13 de outubro de 2017

Capítulo 11

MARCUS DESAPARECEU A CAMINHO de seu esconderijo misterioso, e eu fui para casa. O que ele havia me contado ainda parecia absurdo. Fiquei repetindo a mim mesma que nada daquilo podia ser verdade. Era mais fácil de lidar assim.
De volta a Amberwood, encontrei o burburinho costumeiro da atividade estudantil vespertina. Era reconfortante depois da minha excursão cheia de surpresas, sem nenhum fanático ou feitiço misterioso por perto. Recebi uma mensagem no celular assim que entrei no alojamento. Era de Jill: Venha nos ver quando voltar. Pelo jeito, eu não teria nem um minuto de descanso. Deixei a bolsa no quarto e desci preguiçosamente até o segundo andar, sem saber o que encontraria.
Jill abriu a porta, parecendo imensamente aliviada ao me ver.
— Graças a Deus. Temos um problema.
— Nós sempre temos um problema — eu disse. Entrei e vi Angeline sentada no chão, encostada na parede, com um ar angustiado. — O que aconteceu?
Ela levantou os olhos rapidamente.
— Não foi culpa minha.
Meu frio na barriga aumentou.
— Nunca é, né? De novo: o que aconteceu?
Como Angeline se recusava a falar, Jill disse:
— Ela causou uma concussão na cabeça do Trey com um livro de álgebra.
Antes que eu começasse a entender aquilo, Angeline se levantou em um salto.
— O médico falou que não foi uma concussão!
— Esperem. — Olhei para as duas, com um pouco de esperança de que elas começassem a rir com a peça que deviam estar pregando. — Você fez alguma coisa com Trey que precisou de cuidados médicos?
— Mal encostei nele — ela insistiu.
Sentei na cama de Jill e resisti à vontade de me esconder debaixo dos lençóis.
— Não. Você não pode fazer isso. Não de novo. O que o diretor disse? Ai, meu Deus. Pra onde vamos mandar você? — Depois que Angeline tinha saído no braço durante uma apresentação musical antidrogas, ficou claro que mais uma briga a faria ser expulsa.
— Eddie assumiu a culpa — Jill disse. Um sorriso discreto perpassou seus lábios. — Não tinha muitas testemunhas, então Eddie disse que eles estavam brincando na biblioteca jogando o livro de um lado para o outro. Disse que se descuidou e lançou o livro com força demais... e que acabou acertando Trey sem querer.
— É — Angeline interrompeu. — Foi o que aconteceu mesmo.
— Não, não foi — Jill contestou. — Eu vi. Você ficou brava porque Trey disse que não deveria ser tão difícil entender que o x sempre tem um valor diferente.
— Ele estava me chamando de burra!
Variáveis não pareciam um conceito tão complicado para mim, mas eu podia ver que, sob a presunção de Angeline, ela realmente estava constrangida. Sempre tive a impressão de que, entre os Conservadores, Angeline era algo como uma líder. Em Amberwood, tinha que se esforçar para acompanhar o ritmo acadêmico e social, perdida num mundo muito diferente daquele em que havia crescido. Isso deixaria qualquer pessoa insegura. E, por mais que achasse questionável que Trey a tivesse chamado de burra, conseguia entender como alguns de seus comentários sarcásticos poderiam ser interpretados dessa maneira.
— Eddie vai ter problemas por causa disso? — perguntei. Duvidava que ele fosse expulso por algo assim, mas, considerando minha sorte, era bem possível que ele recebesse a punição de que livrara Angeline.
— Detenção — Jill disse.
— Ele aceitou com muita coragem — Angeline acrescentou.
— Aposto que sim — falei, enquanto me perguntava se alguma das duas percebia que estavam com a mesma expressão de adoração. — Angeline, sei que deve ser frustrante ter um tutor, mas você precisa manter a calma, tá? Trey só está tentando ajudar.
Ela pareceu cética.
— Ele é meio arrogante às vezes.
— Eu sei, mas as pessoas não estão exatamente fazendo fila pra preencher essa vaga. Precisamos de você aqui. Jill precisa de você aqui. Eddie precisa de você aqui. — Notei que parte de sua indignação passou quando mencionei seus amigos e seu dever. — Por favor, tente trabalhar com Trey.
