23 de outubro de 2017

Capítulo 11

Sydney

SER AFASTADA DE ADRIAN FOI DOLOROSO, mas mesmo assim acordei com uma sensação renovada de esperança, me sentindo ainda mais otimista do que quando desativara o gás.
Emma começou a me encarar enquanto nos aprontávamos, então meus pensamentos deviam estar na cara. Rapidamente, tentei controlar minha expressão. Ela não ousou falar nada enquanto estávamos sob vigilância, mas a curiosidade brilhava em seus olhos. Quando estávamos espremidas no corredor com os outros, a caminho do café da manhã, me aproximei dela.
— Consegui — murmurei. — Mandei a mensagem.
Um sinal das coisas sobrenaturais no nosso mundo foi que ela não pediu detalhes. Aceitou o que eu disse e se concentrou em questões mais urgentes.
— E agora, a ajuda está a caminho? Algum cavaleiro de armadura brilhante está vindo resgatar a gente?
— Não exatamente — admiti. — Ainda mais porque não sei onde a gente está... você sabe?
Ela soltou um suspiro frustrado e revirou os olhos.
— O que acha? A gente divide o quarto. Tenho uma janela particular por acaso? — Com isso, ela caminhou rápido para perto de Amelia e de alguns outros.
Não era uma grande surpresa que Emma não soubesse onde o centro ficava. Duncan também não sabia. Era um segredo que nenhum detento parecia capaz de decifrar, mas algo que eu precisava descobrir caso entrasse em contato com Adrian — ou melhor, quando entrasse em contato com Adrian de novo.
A atitude brusca de Emma não me incomodou muito porque a atenção havia sido desviada de mim nos últimos dias, graças a uma reviravolta com um dos detentos veteranos. Jonah, que tinha mais ou menos a idade de Duncan, vinha cometendo deslizes na aula de história, dando opiniões demais — muito mais do que eu no meu primeiro dia. Ele ganhara uma passagem para a purgação e a censura dos superiores. Alguns outros detentos também tinham começado a se afastar dele, mas Duncan e seu grupo ainda o incluíam. Eu havia sentado com eles outro dia e descoberto mais sobre o ocorrido.
— Me dei mal — Jonah murmurou, para que os supervisores do refeitório não ouvissem. — Estava indo tão bem. Podia ter saído daqui! Mas Harrison me deixou tão bravo quando começou a falar de “fatos históricos” sobre dampiros e...
— Xiu — Duncan disse. Ele estava com um sorriso descontraído no rosto, sem dúvida para enganar quem nos vigiava. — Esquece essa história. As paredes têm ouvidos. Você só vai piorar as coisas. Sorria.
— Como vou sorrir? — Jonah perguntou, irritado. — Sei o que vai acontecer. Vou ficar igual à Renee. Eles vão retocar minha tatuagem com uma compulsão mais forte! Vão me obrigar a pensar diferente!
— Você não tem como saber — Duncan disse. Mas sua expressão o denunciava.
— E nem sempre dá certo — Elsa acrescentou. Ela era uma das pessoas que tinham afastado a carteira de mim no primeiro dia. Depois, descobrira que ela não era tão ruim; só tinha medo, como todos eles. — Nenhum de nós estaria aqui se desse certo. Você pode passar ileso.
Jonah parecia cético.
— Depende da dosagem.
Pensei em Keith e em seu comportamento robótico da última vez que o vira. Pelo que havia entendido, aquilo só podia ser atingido com um condicionamento bem pesado, somado a uma tinta de compulsão forte, como a de Renee. O silêncio recaiu sobre a mesa e tomei uma decisão. Duncan dissera que minha acolhida no grupo precisava ser lenta e que, embora eu sentasse com eles agora, seria melhor se ficasse quieta por um tempo e não agisse como se tivesse opiniões insubordinadas demais. Parecia um bom conselho, mas, de repente, me peguei falando mesmo assim.
— Talvez eu possa ajudar — eu disse.
O olhar de Jonah recaiu sobre mim.
— Como? — ele perguntou.
— Ela está brincando — Duncan disse, com um tom de advertência. — Não está, Sydney?
Ele estava tentando ajudar, mas o pavor no rosto de Jonah era grande demais. Se eu pudesse impedir que ele ficasse como Keith, tinha que tentar. Tem certeza?, uma voz interna perguntou. Você fez um progresso real falando com Adrian. Precisa ficar na sua até ele conversar com Marcus. Por que arriscar tudo ajudando outra pessoa?
