19 de outubro de 2017

Capítulo 12

Sydney

NEM PESTANEJEI QUANDO A PROFESSORA DE QUÍMICA FALOU que teríamos uma prova surpresa. Mas, quando Zoe contou que nosso pai estava perto de Palm Springs, quase tive um ataque de nervos.
— Como assim? Quando ele vai chegar? — exclamei. Tínhamos acabado de nos sentar para o almoço no refeitório.
— Hoje à noite. Ele quer jantar com a gente. — Ela pegou uma batata frita e ficou olhando para ela como se fosse mais interessante que a notícia que ela tinha acabado de me dar. — Queimaram as batatas hoje.
Comida era a última coisa na minha cabeça, e não porque eu estava preocupada com meu peso.
— Há quanto tempo você sabia que ele ia chegar hoje?
Ela encolheu os ombros.
— Eu disse para você na semana passada.
— É, mas não especificou a data e a hora! Custava ter me avisado direito?
Finalmente, mereci mais atenção que o almoço dela.
— Qual é o problema? É o papai. Você deveria estar animada. Não é como se tivesse que se preparar.
Bom, eu bem que gostaria de ter me preparado mentalmente. Por mais que soubesse que ele estava chegando, não ter uma data certa havia feito com que eu relaxasse um pouco. O resto do grupo estava sentado com a gente — Jill, Eddie, Angeline e Neil — e pude ver que estavam ouvindo a conversa com interesse. Só Jill sabia do drama com meus pais e, quando ficou claro que nem eu nem Zoe falaríamos mais sobre aquilo, ela fez o favor de mudar o assunto e começou a contar sobre um desfile que o clube de costura dela estava organizando.
Comecei a mastigar a comida chinesa roboticamente, sem nem sentir o gosto. Talvez, se fingisse estar interessada no almoço, ninguém perceberia que eu estava à beira de um ataque de pânico. Meu pai iria chegar naquela noite! Calma, falei para mim mesma. Era só um jantar e, como devia ser em público, ele teria que limitar seus discursos extravagantes. Não ficaria me seguindo para todo canto nem revistaria meu quarto.
No entanto, por mais que tentasse me acalmar com essa lógica, não conseguia esquecer minha apreensão. Palm Springs havia se tornado um santuário para mim, onde eu escondia todos os meus segredos. Não só meu romance com Adrian, mas também minha amizade sincera com os outros. E, claro, meu uso ilícito de magia. Eu mantinha todas essas coisas bem guardadas, e só saber que ele estaria ali, no meu território, me fazia sentir como se toda a minha vida tivesse acabado de ser exposta.
— Ei, Neil — Angeline disse, de repente. — Já enfiou uma estaca em algum Strigoi?
Considerando que Jill estava falando sobre iluminação na passarela, era uma mudança de assunto um tanto estranha. Pela expressão de Neil, ele achou o mesmo.
— Hum, nenhum de verdade.
— Mas já praticou muito com alguns de mentira, né?
— Sim, claro. — Ele relaxou um pouco, agora que estava em território conhecido. — Era parte obrigatória do currículo.
Ela sorriu.
— Acha que pode me dar algumas dicas depois da aula hoje?
Eddie franziu a testa.
— Praticamos isso faz alguns meses.
— Então, sim — ela disse —, mas não faz mal ter opiniões diferentes sobre o assunto, né?
— Como pode haver opiniões diferentes sobre enfiar uma estaca no coração de um monstro? — Jill perguntou. O rosto dela demonstrava que não gostava da ideia de Neil e Angeline passando tempo juntos.
— Tenho certeza que Neil e Eddie têm habilidades diferentes — Angeline insistiu.
Era um comentário perigoso, sugerindo que talvez um fosse mais habilidoso que o outro. O rosto dos meninos confirmou essa ideia.
— Seria um prazer — Neil disse, se enchendo de orgulho. — Você tem razão. Pode ser bom pra você conhecer outro estilo.
— Quero ver esse outro estilo — Eddie comentou.
— Eu também — Jill disse.
— Não. — Angeline teimou. — Vocês seriam uma distração e esse é um assunto sério. Só eu e Neil. — Ela deu uma piscadinha para ele e me perguntei qual seria seu plano. Mais tarde, quando estávamos nos separando para ir cada um para sua aula, a puxei pelo braço.
— Por que deu em cima do Neil daquele jeito? — perguntei. — Não faz nem um mês você estava caidinha pelo Trey.
O sorriso dela se desfez.
— Ainda estou. Não consigo tirar Trey da cabeça. Então acho que preciso ir atrás de Neil.
Demorei um pouco para responder.
— Mas você disse que não conseguiria gostar mesmo dele.
— É por isso que preciso tentar — ela explicou, com um olhar que sugeria que eu talvez não fosse tão esperta quanto todo mundo afirmava. — Assim não vou mais pensar em Trey.
Não tinha por que discutir e, embora eu duvidasse dos métodos românticos de Angeline, sabia que era um bom plano ela ficar longe de Trey.
— Bom, então boa sorte.
O nervosismo em relação ao meu pai continuou a me afligir durante o resto do dia. Embora eu soubesse que era melhor ficar longe de Adrian, não consegui me conter. Quando entrei na sala da sra. Terwilliger para meu estudo independente, ela olhou para mim e sorriu.
— Vá — ela disse. — Vá fazer o que precisa fazer, seja lá o que for.
— Obrigada! — Eu estava correndo antes que ela terminasse a frase.
Fui até a casa dele e entrei com a minha chave. Ele estava sentado na sala, trabalhando em um projeto inesperado: várias pinturas suas estavam no chão e ele as estava cortando em pedacinhos meticulosos.
Foi o bastante para acalmar o pânico em relação ao meu pai por alguns momentos.