Meio a contragosto, ela assentiu, e me levantei para sair. Jill me seguiu apressada até o corredor.
— Ei, Sydney? Como foi o encontro com Marcus?
— Nada de mais — eu disse. Definitivamente não compartilharia as revelações bombásticas de Marcus. — Foi informativo. E aprendi a jogar Skee-Ball.
Jill pareceu quase ofendida.
— Vocês jogaram Skee-Ball? Pensei que quisesse descobrir a história secreta dos alquimistas.
— Fizemos as duas coisas ao mesmo tempo — eu disse, não gostando nada do tom dela.
Saí antes que ela pudesse fazer outro comentário e mandei uma mensagem para Eddie quando cheguei ao dormitório. Ouvi o que aconteceu. Sinto muito. E obrigada.
A resposta dele foi rápida: Pelo menos não foi uma concussão.
No caminho para encontrar Adrian no dia seguinte, me preparei para os comentários sarcásticos. Era provável que Jill já tivesse contado a ele sobre o encontro no fliperama, o que provavelmente o levaria a dizer algo como: “Bom saber que você está tão dedicada a descobrir a verdade sobre os alquimistas. É bom não perder o jogo de vista”.
Quando estacionei em frente ao prédio do Adrian, ele já estava me esperando na calçada. Assim que vi seu rosto sério, meu coração disparou. Pulei do carro, quase sem parar para tirar as chaves da ignição.
— O que aconteceu? — perguntei, correndo até ele.
Ele pousou a mão no meu ombro, mas eu estava preocupada demais para ligar para o toque.
— Sydney, não quero que perca a calma. Não vai ter nenhuma sequela.
Examinei Adrian de cima a baixo.
— Você está bem? Se machucou?
Por um momento, sua expressão sombria se tornou confusa. Então ele entendeu.
— Ah, você acha que fui eu? Não, estou bem. Venha.
Ele me levou até o fundo do prédio, onde ficava o estacionamento particular dos moradores. Eu congelei, boquiaberta enquanto absorvia a cena terrível. Alguns outros moradores estavam andando de um lado para o outro, e um policial estava parado por perto, fazendo algumas anotações. Ao nosso redor, sete carros estacionados tinham os pneus furados.
Incluindo o Mustang.
— Não!
Corri até ele, ajoelhando e examinando o dano. Senti como se estivesse no meio de uma guerra, segurando um companheiro morto no campo de batalha. Estava prestes a gritar: “Aguente firme, amigo!”.
Adrian se agachou ao meu lado.
— Os pneus podem ser trocados. Acho que o seguro até cobre isso.
Eu ainda estava horrorizada.
— Quem fez isso?
Ele encolheu os ombros.
— Acho que foram uns pivetes. Fizeram a mesma coisa nuns carros no outro quarteirão ontem.
— E você não achou que valia a pena me contar?
— Não fazia ideia de que viriam para cá também. Além disso, sabia que você teria um ataque e ia querer instalar vigilância vinte e quatro horas aqui.
— Não é má ideia. — Levantei os olhos para o prédio. — Você deveria falar com o proprietário sobre isso.
Adrian não parecia tão preocupado quanto deveria estar.
— Não sei se ele aceitaria. Quer dizer, essa não é uma região muito perigosa.
Apontei para o Mustang.
— Então como isso foi acontecer?
Embora pudéssemos usar o Pingado para ir até Los Angeles, tivemos de esperar o fim do trabalho da polícia e depois pedir um guincho. Fiz questão de falar ao motorista do guincho que era melhor ele não causar nenhum arranhão no carro e, então, observei com tristeza enquanto o Mustang era rebocado para longe. Depois que o ponto amarelo reluzente desapareceu numa esquina, perguntei para Adrian:
— Está pronto para ir?
— A gente tem tempo suficiente?
Olhei para o celular e soltei um resmungo. Tínhamos gastado tempo demais lidando com as consequências do vandalismo. Apesar disso, eu odiava esperar até o dia seguinte, considerando que já tinha perdido o dia anterior lidando com Marcus. Liguei para a sra. Terwilliger e perguntei se ela me daria cobertura caso eu voltasse depois do toque de recolher.
