19 de outubro de 2017

Capítulo 11

Adrian

FORAM AS LÁGRIMAS QUE ACABARAM COMIGO.
Eu poderia ter me mantido firme e argumentando, criando justificativas de por que estava preso ao espírito. Era bem provável que tivesse feito um trabalho razoável, até contra a lógica forte dela. Mas, à medida que ficava sóbrio depois que ela foi embora, a imagem daquelas lágrimas me atormentava. Eu sempre me alegrava com aqueles raros momentos de paixão que via nos olhos dela, aquele lado emocional mais profundo que ela mantinha escondido. Sydney não era daquelas pessoas que demonstravam sentimentos facilmente, e eu era especial o bastante para ver toda a riqueza de suas emoções quando ela estava cheia de alegria e desejo. E, naquela noite, pelo jeito, tinha sido especial o bastante para presenciar a tristeza dela também.
Isso me consumia, especialmente porque, na próxima vez que a vi, ela agiu como se nada tivesse acontecido. Foi fiel à sua palavra: não terminou comigo. Mas, apesar dos sorrisos e do rosto calmo, eu sabia que ela devia estar frustrada. Eu tinha um problema. Não, eu era um problema. Um problema que ela não conseguia resolver. Ela devia estar enlouquecendo e, quanto mais pensava, mais percebia que ela não deveria ter que resolver aquilo por mim. Era minha responsabilidade. Ninguém nunca tinha chorado por minha causa antes. Para ser sincero, não achava que era digno das lágrimas de ninguém.
— Mas preciso ser — falei para Jill um dia. — Ela se importa tanto e sofre tanto por mim… como posso deixar os sentimentos dela serem em vão? Ela acha que sou importante. Preciso provar que posso ser.
— Você é importante — Jill me garantiu.
Estávamos sentados na frente do alojamento dela, curtindo uma onda de calor no meio do inverno. A sombra do grande prédio nos protegia da luz.
Balancei a cabeça.
— Sei lá. Não sei o que tenho a oferecer pra ela ou pro mundo. Eu achava que era o espírito. Achava que as coisas que podia fazer com ele seriam minha contribuição. Como você e Olive. — Na verdade, não tinha ouvido nenhuma notícia sobre Olive desde que ela fora para a corte, e meus esforços bem que podiam ter sido em vão.
Jill apertou minha mão e sorriu.
— Bom, do meu ponto de vista, são sem dúvida uma contribuição, mas Sydney está certa: você não sabe do que é capaz. A maioria das pessoas não deixa uma marca no mundo com grandes milagres. Algumas sim — ela acrescentou rápido. — Mas, às vezes, o impacto maior é feito com uma série de pequenas coisas silenciosas. Você não vai conseguir fazer nada se estiver…
— … internado ou morto? — completei, repetindo as palavras de Sydney.
Jill teve um sobressalto.
— Não vamos pensar nesses termos. Não tem por que se preocupar com o que não aconteceu. Vamos trabalhar no que você consegue controlar agora.
Passei o braço ao redor dela.
— Olhe só você, Belezinha. Tão sábia e tão jovem.
— A sua sabedoria deve estar passando pra mim. Você já está fazendo coisas grandiosas sem nem tentar. — Ela se encostou em mim. — Mas, sério, Adrian. Tente. Tente parar com o espírito e veja o que acontece.
— Não uso nada desde aquele dia. Nem para ver auras. — Eu também não tinha bebido nada, nem minha cota diária permitida.
— Foram só alguns dias. Não estou dizendo que seu sacrifício não é nobre. Mas vai aguentar se… sei lá… Sydney cortar a perna se depilando? Vai resistir ao espírito ou vai pensar: “Ah, um pouquinho de magia nesse corte não vai fazer mal”?
— As pernas dela são lindas — admiti. — Odiaria que acontecesse alguma coisa com elas.
— Exato. E acharia que um pouquinho de espírito não faria mal a ninguém. E depois pensaria a mesma coisa da outra vez. E da outra…
Ergui as mãos.
