23 de outubro de 2017

Capítulo 12

Adrian

TINHAM PASSADO SÓ ALGUMAS SEMANAS, mas parecia fazer meses que eu estava longe de Palm Springs. Não fazia ideia do que esperar quando entrasse no apartamento e me perguntei se daria de cara com Angeline morando com Trey. Mas não devia ter cogitado isso. Apesar da pose, Trey se comportava quando o assunto era importante, e o encontrei sentado na sala cercado de livros. A cena me lembrou tanto de Sydney que, por um momento, as emoções ameaçaram me dominar. Então minha nova resolução reassumiu o controle e deixei esses sentimentos de lado.
Trey levantou a cabeça, olhando pra mim e pra mala.
— Voltou, é? Como foram as férias?
— Esclarecedoras — eu disse. — Tenho uma pista sobre Sydney. Está todo mundo a caminho.
Ele arregalou os olhos.
— Como assim?
Não tive tempo de responder porque já estava no corredor, rumo a meu antigo quarto. Ao entrar, vi que Trey havia se acomodado lá, o que era seu direito, considerando minha partida abrupta. Dei de ombros, levei a mala de volta para a sala e a joguei num canto. Um lugar no sofá seria o bastante por enquanto — se é que fosse ficar naquela casa. Não sabia aonde a busca por Sydney me levaria nem quanto tempo passaria em Palm Springs.
Dez minutos depois, uma batida na porta anunciou a chegada de Jill, Eddie, Angeline e Neil. Todos me abraçaram, incluindo o estoico Neil, mas foi Jill quem me apertou por mais tempo.
— Estava tão preocupada com você — ela disse, erguendo os olhos reluzentes. — As coisas na Corte estavam tão malucas... e só consegui acompanhar metade delas...
— E agora chegaram ao fim — eu disse, com firmeza. — a gente tem uma pista sobre o paradeiro de Sydney.
— Foi o que você disse — Trey comentou. — Mas não elaborou.
— Isso é porque eu... — Antes que pudesse terminar, houve outra batida na porta. Abri e convidei Marcus para entrar. Estava tão feliz por vê-lo que o surpreendi com um abraço também. — Bem na hora — eu disse.
Marcus tinha sido o mais difícil de encontrar. Eu havia ligado para ele assim que comprara a passagem e fora um alívio descobrir que ainda estava na Califórnia, em seu antigo quartel-general em Santa Barbara. Quando contei o que havia descoberto, ele prometeu voltar e me encontrar assim que eu chegasse. Era fim de tarde e o dia tinha sido consumido pela viagem, mas me sentia estranhamente energizado. Era isso. Ali estávamos, as pessoas que amavam Sydney, reunidos e prontos para encontrá-la.
— Agora pode contar o que está rolando? — Trey perguntou, depois que todos sentaram num círculo na sala. — Cadê a Sydney? Ela está bem?
— Não sei e não sei — admiti. — Quer dizer, estava bem o suficiente pra conversar comigo num sonho, mas não quis falar muito sobre o que acontece naquele lugar. Mas parecia a mesma.
Marcus concordou com a cabeça.
— Ela tem força de vontade. Vai conseguir superar muita coisa. O problema é que, se essa força de vontade ficar muito óbvia, eles vão tentar fazer algo a respeito. Ela precisa tomar cuidado.
— Ela sempre tomou — eu disse, pensando no tempo de Sydney em Palm Springs, quando enfrentara dificuldades para conciliar sua amizade com o nosso grupo com a doutrina que haviam enfiado na cabeça dela. Finalmente escolhera um lado e, agora, estava pagando por isso. — Ela também não sabe onde está, mas sabe que Keith esteve no mesmo lugar, então ele virou nossa maior pista.
— Uma pista muito difícil de encontrar — disse Marcus. Ele se recostou no sofá e suspirou. — Só consegui fazer algumas ligações por enquanto, mas ele está mais escondido do que o normal. Os alquimistas vigiam seus agentes “reformados” muito bem e não querem que eles fiquem muito expostos. Ele deve estar isolado em algum escritório.
Uma nuvem escura de desolação surgiu dentro de mim, mas a ignorei.
— Mas você pode continuar procurando.
— Sim, claro — disse Marcus. — Também perguntei para alguns dos meus contatos que estiveram na reeducação se eles se lembram de algum detalhe sobre quando saíram, mas até agora nada. A maioria esteve lá faz muito tempo. Keith é o mais recente, então, com sorte, a memória dele está mais fresca. Pedi para as minhas fontes procurarem por ele. Pode aparecer alguma coisa nos próximos dias. Mas... enquanto isso, tenho uma pista que pode dar resultados mais cedo. Sei onde Carly Sage está.