— Sim, sim, claro — ela disse, num tom que sugeria não entender por que eu tinha me dado ao trabalho de ligar. — Fale com o máximo de garotas que puder.
A sra. Terwilliger havia me dado seis nomes. Já tínhamos avisado Wendy Stone. Outras três moravam relativamente perto uma da outra e eram nosso objetivo naquela noite. As duas últimas moravam perto da costa, e planejamos falar com elas no dia seguinte. Adrian tentou conversar comigo durante todo o trajeto, mas minha cabeça ainda estava no Mustang.
— Ai, meu Deus, sou uma idiota — eu disse quando estávamos perto do nosso destino.
— Nunca usaria esse termo para descrever você — ele disse prontamente. — Articulada. Elegante. Inteligente. Organizada. Bonita. Usaria esses termos, mas nunca “idiota”.
Quase perguntei por que “bonita” vinha depois de “organizada”, mas então me lembrei da minha verdadeira preocupação.
— Não paro de pensar naquele carro enquanto a vida de garotas inocentes está em risco. Sou uma imbecil. Minhas prioridades estão todas erradas.
Meus olhos estavam concentrados na estrada, mas pude perceber que ele estava sorrindo.
— Se suas prioridades realmente estivessem erradas, você teria seguido o guincho. Mas você está aqui, indo ajudar completas desconhecidas. Isso é uma coisa nobre, Sage.
— Não se exclua dessa — eu disse. — Você está sendo bem nobre também, indo nessas viagens comigo.
— Bom, não é a mesma coisa que jogar Skee-Ball, mas é o que posso fazer. Como foi, aliás? Descobriu alguma coisa?
— Sim, muitas... algumas bem inacreditáveis, na verdade. Mas ainda preciso de provas.
A sorte estava do nosso lado no começo. As duas primeiras meninas estavam em casa, embora a reação delas tenha sido parecida com a de Wendy Stone. Dessa vez, tive o cuidado de levar o artigo de jornal comigo, com a esperança de causar uma impressão mais forte. A imagem macabra as fez parar para pensar, mas saí sem saber se realmente me levariam a sério e usariam os amuletos de ágata.
Nossa boa sorte acabou quando chegamos ao último nome. Ela também era uma universitária, o que significava que visitaríamos outro campus. Seu nome era Lynne Titus, e morava na república de uma fraternidade. Admito que, enquanto batia na porta, estava completamente preparada para encontrar um grupo de meninas vestidas de rosa, fazendo uma guerra de travesseiro na sala. Mas, quando nos deixaram entrar, encontramos uma casa organizada, não muito diferente do apartamento de Wendy. Algumas meninas entravam e outras saíam, enquanto outras estavam sentadas com livros e papéis.
— Lynne? — disse a menina que abriu a porta. — Ela acabou de sair.
Sabia que não deveria ficar surpresa. Aquelas meninas tinham suas próprias vidas. Não estavam todas pacientemente esperando que eu chegasse e conversasse com elas. Preocupada, olhei para uma janela, percebendo que o sol estava prestes a se pôr.
— Tem ideia de quando ela volta?
— Não — a menina respondeu. — Desculpe. Não sei nem aonde ela foi.
Adrian e eu nos entreolhamos.
— Você está livre do toque de recolher — ele me lembrou.
— Eu sei. Mas não significa que quero passar a noite toda esperando. — Fiz alguns cálculos mentais. — Acho que podemos ficar aqui algumas horas. Três, no máximo.
Adrian pareceu adorar a ideia, e fiquei em dúvida se estava mais animado por passar um tempo num campus... ou por passar um tempo comigo.
— O que tem de divertido pra fazer aqui? — ele perguntou para nossa anfitriã, observando o calmo ambiente acadêmico ao nosso redor. — Nenhuma grande festa, né?
A menina lançou um olhar de censura.
— Somos uma fraternidade muito séria. Se estão procurando festas, com certeza tem uma descendo a rua. Aquelas meninas dão uma festa por noite. — Adrian me olhou, esperançoso.
— Ah, sério? — eu disse. — Não dá pra procurar um museu legal?