Era uma pergunta válida, mas soube a resposta imediatamente: porque era a coisa certa a fazer.
— Não, não estou brincando — respondi, com firmeza. Duncan suspirou, mas me deixou continuar. — Sei fazer um composto que combate os efeitos da compulsão.
Jonah me encarou desanimado.
— Quase acredito em você. Só não acredito, nem por um instante, que eles vão te dar acesso ao estoque de substâncias químicas deles.
— Não preciso delas. Só preciso — meu olhar pousou no centro da mesa — desse saleiro. Quer dizer, do sal. Acham que consigo tirar o saleiro daqui sem ninguém perceber?
Os outros me olharam incrédulos, mas Elsa assentiu.
— Sim... mas acho que depois vão perceber que sumiu e começar a fazer perguntas.
Ela devia ter razão. Com sua eficiência típica, os alquimistas provavelmente contavam todos os utensílios depois que a gente saía. Um saleiro faltando poderia levá-los a pensar que a gente estava fazendo armas com o plástico ou alguma coisa assim. Discretamente, empurrei meu guardanapo até o centro da mesa e peguei o saleiro. Enquanto o erguia sobre a bandeja para salgar meus ovos mexidos, consegui abrir a tampa. Quando fui devolvê-lo no lugar, ele escapou da minha mão e caiu na mesa, derrubando sal em cima do guardanapo.
— Opa — eu disse, remontando o saleiro rápido. — A tampa estava solta. — Passei o guardanapo pela mesa, como se estivesse limpando a sujeira, mas na verdade dobrei o guardanapo, fazendo uma bolsinha de sal. Em seguida, o trouxe de volta para o lado da minha bandeja. Seria fácil esconder o guardanapo quando saíssemos. Normalmente, eles eram jogados fora junto com as bandejas. Ninguém os contava.
— Muito bem — disse Duncan, que ainda estava com cara de quem não aprovava. — É só disso que você precisa?
— Praticamente — eu disse. Eu não era próxima o bastante de nenhum deles para revelar que usaria magia como ingrediente secreto. — Seria melhor se tivesse alguns dos compostos que vão na tinta, mas injetar uma solução salina em você, depois que tiver tratado o sal, também deve funcionar. — Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi outro problema e soltei um grunhido. — Não tenho como injetar a solução. — Sal era um artigo comum, mas agulhas não costumavam ficar largadas por aí ao nosso alcance.
— Precisa ser uma pistola de tatuagem? — Jonah perguntou.
Refleti com base no que sabia do processo de tatuagem alquimista e em minhas próprias experiências.
— Seria o ideal. Uma tatuagem de verdade, com tinta grossa, seria uma proteção definitiva. Mas posso te dar uma proteção a curto prazo com uma seringa médica, como as que eles usam pra retoques comuns.
Duncan arqueou a sobrancelha.
— Curto prazo?
— Vai anular o que eles fizerem no futuro próximo — eu disse, me sentindo mais confiante, mesmo com uma solução improvisada. — Meses, pelo menos. Mas, para uma proteção vitalícia, você precisaria de uma tatuagem de verdade.
— Meses parece ótimo — Jonah disse.
Foi difícil não demonstrar desânimo.
— Sim, mas não posso injetar sem uma agulha de verdade. Essa é a única coisa que não consigo improvisar. Me... me desculpe. Fui precipitada demais com esse plano.
— Foi nada — ele retorquiu. — Tem um monte dessas agulhas na sala de purgação. Elas ficam no armário perto da pia. É só eu ser mandado pra lá e roubar uma.
Ao seu lado, Lacey soltou um riso sarcástico.
— Se fizer alguma coisa tão cedo, eles não vão te mandar pra purgação. Você vai direto pro retoque, ou coisa pior. — A ameaça pairou pesada no ar por um momento. — Eu vou — ela declarou. — Faço alguma coisa na próxima aula.
— Não — eu disse rápido. — Deixem que eu faço. Assim eu mesma já pego a agulha. Vai economizar tempo, caso mandem Jonah pro retoque mais cedo do que a gente imagina. — Havia um quê de verdade nesse argumento, mas na verdade eu só queria evitar que outra pessoa fosse mandada para a purgação por causa de um dos meus planos. Amelia ainda me olhava feio sempre que a gente fazia contato visual. Não queria correr o risco de criar mais inimigos. A purgação era horrível, mas uma hora acabava e, até agora, não estava tendo os efeitos desejados, considerando que meu primeiro impulso ao ver Adrian na noite anterior tinha sido beijá-lo, não vomitar.
