13 de outubro de 2017

Capítulo 12

EU ME SENTI UM FRACASSO quando, no dia seguinte, dei a notícia à sra. Terwilliger antes de as aulas começarem.
Com o semblante pálido e carregado, ela disse que não havia nada que eu pudesse ter feito. Mas eu não sabia se deveria acreditar nisso. Continuava me angustiando com as mesmas dúvidas da noite anterior. E se eu não tivesse passado o outro dia com Marcus? E se não tivesse perdido tanto tempo garantindo que o Mustang fosse bem tratado? E se não tivesse me envolvido numa intensa demonstração pública de afeto com Adrian? Eu tinha deixado minhas questões pessoais interferirem no trabalho e uma garota pagara com a própria vida. Queria faltar na aula e avisar as outras imediatamente, mas a sra. Terwilliger me garantiu que Veronica não conseguiria atacar tão cedo. Ela me disse que não havia mal em esperar até a tarde.
Concordei, relutante, e voltei para a minha carteira, pensando em ler alguma coisa antes do começo da aula. Não achava que conseguiria.
— Srta. Melbourne? — ela chamou. Levantei os olhos e vi que a expressão triste dela havia se iluminado um pouco. Ela parecia achar graça em alguma coisa, o que era estranho, considerando as circunstâncias.
— Sim?
— Talvez seja bom fazer alguma coisa com o seu pescoço.
Não entendi nada.
— Meu pescoço?
Ela enfiou a mão na bolsa e me entregou um espelhinho. Abri e analisei meu pescoço, ainda tentando entender do que ela estava falando. Então eu vi. Uma pequena mancha roxa avermelhada na lateral do pescoço.
— O que é isso? — exclamei.
A sra. Terwilliger riu.
— Embora ninguém me dê um faz tempo, se não me engano é conhecido como “chupão”. — Ela fez uma pausa e arqueou a sobrancelha. — Isso você sabe o que é, não?
— Claro que sei! — Fechei o espelho. — Mas não tem como... quer dizer, nós mal...
Ela ergueu a mão para me calar.
— Não precisa justificar sua vida pessoal pra mim. Mas, nos próximos quinze minutos, talvez queira dar um jeito de manter isso em segredo.
Eu já estava em pé quando ela terminou a frase. Quando saí do prédio, tive a incrível sorte de encontrar o circular do campus parado bem na frente. Corri até ele e, apesar de o caminho até o alojamento demorar só alguns minutos, parecia uma eternidade. Durante todo esse tempo, minha mente fervilhava com o que havia acontecido.
Estou com um chupão. Deixei Adrian Ivashkov me dar um chupão.
Como tinha deixado isso acontecer? A notícia devastadora sobre Lynne tinha feito com que eu ignorasse o impacto daquele lapso, mas não havia mais como fugir do que tinha acontecido. Contra todos os meus princípios, me deixei envolver nos beijos de Adrian. E não só nos beijos. Pensar na maneira como nossos corpos tinham se pressionado um contra o outro me deixava tão vermelha quanto na noite anterior. Não, não, não! Não podia pensar nisso. Devia esquecer que tinha acontecido. Precisava garantir que nunca voltasse a acontecer. O que tinha dado em mim? Eu não correspondia ao sentimento dele. Adrian era um Moroi. E, mesmo se não fosse, definitivamente não era o cara mais adequado para mim. Eu precisava de alguém sério, alguém com potencial de conseguir um emprego com plano de saúde. Alguém como Brayden.
É, e o namoro de vocês deu muito certo, né, Sydney?
O que acontecera com Adrian tinha sido um erro. Claramente um ato pervertido de luxúria, talvez incentivado pelo fato de ele ser tão proibido para mim. Só isso. As mulheres gostavam desse tipo de coisa. Quando pesquisara sobre relacionamentos, tinha visto um livro que se chamava Bad boys e as mulheres que se apaixonam por eles. Eu o havia ignorado porque Brayden era praticamente o oposto de um bad boy, mas talvez valesse a pena comprá-lo agora.
Uma chama na escuridão. Eu precisava esquecer que Adrian tinha me chamado assim. Tinha de esquecer.