— O que é isso? — perguntei. — Odeia todas elas?
Ele levantou a cabeça e sorriu.
— Não exatamente. Tive uma ideia pro autorretrato. Percebi que essas tentativas que eu rejeitei tecnicamente são parte de mim, então vou combinar todas numa colagem ali. — Ele apontou com a cabeça para uma tela em cima de um cavalete, que já estava com alguns pedaços da pintura que ele tinha feito da aura dele.
— Você está mudando um pouquinho a tarefa — comentei, me sentando ao lado dele. Ele voltou a cortar.
— Aposto que a professora vai ficar tão impressionada com minha genialidade e brilhantismo que vai querer comprar o retrato e pendurar em cima da lareira. Ou talvez no quarto. Tudo bem pra você? Ou seria meio estranho?
— Vou ter que aprender a dividir você com ela — respondi.
— Você aguenta tudo, Sage. — Deixando a tesoura de lado, ele voltou toda a atenção para mim e ergueu a sobrancelha. — Qual é o problema?
Quase sorri. Todo mundo vivia falando que eu escondia minhas emoções, mas ele sempre sabia como eu estava me sentindo.
— Você leu minha aura?
Procurei usar um tom leve. Tínhamos conversado muito pouco sobre o espírito nas duas últimas semanas, desde a crise na casa de penhores. Pensar em como a magia o levava a extremos ainda acabava comigo, mas eu vinha tomando cuidado para não ser chata. Ele já sabia que eu estava preocupada, então eu não pretendia trazer o assunto à tona de novo, a menos que ele falasse alguma coisa ou eu visse motivo. E, nos últimos tempos, ele parecia estar se comportando bem. Eu não tinha visto sinais de consumo de álcool ou uso excessivo do espírito. Não que o problema tivesse desaparecido, claro, mas era um alívio ter um descanso enquanto eu tentava descobrir uma maneira de ajudá-lo.
— Não precisei ver sua aura. — Ele apontou para minha testa. — Você fica com uma ruga bonitinha quando alguma coisa incomoda você.
— Nem tudo em mim é bonitinho.
— Verdade. Algumas coisas são bonitinhas. As outras são atraentes. — Ele abaixou a voz enquanto se aproximava. — Tão incrivelmente, insuportavelmente atraentes que eu nem sei como consigo fazer qualquer coisa quando tudo em que consigo pensar é no gosto dos seus lábios e no toque dos seus dedos na minha pele e na maciez das suas pernas quando eu…
— Adrian — interrompi.
Seu olhar estava em chamas.
— Sim?
— Cala a boca.
Nós nos aproximamos ao mesmo tempo e todos os pensamentos em relação ao meu pai desapareceram quando senti a boca de Adrian contra a minha. Antes dele, eu sempre achava que conversas sobre a tabela periódica ou declinações em latim me excitariam. Não. Quando tocava Adrian, tudo em que conseguia pensar era ele. Eu ganhava vida de uma maneira que nunca tinha achado possível e ficava obcecada com a sensação dos nossos corpos apertados um contra o outro. Às vezes, acho que ele devia pensar que eu estava adiando nossa primeira vez porque não estava disposta a passar daquele limite físico. Mas, na verdade, eu estava. Muito. Era um limite mental que ainda me impedia: a ideia de que, uma vez que eu atravessasse essa fronteira, não haveria retorno.
Mas, em momentos como aquele, quando ele me deitava no chão e se inclinava sobre mim, eu não sabia por que pensava em voltar. Ele deslizou a mão pela minha perna e pelo meu quadril, e foi subindo por baixo da camisa. Havia confiança em cada um de seus movimentos, uma certeza de saber exatamente como cada toque me levaria à loucura. Seus olhos, ardendo de desejo e urgência, encararam os meus à procura da minha reação e, então, seus lábios sedentos voltaram de encontro aos meus. Enquanto isso, meus dedos se atrapalhavam com os botões dele, mas não tirei sua camisa. Só abri o bastante para passar a mão no tórax e sentir o calor de sua pele entre os meus dedos. Um dia, eu saberia a sensação de ter toda a minha pele contra a dele, mas, quando ele finalmente rompeu nossos beijos febris, soube que aquele não era esse dia, ainda mais quando ele apontou o óbvio.
— Não estou dizendo que não quero continuar — ele disse, rouco —, mas, pela minha conta, temos dez minutos até você ter que voltar correndo pra escola. A não ser… — Ele abriu um sorriso. — Sua irmã foi transferida? — Quando ri e fiz que não, ele suspirou e se afastou de mim. — Bom, então, por mais que seja difícil acreditar, sua cabecinha é mais importante que seu corpo. O que aconteceu?
Não precisei imaginar como essa concessão era difícil para ele; tinha quase certeza de que estava sentindo o mesmo. Relutante, me sentei e recostei no sofá.
— Então, Zoe me contou hoje que…
— Espere. Você vai falar assim?
Abaixei os olhos e me dei conta de que ele estava se referindo ao fato de minha camisa estar no chão.
— Ainda estou de sutiã. Qual o problema?
— O problema é que eu me distraio. Muito. Se quer toda a minha atenção e bom senso, é melhor vestir a camisa de volta.
Sorri e me aproximei dele.
— Ora, ora, Adrian Ivashkov, está admitindo fraqueza?
Estendi a mão para o seu rosto e ele segurou meu punho com uma força que era surpreendentemente provocante.
— Mas é claro. Nunca aleguei ser forte diante dos seus encantos, Sage. Sou só um homem comum. Agora, vista a camisa.
Eu me debrucei, testando a força do seu aperto.
— Ou o quê? — Com minha mão livre, peguei uma das alças do sutiã e fiz menção de abaixá-la…
E foi assim que acabamos nos beijando e rolando no chão de novo.