— Precisamos ficar por perto para o caso de Lynne voltar — Adrian argumentou. Algo me dizia que, mesmo se a festa fosse do outro lado do campus, ele também teria insistido. — Além disso, se quer tanto ir para a faculdade, precisa ver tudo o que ela tem a oferecer. E não é você que gosta de coisas gregas? Então, todas essas fraternidades têm nome grego.
Definitivamente não era isso que eu tinha em mente, e ele sabia. Relutante, acabei aceitando, mas logo avisei que ele não poderia beber. Eu estava com a peruca morena e imaginava que ele estivesse usando o espírito para aumentar ainda mais meu disfarce. O álcool diminuiria sua capacidade de usar magia. Além do mais, simplesmente não queria ver Adrian bêbado.
Foi fácil encontrar a casa onde ocorria a festa pela música vindo dela. Um casal bebendo cerveja em copos de plástico nos barrou na porta.
— A festa é só para fraternidades — a menina disse. Parecia prestes a cair do banquinho. — Com quem vocês estão?
Apontei vagamente na direção da fraternidade de Lynne.
— Hum, com eles.
— Ergo Iam Alfa — Adrian disse, sem hesitar. Eu estava esperando que o casal comentasse que algumas daquelas letras nem gregas eram. Mas, talvez porque Adrian tivesse falado com muita confiança ou porque eles já tinham bebido demais, o menino fez sinal para que entrássemos.
Era quase como voltar para o fliperama — uma enchente avassaladora de estímulos. A casa estava lotada e barulhenta; fumaça pairava no ar e o álcool estava por toda parte. Muitas pessoas nos ofereceram bebidas, e uma menina nos convidou — três vezes — para participar de um jogo estranho que envolvia uma bolinha de pingue-pongue e copos de cerveja, esquecendo que já tinha falado com a gente antes. Fiquei olhando assombrada, tentando disfarçar a repulsa.
— Que desperdício da mensalidade. Isso está arruinando todos os meus sonhos universitários — gritei para Adrian. — Tem alguma coisa pra fazer além de beber ou ser babaca?
Ele examinou a sala, conseguindo ver além por causa de sua altura. Então abriu um sorriso.
— Aquilo parece interessante. — Ele segurou na minha mão. — Venha.
Numa cozinha surpreendentemente bonita e espaçosa, encontramos várias meninas sentadas no chão, pintando camisetas. A julgar pelo trabalho malfeito e pelas manchas de tinta, elas também tinham bebido. Uma menina tinha um copo de cerveja ao lado de um copo idêntico de tinta, e torci para que não confundisse os dois.
— O que estão fazendo? — perguntei.
Uma das meninas levantou os olhos e sorriu.
— Camisetas para o festival de inverno. Quer ajudar?
Antes que eu pudesse dizer não, Adrian já estava agachado ao lado delas.
— Claro. — Ele pegou uma camiseta branca e um pincel com tinta azul. — O que estamos pintando? — O trabalho tosco das meninas tornava a pergunta válida.
— Nossos nomes — uma delas respondeu.
— Coisas de inverno — a outra corrigiu.
Isso bastou para Adrian. Ele começou a pintar flocos de neve na camiseta. Sem conseguir me conter, me ajoelhei para ver melhor. Apesar de seus defeitos, Adrian era um bom artista. Ele misturou algumas cores, pintando flocos de neve intricados e estilizados. Em determinado momento, parou para acender um cigarro de cravo, compartilhando o cinzeiro com uma das meninas. Era um hábito de que eu não gostava muito, mas, pelo menos, o resto da fumaça naquele lugar disfarçava a dele. Enquanto terminava e escrevia o nome da fraternidade, percebi que todas as outras meninas tinham parado para olhar.
— Está linda — disse uma delas, com os olhos arregalados. — Posso ficar com ela?
— Eu quero — insistiu a outra.
— Vou fazer uma pra cada — ele prometeu. A maneira como elas o olhavam era um lembrete incômodo da longa experiência dele com mulheres. Me aproximei um pouco mais, para que elas não pensassem besteira.
Ele deu a camiseta branca para a primeira menina e então começou a trabalhar numa azul. Depois que cumpriu sua promessa para cada uma delas, remexeu na pilha de camisetas até encontrar uma preta masculina.
— Preciso prestar homenagem à minha fraternidade.
