30 de outubro de 2017

Capítulo 13

Adrian

— O QUE SALMÕES TÊM A VER COM OS GUERREIROS? — perguntei.
Sydney me lançou um olhar de esguelha.
— Salmos, não salmões. E não sei a relação. — Ela observou Trey com expectativa. — São um tipo de poema religioso, certo? Da Bíblia?
— Sim — ele respondeu. — Quer dizer, os que os guerreiros gostam de citar não estão na Bíblia de verdade. Eles inventam um monte de salmos por conta própria que recitam muito em ocasiões formais, antes de reuniões ou coisas do tipo. Se Alicia falou que Jill estava ouvindo salmos, é provável que ela esteja sendo mantida em algum lugar por eles. Acreditem em mim, não tem nada que eles gostariam mais do que ter uma prisioneira Moroi.
Eddie se voltou para Jackie incrédulo e apontou na direção de Alicia.
— Descongela essa bruxa! Precisamos de respostas agora. Antes que seja tarde demais para Jill.
Nunca o vira tão agitado e fiquei tentado a acalmá-lo com compulsão. Jackie permaneceu extraordinariamente serena.
— Eu é que não vou libertar Alicia aqui. Se fizermos isso, vai ser com dez outras bruxas para mantê-la aprisionada. E, mesmo assim, não acho que ela vá colaborar.
— Ela está certa — Sydney disse, devagar. — Mesmo se soltarmos Alicia, não sabemos se ela vai nos contar alguma coisa.
— Farei com que ela fale — Eddie insistiu. — Ou Adrian pode usar compulsão nela.
Sydney não pareceu animada com a ideia, mas, na minha cabeça, tia Tatiana exclamou ansiosa: Sim! Sim! Vamos compelir essa bruxa a nos contar coisas que ela nem faz ideia de que sabe!
— Existem feitiços que protegem contra compulsão e Alicia é esperta o suficiente para ter tomado esse cuidado. — Jackie se virou para uma das amigas bruxas. — O que você acha? De quanto tempo precisa até ela enfraquecer?
A bruxa observou Alicia paralisada com o olhar clínico.
— Pra falar a verdade, eu a deixaria assim por uma semana. Mas, se vocês estão com pressa… — Ela olhou para Eddie antes de se voltar para Alicia. — Diria quarenta e oito horas.
— Quarenta e oito horas?! — Eddie exclamou. — Jill pode não ter quarenta e oito horas se os guerreiros estiverem com ela! Podem estar fazendo algum ritual de execução enquanto a gente fica aqui de conversinha.
Jackie continuou firme.
— Ficar paralisada suga a energia dela. Dois dias assim e vai estar esgotada, tanto do ponto de vista físico como mágico. Muito mais fácil de interrogar. Mesmo assim, só a libertaria se estivéssemos num lugar extremamente seguro e com mais reforços. Ela é muito imprevisível.
— Dois dias é demais — Eddie insistiu. Compartilhava da sua angústia. Sydney, porém, ficou pensativa.
— Alicia será uma ameaça menor e ficará mais fácil interrogá-la assim — ela disse, devagar. — E, enquanto isso, podemos conseguir algumas respostas mais rápidas sobre os guerreiros.
— Como? — eu e Trey perguntamos ao mesmo tempo.
— Com Marcus — Sydney respondeu. — Ou melhor, com um dos contatos dele. É uma menina que trabalha disfarçada com os guerreiros. Pode descobrir alguma coisa antes que possamos fazer Alicia falar. Vou falar com ela e com Marcus. Se eles não conseguirem nada em vinte e quatro horas, as bruxas vão preparar Alicia para o interrogatório.
Ninguém pareceu contente com a solução, mas todo mundo concordou. Finalmente fomos nos dispersando. Eddie ficaria com Trey enquanto eu e Sydney voltaríamos para a casa de Clarence. No caminho, Sydney ligou para Marcus a fim de explicar a situação e ele prometeu retornar assim que possível.