Faltava mais um minuto para chegar ao alojamento, então mandei uma mensagem de texto rápida para Adrian: Estou com um chupão! Você está proibido de beijar de novo.
Sinceramente, não esperava que ele estivesse acordado àquela hora da manhã, então foi uma surpresa receber a resposta: Tudo bem. Não vou mais beijar seu pescoço.
Típico. Não! Você nunca mais vai me beijar EM LUGAR NENHUM. Você disse que manteria distância.
Estou tentando, ele respondeu. Mas é você que não mantém distância de mim.
Não achei que isso merecia uma resposta.
Quando cheguei ao alojamento, perguntei à motorista quanto tempo ela esperaria até voltar para o campus central.
— Vou sair agora mesmo — ela respondeu.
— Por favor — implorei. — Espere um minutinho. Eu pago.
Ela pareceu ofendida.
— Não aceito suborno.
Mas, quando voltei correndo do dormitório, usando uma gola rolê, ela ainda estava lá. Consegui entrar na sala da sra. Terwilliger no mesmo instante em que o sinal tocava. Ela me lançou um olhar de quem sabe das coisas, mas não disse nada sobre minha troca de roupa.
Durante a aula, recebi uma mensagem de Marcus. Pode nos encontrar hoje? San Bernardino, às 16h.
Bom, ele tinha avisado que seria em cima da hora. San Bernardino ficava a uma hora de viagem. Eu tinha falado com Eddie que o encontro seria naquela semana, e ele aceitara me acompanhar. Só torci para que não tivesse nada planejado naquela tarde. Respondi a mensagem dizendo que iríamos, e Marcus me enviou o endereço.
Depois da aula de história, uma menina da aula de inglês me chamou para perguntar se podia pegar meu caderno emprestado porque tinha faltado no dia anterior. Eddie já tinha saído quando terminei de falar com ela, então só consegui perguntar sobre San Bernardino na hora do almoço.
— Claro — ele disse, assumindo a postura rígida de guardião.
Jill já sabia sobre a viagem porque eu havia contado a Adrian. Me senti um pouco mal por tirar Eddie dela. Na verdade, muito mal. Ficar sem Eddie era um risco grave, embora eu tivesse consciência de que ele nem sempre passava todos os segundos perto ela. Às vezes era impossível, e por isso havíamos convocado Angeline. Mesmo assim, se algum alquimista descobrisse que eu estava usando o principal guarda-costas dela para viagens pessoais, eu estaria numa fria. Quer dizer, era provável que já estivesse numa fria mesmo sem isso, considerando que estava indo me encontrar com um grupo de rebeldes. Virei para Angeline, que estava tentando decifrar umas anotações sobre equações de segundo grau.
— Angeline, você precisa ficar com Jill até a gente voltar — eu disse. — E não saiam do alojamento, só por segurança. Não fiquem passeando pelo campus.
Jill fez que sim, mas Angeline levantou os olhos, consternada.
— Tenho que encontrar Trey pra estudar. Como você quer que eu passe?
Eu não conseguia resistir a um argumento acadêmico.
— Estudem no saguão do alojamento. É seguro lá. Jill pode ficar fazendo os trabalhos dela com vocês.
Angeline não pareceu inteiramente satisfeita com a alternativa, mas não voltou a protestar. Ela fez menção de voltar para o caderno e então olhou de novo para mim.
— Por que você está com essa blusa? — ela perguntou. — Está calor hoje. — Era verdade. As temperaturas quentes fora de época haviam voltado.
Para minha surpresa, Eddie concordou com ela.
— Estava pensando a mesma coisa.
— Ah, hum... — Por favor, não fique vermelha, não fique vermelha, pedi a mim mesma. — Só estou com frio hoje.
— Que estranho — Jill disse, completamente inexpressiva. — Para alguém que costuma ser tão fria, até que você consegue esquentar bem rapidinho.
Era uma frase típica de Adrian. Jill sabia perfeitamente por que eu estava com a gola rolê, e lancei um olhar de recriminação para ela. Eddie e Angeline pareciam completamente confusos. Levantei, apesar de mal ter tocado na comida. Isso ninguém estranharia.
— Bom, preciso ir. Encontro você depois, Eddie. — Saí apressada antes que alguém pudesse me questionar mais.
