3 de outubro de 2017

Capítulo 13

NO DIA DA FESTA, considerei seriamente voltar à loja de fantasias e comprar aquele vestido branco inflamável.
O vestido da Lia era... um pouco além do que eu esperava.
Ela tinha feito um trabalho aceitável copiando o estilo da túnica usada na Grécia antiga, isso eu admiti. O vestido não tinha mangas e era preso por alfinetes nos ombros, formando um decote drapeado maior do que o que eu considerava confortável. O vestido ia até o chão, e eu não sabia como ela tinha acertado minha altura com tamanha perfeição sem me medir. Mas as semelhanças históricas acabavam por aí. O material era uma espécie de seda, um tecido leve que fluía em volta de mim, ressaltando mais minha silhueta do que se esperaria de um vestido como aquele. Qualquer que fosse o material, não era nada que os gregos teriam produzido, e era... vermelho.
Nem conseguia lembrar a última vez que vestira alguma peça vermelha. Talvez quando criança. Claro, algumas variações do uniforme de Amberwood tinham detalhes em vinho, mas num tom suave. Aquilo era de um escarlate vivo e flamejante. Eu nunca usava cores tão intensas. Não gostava de chamar atenção. Para reforçar, ela tinha acrescentado vários detalhes em dourado. Um fio dourado dançava ao longo das bordas do vestido, reluzindo sob a luz. O cinto também era dourado, mas bem diferente daquele de plástico vagabundo da fantasia. Os alfinetes que seguravam o vestido eram de ouro (ou, pelo menos, de algum metal de alta qualidade que parecia com ouro), assim como os acessórios que ela tinha mandado: um colar e brincos feitos de pequenas moedas. E até uma presilha dourada cravejada de cristais vermelhos.
Experimentei o vestido no dormitório e fitei no espelho a criatura vermelha e cintilante que eu havia me tornado.
— Não — eu disse em voz alta.
Alguém bateu à porta e fiz uma careta. Levaria uma eternidade para trocar o vestido, então não tive escolha senão atender usando a fantasia. Felizmente, era Jill. Ela estava abrindo a boca para falar alguma coisa mas, ao me ver, ficou parada em silêncio.
— Eu sei — eu disse. — É ridículo.
Ela se recuperou depois de alguns instantes e respondeu:
— Não... não! É maravilhoso. Ai, meu Deus.
Fiz com que ela entrasse rápido no quarto antes que alguma colega pudesse me ver. Ela também estava vestida para a festa, numa roupa azul-clara de fada, feita de um tecido leve que caía perfeitamente em sua silhueta esguia de Moroi.
— É vermelho — eu disse. Caso não estivesse óbvio, acrescentei: — Nunca uso vermelho.
— Eu sei — ela disse, de olhos arregalados. — Mas deveria. Fica lindo em você. Você devia queimar todas as suas roupas cinza e marrons.
— Não posso usar isso — respondi, abanando a cabeça. — Se sairmos agora, ainda dá tempo de irmos à loja de fantasias para comprar outra coisa.
Jill deixou a perplexidade de lado e assumiu uma expressão decidida e obstinada que parecia um pouco exagerada para a situação.
— Não. De jeito nenhum. Você precisa usar isso. Seu namorado vai ficar louco. E precisa pôr um pouco de maquiagem também. Eu sei, eu sei. Você não gosta de nada muito exagerado, mas só um delineador mais escuro e um batonzinho. Precisa ficar à altura da intensidade do vestido.
— Viu? Esta cor já está causando problemas.
Ela não ia desistir.
— Vai levar só um minuto. E é todo o tempo que temos. Se não sairmos logo, você vai se atrasar. Seu namorado está sempre adiantado, não é?
Não respondi na hora. Mas ela tinha razão. Brayden estava sempre adiantado e, por mais que aquela fantasia me angustiasse, não podia suportar a ideia de deixá-lo esperando, ainda mais porque ele não poderia entrar na festa sem estar acompanhado por uma estudante de Amberwood.