Quando chegamos à casa de Clarence, Rose e Dimitri estavam ansiosos para saber o que havia acontecido. Deixei que Sydney contasse as novidades para os dois enquanto fui dar uma olhada em Declan e na minha mãe. Fazia poucos dias que ele estava na minha vida, mas fiquei surpreso com a ansiedade que sentia para ver como ele estava, por mais que o bebê não fizesse quase nada além de dormir. Depois dos acontecimentos turbulentos e do pânico que tinha sentido ao descobrir que Sydney enfrentara Alicia sozinha, a presença de Declan me tranquilizou.
Algumas horas depois, Marcus ligou para Sydney dizendo que tinha uma novidade e que estava a caminho de Palm Springs para contá-la pessoalmente. No entanto, Marcus era um fugitivo tão procurado quanto Sydney e, com a precaução de sempre, marcou um encontro no dia seguinte longe da mansão de Clarence e da casa de Trey.
O lugar que escolheu era um restaurante mongol fora da cidade. Depois de muita insistência, Rose e Dimitri aceitaram esperar as novidades na casa de Clarence para não aparecermos em um grupo grande demais. Trey e Eddie, porém, nos acompanharam. Trey tinha informações úteis sobre os guerreiros, e nenhuma força na Terra era capaz de manter Eddie longe dos planos relacionados a Jill. Quando entramos no restaurante, Sydney soltou um suspiro de alívio.
— Que bom. Ele trouxe Sabrina junto.
Já havia sido apresentado a Sabrina, mas não a conhecia direito. Ela tinha mais ou menos a minha idade e espionava os Guerreiros da Luz havia anos. Seu primeiro encontro com Sydney tinha envolvido uma arma apontada para minha esposa, o que não me deixara muito contente. Mas nós dois sabíamos que Sabrina só estava tentando proteger Marcus. Ao longo do tempo, passamos a respeitar tanto ela como a importância do seu trabalho. Ela não concordava com a filosofia dos guerreiros, mas continuava com eles porque as informações que conseguia eram úteis para os outros. Minha grande esperança era que fossem úteis hoje.
— Uma boa e uma má notícia — Marcus disse, o que não era exatamente a introdução que esperávamos. — A boa notícia é que temos quase certeza de que os guerreiros estão com Jill. A má é que não sabemos exatamente onde ela está.
Eddie cruzou os braços.
— Hora de libertar Alicia e arrancar algumas respostas.
— Não necessariamente — Sabrina disse. Seu longo cabelo loiro estava amarrado num rabo de cavalo e ela parecia uma menina normal, não alguém que fingia ser integrante de um grupo fanático antivampiros. — Meu palpite é que Alicia também não sabe onde Jill está. Ela deve ter capturado Jill e entregado aos guerreiros, deixando que a escondessem em algum lugar. Dei uma pesquisada e encontrei relatórios sobre uma “prisioneira Moroi de alta visibilidade”, mas, infelizmente, não revelavam a localização nem mesmo para os membros do grupo. Podem até trabalhar com alguém como Alicia, mas não confiariam nela tanto assim.
A notícia me desanimou e Eddie ficou igualmente frustrado.
— Então o que a gente faz se nem seu grupo sabe onde ela está? — ele perguntou.
— Bom — Sabrina disse —, alguém sabe. Mas não alguém do meu nível.
Marcus assentiu enquanto engolia um pedaço de seu refogado, que, pelo que vi, parecia conter apenas carne e nenhum legume.
Que primitivo, tia Tatiana zombou.
Ei, deixa o cara, defendi. Ser um corajoso fugitivo deve exigir muita proteína.
— Temos algumas ideias de como chegar a essa pessoa — Marcus disse. — A primeira é pedir para os alquimistas fazerem isso. Nós sabemos que eles têm laços com os guerreiros.
— Podem até estar atuando juntos — Eddie disse. — Como já atuaram no passado.
— Em algumas coisas, sim — Sydney disse devagar. — Mas não nisso. Eles não querem correr o risco de levar os Moroi ao caos. Eles querem Jill de volta. Não ficariam parados se soubessem sua localização.
— Concordo — Marcus disse. Seu olhar se voltou para mim. — Além disso, podem intervir simplesmente porque não gostariam que os guerreiros entrassem na área deles. Eles gostam de estar sempre no controle, e não vão gostar nem um pouco de saber que os guerreiros trabalharam com uma bruxa para interferir nos assuntos Moroi. Claro, isso significa que alguém precisa contar pra eles que os guerreiros estão com Jill…
— Não precisa ser um de vocês — Eddie disse, entendendo a mensagem silenciosa entre mim e Marcus. — Droga, deixa que faço isso.
