23 de outubro de 2017

Capítulo 13

Sydney

ENCANTAR O SAL NA REEDUCAÇÃO era definitivamente mais complicado do que quando eu estava livre, mas não impossível. Era apenas um processo lento e pouco prático: tinha que roubar pequenas quantidades de sal e levá-lo comigo para os poucos momentos de privacidade no banheiro para infundir os elementos. O mais difícil era conseguir as seringas.
— Quase todo dia alguém vai pra purgação, seja por rotina ou porque fizeram alguma coisa — Emma respondeu, quando falei que essa seria a parte mais complicada. — É só a gente anunciar que quem for pra lá precisa trazer uma seringa.
— Mesmo se conseguirem, os supervisores vão acabar notando que estão faltando seringas — apontei. — E não sei se quero “anunciar” nada a ninguém.
Ela balançou a cabeça.
— Não sou idiota. Só vou falar com pessoas de confiança, que valorizam mais as mentes delas do que alguma vantagem que ganhariam em te denunciar. Todo mundo sabe que alguma coisa aconteceu com Jonah. Eles vão guardar segredo pela chance de ganhar a mesma proteção.
— Ainda parece arriscado — resmunguei. Meu último encontro com Adrian havia me deixado mais otimista em relação ao futuro, mas o presente ainda era cheio de complicações. — E não resolve o problema das seringas. — Estávamos quase na sala, o que significava que a conversa estava prestes a terminar.
— Pena que a gente não pode reutilizar as seringas — ela pensou alto.
Fiz uma careta.
— Argh. Já é insalubre demais não ter acesso à água purificada.
— O que a gente precisa é acesso aos armários de suprimentos no andar de purgação. Você sabe onde eles ficam.
— Sim — concordei. — Só tem o pequeno problema de que nunca vou chegar perto deles de novo, com todos os seguranças nos vigiando.
Ela encolheu os ombros e sorriu.
— Não disse que era um plano perfeito.
— Mal dá pra dizer que é um plano.
Mas a sugestão ficou na minha cabeça ao longo das aulas daquele dia. A conversa com Adrian tinha levantado meu ânimo, assim como saber que ele falaria com Carly em breve. Desejei desesperadamente que Keith desse alguma pista a eles sobre minha localização. A partir daí, não sabia exatamente como dariam um jeito de me tirar daquele lugar, mas já estava planejando libertar os outros comigo. Se pudesse mandar todos para o mundo exterior livres do controle mental alquimista, seria um trabalho bem-feito.
Fiquei com as palavras de Emma na cabeça, tentando resolver o turbilhão de problemas diante de mim. O que eu realmente precisava era ter acesso livre ao andar com os armários de suprimentos. Para chegar lá, teria que andar sem ser vista, o que seria difícil, mas mais fácil do que sair do meu quarto. Aquelas travas noturnas eram um problema enorme.
Embora Emma e alguns outros ficassem me encarando com expectativa ao longo do dia, à espera de resultados, foi com Duncan que puxei esse assunto durante a aula de artes. Ele nunca falava muito sobre seu passado, mas eu havia notado algumas coisas que eram importantes para ele. A misteriosa Chantal era uma, claro, e, vez por outra, ele mencionava suas aspirações artísticas. Uma coisa sobre a qual não falava muito mas que eu havia notado era seu jeito com equipamentos mecânicos. Quase todo dia alguém tinha dificuldades com o cavalete, e Duncan sempre se oferecia para ajustá-los. Eu já o vira ajudando até os instrutores, como na vez em que o projetor de Harrison tinha parado de funcionar.
— Você sabe como as travas dos quartos funcionam? — perguntei.
As naturezas-mortas tinham acabado por enquanto, embora Duncan tivesse me garantido que era uma matéria recorrente e voltaria em algum momento. Agora, tínhamos a entediante tarefa de moldar vasos de argila com as mãos.
— Elas travam — ele respondeu, curto e grosso. — Impedem que as portas sejam abertas.
Me esforcei para não revirar os olhos.
