19 de outubro de 2017

Capítulo 13

Adrian

O ROSTO DE JACKIE DEIXOU CLARO QUE NÃO ERA UMA BRINCADEIRA.
— Adrian — ela disse, abrindo a porta e fazendo sinal para eu entrar. — Espero que você entenda o que está acontecendo.
— Um pouco — eu disse, sem saber se entendia mesmo. Sydney havia indicado por telefone que era hora de testar a tinta, mas era difícil imaginar por que ela teria se precipitado daquele jeito. Da última vez que tínhamos conversado, ela ainda pretendia esperar que Marcus encontrasse uma cobaia. Se agora, do nada, estava pronta para fazer uma tatuagem, e nela mesma, como eu só podia supor, alguma coisa bem grave devia ter acontecido.
Embora Jackie tivesse se mudado para uma casa mais moderna depois que seu bangalô sofreu um incêndio, o interior da casa nova era quase igual ao da antiga. Desviei de uma pilha de livros sobre cristais de cura e me ajoelhei para fazer carinho num gato branco e felpudo que roçou no meu tornozelo em cumprimento. Alguns segundos depois, Sydney apareceu no corredor retorcendo as mãos. Quando me viu, correu na minha direção e se atirou nos meus braços. Educadamente, Jackie desviou o olhar e fingiu estar interessada em endireitar algumas velas. Nunca havíamos falado abertamente sobre nossa relação perto dela, mas costumávamos relaxar um pouco, e eu tinha aprendido duas coisas importantes sobre Jaclyn Terwilliger. Uma era que ela não era tonta. A outra era que não julgava ninguém.
— O que aconteceu? — perguntei para Sydney. — Seu pai? — Era a única coisa que poderia causar uma mudança de opinião como aquela.
Ela assentiu.
— Sim. E Keith também.
— Keith? Ele estava no jantar?
— Não. Não exatamente. Meu pai ligou pra ele. Por videoconferência. — Ela se afastou e começou a andar de um lado para o outro. — Foi horrível. Não sei o que fizeram com ele. Nem parecia humano. Parecia um robô. Sem sentimentos. Sem pensar por conta própria. Fizeram alguma coisa com ele na reeducação, e não foi só o treinamento e aconselhamento que sempre fazem. Também usaram a tinta de que Marcus falou, aquela com uma compulsão mais forte, que estimula lealdade. Meu pai falou que não funciona em todo mundo… mas, meu Deus. Com ele funcionou. Com Keith funcionou.
Ela estava falando sem parar e Sydney não era o tipo de pessoa que ficava histérica, o que tornava tudo aquilo ainda mais perturbador. Ela estava com um olhar transtornado e quis puxá-la de volta para os meus braços. Mas me contive, relutante. Jackie podia se manter neutra quanto à nossa relação, mas era melhor continuarmos discretos.
— E o que mais? — perguntei. — Eles ameaçaram fazer o mesmo com você? — Algo me dizia que, se tivessem ameaçado, ela não estaria ali agora.
— Não — ela respondeu. — Na verdade, meu pai não parava de falar sobre como sou incrível… quer dizer, do jeito dele. Não usou exatamente essas palavras. Foi Zoe quem ficou me dando bronca! Falando que é um problema eu me dar tão bem com todo mundo e passar tanto tempo com você. — Ela apontou para Jackie, que arqueou a sobrancelha.
— Não sabia que você falava dos nossos passeios para seus, hum, colegas.
Sydney soltou um riso amargurado.
— Da magia, você quer dizer? Não. Claro que não. Mas nem preciso disso para arranjar problemas com eles. Levei bronca porque ser uma assistente acadêmica dedicada pode me distrair das prioridades alquimistas.
Agora eu estava incrédulo.
— Eles mandariam você pra reeducação por isso?
— Não. Mas é um rastro de migalhas, como Marcus sempre fala. Chama atenção para mim e, se eles descobrirem o que ando fazendo… podem tentar me retocar também e não posso deixar que façam isso. Não vou deixar. Não vou ficar igual a Keith.
Havia uma faísca dourada de fúria em seus olhos castanhos, mas, apesar da determinação e da firmeza, tive a impressão que ela estava apavorada. Como não ficaria? Tive vontade de olhar a aura dela, mas me contive, tanto por força de vontade quanto porque… bem, porque não sabia ao certo se conseguiria olhar.
Fazia quase duas semanas que eu estava tomando o remédio do Einstein. Na primeira, não tinha notado quase nada de diferente, exceto uma coisa. Meu sono. Estava conseguindo dormir bem. Não ficava mais olhando para o teto durante horas, tentando relaxar. Eu deitava na cama, ficava lá uns quinze minutos e, aos poucos, ia mergulhando no sono. Não era como se eu estivesse sedado também. A sensação era mais de que as engrenagens do meu cérebro não estavam fora de controle. Meus pensamentos ficavam mais calmos à noite, o que me permitia fazer o que a maioria das pessoas fazia normalmente.