— Podem não acreditar em você — eu disse, sorrindo com sua veemência. — Podem não acreditar nem em mim.
Trey tinha ficado em silêncio enquanto falávamos sobre o grupo de que ele já tinha feito parte, mas finalmente levantou a voz.
— Também tem uma grande chance de que os guerreiros neguem mesmo se os alquimistas resolverem investigar. Eles também são meio obcecados por controle. Podem dificultar de propósito.
— Você tem razão — Sabrina disse. — E é por isso que temos mais uma opção.
Havia um tom precavido na sua voz que me deixou alerta.
— Qual é?
Ela trocou olhares com Marcus e depois se voltou para Sydney.
— Os guerreiros vão iniciar alguns membros novos na semana que vem. Você pode entrar disfarçada e depois tentar se infiltrar nos níveis mais altos da hierarquia para descobrir onde Jill está. — Ela falou rápido, como se isso pudesse ajudar a diminuir o total absurdo da sugestão.
— Vocês querem que eu entre para os guerreiros? — Sydney exclamou.
— De jeito nenhum — eu e Eddie falamos em uníssono.
— Você só estaria participando do recrutamento — Sabrina disse, como se isso amenizasse alguma coisa. — É como uma orientação.
— Ou uma recepção aos calouros — Marcus disse, o que não melhorou muito as coisas.
Trey balançou a cabeça, consternado.
— Sei do que estão falando e é loucura. — Ele virou para o resto de nós. — Eles juntam um bando de possíveis recrutas, levam para um terreno secreto dos guerreiros e os fazem competir em todo tipo de testes para provar seu valor. Lembram quando precisei lutar contra meu próprio primo?
Certa vez, os guerreiros tinham mantido Sonya em cativeiro e a usado em parte de uma cerimônia com o objetivo de “testar” os membros mais jovens. Além de lutar contra o primo, esperavam que Trey matasse Sonya em seguida. Ele tinha planejado não realizar a execução, e os planos deram errado de qualquer jeito quando um grupo de guardiões interrompeu a cerimônia para resgatar Sonya. Sydney também havia causado um grande caos e os guerreiros definitivamente não gostavam dela.
— Os guerreiros conhecem a cara de Sydney — Eddie nos lembrou. — Ela não pode fazer isso. Deixem que eu vá. Não veria mal nenhum em bater em alguns daqueles malucos. Já tenho muita prática nisso.
— Sim — Marcus concordou —, mas Sydney tem mais prática em invadir lugares para conseguir informações. E também devem reconhecer você.
Sydney franziu a testa.
— Será que nós dois podemos ir juntos? Não veria mal em ter um reforço e tenho alguns truques na manga que podem nos disfarçar.
Você vai ficar parado e deixar que eles levem isso adiante?, tia Tatiana me perguntou. Virei para Sydney, consternado.
— Você está considerando isso de verdade? Tipo, adoro planos malucos, mas esse é louco demais até pros meus padrões.
Sabrina franziu a testa, pensativa.
— Normalmente os guerreiros só apadrinham uma pessoa, mas já vi alguns apresentarem duas. Se vocês conseguirem se disfarçar, posso colocar os dois lá dentro.
— Então me manda junto com Sydney — eu disse.
— De jeito nenhum — Eddie rebateu. — Estou em condições muito melhores de bater naqueles malucos. Sem ofensa, Adrian. — Ia dizer que poderia protegê-la com o espírito, mas sabia que ela não gostaria dessa ideia.
— É melhor você ficar, Adrian — Sydney concordou. — Você pode usar a compulsão para tentar tirar respostas de Alicia quando as bruxas a descongelarem. Só você pode fazer isso.
Abri a boca para discordar, mas não consegui pensar em nada para dizer. Sydney havia me encurralado e sabia disso. Queria ir com ela, mas não porque tivesse um plano concreto para enfrentar os guerreiros. Era meu instinto de protegê-la. Mas ela estava certa em relação a Alicia. Poderíamos dar os dois dias para as bruxas enquanto Sydney entrava disfarçada como recruta. Se tudo desse certo, esse tempo enfraqueceria qualquer proteção contra compulsão que Alicia pudesse ter colocado sobre si.