— Disso eu sei. Quero dizer, você sabe como...
— Sim, sim, sei o que quer dizer — ele interrompeu. — E não é com isso que você deve se preocupar. Já está correndo riscos demais participando desse jogo.
Dei uma olhada ao redor, mas ninguém estava nos ouvindo enquanto trabalhávamos na nossa mesa.
— Não é um jogo! — sussurrei. — Isso é sério. Posso impedir que outras pessoas sofram lavagem cerebral, como fiz com Jonah.
— E ser mandada de volta pro período de reflexão. — Suas sobrancelhas se franziram um pouco, o que foi o único sinal de seu desconforto. — Não vou suportar o desaparecimento de mais uma amiga, Sydney.
Precisei conter as lágrimas enquanto lembrava que ele havia sido meu primeiro aliado naquele lugar, me oferecendo sua amizade por gostar de mim e não pelo que eu era capaz de fazer por ele.
— Não vou desaparecer — eu disse, com a voz mais suave. — Mas preciso sair do meu quarto alguma noite. Hoje, de preferência. É importante. Posso ajudar muita gente.
Seu vaso, assim como suas pinturas, estava quase perfeito. Novamente me perguntei se era um talento inato ou apenas o resultado de estar naquele lugar havia tanto tempo.
— As travas são ligadas por um sistema central toda noite — ele disse, finalmente. — Na verdade, é só um pino que encaixa na parede. É delicado. Se houver um obstáculo, não vai funcionar.
— Ele alerta o sistema central de que houve um problema? — perguntei.
— Não, a menos que tenham mudado desde o ano passado. Uns oito meses atrás, a porta de uma pessoa não trancou, e as autoridades nem ficaram sabendo. Só descobriram quando um dos caras do quarto saiu e tentou fugir.
Isso era útil, mas também perigoso.
— Eles consertaram?
— Essa porta específica? Sim. Mas pelo que sei o pino ainda é frágil. Não que importe muito, já que mesmo se a vigilância não pegar alguém tentando bloquear o pino, as câmeras no corredor vão detectar se... — De repente, Duncan me lançou um olhar angustiado. — Por favor, diga que não vai tentar fugir.
— Vou ficar aqui... por enquanto. — Abaixei os olhos e toquei de leve o crachá preso à minha camisa. Era um pouco mais fino do que um cartão de crédito. — Alguma coisa assim podia funcionar bem pra bloquear o pino.
— Perfeitamente — ele concordou. — Mas lembre-se de que há um espaço entre a porta e a parede, mesmo quando ela está fechada. Não dá pra prender isso lá.
— Preciso de algum tipo de adesivo. — Quebrei a cabeça tentando lembrar onde tinha visto cola naquele lugar. Não tinha. Mas meus olhos pousaram na mesa de Addison e encontrei algo ainda melhor. — Chiclete funcionaria. Eu nem precisaria usar o crachá... poderia só colar um pedaço onde o pino fica preso, não?
Duncan não conseguiu conter o riso.
— É infantil, mas sim, poderia.
— Vai pedir ajuda com alguma coisa — eu disse, inspirada. — Roubo o chiclete enquanto você fala com ela.
— Sydney. — Ele apontou para o seu vaso e depois para o meu. — Quem de nós dois você realmente acha que precisa de ajuda?
Olhei para os dois vasos, notando que o dele poderia ir direto para o forno, ao passo que metade do meu estava caindo aos pedaços.
— Você não aprova meu plano. Não posso te pedir pra roubar o chiclete.
— Não aprovo planos que não fazem sentido — ele disse. — E faz muito mais sentido você pedir ajuda. Além disso, preciso de outra agulha de olaria. Esta daqui está cega.
— Todas estão cegas — lembrei. Mesmo para arte terapêutica, os alquimistas não disponibilizavam nada que pudesse ser usado como arma. — Mas vou lá pedir ajuda.