— Droga — ele disse depois, rompendo o beijo outra vez. — Não me obrigue a ser a pessoa responsável aqui. A gente só tem cinco minutos agora.
— Tá, tá. — Voltei a ficar decente e dei um resumo muito breve da notícia sobre meu pai. — Desde que cheguei a Palm Springs, senti como se estivesse no comando. Com ele aqui… sei lá. De repente acho que vai ter uma mudança no poder.
Adrian estava completamente sério agora.
— Você não vai perder nenhum poder. Ele não pode tirar sua vida das suas mãos. Não pode tirar isso. — Ele apontou para nós. — É só um jantar. Provavelmente só quer falar sobre o divórcio.
— Eu sei, eu sei. É só que… está sendo difícil guardar segredos de Zoe, mas estou conseguindo. Com ele é muito mais difícil.
— Você é mais inteligente que ele. E é uma pessoa melhor. — Ele segurou minhas mãos e deu um beijo nelas, mas era um gesto de carinho e apoio, não de paixão intensa. — Não tem por que se preocupar. Seja a pessoa genial de sempre e me conte mais tarde como foi.
— Se você estiver acordado — provoquei. As visitas de Adrian em sonhos vinham sendo raras na última semana. Ele estava dormindo melhor do que de costume e, embora eu sentisse falta das nossas conversas noturnas, estava contente pela insônia dele ter melhorado. — E a gente também precisa conversar com Marcus de novo, então você vai ter que se preparar pra isso.
— Acho que vou ter que tomar mais café pra ficar acordado — ele disse, com um brilho malandro nos olhos.
— Cuidado — adverti. Me provocar com cafeína era um golpe baixo. — É melhor você se comportar direitinho se quiser mais indecências.
— Sério? E eu aqui achando que era o mau comportamento que me fazia merecer.
Demos um beijo de despedida e voltei para Amberwood um pouco mais tarde que o previsto. Mas tinha valido a pena. Aquela conversa rápida com Adrian, além do contato físico mais demorado, tinha me dado forças. Eu estava me sentindo confiante, cheia de meu amor por Adrian e disposição para lutar minhas batalhas. Conseguiria lidar com meu pai.
A menção a Marcus me fez pensar no sal encantado. Até aquele momento, eu não tinha feito nada com ele. Talvez Adrian estivesse certo e Marcus quisesse testar a tinta em um recruta novo. A sra. Terwilliger estava guardando o sal na casa dela e, embora eu conhecesse o processo de tatuagem alquimista, queria conversar sobre as propriedades mágicas de algumas substâncias que poderiam entrar na mistura. Mas, quando cheguei à sala, vi que não poderíamos falar sobre magia. Zoe estava lá, esperando com ar impaciente. Embora eu estivesse um pouquinho atrasada, tinha conseguido voltar alguns minutos depois do fim da aula. Ela devia ter saído correndo da última aula dela.
— Finalmente — ela disse.
A sra. Terwilliger ergueu os olhos da mesa e me lançou um olhar maroto.
— Obrigada por levar aqueles papéis para a secretaria. Estava explicando para sua prima como você tem sido útil para mim.
Abri um sorriso tenso.
— É um prazer ajudar. Estou dispensada?
— Sim, sim, claro. — Ela voltou para a papelada sem olhar duas vezes.
— Por que a urgência? — perguntei enquanto saíamos da sala.
— A gente vai encontrar o papai agora — ela respondeu.
— Agora? Mas não é hora do jantar. Não é hora nem do lanche da tarde.
— Ele chegou na cidade mais cedo e não quer perder tempo.
Tentei não fazer uma careta.
— De novo, sou a última a saber.
Ela me lançou um olhar ofendido.
— Parece que você tem outras coisas mais importantes na cabeça. Pensei que não fosse se importar.
— Não comece — avisei. Chegamos à garagem e dei a examinada de sempre no Mercúrio para ter certeza de que nenhum idiota tinha arranhado a pintura ao estacionar.
Para minha surpresa, Zoe baixou a cabeça.
— Você tem razão. A gente não devia brigar. Hoje somos irmãs, não só alquimistas. Precisamos nos unir contra o inimigo em comum.
— Você está falando da mamãe? — perguntei, incrédula.
Zoe assentiu e tive que morder a língua para não dar uma resposta que começasse uma briga de verdade.
O restaurante que meu pai escolheu era exatamente o que eu estava esperando. Ele não tinha paciência para o que via como bobagens e excessos, então qualquer lugar que brincasse com mistério ou romantismo seria descartado. No entanto, apesar do seu pragmatismo, não conseguiria suportar um café barato que fosse muito barulhento ou tivesse padrões de limpeza ou comida questionáveis. Então, tinha escolhido um restaurante japonês chique que se vangloriava pelo minimalismo. A decoração era simples, com muitas linhas retas, mas a comida e a reputação eram incríveis.
— Oi, pai — eu disse. Ele já estava na mesa quando chegamos e não se levantou para nos abraçar.
Nem Zoe esperava que isso acontecesse.
— Sydney, Zoe — ele disse. Falar meu nome primeiro não era um sinal de preferência, mas sim de respeito pela ordem de nascimento. Se Carly estivesse lá, ele a teria cumprimentado antes. Além disso, era também a ordem alfabética. Na mesma hora, chegou o garçom para nos oferecer água e chá, e meu pai devolveu o cardápio para ele. — Esse é o cardápio de jantar. Pode trazer o de almoço?
— A hora do almoço acabou — o garçom respondeu, com educação. — Já estamos trabalhando com o jantar.
Meu pai o olhou diretamente nos olhos.
— Está dizendo que três e meia é hora de jantar?
