30 de outubro de 2017

Capítulo 11

Adrian

CONTINUAMOS PARADOS NO MEIO DA MATA, Declan ainda no meu colo. Por incrível que pareça, ele tinha pegado no sono, felizmente sem saber em que mundo confuso e desolador tinha acabado de nascer. Sydney recostou em mim e coloquei o braço em volta dela como pude, sem deixar de segurar Declan firme. Rose e Dimitri estavam perto, observando aflitos enquanto Olive era levada cerimoniosamente.
— Precisamos agir rápido — eu disse, ainda em voz baixa. — Para honrar o último desejo dela.
Sydney ergueu os olhos e piscou algumas vezes para conter as lágrimas.
— Você não acha mesmo que… Quer dizer, você acredita nela? Nessa história do Neil?
Não respondi na hora.
— Eu os vi na Corte. Você também. Quando tudo isso começou, era impossível acreditar que ela ficaria com outro cara. Agora entendo. E, olhando para ele, para Declan, sei lá… É difícil explicar, mas tem alguma coisa especial nele. Na aura dele. É como se tivesse uma leve cobertura de espírito, do tipo que eu e Sonya tentamos criar. Ele tem naturalmente.
Sydney perdeu o fôlego.
— Se for o caso, muitas pessoas vão se interessar por ele.
— Elas não podem descobrir a existência dele — eu disse, obstinado. — Olive estava certa em relação a isso e prometi que manteria o bebê em segredo. É o mínimo que posso fazer já que falhei com ela.
— Adrian…
Não deixei Sydney terminar.
— Precisamos escondê-lo. Você vai me ajudar?
Seu rosto estava cheio de preocupação por mim, mas ela não hesitou na resposta.
— Você sabe que nem precisa perguntar.
Dei um beijo na sua testa.
— Vamos precisar de ajuda. — Chamei Rose e Dimitri. Eles se aproximaram na hora.
Rose engoliu em seco, com lágrimas brilhando em seus olhos castanhos.
— Adrian, sinto muito. Não havia nada que ninguém pudesse fazer.
Bom, tia Tatiana comentou, você poderia ter feito alguma coisa se não tivesse sido tão descuidado com o espírito.
— Não temos tempo pra isso — eu disse, enérgico. — Preciso da ajuda de vocês. O que vai acontecer com Declan agora? Você sabe mais sobre esse tipo de lugar, Dimitri. Qual é o protocolo quando a mãe morre? Preciso saber se podemos levá-lo.
— Quem é Declan? — Rose perguntou.
Apontei com a cabeça para o bebê nos meus braços, ainda embrulhado no casaco de alguém.
A expressão de Dimitri era difícil de interpretar.
— Se ela tivesse parentes morando no acampamento, ficaria com eles. Tenho certeza que também poderíamos entrar em contato com a família dela lá fora, quem quer que tenha sobrado. Tem também uma tradição…
— Que tradição? — insisti.
Ele encarou o bebê com insegurança antes de continuar.
— Uma antiga tradição entre dampiros, especialmente entre os que vivem em lugares perigosos e condições incertas. A pessoa para quem a mãe entrega o bebê vira seu guardião. Como falei, é uma coisa antiga, mas imagino que seja por isso que Olive insistiu tanto para ver você. E também por que Lana ainda não tentou tirar o bebê dos seus braços. Tenho certeza de que assim que você falar com ela…
— Não — interrompi. — É perfeito.
— Você… quer o bebê? — Rose perguntou, sem disfarçar como achava a ideia improvável.
— Quero tirar o bebê daqui — eu disse. — Quero que o mínimo possível de gente saiba sobre ele. Ou que está comigo. — Lembrei que Lana e as duas dampiras guerreiras estavam perto. Não tinha certeza se havia mais alguém quando Olive fora encontrada. — Vocês podem conversar com Lana? Falar pra ela que estamos levando o bebê para a família de Olive mas que é segredo? E peçam pra ela não comentar com ninguém sobre meu envolvimento. Se não fizermos alarde, a maioria das pessoas vai pensar que estamos levando o bebê para o parente mais próximo. Prefiro que seja o mais discretamente possível. Não quero que ninguém mais o procure ou pense sobre ele.