Eddie franziu a testa.
— Acha que ela sabe o paradeiro de Sydney? Quer dizer, não sei muito sobre ela, mas pensei que ficasse afastada dos assuntos alquimistas.
— E fica — eu disse, adivinhando aonde Marcus queria chegar. — Mas Keith tem uma, erm, relação com ela. — Eu tinha contado a Marcus sobre a mensagem que Sydney vira, em que Keith pedia desculpas a Carly. Não tinha revelado os detalhes sórdidos do passado deles, apenas que ele tinha sido bem terrível com ela. — Acha que ele pode ter entrado em contato com ela?
— Pra ser sincero, não sei — Marcus respondeu. — Não conheço nenhum dos dois. Mas sei que aquele lugar mexe com a culpa e a autoestima das pessoas. Se Keith acha que fez mal pra ela, pode ter entrado em contato depois que saiu.
— Teria sido a primeira coisa decente que ele fez na vida — Jill murmurou, sombria. Através do laço, ela sabia o que ele tinha feito com Carly.
— Imaginei que não faria mal verificar — Marcus disse. — Ainda mais porque a gente vai ter que esperar pra descobrir alguma coisa em relação a Keith. Ela está bem perto. Frequenta a Universidade Estatal do Arizona. — Ele me abriu um meio sorriso. — Topa uma viagem de carro?
— Claro. A gente pode sair agora. — Estava quase levantando, mas ele fez sinal para eu ficar sentado.
— Prefiro ir amanhã de manhã. Vai estar mais claro e você pode falar com Sydney hoje à noite. Vê se consegue tirar alguma coisa dela que possamos usar pra convencer Carly a confiar na gente. Imagino que, se dois estranhos aparecem pra perguntar sobre a sua irmã e a organização secreta que sua família jurou proteger, ninguém seria muito receptivo.
Relaxei um pouco.
— Bem pensado. E, contanto que ela não esteja mais drogada por nenhum gás, a gente deve estar em sincronia agora. Considerando a hora em que ela acordou, está neste fuso-horário. Mas posso estar errado. Vai saber em que horário aqueles malucos a estão mantendo?
— Provavelmente um horário humano normal, mesmo se estiverem no subterrâneo. — Marcus revirou os olhos. — Deus os livre de fazer qualquer coisa remotamente vampírica.
Neil se debruçou.
— Espere um pouco. Você disse gás?
Agora que tínhamos um plano para encontrar Carly Sage, consegui me acalmar um pouco e contar aos outros o que sabia. Meu sonho com Sydney fora curto, mas dei todos os detalhes que tinha obtido, incluindo o fato de ela ter sido drogada e as vagas referências dela às punições.
Angeline pousou a cabeça no ombro de Trey.
— É melhor que não estejam machucando Sydney. Senão vou machucar todos eles quando a gente tirar ela de lá.
— “A gente”? — Marcus disse, com um sorriso.
Eddie estava com uma expressão feroz que me fez lembrar de Dimitri.
— Não acham que vamos deixar vocês dois fazerem tudo sozinhos, acham?
Contive um sorriso.
— Acho que o ano letivo ainda não acabou e que a prioridade de vocês é a Belezinha.
— Só por mais uma semana — Jill disse. — E já estamos terminando as provas finais. Vocês deviam levar um dos dampiros. Dois, na verdade. Angeline pode ficar aqui comigo.
— Ei — Angeline exclamou. — Por que eu não posso acabar com os alquimistas?
— Porque é a única que ainda não terminou o ensino médio de verdade — Eddie disse.
— Mas todos vocês foram nomeados pra proteger Jill — lembrei. — E vão ficar com ela, pelo menos por enquanto. Marcus e eu não precisamos de guarda-costas pra visitar uns universitários baladeiros.
Eddie parecia em conflito.
— Mas e depois? Quando descobrirem o paradeiro de Sydney? — Eu sabia o que o estava atormentando. Ele estava dividido. Sua missão e seu coração estavam com Jill. Mas Sydney também era sua amiga e ele ainda se sentia culpado por ter deixado que a levassem.
— Ainda não sabemos quando isso vai acontecer. Até lá as aulas podem ter acabado e todo mundo talvez esteja de volta na Corte. — Dei um tapinha no ombro dele. — Deixa que a gente cuida de Carly, e de Keith também. Quando passarmos pra próxima fase... bom, daí a gente vê o que faz.