— Tudo bem — assenti, com um suspiro. — Vamos.
Jill sorriu, triunfante.
— Mas, primeiro, a maquiagem.
Aquiesci e, no último minuto, coloquei minha cruz no pescoço, que não combinava em nada com o tema da fantasia e foi instantaneamente escondida pela joia dourada mais chamativa, mas me fez sentir melhor. Era um toque de normalidade.
Quando finalmente saímos, encontramos Eddie esperando por nós no saguão. Ele estava usando roupas normais e seu único adereço de Dia das Bruxas era uma máscara que lembrava O fantasma da ópera. Fiquei tentada a perguntar se ele tinha mais uma daquelas para eu poder me trocar rápido e simplesmente ir de máscara.
Ele pulou da cadeira, com o olhar embevecido ao ver Jill em sua glória celestial azulada. Sinceramente, como ninguém conseguia ver o quanto ele era apaixonado por ela? Era dolorosamente óbvio. Ele a bebia com o olhar, como se estivesse prestes a desmaiar ali mesmo. Então, voltou-se para mim e esfregou os olhos. Sua expressão era mais estupefata que apaixonada.
— Eu sei, eu sei. — Já pude notar um padrão se formando naquela noite. — É vermelho. Nunca uso vermelho.
— Mas deveria — ele disse, repetindo as palavras de Jill. Ele alternou o olhar de mim para ela e então chacoalhou a cabeça. — É uma pena que somos “parentes”. Senão tiraria vocês para dançar. Mas, como a minha prima já quer sair comigo, acho melhor não provocarmos mais boatos.
— Coitada da Angeline — Jill disse, no caminho para o carro. — Ela queria tanto ir.
— É melhor assim. Alguém da administração da escola poderia vê-la — eu disse.
Eddie parou ao chegarmos ao Pingado.
— Posso dirigir? Sinto que eu preciso ser o chofer hoje. Vocês parecem da realeza. — Ele sorriu para Jill. — Quer dizer, você sempre é da realeza. — Em seguida, abriu uma das portas traseiras e chegou a fazer uma reverência. — Depois de você, milady. Estou aqui para servi-la.
O prático e estoico Eddie raramente brincava assim e pude ver que isso pegou Jill de surpresa.
— O... obrigada — ela disse, entrando no carro.
Ele a ajudou a colocar a cauda do vestido para dentro e ela o observou deslumbrada, como se nunca tivesse prestado atenção nele antes. Depois disso, não tive como negar seu pedido e lhe entreguei as chaves.
A festa de Dia das Bruxas aconteceria num salão muito bonito ao lado de um jardim botânico. Eu e Eddie tínhamos dado uma checada no lugar antes para verificar se era seguro. Micah encontraria Jill lá, mas por motivos diferentes dos de Brayden. Ônibus supervisionados estavam levando a maioria dos estudantes da escola para a festa. Estudantes mais velhos, como eu e Eddie, tinham permissão de ir com seu próprio carro e de levar seus parentes, como Jill. Tecnicamente, ninguém ficaria sabendo se ele a levasse para casa mais tarde, mas, por enquanto, ela só podia sair do campus de carona com a família.
— Espero estar pronta para isso — murmurei, ao pararmos no estacionamento.
O vestido havia me incomodado tanto que não tivera tempo de pensar na minha outra preocupação: a festa. Todas as minhas inseguranças sociais vieram à tona. O que eu iria fazer? O que era normal ali? Não havia tido coragem de perguntar a nenhum dos meus amigos.
— Vai ficar tudo bem — Eddie disse. — Seu namorado e Micah vão ficar de queixo caído.
— Esta é a terceira vez que ouço “seu namorado” — resmunguei, tirando o cinto de segurança. — O que está acontecendo? Por que ninguém consegue falar o nome do Brayden?