Rose e Dimitri se entreolharam, compreensivelmente confusos.
— Adrian, o que está acontecendo? — Dimitri perguntou.
— Não posso falar — respondi. — Não por enquanto. Mas acreditem em mim quando digo que a vida desse bebê depende de como agirmos agora. Vocês vão nos ajudar?
Era uma justificativa difícil de contrariar, e também não era mentira. À medida que voltávamos ao centro da comunidade, meu poder foi voltando devagar. E, cada vez que sintonizava a aura de Declan, ao observar com muita atenção podia ver aquela mesma infusão de espírito. Seria improvável que alguém notasse a menos que estivesse procurando por isso.
E entendi claramente por que Olive tinha ficado com tanto medo. Por que tinha dado as costas a todos que conhecia e fugido para um buraco no meio da floresta. O que havia acontecido, o que estava segurando nos braços não deveria existir. Dois dampiros não tinham como conceber outro dampiro. Isso era contra uma das regras biológicas mais básicas do nosso mundo. Era impossível, mas ali estava ele.
Ele era um milagre.
Mas Olive estava certa: iam querer estudar Declan, trancafiá-lo e fazer experiências. E, embora reconhecesse que o nascimento dele era extraordinário, não permitiria que sua vida se transformasse numa série de experimentos e olhares curiosos, ainda mais depois de sua mãe ter morrido para protegê-lo disso.
Dimitri conversou com Lana em particular e, fosse por causa da tradição dampira ou pela reputação dele (talvez ambas), ela aceitou todos os nossos pedidos. Lana nos ofereceu uma cabana vazia para ficarmos até o amanhecer. Quando pedimos suprimentos, ela os mandou através de Rose ou Dimitri, para que Declan fosse exposto o menos possível ao resto da comunidade. Eu precisava garantir que elas não pensassem nele.
Precisava que esquecessem de sua existência.
Claro, isso significava que eu e Sydney ficamos responsáveis por cuidar dele durante aquela noite. E em poucas horas aprendi mais do que jamais imaginaria aprender sobre bebês. Sydney conseguiu pesquisar algumas informações no celular, reconfortando-se em fatos e lógica. No entanto, o sinal de lá era péssimo, e às vezes era mais fácil adivinhar do que esperar uma resposta. Felizmente, Declan era bonzinho e se mostrou bastante afável enquanto descobríamos as coisas juntos. Ele esperou pacientemente enquanto eu e Sydney líamos as instruções detalhadas da lata de leite em pó que Lana mandou. Não reclamou quando coloquei sua fralda ao contrário na primeira vez. Quando ficou cansado de novo e começou a chorar, eu não tinha mais ideias. Sydney deu de ombros, sem saber o que fazer quando a encarei. Então simplesmente andei pela sala com ele no colo, cantando rock clássico até ele pegar no sono.
Rose passou por lá algumas vezes e parecia ter mais medo do bebê do que teria de um Strigoi. Ela me encarou com admiração.
— Você tem jeito pra isso — ela comentou. — Adrian Ivashkov, o encantador de bebês.
Observei o bebê adormecido.
— É tudo de improviso.
— Já pode nos falar o que está acontecendo? — ela perguntou, com uma expressão séria. — Você sabe que só queremos ajudar.
— Ainda não posso. Mas se pudermos sair quando Dimitri voltar, isso seria…
O celular de Sydney tocou anunciando uma mensagem. Pareceu surpresa por alguém estar procurando por ela até encarar o celular.
— É a sra. Terwilliger. Ela mobilizou as bruxas de Palm Springs. Estão prontas para começar a busca.
Rose se levantou.
— Por Jill?
— Tecnicamente por Alicia, mas por Jill também — Sydney respondeu. — Ela falou que podemos nos juntar a elas… — Ela me encarou com insegurança e pude adivinhar seus pensamentos. Nós havíamos feito esse desvio até Michigan porque tínhamos tempo para gastar enquanto esperávamos que as coisas estivessem prontas em Palm Springs. Ter um bebê com a gente não estava nos planos.
Sydney, Jill e agora Declan, tia Tatiana comentou. Tanta gente contando com você. Tanta gente para você decepcionar caso faça besteira.