Alguns dos meus colegas de mesa acharam que era um ato heroico, especialmente Jonah. Outros, como Duncan, acharam que eu estava prestes a cometer um grande erro, mas nenhum deles interveio.
— Obrigado — disse Jonah. — Sério. Vou ficar te devendo essa.
— Estamos todos no mesmo barco — eu disse, simplesmente.
Essa declaração pegou alguns de surpresa, mas o sinal que anunciava o fim do café da manhã cortou a conversa. Consegui levar o sal sem que ninguém percebesse e o enfiei dentro do sapato quando chegamos à próxima aula, fingindo que estava arrumando a meia. Enquanto os outros sentavam, decidi que seria melhor agir o mais rápido possível. Não queria que Lacey fizesse o trabalho por mim, mas a usei como cúmplice quando ela sentou ao meu lado.
— Olha, Lacey — eu disse, como se estivéssemos continuando uma conversa do refeitório —, não estou dizendo que você está errada... mas está sendo radical. Até os Strigoi serem erradicados, não há nada de errado em agir de forma civilizada com os Moroi.
Ela entendeu rápido e entrou na jogada.
— Você não estava falando em agir de maneira civilizada. Estava falando em ser amigável. E todo mundo sabe que essa é uma área perigosa, considerando seu histórico.
Assumi uma expressão ofendida.
— Então acha errado almoçar com um deles?
— Se não for um almoço de negócios, acho.
— Você está exagerando! — exclamei.
Kennedy, nossa instrutora, levantou os olhos da mesa ao perceber que estávamos erguendo a voz.
— Meninas, algum problema?
Lacey me apontou um dedo acusatório.
— Sydney está tentando me convencer que não tem problema manter uma relação pessoal com um Moroi fora do trabalho.
— Eu não disse pessoal! Só estava falando que, se a gente está numa missão, qual é o problema de jantar ou ver um filme juntos?
— O problema é que leva a outras coisas — Lacey retrucou. — Você precisa estabelecer um limite e manter tudo preto no branco.
— Só se você for idiota o bastante de achar que eles são tão perigosos quanto os Strigoi — eu disse. — Eu sei me virar nessa área cinzenta.
O argumento de Lacey tinha sido especialmente oportuno porque, no dia anterior, Kennedy usara metáforas com a ideia de preto e branco e áreas cinzentas. Ela tentou intervir, mas não deixei e continuei discutindo com Lacey. Dez minutos depois, estava sendo conduzida para a sala de purgação. Sheridan pareceu um pouco surpresa ao me ver.
— Um pouco cedo, não é? — ela disse. — Você estava indo tão bem essa semana.
— Eles sempre andam pra trás — comentou um dos assistentes dela.
Ela assentiu e apontou para a cadeira.
— Você conhece o procedimento.
Eu conhecia. Foi horrível como sempre, talvez um pouco mais, já que o café da manhã estava fresco na minha barriga. Quando vomitei tudo depois da apresentação de fotos, eles me mandaram para a pia escovar os dentes. As escovas descartáveis ficavam bem do lado do armário onde guardavam as seringas. Abri a torneira e fingi estar cuspindo mais uma vez, enquanto olhava para trás. Eles não estavam me vigiando diretamente, talvez porque não achassem que eu pudesse fazer alguma coisa numa sala tão pequena. Comecei a levar a mão à escova, planejando abrir o armário no mesmo movimento.
Só havia um problema e eu tinha uma fração de segundo para resolvê-lo. Como levaria a seringa embora? Meu uniforme não tinha bolsos. A seringa ficava numa embalagem plástica e havia uma capa de proteção sobre a agulha, de modo que, em tese, podia enfiá-la na meia ou mesmo no sutiã sem me machucar. Mas tanto movimento chamaria a atenção deles.
Um tumulto na porta assustou a mim e aos outros, e todos viramos quando dois outros seguranças chegaram com outra pessoa: Duncan.
Ele me lançou um olhar rápido e então começou a se debater.