— Claro — ironizei. — Ergo Iam Alfa.
Adrian assentiu, solene.
— Um grupo de muita tradição e prestígio.
— Nunca ouvi falar deles — disse a menina que pegou a primeira camiseta.
— Eles não deixam muita gente entrar — ele comentou. Com tinta branca, escreveu as iniciais da sua fraternidade de mentira: EIA.
— Não é isso que os marinheiros falam? — perguntou uma outra.
— É que os Iam Alfa têm origens náuticas — ele explicou. Para o meu espanto, começou a pintar um esqueleto pirata numa motocicleta.
— Ah, não — resmunguei. — Não a tatuagem.
— É o nosso símbolo — ele disse. Certa vez, tivemos de investigar um estúdio de tatuagem e, para distrair o dono, Adrian tinha entrado e fingido estar interessado numa tatuagem que se parecia muito com o que estava desenhando agora. Quer dizer, eu achava que ele estivesse fingindo. — Não é da hora?
“Da hora” não era a expressão que eu usaria, mas, apesar de ser uma imagem ridícula, ele realmente fez um belo trabalho. Sentei, abraçando os joelhos e me recostando na parede. Ele logo parou com as piadas e ficou completamente absorto no trabalho, pintando os ossos do esqueleto meticulosamente, assim como os do esqueleto de papagaio no ombro do personagem. Fiquei olhando para seu rosto enquanto pintava, fascinada pelo brilho em seus olhos. A arte era uma das poucas coisas que pareciam ancorá-lo no mundo e tirá-lo da escuridão que havia dentro dele. Ele parecia brilhar com uma luz interior que realçava ainda mais seu rosto já bonito. Era mais um daqueles vislumbres raros e tocantes da natureza intensa e passional que havia por trás das piadas que vivia fazendo. Essa natureza aparecia com a arte, e havia aparecido quando ele me beijou.
De repente, Adrian olhou para mim. Nossos olhares se cruzaram, e senti como se ele pudesse ler minha mente. Com que frequência ele pensava naquele beijo? E, se era realmente louco por mim, será que imaginava outras coisas além de beijos? Será que fantasiava comigo? Em que tipo de coisas pensava? Seus lábios no meu pescoço? Sua mão na minha perna? Essa perna estava nua...?
Fiquei com medo de que meus olhos me traíssem e desviei o olhar rápido.
Desesperada, procurei algum comentário engraçadinho e impessoal.
— Não se esqueça do ninja atirando shurikens.
— Claro. — Pude sentir o olhar de Adrian em mim por mais alguns momentos. Havia algo de tangível nele, um calor que me envolvia. Não voltei a olhar até ter certeza de que sua atenção estava de volta na camiseta. Ele acrescentou os shurikens e então se afastou, triunfante. — Bem legal, né?
— Nada mal — respondi. Na verdade, estava incrível.
— Quer uma também? — Ele sorriu de uma maneira que reacendeu aqueles sentimentos calorosos. Não consegui não retribuir o sorriso.
— Não temos tempo — consegui dizer. — Precisamos ver se Lynne já voltou.
— Faço rapidinho.
— Nada de pirata — adverti. Ele encontrou uma pequena camiseta roxa e começou a pintá-la. — Roxa?
— É a sua cor — ele insistiu. Essas palavras me deram um calafrio. Adrian conseguia enxergar a aura das pessoas, uma luz que as cercava e que estava relacionada com a personalidade delas. Ele me dissera que a minha era amarela, uma cor comum a todos os intelectuais. Mas eu também tinha tons de roxo, o que indicava uma natureza passional e espiritual. Não eram qualidades que eu costumava achar que possuía... mas, às vezes, bem que gostaria de tê-las.
Observei, fascinada, enquanto ele pintava um grande coração prateado com chamas de um lado. Todo o desenho era em estilo celta. Era lindo.
— De onde tirou isso? — perguntei, maravilhada. Já tinha visto boa parte dos trabalhos dele, mas nunca algo como aquilo.
Seus olhos estavam cravados no coração, completamente absorvidos no trabalho.