— Espero que você esteja me incluindo nesse “nós” — Rose disse, decidida. — Estou pronta para levar Jill de volta pra casa.
— Palm Springs — murmurei, ainda embalando Declan. — Seria perfeito. Podemos esconder o bebê lá.
— Não podemos levar um bebê numa caça às bruxas — Sydney advertiu.
Concordei.
— Toma. Segura enquanto ele está dormindo.
Sydney tirou Declan dos meus braços com cuidado e me encarou inquisitiva enquanto eu pegava o celular. Meu sinal também estava ruim, mas dava pra fazer uma ligação para minha mãe.
— Adrian? — ela atendeu em pânico. — Onde você está? Estava tão preocupada depois que aquela tal de Charlotte teve um ataque! Você está bem?
— Sim… quer dizer, não. É complicado. Mas preciso que você me encontre em Palm Springs o mais rápido possível. Vou pra lá daqui a pouco. Pode fazer isso?
— Sim… — ela começou, incerta. — Mas…
— Não posso contar o que está acontecendo — eu disse, rápido. — Não por enquanto.
— Eu sei, meu filho. Não era isso que ia perguntar. Estava pensando o que fazer com o gato e o dragão enquanto estiver fora…
Boa pergunta.
— Ah. Hum, vê se a Sonya pode cuidar deles.
Desliguei e vi que Dimitri estava na cabana.
— Estamos indo para Palm Springs? — ele perguntou.
— Hora de procurar Jill — Rose disse.
— Se vocês estiverem dispostos — acrescentei.
Dimitri ergueu uma cadeirinha de carro com uma mão, o que era quase cômico.
— Podemos ir quando estiverem prontos. Lana nos deu isso e jura que é fácil de instalar.
Rose deu risada.
— Ah, isso eu quero ver, camarada! Dimitri Belikov, deus da violência, instalando uma cadeirinha de bebê no carro.
Ele sorriu bem-humorado e ficamos andando de um lado para o outro juntando nossas coisas. Sydney precisou ligar para Jackie e, como eu estava com as mãos ocupadas, entregou Declan para Rose.
— É só embalar — eu disse, percebendo o pânico dela.
Rose ficou pálida mas obedeceu, ouvindo uma risada de Dimitri.
— Rose Hathaway, famosa rebelde, mostrando seu lado maternal.
Ela mostrou a língua para ele.
— Aproveita enquanto pode, camarada. Isso é o máximo que você vai ver.
Quase derrubei a mala quando uma ideia surpreendente passou pela minha cabeça. Olive havia dito que ela e Neil dormiram juntos antes de ele ser injetado com o espírito. Isso significava que o que quer que tivesse causado a concepção de Declan era resultado da restauração dela do estado Strigoi. Será que isso também se aplicaria a Dimitri? Ou só funcionava em mulheres? Rose e Dimitri estavam rindo e fazendo piada porque ter filhos no futuro era impossível para os dois… mas será que eles faziam ideia de que poderiam ter uma chance? Será que gostariam?
Você tem muito poder sobre eles, tia Tatiana sussurrou. Poder de criar ou acabar com a felicidade deles.
— Adrian? — Rose me chamou ao notar meu rosto atordoado. — Você está bem?
— Sim — eu disse, voltando a me mexer lentamente. — Só tentando me acostumar com tudo isso.
Quando finalmente saímos, com Declan nos meus braços novamente, era impossível impedir que as pessoas o notassem. Elas andavam de um lado para o outro, tentando se recuperar das consequências terríveis do ataque Strigoi. A maioria estava concentrada demais nas suas coisas, mas algumas me viram e quiseram falar comigo e me agradecer por tê-las curado.
— Obrigada, obrigada — Mallory exclamou, correndo e apertando meu braço. — Me contaram como eu estava mal. Poderia não ter sobrevivido se não fosse por você!
Se não tivesse feito isso, será que Olive ainda estaria viva?, me perguntei. Mas sorri e respondi gaguejando que estava contente por ela estar bem. Quando chamou algumas amigas que tinham sido feridas, entreguei rápido o bebê para Sydney.
— Vocês dois, fiquem escondidos — murmurei. Um bebê e uma ex-alquimista eram memoráveis demais, e essa era a última coisa de que precisávamos agora.