Na última semana, eu vinha notando mudanças mais gradativas. Eu estava um pouco mais paciente. Pensava um pouco mais sobre as coisas. Não que tivesse me tornado uma pessoa normal e calma, com os sentimentos sob controle. Não mesmo. Ainda passava pelo que Sydney chamaria de “momentos Adrian Ivashkov”. Certa noite, ouvir The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, me deixou taciturno, pensando no sentido da vida, o que me levou a comprar umas tintas de luz negra para expressar essas reflexões metafísicas. E, quando finalmente entreguei o maldito autorretrato, disse para minha professora que, se ela quisesse ficar com o quadro para pendurar no quarto, eu entenderia. Ela não viu muita graça na piada.
Essa devia ter sido minha atitude mais idiota das duas últimas semanas e, sério, dado o meu histórico, não era nada tão horrível. O mais importante era que eu não vinha mais perdendo o controle. Não sentia mais aquela escuridão debilitante. E a tia Tatiana andava quietinha.
Pensei que tinha tirado a sorte grande até que, no dia seguinte à piada do quarto, vi a professora no campus e quis saber se estava em apuros por causa do comentário. Invoquei um pouco de espírito para dar uma olhada na aura dela e… não aconteceu nada. Era como tentar ligar o motor de um carro num dia frio. Por fim, na terceira tentativa, a magia funcionou e a aura dela se acendeu diante dos meus olhos.
Fazia quatro dias desde que isso tinha acontecido e eu estava com medo de usar o espírito de novo.
Não sabia se conseguiria lidar com o que descobriria. Será que aquele dia tinha sido uma exceção? Será que o espírito ainda estava funcionando? Ou será que estava perdendo a força, talvez até sumindo de vez? Eu nem sabia como me sentir em relação a isso. Aliviado? Devastado?
O pânico ameaçava tomar conta de mim e precisei de um momento para tirar esses pensamentos da cabeça e me acalmar. A questão agora não era o espírito. Era Sydney. Ela precisava de mim.
O problema era que eu não tinha contado para ela sobre o estabilizador de humor. Não tinha contado nem sobre Einstein. Parte de mim queria que ela soubesse que eu estava tentando mudar de verdade e que faria qualquer coisa por ela, mas outra parte estava com medo das consequências do remédio. Tinha vergonha da ideia de falar mil maravilhas dos comprimidos e eles acabarem não servindo para nada. E também estava com certo medo de que funcionassem… e eu parasse de tomá-los por não conseguir lidar com os efeitos colaterais. Antes de saber o que estava acontecendo, não queria falar nada para Sydney. Preferia que achasse que eu nem tinha tentado do que saber que havia tentado e fracassado.
— O que precisa de mim? — perguntei.
— De nós — Jackie corrigiu.
Não pude deixar de abrir um sorriso para ela. Não era difícil para mim ser sorridente e charmoso com as pessoas. Mas gostar e admirar alguém de verdade era raro, e Jackie havia atingido esses dois níveis na minha estima. Boa parte do motivo era que ela gostava muito de Sydney e faria qualquer coisa por ela. Eu adorava Jackie por isso. E também adorava que ela só precisava saber metade da história para querer ajudar. Era uma das vantagens de já estar envolvida em questões sobrenaturais: ela tinha uma excelente capacidade para se deixar levar por complicações novas e inexplicáveis.
— Vou usar o composto que fiz — Sydney disse. Ela retorceu as mãos e percebi que estava fazendo isso para que parassem de tremer. — Acabei de misturar o sal com a tinta numa solução para dar liga. Parece estável, então só falta tatuar a cobaia.
— Você tem uma cobaia? — Olhei ao redor para ver se não tinha visto alguém, mas só havia nós três. — Um dos gatos? — perguntei.
Houve uma batida na porta e, um momento depois, Jackie deixou Trey Juarez entrar, o que foi uma surpresa. Eu tinha conversado com ele algumas vezes. Tirando o fato de ter nascido dentro do grupo que tentara matar Sonya Karp, Trey parecia um cara mais ou menos decente. Eu sabia que Sydney o via como um amigo, apesar de tudo o que acontecera, e a opinião dela valia muito. O fato de o ter convidado para aquela reunião significava ainda mais.
— Sr. Juarez, que surpresa agradável. — Ficou claro que Jackie estava realmente surpresa.