Estava um pouco hesitante em deixar Eddie conhecer Marcus. Eddie certamente não o denunciaria — e com certeza não me denunciaria — para os alquimistas por conspiração. Ainda assim, não queria que Eddie pensasse que os alquimistas estavam envolvidos em esquemas perversos contra os Moroi. Ele poderia muito bem repassar a informação ao seu grupo, o que, por sua vez, poderia causar inúmeros problemas diplomáticos. A mera suspeita de que os alquimistas pudessem estar em contato com os guerreiros era perigosa. Mas decidi que ter Eddie como proteção valia o risco de ele ouvir algo que não devesse ouvir. Ele era meu amigo, e eu confiava nele. No entanto, precisei dar algumas informações básicas durante o trajeto para San Bernardino.
— Quem são exatamente essas pessoas? — ele perguntou.
— Ex-alquimistas — eu disse. — Eles não gostam de todos os procedimentos e da burocracia. Querem interagir com os Moroi e dampiros à sua maneira.
— Não parece tão mau. — Eu podia notar a cautela em sua voz. Eddie não era bobo. — Por que quis que eu fosse com você?
— Não sei muito sobre eles, só isso. Acho que têm boas intenções, mas vamos ver. — Escolhi as palavras seguintes com cuidado. Não podia deixar de avisá-lo. — Eles têm muitas teorias conspiratórias. Alguns até... hum... acham que pode haver alquimistas trabalhando com os guerreiros.
— O quê? — Foi uma surpresa o queixo dele não ter caído.
— Eles não têm nenhuma prova concreta — acrescentei rápido. — Tem uma guerreira que espiona para eles. Ela acha que ouviu alguma coisa... mas tudo me parece meio estranho ainda. Eles querem que eu ajude a investigar, mas não acho que exista mesmo algo do tipo. Quer dizer, os alquimistas ajudaram a arquitetar a invasão, não foi? Deter uma execução ritualística não ajudaria muito a promover as relações entre os grupos.
— Não mesmo — ele admitiu, mas ficou claro que não estava totalmente à vontade.
Decidi passar para um assunto mais seguro. Não tinha por que me preocupar com Marcus e os outros Vingadores (não conseguia tirar da cabeça o nome que Adrian tinha dado) até ouvir o que eles tinham a dizer.
— Como vão as coisas? — perguntei. — Com Angeline? E Jill? Estou tão ocupada com, hum, outras coisas que acho que não estamos conversando direito.
Ele demorou para responder.
— Tudo calmo com Jill, o que é bom. Queremos que as coisas fiquem o mais paradas possível pra ela. A situação com Micah melhorou também. Muitos amigos dele não falavam mais com ela depois do término. Mas ele superou bem e agora eles estão amigos... então, os outros acharam que também podiam se reaproximar.
— Que alívio.
Quando chegamos a Amberwood, Jill tivera problemas para se adaptar. Namorar Micah abrira vários círculos sociais para ela, e eu estava com medo do que poderia acontecer agora que eles tinham terminado. As coisas haviam piorado quando eu a proibi de modelar para uma estilista teimosa, Lia DiStefano, que arriscou expô-la. Para Jill, foi como se tivesse perdido tudo que conquistara, por isso fiquei contente ao saber que as coisas estavam voltando a dar certo para ela.
— É fácil gostar da Jill — acrescentei. — Aposto que a maioria deles está feliz por continuar amigo dela.
— Pois é. — Foi tudo o que ele disse, mas havia muitas emoções nessas duas palavras. Me voltei para ele e encontrei um olhar sonhador em seu rosto. Micah poderia ter superado Jill, mas Eddie não. Fiquei me perguntando se ele mesmo sabia disso.
— Como está Angeline?
O olhar sonhador se desfez e ele franziu a testa.
— Confusa.
Eu ri.
— Como sempre.
— Ela vai de um extremo a outro. Quando começamos a sair, ela, hum, não conseguia desgrudar de mim. — Não sabia exatamente o que isso queria dizer, e não queria pensar muito a respeito. — Agora mal consigo um tempinho pra ficar sozinho com ela. Ela começou a jogar basquete por algum motivo. Acho que está meio fascinada pelo jogo ter tantas regras, comparado às insanidades que os Conservadores fazem pra se divertir. E está realmente dedicada a melhorar aquela nota de matemática também. Acho que isso é bom. — Ele não parecia ter tanta certeza. Já eu fiquei mais que satisfeita.