Nenhum dos dois respondeu imediatamente. Por fim, Jill disse, inocente:
— Porque a gente nunca lembra o nome dele.
— Ah, vai! Esperava isso de Adrian, mas não de vocês. Não é um nome tão estranho assim.
— Não — Eddie admitiu. — Mas alguma coisa nele é tão... Não sei dizer. Pouco memorável. Fico contente que ele faça você feliz, mas não consigo prestar atenção em nada que ele fala.
— Não acredito nisso — eu disse.
Brayden estava nos esperando na porta, sem dúvida havia pelo menos dez minutos. Senti um frio na barriga quando ele me olhou de cima a baixo. Não fez nenhum comentário, mas seus olhos se arregalaram um pouco.
Aquilo era bom ou ruim? Mostrei minha carteira de estudante para que pudéssemos entrar, e Jill quase imediatamente se juntou a Micah. O breve acesso romântico de Eddie desapareceu conforme ele assumia sua postura profissional. Uma expressão momentânea de sofrimento perpassou seu rosto, desaparecendo tão rapidamente quanto surgiu. Toquei no braço dele e perguntei, baixinho:
— Você vai ficar bem?
— Vou, sim — ele respondeu, com um sorriso. — Divirta-se.
Ele se afastou, desaparecendo na multidão de alunos, me deixando sozinha com Brayden. O silêncio caiu entre nós, o que não era raro. Às vezes levávamos alguns minutos para nos aquecermos e a conversa fluir.
— Então — ele disse, avançando mais pelo salão —, vocês têm um DJ. Estava curioso para saber se seria DJ ou banda.
— A escola acabou de ter uma experiência bem ruim com uma banda — disse, pensando em Angeline.
Brayden não pediu detalhes; em vez disso, ficou observando a decoração. Teias de aranha falsas e luzes pisca-pisca cobriam o teto. Esqueletos e bruxas de papel estavam dependurados na parede. Em uma mesa ao longe, alguns alunos se serviam do ponche em um imenso caldeirão de plástico.
— Incrível, né? — Brayden disse. — Como uma festa pagã celta se tornou um evento tão comercial.
Assenti.
— E um evento completamente laico. Quer dizer, tirando as tentativas de misturar com o Dia de Todos os Santos.
Ele sorriu. Sorri de volta. Estávamos seguros em território acadêmico conhecido.
— Quer experimentar o ponche? — perguntei.
Uma música agitada estava tocando e muitas pessoas se encaminhavam para a pista. Esse tipo de música não fazia muito meu estilo. Não sabia se Brayden gostava, e temia que ele quisesse se juntar aos outros.
— Claro — ele disse, parecendo aliviado por ter o que fazer. Algo me dizia que ele tinha ido a tantas festas quanto eu, ou seja, nenhuma.
O ponche nos deu a chance de discutir a diferença entre açúcares e adoçantes artificiais, mas eu não estava muito concentrada na conversa porque outra coisa me incomodava. Brayden não havia dito uma palavra sobre meu vestido, e isso me angustiava. Será que ele estava tão em choque quanto eu? Será que estava escondendo sua opinião? Eu não tinha o direito de esperar um elogio se eu mesma não fizesse um, então decidi me arriscar.
— Sua fantasia é ótima — comentei. — É de uma companhia de teatro, né?
— Sim. — Ele olhou para a túnica e alisou as dobras. — Não é completamente fiel, claro, mas serve.
A túnica ia até os joelhos e era presa por um alfinete em um dos ombros. Era feita de uma lã cor de creme, muito leve. Sobre a túnica usava uma capa de lã tingida de marrom-escuro, fiel à época. Mesmo com a capa, boa parte dos braços e do peito dele ficava exposta, mostrando um corpo de quem praticava corrida, levemente musculoso. Sempre o achei fofo, mas até aquele momento nunca havia pensado nele como sexy. Esperava que aquilo desencadeasse algum sentimento mais forte em mim, mas não foi o caso.
Ele estava esperando que eu dissesse alguma coisa.