Eddie não pareceu muito satisfeito, mas a verdade era que não ficaria satisfeito com nenhuma decisão. Se viajasse com a gente no dia seguinte, ficaria se corroendo de culpa por abandonar Jill. Nenhuma opção seria fácil para ele.
Marcus foi embora logo, assim que fizemos os planos para a viagem até Tempe. Os outros ficaram em casa, querendo saber o que havia de novo e contar o que acontecera nas últimas semanas. Escondi os detalhes sobre minha vida desregulada na Corte, com vergonha de deixar que soubessem que eu quase perdera Sydney. Só Jill sabia a verdade, e ela nunca me entregaria. No entanto, me entregou outra coisa.
— Ah, Trey — ela disse, com o olhar travesso. — Acho que devia entregar aquela carta importante pro Adrian.
Um sorriso igualmente travesso surgiu no rosto de Trey, que levantou de um salto e foi correndo até a cozinha. Ao voltar, me entregou um envelope aberto. Era da Faculdade Carlton, endereçado a mim.
— Você abriu minha correspondência? — exclamei.
— Eu disse que podia — Jill falou, como se tivesse algum tipo de autorização para isso. — Dê uma olhada.
Sem entender, tirei uma folha do envelope e me peguei olhando para o meu primeiro boletim universitário. Ainda mais incrível foi ver que tinha passado em todas as matérias. C, C− e B−. Essa última me fez erguer a sobrancelha.
— Como fui tirar B− em pintura a óleo? O que vocês entregaram como trabalho final? — perguntei, incrédulo.
— Fui eu que escolhi — Trey disse, orgulhoso. — Era uma tela alta que você tinha deixado num canto, uma nuvem estranha, roxa e amarela.
Senti um nó na garganta.
— A aura de Sydney — murmurei. Guardei o boletim e dei um abraço em Jill e Trey. — Vocês me salvaram. Não teria passado sem vocês dois.
— Você se salvou — Jill murmurou ao meu ouvido. — E agora vai salvar Sydney.
Ela e os outros foram embora pouco tempo depois, pois o toque de recolher de Amberwood estava se aproximando. Neil esperou todos saírem e ficou para falar comigo.
— Adrian — disse, sem conseguir me olhar nos olhos —, por acaso Olive estava na Corte?
Eu me solidarizava com todos os apaixonados e entendia a dor dele.
— Não, mas Charlotte estava. Olive também não está falando com ela, mas Charlotte a visita em sonhos, e Olive está bem. Ela só quer um tempo sozinha pra pensar em tudo o que aconteceu. Não deve ser fácil voltar depois de ter sido Strigoi.
Os traços angulares de Neil se encheram de alívio.
— Jura? Isso é ótimo. Quer dizer... não é ótimo que ela ande perturbada, mas achei que tinha alguma coisa a ver comigo. A gente tinha se dado tão bem, ficado em contato... e de repente ela desapareceu.
— Não — eu o tranquilizei. — Charlotte contou que Olive se distanciou de todo mundo. Dê um tempo para ela. Vai passar. Pelo pouco que vi, ela parecia louquinha por você.
Neil ficou vermelho e, rindo, o mandei embora junto com os demais. Trey voltou à lição de casa e comecei as buscas regulares por Sydney. Em certo momento, Trey ofereceu devolver meu quarto, mas respondi que, como ficaria viajando, era melhor que ele estivesse descansado para as provas e suas perspectivas de conseguir uma bolsa universitária.
Algum tempo depois, ele me deixou sozinho na sala e, por volta da meia-noite, finalmente estabeleci contato com Sydney. Nos encontramos na Getty Villa e a envolvi nos braços, sem perceber até então como estivera com medo de que o encontro da noite anterior tivesse sido um acaso feliz.
— Antes que comece a te beijar e perca toda a razão, me diga há quanto tempo está dormindo.
Ela encostou a cabeça no meu peito.
— Não sei. Menos de uma hora.
— Hum. — Coloquei seu cabelo lindo atrás da orelha enquanto fazia os cálculos. — Achei que estivesse no fuso-horário do Pacífico, com base na hora em que acordou. Eram mais ou menos umas cinco aqui. Mas isso não dá muitas horas de sono. Seis. Sete no máximo.
— Na verdade, é perfeito pra eles — ela disse. — É uma das coisas que fazem para nos deixar com os nervos à flor da pele. A gente dorme o bastante pra conseguir fazer as coisas, mas nunca se sente muito descansado. Isso nos deixa agitados, mais suscetíveis ao que eles fazem e falam.