— Não… — Hesitante, o garçom olhou de um lado para o outro do restaurante, vazio exceto por dois executivos bebendo no balcão. — Na verdade não é hora de nada.
— Então, nesse caso, não vejo por que eu deveria pagar o preço do jantar. Me traga o cardápio de almoço.
— Mas o almoço acaba às duas.
— Então me traga o gerente.
O garçom saiu e voltou logo depois, com o cardápio de almoço. Tentei não afundar na cadeira.
— Então — meu pai disse, orgulhoso de si. — Vamos comer logo e partir pro que interessa.
Senti um frio na barriga imaginando exatamente em que ele estava interessado. Mesmo sem o nervosismo, não estava com muita fome, mas fiz um esforço e pedi sushi.
— Que prato pequeno — meu pai comentou. As palavras certas fluíram pela minha boca.
— Também é o mais barato. Mesmo com o cardápio de almoço, esse lugar é caro demais. Não tem por que passar dos limites, afinal, comer em reuniões é só uma convenção. Além disso, a gente ganha jantar no alojamento como parte da bolsa.
Ele aprovou com a cabeça.
— Tem toda a razão. Você parece ter ganhado um pouquinho de peso também, então é bom tomar cuidado.
Abri um sorriso tenso, engolindo a vontade de dizer que eu ainda cabia muito bem nas minhas calças justas. Só estava com uma aparência muito mais saudável e menos malnutrida. Enquanto isso, Zoe, que havia acabado de colocar o cardápio na mesa, o reabriu rapidamente quando ouviu a censura. Ela devia ter escolhido tempurá, um de seus pratos favoritos, e agora estava com medo da fúria do meu pai contra frituras. Eu conseguia aguentar os comentários sobre meu peso, mas, se ele dissesse alguma coisa para ela, teria que me esforçar muito para não jogar meu chá na cara dele. No fim, ela pediu o mesmo que eu, por mais que eu soubesse que não gostava muito de sushi.
Depois que o garçom saiu com os nossos pedidos, meu pai pegou dois envelopes pardos e entregou um para cada uma.
— Não tem por que perder tempo. Como podem ver, juntei algumas informações para usarem no depoimento contra sua mãe.
Precisei me esforçar para não deixar o queixo cair enquanto folheava páginas e mais páginas sobre a vida da minha mãe. Registros acadêmicos, histórico profissional. Havia várias fotografias, incluindo uma que parecia ter sido tirada numa aula de ioga. Dei uma olhada nessa. Mostrava vários alunos, incluindo minha mãe, saindo da sala com suas esteiras.
— O que é isso? — perguntei.
— Está vendo aquele homem ali? — Meu pai apontou para um rapaz conversando com minha mãe. — É o professor dela. Ela vivia falando com ele durante as aulas.
— E por que não falaria se é o professor?
Meu pai sorriu com desprezo.
— A menos que haja outros motivos.
— Como assim? — Deixei a foto cair. — Não. De jeito nenhum. Minha mãe nunca teria um caso.
Ele deu de ombros.
— Ela não quer o divórcio?
Eu poderia ter citado uma dezena de motivos para ela querer o divórcio, mas achei melhor me manter neutra.
— Você tem alguma prova?
— Não — ele admitiu. — Mas não importa. A insinuação já basta. Basta fazer com que ela não pareça confiável. Ter largado a faculdade ajuda, assim como o péssimo histórico profissional. Ela nunca teve um emprego em tempo integral.
— Porque estava cuidando da gente — eu disse. Meu pai havia sido responsável pela nossa educação, mas era ela quem cuidava da vida diária, tomando conta da casa e fazendo curativos nos nossos machucados.
— Também não importa. Tem documentos de sobra aí pra provar que ela foi uma figura materna instável. No mínimo, vai nos garantir guarda conjunta, embora eu vá ficar surpreso se não conseguir guarda exclusiva.
— Você tem alguém infiltrado no lado jurídico? — perguntei, com o mesmo sorriso forçado.
Ele fez uma careta.
— Não, e não é por falta de tentativa.
— Então vamos ter que basear os argumentos nos fatos — comentei, inexpressiva.
— Sim. Vai correr tudo bem se vocês fizerem sua parte. — Ele fez uma pausa enquanto o garçom entregava as toalhas quentes. — Sei que não preciso explicar a importância disso pra vocês. Zoe é um membro valioso da causa, e nosso trabalho está ficando cada vez mais importante. A volta dos caçadores de vampiros chamou muita atenção. Não podemos deixar o caos que eles criaram destruir tudo por que trabalhamos tanto.
Pelo menos isso foi um alívio. A maioria dos alquimistas achava os Guerreiros da Luz um grupo primitivo de rebeldes terroristas, mas Marcus tinha descoberto evidências de que alguns alquimistas estavam trabalhando com eles. Além disso, havia indícios de que os guerreiros sabiam sobre Jill. Era bom saber que meu pai estava do lado da razão e do pensamento alquimista oficial nesse ponto.
Para minha surpresa, ele olhou diretamente para mim.
— Boa parte do que sabemos é graças aos seus esforços. — Era o mais perto que ele já tinha chegado de um elogio.
— Só cumpri meu dever.
— Entre isso, revelar os crimes de Keith e suportar aquele casamento, você chamou a atenção do alto escalão.
Caiu um silêncio constrangedor. Era mais comum ele me condenar do que elogiar e eu não sabia bem como lidar com aquilo. Zoe limpou a garganta.
— Eu supervisionei um fornecimento sozinha — ela disse, orgulhosa. — Quer dizer, não a parte em que eles bebem sangue. Mas Sydney não pôde ir para a casa de Clarence Donahue para o fornecimento, então eu assumi.
Meu pai voltou o olhar fixo para mim.
— Por que não pôde ir?