— A minha também não é totalmente... fiel.
Brayden examinou o vestido vermelho de maneira inexpressiva.
— Não — ele concordou. — Não mesmo. Quer dizer, o corte não é assim tão diferente, acho. — Ele ficou pensando por mais alguns instantes. — Mesmo assim, acho que fica muito bonito em você.
Relaxei um pouco. Vindo dele, “muito bonito” era um grande elogio. Apesar de geralmente ser muito eloquente em quase todos os outros assuntos, ele economizava palavras em questões sentimentais. Eu não deveria ter esperado algo além de uma mera constatação dos fatos, então aquilo era grande coisa.
— Uau, Melbourne. Onde você se escondeu esse tempo todo? — Trey caminhou até nós e começou a encher seu copo com uma dose generosa do ponche verde fluorescente. — Você parece durona. E gostosa. — Ele lançou um olhar de desculpas para Brayden. — Não me entenda mal. Só estou jogando a real.
— Entendi — Brayden disse.
Mal pude conter o riso. Trey vinha se comportando de uma maneira estranha nos últimos dias e era bom vê-lo de volta ao normal.
Ele me lançou mais um olhar de admiração e então virou para Brayden.
— Ei, saca só. Nós dois viemos de toga. Toca aqui, romano! — ele exclamou, levantando a mão, mas Brayden o deixou no vácuo.
— Este é um quitão grego — Brayden explicou, paciente. Ele examinou a toga de Trey, que parecia ter sido feita em casa com um lençol. — Isso daí, hum, não.
— Gregos, romanos — Trey deu de ombros. — Qual a diferença?
Brayden abriu a boca e eu sabia que ele estava prestes a explicar exatamente a diferença. Me apressei em entrar na conversa.
— Fica bem em você — eu disse a Trey. — Parece que todas aquelas horas de treinamento estão dando resultado... e finalmente posso ver a tatuagem.
A túnica de Trey também era amarrada num dos ombros, mostrando parte das costas. Trey, assim como metade da escola, tinha uma tatuagem. Mas, ao contrário do resto, a dele não era uma das tatuagens sombrias e anabolizantes feitas com sangue de vampiro que haviam tomado conta do corpo estudantil. A de Trey era um sol com raios muito estilizados, feita com tinta comum de tatuagem azul-escura. Eddie havia me falado dela, mas eu nunca a vira antes, já que Trey não ficava sem camisa perto de mim.
Parte do entusiasmo de Trey diminuiu e ele se virou um pouco, mantendo as costas longe das nossas vistas.
— É bem suave comparada com a sua. É bom vê-la de novo, aliás.
Distraída, toquei a bochecha. Costumava cobrir o lírio dourado com maquiagem, mas imaginei que, ali no baile, poderia dizer que fazia parte da fantasia caso algum professor perguntasse.
Outra música agitada começou a tocar e Trey abriu um sorriso.
— Hora de exibir meus passos na pista. Vocês vêm? Ou vão ficar vigiando o ponche a noite toda?
— Não costumo dançar essas músicas — Brayden disse, fazendo-me relaxar, aliviada.
— Eu também não — concordei.
— Nossa, que surpresa — Trey ironizou, com um sorriso conformado antes de sair.
No fim das contas, Brayden e eu passamos boa parte da noite perto do ponche, continuando nossa discussão sobre as origens do Dia das Bruxas e a sujeição imposta a tantas outras festas pagãs. Alguns amigos passavam de vez em quando, e Kristin e Julia em particular não conseguiam parar de elogiar meu vestido. De quando em quando, avistava Eddie patrulhando a multidão, silencioso e discreto. Talvez devesse ter se fantasiado de fantasma. Quase todo o tempo, ele estava onde podia ver Jill e Micah, mas focar-se na função de guardião pareceu evitar que ele sofresse tanto.
Brayden e eu paramos de falar quando finalmente tocaram uma música lenta. Trocamos alguns olhares tensos, sabendo o que estava por vir.