Quase deixei o comentário passar, mas sua escolha de palavras me preocupou.
— O que quer dizer com “uma das coisas”? — perguntei. — O que mais eles fazem?
— Não importa — ela disse. — Temos outras...
— Importa sim — insisti, me aproximando dela. Havia tentado abordar esse assunto antes e ela ficava fugindo. — Você mesma disse que esse lugar enlouqueceu Keith e vejo como Marcus fica sempre que fala da reeducação.
— Um pouco de privação de sono não é nada — ela disse, ainda sem responder o que eu queria.
— O que mais eles estão fazendo? — perguntei.
Uma chama se acendeu em seus olhos.
— O que faria se eu contasse? Isso te faria se esforçar mais pra me encontrar?
— Já estou...
— Pois é — ela me interrompeu. — Não aumente suas preocupações, ainda mais porque nosso tempo já é curto.
Ficamos nesse impasse por alguns segundos tensos. Quase nunca brigávamos antes de ela ser levada, e era ainda mais estranho fazer isso agora, considerando tudo o que havia acontecido. Não achava que o que ela estava sofrendo na reeducação “não importava”, mas odiava vê-la tão nervosa. Ela também tinha razão sobre a questão do tempo, então, relutante, acabei aceitando e mudei de assunto, contando para ela sobre meu plano de visitar Carly com Marcus.
— Não é má ideia. Mesmo se Keith não tiver falado com ela, Carly faz parte de uma família alquimista e pode descobrir coisas pra vocês. — Sydney ainda estava me segurando e, embora eu não visse mal nenhum nisso, não pude deixar de notar a angústia que irradiava dela, como se estivesse literalmente com medo de me soltar. Seu rosto demonstrava coragem, mas aqueles cretinos deviam ter feito alguma coisa com ela e eu os odiava por isso. Eu a abracei mais forte.
— Tem alguma coisa que possamos falar que a faça acreditar que conversamos com você? — perguntei.
Sydney pensou por alguns segundos e então sorriu.
— Pergunte se a faculdade não mudou sua decisão de seguir a filosofia de vida de Cícero.
— Certo — eu disse. Aquilo não fez o menor sentido para mim, mas não importava.
— E pergunte... — O sorriso de Sydney se fechou. — Pergunte se ela sabe como Zoe está. Se ela está bem.
— Pergunto — prometi, admirado por Sydney se importar tanto com a irmã que a traíra. — Mas e você? Não tem nada que possa me contar sobre a vida nesse lugar? Me preocupo com você.
O nervosismo dela cresceu e fiquei com medo de que voltasse a ficar irritada, mas, aparentemente, ela achou melhor me contar alguma coisa.
— Estou bem... mesmo. E posso ter ajudado uma pessoa. Dei um jeito de fazer aquela tinta de sal mágica e proteger uma pessoa do controle mental dos alquimistas.
Me afastei um pouco para olhar em seus olhos.
— Você usou magia na reeducação? Não estava falando que se mete em problemas quando sai da linha?
— Não fui pega — ela disse, incisiva. — E realmente ajudei essa pessoa.
Eu a abracei de novo.
— Se preocupe em ajudar você mesma.
— Parece o Duncan falando.
— Duncan? — perguntei, com ciúmes.
Ela sorriu.
— Não precisa se preocupar. É só um amigo que vive dizendo pra eu me manter longe de encrenca. Mas não consigo evitar. Se puder ajudar essas pessoas, sei que vou.
Eu estava prestes a lembrá-la das muitas conversas que tivemos sobre meu uso do espírito, pois eu sempre insistia que o risco valia a pena para poder ajudar outras pessoas. Sydney sempre argumentava que eu precisava cuidar de mim mesmo em primeiro lugar, porque, senão, não conseguiria ajudar ninguém.
Mas não tive chance de dar um sermão porque, subitamente, ela me puxou para perto, me abraçando mais forte e me beijando intensamente. Um calor inundou meu corpo, junto com um desejo que era tão forte e real quanto o que eu sentiria acordado. Ela passou os lábios pela minha bochecha e desceu até meu pescoço, me dando um rápido instante para murmurar:
— Não é justo, você está me distraindo.
— Quer que eu pare? — ela perguntou.
Não precisei pensar para responder.
— Claro que não.
Nossos lábios voltaram a se encontrar em um beijo ávido e quase não tive concentração suficiente para mudar o ambiente do pátio ensolarado para um quarto numa pousada nas montanhas. Sydney parou novamente e riu baixinho ao reconhecer o cenário.
— Ah, quantas lembranças... — ela murmurou. — Nossa primeira vez. Você até recriou a neve lá fora.