— Acho que a possibilidade de ser expulsa realmente a deixou com medo. Apesar de toda a dificuldade pra se adaptar aqui, Angeline não quer voltar pra casa. — Quando Rose estava fugindo, eu a escondi com Dimitri entre os Conservadores. Foi lá que conheci Angeline e, mesmo naquela época, ela tinha implorado para que Rose a tirasse daquele mundo rural. — Dê um tempo pra ela. Isso vai se resolver e o... hum... entusiasmo dela vai voltar.
Chegamos ao endereço em San Bernardino, uma loja de ferragens que parecia um local estranho para uma reunião secreta. Parei o carro no estacionamento e mandei uma mensagem para Marcus dizendo que estávamos lá. Não houve resposta.
— Que estranho — eu disse. — Tomara que ele não tenha mudado de ideia.
Eddie tinha deixado seus problemas amorosos de lado e estava com aquele olhar alerta de guardião.
— Aposto que estamos sendo observados. Se eles são tão paranoicos quanto você diz, a reunião não deve ser aqui. Eles mandaram você vir pra cá e estão procurando sinais para ver se fomos seguidos.
Olhei para ele, admirada.
— Nunca teria pensado numa coisa dessas.
— É por isso que vim também — ele disse, com um sorriso.
Dito e feito. Dez minutos depois, Marcus me mandou uma mensagem com outro endereço. Pelo jeito, tínhamos passado no teste. O novo local era outro lugar barulhento e movimentado: um restaurante familiar com atores andando de um lado para o outro em fantasias de animais gigantes. Era ainda mais absurdo que o fliperama, se é que isso era possível.
— Ele sempre escolhe os lugares mais estranhos — comentei.
Eddie estava olhando ao redor.
— É genial, na verdade. Barulhento demais para alguém ouvir. Uma saída na frente e outra nos fundos. E, se os alquimistas aparecessem, imagino que não fariam um escândalo diante de tantas crianças, fariam?
— Acho que não.
Marcus nos encontrou na entrada e nos chamou com um gesto.
— Oi, linda. Venha, temos uma mesa. — Ele parou para apertar a mão de Eddie. — Prazer. É sempre bom ganhar reforços para a causa.
Eu não sabia ao certo o que esperar dos Vingadores. Talvez um bando de renegados brutos, com cicatrizes de batalha e tapa-olho, como Wolfe. Em vez disso, o que encontramos foi um casal dividindo um prato de nuggets. Eles tinham lírios dourados na bochecha.
Marcus nos levou até duas cadeiras.
— Sydney, Eddie. Estes são Amelia e Wade.
Nos cumprimentamos.
— Sabrina não está com vocês? — perguntei.
— Ah, ela está aqui, sim — Marcus disse, em um tom enigmático.
Entendi a indireta e olhei ao redor. Eu não era a única que tinha levado proteção. Sabrina estava escondida em algum lugar no meio da multidão, à espreita. Talvez vestindo uma fantasia de animal. Fiquei me perguntando se ela teria levado a arma para um lugar como aquele.
Amelia nos ofereceu a comida.
— Querem um pouco? A gente pediu uma porção de queijo também.
Recusei. Apesar da minha decisão de comer mais, frituras ainda estavam fora de questão.
— Vamos ao que interessa — eu disse. — Vocês iam me contar sobre as tatuagens e essa tarefa misteriosa que têm para mim.
Wade riu.
— Ela já quer pôr a mão na massa.
— É a minha garota — Marcus disse, mas era como se ele dissesse: É por isso que precisamos dela para a causa. Ele esperou até que uma garçonete vestida de gato trouxesse a porção de queijo e anotasse nossos pedidos. Pelo menos imaginei que fosse uma garçonete. Era difícil definir o gênero por trás da fantasia.