— Certo — ele disse. — Não podemos evitar isso pra sempre.
Quase caí numa gargalhada, que Brayden respondeu com um sorriso tímido. Ele também tinha plena consciência da nossa inaptidão social. Por algum motivo, aquilo era reconfortante.
— É agora ou nunca — concordei.
Fomos para a pista de dança, junto a outros casais abraçados. Chamar o que a maioria deles fazia de “dança” era um pouco forçado. A maioria apenas balançava, com o corpo duro, de um lado para o outro, dando umas voltinhas pelo salão. Outros simplesmente aproveitavam a oportunidade para se agarrar e dar uns amassos. Os monitores eram rápidos em separá-los.
Segurei uma das mãos de Brayden e ele pousou a outra no meu quadril. Com exceção do beijo, aquele provavelmente era o contato mais íntimo que havíamos tido até então. Poucos centímetros nos distanciavam, e eu não pude deixar de me sentir oprimida com a redução dos limites do meu espaço pessoal. Precisei me lembrar de que gostava de Brayden e confiava nele, e de que não havia nada de estranho naquilo. Como sempre, não me sentia cercada por corações ou arco-íris, mas também não me sentia ameaçada. Tentando não pensar em nossa proximidade, prestei atenção na música e imediatamente entendi a contagem dos passos.
Cerca de um minuto depois, Brayden percebeu o que eu estava fazendo.
— Você... você sabe dançar — ele disse, abismado.
— Claro — respondi, levantando os olhos. Não estava exatamente deslizando numa grande valsa pelo salão, mas todos os meus movimentos eram sincronizados com as batidas da música. Não concebia outra maneira de dançar. Brayden, por sua vez, não diferia muito dos movimentos rígidos da maioria dos casais. — Não é difícil — acrescentei. — É um pouco matemático.
Depois que coloquei nesses termos, Brayden entrou no clima. Ele aprendeu rápido e passou a contar as batidas comigo. Logo parecia que tínhamos feito aulas de dança a vida toda. Mais surpreendente ainda foi quando, ao olhar para ele, esperando vê-lo contando, concentrado, vi que, na verdade, ele estava com uma expressão terna... carinhosa, até. Envergonhada, desviei o olhar.
Por incrível que pareça, ele ainda exalava aquele cheiro de café, mesmo sem ter trabalhado naquele dia. Supus que nenhum banho fosse suficiente para se livrar daquele aroma. No entanto, por mais que adorasse eau de café, me peguei pensando no cheiro da colônia de Adrian durante a aula de Wolfe.
Quando a próxima música agitada começou, Brayden e eu paramos um pouco, e ele saiu para falar com o DJ. Quando voltou, recusou-se a explicar a conversa misteriosa, mas parecia extremamente satisfeito consigo mesmo. Uma música lenta tocou em seguida e voltamos para a pista.
E, novamente, nossa conversa silenciou. Bastava dançar por um tempo. É assim que se leva uma vida comum, pensei. É isso que as pessoas da minha idade fazem. Sem grandes maquinações ou embates entre o bem e o...
— Sydney?
Jill estava atrás de mim, com o rosto apreensivo. Meus alarmes internos dispararam de imediato, tentando adivinhar o que a fizera sair tão rapidamente daquela atitude alegre e despreocupada de antes.
— O que houve? — perguntei.
Minha primeira reação foi temer que Adrian não estivesse bem e que ela sentira alguma coisa através do laço. Tentei afastar essa ideia. Precisava me preocupar com Moroi assassinos, não com o bem-estar dele.
Jill não disse nada; em vez disso, apenas apontou com a cabeça para a mesa do ponche, quase no mesmo local em que eu e Brayden estávamos havia pouco tempo. Trey tinha voltado para lá, e conversava alegremente com uma menina de máscara veneziana. Era uma máscara azul muito bonita, decorada com folhas e flores prateadas, que eu já vira em algum lugar. Jill tinha usado uma igual no desfile de Lia, que lhe dera a máscara de presente.