Addison sempre parecia irritada quando lhe faziam perguntas, mas, ao mesmo tempo, tomava nota sobre quem vinha pedir ajuda. Eu era uma das pessoas que sofria muito antes de pedir a assistência dos instrutores, e sabia que alguns deles achavam que confiar na ajuda deles era um sinal de que nossa resistência estava diminuindo. Então, embora ela estivesse com a cara de poucos amigos de sempre enquanto mascava seu chiclete, não hesitou em me explicar por que meu vaso não parava de cair, e tive a impressão de que haveria novas anotações na minha ficha mais tarde. Enquanto conversava com ela, vi, pelo canto do olho, Duncan se aproximar da mesa dela. Quase perdi o ar, morrendo de medo de que ela se virasse e o visse.
Mas ela não se virou e, cinco minutos depois, quando nos reencontramos na mesa, Duncan me passou dois chicletes discretamente.
— Use com cuidado — ele advertiu. — Ou, pelo menos, não faça nada completamente idiota. E, por favor, diga que tem um plano para não ser pega depois de sair do quarto. Você sabe que tem câmeras nos corredores.
— Tenho um plano — eu disse, hesitante. — Mas não posso te contar.
— Já é o suficiente.
Apesar do nervosismo pela tarefa monumental à frente, me sentia triunfante com essa pequena vitória. Estava nas alturas e completamente despreparada para ser trazida de volta à Terra quando Sheridan se virou para mim na hora da comunhão e disse:
— Sydney, não tem nada que gostaria de nos contar?
Congelei e poderia jurar que meu coração parou por alguns segundos. Meus olhos correram pelo círculo de rostos que me observavam e me perguntei quem havia me traído.
— Como assim?
— Você já está com a gente há um tempo — ela explicou. — Mas falou muito pouco sobre seu passado. Todo dia, os outros se abrem um pouquinho, mas você continua calada. Não é justo, não acha?
Minha vontade era dizer que meu passado não era da conta deles, mas sabia que devia estar grata por não ter sido pega pelos meus crimes mais recentes.
— O que a senhora gostaria de saber?
— Por que você não conta o motivo por que está aqui?
— Eu... — Minha confiança caiu por terra. Criar um plano para sabotar a trava e sair do quarto a fim de criar uma proteção mágica para meus colegas de prisão não me intimidava tanto quanto todos aqueles olhos voltados para mim. Por mais que tivesse passado a gostar de alguns deles, não queria dividir a minha história.
Mas você precisa entrar no jogo, Sydney, lembrei a mim mesma. Não importa o que faça, desde que a vitória final seja sua.
Voltei a me concentrar em Sheridan.
— Quebrei algumas das regras primordiais dos alquimistas. Agi contra nossas crenças mais básicas.
— Como? — ela perguntou.
Respirei fundo.
— Tendo um envolvimento romântico com um Moroi.
Meu olhar continuou pousado em Sheridan. Estava com medo de olhar para os outros pois, por mais que fôssemos todos rebeldes de alguma forma, havia graus variados de pecado naquele lugar, e o meu era um dos mais graves.
— Por quê? — Sheridan perguntou.
Franzi a testa.
— Como assim?
— Por que teve um envolvimento romântico com uma criatura abominável? Isso não vai apenas contra as crenças alquimistas. Vai contra as leis da natureza. Por que fez uma coisa dessas?
Meu coração tinha uma resposta pronta, mas não deixei que ela passasse pelos meus lábios. Porque ele é maravilhoso e sensível e engraçado. Porque inspiramos o melhor um no outro e crescemos por causa do nosso amor. Porque, quando estamos juntos, sinto como se tivesse encontrado meu lugar no mundo.
— Não sei exatamente — respondi, tentando encontrar uma resposta crível que ela pudesse querer ouvir. — Achei que estivesse apaixonada.
— Por um deles? — ela perguntou. Seu tom quando disse a última palavra me fez querer dar um tapa na cara dela.
— Ele não parecia um deles — eu disse. — Era gentil e charmoso. Era... é muito bom em compulsão. Não sei se usou isso comigo. Talvez eu só tenha sido fraca.
