13 de outubro de 2017

Capítulo 13

WADE ME CONTOU TUDO o que sabia. Eram informações úteis, mas eu não tinha certeza se seriam suficientes. Primeiro, eu precisaria ir para St. Louis... e isso já era complicado. Estava me preparando para os telefonemas que teria de fazer, torcendo para que tivesse lábia suficiente para proceder com o plano.
Antes de empreender essa tarefa, só queria a normalidade e o conforto do meu quarto. No caminho de volta para Amberwood, Eddie e eu analisamos todos os detalhes do encontro. Ele estava impaciente para fazer mais algum progresso, e prometi que o manteria a par de tudo.
Eu tinha acabado de chegar à porta quando meu celular tocou. Era a sra. Terwilliger. Às vezes eu podia jurar que ela tinha um sensor na frente do meu quarto que a avisava no instante em que eu aparecia.
— Srta. Melbourne — ela disse. — Precisamos nos encontrar.
Meu coração parou.
— Não é outra vítima, é? Você disse tínhamos tempo.
— E temos — ela respondeu. — Por isso é melhor nos encontrarmos logo. Ler sobre feitiços é uma coisa, mas você precisa praticar. Me recuso a deixar Veronica pegar você.
As palavras dela desencadearam um misto de sentimentos dentro de mim. Naturalmente, senti minha reação automática contra a prática de magia. Mas ela logo diminuiu diante da descoberta de que a sra. Terwilliger gostava de mim e estava preocupada com a minha segurança. Meu próprio desejo de não entrar em coma também era uma motivação forte.
— Quando a senhora quer me encontrar? — perguntei.
— Amanhã de manhã.
Percebi que o dia seguinte era sábado. Mas já? Onde minha semana tinha ido parar? Eu tinha planejado levar Adrian para buscar o carro dele na manhã seguinte e esperava que não fosse demorar demais.
— Pode ser ao meio-dia? Tenho um compromisso de manhã.
— Tudo bem — a sra. Terwilliger disse, um tanto relutante. — Me encontre em casa e então iremos para o Parque da Pedra Solitária.
Eu estava prestes a deitar na cama mas parei.
— Por que precisa ser no meio do deserto? — O Parque da Rocha Solitária era longe e raramente recebia muitos turistas. Eu não tinha me esquecido do medo que sentira da última vez que ela tinha me levado para o meio do nada. Pelo menos dessa vez seria à luz do dia.
— Bom, acho difícil conseguirmos praticar na escola — ela argumentou.
— Verdade...
— Traga seus livros e os componentes em que vem trabalhando.
Desligamos e escrevi uma mensagem rápida para Adrian: Precisamos ser rápidos amanhã. Vou encontrar a sra. T ao meio-dia.
A resposta dele não foi totalmente inesperada: Por quê?
Claro que ele precisava saber de tudo que estava acontecendo na minha vida. Respondi que a sra. Terwilliger queria trabalhar minha proteção mágica.
Dessa vez ele realmente me surpreendeu: Posso assistir? Queria saber como ela está protegendo você.
Uau, Adrian pedindo permissão? Ele tinha um histórico de simplesmente se convidar para os passeios. Hesitei, ainda confusa depois do nosso momento acalorado na fraternidade. No entanto, ele não tinha tocado no assunto desde então, e sua preocupação me comoveu. Respondi que sim e ele mandou uma carinha feliz.
Não sabia exatamente o que vestir para um “treinamento mágico”, então, na manhã seguinte, optei por roupas confortáveis. Adrian me olhou de cima a baixo quando entrou no Pingado.
— Casual, hein? Não vejo você assim desde os tempos do Wolfe.
— Não sei o que ela tem em mente — expliquei, fazendo uma curva em U na rua dele. — Imaginei que seria a melhor opção.
— Você podia ter vestido a camiseta da EIA.
— Não queria sujar — eu disse, sorrindo.
Em parte, era verdade. Ainda achava lindíssimo o coração em chamas que ele havia pintado. Mas sempre que olhava para a camiseta, as lembranças daquela noite voltavam à minha mente. Como pude fazer aquilo? Havia me feito essa pergunta uma centena de vezes e toda resposta que encontrava parecia falsa. Minha teoria principal era que eu simplesmente ficara fascinada pela seriedade com que Adrian encarava a arte, pela maneira como a emoção e a paixão tinham tomado conta dele. As meninas gostavam tanto de artistas quanto de bad boys, não é? Mesmo agora, algo ardia em meu peito quando pensava naquele olhar extasiado em seu rosto. Adorava que ele tivesse algo tão poderoso dentro de si.