— Precisei fazer um trabalho para a escola — expliquei.
— Entendi. — Mas ele franziu um pouco a testa.
— Sydney vive fazendo trabalhos para a escola — Zoe acrescentou. Acho que ela ficou magoada que seu papel de “supervisão” não tivesse recebido tanto reconhecimento. — Sempre some depois da aula. Vive fazendo tarefas e se divertindo com a professora de história dela.
— A gente não se diverte — argumentei.
— Vocês tomaram café juntas, não? — Zoe perguntou, triunfante.
— Sim, mas isso não é…
— Que matéria é essa? — meu pai interrompeu. — Química?
Zoe e eu respondemos em uníssono:
— História.
Ele franziu ainda mais a testa.
— Não é uma matéria importante. Nenhuma é, na verdade. Vocês já receberam uma educação melhor.
— Sim, mas é importante manter o disfarce — argumentei. — Ser uma aluna exemplar me dá muitas vantagens. Eles me dão mais liberdade, e poder sair do campus depois do toque de recolher com autorização da sra. Terwilliger significa que consigo sair para ajudar os Moroi se precisar, sem chamar atenção indesejada. A gente não pode correr o risco de fazer alguma idiotice e criar um escândalo.
Isso pareceu apaziguar nosso pai, mas Zoe estava na ofensiva agora.
— É mais do que isso. Vocês são amigas. Ficam falando sobre férias na Grécia e em Roma.
O que tinha inspirado aquilo? Eu esperara enfrentar um interrogatório do meu pai, não dela.
— E daí que a gente conversa de vez em quando? Ela é humana. Não tem problema.
— O problema é que você não dá atenção plena à missão. — Havia uma expressão dura no rosto de Zoe de que não gostei nem um pouco. — E ela pode até ser humana, mas você sem dúvida tem amigos Moroi e dampiros.
Nosso pai arqueou as sobrancelhas imediatamente, mas a comida chegou na mesma hora, o que me deu tempo de formular uma resposta. Meu pai se adiantou:
— O que isso quer… amigos Moroi e dampiros?
— Sydney socializa com eles — Zoe declarou. — Faz favores para eles.
Lancei um olhar duro que a fez recuar.
— Faz parte do meu trabalho cuidar deles. Existe uma linha tênue entre socializar com eles e ganhar sua confiança para que façam o que eu preciso que façam, uma coisa que você ainda não aprendeu. Meu Deus, eu tive que morar com uma! Fui obrigada a ficar o tempo todo com ela, uma coisa que você nunca aguentaria, já que teve um chilique “supervisionando” aquele jantar. Então não julgue meus métodos, porque não foi você quem desmascarou Keith, os guerreiros e tudo mais.
— Ora, ora, meninas. Não briguem. — No entanto, não pude deixar de notar que ele parecia estar adorando aquilo. Acho que pensava que a competição nos fortalecia. — Ambas têm ótimos argumentos. Zoe, Sydney demonstrou mais de uma vez sua lealdade e como consegue realizar seu trabalho de maneira extraordinária. Sydney, Zoe tem razão no sentido de que não deve se envolver demais com essa professora ou com os Moroi, mesmo que faça parte de seu disfarce. Existem certos limites que nunca devem ser ultrapassados. Você viu isso acontecendo com Keith, quando ele passou a fazer negócios com os Moroi.
Zoe e eu ficamos intimidadas por alguns momentos.
— Você sabe como Keith está? — perguntei.
O rosto do meu pai se suavizou.
— Sim, ele foi liberado.
Fiquei tão surpresa que derrubei o sushi que tinha pegado cuidadosamente com os hashis.
— Foi?
— Sim. Ele foi reeducado com sucesso e agora está em Charleston. Num escritório, claro. É óbvio que não está pronto para o trabalho em campo. Mas é um alívio para todos nós que a educação tenha funcionado. Nem sempre é assim, infelizmente. Mesmo quando reforçam a tatuagem.
Senti um arrepio na nuca.
— Reforçar a tatuagem? Você quer dizer retocar?
— Mais ou menos. — Ele estava escolhendo as palavras com muito cuidado. — Digamos que existem certas modificações na tinta que podem ajudar almas perturbadas como Keith.
Até Marcus me contar sobre o processo, eu nunca tinha ouvido ninguém admitir isso.
— Tinta com maior compulsão de obediência e lealdade ao grupo?
Os olhos do meu pai se estreitaram.
— Como sabe sobre isso? — ele perguntou.
— Ouvi boatos. — Torci para que ele não exigisse detalhes, mas estava totalmente preparada para mentir. Seu olhar me mediu por vários segundos angustiantes até ele finalmente decidir não insistir.
— Não é uma coisa de que a gente se orgulhe — ele disse, por fim. — E depende muito da ajuda deles. Mas é necessário. Pessoas como Keith são um perigo não só para nós, mas para toda a humanidade. Os Moroi podem não ser tão horríveis quanto os Strigoi, mas também não são naturais. Não fazem parte da ordem deste mundo e não podemos deixar que se aproximem dos humanos. É nosso dever. Nosso dever divino. Qualquer pessoa que não entenda o equilíbrio que mantemos com aqueles monstros representa um mal à causa. Sim, foi preciso muita intervenção, mas Keith se regenerou. Salvamos a alma dele. Você salvou, Sydney. — Ele pareceu ter uma ideia. — Você devia falar com ele. Ver o bem que fez.
Eu me ajeitei na cadeira, desconfortável.
— Ah, eu…
— Depois do jantar — meu pai decidiu. — Vamos ligar pra ele depois do jantar.
Meu lado rebelde quis perguntar: “A gente não está almoçando?”. Mas mordi a língua. Não queria falar sobre mais nada. Felizmente, Zoe ainda estava louca para chamar a atenção dele e falou o bastante por nós duas. E, com o passar da refeição, o assunto voltou para o tribunal. Fiquei assentindo mecanicamente.