Sydney obedeceu, afastando-se rapidamente de mim e do meu fã-clube, seguida por Dimitri.
— Encontre a gente no carro — ele gritou para mim.
Assenti e voltei a encarar as dampiras que havia curado. Recebi a gratidão delas da maneira mais educada possível, mas não conseguia parar de pensar que Olive deveria estar entre elas. Algumas mencionaram seu nome, expressando a tristeza da perda, mas ninguém perguntou sobre o bebê. Pensei que estava livre quando finalmente se dispersaram, mas outra voz me chamou. Virei e encontrei Lana vindo na minha direção.
— Uma pena o que aconteceu — ela disse, com os olhos cheios de tristeza. Ela parecia ter envelhecido anos ao longo do dia. — Queria que tivesse sido diferente.
— Eu também — concordei.
— Dimitri não me contou o que está acontecendo, mas vou respeitar os desejos dele e os seus também. Não sei por que o sigilo, mas vi o rosto de Olive quando ela estava falando com você pouco antes de morrer. — Lana parou e esfregou os olhos. — Alguma coisa a estava consumindo, isso ficou claro. Ela confiou esse segredo a você, junto com o bebê. Isso já basta para mim. Fico feliz em ajudar no que for preciso.
— Ajude esquecendo que estivemos aqui — eu disse baixo. — E o bebê.
— Claro — Lana disse. Ela limpou a garganta. — Mas tenho uma pergunta desagradável.
Só uma?, indagou tia Tatiana.
— O que você gostaria que fizéssemos com o corpo? — Lana perguntou.
Levei um susto. Nem tinha pensado nisso. Olive estava morta. Tinha visto a luz da sua aura apagar diante dos meus olhos. Ter que tomar essa decisão nem tinha passado pela minha cabeça.
— Hum, o que vocês fariam normalmente?
Lana deu de ombros.
— Poderíamos mandar o corpo para a família para ser enterrado ou cremado. Ou para um lugar em Houghton, se quiserem resolver isso logo. O alquimista deixou um pouco daquela substância química aqui, a que dissolve os corpos. Disse que poderíamos usar se precisássemos.
Meu estômago se revirou. A ideia de o corpo de Olive passar pelo mesmo processo que o de um Strigoi era nauseante, ainda mais depois de tudo que ela havia sofrido para não ser mais um deles. No entanto, eu tinha visto do que a substância química era capaz. Destruiria os restos de Olive completamente, apagando as evidências de que ela teve um bebê. Fechei os olhos e senti o mundo girar ao meu redor.
— Adrian? — Lana perguntou. — Você está bem?
Abri os olhos.
— Use a substância. É o que ela iria querer.
Lana arqueou a sobrancelha, mas eu não podia explicar. Não podia contar que Olive não gostaria de correr o risco de que o corpo dela fosse enviado a uma casa funerária ou de volta à família, porque as pessoas descobririam que ela havia tido um filho e fariam perguntas. Olive tinha morrido para manter Declan em segredo. Essa era outra parte terrível do seu legado.
— Está bem — Lana disse. — Estava falando sério: realmente vou manter isso embaixo dos panos. Minhas meninas também. Vou fazer de tudo para que permaneça em sigilo. Este grupo sabe guardar segredo.
— Obrigado. Por tudo. — Fiz menção de me virar, mas ela me segurou pelo braço.
— Ah, o que falo pro seu tio? Ele estava perguntando de você.
Não queria falar com meu tio, ainda mais porque tinha certeza de que ele não era capaz de guardar segredo. Não queria que ele me perguntasse sobre Olive ou o que aconteceria com o filho dela.
— Não fale nada — respondi. — Só diga que fui embora.
Outro longo dia de viagem passou, ainda mais complicado pelo fato de estar com um bebê que precisava ser alimentado a cada três horas. Não dava para pegar um voo partindo de Houghton, então seguimos para Minneapolis. Tivemos de parar várias vezes ao longo do caminho, até finalmente estacionarmos no aeroporto de lá para pegar um voo de última hora para o Aeroporto Internacional de Los Angeles. Ao longo de toda a viagem, Sydney e eu dividimos nossa atenção entre cuidar de Declan e entrar em contato com o pessoal em Palm Springs. Confirmei que Neil já havia chegado lá, seguindo nossos planos prévios, mas não lhe contei nada sobre Olive nem sobre Declan. E, até falar com ele, também precisava esconder de Rose e Dimitri, por mais que odiasse isso. Achava que não deveriam saber a verdade antes de Neil.