Mas, conforme vivia repetindo, não era desculpa para ter subido em cima dele e deixado ele me beijar, ainda mais no pescoço! Eu comprara o livro sobre bad boys pela internet, mas não tinha ajudado em nada. Finalmente, decidi que a melhor solução — senão a mais saudável — era fingir que aquilo nunca tinha acontecido. Não significava que eu havia esquecido. Tanto que, sentada ao lado dele no carro, foi difícil não pensar na sensação do corpo tão perto do meu. Ou em como seus dedos tinham se emaranhado no meu cabelo. Ou em seus lábios...
Sydney! Pare. Pense em outra coisa. Conjugue verbos em latim. Recite a tabela periódica.
Nada disso adiantou. Pelo menos Adrian continuou não comentando nada sobre aquela noite. Por fim, encontrei uma distração ao contar a ele sobre a viagem para San Bernardino. Discutir sobre conspirações, grupos rebeldes e invasões praticamente acabou com todos os sentimentos ardentes que permaneciam em mim. Adrian não gostou da ideia de que os alquimistas estivessem trabalhando com os guerreiros ou de que a tatuagem estivesse me controlando, mas também não queria que eu me envolvesse numa situação perigosa. Tentei minimizar a quase impossibilidade de invadir a base de St. Louis, mas ele claramente não acreditou em mim.
A sra. Terwilliger me mandou duas mensagens pedindo que eu não me atrasasse. Fiquei de olho no relógio, mas o cuidado com o Mustang era algo que eu levava muito a sério, e precisei me demorar na oficina para garantir que ele estava em perfeitas condições. Adrian queria comprar os pneus básicos, mas insisti para que comprasse uns de melhor qualidade, convencendo-o de que o custo extra valeria a pena. E, depois que os inspecionei, me parabenizei pela escolha. Só depois de me certificar de que o carro não havia sofrido nenhum arranhão desnecessário, deixei que ele pagasse. Dirigimos os dois carros até Vista Azul, e fiquei contente quando chegamos bem na hora. Não estávamos atrasados, mas a sra. Terwilliger já esperava por nós na entrada.
Designamos Adrian como o motorista do grupo.
— Céus — eu disse quando ela entrou apressada no carro. — A senhora tem que ir a algum lugar depois?
Ela me abriu um sorriso tenso, e não pude deixar de notar a palidez em seu rosto.
— Não, mas temos pouco tempo. Lancei um feitiço grande hoje de manhã que não vai durar pra sempre. Estamos em contagem regressiva.
Ela não disse mais nada até chegarmos ao parque, e esse silêncio me deixou apreensiva, imaginando todo tipo de cenário assustador. Embora confiasse nela, senti um alívio súbito por ter Adrian conosco.
Apesar de não ser muito movimentado, o Parque da Rocha Solitária tinha alguns excursionistas esporádicos. A sra. Terwilliger — que, aliás, estava com botas de excursionista — caminhou pelo terreno rochoso em busca de um lugar convenientemente afastado para fazermos o que tinha em mente. Algumas formações rochosas estratificadas pontilhavam a paisagem, mas eu não conseguia apreciar direito a beleza delas. Na maior parte do tempo fiquei pensando sobre como estávamos no deserto sob o sol a pino. Mesmo não sendo verão, ainda sofríamos com o calor.
Olhei para Adrian enquanto caminhávamos e vi que ele também estava olhando para mim. Do bolso do casaco, tirou um protetor solar.
— Sabia que você ia perguntar. Estou quase tão preparado quanto você.
— Quase — eu disse. Ele tinha previsto meus pensamentos de novo. Por uma fração de segundo, fingi que éramos só nós dois em uma agradável caminhada vespertina. Parecia que a maior parte do tempo que passávamos juntos era em alguma missão urgente. Como seria só passarmos o tempo sem o peso do mundo nas costas?
A sra. Terwilliger logo nos trouxe de volta à dura realidade.