— Estou feliz em poder contar com vocês — ele disse, enquanto nos levantávamos para sair. — Não que eu tivesse dúvidas… mas, enfim, depois de Carly… É difícil dizer.
— O que tem a Carly? — perguntei rápido. Percebi que ele não tinha dado gorjeta e, discretamente, deixei uma nota na mesa enquanto saíamos.
Ele fez uma careta.
— Ela vai defender sua mãe. Mas não se preocupem. Não vai ser suficiente.
Eu me enchi de alegria e me esforcei para manter o rosto inexpressivo. Carly estava enfrentando nosso pai! Claro, ela não tinha que lidar com as mesmas pressões que Zoe e eu, mas fiquei muito orgulhosa da minha irmã mais velha. Ela costumava ser a tímida da família. Era um grande avanço que estivesse do lado da nossa mãe. Fiquei pensando se talvez um dia ela teria coragem de contar que Keith a havia estuprado. Isso era um começo.
Por falar em Keith… meu pai estava determinado a me mostrar “o bem” que eu tinha feito, por mais que eu insistisse que não era necessário. Quando chegamos ao estacionamento, ele fez algumas ligações para entrar em contato com Keith e — pior de tudo — usou o aplicativo de vídeo. Em silêncio, torci para que Keith estivesse fazendo alguma coisa, qualquer coisa, que o mantivesse longe. Não tive essa sorte. Depois de mais ou menos um minuto, meu pai finalmente conseguiu falar com ele, e o rosto de Keith surgiu na tela do celular. Zoe e eu nos aproximamos.
— Sr. Sage — Keith disse, inexpressivo. — É um prazer falar com o senhor.
Abri a boca de espanto sem perceber. Antigamente, Keith era arrogante e desagradável. Na reeducação, estivera frenético e apavorado. Agora… não havia nada. Ele não tinha expressão. Era um robô. Um de seus olhos era de vidro, mas, se eu não soubesse qual, nunca teria conseguido diferenciá-los.
— Estou com Sydney e Zoe aqui — meu pai explicou. — Sydney estava preocupada com você.
— Oi, Sydney. — Pensei ter visto um sorriso, mas era difícil saber ao certo. — Faz tempo que queria agradecer a você. Eu estava doente, mas agora estou melhor. Eu me deixei ser enganado por aquelas criaturas perversas. Não fosse por você, eu teria perdido a alma.
Fiquei sem palavras.
— Q-que bom, Keith. Como vão as coisas? Além do trabalho alquimista?
Ele franziu a testa.
— O que você quer dizer?
— Hum, não sei. Viu algum filme bom? Está namorando? — Eu sabia que isso deveria parecer frívolo para meu pai. — Está feliz?
Keith mal piscou.
— Minha felicidade não importa. Só o trabalho importa. E terminar minha penitência.
— Penitência… pelo quê? Pelo esquema de enriquecimento com Clarence? Quer dizer, bom não foi… mas poderia ter sido pior. — Eu não fazia ideia de por que estava tentando defendê-lo de si mesmo, mas havia algo profundamente perturbador em toda aquela conversa sobre alma e penitência, ainda mais porque eu sabia que o verdadeiro problema dos alquimistas não era tanto as consequências da conspiração de Keith, mas o simples fato de ele ter trabalhado com um Moroi. — E você mesmo disse que está melhor.
— Melhor, mas não curado. — O tom dele me causou um arrepio na espinha. — Quem colabora com aquelas criaturas para algum fim que não o bem maior tem um longo caminho a percorrer para a redenção, e estou pronto para percorrer esse caminho. Pequei contra os meus e deixei minha alma ser corrompida. Estou pronto para expurgar essa escuridão.
— Você parece sinceramente arrependido — eu disse, baixinho. — Quer dizer, isso é bom, né? Deve significar alguma coisa.
— Estou pronto para expurgar essa escuridão — ele repetiu. Era difícil dizer se ele sabia que estava falando comigo. Parecia estar recitando alguma coisa. Alguma coisa que havia recitado inúmeras vezes.
Quem colabora com aquelas criaturas para algum fim que não o bem maior tem um longo caminho a percorrer para a redenção. O impacto dessas palavras foi forte no meu peito. Eu estava fazendo muito mais do que “colaborar” com Adrian. Era aquele o risco que eu corria? Aquela… apatia? Na última vez que vira Keith, ele estava gritando para ser liberado dos alquimistas. Tinha sido horrível, mas, ao mesmo tempo, havia algo de real naquilo. Uma luta. Uma chama dentro dele. Agora não havia nada. Keith era odioso e egoísta, mas sempre tinha sido expansivo e cheio de personalidade, por mais que fosse uma personalidade irritante. Como ele tinha virado… aquilo? O que era necessário para tirar de uma pessoa tudo o que ela era e fazer com que concordasse com qualquer coisa que lhe falassem?
A tatuagem, pensei. Eles deviam ter retocado com uma compulsão muito forte. No entanto… meu instinto me dizia que havia mais. A tinta alquimista fazia uma pessoa obedecer a comandos simples e a deixava suscetível a sugestões. Mas aquela mudança completa de personalidade exigiria uma intervenção maior. Eu estava vendo o que devia ser uma combinação da tatuagem reforçada com o que tinham feito na reeducação.
Também estava vendo meu futuro caso fosse descoberta.
— Keith — consegui dizer, enfim. — Como exatamente você está expurgando essa escuridão?
— É hora de ir — meu pai interrompeu de repente. — Estamos muito felizes de ver que você está bem, Keith. Depois a gente se fala.
