3 de outubro de 2017

Capítulo 11

NÃO SOU NENHUMA ATLETA. Até sei jogar vôlei, e uma vez Eddie me ensinou como dar um soco. Mas não tinha recebido o tipo de treinamento dos guardiões. E, sem dúvida, não tinha os reflexos deles. Então, numa situação como aquela, sem conseguir me livrar daquela chave de braço, fiz a única coisa ao meu alcance.
Gritei.
— Socorro! Alguém me ajude!
Minha esperança era impedir que os agressores de Sonya a decapitassem, ou o que quer que tivessem planejado fazer com ela. Também esperava que, bem, alguém nos socorresse. Tínhamos abandonado as avenidas principais do centro, mas ainda estávamos perto o bastante para alguém nos ouvir, ainda mais porque até pouco tempo antes havia um número razoável de pessoas circulando pelas rua.
Um dos homens que seguravam Sonya vacilou, o que me fez supor que pelo menos isso eu tinha conseguido. Meu captor colocou a mão na minha boca e me empurrou com mais força contra a parede. Então algo estranho aconteceu. O homem — ainda que não pudesse ver seu rosto, seu tipo físico era obviamente masculino — ficou paralisado. Ainda estava me segurando, mas seu corpo ficara rígido. Era como se estivesse surpreso ou em choque. Não entendi por quê. Afinal, gritar por ajuda quando se é atacado não é tão incomum assim. Não pensei que seria capaz de derrubá-lo, mas julguei que poderia tirar vantagem de sua inação. Voltei a empurrar, tentando me livrar de seu controle. Só consegui me mover alguns centímetros até ele voltar a me segurar com mais força.
— Precisamos ir! — um dos captores de Sonya exclamou. Outro homem. Pelo que pude perceber, eram todos homens. — Alguém vai chegar.
— Isso só vai levar um segundo — o que segurava a espada grunhiu. — Precisamos livrar o mundo deste mal.
Observei aterrorizada, com o coração disparado no peito. Temia por mim, mas especialmente por Sonya. Nunca tinha visto uma decapitação antes, e não era agora que queria começar.
Meio segundo depois, me vi subitamente livre. Outra pessoa havia se juntado à briga, alguém que agarrou meu captor e o atirou ao chão sem dificuldade. Aquilo devia ter doído, e o cara caiu com um gemido. Mesmo sob a luz fraca, a altura e o sobretudo entregaram meu salvador: Dimitri.
Eu já o vira lutar antes, mas nunca me cansava. Era fascinante. Ele não parava de se mover nem por um segundo. Cada ação era elegante e mortal. Ele era como um dançarino da morte. Deixando de lado aquele que acabara de lançar ao longe, Dimitri correu na direção dos demais. De imediato, partiu para o homem com a espada. Com um chute veloz, lançou o agressor voando para trás, fazendo com que derrubasse a espada e mal conseguisse se agarrar a uma das árvores em volta da igreja.
Enquanto isso, um dos homens que até então segurava Sonya simplesmente deu as costas e saiu correndo para o centro. Dimitri não o seguiu. Sua atenção estava toda voltada para o último rapaz, que, imprudente, tentava revidar. Isso, porém, deixou Sonya livre, e sem perder tempo ela se levantou e correu na minha direção. Era raro eu ficar sentimental com alguém, principalmente os Moroi, mas a abracei sem pensar duas vezes. Ela retribuiu o abraço, e pude sentir que tremia. Antes, em seu período Strigoi, ela havia sido incrivelmente poderosa. Mas como agora era apenas uma Moroi que havia pouco fora ameaçada com uma espada no pescoço, a situação era bem distinta.
O rapaz que enfrentava Dimitri até conseguiu desviar de alguns golpes. Seu erro foi tentar acertá-lo — isso o fez abrir a guarda, e lhe rendeu um forte murro na cara. O mais alto, que havia sido lançado contra a árvore, tentou atacar, mas seria ingênuo se achasse que Dimitri tinha se distraído. Dimitri o despachou sem dificuldade, fazendo-o cair ao lado do rapaz que tinha acabado de socar. O mais alto tentou se levantar e parecia querer atacar novamente. Seu amigo o conteve e o puxou para trás. Após um impasse momentâneo entre os dois, eles finalmente fugiram. Dimitri não os perseguiu. Sua atenção estava toda voltada para mim e Sonya.