— Aqui deve servir — ela disse, examinando o terreno ao seu redor. Ela tinha conseguido encontrar uma das áreas mais desoladas do parque. Eu não ficaria surpresa se visse urubus circulando no céu. — Trouxe tudo o que pedi?
— Sim, senhora. — Ajoelhei e vasculhei minha bolsa. Dentro estava o livro de feitiços, além de algumas misturas líquidas e herbáceas que eu tinha feito a pedido dela.
— Pegue o combustível de bola de fogo — ela instruiu.
Os olhos de Adrian se arregalaram.
— Você disse “bola de fogo”? Da hora.
— Você vê magia de fogo o tempo todo — eu o lembrei. — Dos Moroi que conseguem lançar.
— Sim, mas nunca vi um humano fazer uma coisa dessas. Nunca vi você fazer uma coisa dessas.
Teria preferido que ele não parecesse tão impressionado, porque me lembrou da gravidade do que estávamos prestes a fazer. Eu teria me sentido melhor se ele tratasse aquilo como se não fosse nada de mais. Mas aquele feitiço era mesmo assombroso. Uma vez eu lançara um feitiço que envolvia atirar um amuleto produzido meticulosamente recitando palavras que o faziam arder em chamas. Tinha um enorme componente físico. Já esse era um dos mais mentais e envolvia, basicamente, a criação de fogo do nada.
O combustível a que a sra. Terwilliger havia se referido era uma bolsinha com cinzas de madeira de teixo queimada. Ela a pegou das minhas mãos e examinou o conteúdo, murmurando em aprovação:
— Sim, sim. Muito bom. Uniformidade excelente. Você queimou pelo tempo exato. — Ela devolveu a bolsinha. — Mas, com o tempo, não vai mais precisar disso. É o que torna esse feitiço tão poderoso. Ele pode ser realizado muito rápido, com pouquíssima preparação. Mas você precisa praticar muito para chegar a esse nível.
Fiz que sim e tentei agir como uma estudante. Até aquele momento, o que ela dizia era parecido com o que o livro tinha descrito. Se eu pensasse em tudo aquilo como um exercício extraclasse, era bem menos intimidante. Nem um pouco assustador.
A sra. Terwilliger inclinou a cabeça e olhou atrás de mim.
— Adrian? Talvez você queira ficar mais longe. Bem longe.
Tá. Talvez um pouco assustador.
Ele obedeceu e se afastou. Aparentemente, a sra. Terwilliger não temia por si mesma, pois continuou a poucos metros de mim.
— Agora — ela começou —, aplique as cinzas e estenda a mão.
Pus a mão dentro da bolsinha, tocando as cinzas com o polegar e o indicador. Em seguida, esfreguei de leve todos os dedos uns nos outros até que toda a palma da mão estivesse coberta por uma fina camada cinzenta. Coloquei a bolsinha no chão e estendi a mão, com a palma voltada para cima. Eu sabia o que vinha a seguir, mas esperei pelas instruções.
— Reúna sua magia para invocar a chama das cinzas. Sem encantamento, só com a força de vontade.
A magia surgiu dentro de mim. Invocar um elemento me lembrava do que os Moroi faziam, o que foi um pouco estranho. Meu esforço resultou em uma faísca vermelha, que pairou no ar sobre a palma da minha mão. Aos poucos, foi crescendo e crescendo, até ficar do tamanho de uma bola de tênis. O êxtase da magia tomou conta de mim. Prendi a respiração, mal conseguindo acreditar no que tinha acabado de fazer. As chamas vermelhas se retorciam e giravam e, embora eu pudesse sentir seu calor, não me queimavam.
A sra. Terwilliger soltou um resmungo que parecia ao mesmo tempo divertido e surpreso.
— Excelente. Às vezes me esqueço do seu talento natural. Essa ainda é vermelha, mas algo me diz que não vai demorar muito para você conseguir produzir bolas azuis, sem precisar das cinzas. Invocar elementos é mais fácil do que tentar transformar uma substância em outra.
Fiquei olhando para a bola de fogo, em transe, mas logo percebi que estava ficando cansada. As chamas bruxulearam e foram diminuindo até desaparecerem por completo.