Keith se despediu e seguimos para nossos respectivos carros. Zoe criou coragem para dar um abraço rápido e contido em nosso pai antes de entrar no Mercúrio. Eu me dirigi para a porta do motorista, mas ele me puxou pela mão. Não resisti porque ainda estava aturdida pelo que tinha acabado de ver.
— Sydney — ele disse, com o olhar frio. — Você realmente fez um trabalho incrível. Estou contente que Zoe esteja com você. Ela é cabeça-dura e inexperiente, mas vai acabar aprendendo. E está certa em relação a uma coisa: você não deve se distrair. Mesmo que seja com uma professora. Em certos momentos, um pouco de recreação não faz mal. Sem dúvida seria bom você continuar conversando com aquele jovem respeitável, Ian Jansen. Mas, por enquanto, qualquer interação social, mesmo com uma humana, é perigosa. Você precisa se manter focada na missão. E sei que nem preciso falar sobre amizade com Moroi e dampiros.
— Claro que não. — Eu me sentia enjoada.
Ele abriu um sorriso, à maneira dele, e deu meia-volta sem dizer outra palavra. Levei Zoe de volta para Amberwood e o constrangimento da briga de antes perdurou entre nós. Por mais que eu não tivesse gostado que ela me dedurasse para nosso pai, eu ainda a amava… e não achava que a culpa fosse toda dela. Ele era intimidador e tinha um talento para fazer as pessoas se sentirem inadequadas. Eu tinha experiência de sobra com isso.
— Ei — eu disse, percebendo que estávamos passando pela sorveteria a que tínhamos ido na semana anterior. — Quer um sorvete de noz-pecã?
Zoe estava com o olhar fixo na estrada e nem se voltou para a sorveteria.
— Tem gordura e açúcar demais, Sydney. — Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Acho que eu deveria parar as aulas de direção com Eddie.
— Ele é um professor ruim? Fez alguma coisa, hum, sinistra?
— Não… — Ela estava visivelmente dividida. — Mesmo assim, é um deles. Você ouviu o que o papai falou… o que Keith falou. Nenhuma colaboração.
— Não é uma colaboração, é trabalho — eu disse, pragmática. — E se acontecer uma emergência e você tiver que dirigir? Precisamos estar preparadas. É pelo bem maior.
Ela relaxou.
— Acho que você está certa.
Depois disso, ela voltou a ficar em silêncio, me dando tempo de sobra para contemplar as possíveis consequências daquela refeição. Meu histórico impecável deveria me manter segura, mas Zoe havia tagarelado sobre minhas outras atividades. Será que meu pai suspeitava de alguma coisa? Era difícil dizer, mas eu preferiria que ele não tivesse motivo para duvidar de mim.
E, claro, eu ainda estava transtornada por causa de Keith. A lembrança do seu rosto me atormentava. O que tinham feito com ele? O que ele tinha sofrido na reeducação? E quanto daquilo era o retoque? Essas perguntas ficaram girando na minha cabeça várias e várias vezes e, quando chegamos à escola, eu tinha tomado uma decisão. Era uma decisão difícil e que não necessariamente resolveria todos os meus problemas. Mas eu precisava agir. Ver Keith havia feito com que me desse conta da gravidade da minha situação.
Eu tinha que fazer a tinta. E tinha que injetá-la em mim mesma.
Não havia outra maneira. Eu precisava descobrir se a tinta era capaz de impedir a manipulação mental dos alquimistas. Um dos recrutas de Marcus seria uma cobaia melhor, mas não podíamos esperar. Inez tinha dito que o uso de magia poderia confundir os resultados, mas que escolha eu tinha? Não havia uma pessoa livre de magia em quem testar e não fazer nada era inaceitável. Se havia uma maneira de prevenir que outras pessoas — inclusive eu mesma — se transformassem em Keith, eu precisava descobrir. Esse seria meu ponto de partida e eu me recusava a perder mais tempo.
Depois do jantar, Zoe saiu para um grupo de estudos e eu me preparei para ir à casa da sra. Terwilliger, depois de ligar para ela com um pedido inesperado. Poderia ser perigoso deixar Zoe depois daquele sermão, mas, se ela me questionasse depois, eu alegaria que era um trabalho obrigatório.
Enquanto ia até o estacionamento de estudantes, dei de cara com Trey. Ele parecia estar a caminho do trabalho.
— Ei, Melbourne — ele disse, parando na minha frente. — Preciso perguntar uma coisa. Angeline está passando tempo demais com aquele dampiro. Acabei de ver os dois juntos. Está rolando alguma coisa entre eles?
— Que dampiro? — perguntei.
— Aquele com o sotaque britânico falso.
— Não acho que seja falso.
— Bom, enfim. — Até eu conseguia ver o ciúme no rosto de Trey. — O que está rolando entre eles?
— Quase certeza que nada.
— Então por que eles vivem juntos?
Porque ela está tentando superar você, pensei.
— Acho que estão praticando ou algo assim. Você sabe. Coisa de dampiro. — Ele não pareceu convencido. — Talvez, em vez de ficar atrás de Angeline, você devesse sair com outra pessoa.
Ele suspirou.
— E acha que não tentei? Não tem comparação. Você pode até não acreditar, mas não tem ninguém nessa escola como ela.
— Ah, eu acredito — eu disse, me lembrando da vez que ela tinha esquecido a combinação do armário e tentou arrombá-lo com um machado. Ninguém sabia direito onde ela tinha conseguido um.
— Ela vai pra festa com alguém?
— Que festa?
Ele apontou para um cartaz na janela do alojamento que dizia: FESTA DO DIA DOS NAMORADOS.
— Sério, como você não vê essas coisas?
— Ando com muita coisa na cabeça.
— Você não acha que ela vai com Neil, acha?