— A surpresa é minha por não ter sido convidado antes, sra. T. Fui seu assistente também! Mas é a Melbourne que a senhora sempre traz para cá.
Ele abriu um sorriso parecido com os meus e que devia ser ótimo com as mulheres. Ao contrário de Neil, que parecia deixá-las encantadas sem querer, Trey era um profissional. Eu ficava feliz que ele estivesse metido numa paixão bizarra e disfuncional com Angeline porque, convenhamos, um estudante humano bonito e esportista era um partido muito melhor para Sydney do que um vampiro mentalmente instável metido a artista.
Jackie revirou os olhos, mostrando que aquele sorriso não funcionava com ela.
— Desculpe a negligência. Imagino que seja Juarez quem você vai tatuar?
Quando Sydney fez que sim, perguntei:
— Como exatamente vai fazer? Vai criar um desenho novo? Ou só dar uma retocada?
Marcus só tinha precisado de uma seringa para “romper” a tatuagem de Sydney. Foi uma das coisas úteis que fez por ela antes de ir embora: injetar pequenas quantidades de tinta feita de sangue de vampiro na tatuagem de lírio. Isso havia acabado com todos os poderes da tatuagem, mas ainda a deixava suscetível a um retoque dos alquimistas caso não fosse selada.
— Nada de seringa — ela disse. — Acho que a gente precisa de uma grande quantidade, e também quero ter certeza de que entrará na derme. É a camada da pele embaixo da superfície.
— Certo — eu disse, achando ter entendido. Também tive a impressão de que a definição de “derme” tinha sido só para mim. — Você precisa de mais tinta lá dentro. Como vai fazer isso?
Outra batida na porta nos assustou e Jackie se dirigiu à entrada.
— Deve ser Malachi.
Pisquei algumas vezes.
— Por acaso ela disse…
Não precisei terminar a frase porque ela abriu a porta com tudo, revelando nosso amalucado ex-professor de defesa pessoal com seu tapa-olho característico. Ele apontou o dedão para trás.
— Oi, querida. Estou com os equipamentos na van. Onde você quer que eu monte? — Ele olhou para nós. — Ah. Oi, crianças.
Jackie o levou para a garagem e tentei me recuperar do espanto enquanto perguntava para Sydney:
— Ele é seu tatuador?
Ela encolheu os ombros.
— Quando falei para a sra. Terwilliger do eu que precisava, ela disse que ele tinha uma máquina. Parece que ele faz as próprias tatuagens.
— Nunca vi nenhuma.
— Talvez estejam em lugares que não dê para ver — ela disse.
Fiz uma careta.
— Pronto. Agora nunca mais vou conseguir tirar essa imagem da cabeça.
— Ei, espere aí. — Trey apontou para a frente da casa, onde Wolfe contava para Jackie um de seus contos de coragem malucos. — Aquele é o cara que vai usar uma agulha de alta potência em mim? Ele só tem um olho! As palavras “percepção de profundidade” significam alguma coisa pra você?
— A sra. Terwilliger jura que ele sabe o que está fazendo — Sydney disse. — E, como a tinta é incolor, não vai aparecer de qualquer jeito. Desde que esteja tudo esterilizado e ele seja minimamente competente, a habilidade não importa. A gente só precisa que a tinta funcione. Mas, se quiser… — Ela entreabriu um sorriso. — Deve ser fácil colocar um pouco de cor. Aposto que Wolfe poderia fazer um chihuahua em você.
Trey se arrepiou.
— Não, obrigado. Estou bem.
Sydney franziu a testa de repente.
— Sua tatuagem de guerreiro é uma tatuagem comum, né? Sem poderes?
— Isso. A gente não precisa de habilidades incríveis. É só decorativa.
— Certo — ela disse. — Vai servir de desculpa pro Wolfe. Não se preocupe: não importa o que eu diga, não vai acontecer nada com sua tatuagem atual. — Trey não pareceu convencido.
Pensei sobre aquilo.
— Mas ele não precisa de uma tatuagem especial? — perguntei. Não elaborei na frente de Trey, mas o objetivo do experimento era ver se a tinta dela era capaz de desativar a dos alquimistas.
Ela concordou, compreendendo minha pergunta subentendida.
— Sim, mas a gente se preocupa com isso depois, quando eu conseguir os materiais. Daí fazemos uma segunda tatuagem.
Trey abriu a boca, mas não teve tempo de fazer um comentário. Jackie e Wolfe voltaram nesse momento e ele esfregava as mãos, ansioso.
— Certo, qual é a emergência noturna? Vocês dois querem tatuar o nome um do outro? Consigo fazer uma ótima fonte Courier.