— Vocês estão bem? — ele perguntou, vindo rápido até nós.
Com esforço, fiz que sim com a cabeça, enquanto meu corpo tremia sem parar.
— Vamos dar o fora daqui — Dimitri disse.
Ele colocou as mãos sobre nossos ombros e começou a nos levar dali.
— Espere — eu disse, virando na direção da igreja. — Devíamos pegar a espada.
Procurei à minha frente, mas estava ainda mais escuro do que antes. Dimitri a encontrou rapidamente com sua visão excepcional. Escondeu-a sob o sobretudo e saímos rápido dali. Caminhamos até o apartamento de Adrian, que era muito mais perto do que a mansão de Clarence, fora da cidade. Mesmo assim, o curto trajeto pareceu durar uma eternidade. Sentia que poderíamos ser atacados a qualquer momento, embora Dimitri continuasse nos tranquilizando enquanto nos guiava num ritmo quase acelerado.
Adrian ficou surpreso ao nos ver diante da porta. Também parecia muito bêbado, mas não me importei. Tudo o que eu queria era a segurança de suas quatro paredes.
— O que... o que está acontecendo? — ele perguntou, enquanto Dimitri nos apressava para entrar. Os olhos de Adrian se voltaram para cada um de nós, recaindo em mim por mais tempo. — Vocês estão bem? O que aconteceu?
Dimitri nos examinou, verificando se tínhamos algum ferimento, apesar de nossos protestos. Estendeu a mão e segurou meu queixo, gentil, voltando minha bochecha não tatuada na direção dele.
— Um pequeno arranhão — ele disse. — Nada sério, mas você devia dar uma lavada nele.
Toquei onde ele havia indicado e me surpreendi ao ver sangue nas minhas mãos. Não me lembrava de ter me ferido, mas imaginei que fosse por causa da parede de tijolos.
Sonya não tinha nenhum ferimento físico, mas admitiu estar com uma dor muito forte na cabeça, onde tinha batido no chão.
— O que aconteceu? — Adrian perguntou novamente.
Dimitri mostrou a espada que havia recolhido na cena do crime.
— Algo um pouco mais grave que um assalto, imagino eu.
— Acho que sim — Sonya disse, sentando no sofá. Sua atitude era surpreendentemente calma, considerando tudo por que tinha acabado de passar. Ela tocou na nuca e se encolheu de dor. — Ainda mais porque me chamaram de “criatura do mal” antes de aparecerem.
— Chamaram? — Dimitri perguntou, arqueando a sobrancelha.
Eu não havia me movido desde que entrara na sala. Simplesmente fiquei lá, em pé, encolhida, perdida. Me mexer parecia difícil demais. Pensar parecia difícil demais. Enquanto Dimitri examinava a espada, porém, algo chamou minha atenção e fez meu cérebro lento voltar a funcionar aos poucos.
Ao notar meu interesse, ele me entregou a espada. Peguei-a, tomando cuidado com a lâmina, e examinei o cabo, coberto de gravuras.
— Elas lembram você de alguma coisa? — perguntou.
Minha mente ainda estava enevoada pelo medo e pela adrenalina, mas tentei desenterrar algumas informações.
— São símbolos de alquimia antiga — respondi. — Da Idade Média, do tempo em que nosso grupo era um bando de cientistas medievais tentando transformar chumbo em ouro.
Isso era tudo que os livros de história comuns sabiam sobre nossa sociedade. Isso e o fato de que, com o tempo, acabamos desistindo do ouro. A organização encontrou compostos mais sofisticados, como sangue de vampiro. A interação com eles levou a nossa causa atual, conforme os antigos alquimistas descobriram as tentações sombrias e terríveis que os vampiros representavam. Nossa causa se transformou numa causa sagrada. A química e as fórmulas em que minha sociedade trabalhara, até então para ganho pessoal, tornaram-se instrumentos essenciais para esconder a existência dos vampiros, instrumentos esses que agora complementávamos com a tecnologia.