— Eu estava brincando! Foi só uma piada, pelo amor de Deus. — Eles tentaram arrastá-lo para a cadeira e ele fincou os pés no chão. — Desculpe, não faço de novo! Por favor, não me obrigue! Faz tanto tempo.
Eu sabia que não era coincidência ele estar ali justo naquele momento. Duncan fizera a tal “piada” para poder ser levado também e causar uma distração — uma distração que eu estava desperdiçando ao ficar parada olhando com cara de idiota. Rapidamente, estendi o braço e peguei a escova de dentes e a seringa, colocando esta embaixo da meia enquanto os outros estavam ocupados com Duncan. Em seguida, comecei a escovar os dentes e não agi como se um amigo estivesse prestes a suportar algo terrível para me ajudar.
Duncan já estava amarrado na cadeira quando me levaram embora. Sheridan balançou a cabeça, exasperada.
— Que manhã, hein?
Quando me juntei aos outros detentos na aula seguinte, vi Jonah e alguns outros da mesa do café da manhã me lançando olhares furtivos e curiosos. Dei um curto aceno de cabeça, indicando sucesso e, mais tarde, quando estávamos saindo da aula, falei com ele.
— Ainda não está pronto, mas tenho o que preciso.
— Não quero te apressar — ele murmurou, mantendo o olhar fixo à frente. — Mas ouvi Addison falando pro Harrison que, com todos os maus comportamentos recentemente, eles devem tomar “ações drásticas” logo.
— Certo — eu disse.
Duncan apareceu na aula seguinte, de “vida moral e cívica”, com os sinais reveladores de uma purgação recente. Ele parecia arrependido, como devia, mas consegui arrancar a história toda dele no caminho para o almoço.
— O que aconteceu com não fazer nada idiota? — perguntei.
— Ei, eu não fiz nada idiota. Impedi você de fazer algo idiota. Nunca conseguiria ter roubado aquela seringa sem ser notada. Eu te salvei. Agora fiquei sabendo que vão servir manicotti no almoço, minha comida favorita. — Ele soltou um suspiro angustiado. — Não precisa agradecer.
— O que você falou pra Lacey que te deixou encrencado? — perguntei.
Ele quase sorriu, mas então lembrou que sempre tinha alguém olhando.
— Bom, vocês tinham acabado de ter a briguinha, então fui lá e disse que ela não devia se opor tanto a relações de humanos com Moroi. Que talvez uma “relação pessoal” fosse exatamente o que ela precisava pra relaxar a tensão.
Precisei me conter para não rir.
— Ela sabe que você estava atuando, né?
— É melhor que saiba. Nós dois impedimos que ela fosse pra purgação hoje. Ei, aonde está indo?
Estávamos perto do refeitório, mas comecei a me afastar.
— O único lugar onde dá pra ter um pouco de privacidade. Depois encontro vocês.
Entrei no corredor onde ficavam os banheiros. Tínhamos o direito de ir ao banheiro na hora do almoço, e não haveria problema desde que eu não ficasse lá tanto tempo a ponto de chamar a atenção. Embora houvesse câmeras na área principal do banheiro (acho que eles tinham medo que alguém pudesse quebrar um espelho e usar o vidro como arma), as cabines individuais eram uma das poucas áreas do centro com privacidade. Fechei a porta de uma e agi rápido, sabendo que meu tempo era limitado.
Fazia meses que não usava magia, e fiquei surpresa quando ela voltou de maneira tão rápida e natural. Tirei meu precioso pacote de sal do sapato e, com cuidado, virei o conteúdo dele dentro da seringa, que era um recipiente muito melhor para realizar o processo de encantamento. Primeiro vinha a terra. Eu havia tocado o vaso da professora de propósito na última aula, sujando os dedos. Com isso, fui capaz de invocar a essência da terra, murmurando as palavras que traziam seu poder e mandando-o para o sal. Uma onda de adrenalina cresceu em mim quando a magia tomou conta, e quase perdi o fôlego. Foi uma surpresa perceber como sentia falta dela e como me sentia mais viva ao usá-la. Era ainda mais notável depois de ficar tanto tempo naquele lugar infernal.
Em seguida, precisei invocar o ar, o que era fácil, já que ele estava em toda parte. Água também não era problema, uma vez que havia um vaso sanitário bem na minha frente. Não precisava me preocupar com questões sanitárias, pois só estava invocando as propriedades mágicas da água e não usando-a no composto — por enquanto. O fogo se provou o mais difícil, visto que os alquimistas não deixavam fósforos ao nosso alcance. Não era nenhuma surpresa, pois, pelo que eu sabia, aquele lugar corria um enorme risco de incêndio. Não havia nenhuma fonte acessível para o fogo, então tive que criar o meu.