Sydney estivera prestes a falar, mas hesitou por um momento. Wolfe não tinha provas do nosso relacionamento, mas sempre imaginara que havia um, mesmo antes de isso ser verdade. Ela logo se recuperou e riu do comentário, como se fosse uma piada. Trey, como era compreensível, estava atordoado demais com a ideia de ser tatuado por um homem caolho para perceber alguma coisa.
— O contrário, na verdade — Sydney disse a Wolfe. — Nós queríamos remover a tatuagem do meu amigo e estamos com uma tinta especial que vai fazer a antiga sumir com o tempo.
Ele soltou um grunhido.
— Sério? Nunca ouvi falar disso. Pensei que a única maneira de se livrar de uma tatuagem fosse com laser.
— É uma técnica nova — ela explicou tranquilamente, apontando com a cabeça para Trey. — Os pais dele estão vindo pra cá e vão enlouquecer se virem a tatuagem.
Pestanejei, surpreso. Ela era tão convincente que quase acreditei na história dela, mesmo sabendo da verdade. Wolfe sem dúvida acreditou. Era uma coisa que eu vivia esquecendo: os alquimistas mentiam muito bem. Se um dia Sydney mentisse para mim, era provável que eu nunca descobrisse.
— Onde é? — Wolfe perguntou.
Trey demorou para reagir. Imagino que também quase acreditou em Sydney. Virando de costas para nós, levantou a camisa e mostrou uma tatuagem atrás do ombro.
Wolfe se debruçou para examiná-la.
— Qual é o problema? Seus pais sempre veem você sem camisa?
Sydney hesitou quando percebeu a falha em sua lógica.
— Mesmo assim, é melhor não estar aí quando eles voltarem.
— Pois é — Trey concordou. — Às vezes a gente vai pra praia. — Precisei dar crédito a ele por entrar na brincadeira.
Sydney explicou a Wolfe que ele só precisava injetar a tinta na tatuagem antiga. Ele pareceu decepcionado por não ter a chance de provar suas habilidades artísticas, mas imagino que estava tão contente com a visita noturna a Jackie que nem reclamou sobre o tempo e o esforço.
Embora o equipamento de Wolfe parecesse profissional, o ambiente na garagem dava um ar improvisado a toda a operação. Eu não sabia muito sobre o processo de tatuagem, mas Sydney examinava tudo com olhar crítico, fazendo perguntas sobre esterilização e parecendo contente quando Wolfe usava peças novas no equipamento a cada etapa do processo. Jackie não tinha o que fazer, assim como eu, e ficou perto de mim e de Trey, que estava com os olhos arregalados e cuja pele bronzeada havia empalidecido diante da aventura. No entanto, até Sydney pareceu tensa quando Trey deitou de bruços num banco para que Wolfe pudesse encostar a agulha em seu ombro.
— Tenho certeza que ele é muito bom — ela disse. Era difícil saber quem estava tentando convencer.
— Poxa, rapaz — Wolfe disse, apertando um dos enormes tríceps de Trey. — Que esporte você pratica?
— Todos.
— Ah, é? Já praticou patinação de velocidade com arremesso de chakram?
— Patinação de velocidade com o quê? — Trey perguntou.
Todos percebemos que Wolfe estava prestes a contar uma história e Sydney limpou a garganta.
— Erm, acho que a gente devia terminar logo. — Ela deu as instruções mais uma vez e Wolfe começou a tarefa.
Eu nunca tinha visto alguém ser tatuado antes. A agulha de alta potência parecia uma broca de dentista e, por mais que eu estivesse acostumado com sangue, ver aquilo em ação me deixava um pouco assustado. Devia doer, mas Trey aguentava firme, sem mover um músculo. Sydney observava tudo com olhar atento e tive a impressão de que, se Wolfe fizesse qualquer coisa minimamente irresponsável, ela se enfiaria entre eles. Naquele momento era, literal e figurativamente, a guarda-costas de Trey.
Eu me aproximei dela, tomando cuidado para não tocá-la, mas também sem deixar muito espaço entre nós.
— Certo. Se Wolfe não espetar Trey sem querer, qual vai ser o próximo passo? Entendi sua lógica de fazer uma tatuagem com tinta alquimista depois pra ver se essa vai proteger o cara, mas como você vai conseguir a tinta? Não precisa de sangue de vampiro e compulsão de terra? Não são coisas fáceis de encontrar.
Um tênue sorriso perpassou seus lábios.
— Não, nem os outros ingredientes são coisas que você encontra por aí. Também não dá pra pedir pela internet nem usar meios alquimistas normais pra comprar. Vou ter que pensar em outra maneira de consegui-los.
— Mesmo assim quis fazer isso primeiro? — Apontei com a cabeça para Trey.