— É o primeiro de vocês?
— Oi?
Enquanto o avião pousava em Los Angeles, estava me esforçando para embalar Declan, que estava inquieto, sem poder tirar o cinto de segurança. Em vez de usar brinquedos de bebê de verdade, Sydney tentava distraí-lo sacudindo um chaveiro em cima dele, por mais que tivesse lido num artigo que recém-nascidos não conseguiam enxergar de muito longe. A pergunta vinha de uma senhorinha sentada do outro lado do corredor.
Ela apontou com a cabeça para Declan.
— É o primeiro filho de vocês? — ela esclareceu.
Eu e Sydney nos entreolhamos, sem saber direito como responder.
— Hum, sim — respondi.
A velhinha abriu um sorriso.
— Imaginei. Vocês são tão atenciosos! Tão dedicados. Mas não se preocupem. Não é tão difícil quanto pensam. Vocês vão se acostumar. Parecem ter talento pra coisa. Aposto que terão uma penca de filhos! — Ela riu consigo mesma enquanto o avião pousava.
Quando chegamos a Palm Springs, Declan era o único que não estava exausto. Fazia dias que nenhum de nós tinha uma noite de sono decente, mas continuamos em frente com o máximo de energia possível. Mais uma vez, Dimitri se incumbiu de dirigir e nos levou até a casa de Clarence Donahue, que oferecia um abrigo relativamente seguro e uma fonte de sangue que eu precisava muito. Clarence era um velho Moroi recluso que havia nos ajudado no passado. Ficou contente ao nos ver quando sua governanta nos levou até a sala. Fiquei feliz ao encontrar minha mãe sentada lá com ele.
— Mãe — eu disse, dando um forte abraço nela.
— Minha nossa — ela disse, quando, relutante, soltei o abraço. — Faz só alguns dias, meu filho.
— Muita coisa aconteceu nesse período — falei com sinceridade, lembrando de toda vida e morte que havia presenciado naqueles dias. — E acho que muita coisa ainda vai acontecer quando Sydney avisar as amigas que chegou. Vamos ficar bem ocupados e, hum, preciso da sua ajuda com uma coisa.
Dei um passo para o lado, revelando o bebê dormindo na cadeirinha que Sydney segurava.
Minha mãe observou o bebê confusa, depois encarou Sydney e se voltou para mim, com os olhos arregalados.
— Adrian — ela exclamou. — Isso não é… quer dizer, como é possível…?
— Não é meu — eu disse, cansado de explicar. — O nome dele é Declan e estou cuidando dele pra uma amiga. Mas vou precisar que fique com ele enquanto vamos atrás de Jill. Não tem mais ninguém em que posso confiar.
Como se reconhecesse seu nome, Declan abriu os olhos e nos observou solene.
Sinceramente não sabia como minha mãe reagiria ao pedido. Ela sempre considerou os dampiros inferiores e, certa vez, quase tivera um ataque quando levei Rose para casa num encontro. Depois que ela aceitou meu casamento com Sydney, eu havia comentado que ela precisava se acostumar à ideia de ter netos dampiros. Minha mãe desconversou dizendo que entendia, mas eu achava que ela só estava deixando essa preocupação para outro dia.
Como ela reagiria agora ao cuidar de um bebê dampiro?
Tirei Declan da cadeirinha com cuidado e fui pego de surpresa quando minha mãe o arrancou dos meus braços.
— Olha só você — ela disse com a voz melosa, segurando-o embaixo dos bracinhos. — Que menininho lindo! Quem é o menino mais lindo?
Lembro quando você era o menino mais lindo dela, tia Tatiana comentou.
Minha mãe tirou os olhos dele.
— Vocês deviam colocar uma roupa mais leve nele — ela falou. — Esse pijaminha é muito pesado.
— Hum, é tudo o que temos — eu disse. Apontei para uma sacola de mercado que Rose havia colocado na mesa. — Sério, tudo que ele tem está ali dentro.