A sra. Terwilliger havia me treinado para lançar bolas de fogo, e eu tinha um excelente controle sobre elas. Com algumas palavras murmuradas, realizei o feitiço, criando uma faísca na mão que mal dava para ver. Sua essência, porém, era forte o bastante para que eu levasse o poder do elemento para o composto de sal. Feito isso, apaguei a chama.
Escondendo a seringa com cuidado numa mão, dei descarga e saí da cabine.
Enquanto lavava as mãos, fiquei surpresa ao me sentir um pouco zonza. A magia, depois de tanto tempo, custou caro, ainda mais por ter sido necessário invocar o fogo em vez de tirá-lo do ambiente. O cansaço, porém, foi contrabalançado pela sensação inebriante que o uso da magia havia me proporcionado. Somada a ela, havia a noção de que eu não era impotente, de que era capaz de ajudar alguém e frustrar os planos dos alquimistas. Só isso já me deixava em êxtase.
Quando cheguei ao refeitório e fui até a mesa de Duncan com a bandeja, todos pareciam conversar despreocupadamente. Mas, quando sentei, senti a tensão não declarada entre meus colegas. Eles continuaram falando sobre algum tópico da aula de história, mas era óbvio que nenhum deles estava realmente interessado no assunto. Por fim, sorrindo como se fôssemos apenas alunos normais com preocupações rotineiras, Jonah disse:
— Quando entrei, Addison me mandou faltar na aula de artes. Disse que Sheridan vai me encontrar na frente da sala.
Caiu um silêncio quando percebemos o que estava implícito.
— Eles não perderam tempo — Lacey murmurou. Seu olhar recaiu sobre mim. — As travessuras de manhã deram em alguma coisa?
— Sim — eu disse, abaixando a voz enquanto mexia no manicotti. Meu estômago não estava tão mal quanto o de Duncan, mas achei que seria melhor me limitar aos acompanhamentos mais leves. — O sal está dentro da seringa, pronto pra ser usado. Só não tenho uma fonte de água pura pra misturar a solução. Também seria melhor se a gente fervesse a mistura — acrescentei —, mas uma mexida rápida deve funcionar se conseguirmos a água. Os professores sempre têm uma garrafa de água mineral. Talvez a gente consiga roubar deles.
— Não temos tempo — Jonah disse. — Me dê a seringa. Encho na torneira do banheiro, se alguém me bloquear da câmera.
Levei um susto.
— Você precisa injetar na pele. Não pode usar água da torneira.
— Aquela água é potável — ele argumentou. — E não pode ser pior do que o que estão planejando injetar em mim. Prefiro correr o risco.
Minhas preocupações sanitárias ainda resistiram.
— Queria que a gente tivesse mais tempo.
— Mas não temos — ele respondeu, incisivo. — Você já fez muito, e agradeço. Agora é a minha vez de correr os riscos. Me dê a seringa quando a gente estiver saindo. Preciso fazer alguma coisa especial com ela? Além do óbvio?
Fiz que não, ainda frustrada, mas sabendo que ele tinha razão.
— Injete quantidades pequenas na tatuagem, como eles fazem no retoque. Não é necessário ser muito preciso. Vai ter o suficiente no seu sistema pra anular a tinta de compulsão.
— O que tem na sua solução? — Elsa perguntou.
— Não responda — Duncan avisou. — Quanto menos a gente souber, melhor pra todos nós... especialmente pra Sydney.
Quando o almoço acabou, nossos colegas de mesa se aglomeraram em volta de mim e de Jonah na fila para devolver as bandejas, o que permitiu que eu passasse a seringa para ele.
Depois disso, literalmente não estava mais nas minhas mãos. Precisava confiar que Jonah daria um jeito de misturar o sal com a água sozinho e injetar a solução em si mesmo antes que viessem buscá-lo.
O restante do dia demorou para passar, especialmente a aula de artes. Ele não apareceu e fiquei morrendo de preocupação enquanto imaginava que tipo de lavagem cerebral estava sofrendo. Duncan, que havia tratado aquilo como uma piada e me dito várias vezes que eu estava fazendo besteira, também estava tenso.