Eu a guiei para a cama suntuosa.
— Ei, Adrian Ivashkov faz o serviço completo.
— Ou meu dinheiro de volta?
— Isso já não sei — eu disse. — Ninguém nunca se decepcionou.
A risada dela se dissolveu em mais um beijo e, com um último retoque no sonho, transformei seu uniforme cáqui num lindo vestido vermelho em que a vira certa vez. Sua beleza me deixou tão impressionado quanto naquela ocasião, e passei os dedos pela sua cintura, pousando a mão na curva do seu quadril. As mãos dela, que estavam atrás do meu pescoço, desceram e arrancaram minha camiseta com uma ousadia de que eu nunca a teria imaginado capaz quando nos conhecemos. O toque de seus dedos no meu peito era delicado mas, ao mesmo tempo, revelava uma força e uma urgência que me causavam arrepios. Algo me dizia que a paixão que ardia dentro dela agora era movida por algo além da atração que sempre existira entre nós; havia uma ânsia ali, uma ânsia causada pelos meses de desespero e isolamento. Inclinei sua cabeça para trás para beijar melhor seu pescoço, entrelaçando a mão no seu cabelo. Ela soltou um gemido de prazer e espanto quando passei os dentes pela sua pele, tomando cuidado para não fazer nada além de atiçar seu desejo.
Devagar, para provocá-la, fui subindo a mão que estava em seu quadril, adorando a forma como ela reagia ao meu toque. Finalmente, encontrei o zíper do vestido e tentei descê-lo, mas isso se provou mais difícil do que eu imaginava com uma mão só.
Ela abriu os olhos cheios de desejo e deu um sorriso.
— Você podia simplesmente fazer o vestido desaparecer.
— Qual seria a graça? — retruquei, me sentindo confiante quando consegui puxar o zíper. Comecei a tirar o vestido.
— Ai, Adrian — ela murmurou. — Você não faz ideia de como...
Não precisei perguntar o que a interrompeu. Soube pela maneira como ela ia perdendo substância sob as minhas mãos: ela estava sendo acordada.
— Não vá — pedi, inutilmente. Era menos pela satisfação física do que por um medo profundo que não conseguia expressar: tenho medo de que, se você for embora, nunca te veja de novo. Seu rosto, porém, mostrava que ela entendia o que eu estava sentindo.
— Logo a gente vai estar junto. No mundo real. O centro vai aguentar. — Ela estava ficando translúcida diante dos meus olhos. — Durma um pouco. Procure Carly e Keith.
— Sim. E depois vou te encontrar, prometo.
Ela já estava sumindo, mas conseguir ver lágrimas brilhando em seus olhos.
— Sei que vai. Acredito em você. Sempre acreditei.
— Eu te amo.
— Também te amo.
Ela desapareceu.
Acordei no sofá, sentindo um vazio e uma insatisfação causados por mais do que desejo físico. Eu precisava do coração e da mente de Sydney tanto quanto de seu corpo. Precisava dela. A saudade era uma dor profunda no meu peito enquanto eu caía no sono. Apertei os braços em volta do corpo, fingindo que era Sydney que eu abraçava.
Marcus apareceu cedo na manhã seguinte, e começamos bem nossa viagem... exceto por um detalhe. Tivemos um pequeno desentendimento sobre em qual carro ir.
— O seu deve ser roubado — eu disse.
Ele revirou os olhos.
— Não é roubado. E é um Prius.
— Mais um motivo pra não ir nele.
— A gente consegue chegar a Tempe sem parar pra abastecer, ao contrário do seu.
— Vale a pena parar mais vezes pra ir com estilo — retruquei.
— Vale a pena demorar mais pra conseguir respostas que podem ajudar Sydney? — Eu não tinha como discutir com isso, e ele sabia.
— Tá bom — resmunguei. — Vamos com seu carro feio que economiza combustível.
Apesar do nosso passado complicado — eu tentara bater nele logo que a gente se conheceu —, Marcus e eu tivemos uma viagem tranquila até a Universidade Estatal do Arizona. Ele não tentou puxar conversa ao longo do trajeto, o que funcionava para mim. Todos meus pensamentos estavam voltados para Sydney. Vez ou outra, ele atendia ligações de seus contatos, que lhe davam pistas sobre seus negócios clandestinos. Algumas eram sobre Sydney e Keith; outras sobre pessoas e missões que pareciam muito importantes ouvindo apenas um lado da conversa.