— Não se envergonha? — ela provocou. — Não se sente suja e usada? Mesmo se sair daqui, não acha que nenhum alquimista vai querer tocar em você depois que se permitiu ser usada dessa forma?
Isso me pegou de surpresa porque era muito parecido com o que Carly tinha dito ao justificar por que não podia contar a ninguém sobre o que Keith fizera com ela. Eu deveria ter dado uma reposta que demonstrasse arrependimento, mas, em vez disso, respondi a Sheridan com uma variação do que dissera a Carly na época.
— Só espero que a próxima pessoa me veja e me valorize por quem sou por dentro. Fora isso, nada mais importa.
Sheridan fez cara de pena.
— Acho que nunca vai encontrar uma pessoa assim.
Já encontrei, pensei. E ele está vindo me levar daqui, pra longe de você.
Em voz alta, disse apenas:
— Não sei. — Admitir a própria ignorância era sempre uma aposta segura naquele lugar.
— Bom — ela disse —, vamos torcer para que esteja menos iludida em relação aos vampiros do que está sobre as suas máculas. Como se sente em relação a ele agora?
Obviamente nem pensei em dizer a verdade.
— Ele me traiu — respondi simplesmente. — Devia me encontrar na noite em que fui trazida pra cá mas não apareceu. Ele me enganou.
Era uma mentira que nenhum deles poderia refutar. Na verdade, nenhum alquimista sabia direito o que eu estava fazendo na noite em que tinha sido pega. Era bom que pensassem que haviam interrompido um encontro com Adrian, ajudando, assim, a me pôr contra ele.
— É isso que eles fazem de melhor, Sydney — Sheridan disse, parecendo muito satisfeita. — Enganam.
Quando fomos liberados, notei que alguns dos meus colegas com quem eu achava que tinha começado a me dar bem estavam me evitando fisicamente, como nos primeiros dias.
— O que está acontecendo? — murmurei para Emma, que estava perto de mim.
— Sheridan os lembrou do quanto você está maculada — ela explicou.
Senti um aperto no peito enquanto olhava para eles, dando as costas para mim.
— Realmente acreditam nisso? Pensei que alguns deles...
Não consegui terminar, mas Emma sabia o que eu estava pensando.
— Estivessem só entrando no jogo pra não serem punidos? Alguns estão, mas mesmo quem não foi reprogramado aprendeu o suficiente pra sobreviver aqui. E essa sobrevivência inclui ficar longe de pessoas que vão se meter em encrenca. Você passou dos limites. Não, pisoteou os limites, e mesmo que eles achem que não fez nada de errado, não podem deixar que Sheridan e os outros saibam disso.
— O que você acha? — perguntei.
Ela abriu um sorriso tenso.
— Acho que você e sua tinta são uma boa precaução caso eles tentem mexer com a minha cabeça. Mas também vou manter distância. Te encontro mais tarde.
Ela apertou o passo, e passei o resto do dia formulando meu plano, desejando que fosse mais sólido. Quando estava no banheiro no fim do dia, enfiei uma das gomas de mascar de Addison na boca, mastigando até achar que havia ficado suficientemente grudenta. Guardei o chiclete na mão enquanto saía e, depois, passei a mão na porta ao entrar no quarto, bem no ponto onde entrava o pino. Torci para que o sistema fosse tão delicado quanto Duncan dissera e que um chiclete fosse o bastante. Quase usei os dois, mas achei que outro poderia ser útil no futuro. Guardei o segundo dentro da meia.
Mais tarde, quando as luzes se apagaram, ouvi um estalo na porta mas não soube se tinha dado certo. Saí da cama devagar e, hesitante, me aproximei da fresta de luz, ouvindo para ter certeza de que não havia ninguém lá fora. Não havia. Com cuidado, tentei abrir um pouco a porta... e consegui. O pino não tinha entrado! Respirei fundo e me preparei para a próxima parte do plano: sair sem ser notada.