Toquei no símbolo maior, um círculo com um ponto no centro.
— Na verdade, este é o símbolo do ouro. Este, o da prata. Essas quatro formas triangulares são os elementos básicos, terra, ar, água e fogo. E estes... Marte e Júpiter, planetas ligados ao aço e ao estanho. Talvez seja a composição da espada? — Franzi a sobrancelha e examinei o restante do metal. — Mas não tem ouro nem prata aqui. Seus símbolos também podem representar o Sol e a Lua. Talvez não representem coisas físicas. Não sei.
Devolvi a espada para Dimitri. Sonya a pegou da mão dele, examinando o que eu tinha ressaltado.
— Então você está dizendo que esta é uma arma alquimista?
Balancei a cabeça.
— Os alquimistas jamais usariam uma coisa assim. É mais fácil usar um revólver. E os símbolos são muito arcaicos. Nós usamos a tabela periódica agora. É mais fácil escrever “Au” do que desenhar o símbolo do Sol para representar o ouro.
— Existe algum motivo para essas figuras estarem numa arma? Algum simbolismo ou significado maior? — Dimitri perguntou.
— Então, novamente, se você pensar no passado, o Sol e o ouro eram as coisas mais importantes para os antigos alquimistas. Eles se concentravam nessa ideia de luz e claridade. — Toquei minha bochecha. — Essas coisas ainda são importantes, de certa forma. É por isso que usamos a tinta dourada. Além dos benefícios, o dourado nos marca como... puros. Santificados. Parte de uma causa sagrada. Mas numa espada... não sei. Se quem fez isso estava seguindo o mesmo simbolismo, talvez a espada seja santificada. — Relembrei as palavras dos agressores, sobre voltar para o Inferno. Fiz uma careta. — Ou talvez os donos da espada achassem que estavam servindo a algum tipo de dever sagrado.
— Quem eram esses caras, afinal? — Adrian perguntou. — Vocês acham que Jill está correndo perigo?
— Eles sabiam sobre os vampiros, mas eram humanos — Dimitri disse.
— Até eu pude perceber isso — concordei. — Um deles era bem alto, mas não era Moroi.
Para mim, era difícil e intrigante admitir que nossos agressores fossem humanos. Sempre acreditei que os Strigoi eram malignos. Isso era fácil. E como até mesmo os Moroi não eram totalmente confiáveis, a ideia de haver assassinos Moroi atrás de Jill não parecia nada improvável. Mas, os humanos... as pessoas que eu devia estar protegendo? Aquilo era difícil. Eu havia sido atacada pelos meus semelhantes, os supostos “mocinhos”, e não pelos demônios com presas que eu tinha sido ensinada a temer. Era um duro golpe na minha visão de mundo.
O rosto de Dimitri ficou ainda mais sombrio.
— Nunca ouvi falar de nada assim antes. Principalmente porque nenhum humano sabe sobre os Moroi. Exceto os alquimistas.
Lancei um olhar incisivo para ele.
— Isso não tem nada a ver com a gente. Eu disse a vocês que espadas não são o nosso estilo. Muito menos ataques.
Sonya colocou a espada sobre a mesa de centro.
— Ninguém está acusando ninguém aqui. Acredito que essa seja uma questão que vocês dois vão querer levar aos seus superiores. — Dimitri e eu assentimos. — Mas estamos deixando passar um ponto muito importante aqui. Eles estavam me tratando como Strigoi. Uma espada não é a maneira mais fácil de matar alguém. Deve haver um motivo.
— É também a única maneira de um humano matar um Strigoi — murmurei. — Os humanos não conseguem enfeitiçar uma estaca de prata. Acho que conseguiriam atear fogo em você, mas isso não seria muito prático naquele beco.
O silêncio se instalou enquanto pensávamos sobre isso. Por fim, Sonya suspirou e disse:
— Não acho que vamos chegar a lugar nenhum hoje, não sem falarmos com os outros. Quer que eu cure isso?
Levei um instante para entender que ela estava falando comigo. Toquei minha bochecha.
— Não, vai cicatrizar rápido sozinho. — Era um dos efeitos colaterais do sangue de vampiro nas tatuagens de lírio. — Vou lavar antes de ir embora.