— Tem um monte de coisa rolando na sua vida — comentei, enquanto a gente atravessava a fronteira do Arizona. — Agradeço por ter arranjado tempo pra ajudar Sydney. Parece que ela não é a única contando com você.
Ele sorriu.
— Sydney é especial. Acho que ela nem sabe quanta gente ajudou com a tinta. É muito importante para essas pessoas saber que os alquimistas não podem corromper a mente delas, pelo menos não com tatuagens. É meu dever ajudar Sydney por causa disso. Além disso...
— Além disso o quê? — perguntei, vendo sua expressão ficar mais séria.
— Sempre que alguém faz alguma coisa incrível, como ela fez, e é pega, como ela foi, acho que poderia ter sido eu. Quando as pessoas me ajudam, parece que estão cumprindo a pena que eu deveria estar cumprindo.
— Não é assim que Sydney vê as coisas — eu disse, lembrando dos planos malucos dela para ajudar os colegas de prisão. — Ela tem prazer em ajudar; acha que vale a pena correr o risco.
— Eu sei — ele disse. — E isso me dá mais prazer ainda em ajudá-la também.
Chegamos à universidade no meio da tarde. Era o auge do dia acadêmico, mas os cursos de verão estavam no fim, então os grupos no campus eram mais esparsos do que em outras épocas do ano. Os espiões de Marcus tinham dito que Carly frequentava as aulas o ano todo e estava no alojamento misto. Ninguém questionou nossa presença ali durante o dia, e conseguimos ir direto para a porta dela, que estava coberta por pôsteres de bandas e passeatas. Depois de conhecer Zoe, eu não conseguia nem imaginar como era a terceira irmã Sage, embora tivesse uma vaga ideia de uma pessoa calma e pacata, com base no que sabia sobre como Carly tinha se recusado a denunciar Keith ou deixar que Sydney o denunciasse.
A menina que atendeu a porta, porém, não era como eu esperava. Era alta e atlética, com um corte de cabelo curto e um pequeno piercing vermelho-escuro no nariz. Mas seu cabelo e seus olhos eram da mesma cor dos de Sydney, e havia uma familiaridade que deixou claro que tínhamos encontrado a pessoa certa. Ela abriu a porta com um sorriso simpático que se desfez assim que olhou direito para mim. Podia não ser a alquimista da família, mas reconhecia um Moroi quando via um.
— Seja o que for, não quero me envolver — ela disse.
— É sobre Sydney — Marcus disse.
— Ela mandou perguntar se a faculdade fez você querer seguir a filosofia de vida de Cícero — acrescentei.
Ao ouvir isso, Carly arqueou a sobrancelha e, depois de um instante, soltou um suspiro e abriu a porta para nos receber. Duas outras garotas, que pareciam ser calouras, estavam sentadas no chão, e Carly se voltou para elas.
— Ei, desculpem mas tenho que resolver uma coisa. A gente pode terminar hoje à noite?
Enquanto as meninas levantavam e se despediam, Marcus chegou perto de mim e murmurou:
— Tem certeza de que falou certo a senha de Sydney? Cícero era mais um estadista do que um filósofo. Não que não tivesse bons momentos, mas...
Encolhi os ombros.
— Foi o que ela mandou dizer. E Carly deixou a gente entrar, não deixou?
Depois que as garotas saíram, Carly sentou na beira da cama e fez um sinal para sentarmos no chão.
— Certo. Então, a que devo o prazer da visita de um Moroi e de um rapaz que não é alquimista mas que tem uma tatuagem num lugar muito suspeito?
— Precisamos da sua ajuda pra encontrar Sydney — eu disse, sem perder tempo.
Carly inclinou a cabeça, surpresa.
— Ela está desaparecida?
Marcus e eu trocamos um olhar.
— Você ouviu notícias dela recentemente? — ele perguntou.
— Não... faz um tempo que não, pra ser sincera. Mas isso não é novidade. Meu pai ficava sumido também. Faz parte do trabalho. Ele falou que ela anda envolvida em alguma coisa ultrassecreta. — Como nem eu nem Marcus respondemos, ela olhou de mim para ele. — Isso não é verdade? Ela está bem?
— Ela está bem — Marcus respondeu lentamente. Pude ver que ele estava escolhendo as palavras com cuidado. — Mas não está numa missão. Ela se meteu em encrenca e a gente está tentando encontrá-la antes que os problemas dela piorem.
Carly lançou um olhar incisivo para ele.
— Não me venha com eufemismos. Sei o que significa se meter em encrenca com os alquimistas. Eles prenderam Sydney em algum lugar, certo? Como fizeram com Keith?