— Tá, tá. Entendi. Ainda bem que Sydney toma cuidado demais para que esse desastre de depilação aconteça. — Rimos com a piada e, então, me lembrei da gravidade da situação. — Está bem. Vou tentar, mas… não consigo deixar de me sentir egoísta. Fui egoísta minha vida toda. Seria bom superar isso.
Jill me olhou diretamente nos olhos.
— Sempre que você usa o espírito… é só pra fazer o bem?
Demorei um bom tempo para responder.
— Você já sabe a resposta dessa pergunta — eu disse. Eu usava o espírito por causa do barato, porque fazia eu me sentir livre e poderoso. Às vezes, tinha o mesmo efeito de beber ou fumar.
— Viu? — ela disse. — Veja o que acontece. Se não funcionar, você para. É uma pílula, não um compromisso pra vida toda.
— Por que isso me soa familiar?
Ela sorriu, irônica.
— Foi o que você falou para Sydney sobre o anticoncepcional. Era difícil acreditar que eu tinha me esquecido disso.
— Ah, sim. É melhor você ficar fora dessa conversa. A gente precisa preservar sua inocência pelo maior tempo possível.
A expressão sarcástica de Jill também a fez parecer velha demais para sua idade.
— Perdi a inocência no momento em que criamos o laço.
Foi então que Sydney e Zoe saíram do alojamento. Elas não nos viram, já que estávamos sentados num banco afastado, e Jill chamou por elas. Zoe congelou. Sydney abriu seu sorriso educado de alquimista.
Eu me recostei e cruzei as pernas, querendo parecer o mais insolente possível.
— Ora, ora. As irmãs Sage. Aonde vão? Fazer trabalho voluntário na biblioteca? Ou está tendo liquidação de estantes em algum lugar?
Por incrível que pareça, Sydney conseguiu se manter séria. Além de reforçar meu amor por ela, aquilo também me deu vontade de levá-la para um jogo de pôquer qualquer dia. Com aquela cara e minha leitura de auras, quebraríamos a banca.
— Quase. Zoe precisa de papel quadriculado para a aula de matemática.
— Ah — eu disse. — Material de escritório. Seria meu próximo palpite. Só não falei porque pensei que vocês tinham caixas dessas coisas embaixo da cama.
Mesmo depois dessa, Sydney conseguiu manter um controle incrível, embora seus lábios se contorcessem muito de leve. Ela olhou para Jill.
— Precisa de alguma coisa?
Jill fez que não, mas me intrometi:
— Preciso de um caderno de desenho novo, algumas tintas em bastão e…
Sydney suspirou e assumiu uma expressão irritada.
— Adrian, eu não estava falando com você. Vem, Zoe. Vejo vocês dois mais tarde. — Elas começaram a se afastar, mas então Sydney parou subitamente. — Ah! Preciso conversar com Jill rapidinho. Toma. — Ela jogou as chaves para Zoe. — Pode tirar o carro da garagem.
Os olhos da garota se arregalaram como se Sydney tivesse acabado de dizer que o Natal estava chegando mais cedo. Foi até bonitinho, na verdade, e precisei me lembrar que Zoe era um flagelo constante na minha vida amorosa.
— Sério? Ah! Obrigada! — Ela pegou as chaves sem pensar duas vezes e se afastou, saltitante.
Sydney olhou para ela com carinho.
— Sério? — ela me perguntou. — Liquidação de estantes?
— Ah, vá — eu disse. — Não finja que não adoraria uma.
Ela sorriu e se voltou para nós. A luz do sol deixava seu cabelo da cor de ouro derretido e eu perdi o fôlego.
— Talvez — ela concordou. — Depende, se as cores forem de bom gosto.
— Acho que você não precisa conversar comigo de verdade — Jill comentou, com um sorriso irônico. Sydney encolheu os ombros e pôs uma mecha daquele cabelo maravilhoso atrás da orelha.