— Onde ele vai dormir? — minha mãe perguntou.
— Estamos usando a cadeirinha do carro.
Ela soltou um suspiro alto.
— Ai, Adrian. Parece aquela vez em que você trouxe um filhotinho de cachorro do vizinho pra casa e ficou surpreso quando descobriu que tinha que dar comida pra ele todo dia.
— Ei — respondi. — A gente já deu comida pra esse moleque várias vezes.
— Sydney, querida — minha mãe acrescentou —, esperava mais bom senso da sua parte, já que não dá pra esperar isso do Adrian. Você obviamente sabe que um bebê precisa de muitas coisas.
Sydney ficou em choque por um momento, o que era compreensível. Tinha quase certeza que minha mãe nunca a chamara de “querida” antes, e acho que Sydney ficou sem saber se sentia-se lisonjeada pelo termo carinhoso ou repreendida pela falta de “bom senso”.
— Sim, sra. Ivashkov — Sydney disse, por fim. — É por isso que queríamos que a senhora estivesse aqui enquanto resolvíamos as coisas. Sabemos que vai conseguir tudo que ele precisa.
— Sra. Ivashkov é você agora — minha mãe corrigiu. — Me chame de Daniella.
Essa foi outra surpresa para Sydney, mas o espanto foi interrompido pelo toque de seu celular.
— É a sra. Terwilliger — ela disse, saindo da sala ao atender.
Ela voltou alguns minutos depois, com um rosto eufórico.
— As bruxas da cidade vão começar a busca amanhã de manhãzinha — ela nos contou. — Anotei o ponto de encontro. Eddie e Neil vão nos encontrar. Até lá, vamos ficar escondidos.
Ela gaguejou um pouco ao dizer o nome de Neil, observando Declan enquanto falava. Entendi como se sentia. Em algum momento, depois que as coisas estivessem resolvidas, Neil teria que saber que era pai. A ideia ainda me fazia hesitar. Era de se esperar que, depois de tudo que eu tinha passado a aceitar — Strigoi sendo restaurados, mortos trazidos de volta à vida —, conseguiria levar a ideia de dois dampiros concebendo um bebê numa boa. Mas não. Ainda era muito estranho, estranho demais para a minha realidade.
Minha mãe me surpreendeu ao devolver Declan para mim.
— Se vocês vão ficar presos aqui e não vai acontecer mais nada hoje, preciso fazer umas compras antes que tudo feche, para poder cuidar dele direito.
Fiquei um pouco ofendido. Realmente achava que tínhamos feito um trabalho muito bom cuidando dele nas últimas vinte e quatro horas. Ele podia ter só uma roupa, mas estava praticamente limpa e eu já havia aprendido a trocar fraldas do jeito certo. Além disso, Declan sempre era alimentado assim que mostrava os primeiros sinais de fome.
Para alguém que tinha passado a maior parte da adolescência com medo de engravidar as meninas, achei que tinha me dado relativamente bem no meu teste inesperado como pai.
Mas sabia o que ela queria dizer — parte do motivo por que tinha pedido para ela vir era seu conhecimento. Afinal, ela já tinha criado um bebê e eu não.
— Não sobrou muito na minha conta — disse para ela. Nós dois tínhamos sido deserdados pelo meu pai. — Mas pode usar meu cartão de débito até acabar.
— Talvez eu possa ajudar — Clarence ofereceu, levantando. Com o auxílio de uma bengala com cabeça de cobra, ele foi mancando até uma caixa de madeira numa prateleira da parede. Já tinha visto aquela caixa centenas de vezes na casa dele, mas nunca a vira aberta. Meu queixo quase caiu quando ele tirou a tampa, revelando maços de notas de cem dólares. Ele entregou um maço com pelo menos mil dólares para minha mãe. — Isso é suficiente para o jovem, lady Ivashkov?
Minha mãe teve a audácia de ponderar a respeito.
— É um começo — ela declarou, magnânima. Se voltou para Rose e Dimitri. — Agora, quem de vocês vai me levar?