— O processo da tatuagem é simples — Marcus disse, depois que a garçonete se afastou. — Falei pra você que os alquimistas conseguem colocar compulsão Moroi nela, certo? Para limitar a comunicação... entre outras coisas, se necessário.
Eu ainda não sabia se deveria acreditar na ideia de controle mental através das tatuagens, mas deixei que ele continuasse.
— Quando os Moroi ajudam a fazer a tinta com o sangue, os usuários de terra colocam a compulsão que evita que falemos sobre vampiros. A magia de terra está em harmonia com os outros três elementos: ar, água e fogo. Essa harmonia dá poder à tatuagem. Então se você conseguir um pouco de tinta mágica e pedir para um Moroi desfazer a magia de terra nela, isso destrói o laço com os outros elementos e acaba com qualquer compulsão lá dentro. É só injetar essa tinta “rompida” na tatuagem que ela vai quebrar a harmonia dos outros elementos também, o que, por sua vez, destrói todas as outras coerções que os alquimistas possam ter colocado nela.
Eddie e eu ficamos olhando.
— É “só” isso que eu preciso fazer? — perguntei, incrédula.
— É mais fácil do que parece — Amelia disse. — A parte difícil... Bom, Marcus acrescentou outra etapa ao processo. Não é estritamente necessária... mas ajuda.
Estávamos ali havia dez minutos, e eu já estava com dor de cabeça.
— Você decidiu improvisar um pouco?
A risada que Marcus soltou era contagiante como sempre... exceto que, mais uma vez, a situação não era muito engraçada. Ele fez uma pausa, parecendo esperar que ríssemos também. Quando não rimos, retomou a explicação.
— É um ponto de vista. Mas Amelia está certa: ajuda. Antes de deixar qualquer pessoa romper a tatuagem, peço que realizem uma tarefa. Uma tarefa que vá diretamente contra os alquimistas.
Eddie não conseguiu mais se conter.
— Como um ritual de iniciação?
— Mais do que isso — Marcus respondeu. — Tenho uma teoria de que, ao fazer algo assim, que desafie todo o treinamento que você teve, a compulsão enfraquece um pouco. Normalmente a tarefa envolve infiltração e ajuda a causa. Esse enfraquecimento ajuda a nova tinta a surtir efeito. Além disso, é um bom teste. Desativar a tatuagem não significa que você esteja pronta pra sair. Não desfaz anos de condicionamento mental. Tento encontrar pessoas que se consideram prontas pra se rebelar, mas, às vezes, na hora H, elas dão para trás. Melhor descobrir antes de mexer na tatuagem.
Me virei para Amelia e Wade.
— E vocês dois fizeram isso? Cumpriram um desafio e então suas tatuagens foram desativadas?
Os dois assentiram.
— Só precisamos selar com o azul agora. — Ao notar minha confusão, Wade explicou: — Mesmo depois de romper os elementos, a tatuagem ainda pode ser retocada. Alguém poderia fazer isso à força e compelir você. Tatuar em cima com tinta azul garante que você nunca volte a ser controlado.
— E eu aqui achando que a sua era só uma escolha estética — eu disse a Marcus.
Ele tocou distraidamente as meias-luas.
— Ah, o desenho é. Mas a tinta é obrigatória. É uma mistura especial bem difícil de conseguir; só conheço um cara no México que faz. Vou levar Amelia e Wade para lá nas próximas semanas, pra selar a deles. Você pode ir com a gente.
Ignorei a sugestão maluca.
— Essa tinta azul não deixa meio óbvio para os alquimistas que alguma coisa está acontecendo?
— Ah, já saímos dos alquimistas — Amelia disse. — Não estamos mais com eles.
Mais uma vez, Eddie entrou na conversa.
— Mas vocês acabaram de falar sobre infiltração. Por que não continuar realizando missões secretas depois que os elementos estiverem rompidos? Ainda mais se isso já basta para libertar vocês? Suas tatuagens estão iguais às da Sydney agora. Se realmente acham que tem alguma coisa suspeita acontecendo, por que não trabalhar de dentro e esperar para selar a tatuagem?
— Muito arriscado — Marcus respondeu. — A pessoa poderia cometer um deslize e dizer algo que a tatuagem não deixaria antes. Ou, se não tomasse cuidado, eles poderiam vê-la indo encontrar os outros. Então a mandariam para a reeducação, onde consertariam a tatuagem.