Segui para o banheiro com a maior confiança que pude reunir. Quando cheguei e vi meu reflexo no espelho, perdi o controle sobre mim. O arranhão não era nada assustador. O que mais me afligia era o que ele representava. Sonya estivera à beira da morte, mas minha vida também ficara em risco. Eu havia sido atacada e ficado indefesa. Umedeci uma toalha e tentei levá-la ao rosto, mas minhas mãos tremiam demais.
— Sage?
Adrian apareceu no batente da porta e tentei controlar rapidamente as lágrimas que começavam a encher meus olhos.
— Sim?
— Você está bem?
— Não consegue dizer pela minha aura?
Ele não respondeu; em vez disso, tomou a toalha da minha mão antes que eu a derrubasse.
— Vire-se — ordenou. Obedeci e ele encostou a toalha no arranhão com suavidade. Tão perto dele, podia ver que seus olhos estavam avermelhados. Também podia sentir o hálito de álcool. Ainda assim, a mão dele estava mais firme que a minha. Ele voltou a perguntar: — Você está bem?
— Não fui eu quem ficou com uma espada no pescoço.
— Não foi isso o que perguntei. Você tem algum outro ferimento?
— Não — respondi, baixando os olhos. — Talvez só... no meu orgulho.
— Orgulho? — Ele fez uma pausa para enxaguar a toalha. — O que isso tem a ver com o que aconteceu?
Levantei os olhos, mas não o olhei diretamente.
— Adrian, eu sei fazer muitas coisas. E, modéstia à parte, consigo fazer várias coisas incríveis que a maior parte das pessoas não consegue.
— E eu não sei? — ele disse, com um tom divertido. — Você consegue trocar um pneu em dez minutos falando em grego.
— Cinco minutos — corrigi. — Mas quando minha vida está em risco ou quando a vida dos outros está em risco, o que eu posso fazer? Não sei lutar. Fiquei completamente indefesa lá. Assim como quando os Strigoi atacaram Lee e a gente. Só sei ficar parada assistindo, esperando alguém como Rose ou Dimitri vir me salvar. Eu... eu sou como uma donzela indefesa dos contos de fada.
Ele terminou de limpar o ferimento e pousou a toalha sobre a pia. Colocou as mãos em volta do meu rosto e disse:
— A única verdade no que você acabou de dizer é a parte sobre ser a donzela dos contos de fada, mas só porque você é linda o bastante para ser uma. Não pelo resto. Tudo o mais que você acabou de dizer é ridículo. Você não é indefesa.
Finalmente olhei para ele. Nas nossas conversas, era eu quem costumava acusá-lo de ser ridículo.
— Ah, é? Então sou igual a Rose e Dimitri?
— Não. Não mais do que eu. E, se bem me lembro, alguém me disse um dia desses que é inútil tentar ser igual aos outros. Que temos de ser nós mesmos.
Franzi a sobrancelha ao ouvir minhas próprias palavras sendo usadas contra mim.
— Essa situação é completamente diferente. Estou falando de saber cuidar de mim mesma, não de impressionar alguém.
— Aí está seu outro problema, Sage. “Cuidar de si mesma.” Esses ataques que você teve de enfrentar, com Strigoi e loucos com espadas, não são exatamente normais. Não acho que você tenha de se culpar por não conseguir combatê-los. A maior parte das pessoas não conseguiria.
— Mas eu deveria ser capaz — murmurei.
Seu olhar era compreensivo.
— Então aprenda. Essa mesma pessoa que adora me dar conselhos uma vez me disse para não me fazer de vítima. Então não se faça. Você aprendeu a fazer um milhão de coisas. Aprenda isso também. Faça um curso de defesa pessoal. Arranje uma arma. Você não pode se tornar guardiã, mas essa não é a única maneira de aprender a se proteger.
Um turbilhão de sentimentos fervilhava dentro de mim. Raiva. Vergonha. Reconforto.
— Você tem muito a dizer para um cara que está bêbado.