Pensei na indiferença de Neil e em sua concentração no dever.
— Não. Tenho quase certeza que não.
Ele enfiou as mãos nos bolsos e ficou olhando para o vazio. Esperei que ele fizesse mais algum comentário, mas, quando não disse nada, senti meus olhos se arregalarem de surpresa.
— Importa tanto assim? Ela ir para a festa com alguém?
— Ela importa — ele disse, virando o rosto para mim. — Acho… acho que cometi um erro. Pensei que queria que os guerreiros me aceitassem de volta. Mas será que é a única saída? O que quero mesmo é acabar com os vampiros do mal e fazer o bem. Esse tipo de coisa. Não preciso deles pra isso. Posso achar um jeito de pensar e agir por conta própria. Talvez um jeito que envolva Angeline.
Fiquei surpreendentemente fascinada, ainda mais porque o que ele estava sugerindo era muito próximo dos meus próprios desejos.
— Então? Vocês vão voltar?
— Não sei. Preciso de tempo pra pensar em como dar um jeito nisso tudo. E preciso que ela não saia com Neil nem com nenhum outro cara enquanto isso. — Ele me olhou de soslaio. — Eu sei, eu sei. Parece muito sexista querer que ela pare a vida dela enquanto eu descubro o que quero. Mas não é exatamente uma situação típica.
— Pois é — murmurei. Ficamos em silêncio e tive duas grandes revelações. Uma era que, por mais maluca que fosse a relação entre Trey e Angeline, eu queria que desse certo. A outra era que, de repente, havia uma oportunidade diante de mim. — Vou ajudar você. Posso convencer Angeline a ficar solteira.
— Quê? — Ele me examinou atentamente. — Pode fazer isso?
— Claro — respondi. Era uma promessa fácil de cumprir, considerando que ela ainda estava apaixonada por ele e que o menino de quem fingia gostar estava completamente desinteressado em namorar, mas Trey não sabia disso. Um sorriso surgiu em seus lábios… e então se desfez.
— O que quer em troca? — ele perguntou, desconfiado.
— Por que acha que quero alguma coisa?
— Você é uma alquimista. — Mais uma vez ele não conseguiu manter o sorriso. — Alquimistas não fazem nada de graça.
— Amigos fazem — eu disse, sem saber se me sentia magoada com a insinuação ou culpada porque ele estava certo nesse caso. — Vou ajudar você com Angeline. Mas preciso de um favor, um grande favor, e você, como amigo, vai ter que confiar em mim.
Trey considerou por alguns momentos.
— Que favor?
Meu peito se encheu de adrenalina, e tentei parecer calma e confiável.
— O que acha de outra tatuagem? Uma que ninguém vai ver?
Ele ficou me encarando, confuso.
— Você está se sentindo bem?
— Estou falando sério! Estou tentando fazer uma coisa, meio que um projeto paralelo, que pode ajudar muitas pessoas. Muitos humanos. Se puder fazer isso, seria incrível.
Mais que incrível. Trey seria a cobaia perfeita.
— Quando você está envolvida com tatuagens, elas nunca são meramente decorativas — ele disse.
Era verdade. Quando tinha chegado em Amberwood, descobri que Keith estava controlando um esquema de tatuagens mágicas anabolizantes. Foi isso que o colocou em maus lençóis com os alquimistas. Trey tinha visto os terríveis efeitos colaterais causados por aquelas tatuagens.
— Não, mas essa não vai controlar você. Na verdade, se funcionar, vai te proteger do controle mental.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Nem sabia que estava correndo esse risco. E se não funcionar?
— Não vai acontecer nada. Você só vai provar que é durão aguentando mais uma tatuagem. — Quer dizer, eu tinha quase certeza de que não aconteceria nada. Noventa e nove por cento de certeza. Não tinha por que mencionar esse um por cento. — Mas… vamos precisar fazer outra tatuagem depois pra provar que essa funciona.
— Sydney…
— Por favor, Trey — pedi, segurando seu braço. — Não posso contar todos os detalhes, mas confie em mim quando digo que isso é muito importante. Você me conhece bem o suficiente para saber que eu não pediria uma coisa dessas sem motivo. — Ele confirmou com a cabeça. — Você disse que queria fazer o bem. Acredite, isso é fazer o bem. E vai ajudar você a ficar com Angeline.
— Então não vai me ajudar se eu não fizer isso?
Hesitei e parte do meu vigor perdeu a força. Eu nunca faria uma chantagem com ele.
— Não. Não faria uma coisa dessas. Independentemente do que decidir, vou convencer Angeline a ficar solteira.
Ele me observou com os olhos castanhos durante alguns segundos.
— Talvez me arrependa disso, mas tudo bem. A gente nem sempre concorda em tudo, mas, quando você diz que vai ajudar as pessoas, está falando sério. Quando vai rolar?
— Quando você sair do trabalho. Não é para lá que está indo agora? — Eu não queria adiar, mas valeria a pena para ter uma boa cobaia.
— Não. Só estou indo pegar meu cheque.
Cada vez mais sorte.
— Pode passar na casa da sra. Terwilliger depois? Mando uma mensagem com o endereço e ela dá um jeito de liberar você do toque de recolher.
— Vai rolar na casa da sra. T?
— Sim. Você pode conhecer o namorado dela. Ele usa um tapa-olho.
Trey pensou um pouco.
— Por que não falou isso antes? É óbvio que eu topo.
Mandei o endereço para ele e entrei no carro. Quando estava na estrada, liguei para Adrian.
— Como foi com o seu pai? — ele perguntou.
— Mais ou menos — respondi. — Estou indo pra casa da sra. Terwilliger e preciso de você lá.
— Está bem — ele disse, sem hesitar. — Posso saber por quê?

— Achei uma cobaia.

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