Eu já tinha usado feitiços de invisibilidade antes, uma vez inclusive para invadir uma unidade alquimista, o que parecia irônico na atual situação. Não era uma das magias mais fáceis, senão, como a sra. Terwilliger havia me dito, todo mundo faria. O mais seguro era um feitiço com vários componentes e, se possível, um amuleto. Mesmo assim, a pessoa podia ser descoberta se alguém soubesse o que procurar. Eu não tinha nada para me ajudar aqui, apenas um pequeno feitiço e meu próprio poder para realizá-lo. Duraria trinta minutos, no máximo, e estaria suscetível a qualquer pessoa que estivesse me procurando ou que me olhasse diretamente nos olhos. No entanto, me protegeria das câmeras e minha grande aposta era que os corredores estariam desertos a essa hora da noite, quando todos achavam que estávamos trancados e drogados.
Não sabia que tipo de turnos os alquimistas faziam, mas imaginava que, quanto mais tarde, menos seguranças estariam nos corredores. Então, voltei a deitar por meia hora, torcendo para que, até lá, todos estivessem prontos para uma noite tranquila. Antes de voltar à porta, coloquei um travesseiro embaixo das cobertas. Somando isso à escuridão quase total, eu imaginava que quem estivesse olhando pelas telas de vigilância não fosse desconfiar. Na porta, murmurei o encantamento o mais baixo possível, sem querer que Emma descobrisse minha verdadeira natureza. Mais do que o volume da voz, o que importava era a força de vontade e o foco, e senti outra onda exultante de poder atravessar meu corpo enquanto terminava de proferir o encantamento. O feitiço funcionou. Agora, eu teria que correr contra o tempo. Depois de confirmar de novo que não tinha ninguém no corredor, abri a porta devagar, apenas o bastante para passar, e voltei a fechá-la logo em seguida. Esse era outro problema dos feitiços de invisibilidade: eu estava invisível, mas minhas ações não. Uma pessoa vendo uma porta se abrindo sozinha me entregaria tanto quanto se eu trombasse com alguém, por isso precisava tomar cuidado para que todos os meus movimentos fossem pequenos e calculados, atraindo o mínimo de atenção possível.
O corredor dos dormitórios estava vazio, tendo apenas as câmeras como vigilância, e fui andando rápido rumo a uma interseção. Lá, encontrei o primeiro guarda alquimista, um homem de rosto severo que nunca tinha visto antes e que estava trocando mensagens no celular, posicionado em um ponto que lhe permitia supervisionar todos os corredores. Ele não ergueu os olhos em momento nenhum enquanto eu passava devagar, virando no corredor que levava aos elevadores. Ainda me surpreendia que a única saída do andar não levaria para o lado de fora numa emergência, mas imaginei que os alquimistas preferiam colocar as nossas vidas em risco a nos dar alguma rota de fuga.
Quando cheguei aos elevadores, percebi que os alquimistas haviam tomado precauções ali também — precauções que nem passaram pela minha cabeça. Não era possível apertar o botão para chamar o elevador sem passar o crachá antes. Eu tinha visto os carcereiros alquimistas fazerem isso dezenas de vezes, mas não havia considerado esse fator nos meus planos. O elevador era inacessível para mim, assim como as escadas, que tinham o mesmo controle de acesso. Senão, os detentos certamente tentariam usá-los. Enquanto eu encarava o elevador, tentando pensar num jeito de resolver o problema, um ding indicou que ele havia chegado e que suas portas estavam prestes a abrir. Rapidamente dei um passo para o lado, para fora do campo de visão. Um momento depois, o elevador se abriu e Sheridan saiu pela porta.
Sem hesitar, entrei enquanto as portas ainda estavam abertas, torcendo para que o elevador ainda funcionasse com a última passada de cartão dela. Senão, ficaria presa ali por muito tempo. A sorte estava comigo, e o botão para o andar de operações e purgação se acendeu quando o apertei. Desci um andar e as portas se abriram para um corredor vazio. Saí correndo e tentei não pensar em como usaria o elevador na volta.