— Ah, Sage. Sempre tenho muito a dizer, bêbado ou sóbrio. — Ele me soltou e deu um passo para trás. Me senti estranhamente vulnerável sem sua proximidade. — O que a maioria das pessoas não entende é que fico muito mais coerente assim. Tem menos chance de o espírito me deixar maluco — ele disse, girando o dedo ao lado da cabeça.
— Por falar nisso... não vou dar nenhum sermão sobre isso — eu disse, contente por desviar o tema da conversa de mim mesma. — O almoço com seu pai foi péssimo. Eu entendo. Se você quer afogar as mágoas, tudo bem. Mas, por favor, não se esqueça de Jill. Você sabe o que isso faz com ela. Talvez não agora, mas depois.
A sombra de um sorriso perpassou seus lábios.
— Você é sempre a voz da razão. Só tente ouvir a si mesma de vez em quando.
Já tinha ouvido aquelas palavras antes. Dimitri havia dito algo semelhante: que eu não poderia tomar conta dos outros se não tomasse conta de mim mesma primeiro. Se duas pessoas tão absurdamente diferentes como Adrian e Dimitri tinham a mesma opinião, talvez eu devesse fazer alguma coisa sobre isso. Fiquei pensando muito sobre isso quando voltei a Amberwood depois.
Uma das coisas boas sobre a embriaguez de Adrian era que Jill não teve como saber de nossa conversa. Assim, no almoço do dia seguinte, ao narrar para Jill, Eddie e Angeline os acontecimentos da noite anterior, pude editar a história e deixar de lado meu colapso nervoso. As reações de Jill e Angeline foram as esperadas. Jill ficou preocupada e perguntou várias vezes se eu e Sonya estávamos bem. Angeline nos contou com detalhes o que teria feito contra os agressores e como, ao contrário de Dimitri, os teria perseguido rua afora. Eddie ficou em silêncio e não disse nada até que as duas fossem embora — Angeline para o quarto e Jill para se arrumar para a aula.
— Imaginei que havia alguma coisa errada com você hoje — ele disse. — Especialmente no café da manhã, quando Angeline disse que o tomate era um legume e você não a corrigiu.
Quase sorri com a piada dele.
— Pois é. Esse é o tipo de coisa que afeta as pessoas. Quer dizer, talvez não vocês. Ataques aleatórios com espadas em becos escuros são comuns para vocês, não?
Sério, ele fez que não.
— Nunca se pode subestimar um ataque. As pessoas que fazem isso se tornam descuidadas. Você não tem por que se sentir mal.
Eu estava remexendo um purê de batatas nada apetitoso com o garfo, e finalmente desisti.
— Não gosto de estar despreparada. Para o que quer que seja. Não me leve a mal, mas eu já estive junto quando você e Rose lutaram contra Strigoi. Nessas ocasiões, eu também fiquei indefesa... mas era diferente. Eles são assombrosos... além do alcance humano. Realmente não espero conseguir lutar contra eles. Mas o que aconteceu ontem à noite, mesmo com a espada, foi quase como um assalto comum. Mundano. E eles eram humanos, assim como eu. Eu não devia ter sido tão inútil.
— Você quer que eu ensine alguns golpes a você? — ele perguntou, gentilmente.
— O que você faz também é assombroso — respondi, voltando a sorrir. — Talvez eu devesse fazer alguma coisa mais no meu nível. Adrian disse que eu devia arranjar um revólver ou fazer um curso de defesa pessoal.
— É um bom conselho.
— Pois é. Estranho, né? Os alquimistas fornecem treinamento em armas, mas não sou muito fã delas. Embora me saia muito bem em aulas e na teoria.
Ele riu.
— Verdade. Mas, se você mudar de ideia, me avise. Depois do desafio de treinar Angeline, estou pronto pra tudo. Apesar de que... pra ser sincero, ela está se contendo um pouco mais.
Relembrei minha última conversa com ela. A briga e a suspensão tinham sido no dia anterior, mas pareciam ter acontecido anos antes.
— Ah, eu meio que tive uma conversinha com ela.
— Que tipo de conversa? — ele perguntou, surpreso. — Falei para não se preocupar com a minha vida pessoal. Isso é problema meu.