— Você está apoiando o uso do espírito? — perguntei, surpreso.
— Não — ela admitiu. — Estou torcendo para que elas tirem as respostas por outros meios. Mas, se não conseguirem, tenho a impressão de que vai usar compulsão de qualquer jeito.
— Você sabe das coisas, como sempre — falei para Sydney.
Ela sorriu, mas deu pra ver que não estava nem um pouco contente com a ideia.
Com um suspiro, se voltou para Sabrina.
— Quantos problemas a gente vai te arranjar com isso? Por levar dois espiões para dentro da organização? Porque é óbvio que não vamos ficar com os guerreiros.
Sydney estava certa. O que ela e Eddie estavam se voluntariando a fazer — infiltrando-se num ritual bárbaro de iniciação — era perigoso, mas não podíamos esquecer do papel de Sabrina naquilo. Ela estava envolvida em um jogo com um grupo perigoso e poderia acabar correndo  mais riscos.
— Depende se vocês forem pegos. — Sabrina forçou um sorriso tenso. — Então não sejam pegos, certo?
O rosto de Trey foi ficando cada vez mais carregado com o avanço dos planos.
— Mas isso só vai acontecer se vocês não conseguirem convencer os alquimistas de que os guerreiros estão com Jill. Se tudo der certo e eles acreditarem, os alquimistas podem fazer o serviço sujo e vocês não vão ter que entrar nessa loucura.
— Se tudo der certo — Marcus concordou. — Mas, nesse meio-tempo, precisamos preparar Sydney e Eddie para o caso de irem com Sabrina.
Em seguida, Sabrina resumiu como planejava infiltrar Sydney e Eddie. Quanto mais ela falava, mais horrível aquilo tudo parecia e, novamente, quis pedir para Sydney não ir. Percebi que minha vontade de protegê-la era parecida com a insistência dela para que eu controlasse o uso do espírito. As duas condutas eram perigosas, mas como deixaríamos de fazê-las com a vida de Jill em perigo?
Não existe uma boa resposta, tia Tatiana declarou, rabugenta. Não tem como isso dar certo.
Quando o almoço acabou, os planos já estavam feitos e Sydney decidiu pedir ajuda para os disfarces mágicos a suas amigas bruxas. Sabrina recebeu uma ligação dos guerreiros chamando-a de volta antes do que imaginava. Ela fez uma careta e levantou.
— Vou entrar em contato assim que tiver mais detalhes sobre o recrutamento. Algum de vocês pode levar Marcus até o esconderijo?
— Nós levamos — Sydney disse, antecipando-se a Eddie e Trey. — Depois a gente fala com vocês.
Nosso grupo se dispersou, e eu e Sydney fomos com Marcus até o carro alugado que estávamos dirigindo desde que voltamos para Palm Springs. Era um conversível, um bônus oferecido pela empresa sem que tivéssemos pedido.
— Da hora — Marcus disse. — Está um dia ótimo para baixar a capota. — Ele me olhou de soslaio. — Quer dizer, talvez não.
Depois do tempo nublado do dia anterior, Palm Springs tinha voltado ao seu clima escaldante de verão, ao qual definitivamente não queria me expor. A luz do sol não matava os Moroi como matava Strigoi, mas podia ser muito desconfortável se ficássemos expostos por muito tempo. Momentos assim me lembravam das diferenças entre mim e Sydney. Ela adorava o sol, e viver comigo a mantinha longe dele.
— Pode abaixar a capota se quiser — eu disse em um tom despreocupado, jogando as chaves para Sydney.
Ela abriu um sorriso discreto, adivinhando meus pensamentos.
— Não, prefiro o ar-condicionado.
Retribuí o sorriso, sabendo que ela estava mentindo. Às vezes, deitados na cama, eu e ela discutíamos os planos para uma futura casa dos sonhos. Pensávamos em construir uma varanda telada, arejada o suficiente para que eu aproveitasse o calor, mas coberta o bastante para me proteger da luz mais forte. Dizia que serviria limonada para ela lá. Seria o lugar perfeito para nós, o encontro de dois mundos. Mas, no momento, era difícil imaginar um futuro assim.