O leve sorriso em seus lábios se desfez.
— Sim. Precisava, depois de ver Keith. Talvez tenha me precipitado. Talvez devesse esperar até ter a tinta alquimista, mas, quando penso em Keith… preciso fazer alguma coisa agora, Adrian. Não posso deixar que eles façam aquilo com outras pessoas. Faz tempo que estou falando em replicar essa tinta em teoria e não aguento mais esperar por Marcus ou pelas circunstâncias perfeitas. Isso já nos deixa um passo mais perto. Trey estará pronto quando eu conseguir a tinta alquimista e, depois que provarmos que a nossa funciona, Marcus vai distribuir.
Resisti à vontade de tomar seu rosto nas mãos. O que Sydney estava sugerindo não era um plano ruim. Claro que teria sido melhor se ela e Marcus conseguissem tatuar um dos discípulos dele que já tivesse a tatuagem de compulsão alquimista e, depois, ver se a tinta dela funcionava igual à tinta azul de Marcus. Esse seria o plano ideal. E era essa a questão. Sydney costumava esperar pelo ideal. Era meticulosa. Não era o tipo de pessoa que apressava as coisas ou aceitava a segunda opção. Mas tinha se precipitado dessa vez. Tinha deixado a ordem de lado para acelerar o processo. Era algo que muitas pessoas fariam. Que eu faria. O fato de Sydney ter feito isso, porém, me dizia uma coisa importantíssima. Ela havia agido por impulso e emoção, o que não era típico dela. Ela estava com medo.
Que diabos ela tinha visto em Keith?
— Seria bom pedirmos pra Wolfe tatuar você também — eu disse, com cuidado. — Quer dizer, se esse é o seu medo. Só por precaução, caso Inez esteja enganada sobre a magia anular o efeito da tatuagem.
Uma expressão atormentada surgiu em seu rosto.
— Acredite, pensei nisso. O problema é que não é fácil fazer uma tatuagem com Zoe por perto. O processo irrita a pele e, apesar de os efeitos óbvios passarem em alguns dias, não é uma coisa que dá para esconder enquanto moro com ela. Só posso aproveitar as chances que tenho e esperar.
— Vai contar pra Marcus?
— Se ele ligar — ela disse, revirando os olhos. — Deve estar desmaiado em algum bar.
— A gente pode ligar pra ele — sugeri.
— Adrian — ela disse, com a voz grave. — Você sabe que a gente não pode.
— Não sei de nada disso — declarei. — Faz tempo que não uso o espírito. Desde… enfim. Você sabe. Aquela noite. Um pouquinho pelo bem maior não é nada demais. — Falei sem pensar, mais por instinto de ajudar Sydney. Tarde demais, percebi que talvez não pudesse usar o espírito enquanto tomava os comprimidos.
— É perigoso — ela falou. Mas pude ver a indecisão em seus olhos. Ela queria falar com Marcus, mas não queria me pôr em risco.
— O perigo é não fazer tudo o que podemos para ajudar os outros. E, se isso significa falar com meu foragido favorito, a gente deveria fazer. Eu deveria fazer. — Precisava tentar, pelo menos. Poderia não conseguir, mas não podia deixar de ajudar Sydney.
Ela hesitou e então me deu a melhor resposta por que eu poderia esperar:
— Depois a gente conversa.
Quaisquer que fossem seus outros defeitos, Wolfe se provou surpreendentemente hábil. O processo de tatuagem pareceu durar uma eternidade, mas ele não fez nenhum buraco nas costas de Trey. Quando finalmente terminaram, uma hora depois, a pele de Trey estava irritada e vermelha, pontilhada com um pouco de sangue. Sydney e Wolfe juraram que isso era normal. Ele assentiu, satisfeito, e permitiu que Trey se sentasse para se limpar e fazer um curativo.
— Cobri tudo — Wolfe disse. — Quanto tempo leva pra desaparecer?
— Pode levar um tempo — Sydney disse, com calma. — Às vezes precisa de mais aplicações, mas estou com um bom pressentimento em relação a esta. Obrigada pela ajuda. — Mais uma vez, ela mentiu com tanta tranquilidade que quase acreditei que estávamos fazendo uma remoção estética, e não um experimento contra magias controladoras da mente.
— Uma pena que esse tipo de coisa não existisse na minha juventude — Wolfe disse, pensativo. — Se eu soubesse o que sei agora, nunca teria tatuado Tocllul na coxa. Mas, poxa, eu era jovem e achava que ficaria com Tocllul para sempre.
— Toc… o quê? — perguntei.
— Tocllul. Era uma princesa asteca que conheci quando viajei pelo México.
Trey se debruçou.