— Não especificamente. Na verdade, só queria um pouquinho de ar. Gosto de conversar com vocês. — Mas o olhar dela recaiu sobre mim e dava para sentir a tensão entre nós. Eu sabia que ela, assim como eu, estava tendo dificuldade em manter a distância. Eu daria qualquer coisa para abraçá-la naquela hora, para passar a mão na sua bochecha ou sentir seu cabelo entre os dedos.
Pigarreando, ela desviou o olhar e pareceu estar procurando um assunto mais seguro. Enfim, quase seguro. Ela abaixou a voz quando voltou a olhar para nós com um brilho nos olhos.
— Eu consegui. — Ela olhou ao redor rapidamente antes de continuar. — O sal. Consegui infundir os quatro elementos nele.
Jill perdeu o fôlego, tão consumida pela tarefa quanto Sydney e eu.
— Acha que consegue copiar a tinta de Marcus?
Sydney assentiu, animada.
— O mais difícil já foi. Só precisa ficar mergulhado e suspenso numa solução de tinta para usar na tatuagem. Depois, vou precisar de uma cobaia. Acho que o mais corajoso seria experimentar em mim mesma.
— Tenho total confiança nas suas habilidades — eu disse —, mas talvez seja melhor esperar e testar num dos recrutas idealistas de Marcus.
— Suponho que sim. Quer dizer, não acho que vá causar nenhum mal. O máximo que pode acontecer é não funcionar. E a única maneira de descobrir é se os alquimistas tentarem retocar a cobaia, o que ninguém quer que aconteça. — Ela franziu as sobrancelhas, pensativa. Era uma graça. — A não ser que eu pegue um pouco de tinta alquimista e experimente retocar eu mesma… mas, ai. Não seria nem um pouco fácil sem permissão. E não tenho um usuário de terra por perto também.
Ironizei:
— Aposto que Abe adoraria ajudar.
— Ah, sim — Sydney respondeu. — Aposto que ele adoraria saber tudo sobre meu projeto paralelo.
Naquele exato momento, Zoe parou o carro gigante delas. Ela não subiu no meio-fio nem bateu no prédio, o que era um avanço. Mesmo assim, vi os olhos aguçados de Sydney examinando o exterior do carro em busca do menor arranhão. Satisfeita, ela tirou Zoe do banco de motorista e nos deu tchau.
Seus olhos pousaram nos meus e, por alguns segundos, fiquei suspenso naquele olhar cor de âmbar. Suspirei enquanto ela ia embora e, quando baixei os olhos, vi Jill me observando com aquele ar de quem sabe das coisas.
— Certo — eu disse. — Vou marcar uma consulta.
Ela me abraçou.
Liguei para um psiquiatra recomendado pelo centro médico de Carlton e torci para que não tivesse um horário tão cedo. Afinal, especialistas estavam sempre ocupados, certo? Aquele parecia ser bastante requisitado, mas alguém tinha acabado de cancelar uma consulta no dia seguinte. A recepcionista me disse que eu tinha muita sorte. Que escolha eu tinha? Aceitei e matei a aula de multimídia no dia seguinte. Rowena me chamou de preguiçoso quando perguntei a ela o que tinha perdido.
O médico se chamava Ronald Mikoski, mas logo esqueci esse nome porque ele era a cara do Albert Einstein, tendo até o cabelo e o bigode brancos desgrenhados. Eu tinha imaginado que deitaria num divã e falaria sobre minha mãe, mas, em vez disso, ele me indicou uma poltrona acolchoada enquanto se acomodava atrás da mesa. Em vez de um bloco de notas, tinha um laptop.
— Então, Adrian — Einstein começou. — O que traz você aqui hoje?
Comecei a dizer “Minha namorada me obrigou”, mas soaria meio petulante.
— Minha namorada achou que seria uma boa ideia — disse em vez disso. — Quero tomar antidepressivos.
Ele ergueu a sobrancelha felpuda.
— É mesmo? Então, a gente não sai dando receitas por aqui. Vamos chegar à raiz do problema primeiro. Você está deprimido?
— Agora não.
— Mas às vezes fica?
— Sim. Quer dizer, todo mundo fica às vezes, né?
Ele me olhou longamente.