— Quanto antes você atirar a bola, melhor — ela disse. — Vai consumir toda a sua energia tentando sustentá-la. É melhor lançá-la contra o adversário e invocar outra. Tente de novo e, dessa vez, atire.
Invoquei o fogo mais uma vez e senti uma pontada de satisfação ao ver que ele assumiu um tom mais alaranjado. Eu havia aprendido logo nas primeiras aulas de química na infância que, quanto mais clara a chama, com mais calor ela ardia. Mesmo assim, ainda parecia faltar muito para chegar ao azul.
E então... atirei.
Quer dizer, tentei. Meu controle sobre a bola vacilou quando tentei lançá-la na direção de um trecho descampado. Ela se desfez, e as chamas se transformaram em fumaça, que foi levada pelo vento.
— É difícil — me justifiquei, sabendo como a desculpa soava esfarrapada. — Segurar a bola e atirar parece um simples movimento físico. Mas preciso fazer isso ao mesmo tempo que controlo a magia.
— Exato. — A sra. Terwilliger parecia muito satisfeita. — E é aí que entra a prática.
Felizmente, não precisei de muitas tentativas para descobrir como fazer tudo dar certo ao mesmo tempo. Adrian me aplaudiu quando consegui atirar uma bola de fogo direito, resultando em um belo lançamento que atingiu com perfeição a pedra em que estava mirando. Lancei um olhar triunfante para a sra. Terwilliger e esperei pelo próximo feitiço que treinaríamos. Para a minha surpresa, ela não pareceu tão impressionada quanto eu esperava.
— De novo — ela disse.
— Mas já aprendi — protestei. — Deveríamos praticar outro. Eu estava lendo a segunda parte do livro...
— Você não está pronta para isso ainda — ela me repreendeu. — Se acha esse feitiço cansativo, desmaiaria só de tentar os mais avançados. Vamos. — Ela apontou para o chão árido do deserto. — De novo.
Eu queria dizer que, para mim, era impossível não avançar na leitura de um livro. Era como eu funcionava em todas as matérias. Mas algo me dizia que não era o melhor momento para fazer esse comentário.
Ela me fez praticar o lançamento inúmeras vezes. Depois que ficou convencida de que eu tinha aprendido, me fez praticar o aumento do calor do fogo. Finalmente consegui chegar a um tom amarelo, mas não mais que isso. Então precisei realizar o feitiço sem as cinzas. Quando cheguei a esse ponto, voltamos a praticar os lançamentos. Ela escolheu diversos alvos e acertei todos com facilidade.
— Parece Skee-Ball — murmurei. — Fácil e sem graça.
— Sim — a sra. Terwilliger concordou. — É fácil acertar objetos inanimados. Mas alvos em movimento? Alvos vivos? Não é tão fácil assim. Então, vamos passar para essa parte?
A bola de fogo que eu estava segurando desapareceu com a minha surpresa.
— O que a senhora quer dizer? — Se ela esperava que eu começasse a mirar em pássaros ou roedores, estava muito enganada. Jamais incineraria algo vivo. — O que você quer que eu acerte?
A sra. Terwilliger ajeitou os óculos e recuou alguns passos.
— Eu.
Esperei ela dizer que era uma piada ou, pelo menos, mais alguma explicação, mas ela ficou em silêncio. Olhei para Adrian atrás de mim, na esperança de que pudesse me explicar aquilo, mas ele parecia tão espantado quanto eu. Olhei para o chão chamuscado onde minhas outras bolas de fogo haviam acertado.
— A senhora não pode me pedir para fazer isso.
Ela entreabriu um sorriso.
— Garanto que posso. Vá em frente, não vai me machucar.
Precisei pensar por alguns segundos para formular uma resposta.
— Eu atiro muito bem. Posso acertar a senhora.
Ela respondeu com uma risada sincera.
— Acertar, sim. Machucar, não. Vá em frente e atire. Não temos muito tempo.
Eu não sabia quanto tempo havia se passado exatamente, mas o sol estava definitivamente mais baixo no céu. Voltei a olhar para Adrian, pedindo ajuda em silêncio para lidar com aquela insanidade. Ele deu de ombros.
— Você é testemunha — disse para ele. — Ouviu que ela me mandou fazer isso.
Ele assentiu.
— Você é completamente inocente.