— Você disse asteca?
— Sim. A última de seu povo. A família dela estava passando por dificuldades e precisava vender souvenirs pra ganhar a vida. Participei de uma série de provas de honra mortais pra provar minha dignidade. Finalmente ganhei o direito de ser o consorte real, mas, depois de alguns meses, fui ficando inquieto. Não estava pronto pra sossegar em um lugar só. Parti o coração dela quando fui embora, mas o que poderia ter feito? Era jovem, louco pra correr o mundo. Precisava ser livre. Livre como um pássaro.
— E esse pássaro ninguém pode mudar — eu disse, solene, citando Lynyrd Skynyrd. Sydney me olhou de soslaio. — Então ainda tem o nome dela tatuado?
— Não. — Ele ergueu um pouco a bermuda, revelando a coxa cheia de pelos e a palavra Tactful escrita em tinta azul-marinho desbotada. — Voltei para os Estados Unidos e procurei um cara para mudar. Quer dizer uma pessoa com tato, delicada. Era o melhor que dava pra fazer com as letras que tinha.
— É uma qualidade muito nobre — Jackie disse. Também não consegui saber se estava mentindo ou não, o que aumentou ainda mais a tentação de entrar no modo de visão de aura. Ela ficou observando enquanto Sydney ajudava Trey a fazer o curativo. — Algum de vocês precisa de mais alguma coisa? Tenho que admitir que estou me sentindo inútil.
— Você foi a anfitriã — Sydney disse, dando um passo para trás enquanto Trey vestia a camisa. — Já fez muita coisa.
— Bom, eu adoraria fazer mais se vocês quiserem ficar mais um pouco.
Considerando o modo como Wolfe ergueu a sobrancelha sobre o tapa-olho, a única pessoa que ele queria que ficasse era ele mesmo.
— A gente precisa ir — eu disse, falando por todos. Se Jackie desse permissão para Sydney ficar fora do alojamento, pensei que poderíamos usar o tempo livre para comer alguma coisa. Trey poderia vir também. Eu não ligava, desde que ganhasse mais alguns momentos preciosos com Sydney. O toque do celular dela me disse que não era uma opção. Ela olhou a tela e soltou um suspiro.
— Ai. É a quarta mensagem de Zoe. Não tinha ouvido as outras por causa do barulho da agulha. — Ela guardou o celular. — Aposto que vou levar bronca por ter ficado tanto tempo fora.
— Não vá para casa — eu disse, por impulso. Trey estava fazendo uma pergunta para Wolfe e cochichei no ouvido de Sydney. — Plano de fuga nº31: a gente entra no meu carro e não para até encontrar um lugar seguro.
O amor nos olhos dela tinha um ar quase tangível e precisei lutar contra o impulso de pegá-la nos braços.
— A gente teria que parar uma dezena de vezes. Seu carro gasta muita gasolina.
Saímos com Trey, que, por incrível que pareça, estava lidando muito bem com a situação para alguém que tinha se metido num experimento sobre o qual não sabia quase nada. A princípio, imaginei que fosse porque confiava em Sydney. Depois, percebi que o motivo era outro.
— Você fez meu dia me apresentando aquele cara — Trey falou para ela. — Acho que meu ano. Ele é surreal. E ele e a sra. T… eles estão mesmo…?
Sydney fez uma careta.
— Acho que sim.
Ela saiu com Trey, me lançando um último olhar, e esperei mais alguns minutos dentro da casa para que não fôssemos vistos juntos. Mesmo num bairro estranho como aquele, não queríamos correr o risco.
Eu sabia que a veria em breve se conseguisse entrar no sonho, mas fui tomado por aquela velha tristeza com o estado frustrante da nossa relação. Eu não queria um sonho. Queria a realidade e não tê-la ao alcance era horrível. Einstein estava certo. O remédio podia tirar os excessos, mas não me deixava livre dos sentimentos. Eles faziam parte da vida.
Depois de voltar para casa, fiquei de olho no relógio, tentando calcular quanto tempo levaria até que Sydney chegasse ao dormitório e fosse dormir. Ela tinha dito que depois a gente conversaria sobre o sonho, mas, como não tínhamos conversado ainda, tomei aquilo como um o.k. Eu estava cansado, uma sensação nova para mim, mas ansioso e curioso para saber se conseguiria ou não criar o sonho. Sabia que não tinha por que ter vergonha de contar a verdade para Sydney. Ela entenderia e até ficaria orgulhosa do que eu vinha fazendo. Mas aquilo trazia de volta meu maior medo em relação ao estabilizador de humor: de que, ao me livrar da escuridão do espírito, também perdesse a capacidade de ajudar as pessoas que amava.