— Claro, mas sua depressão é pior do que a de uma pessoa normal?
— Quem pode dizer? — Encolhi os ombros. — É tudo subjetivo, não é?
— A sua namorada acha que é pior do que a de uma pessoa normal?
Hesitei.
— Sim.
— Por quê?
Isso me fez vacilar. Não sabia se estava pronto para conversar sobre aquilo. Por essa eu não esperava. Tudo que Lissa tinha me contado sobre saúde mental era que os psiquiatras prescreviam remédios e os terapeutas conversavam sobre os problemas. Achei que era só entrar ali, dizer que precisava de antidepressivos e pegar os remédios.
— Porque… eu bebo quando fico mal.
Einstein começou a digitar.
— Muito?
Estava prestes a dizer que também era subjetivo, mas decidi dar uma resposta franca.
— Sim.
— Quando está feliz também?
— Acho que sim… mas qual é o problema de relaxar um pouco?
— Me fale como você se sente quando “fica mal”.
De novo, eu poderia ter feito uma piada. Poderia ter dito que ia para a balada e dançava até cair. Afinal, como poderia descrever o que sentia naqueles momentos sombrios em que o espírito enfiava as garras na minha alma? E, mesmo se conseguisse encontrar palavras, como ele poderia entender? Como alguém poderia entender de verdade? Ninguém sabia como era aquilo, o que piorava as coisas. Eu sempre me sentia sozinho. Nem outro usuário de espírito conseguiria entender completamente meu sofrimento. Cada um passava pelo seu próprio calvário e, claro, eu não podia citar o espírito especificamente.
Mesmo assim, me peguei falando com Einstein, descrevendo tudo do melhor jeito que pude. Depois de um tempo, ele parou de digitar e ficou ouvindo, fazendo uma ou outra pergunta para esclarecer meus sentimentos. Depois, parou de perguntar como eu me sentia quando ficava deprimido e quis saber como me sentia quando ficava alegre. Pareceu especialmente interessado nas minhas compras impulsivas e em “comportamentos incomuns”. Quando esgotamos esse tópico, ele me deu um monte de questionários com variações das mesmas perguntas.
— Cara — eu disse, devolvendo os papéis. — Não fazia ideia que era tão difícil se qualificar como louco.
Entrevi uma faísca divertida nos olhos dele.
— “Louco” é um termo usado demais e de maneira incorreta. Cria um estigma e tem um caráter final. — Ele apontou para a própria cabeça. — Nós somos todos substâncias químicas, Adrian. Nosso corpo, nosso cérebro. É um sistema simples, mas incrivelmente sofisticado e, de vez em quando, alguma coisa dá errado. Uma mutação celular. Um neurônio que dispara na hora errada. A falta de um neurotransmissor.
— Minha namorada adoraria isso — eu disse. Apontei para a papelada. — Então, mesmo sem ser louco, ganho os comprimidos?
Einstein folheou os papéis, assentindo, como se estivesse vendo exatamente o que tinha esperado.
— Se é o que você quer… mas não aqueles que queria. Seu caso é ainda mais complexo do que uma depressão. Você exibe muitos sintomas clássicos de distúrbio bipolar.
Havia algo sinistro na palavra “distúrbio”.
— O que isso quer dizer, em palavras que não começam com “neuro”?
Consegui que ele sorrisse com essa, embora fosse um sorriso um tanto triste.
— Significa, em termos muitos simples, que seu cérebro torna suas tristezas muito mais tristes e suas alegrias muito mais alegres.
— Você quer dizer que é possível ser feliz demais? — Eu estava começando a ficar incomodado com aquilo. Talvez o fato de os pacientes dele cancelarem em cima da hora era um sinal de que ele não era um médico tão bom assim.
— Depende do que você faz. — Ele olhou para os papéis que eu tinha preenchido. — Você gastou oitocentos dólares num conjunto de vinis recentemente?
— Sim, e daí? É a forma mais pura de música.
— Era uma coisa que você queria fazia tempo? Uma coisa que estava procurando?
Lembrei de quando tinha passado na frente do cartaz escrito à mão no campus.