Lembrava onde ficavam os armários de suprimentos, mas, quando me aproximei deles, descobri algo que não havia notado antes: eles também exigiam um crachá para abrir. Agora eu estava sem sorte. O tempo do feitiço estava acabando, e não havia nada que eu pudesse fazer. Com tristeza, admiti que teria de voltar para o quarto e tentar de novo no dia seguinte, com um plano melhor. Pelo menos ainda tinha o segundo chiclete.
Uma risada tirou minha atenção do armário de materiais médicos, e vi dois alquimistas entrando no corredor — vindo na minha direção. Em pânico, encostei na parede. Não havia nenhum canto onde pudesse me esconder. Se a sorte estivesse do meu lado, os dois nem passariam por mim. Se passassem, esperava que olhar para baixo evitasse contato visual e me salvasse de ser descoberta. Mas até isso poderia não ser o suficiente.
Os dois pararam na frente da sala de operações e comecei a soltar um suspiro aliviado quando tive uma ideia, percebendo que estava perdendo uma oportunidade de ouro. Corri em direção à sala em que eles haviam entrado e consegui passar antes que a porta — uma porta automática de correr — se fechasse. Fiquei paralisada e prendi a respiração, com medo de que alguém me notasse, mas os dois alquimistas nem olharam para trás. A única outra pessoa ali dentro era um rapaz com ar entediado e fones de ouvido, que estava tomando um iogurte perto de uma parede cheia de monitores. A maioria estava apagada, e percebi que as telas mostravam os nossos quartos. Os outros monitores vigiavam salas de aula e corredores, quase todos vazios.
Mesas e computadores enchiam a sala, e fui andando em silêncio, de novo tendo um déjà-vu da vez que fizera algo parecido em um prédio alquimista. A única diferença era que, da outra vez, eu tinha usado um feitiço de invisibilidade muito mais confiável. Ainda determinada, fiquei procurando até encontrar o que queria. O rapaz tomando o iogurte tinha tirado e dobrado o paletó em cima de uma cadeira. Preso ao bolso do paletó estava seu crachá. Eu não fazia ideia se alguns crachás tinham mais acesso do que outros, mas pelo menos eu poderia voltar até o elevador antes que o feitiço acabasse. Tirei o crachá do paletó enquanto o rapaz estava de costas para mim, e o enfiei dentro da calça. Quando o vira com os fones de ouvido, tinha pensado que as câmeras captavam o som também, mas, ao me aproximar, percebi que ele estava ouvindo uma banda de metal. Me perguntei o que os seus superiores pensariam disso.
De todo modo, era uma boa notícia para mim, assim como o fato de que os dois alquimistas que eu tinha seguido estavam sentados diante de computadores conversando alto. Tinha quase certeza de que poderia sair sem que ninguém percebesse a porta se abrindo. Antes que pudesse voltar, porém, vi uma coisa que me fez hesitar e andar na direção oposta. Era um painel na parede sensível ao toque com o nome CONTROLE DE SEDAÇÃO. As leituras atuais indicavam que o sistema estava na configuração noturna e havia uma lista de todas as áreas dos detentos: quartos, corredores, refeitório e salas de aula. Todos os quartos estavam marcados com vinte e sete por cento, ao passo que os outros cômodos estavam em zero por cento.
Os níveis de gás, me dei conta. No isolamento, tivera a impressão de que eles controlavam a cela manualmente, o que fazia sentido, considerando que me apagavam na mesma hora que a conversa não estava indo como eles queriam. Essa tela, porém, deixou claro que os detentos normais eram controlados por um sistema central automático que mantinha o nível ideal de gás para causar um sono pesado toda noite. Três opções na base do painel sugeriam que, às vezes, havia a necessidade de intervenção manual: CANCELAMENTO — INTERROMPER TODOS OS SISTEMAS, REINICIAR, e PROTOCOLO DE EMERGÊNCIA — TODAS AS ÁREAS EM 42%.