— Pra mim parece que vale correr esse risco pra conseguir mais informações — eu disse. — Se a pessoa tomar cuidado...
Marcus fez que não, sem o bom humor de sempre.
— Conheço pessoas que tentaram. Elas achavam que ninguém estava desconfiando delas, e estavam erradas. Não vamos mais cometer esse erro. — Ele tocou a tatuagem de novo. — É assim que fazemos as coisas agora. Você completa a missão, rompe a tatuagem, sai dos alquimistas e sela a tatuagem. Depois, trabalhamos de fora. Também nos poupa a perda de tempo com os trabalhinhos rotineiros dos alquimistas.
— Então existem outros? — perguntei, entendendo o que ele havia insinuado.
— Claro. — Ele retomou o bom humor. — Você não achou que éramos só nós três, achou?
Para falar a verdade, eu não fazia ideia.
— Então é isso que está me oferecendo: uma promessa duvidosa sobre a minha tatuagem, mas só se eu cometer uma traiçãozinha por vocês.
— Estou oferecendo sua liberdade — Marcus corrigiu. — E a chance de ajudar os Moroi e os dampiros sem fazer parte de nenhuma conspiração. Do seu próprio jeito.
Eddie e eu nos entreolhamos.
— Por falar em conspiração — eu disse —, agora vocês poderiam me contar sobre essa suposta conexão entre alquimistas e guerreiros... aquela que vocês precisam que eu prove.
O trio nem percebeu o sarcasmo, de tão empolgados.
— Exato — Marcus disse. — Conte pra ela, Wade.
Wade terminou de comer um nugget coberto com molho ranch e então se debruçou sobre a mesa.
— Pouco antes de me juntar a Marcus, fui mandado para a base de St. Louis. Eu trabalhava nas operações, cuidando do acesso de visitantes, fazendo tours... nada muito interessante.
Assenti. Pelo menos aquilo me era familiar. Fazer parte dos alquimistas significava cumprir todo tipo de função. Às vezes, isso implicava destruir corpos de Strigoi. Às vezes, fazer café para supervisores em visita. Tudo em prol da causa maior.
— Vi muitas coisas. Quer dizer, você deve imaginar. — Ele pareceu conturbado. — As posturas severas. As regras rígidas. Alguns Moroi visitavam, sabe. Eu gostava deles. Ficava feliz por estarmos ajudando, apesar de todo mundo ao meu redor agir como se ajudar criaturas tão “malignas” fosse um destino terrível que éramos obrigados a cumprir. Eu aceitava porque pensava que nos diziam a verdade. Enfim, certa semana... juro, houve ataques de Strigoi sem parar em todo o país. Acontece às vezes, sabe. Os guardiões mataram a maioria deles, e os alquimistas em campo estavam ocupados acobertando tudo. Embora quase tudo estivesse resolvido, fiquei me perguntando por que sempre lidávamos só com as consequências se tínhamos tantos recursos. Tipo, eu não achava que deveríamos perseguir os Strigoi, mas deveria haver uma maneira de ajudar os Moroi e guardiões a serem mais proativos. Então... mencionei isso ao meu supervisor.
Marcus e Amelia estavam com expressões profundamente sinceras, e até eu estava curiosa.
— O que aconteceu? — perguntei baixinho.
O olhar de Wade parecia voltado para o passado.
— Fui muito repreendido. Meus superiores ficavam repetindo sem parar como era errado ter ideias como essa sobre os Moroi, que dirá falar esse tipo de coisa em voz alta. Eles não me mandaram para a reeducação, mas me suspenderam por duas semanas e, todo dia, eu tinha que ouvir sermões sobre como era uma pessoa terrível e que estava prestes a ser corrompido. Terminada a suspensão, eu já acreditava neles... até que conheci Marcus. Ele me fez perceber que eu não precisava mais levar aquela vida.
— Então você saiu — eu disse, sentindo um respeito inesperado por Marcus.
— Sim. Mas não antes de completar a missão que Marcus me deu. Consegui pegar a lista confidencial de visitantes.
