em mente?
— Não precisa ser mágico — eu disse, vasculhando meu cérebro. — Aqui. — Desprendi a cruz dourada do pescoço. — Isso sempre serviu para mim. Talvez possa ajudar você — eu disse, e estendi a mão para colocar na dele, mas ele segurou a minha antes que eu pudesse tirá-la.
— O que é isso? — ele perguntou. Examinou mais de perto. — Espera... Já vi isso antes. Você usa o tempo todo.
— Comprei faz tempo, na Alemanha.
Ele ainda segurava a minha mão enquanto examinava a cruz.
— Sem ornamentos. Sem firulas. Sem símbolos secretos gravados.
— É por isso que gosto dela — eu disse. — Não precisa de enfeite. Muitas antigas crenças alquimistas se concentravam na pureza e na simplicidade. É isso que ela representa. Talvez possa ajudar você a ficar com a mente lúcida.
Ele estava fitando a cruz, mas então levantou o olhar até encontrar o meu.
Alguma emoção que não pude identificar passou pelo seu rosto. Ele parecia ter descoberto alguma coisa, algo que o perturbava profundamente. Respirou fundo e, ainda segurando a minha mão, me puxou para perto. Seus olhos verdes estavam escurecidos sob a luz das velas, mas mantinham o mesmo magnetismo. Seus dedos apertaram os meus e senti um ardor se espalhar por meu corpo.
— Sage...
De repente a energia voltou, enchendo a sala de luz. Aparentemente, sem se preocupar com a conta, ele havia deixado todas as luzes acesas ao sair. O encanto se quebrou e nós dois piscamos com a luminosidade súbita. Adrian deu um pulo para trás, deixando a cruz dourada na minha mão.
— Você não tem uma festa, um toque de recolher ou coisa assim? — ele perguntou abruptamente, sem me encarar. — Não quero prender você aqui. Nossa, não devia ter te atrapalhado. Desculpe. Foi Aiden que te mandou mensagem, não foi?
— Brayden — eu disse, levantando. — E está tudo bem. Ele foi embora e agora vou voltar para Amberwood.
— Desculpe — ele repetiu, me acompanhando até a porta. — Desculpe por ter acabado com a sua noite.
— Com isso? — Contive o riso, pensando em todas as coisas malucas com que já havia me deparado na vida. — Não. Precisaria de muito mais para acabar com a minha noite. — Dei alguns passos e então parei. — Adrian?
Ele finalmente olhou nos meus olhos, mais uma vez me abalando com aquela intensidade.
— Sim?
— Da próxima vez... Da próxima vez que quiser conversar sobre alguma coisa comigo, qualquer coisa, não precisa beber pra ganhar coragem. É só dizer.
— Falar é fácil.
— Fazer também.
Continuei a caminhar para a porta e, dessa vez, foi ele que me deteve, colocando a mão sobre meu ombro.
— Sage?
— Sim? — perguntei, me virando.
— Sabe por que não gosto dele? Do Brayden? — Fiquei tão surpresa por ele ter acertado o nome que não consegui formular nenhuma resposta, embora muitas me viessem à mente. — Por causa do que ele disse.
— Que parte?
Brayden havia dito muitas coisas, com muitos detalhes, então não ficou totalmente claro a que Adrian estava se referindo.
— “Historicamente impreciso.” — Adrian apontou para mim com a mão que não estava no meu ombro. — Quem consegue olhar para você e dizer “historicamente impreciso”?
— Bem — eu disse —, tecnicamente é verdade.
— Ele não devia ter dito isso.
Eu me mexi, sem jeito, sabendo que devia me afastar... mas não me afastei.
— Ah, é só o jeito dele.
— Ele não devia ter dito isso — Adrian repetiu, com uma seriedade inquietante. Então aproximou o rosto do meu. — Não importa se ele não faz o tipo emocional nem o tipo que elogia nem sei lá o quê. Ninguém pode olhar para você nesse vestido, com todo esse fogo e esse ouro, e ficar falando de anacronismos. Se eu fosse ele, teria dito que você é a criatura mais linda que já caminhou sobre a terra.
Perdi o fôlego com o que ele disse e com o jeito que havia dito. Me senti estranha. Não sabia o que pensar, exceto que precisava sair dali, ir para longe de Adrian, para longe do que não conseguia entender. Me afastei dele e fiquei surpresa ao perceber que eu estava tremendo.
— Você ainda está bêbado — eu disse, colocando a mão na maçaneta.
Ele inclinou a cabeça, ainda me observando com o aquele olhar desconcertante.
— Algumas coisas são verdade, bêbado ou sóbrio. Você devia saber disso. Você está sempre lidando com fatos.
— É, mas isso não é... — Não conseguia argumentar sob aquele olhar. — Eu preciso ir. Ah... você não pegou a cruz — eu disse, estendendo para ele.
— Não. Fique com ela. Acho que tenho outra coisa para me ajudar a pôr a vida nos eixos.

4 comentários:

  1. Nesses momentos você odeia a existência da energia elétrica

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  2. ♫Eu adoro, eu me amarro♪!!! Adeus rose, OLÁ SYDNEY <3 <3 <3!!!

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  3. Ah, por pouco... *-*

    Esse Brayden é um chato ein.

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Boa leitura :)