Respirei fundo e invoquei a próxima bola. Estava tão exausta que ela se acendeu vermelha e tive que me esforçar para aquecê-la. Então levantei os olhos para a sra. Terwilliger e me preparei para o lançamento. Era mais difícil do que eu tinha imaginado, e não só porque eu estava com medo de machucá-la. Atirar algo no chão quase não exigia pensamento. A concentração nesse caso ficava apenas na mira. Mas enfrentar uma pessoa, olhar nos olhos dela e vê-la respirar... bom, ela estava certa. Era completamente diferente de acertar um objeto inanimado. Comecei a tremer, sem saber se conseguiria fazer aquilo.
— Está perdendo tempo — ela advertiu. — Está consumindo sua energia de novo. Atire.
A ordem me fez agir. Eu atirei.
A bola de fogo voou da minha mão diretamente contra ela — mas não encostou. Não consegui acreditar nos meus próprios olhos. A uns trinta centímetros da sra. Terwilliger, a bola atingiu uma barreira invisível, dividindo-se em chamas pequenas que logo se dissiparam em fumaça. Fiquei boquiaberta.
— O que foi isso? — exclamei.
— Um feitiço de escudo poderosíssimo — ela disse, visivelmente satisfeita com a minha reação. Ela ergueu um pendente que estava escondido sob a blusa. Não parecia nada de especial, só uma cornalina envolta em fios de prata. — Fazer um desses exige muito esforço... e mantê-lo, ainda mais. O resultado é um escudo invisível, como você percebeu, que quase nenhum ataque físico ou mágico pode penetrar.
Adrian logo estava ao meu lado.
— Quer dizer que existe um feitiço que deixa você protegido de qualquer coisa e você só pensou em mencionar agora? Você não para de falar que Sydney está correndo perigo! Por que não ensina só esse? Assim sua irmã não poderá encostar nela.
Embora Adrian não parecesse prestes a atacá-la como havia acontecido com Marcus, estava quase igualmente furioso. Seu rosto estava inflamado; seu olhar, duro. Ele cerrou os punhos, mas acho que nem percebeu. Era mais uma daquelas reações instintivas.
A sra. Terwilliger permaneceu firme diante da raiva dele.
— Se fosse tão simples, acredite, eu faria isso. Infelizmente, há muitas questões envolvidas. Uma é que Sydney, apesar de ser um prodígio, não tem poder suficiente para lançar esse feitiço. Eu quase não tenho poder suficiente. Outro problema é que ele dura muito pouco, e é por isso que estou insistindo tanto na questão do tempo. Ele só se mantém por seis horas e exige tanto esforço que não dá para simplesmente ativá-lo e sustentá-lo pelo tempo que você quiser. Já estou exausta e ficarei ainda mais depois. Não vou conseguir lançar esse feitiço, e acho que nenhum outro, por mais um dia... no mínimo. É por isso que preciso que Sydney esteja sempre preparada.
Adrian e eu não dissemos nada de imediato. Eu havia notado o cansaço dela quando ela entrara no carro, mas não tinha pensado muito a respeito. Ao longo do treino, havia notado que ela estava suando e parecendo ainda mais cansada, mas tinha culpado o calor por isso. Só agora conseguia entender plenamente a extensão do que ela havia feito.
— Por que se esforçou tanto? — perguntei.
— Para manter você viva — ela respondeu, seca. — Agora não faça com que tenha sido em vão. Só temos mais uma hora até o feitiço perder a força e você precisa mirar em alguém sem pensar duas vezes. Você hesita demais.
Ela estava certa. Mesmo sabendo que ela estava protegida, era difícil atacá-la. Eu não conseguia aceitar o caminho da violência. Precisava esquecer todas as minhas preocupações internas e tratar aquilo como um jogo de Skee-Ball. Mirar, atirar. Mirar, atirar. Não pense demais.
Em pouco tempo, consegui combater meus medos e atirar sem hesitação. A sra. Terwilliger até tentou se mover um pouco, para me dar uma sensação melhor do que seria combater um inimigo real, mas não achei muito difícil. Afinal, ela estava cansada e não conseguia correr de um lado para o outro ou desviar das bolas de fogo. Na verdade, fiquei com pena. Ela parecia prestes a desmaiar e senti uma pontada de culpa enquanto preparava meu próximo lançamento...