Por incrível que pareça, Rose se ofereceu. Apesar de ficar sem jeito perto de Declan e de outros bebês, pareceu animada com a ideia de fazer compras para um. Sydney ficou desapontada por não poder ir com elas, mas não discutiu. Com Alicia e os alquimistas à solta, ela não podia abandonar um lugar seguro como aquele sem um bom motivo. Então se enfiou num quarto de hóspedes para preparar alguns feitiços que seriam úteis para o dia seguinte. Assim, o trabalho de babá sobrou para mim e Dimitri, o que parecia uma comédia barata.
— Eles são incríveis mesmo, né? — ele pensou em voz alta, admirando Declan dormir em meus braços. — Uma pessoinha tão pequena… com tanto potencial. Para o bem ou para o mal. Atos grandiosos ou pequenos. O que ele vai ser? O que vai se tornar?
Não teria como saber essa resposta em relação a ninguém, muito menos sobre uma criança nascida graças à magia inacreditável usada para restaurar sua mãe morta-viva.
Enquanto Dimitri falava, fiquei surpreso ao notar um desejo profundo e sincero em seus olhos. Ele e Rose podiam fazer piadas sobre bebês, mas, apesar de tudo, percebi que ele desejava séria e desesperadamente um filho. Sabia que era capaz de mudar toda a sua realidade ao contar a verdade sobre Declan e que ele também poderia ter um bebê. Talvez fosse só por falta de sincronia que ele e Rose ainda não tivessem concebido um.
Precisavam saber dessa possibilidade.
Ele vai ficar em dívida com você, tia Tatiana murmurou. Desde que o conhece, você sempre ficou para trás, sempre em segundo plano. Com Rose. Com as grandes façanhas. Mas se você contar que ele pode ter um filho com ela, Dimitri vai se ajoelhar aos seus pés e chorar.
O poder estava nas minhas mãos e a vontade de contar era descomunal, mas mordi a língua. Não podia. Não antes de Neil saber.
Quando Rose e minha mãe voltaram, fiquei surpreso ao perceber que tinham ficado amigas. Também me assustei com a quantidade de produtos que haviam conseguido comprar em tão pouco tempo. Um berço de vime, um milhão de roupas, brinquedos e um monte de produtos para bebês que nem sabia que existiam. Sydney observou tudo com o olhar crítico e começou a verificar comentários sobre os produtos no celular.
— Isso vai ajudar o menino a sobreviver por enquanto — declarou minha mãe. — Mas, claro, alguma hora ele vai precisar de um berço grande. E, embora essa cadeirinha seja adequada por enquanto, vimos várias que seriam muito melhores.
— Tinha umas com porta-copos e guarda-sol — Rose acrescentou.
Sydney assentiu.
— Ele definitivamente vai precisar de um guarda-sol.
Sabia que era inútil falar para elas que Declan não estaria mais sob nossos cuidados quando precisasse de um porta-copos. Quando se tratava das mulheres fortes da minha vida, às vezes achava mais fácil simplesmente concordar com o que quer que elas decidissem. De qualquer modo, Declan realmente pareceu muito mais confortável dormindo num berço de verdade naquela noite, e ficamos em volta dele, admirando-o depois que pegou no sono.
— O bebê mais fofo de todos os tempos — minha mãe disse, suspirando.
— Você quer dizer o segundo bebê mais fofo, né? — corrigi.
Fiquei um pouco surpreso com a rapidez com que ela se apegou a ele, mas, enfim, talvez não devesse ter ficado. Toda a vida dela tinha passado por mudanças drásticas, desde deixar meu pai a defender meu casamento nada convencional. Declan era um projeto a que poderia se dedicar, algo muito mais importante e substancial do que ponto-cruz e menos estranho do que um dragão ou gato.
O mais importante para nós naquela noite foi que minha mãe se ofereceu para assumir a responsabilidade pelas mamadeiras noturnas. Em parte porque ela ainda estava no horário noturno da Corte. Mas ela também podia ver que o resto de nós estava exausto, e acordar a cada três horas não ajudaria se quiséssemos estar prontos para um possível confronto com Alicia no dia seguinte. Afinal, o objetivo da bruxa com aquela caça ao tesouro sempre fora cansar Sydney.
— Tomara que a gente a encontre — Sydney disse ao deitar na cama. — Imagina só: amanhã a essa hora tudo isso pode ter acabado. Encontramos Alicia. Encontramos Jill. Tudo volta ao normal. Quer dizer, o nosso normal, pelo menos.