Marcus deu as coordenadas até um condomínio que não era muito longe da Faculdade Carlton, do outro lado da cidade, onde eu tinha estudado. Enquanto Sydney dirigia na rodovia, liguei para um número que poucos Moroi tinham a sorte de ter. Fiquei ainda mais surpreso quando atendeu no primeiro toque.
— Oi, Adrian — Lissa disse.
— Estava esperando minha ligação do lado do telefone? — brinquei.
— Estou esperando uma ligação do Christian, na verdade. Mas prefiro saber notícias suas, se pelo menos estiver ligando para me dizer que está com Jill.
— Infelizmente não — eu disse, sentindo uma angústia. — Mas tenho uma notícia que pode ser útil. Temos fortes evidências de que os Guerreiros da Luz estão com ela.
Por essa Lissa obviamente não esperava.
— Como assim? Pensei que era uma bruxa que odiava Sydney. Se os guerreiros estão com ela, não é apenas uma vingança pessoal. Aquelas pessoas matam vampiros por prazer.
— Parece que Alicia entregou Jill para eles a manterem em cativeiro. Sydney tem um plano maluco para tentar descobrir onde Jill está presa, mas, se os alquimistas puderem pressionar os guerreiros, isso vai nos poupar muita confusão — eu a informei. — O único problema é que Sydney não pode ligar para pedir isso a eles.
— Mas eu posso — adivinhou Lissa.
— Você tem muito charme e persuasão — falei. — Além disso, tem um pouquinho mais de influência do que nós.
— Vou ver o que posso fazer — ela respondeu, parecendo cansada só de pensar na ideia. Era compreensível. Diplomacia também me deixaria exausto, ainda mais ao lidar com babacas como os alquimistas. — Vão querer saber que “fortes evidências” nós temos.
Hesitei, pensando em Sabrina.
— Não podemos entregar nossa fonte. Você não pode só falar que é uma pista anônima e pedir para eles investigarem?
— Vou tentar — Lissa disse. — Mas você sabe como eles são.
— Sim — concordei. — Sei muito bem. Boa sorte. E obrigado.
— Não precisa agradecer. Jill é minha irmã.
Desliguei bem a tempo de ver Sydney passar direto pelo condomínio que Marcus havia indicado.
— Ei — eu disse, reconhecendo o lugar dos meus tempos de Carlton. — Você não viu?
Seu rosto estava sério.
— Vi. E também vi os caras de terno bisbilhotando na lateral do prédio. — Ela ergueu os olhos para o retrovisor. — Além do carro preto que acabou de sair do estacionamento do prédio e está nos seguindo agora.
— Droga — Marcus disse. — Descobriram que estou na cidade. Achei que aquele lugar era seguro.
Virei no banco, esticando o pescoço para ver o que Sydney mencionara. De fato, um Escalade preto estava fazendo algumas manobras bem agressivas para entrar na nossa pista. Sydney virou numa curva abrupta que me fez agarrar a porta, e o Escalade nos seguiu imediatamente. A frágil sensação de liberdade que tinha me permitido sentir ao sair da Corte se dissipou feito fumaça.
— Desculpa, gente — Marcus disse. — Devem ter me visto quando saí de manhã.
Sydney fez outra curva e o Escalade recebeu buzinadas ao nos imitar. O rosto dela estava tenso e sabia que ela se esforçava muito para permanecer tão calma quanto parecia.
Esse era o pesadelo com o qual ela convivia havia tanto tempo: ser encontrada pelos alquimistas novamente.
— Não se sinta mal — ela falou para Marcus. — Depois de tudo que aconteceu em Palm Springs, eles devem manter um pessoal por aqui. É bem possível que você nem tenha sido reconhecido. Eles podem ter visto Eddie e achado melhor investigar. Ele também é procurado. — Ela balançou a cabeça. — Agora a questão é como vamos despistá-los.
— Volta pra rodovia e entra na primeira saída para o centro — Marcus disse.
Voltar para um congestionamento não faz sentido nenhum, tia Tatiana exclamou. Vão capturar Sydney de novo!