— Eu sei, eu sei. Mas meio que aconteceu. Eu disse a ela que aquele comportamento era inconveniente e que ela precisava parar. Ela ficou irada comigo, então não sabia se ela tinha chegado a entender.
— Hum, parece que ela entendeu. — O que ele disse em seguida foi obviamente uma grande concessão. — Talvez ela não seja tão terrível quanto eu pensava.
— Talvez — concordei. — E veja por este ângulo: pelo menos a suspensão dela significa que você não terá que se preocupar com ela na festa.
Pela maneira como o rosto dele se iluminou, ficou claro para mim que ele ainda não tinha se dado conta disso. Alguns instantes depois, voltou a ficar sério:
— Se estão acontecendo ataques como o que você sofreu, vou precisar ter um cuidado extra com Jill, especialmente durante a festa. — Não achava que tinha como Eddie ser ainda mais cauteloso, mas provavelmente ele provaria que eu estava errada. — Até que preferia que Angeline fosse.
A maioria das minhas aulas desviou meus pensamentos da noite anterior, mas o estudo independente com a sra. Terwilliger era outra história. Era silencioso demais, sério demais. Me fez passar muito tempo pensando sozinha, relembrando todo o medo e a insegurança que eu vinha tentando ignorar. Daquela vez, copiei e anotei os feitiços sem realmente decorá-los. Em geral, não conseguia evitar, mas naquele dia minha cabeça estava em outro lugar.
Estávamos quase no meio da aula quando finalmente prestei atenção no que estava fazendo. Era um feitiço da Antiguidade tardia que supostamente fazia a vítima pensar que havia escorpiões por todo o seu corpo. Como em muitos dos livros de feitiços da sra. Terwilliger, a preparação era complexa e demorada.
— Sra. Terwilliger?
Por mais que odiasse fazer perguntas a ela, os acontecimentos recentes estavam pesando demais sobre mim. Ela levantou os olhos de seus papéis, surpresa. Depois da guerra fria em que tínhamos nos metido, ela se acostumara ao fato de que eu só me pronunciava quando me perguntava alguma coisa.
— Sim?
— Pra que servem esses feitiços ditos “ofensivos”? — perguntei, apontando para o livro. — Como poderiam ser úteis numa luta se prepará-los pode levar dias? Quando se é atacado, não há tempo para uma coisa dessas. Mal se tem tempo para pensar.
— De qual deles você está falando? — ela perguntou.
— O dos escorpiões.
— Ah, sim. Bem, esse é do tipo premeditado. Quando você não gosta de alguém, trabalha nesse feitiço e depois lança. É bem útil para ex-namorados, eu diria. — Ela se distraiu por um instante, e depois voltou a se concentrar em mim. — Claro que há outros que poderiam ser mais úteis numa situação como a que você descreveu. O seu amuleto de fogo, se bem me lembro, requeria bastante trabalho prévio, mas pôde ser usado relativamente rápido. Há outros que podem ser lançados em pouquíssimo tempo, com poucos ingredientes. Mas como eu já disse em várias ocasiões, esse tipo demanda muita habilidade. Quanto mais avançada estiver, de menos ingredientes irá precisar. Você precisa de muita experiência para chegar ao nível de aprender algo assim.
— Nunca disse que queria aprender algo assim — argumentei, ríspida. — Só estava... fazendo uma pergunta.
— Ah, é? Engano meu. Por um momento tive a impressão que você estava, hum, interessada.
— Não! — Estava contente que a magia curativa da minha tatuagem já havia cicatrizado o arranhão da noite anterior quase por completo. Não queria que ela suspeitasse que eu tinha motivos sérios para querer me proteger. — Viu? É por isso que nunca abro a boca aqui. Você fica interpretando e distorcendo tudo o que eu digo pra levar adiante o seu plano de me atormentar.
— Atormentar? Tudo o que você faz é ler e tomar café, exatamente o que faria se não estivesse aqui.
— Exceto que aqui estou infeliz — eu disse. — Odeio todos os segundos desses estudos. Estou prestes a parar de vir e correr o risco de um desastre acadêmico. Isso é tudo doentio e problemático e...