Deitei na cama, desfrutando o luxo de poder me esticar depois de ter tirado meu último cochilo numa cadeira estreita de avião. Também era inebriante estar com Sydney com certa privacidade, para variar. A casa de Clarence era tão grande que nosso quarto ficava isolado no corredor, ao contrário dos quartos apertados no prédio de hóspedes da Corte. Só de shorts e regata, Sydney deitou abraçadinha comigo e suspirei, contente.
Enfim um momento de paz com ela.
— Adrian — ela disse —, precisamos conversar sobre o que aconteceu na comunidade.
Apertei o abraço em volta dela.
— Muita coisa aconteceu.
— Eu sei, eu sei, e é óbvio que estamos cuidando da parte mais importante: Declan. Mas precisamos conversar sobre o que você fez… aquelas curas.
Ela culpa você!, exclamou tia Tatiana. Ela culpa você pela morte de Olive!
— Você acha que sou responsável pela morte de Olive? — perguntei.
— Quê? Não. Não. Claro que não. Adrian, você não se culpa, né? Foi um Strigoi que fez aquilo. Não havia nada que pudesse fazer.
— Então por que está reclamando das curas? — perguntei.
Ela respirou fundo.
— Estou preocupada com o jeito como você ficou, esgotado. Você falou que iria maneirar no uso do espírito, que era o melhor a fazer.
— Na verdade — eu disse —, acho que nunca falei isso. Foi você quem decidiu isso e tenta me obrigar a obedecer.
Seu tom doce ficou muito mais frio de repente.
— Obrigar? Adrian, estou tentando ajudar você. Você sabe o que aconteceu com Charlotte depois de usar tanto espírito. Não quero você em coma que nem ela!
— Não uso tanto espírito quanto ela usou — retorqui.
— Você se esgotou! Pra mim isso parece muito.
— É, enfim — eu disse, com raiva —, tem um monte de dampiras no acampamento de Lana que discordariam de você. Elas ficaram agradecidas pelo que fiz.
Mas não Olive, tia Tatiana murmurou. Ela não tem o que dizer.
— Adrian — Sydney disse, obviamente tentando se acalmar —, tenho certeza de que elas estão gratas, mas a gente já conversou sobre isso. Você precisa voltar para os remédios. Você não tem como salvar todo mundo. Não pode usar o espírito indiscriminadamente e ignorar o preço disso. Você está colocando sua vida em risco.
— Que tipo de vida teria, que tipo de pessoa seria se guardasse essa magia pra mim e deixasse as outras pessoas sofrendo? Não posso, Sydney. Se vir alguém que precisa da minha ajuda, vou ajudar. Não posso ficar parado e esquecer as pessoas!
— E eu não posso ficar parada e deixar que você continue se machucando! — ela gritou, perdendo a calma de novo.
— Desculpa — resmunguei, virando de lado na cama. — Acho que não posso mudar quem eu sou.
Depois de um longo momento, ela finalmente se virou de lado também, de costas para mim. Caiu um silêncio glacial. E pensar que aquela era pra ser uma noite calma e romântica.
Ela não entende, tia Tatiana me falou. Nunca vai entender.
Preciso que ela entenda, respondi mentalmente. Preciso dela na minha vida para me apoiar. Sem ela, estou perdido.
Você sempre terá a mim, o fantasma respondeu.
Me envolvi mais nas cobertas, pensando apavorado que, algum dia, teria que enfrentar o esqueleto no armário, ou melhor, a rainha morta na minha cabeça. Tinha quase certeza que se voltasse aos remédios, tia Tatiana iria embora… mas, junto com ela, o espírito. Estava pronto para isso? Sem o espírito, nunca teria sido capaz de curar aquelas dampiras. Não poderia ajudar no resgate de Jill no dia seguinte. Sem o espírito, o que seria de mim?
O espírito não poderia salvar Olive, tia Tatiana comentou. Ele é superestimado.
— Cala a boca — resmunguei.
Atrás de mim, Sydney se remexeu.
— Você falou alguma coisa?
Virei para o lado dela e dei um beijo no seu ombro.
— Pedi desculpa. Eu te amo.

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