— Não seria melhor seguir pela rodovia e tentar correr mais rápido do que eles? — perguntei.
— A gente nunca conseguiria — ele disse. — Além disso, provavelmente pediriam reforços e teríamos mais alquimistas atrás de nós.
Sydney seguiu as indicações, levando-nos em direção ao centro da cidade. À nossa frente, pude ver algumas das ruas mais movimentadas do centro, estreitas e cheias de carros, enquanto pedestres e mesas enchiam as calçadas.
— Você está apostando na ideia de que os alquimistas não gostam de fazer escândalo, imagino? — Sydney perguntou. — Mas eles nos perseguiram descaradamente no meio da Strip em Las Vegas. — Ela estava com um vestido de noiva, o que chamava ainda mais atenção. — Eles vão fazer o que for preciso.
— Sim, eu sei — respondeu Marcus. — Mas se puderem, vão evitar. Na verdade, meu objetivo principal é chegar no meu carro de fuga.
— Carro de fuga? — perguntei, perplexo. — Você tem um carro de fuga?
Ele me abriu um sorriso.
— Sou Marcus Finch. É óbvio que tenho um carro de fuga. Está estacionado depois de um túnel subterrâneo que sai da Miguel’s Taqueria.
— Isso fica a seis quarteirões daqui e estamos prestes a parar no trânsito por causa dos semáforos e dos carros lentos. — Os carros à nossa frente pararam quando a luz do semáforo ficou vermelha.
— Correção — Marcus disse, soltando o cinto de segurança de repente. — São eles que estão prestes a ficar presos no trânsito por causa dos semáforos e de um carro largado no meio da pista. Todo mundo sai. — Entendi na hora o que estava prestes a acontecer quando ele pôs a mão na porta. — Vocês sabem não chamar atenção. Me encontrem na Miguel’s, mas não deixem que sigam vocês até lá.
Ele saiu do carro rápido e, assim que Sydney parou alguns segundos depois, nós também. Ele saiu em disparada por um lado da rua, perdendo-se na multidão sem olhar para trás. Alguns poderiam ter considerado um abandono, mas Marcus nos conhecia o bastante para confiar que sabíamos o que fazer em situações como essa. Ser imprevisíveis. Esconder-se entre as multidões e lojas. Voltar a nos encontrar quando tivéssemos despistado os alquimistas.
Isso, claro, supondo que eles viriam atrás de nós. Na rodovia, tinha dois carros entre o nosso e o deles, então havia a chance de eles não nos virem largar o carro. Quando o semáforo ficasse verde e o trânsito não avançasse, perceberiam que havia alguma coisa errada. O problema era que distância eu e Sydney conseguiríamos percorrer nesse meio-tempo, e se viriam atrás de nós ou de Marcus.
É óbvio que foram atrás de nós.
— Mais rápido — eu disse, segurando a mão dela enquanto saíamos em disparada pela calçada.
Uma série de buzinas de motoristas furiosos que não conseguiam seguir com o nosso carro abandonado na pista me avisou que o semáforo tinha ficado verde. Gritos atrás de nós indicaram que outra coisa tinha dado errado. Quando me virei, vi um homem e uma mulher de terno bege correndo na nossa direção, sem se importar com os pedestres no caminho. E pensar que eles não queriam fazer escândalo.
À nossa frente, a calçada parecia ainda mais cheia de gente do que o normal, com pessoas aglomeradas em volta de alguma coisa. Que ótimo. Não era de atraso que precisávamos. Outra olhadela rápida para trás mostrou que o alquimista, que era quase tão alto quanto eu, estava se aproximando. Chegamos perto do amontoado de gente e vi que as pessoas tinham parado para admirar os manequins que uma loja colocara na calçada como parte de alguma promoção. Vestidos, echarpes e outras peças coloridas enfeitavam os manequins. Eu e Sydney nos esprememos para passar por um grupo de mulheres que admirava um vestido de seda roxo e vimos os alquimistas a poucos metros de nós.