Isso foi uma surpresa. Os alquimistas sempre estavam cobertos de segredos. Embora a maioria das nossas ações fosse registrada diligentemente, havia algumas coisas que os líderes do alto escalão não queriam que o resto da sociedade soubesse. Tudo, claro, pelo bem maior. A lista confidencial detalhava as pessoas que tinham acesso a essas coisas, mas que os chefões queriam manter em segredo. Não era algo que um alquimista comum poderia ver.
— Você é jovem — eu disse. — Não teria acesso a algo assim.
Wade riu.
— Claro que não. Por isso a tarefa foi difícil. Marcus não manda a gente cumprir tarefas fáceis. Precisei fazer muitas coisas perigosas, coisas que me deixaram feliz por ter fugido depois. A lista nos mostrou a conexão com os guerreiros.
— Estava escrito “Reunião ultrassecreta com caçadores de vampiros”? — Eddie perguntou. Além de suas habilidades de proteção, era por causa de momentos como aquele que eu gostava de tê-lo comigo.
Wade ficou sem graça com a ironia.
— Não. Ela estava toda codificada. Quer dizer, não dava nomes completos, só as iniciais. Nem eu consegui pegar os nomes completos. Mas um dos registros era Z. J.
Marcus e seus Vingadores me olharam com expectativa, como se isso devesse significar algo para mim. Voltei a olhar para Eddie, mas ele estava tão desorientado quanto eu.
— O que quer dizer? — perguntei.
— Zebulon Jameson — Marcus respondeu. Mais uma vez, houve um momento de expectativa. Não disse nada, e Marcus pareceu incrédulo. — Você esteve com os guerreiros. Não se lembra dele? Mestre Jameson?
Eu lembrava, sim. Era uma das autoridades do alto escalão dos guerreiros, um homem intimidador de barba grisalha que usava um manto dourado antiquado.
— Não sabia o primeiro nome dele — respondi. — Mas não é meio exagerado deduzir que ele seja o tal Z. J.? Talvez seja, sei lá, Zachary Johnson.
— Ou Zeke Jones — Eddie sugeriu.
A gata voltou com outra limonada para Marcus e logo tive a prova de que era uma mulher.
— Obrigado, querida — Marcus agradeceu, abrindo um sorriso que quase a fez perder os sentidos e derrubar a bandeja. Quando ele se voltou para nós, tinha retomado a postura profissional. — É aí que entra Sabrina. Pouco antes de Wade conseguir a lista, ela ouviu mestre Jameson falar com um de seus comparsas sobre uma viagem que faria a St. Louis, uma viagem em que poderia descobrir pistas sobre uma menina desaparecida. Foi na mesma época.
— É uma grande coincidência — eu disse. Mas, ao mesmo tempo, me lembrei de uma coisa que Sonya Karp sempre dizia sobre o mundo dos Moroi e dos alquimistas: Não existem coincidências.
— Quem é essa menina desaparecida de quem eles estavam falando? — Eddie perguntou, cauteloso.
Olhei para ele e imediatamente entendi o que estava pensando. Uma menina desaparecida em que os guerreiros estavam interessados. Havia uma menina desaparecida em que os Moroi estavam muitíssimo interessados também. E que os alquimistas estavam determinados em manter em segurança. Ela era o motivo pelo qual eu estava alocada em Palm Springs, aliás. Na verdade, eu estava fingindo ser irmã dela. Jill.
Não disse nada e voltei a me concentrar em Marcus.
Ele encolheu os ombros.
— Não faço ideia; só sei que encontrar essa menina causaria muitos problemas aos Moroi. Os detalhes ainda não importam. Antes, precisamos provar o contato entre os grupos.
Os detalhes eram imensamente importantes para mim e Eddie, mas eu não tinha certeza do quanto Marcus e seus amigos sabiam sobre Jill. Não podia demonstrar muito interesse.
— E é isso que vocês querem de mim? — perguntei, me lembrando da conversa anterior. — E como eu conseguiria isso? Visitando mestre Jameson e perguntando pra ele?
— Todos os visitantes são filmados quando passam pelas entradas de segurança — Wade disse. — Mesmo os ultrassecretos. Você só precisa roubar uma cópia desses vídeos. Estão todos armazenados nos computadores deles.