— Ahh!
Uma chama saiu das pontas dos dedos da sra. Terwilliger assim que lancei a bola de fogo. Errei feio, e a bola desapareceu antes de chegar perto dela. A bola de fogo dela passou a menos de trinta centímetros de mim. Com um sorriso exausto, ela caiu de joelhos e soltou a respiração.
— Estão dispensados — ela disse.
— O que foi isso? — perguntei. — Eu não tenho um escudo mágico!
Ela não pareceu ter a mesma preocupação.
— Nem chegou perto de você. Tomei cuidado. Só queria mostrar que, por mais “fácil e sem graça” que pareça, tudo vai pelos ares quando alguém realmente está atacando você. Agora, Adrian, me faria o favor de trazer minha bolsa? Tenho umas tâmaras secas que acho que tanto eu quanto Sydney adoraríamos comer agora.
Ela estava certa. Eu tinha me concentrado tanto na lição que nem percebera como estava cansada. Ela estava ainda mais, mas o treino definitivamente tinha me afetado. Nunca usara magia por tanto tempo, e meu corpo estava fraco e exaurido por causa da queda de açúcar no sangue. Comecei a entender por que ela havia me alertado para ficar longe da parte realmente difícil. Praticamente engoli as tâmaras secas que ela havia levado para nós e, embora o açúcar ajudasse, estava louca para comer mais. Adrian nos acompanhou gentilmente até a entrada do estacionamento, levando cada uma em um braço.
— Pena que estamos no meio do nada — resmunguei depois que entramos no carro. — Você ficaria surpreso com o quanto eu comeria agora. Acho que vou desmaiar antes de voltarmos para a civilização.
— Na verdade — Adrian disse —, deve ser seu dia de sorte. Acho que vi um lugar não muito longe daqui quando a gente estava vindo.
Eu não tinha visto nada, mas estivera preocupada demais com a lição da sra. Terwilliger para reparar. Depois de cinco minutos na estrada, vi que Adrian estava certo sobre o restaurante. Ele pegou a saída em uma estradinha sombria, parando no estacionamento de cascalho de um restaurante pequeno, recém-pintado de branco.
Fiquei olhando incrédula para a plaqueta em frente.
— “Tortas e Tal”?
— Você queria açúcar — Adrian me lembrou.
O Mustang soltou poeira e cascalho no ar, e me arrepiei pelo carro.
— A parte do “Tal” não é muito estimulante.
— Pensei que você fosse ficar mais incomodada com a parte das “Tortas”.
Apesar da minha apreensão, Tortas e Tal era um restaurante bonito e limpinho. Havia cortinas de bolinha nas janelas, e a vitrine estava cheia de todo tipo de torta imaginável, além de coisas “tais” como bolos de cenoura e brownies. Éramos as únicas pessoas com menos de sessenta anos no lugar.
Pedimos nossas tortas e nos sentamos numa mesa de canto. Pedi uma de pêssego; Adrian, de chocolate; e a sra. Terwilliger, de nozes. E, claro, eu e ela pedimos café para a garçonete assim que nos sentamos, uma vez que havíamos passado por uma dura abstinência devido à magia. Dei um gole e imediatamente me senti melhor.
Adrian comeu sua fatia num ritmo razoável, como uma pessoa normal, mas eu e a sra. Terwilliger devoramos as nossas como se não comêssemos havia um mês. Conversar era irrelevante. Tudo o que importava era a torta. Adrian nos observou com prazer, e não interrompeu até que nós duas tivéssemos quase limpado o prato.
Ele apontou para o meu prato vazio.
— Mais uma fatia?
— Vou pedir mais café. — Olhei para o prato brilhando e não pude deixar de perceber que aquela vozinha interior que costumava ficar me lembrando da quantidade de calorias que eu ingeria andava quieta nos últimos tempos. Na verdade, nem parecia estar mais dentro de mim. Eu tinha ficado brava com a “intervenção” alimentar de Adrian, mas as palavras dele acabaram tendo um impacto maior do que eu esperava. Não que tivesse alguma coisa a ver especificamente com ele, claro. Diminuir minhas restrições alimentares era simplesmente uma ideia sensata. Só isso. — Estou bem melhor agora.