Por um momento, o simples número me pegou de surpresa. Se a concentração normal de vinte e sete por cento nos fazia entrar em sono profundo, o que quarenta e dois por cento fariam? Soube a resposta imediatamente. Tanto sedativo nos apagaria em um piscar de olhos. Não cairíamos no sono devagar. Tombaríamos onde estivéssemos e ficaríamos praticamente em coma — o que seria útil caso houvesse alguma tentativa de fuga em massa.
Eu não sabia exatamente o que Adrian e Marcus fariam quando me localizassem, mas sabia que isso poderia ser um problema sério no plano. Desativar o gás no meu quarto não seria o suficiente. Eu precisaria desativar o andar inteiro, o que não seria nada fácil. Desligar agora seria inútil pois o toque de um dedo seria capaz de reiniciar o gás. Em algum lugar, devia haver um sistema mecânico que eu pudesse sabotar.
Mas esse não era um problema em que podia me concentrar agora. Depois de uma última olhada no painel, saí às pressas, sem ser notada, como esperava. A partir de lá, foi um trajeto rápido até o armário de suprimentos. Assim como todas as outras portas que encontrara, a abri o mínimo possível. Consegui entrar e pegar o que precisava sem ser detectada. Em pouco tempo, tinha duas garrafas de água mineral enfiadas na cintura e uma dúzia de seringas tampadas escondidas nas meias e no sutiã. Não era exatamente confortável, mas eu precisava que tudo ficasse embaixo da roupa para ser protegido pelo feitiço. Minha descoberta surpreendente da noite foi que condimentos também eram mantidos no armário de suprimentos de cozinha: ketchup, mostarda e... sal. Eu tinha pensado em ir furtando pequenas quantidades ao longo da semana, mas um saleiro roubado resolveu o problema.
Abastecida com meus itens roubados, voltei para o elevador. Tendo visto na sala de controle como a vigilância noturna era relaxada, não estava mais tão preocupada que notassem as portas se abrindo sozinhas. Quando cheguei ao andar dos detentos, porém, o guarda que ficava trocando mensagens se aproximou quando ouviu o elevador e não viu ninguém sair. Ele parou a poucos metros de mim e ficou olhando para o elevador com a testa franzida enquanto eu prendia o fôlego. Mesmo que não fizesse contato visual comigo, o feitiço devia estar acabando.
Depois de alguns segundos angustiantes, ele finalmente deu de ombros e voltou para seu posto. Passei por ele sem ser notada e, por fim, entrei no quarto, onde quase desmaiei de alívio. Ao chegar, escondi cuidadosamente o contrabando no espaço entre o colchão e o lençol. Eles nos mandavam trocar a roupa de cama uma vez por semana, e a última vez tinha sido dois dias antes. Isso significava que eu tinha cinco dias para usar todos os materiais antes de correr o risco de que alguém notasse as seringas caindo do lençol no dia da troca.
Fraca de tanto alívio, finalmente entrei debaixo das cobertas. Meu corpo estava exausto, mas minha mente estava agitada por todas as atividades clandestinas da noite. Levei um tempo para cair no sono, e sabia que Adrian devia estar preocupado.
Dito e feito: quando me materializei no pátio da Getty Villa, o encontrei andando de um lado para o outro. Ele se virou bruscamente na minha direção quando o chamei.
— Graças a Deus, Sydney. — Ele veio correndo e me envolveu nos braços. — Você não faz ideia de como fiquei preocupado quando você não apareceu na hora de sempre.
— Desculpe — eu disse, apertando-o com força. — Tinha umas coisinhas que precisava fazer.
Ele me empurrou de leve e me lançou um daqueles olhares.
— Que tipo de coisas?
— Ah, você sabe, o tipo que envolve invadir salas e usar magia.
— Sydney — ele resmungou. — A gente está perto de te encontrar. Você precisa ficar na sua. Não sabe o perigo de sair por aí fazendo essas “coisinhas”?
— Sei, sim — respondi, pensando no painel de controle do gás. — E você vai ficar bravo quando souber que vou ter que repetir a dose em breve.

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