Também já tinha visto a roupa da menina mascarada — uma camiseta amarrotada e um short jeans rasgado...
— Ah, não — eu disse, reconhecendo o longo cabelo loiro-avermelhado. — Angeline. Como ela conseguiu entrar aqui? Bem, não importa. — Havia inúmeras pessoas com quem ela poderia entrar despercebida. E os monitores provavelmente nem a teriam notado no ônibus de excursão. — Precisamos tirá-la daqui. Se a pegarem, vão expulsá-la, sem dúvida.
— A máscara consegue esconder o rosto dela — Jill apontou. — Talvez ninguém note.
— A sra. Weathers vai notar — retruquei, suspirando. — Aquela mulher tem um sexto sentido pra... Ai. Tarde demais.
A sra. Weathers monitorava o outro lado do salão, mas seus olhos de águia não deixavam escapar nada. Do outro lado da tumultuada pista de dança, avistei-a seguindo em direção ao ponche. Não achava que já tivesse reconhecido Angeline, mas sua suspeita sem dúvida estava crescendo.
— Qual é o problema? — Brayden perguntou, alternando o olhar entre mim e Jill, ambas, sem dúvida, com a mesma expressão apreensiva.
— Nossa prima está prestes a entrar numa grande enrascada — respondi.
— Precisamos fazer alguma coisa — Jill disse, com os olhos inquietos e arregalados. — Precisamos tirá-la daqui.
— Como? — exclamei.
A sra. Weathers chegou à mesa de bebidas no mesmo instante em que Trey e Angeline saíram em direção à pista de dança. Ela estava começando a segui-los, mas não foi muito longe... porque o caldeirão de ponche explodiu de repente.
Bem, não o caldeirão em si. O ponche dentro dele explodiu, espalhando-se numa chuva espetacular de líquido verde-claro. Várias pessoas que estavam por perto gritaram quando os respingos caíram sobre elas, mas foi a sra. Weathers quem levou a pior.
Brayden recuperou o fôlego e disse:
— Como é que isso foi acontecer? Deve ter... Sydney?
Eu tinha dado um grito e um pulo para trás, sabendo exatamente o que havia feito o caldeirão explodir.
Brayden imaginou que minha reação fosse por medo de me machucar.
— Está tudo bem — ele disse. — Estamos muito longe para que algum caco chegue até aqui.
Na mesma hora, olhei para Jill, que deu de ombros levemente, como se dissesse: O que mais eu poderia fazer?
Minha reação normal à magia Moroi era de repulsa e medo. Naquela noite, porém, choque e consternação se juntaram a isso. Não podíamos atrair a atenção para nós. Tudo bem que ninguém sabia ou poderia imaginar que Jill usara sua magia de água para criar a distração do ponche, mas isso não importava. Não queria que nenhuma notícia sobre fenômenos estranhos ou inexplicáveis vazassem de Amberwood. Precisávamos permanecer fora do radar.
— Vocês estão bem? — Eddie aparecera ao nosso lado... ou melhor, ao lado de Jill. — O que aconteceu?
Ele sequer olhava para o ponche. Sua atenção estava totalmente voltada para Jill e, como da outra vez, ela realmente pareceu notar. Quem respondeu foi Brayden, com os olhos acesos pela curiosidade intelectual enquanto observava os professores correndo para tentar limpar a bagunça.
— Algum tipo de reação química, eu diria. Pode ser tão simples quanto refrigerante quente. Ou algum tipo de dispositivo mecânico, talvez?
— Alguém armou uma pegadinha — eu disse, com um olhar incisivo para Eddie. — Qualquer um pode ter feito isso.
Eddie olhou para mim e então para Jill. Acenou lentamente com a cabeça.
— Entendi. Melhor tirar você daqui — ele disse a Jill. — Nunca se sabe o que...