Aquelas pessoas tinham uma ideia muito diferente do significado da palavra “só”.
— Eu sou uma alquimista a trabalho em Palm Springs — eu os lembrei. — Não uma hacker. Nem fico em St. Louis! Como eu faria para entrar lá e roubar alguma coisa?
Marcus inclinou a cabeça para me examinar, fazendo com que alguns fios de seu cabelo dourado caíssem para a frente.
— Acho que você é perfeitamente capaz de improvisar. Não consegue encontrar um jeito de ir para St. Louis? Algum motivo pra fazer uma visita a alguém?
— Não! Eu não teria como... — Minha voz foi perdendo a força enquanto eu me lembrava do casamento. Ian, com seu olhar apaixonado, havia me convidado para visitá-lo em St. Louis. Ele tivera a audácia de usar as festas de fim de ano como uma maneira de aumentar suas chances comigo.
Os olhos de Marcus brilharam.
— Já pensou em alguma coisa, não pensou? Você é genial, eu sabia. — Amelia pareceu incomodada ao ouvir o elogio.
— Seria arriscado — eu disse.
— É sempre assim com a gente — Marcus retrucou.
Ainda não estava convencida.
— Conheço alguém lá, mas precisaria de permissão pra ir, o que não seria nada fácil. — Olhei para cada um deles. — Vocês sabem como é. Todos vocês já foram alquimistas. Sabem que não podemos simplesmente tirar férias quando temos vontade.
Wade e Amelia tiveram o pudor de parecer constrangidos, mas Marcus não se deixou abater.
— Você vai deixar essa chance passar? Mesmo que não queira se juntar a nós ou alterar a tatuagem, pelo menos considere. Você viu os guerreiros. Viu do que são capazes. Pode imaginar o que aconteceria se tivessem acesso aos recursos alquimistas?
— É tudo circunstancial — argumentou a cientista dentro de mim.
— Sydney — Eddie disse.
Me virei para ele e vi algo em seu olhar que jamais esperaria: súplica. Ele não ligava para as conspirações alquimistas ou para os Vingadores de Marcus. Mas se importava com Jill, e tinha ouvido algo que o fez pensar que ela poderia estar em perigo. Isso era inaceitável para ele. Ele faria qualquer coisa em seu poder para mantê-la segura, mas mesmo ele sabia que não era capaz de roubar informações dos alquimistas. Eu também não era, mas ele não sabia disso. Confiava em mim, e agora, silenciosamente, estava implorando para que eu ajudasse.
Marcus aproveitou o momento:
— Você não tem nada a perder... quer dizer, se não for pega. Se conseguir as imagens e não encontrarmos nada... bom, que seja. Alarme falso. Mas se tivermos provas concretas de que Jameson esteve lá, não preciso nem dizer a importância disso. Seja como for, você deveria romper a tatuagem e se juntar a nós. Além disso, depois de uma façanha como essa, realmente gostaria de continuar com os alquimistas? — Ele me olhou fixamente. — Mas a decisão é sua. Só nos ajude com isso por enquanto.
Contrariando todo o meu bom senso, minha mente já estava começando a pensar em maneiras de realizar a tarefa.
— Eu precisaria de muitas informações sobre as operações — murmurei.
— Posso fornecer essas informações a você — Wade se voluntariou prontamente.
Não respondi. Aquilo era uma maluquice — uma ideia maluca de um grupo maluco. Mas olhei para a tatuagem de Marcus e para a maneira como os outros o seguiam... a maneira como a própria Sabrina o seguia. Eles tinham uma dedicação, uma confiança inabalável que nada tinha a ver com os flertes bobos de Marcus. Era possível que realmente estivessem certos.
— Sydney — Eddie disse novamente. E dessa vez acrescentou: — Por favor.
Senti minha determinação enfraquecer. Uma menina desaparecida, que poderia causar muitos problemas se fosse encontrada. Se realmente estivessem falando de Jill, como eu poderia correr o risco de que alguma coisa acontecesse a ela?
Mas e se eu fosse pega?
Não seja pega, uma voz interior me disse.
Com um suspiro, me virei para Wade.
— Certo — eu disse. — Me passe as informações.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)