Quando passou tempo suficiente, relaxei até entrar no estado meditativo necessário para caminhar entre os sonhos. Com esforço, invoquei a magia que dormia dentro de mim, o espírito ligado à minha essência de vida. Não estava vazio, não exatamente, mas foi como pegar água com as mãos. Ele ficava deslizando por entre os dedos. Senti o pânico crescer no meu peito, mas, firme, não me deixei dominar por ele. Assim como ao ler a aura da minha professora, tentei controlar a magia várias vezes. Havia ainda menos do que da última vez e o sonho de espírito exigia mais que a visão de auras. Finalmente, consegui reunir o bastante para instaurar um sonho. Meu quarto desapareceu e me vi no pátio da Getty Villa. O problema era que mal parecia com o pátio real. O mundo ao meu redor ficava piscando e perdendo a força, como uma TV com má recepção. E já precisava de toda minha energia para manter aquele sonho ruim. Sem perder tempo, levei Sydney para dentro dele.
— O que está acontecendo? — ela perguntou, olhando ao redor com surpresa.
— Estou cansado — eu disse. — É o lado ruim dos meus novos hábitos de sono.
Notei uma tênue faísca de desconfiança nos olhos dela e soube o que estava pensando.
— Não bebi, Sage. Juro. Só estou muito cansado. Vamos trazer Robin Hood logo porque não sei por quanto tempo consigo segurar isso aqui.
Ela pareceu preocupada, mas assentiu. Trazer outra pessoa foi ainda mais difícil, e precisei de várias tentativas, recebendo outros olhares surpresos de Sydney. Por fim, Marcus apareceu e, embora sua forma tivesse pouca consistência, seu sorriso irritante era o mesmo de sempre.
— Estava me perguntando quando vocês ligariam de novo. — Ele franziu a testa ao ver o lugar tremer. — O que está acontecendo?
— Não importa — eu disse rápido. — E a gente tem pouco tempo.
Sydney entendeu e não perdeu tempo para explicar as novidades. Ver como Marcus ficou boquiaberto quase fez meu esforço valer a pena.
— Você conseguiu mesmo? E usou? Deu certo?
— Ainda não sei — Sydney admitiu. — Por enquanto, tudo correu como o planejado… e também não aparece na pele. É mais ou menos invisível. — Marcus sorriu com essa notícia. Um dos pontos negativos da tinta azul era que chamava muita atenção para os rebeldes alquimistas. — Ainda preciso fazer mais alguns… experimentos no meu amigo. Mas estou com um bom pressentimento e, se conseguir arranjar tempo, não vai ser difícil produzir tinta pra você. Quando vocês voltam?
— Queremos atravessar a fronteira para El Paso esta semana — ele disse. — Temos mais uma pessoa para “resgatar” e depois acho que consigo ir até Palm Springs. Talvez uma semana e meia? Duas, no máximo? Acha que vai ter alguma coisa até lá?
Ela fez que sim.
— Consigo a tinta alquimista até lá. — Pude notar pelo seu tom de voz que ela ainda não tinha pensado num jeito de replicar a compulsão da tinta original. — Posso deixar na casa do Adrian. Lembra onde ele mora?
— Como poderia esquecer? — Marcus revirou os olhos. — Tantas lembranças de bater na cara dele.
— Ei — eu ameacei. — Fui eu que bati na sua cara.
Sydney lançou um olhar repreensivo contra nós.
— Vou deixar lá, então. Vocês já têm celular?
— Não, mas teremos quando estivermos de volta aos Estados Unidos, e Sabrina ainda tem seu contato, daí pego com ela. Ligo pra você e a gente finaliza as coisas.
— Acabamos, então? — perguntei. Estava começando a suar. — Preciso dormir um pouco.
— Acho que sim — Sydney disse, me olhando com ar preocupado. — Me ligue assim que puder, Marcus.
— Vou ligar — ele prometeu.
Tomei isso como uma despedida e o mandei embora. Pude ver pelo rosto de Sydney que ela queria conversar, mas havia um zumbido na minha cabeça e perdi o controle do sonho. Ele se desfez ao nosso redor e mal tive tempo de dizer:
— Amanhã a gente se fala. — Ela foi ficando transparente até desaparecer.
Quando voltei para o mundo real, descobri que o zumbido que tinha ouvido era meu celular, que eu havia deixado no modo silencioso em cima do criado-mudo. Fiquei surpreso ao ver o nome de Lissa na tela e atendi com as mãos trêmulas, espantado com meu cansaço.
— Meio tarde para Vossa Majestade, não?
— Você está seguindo um horário humano — ela me lembrou, divertida.
— Ah. Verdade. A gente acaba esquecendo depois de um tempo. A que devo o prazer?