— Jonah é um cara legal — ele disse. — Tomara que esse seu plano funcione. Já vi o que eles conseguem fazer com as pessoas. Algumas voltam bem mal.
Ao lembrar da longa pena de Duncan, tive uma revelação súbita.
— Você chegou a conhecer um cara chamado Keith? Caolho?
A expressão de Duncan ficou mais sombria.
— Sim, conheci. A gente não era muito próximo quando ele estava aqui. Ele era um desses... desses que voltou muito mal.
A hora da comunhão foi logo depois e Jonah voltou. Ele parecia intimidado e não falou nada no decorrer da sessão. Sheridan o deixou em paz e conversou com o restante de nós, que estávamos quase tão calados quanto ele, entristecidos por saber pelo que tinha passado. Quase torci para que ela o obrigasse a falar, para poder ter uma ideia do seu estado, mas pelo visto ela achava que ele tinha sofrido o bastante naquele dia. Jonah ficou apenas sentado, ouvindo, com o olhar perdido e sem expressão. Senti uma pontada no peito.
No fim da sessão, quando fomos dispensados para o jantar, sua atitude não mudou. Duncan o guiou até a nossa mesa, como eu havia feito quando Renee voltara. Jonah não disse nada enquanto conversávamos sobre amenidades com que não nos importávamos, todos nervosos demais para perguntar o que realmente queríamos. O comportamento dele era exatamente igual ao usual depois de um retoque pesado. A questão era: ele estava fingindo ou não? Se estava, interagir com ele poderia chamar atenção indesejada. Se não, era bem possível que nos denunciasse.
O jantar foi se encaminhando ao fim em silêncio e Duncan terminou a sobremesa, uma torta de cereja que parecia requentada.
— Estava melhor do que eu esperava — ele comentou, mais para si mesmo do que para nós.
— Sabe o que também está melhor do que o esperado?
Todos erguemos a cabeça, surpresos por ouvir a voz de Jonah pela primeira vez desde o retoque. O sinal tocou, anunciando o fim do jantar e fazendo todos no refeitório levantarem. Jonah também se ergueu, segurando a bandeja.
— Eu — ele disse, baixinho. — Estou me sentindo ótimo. Nem um pouco diferente. — Ele me lançou um sorriso que logo se fechou. — Você salvou minha vida, Sydney. Obrigado. — Então saiu andando para entrar na fila das lixeiras, me deixando boquiaberta.
Fui atrás alguns segundos depois, ainda pasma. Ele não falou mais comigo durante o resto da noite, mas eu tinha visto o brilho em seus olhos quando sorrira. Ele ainda estava lá. Sua personalidade e sua mente estavam intactas. Os alquimistas não o haviam atingido — minha fórmula o protegera. Essa ideia continuou comigo pelo resto da noite, me dando forças.
Durante meses, meus captores obtiveram uma vitória atrás da outra sobre mim, fazendo com que me sentisse incapaz de lutar. Naquele dia, a vitória tinha sido minha. Era uma vitória pequena, mas real.
Estava tão orgulhosa da minha astúcia que não prestei muita atenção ao que acontecia ao meu redor enquanto me preparava para a cama. Entrei no banheiro feminino com algumas outras garotas, ainda pensando sobre o que tinha feito. Estava distraída demais para ver Emma se aproximando por trás ou me defender quando ela me jogou contra a parede. Por um momento, não consegui acreditar na audácia dela de fazer isso sob vigilância. Então, notei que tinha nos posicionado bem embaixo da câmera, fora do seu alcance. Amelia e algumas amigas delas começaram a falar alto, abafando a voz baixa e ameaçadora de Emma enquanto ela me prendia no canto e se inclinava para a frente.
— Jonah passou por um retoque hoje — ela disse. — Dos grandes, do tipo que faz a pessoa esquecer o próprio nome. Mas estão falando que ele não foi afetado. E estão dizendo que foi por causa de algo que você fez.
— Não sei do que você está falando — retruquei. — Ele parecia completamente desligado.
Ela me empurrou com mais força do que imaginei ser capaz, considerando seu tamanho.
— Fez ou não fez alguma coisa com ele?
Olhei nos olhos dela.
— Por quê? Pra você me denunciar e sair mais cedo por bom comportamento?
— Não — ela respondeu. — Porque quero que faça comigo também.

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