— Eu pego pra você — ele me disse. Quando voltou, trazia uma caneca para a sra. Terwilliger também. — Imaginei que também fosse querer.
Ela agradeceu com um sorriso.
— Obrigada. Você é muito atencioso. — Enquanto ela bebia, notei que ainda parecia cansada, embora tivéssemos acabado de nos reabastecer de açúcar. Ela não parecia mais prestes a desmaiar, mas estava claro que não tinha se recuperado tão rapidamente quanto eu.
— A senhora tem certeza de que está bem? — perguntei.
— Não se preocupe, vou ficar. — Ela deu mais um gole no café, com o rosto pensativo. — Não faço esse feitiço há anos. Esqueci o quanto ele exige de mim.
Eu estava assombrada com o trabalho que ela havia tido por mim. Desde que me identificara como uma usuária de magia em potencial, eu só vinha resistindo às suas propostas e até mesmo sendo hostil.
— Obrigada — disse para ela. — Por tudo... queria poder compensar a senhora pelo esforço.
Ela pôs a caneca na mesa e colocou mais açúcar.
— Fico feliz em fazer isso. Não precisa me recompensar. Mas... depois que tudo isso tiver terminado, gostaria muito que você conhecesse meu clã. Não estou pedindo para entrar — ela acrescentou, rápido. — Só conversar. Suspeito que acharia o Stelle muito interessante.
— Stelle — repeti. Ela nunca tinha chamado o clã pelo nome antes. — Estrelas.
— Sim — ela concordou. — Nossas origens são italianas, embora, como você já deve ter visto, a magia que usamos venha de diversas culturas.
Eu estava sem palavras. Ela tinha feito tanto por mim... sem dúvida não seria nada de mais só conversar com outras bruxas, certo? Mas, se era algo tão pequeno, por que eu estava com tanto medo? A resposta me ocorreu alguns segundos depois. Conversar com outras bruxas e ver sua organização levaria meu envolvimento mágico a outro nível. Eu havia precisado de muito tempo para me acostumar à magia que estava usando. Tinha superado muitos dos meus medos, mas parte de mim tratava a magia como uma atividade paralela. Como um passatempo. Conhecer outras bruxas mudaria tudo. Eu teria que aceitar que fazia parte de algo muito maior do que um mero exercício  ocasional. Conhecer um clã parecia definitivo. E eu não sabia se estava pronta para ser considerada uma bruxa.
— Vou pensar — eu disse por fim. Queria poder oferecer mais, mas meus instintos de proteção haviam assumido o comando.
— Já está bom — ela disse com um pequeno sorriso. Então seu celular tocou, e ela baixou os olhos. — Por falar em Stelle, preciso conversar com uma das minhas irmãs. Encontro vocês no carro. — Ela terminou o café e saiu.
Eu e Adrian a seguimos alguns minutos depois. Eu ainda estava apreensiva em relação ao clã e segurei-o pelo braço. Disse baixinho:
— Adrian, como cheguei a esse ponto? Estou tentando descobrir os segredos dos alquimistas e praticando magia no deserto! — No verão passado, quando estava com Rose na Rússia, eu mal conseguia tolerar a ideia de dormir no mesmo quarto que ela. Tinha ficado com vários mantras alquimistas se repetindo na minha cabeça, me advertindo do perigo dos vampiros. E, agora, ali estava eu, aliada a vampiros e questionando os alquimistas. Aquela menina na Rússia não tinha nada em comum com essa em Palm Springs.
Não, no fundo, ainda sou a mesma pessoa. Precisava ser... porque, senão, quem eu era?
Adrian me abriu um sorriso compreensivo.
— Acho que foi uma série de motivos. Sua curiosidade. Sua necessidade de fazer a coisa certa. Tudo isso trouxe você até aqui. Sei que os alquimistas ensinaram você a pensar de um jeito, mas o que está fazendo agora... não é errado.
Passei a mão no cabelo.
— Mesmo assim, apesar de tudo isso, não consigo ter uma conversinha de nada com o clã da sra. Terwilliger.
— Você tem limites. — Com carinho, ele arrumou uma das minhas mechas teimosas. — Não tem mal nenhum nisso.
— Marcus diria que é a tatuagem que está me impedindo.
Adrian deixou a mão cair.
— Marcus diz muitas coisas.