— Hum, não. Apareceu a oportunidade e achei que era uma boa ideia.
— Você tem um histórico de fazer compras por impulso?
— Não. Quer dizer, teve um mês em que mandei flores pra uma menina todo dia. Também mandei entregar uma caixa gigante de perfume na casa dela. E comprei um perfume personalizado pra minha namorada atual que foi meio caro. E, tecnicamente, comprei um carro por causa dela também. Mas não pode me julgar por isso — acrescentei rápido, vendo o olhar desconfiado dele. — Eu estava apaixonado. Todo mundo faz coisas assim quando está apaixonado, não é? — Ele me respondeu com silêncio. — Talvez eu só precise de uma aula de gestão financeira.
Ele soltou um resmungo incompreensível.
— Adrian, é normal ficar alegre e triste. Faz parte da vida. — Não o corrigi nesse ponto. — O que não é normal é ficar tão triste que você não consegue fazer as tarefas do dia a dia ou tão alegre que se atira impulsivamente em atos grandiosos sem pensar nas consequências, como gastos excessivos. E definitivamente não é normal alternar tão rápido entre esses humores drásticos sem ou com pouco motivo.
Eu queria dizer que havia sim um motivo, que era o espírito que fazia aquelas coisas comigo. Mas será que a causa importava? Se um usuário de fogo se queimasse usando magia, ele precisaria de primeiros socorros de qualquer jeito. Se o espírito estava causando aquele negócio bipolar, eu precisava de tratamento, não? Minha mente estava girando e, de repente, me vi preso no dilema do ovo ou da galinha. Talvez não fosse o espírito que causasse a doença mental. Talvez pessoas como Lissa e eu já tivessem problemas químicos e isso nos aproximasse do espírito.
— Então, o que eu faço? — perguntei finalmente.
Ele tirou um bloquinho e rabiscou alguma coisa nele. Quando terminou, arrancou a página e a entregou para mim.
— Você leva essa receita.
— É um antidepressivo?
— É um estabilizador de humor.
Fiquei olhando para o papel como se ele fosse me morder.
— Espere. Isso vai me “estabilizar” para que eu não sinta alegria nem tristeza? Então não vou sentir nada? — Eu me levantei abruptamente. — Não! Não ligo se é perigoso. Não vou largar minhas emoções.
— Sente-se — ele disse com calma. — Ninguém vai levar suas emoções embora. É como eu disse: somos todos substâncias químicas. Você tem algumas que não estão nos níveis certos. Esse remédio vai ajustar a quantidade dessas substâncias, assim como um diabético corrigiria a insulina. Você vai continuar sentindo. Vai ficar feliz. Vai ficar triste. Vai ficar com fome. Só não vai ficar mudando de maneira imprevisível, passando de um extremo a outro. Não tem nada de errado nisso… e é muito mais seguro do que se automedicar com álcool.
Voltei a me sentar e fiquei olhando inexpressivo para a receita.
— Isso vai acabar com a minha criatividade, não vai? Sem meus sentimentos, não vou conseguir pintar como antes.
— É o medo de todos os artistas — Einstein disse, com a expressão mais grave. — Talvez afete algumas coisas, mas sabe o que realmente vai interferir na sua capacidade de pintar? Ficar deprimido demais para sair da cama. Acordar na cadeia depois de uma noite regada a álcool. Se suicidar. Essas coisas é que vão acabar com sua criatividade.
Era surpreendentemente parecido com o que Sydney havia dito sobre como eu conseguiria ter sucesso nas coisas.
— Eu vou ser normal — resmunguei.
— Você vai ser saudável — ele corrigiu. — Com isso, pode se tornar extraordinário.
— Gosto da minha arte do jeito que ela é. — Eu sabia que estava parecendo uma criança.
Einstein encolheu os ombros e se recostou na cadeira.
— Então vai ter que decidir o que é mais importante pra você.
Nem precisei pensar.
— Sydney.
Ele ficou em silêncio, mas sua expressão disse tudo. Soltei um suspiro e me levantei.