Sydney observou ao redor e um sorriso inesperado se formou em seus lábios. Ela recitou um feitiço que não ouvi por causa do barulho da rua, mas teve efeito imediato. Todas as lindas roupas ao nosso redor explodiram em retalhos multicoloridos. Os retalhos choveram à nossa volta, quase impossibilitando a visão. Houve confusão quando as pessoas gritaram admiradas, sem saber se aquilo era um ataque ou uma campanha publicitária.
— Vamos — ela disse, voltando a apertar o passo.
Enquanto corríamos para longe, ouvi um grito de espanto especialmente alto de uma pessoa conhecida: Lia DiStefano. Aquela era a loja dela, o que explicava o sorriso maldoso de Sydney. Me senti um pouco mal, mas não muito. Lia tinha feito um vestido maravilhoso para Sydney um tempo atrás, um longo vermelho inspirado na Grécia antiga. Sydney tinha ficado tão linda nele que achei que estava sonhando. Lia merecia crédito por isso. Por outro lado, Lia havia ficado tão desesperada para ter Jill como modelo que publicou um anúncio com ela sem que ninguém soubesse, o mesmo que Alicia havia incluído na caixa que Jackie levara para Sydney. Não sabia exatamente a relação entre Alicia, os guerreiros e como aquele anúncio os tinha ligado a Jill, mas não havia dúvida de que havia colocado nossa amiga em perigo.
— Desculpa, Lia — murmurei ao passar correndo na frente da loja dela. — Da próxima vez, não recrute modelos que não pode usar.
No quarteirão seguinte, havia uma floricultura aonde tinha ido uma vez. Sem confirmar se ainda estávamos sendo seguidos, entramos rápido pela porta, aberta para aproveitar o calor da tarde. Fomos cercados imediatamente pela fragrância opressiva de rosas e lírios. Buquês de todas as cores enchiam a loja, mas só estava concentrado em procurar o que lembrava ter visto na última vez em que estive ali: uma porta dos fundos.
A floricultura tinha duas entradas: uma que dava para a avenida principal, e outra que levava ao estacionamento no beco atrás das lojas. Cumprimentei com a cabeça a florista espantada e sorri. Então levei Sydney correndo para a porta dos fundos, como se o que estivéssemos fazendo fosse completamente normal.
No beco, parei e tomei coragem para espiar pela janelinha da porta, verificando se algum alquimista tinha entrado na loja. Ninguém entrou, então cruzei os dedos para que a destruição dos manequins de Lia tivesse causado confusão suficiente para ocultar o resto do nosso caminho. Eu e Sydney corremos pelo beco dos fundos, passando pelas portas de várias lojas, algumas abertas ao público, outras não. Então chegamos à porta dos fundos da Miguel’s Taqueria, onde estava escrito APENAS ENTREGAS. Bati mesmo assim, sem saber como explicaríamos nossa presença.
Entretanto, o cara que abriu a porta não pareceu nem um pouco surpreso ao nos ver e nos convidou a entrar.
— Vocês devem ser os amigos de Marcus.
Entramos no que descobrimos ser a cozinha, que estava com um cheiro delicioso. Um cozinheiro que estava virando uma quesadilla na chapa ergueu os olhos, nos cumprimentou com a cabeça como se nossa presença fosse completamente normal e voltou ao trabalho. Enquanto isso, nosso guia nos levou a um depósito repleto de prateleiras com comida. Havia um alçapão no piso. Ele o abriu e, lá embaixo, segurando uma lanterna, estava Marcus, que acenou para nós.
— Como você conhece Marcus? — perguntei enquanto descia os degraus da escada de mão.
O guia deu de ombros.
— Ele me fez um favor uma vez.
Essa parecia a história da vida de Marcus. Agradecemos o moço e descemos. Como Marcus tinha dito, realmente havia um túnel, o qual atravessamos correndo, quase sem conversar, até sair num barracão a alguns quarteirões de distância. Não vimos sinal de perseguição nem no túnel nem na superfície, e Marcus se sentiu seguro o suficiente para nos guiar até um Chevrolet azul. Tirou as chaves do bolso e destrancou a porta.
Foi só quando entramos na estrada que ele finalmente falou.
— Bom — ele disse —, tenho uma boa e uma má notícia. A boa é que vocês não precisam mais fingir para os alquimistas que estão na Corte. A má é que os alquimistas sabem que vocês não estão mais lá.

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