— Nada social, infelizmente. Você não vai gostar, mas preciso abusar do meu papel de rainha e convocar você para a corte. Sei que é chato. Juro que sei e peço desculpas. Sinceramente.
— O que aconteceu? — perguntei, sentindo um frio na barriga.
— Sonya quer sua ajuda com o sangue de Olive. Ela disse que a magia está começando a sumir e ninguém sabe como detê-la.
— Ela não podia ligar?
— Ela falou que é muito complicado e que você devia vir pessoalmente, já que ajudou a conter a magia da primeira vez.
— Entendi. — Sonhos de espírito e auras já estavam me dando problemas… como eu chegaria perto de fazer o que tinha feito antes? No entanto, ainda não estava preparado para contar a Lissa sobre os medicamentos.
— Sonya estava pensando se… — Lissa hesitou. — Bom, você acha que Sydney poderia vir? Se conseguirmos permissão dos alquimistas?
Meu coração bateu mais rápido.
— Por que ela?
— Sonya achou que a gente podia fazer algum tipo de tatuagem com o sangue e disse que Sydney tem experiência com esse tipo de coisa. — Era verdade. Keith tinha sido pego organizando um esquema de tatuagens anabolizantes que Sydney havia descoberto. E, se eles realmente só precisassem de mim como conselheiro, talvez eu pudesse esconder a fragilidade do espírito. — E, convenhamos, ela deve ser a única alquimista que aguentaria passar um tempo aqui na corte. Pode levar alguns dias. Você acha que ela faria isso? Viajar com você? Ou… enfim, talvez em voos separados para esconder a conexão com Jill.
Eu mal podia acreditar nos meus próprios ouvidos. Lissa estava me oferecendo uma chance de ir embora com Sydney. Claro, não era exatamente uma escapada romântica, mas a corte Moroi devia ser o último lugar em que teríamos que nos preocupar com olhos alquimistas. Só teríamos que nos esconder da minha própria raça.
— Se os alquimistas mandarem, ela vai. — Fingi o máximo de indiferença possível. — As ordens são mais importantes que o medo para eles. Acho que ela aguentaria viajar comigo também, se você quiser que a gente se encontre numa escala como da última vez.
Deu para sentir o alívio de Lissa pelo telefone.
— Que bom. Vai facilitar muito se trouxerem Neil também.
— Neil?
— Sim. Vocês devem viajar com proteção, claro. A menos que prefira Eddie dessa vez.
E lá se foi meu tempo sozinho com Sydney. Talvez, com sorte, teríamos um pouco na corte.
— Não, pode mandar o Palácio de Buckingham. Ele vai causar menos problemas assim.
— Quê?
— Nada.
Ela prometeu que eu teria os detalhes do voo pela manhã e, depois de desligarmos, caí na cama e dormi quase imediatamente.
Outro zumbido me acordou, mas demorei um tempo para encontrar o celular, perdido no meio dos lençóis. Quase não atendi a tempo e estreitei os olhos diante da luz que entrava pela janela que eu havia esquecido de fechar na noite anterior.
— Adrian? — Era Jill, parecendo preocupada. — Acabei de saber que você vai para a corte.
— Pois é. Ordens da realeza e tudo mais. Não se preocupe, Belezinha. Trago uma lembrancinha pra você.
— Adrian. — A gravidade com que ela disse meu nome lembrava o tom que Sydney usava às vezes. — Tive que ouvir a notícia da boca de Neil.
Soltei um resmungo.
— Não comece. Lissa falou que seria só por alguns dias. Você consegue viver sem ele.
— Não — ela disse, impaciente. — Você não entendeu. Tive que ouvir da boca dele. Porque não fiquei sabendo por você.
Meu cérebro ainda estava lento por causa do sono e do cansaço, mas uma comichão na pele me dizia que eu estava à beira de entender alguma coisa importante.
— O que está querendo dizer?
— Estou querendo dizer que não sei mais o que acontece com você. O laço apagou.

3 comentários:

  1. Ah, romperam o laço! Menos mal, agora a Sydney e o Adrian podem aproveitar 😈

    Apesar que eu acho que vai ter algum momento crítico e o Adrian não vai poder fazer nada, aí vai ficar arrasado e tals. To sentindo que vem tensão por aí 😵

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O laço adormeceu...
      Pois é! Seria ótimo se ver livre dos efeitos colaterais, mas ficar sem os poderes...

      Excluir
  2. apesar de tudo esse parece ser o livro mais calminho até agora, tipo, tem todos os problemas que fervilhavam nos outros livros, mas agora eles estão em evidencia e não tem nada com risco imediato de morte...

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)