— Vou pegar o remédio.
Ele me deu algumas informações sobre os efeitos colaterais e me avisou que talvez precisasse de um pouco de tentativa e erro para acertar a dose. Sair de lá e ir para uma farmácia, em vez de uma loja de bebidas, exigiu mais autocontrole do que eu vinha usando nos últimos tempos. Me obriguei a prestar atenção enquanto o farmacêutico me falava sobre a dosagem e me advertia contra beber álcool enquanto estivesse sob efeito do medicamento.
Mas, quando voltei para casa, não tive coragem de abrir o frasco. Coloquei um disco ao acaso e sentei no sofá, olhando fixamente para o frasco na minha mão, mais confuso do que imaginava que ficaria.
Aquele estabilizador de humor era um mistério. Eu tinha achado que entraria lá e começaria a tomar a mesma coisa que Lissa havia tomado e, mesmo não sendo nenhum grande fã de comprimidos, pelo menos teria Lissa como referência. Mas isso? O que aconteceria? E se Einstein estivesse errado e eu parasse de sentir qualquer emoção? E se aquilo não fizesse nada além de causar os efeitos colaterais medonhos que ele havia dito que eram extremamente raros?
Por outro lado… e se não acabasse com o espírito, mas controlasse a escuridão? Seria um sonho realizado. Era o desejo original de Lissa quando começou a tomar antidepressivos. O entorpecimento total do espírito havia sido uma surpresa. Era incrível pensar que eu poderia ficar com a magia e ter o controle da minha vida. A ideia era tão tentadora que abri o frasco e coloquei um dos comprimidos na mão.
Mas não consegui tomar. Estava com muito medo — medo de perder o controle e medo de assumi-lo.
Tentei pensar em Sydney, mas não consegui ter uma ideia clara dela na minha cabeça. Numa hora, ela estava rindo, reluzente sob o sol. Em outra, estava chorando. Eu queria o que fosse melhor para ela… mas sabia que o que ela realmente queria era o que fosse melhor para mim. No entanto, era difícil saber o que era melhor para mim. Em cima da mesa, Pulinho, que estava na forma de estátua, parecia me julgar, e o virei de lado para que não ficasse me olhando.
A música me levou para longe e levei um susto ao perceber que tinha colocado Jefferson Airplane para tocar. Dei uma risada, mas ela logo se transformou num suspiro.
— “Um comprimido te faz crescer, o outro te faz encolher.” — Apertei o comprimido com força. — “E os que a sua mãe te dá não fazem absolutamente nada.”
Tome esse maldito comprimido, Adrian. A voz mandona na minha cabeça era minha, e não da tia Tatiana, felizmente. Abri a mão e fiquei observando o comprimido. Tome logo. Eu estava com um copo de água e tudo.
Mesmo assim, fiquei enrolando.
Dei um pulo quando o Celular do Amor tocou. Segurando o comprimido com uma mão, peguei o celular com a outra e li a mensagem de Sydney.
Falei para Z que tinha deixado o celular na loja, daí voltei e comprei um caderno de desenho e algumas tintas em bastão. Conhece algum artista faminto que precise disso?
Meu coração bateu mais forte. Eu não sabia como um corpo físico era capaz de conter tanto amor.
Sentia que meu peito iria explodir.
— Está bem, Alice — falei, olhando para o comprimido. — Vamos ver do que você é capaz.
Coloquei o comprimido na boca e engoli.

5 comentários:

  1. Adorei essa sessão psiquiátrica, haha com o Adrian tudo é mais divertido... Só tenho uma dúvida: como ele conseguiu pagar a consulta se rava quebrado? Hmm?

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    1. É da faculdade, provavelmente de graça

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    2. Sidney deu um dinheiro para ele depois que pagou o penhorista!

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    3. normalmente a consultas nas faculdades e escolas são de graça pq não visam o lucro e sim o bem estar do aluno, pq sempre tem gente que não consegue pagar

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  2. Adorei essa referencia de alice nos pais da maravilhas <3

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Boa leitura :)