— Só uma coisa que me passou pela cabeça. Me lembra você. Doce e ardente ao mesmo tempo. Uma chama na escuridão, iluminando meu caminho. — Aquela voz... aquelas palavras. Reconheci um de seus momentos movidos pelo espírito. Deveria ter me incomodado, mas havia algo de sensual na maneira como ele falava, algo que me fazia perder o ar. Uma chama na escuridão.
Ele trocou o pincel prateado por um preto. E, antes que eu pudesse impedir, escreveu no coração: EIA. E abaixo, em letras menores: membra honorária.
— O que você está fazendo? — gritei. O encanto havia se partido. — Estragou a camiseta!
Adrian se voltou para mim com um olhar malandro.
— Pensei que ficaria lisonjeada em ser aceita como membra honorária.
— Como faço para entrar? — uma das meninas perguntou.
Apesar da minha indignação, peguei a camiseta quando ele a estendeu. Ergui com cuidado para não estragar a pintura. Apesar das palavras ridículas, o coração em chamas ainda era espetacular. Ele se destacava, e não conseguia parar de admirá-lo. Como alguém tão irreverente conseguia criar algo tão bonito? Quando finalmente voltei a levantar os olhos, dei de cara com Adrian me observando. Aquele transe de antes tomou conta de mim, e não consegui me mover.
— Você não pintou nada — ele disse baixinho.
— Minha criatividade é nula — eu disse.
— Todo mundo tem um pouco de criatividade — ele insistiu. Então me entregou o pincel prateado e se encostou na parede também. Nossos braços e pernas se tocaram. Ele pôs sua camiseta preta da EIA no colo. — Vai. Acrescente alguma coisa. Qualquer coisa.
Fiz que não em protesto e tentei devolver o pincel.
— Não sei desenhar nem pintar. Vou estragar tudo.
— Sydney. — Ele colocou o pincel de volta na minha mão. — É um esqueleto de pirata, não a Monalisa. Você não vai diminuir o valor dele.
Talvez fosse o caso, mas era difícil imaginar o que eu poderia acrescentar àquilo. Eu sabia fazer muitas coisas, mas pintar definitivamente não era uma delas, ainda mais em comparação ao talento dele. No entanto, algo em seu olhar me motivou e, depois de pensar muito, fiz o melhor que pude para desenhar uma gravata no pescoço do esqueleto. Adrian franziu a testa.
— É uma corda?
— É uma gravata! — esbravejei, tentando não me sentir ofendida.
Ele riu, visivelmente se divertindo.
— Desculpe.
— Ele pode ir a uma reunião executiva agora — acrescentei, achando necessário defender meu trabalho. — Está muito elegante.
Adrian pareceu gostar ainda mais.
— Claro que sim. Elegante e perigoso. — Parte de seu bom humor foi diminuindo, e ele ficou pensativo enquanto me examinava longamente. — Igual a você.
Tinha estado tão preocupada com o desafio artístico que, até aquele momento, não havia percebido o quanto ele se aproximara de mim. De repente, vários detalhes entraram em foco. O formato dos seus lábios, a linha do seu pescoço.
— Não sou perigosa — murmurei.
Ele aproximou o rosto do meu.
— Para mim, é.
E, de algum modo, contrariando toda a lógica, nos beijamos. Fechei os olhos, e o mundo ao nosso redor desapareceu. O barulho, a fumaça... tudo sumiu. A única coisa que importava era o sabor da boca dele, um misto de cravo e menta. Havia um ardor em seu beijo, um desespero... que retribuí, com a mesma ansiedade. Não o impedi quando ele me puxou ainda mais para perto, quase indo parar no colo dele. Ninguém nunca tinha me abraçado daquele jeito, e fiquei surpresa com a avidez com que meu corpo respondeu. Seu braço envolveu minha cintura, me puxando ainda mais para perto, e sua outra mão desceu pela minha nuca, se emaranhando no meu cabelo. Por incrível que pareça, a peruca continuou no lugar. Ele tirou os lábios dos meus e começou a dar beijos suaves pelo meu pescoço. Inclinei a cabeça para trás, perdendo o fôlego quando a boca dele retomou a intensidade. Havia um caráter selvagem naquele beijo que enviava ondas elétricas por todo o meu corpo. Uma voz alquimista me advertiu que era exatamente assim que os vampiros se alimentavam, mas eu não estava com medo.