— Não acho que esteja tentando me enganar. Ele acredita na causa, e estou mesmo preocupada com o controle mental... mas, pra falar a verdade, é difícil acreditar que algo esteja me impedindo quando faço coisas como essa. — Apontei para fora, onde estava a sra. Terwilliger. — O dogma alquimista diz que essa magia é errada e antinatural.
O sorriso de Adrian voltou.
— Se faz você se sentir melhor, você parecia bem natural lá no parque.
— Fazendo o quê? Atirando bolas de fogo? — Balancei a cabeça. — Não tem nada de natural nisso.
— Você pode não achar, mas... enfim. Você estava... incrível, lançando aquele fogo como uma antiga deusa da guerra.
Irritada, desviei o olhar.
— Fala sério.
Ele segurou meu braço e me puxou de volta para ele.
— Estou falando sério.
Engoli em seco, sem conseguir dizer nada. Só conseguia pensar na proximidade entre nós, e que ele estava me segurando a uma distância de poucos centímetros. Quase tão perto quanto na fraternidade.
— Não sou uma guerreira nem uma deusa — consegui dizer, finalmente.
Adrian se aproximou ainda mais.
— Para mim, é as duas coisas.
Eu conhecia aquele olhar. Conhecia porque já o tinha visto antes. Estava esperando que ele me beijasse, mas, em vez disso, ele passou os dedos no meu pescoço.
— Aí está, hein? Medalha de honra.
Demorei um tempo para perceber que ele estava falando do chupão. Tinha perdido a cor, mas não desaparecera por completo. Me afastei.
— Não! Foi um erro. Você estava fora de si quando fez isso comigo.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Sage, me lembro muito bem de tudo o que aconteceu naquela noite. Você não parecia tão relutante. Estava praticamente em cima de mim.
— Não me lembro muito dos detalhes — menti.
Ele tirou a mão do meu pescoço e tocou a ponta do dedo nos meus lábios.
— Mas posso ficar só nos beijos se você quiser. Não deixo mais marcas. — Ele fez menção de se aproximar e me afastei rapidamente.
— Não! Isso é errado.
— O quê? Beijar você ou beijar você no Tortas e Tal?
Olhei ao redor, percebendo subitamente que estávamos dando um showzinho para a clientela do restaurante, embora eles não pudessem ouvir. Dei um passo para trás.
— As duas coisas — respondi, sentindo minhas bochechas arderem. — Se for tentar fazer algo inapropriado, o que, aliás, você disse que não tentaria mais, pelo menos escolha um lugar melhor!
Ele riu baixinho, e o brilho em seus olhos me deixou ainda mais confusa.
— Está bem — ele disse. — Da próxima vez que for beijar você, prometo escolher um lugar mais romântico.
— Eu... como assim? Não! Nem pensar! — Comecei a sair em direção à porta e ele me seguiu. — Você não falou que me amaria de longe? Que não voltaria a falar, hum, nessas coisas? — Para alguém que teoricamente estava mantendo distância, ele não estava fazendo um bom trabalho. E eu estava me saindo ainda pior em fingir indiferença.
Ele me ultrapassou e bloqueou a saída.
— Disse que não falaria, se você não quisesse. Mas você está me dando sinais contraditórios, Sage.
— Não estou — eu disse, surpresa por conseguir dizer aquilo na cara dele. Nem eu acreditava em mim mesma. — Você está sendo presunçoso e arrogante e um monte de outras coisas se acha que mudei de ideia.
— Viu, é exatamente isso. — Ali estava ele de novo, entrando no meu espaço. — Acho que você gosta das “outras coisas”.
Me esforcei para não cair na dele e me afastei.
— Eu gosto de humanos.
Outra lição alquimista me veio à mente. Eles se parecem conosco, mas não se engane. Os Moroi não têm a maldade dos Strigoi, mas criaturas que bebem sangue e manipulam a natureza não têm lugar no nosso mundo. Trabalhe com eles somente o necessário. Não somos iguais a eles. Mantenha o máximo de distância possível. É para o bem da sua alma.
Adrian não pareceu acreditar naquilo também, mas se afastou e saiu. Eu o segui alguns segundos depois, pensando que, naquele dia, havia brincado com fogo várias vezes.

Um comentário:

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Boa leitura :)