— Você conversou com ele? — perguntei. — Pessoalmente?
O rosto dela se encheu de repugnância.
— Pessoalmente e por e-mail. Ele apareceu do nada, como vocês, em março, cheio de histórias tristes sobre como estava arrependido e precisava do meu perdão pra seguir em frente, e como eu devia denunciá-lo para as autoridades.
— Espere — eu disse. — Keith falou pra você fazer a denúncia? E você fez?
— Não. — Ela cruzou os braços e assumiu uma expressão triunfante que não combinava com o assunto. — Ele estava quase implorando. Estava morrendo de medo de ser mandado de volta para a custódia dos alquimistas e parecia acreditar que estaria mais seguro numa prisão normal. Então eu disse que não. Agora ele pode viver com medo constante, como eu vivia.
Era uma lógica estranha e distorcida, e não soube bem como responder. Marcus pareceu perplexo e lembrei que ele não sabia da história toda.
— Ela e Keith tiveram um, erm, desentendimento — eu disse, tentando não entrar em detalhes.
Carly olhou Marcus diretamente nos olhos.
— Keith me estuprou num encontro e me fez acreditar que a culpa era minha e que, se eu contasse a alguém, eles também me culpariam. Fiquei convencida disso e deixei essa ideia me consumir por dentro. A única pessoa pra quem contei foi Sydney e só sob a condição de que ela não contasse pra ninguém. Demorei anos pra perceber como tinha sido idiota. Agora, ajudo outras garotas a não passar por isso. — Ela apontou para outros pôsteres na parede e só então me dei conta de que eram todos de campanha contra estupro. — Se puder impedir que uma única pessoa passe por esse tipo de vergonha e humilhação... bom, vou ter cumprido meu objetivo na vida.
Marcus, que não se surpreendia fácil, parecia completamente admirado ao olhar para ela. Eu já tinha visto dezenas de garotas caírem de amor por ele, mas essa era a primeira vez que o via babando por uma.
— É incrível o que você está fazendo — ele falou. — E muito corajoso.
Por mais divertido que fosse vê-lo encantado por ela, não podíamos perder o fio da meada. Estalei os dedos na frente do rosto dele.
— Foco. — Me voltei para Carly. — Mesmo assim não vai denunciar Keith agora?
Ela balançou a cabeça.
— Parece loucura, eu sei, mas ele sofre mais do jeito que as coisas estão. Ele queria que eu fizesse a denúncia. Quase chorou quando me recusei. Mas não me importo com ele. Quero saber de Sydney. Me diga o que posso fazer pra ajudar a tirá-la das mãos daqueles cretinos.
— Você pode nos ajudar a encontrar Keith? — perguntei.
— Posso fazer mais do que isso — ela respondeu, tirando o celular do bolso. Ela passou o dedo pela tela algumas vezes e o mostrou para mim. — Isso ajuda?
Peguei o celular e vi o nome de Keith, junto com um número de telefone e um endereço em Boise, Idaho.
— Boise? — perguntei. — Ele já não sofreu o suficiente?
Marcus leu por cima do meu ombro e abriu um sorriso largo.
— Tem um centro de pesquisas alquimistas lá. É exatamente o tipo de lugar onde esperava encontrá-lo: uma função burocrática, sem trabalho de campo ou situações perigosas. Tem certeza de que ele ainda está lá?
Carly revirou os olhos.
— Absoluta. Ele me manda e-mails quase todo mês, pedindo perdão e me falando pra entrar em contato caso mude de ideia. Tenho certeza de que, se tivesse se mudado, teria me avisado mais de cem vezes.
Marcus copiou as informações no celular dele e devolveu o dela.
— Acho que a gente não devia avisá-lo antes de aparecer lá. Topa outra viagem de carro?
Geografia não era meu forte, mas até eu sabia que seria um trajeto muito maior do que o que tínhamos acabado de percorrer.
— Desde que a gente faça um estoque de lanchinhos antes.
— Encontrar Keith pode ajudar mesmo Sydney? — Carly perguntou, com o rosto grave.
A expressão de Marcus se suavizou, mas não dava para saber se era porque gostava dela ou porque tinha más notícias.
— Não temos certeza, mas esperamos que sim. Acreditamos que Keith ficou no mesmo lugar onde Sydney está agora. Se conseguirmos descobrir onde é, podemos ir atrás dela.
Carly empalideceu.
— O mesmo lugar... você quer dizer o mesmo lugar que é tão horrível que Keith prefere ir pra cadeia a correr o risco de voltar pra lá?