Adrian não me machucaria, e eu precisava saber a força com que ele poderia me beijar e...
— Ai, meu Deus!
Adrian e eu nos separamos como se tivessem jogado um balde de água fria em nós, embora nossas pernas continuassem entrelaçadas. Olhei ao redor em pânico, quase esperando ver Stanton nos observando, indignada. Em vez disso, levantei os olhos e vi o rosto apavorado de uma garota desconhecida. Ela nem estava olhando para nós.
— Vocês não vão acreditar no que aconteceu! — ela gritou, se dirigindo às outras artistas. Ela apontou vagamente para trás. — Um pouco adiante na rua da Capa, encontraram uma menina inconsciente. Eles não conseguem acordar a coitada. Não sei o que aconteceu, mas parece que ela foi atacada. Tem até polícia lá na frente.
Adrian e eu nos entreolhamos por um instante, atordoados. Então, sem dizer uma palavra, nos levantamos. Ele segurou minha mão para me estabilizar até que minhas pernas trêmulas recuperassem a força. Estou fraca por causa da notícia, disse a mim mesma. Não porque estava ficando com um vampiro.
Mas o perigo e a embriaguez daqueles beijos desapareceram quase instantaneamente quando voltamos à fraternidade de Lynne. Havia pessoas apavoradas por todo lado, e a segurança do campus ficava entrando e saindo, o que permitiu que entrássemos pela porta aberta.
— O que aconteceu? — perguntei para uma menina morena ali perto.
— Lynne... — ela disse, mordendo os lábios. — Acabaram de encontrá-la num auditório vazio.
Algo em seu tom de voz me deixou apreensiva.
— Ela está viva?
Ela assentiu.
— Acho que sim, mas dizem que tem alguma coisa muito errada. Ela está inconsciente e parece... sei lá... velha.
Me virei para Adrian e percebi vagamente que ele estava com tinta prateada no cabelo. Eu ainda estava com o pincel na mão quando o abraçara.
— Saco — ele murmurou. — Tarde demais.
Eu queria gritar de frustração. Estivéramos tão perto de avisá-la. Disseram que ela havia saído pouco antes de chegarmos. E se tivéssemos chegado antes? E se tivéssemos visitado Lynne antes das outras duas? Eu tinha escolhido a ordem ao acaso. Pior: e se tivéssemos conseguido encontrá-la em vez de ficar brincando de pintura com as meninas bêbadas da fraternidade?
E se eu não tivesse beijado Adrian? Ou, talvez, tenha sido ele quem tinha me beijado. De qualquer modo, eu não tinha exatamente resistido.
No entanto, quanto mais eu descobria, mais improváveis pareciam as chances de termos conseguido alguma coisa investigando na casa de Lynne. Ninguém sabia aonde ela havia ido. Só uma pessoa a tinha visto sair, uma menina de cabelo loiro e encaracolado que frustrou a polícia do campus com respostas vagas.
— Desculpe — ela ficava repetindo. — Não consigo... não consigo me lembrar da menina com quem ela saiu.
— Nada? — um dos policiais perguntou. — Altura? Idade? Cor do cabelo?
A menina franziu a testa, como se fizesse o maior esforço mental possível. Por fim, desistiu, com uma expressão derrotada, e meneou a cabeça.
— Desculpe, mas não lembro.
— Ela tinha cabelo preto? — sugeri.
A menina entreabriu um sorriso.
— Talvez. Não, espere. Acho que era castanho. Não. Ruivo, talvez?
Adrian e eu nos afastamos, sabendo que não havia mais nada que pudéssemos fazer.
— Aquela menina parece muito confusa — eu disse enquanto voltávamos para o carro.
— Sem dúvida — ele concordou. — Parece familiar?
— Muito — murmurei, reconhecendo os sinais de magia.
Ninguém poderia negar. Veronica passara por ali. E nós tínhamos chegado tarde demais para detê-la.

2 comentários:

  1. Oie???? Cenas quentes, please!!!!!!

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  2. Mais beijos. EIA é a fraternidade secreta de Adrian e Sydney. Podia ser o nome pro grupo rebeldes deles, já que não tem nome.

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Boa leitura :)