— Não, não — intervi. — Tire Angeline daqui.
— Angeline? — O rosto do Eddie parecia incrédulo. — Mas como...?
Apontei para onde ela estava com Trey na pista de dança. Assim como muitos outros, eles olhavam assombrados para o resultado da explosão do ponche.
— Não sei como ela conseguiu chegar aqui — eu disse —, mas isso não tem importância agora. Ela precisa ir. A sra. Weathers quase a pegou.
Um brilho de compreensão perpassou os olhos de Eddie.
— Mas o ponche a distraiu?
— Exatamente.
Sua atenção voltou-se para Jill e ele sorriu.
— Bem a tempo.
Ela retribuiu o sorriso.
— Acho que tivemos sorte desta vez.
Seus olhares se entrelaçaram, e quase senti remorso ao interromper.
— Vá — eu disse a Eddie. — Leve Angeline.
Ele deu uma última olhada em Jill e em seguida partiu para a ação. Não pude ouvir a conversa entre ele, Trey e Angeline, mas pela expressão em seu rosto ele não aceitaria nenhum argumento. Pude ver que Trey cedeu à autoridade familiar e, depois de discutir mais um pouco, Angeline acabou cedendo também.
Rapidamente, Eddie a levou para fora e, para o meu alívio, nem a sra. Weathers nem ninguém pareceu notar.
— Jill — eu disse. — Talvez seja melhor você e Micah irem embora logo também. Não precisa ser já... mas quanto antes, melhor.
Jill assentiu, chateada.
— Eu entendo.
Mesmo que ninguém pudesse associar aquilo a Jill, seria melhor ela não estar por perto. Algumas pessoas já se agrupavam em torno da mesa, tentando, como Brayden, entender o que poderia ter causado aquele estranho fenômeno. Ela desapareceu na multidão. Por fim, Brayden desviou os olhos da confusão. Ele estava prestes a me dizer algo, quando de repente voltou a cabeça para o DJ.
— Ah, não — ele disse, pesaroso.
— Quê? — perguntei, preparando-me para ver o equipamento do DJ caindo em cima de alguém ou alguma caixa de som pegando fogo.
— Esta música. Eu pedi pra você... mas já está quase terminando.
Inclinei a cabeça para ouvir. Não conhecia a música, mas era lenta e romântica, e me fez sentir... bem, um pouco culpada. Quando finalmente Brayden fazia um gesto sentimental, ele acabava arruinado pelas loucuras da minha “família”. Segurei a mão dele.
— Mas ainda não terminou. Vem.
Conseguimos dançar ao som do último minuto da música, mas Brayden ficou visivelmente desapontado. Queria compensá-lo e, apesar de tudo o que havia acontecido, viver a experiência de uma festa normal de escola.
— A noite é uma criança — provoquei. — Vou pedir uma para você também, e aí você pode tentar adivinhar qual é quando tocar.
Como eu não costumava ouvir rádio, imaginei que não seria muito difícil adivinhar. Fiz o pedido e então continuei a dançar outra música lenta com ele. Ainda estava um pouco preocupada com o que havia acontecido, mas repeti a mim mesma que agora estava tudo bem. Jill tinha ido embora. Eddie tinha tomado conta de Angeline. Tudo que eu queria era relaxar e...
No meio da dança, fui pega de surpresa por uma vibração. Estava usando uma bolsa vermelha, perdida nas dobras do meu vestido, mas o som de mensagem do meu celular era inconfundível. Pedi desculpas a Brayden e parei de dançar para verificar. Era de Adrian: A gente precisa conversar.
Ótimo, pensei, sentindo o coração afundar. Será que esta noite pode virar um desastre ainda pior?
Respondi: Estou ocupada.
A resposta dele: Vai ser rápido. Tô perto daí.
Uma sensação de pavor tomou conta de mim: Perto, onde?
A resposta foi quase tão ruim quanto eu esperava: No estacionamento.

Um comentário:

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