— A gente vai trazer Sydney de volta — Marcus disse, galante. — Eu juro.
— Quero ajudar — ela insistiu.
— Você já ajudou. — Ele mostrou o celular. — Esse endereço pode ser a chave de tudo. Não precisa se arriscar mais.
Carly levantou com um salto, os punhos cerrados em resistência. A semelhança entre ela e Sydney de repente ficou óbvia.
— Ela é minha irmã! Claro que preciso me arriscar. Vocês acham que ela faria menos por mim?
Senti um nó na garganta.
— Tem razão. Ela faria o mesmo por você. Mas, por enquanto, só estamos coletando informações. Se tivermos uma pista clara e você puder ajudar, a gente avisa.
— Acho bom mesmo — ela resmungou. — Espere, vou te passar meu telefone.
— Deixe que eu anoto — Marcus disse rápido.
Enquanto ele pegava o contato dela, acrescentei:
— Enquanto isso, o mais importante é não contar pra ninguém, especialmente pra sua família, que estivemos aqui.
Ela bufou.
— Você quer dizer meu pai e Zoe? Sem problemas. Eles quase nunca falam comigo, ainda mais depois do divórcio.
— Então é definitivo? — perguntei. Estava curioso para saber, mas Sydney e eu não tínhamos muito tempo para conversa-fiada nos sonhos.
— É definitivo. — O rosto de Carly se fechou. — Fiz o possível pra ajudar minha mãe a ficar com a guarda, mas, no fim, as “evidências” do meu pai foram mais substanciais. Não entendi por que Sydney não testemunhou pra nenhum dos lados, mas agora tudo faz sentido. Se ela se meteu em problemas com os alquimistas, acho que nem meu pai conseguiria salvá-la.
Obviamente, Carly não sabia o papel que seu pai desempenhara para criar esses problemas para Sydney, mas eu não botaria lenha na fogueira da família lhe contando a verdade.
— Sydney teria ido se pudesse — garanti. — Sei que ela queria muito apoiar a sua mãe.
Carly concordou com a cabeça.
— Queria que ela tivesse ido. Quer dizer, entendo por que os alquimistas fazem o que fazem, mas às vezes... sei lá. Parece que exageram e não veem o quadro geral. Agora que Zoe está com meu pai o tempo todo, fico com medo de que vá piorar. Já Sydney, pelo menos nas últimas vezes que a gente conversou, parecia estar ganhando uma perspectiva mais ampla da vida. Não sei o que estava acontecendo, mas ela parecia mais equilibrada. Mais feliz. Queria que pudesse fazer o mesmo com Zoe, mas acho que isso não vai ser possível tão cedo.
Não sei o que estava acontecendo, mas ela parecia mais equilibrada. Mais feliz. As palavras de Carly despertaram sentimentos contraditórios e não consegui formular uma resposta. A mudança que ela havia observado tinha sido obra minha. Carly achava que era para melhor, e eu também gostava de pensar assim, mas não havia como negar que também era o motivo dos problemas de Sydney.
Quando estávamos a caminho da porta, prontos para a segunda parte da viagem, Marcus parou e olhou para ela. Pensei que iria chamá-la para sair, mas, em vez disso, perguntou:
— Qual é a daquela frase sobre Cícero? Estudei muito história romana e nunca li nada sobre a filosofia de vida dele.
Carly sorriu.
— Cícero é o gato da família. Sydney e eu costumávamos brincar que ele tinha descoberto o sentido da vida: comer, dormir e tomar banho. Ela ficou tão triste por não vir pra faculdade que tentei diminuir a importância dos estudos, dizendo que provavelmente não aprenderia mais do que Cícero havia me ensinado. Quando vocês mencionaram isso, soube que eram de confiança.
Não sei se foi o sorriso familiar de Carly ou a simples menção do desejo de Sydney de ir para a faculdade, mas senti uma dor que não sentia havia algum tempo. Pare com isso, disse a mim mesmo. Depois você lamenta por Sydney. Agora se concentre em trazê-la de volta.
Marcus apertou a mão de Carly, segurando-a um pouco mais do que o necessário.
— Obrigado de novo pela ajuda — ele disse. — Não vamos decepcioná-la.
— Não se preocupem comigo — ela respondeu. — É Sydney que vocês não podem decepcionar.

2 comentários:

  1. Eu te abomino Zoe, ainda bem que temos Carly Rainha!!! A maior parte da família da Sydney é boa, ao contrário daqueles rídiculos que me dão um asco terrível que são o pai e a zoe.

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  2. Já shippo Carly e Marcus...

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Boa leitura :)