O último sinal do dia tocou e me interrompeu antes que eu dissesse algo de que me arrependeria. Quase no mesmo instante, Trey surgiu à porta. A sra. Terwilliger começou a arrumar as coisas e dirigiu-lhe um sorriso, como se tudo estivesse perfeitamente normal.
— Veja só se não é o sr. Juarez. Que bom que apareceu por aqui, já que não pôde comparecer à aula.
Relembrando a manhã, percebi que ela estava certa. Trey não tinha ido à aula de história, nem à nossa aula de química.
— Desculpe — ele disse. — Tive uns problemas de família.
“Problemas de família” era uma desculpa que eu usava o tempo todo, embora duvidasse que o motivo dele envolvesse levar vampiros para um fornecimento de sangue.
— A senhora poderia me dizer o que perdi? — ele perguntou.
— Tenho um compromisso — ela respondeu, colocando a bolsa a tiracolo. — Pergunte a Melbourne; ela provavelmente vai poder explicar com mais detalhes do que eu. A porta tranca sozinha depois que vocês saírem.
Trey puxou uma carteira para perto de mim enquanto eu pegava as anotações de história e as de química, pois imaginei que ele também iria precisar. Apontei com a cabeça para a mochila esportiva ao lado dele.
— Vai para o treino?
Ele se debruçou para copiar as lições, fazendo o cabelo castanho-escuro cair sobre o rosto.
— Não podia perder — ele disse, sem levantar os olhos enquanto escrevia.
— Certo. Você só pode perder as aulas.
— Não me julgue — ele disse. — Teria ido se pudesse.
Deixei para lá. Sem dúvida, já havia tido minha própria cota de complicações pessoais. Enquanto ele escrevia, peguei o celular e vi que tinha uma mensagem de Brayden. Continha apenas uma palavra, um recorde para ele: Jantar?
Hesitei. Ainda estava abalada por causa da noite anterior, e por mais que gostasse de Brayden, ele não era o consolo de que eu precisava naquele momento. Respondi: Não sei. Tenho umas coisas para fazer hoje à noite.
Queria pesquisar onde fazer aulas de defesa pessoal. Aquele era o consolo de que eu precisava. Fatos. Opções.
Brayden respondeu rápido: Podemos ir depois. Que tal o Stone Grill às 20h? Pensei, e então respondi que estaria lá.
Tinha acabado de colocar o celular na mesa quando outra mensagem apitou. Surpreendentemente, era de Adrian. Como vc tá dps de ontem? Tô preocupado com vc. Adrian era articulado nos e-mails, mas vivia recorrendo a abreviaturas nas mensagens de texto — algo que eu nunca conseguia fazer. Só de lê-las tinha a sensação de que alguém arranhava uma lousa, embora algo tenha me comovido no interesse dele, o simples fato de estar preocupado com meu bem-estar. Era reconfortante.
Respondi: Melhor. Vou procurar um curso de defesa pessoal. Ele respondeu quase tão rápido quanto Brayden: Me avisa se encontrar. Talvez eu faça tb.
Pestanejei, surpresa. Por essa eu não esperava. Só consegui responder: Por quê?
— Céus — Trey comentou, fechando o caderno. — Miss Popularidade.
— Coisa de família — respondi.
Ele riu, zombeteiro, e guardou o caderno na mochila.
— Valeu pelas anotações. E por falar em coisa de família... É verdade que a sua prima foi expulsa?
— Suspensa por duas semanas.
— Sério? — ele disse, levantando-se. — Só isso? Pensei que seria bem mais grave.
— É, quase foi. Convenci os diretores a pegarem leve com ela.
Trey riu abertamente ao ouvir isso.
— Imagino. Bem, acho que vou ter que esperar mais duas semanas então.
— Pra quê? — perguntei, franzindo a sobrancelha.
— Pra chamá-la para sair.
Fiquei muda por alguns instantes.
— Angeline? — perguntei, caso ele pensasse que eu tinha alguma outra prima. — Você quer sair com... Angeline?
— É, ué — ele disse. — Ela é gatinha. E nocautear três caras e uma caixa de som? Bem... não vou mentir: aquilo foi bem sexy.
— Consigo pensar em várias palavras para descrever o que ela fez, mas “sexy” não é uma delas.
Ele deu de ombros e seguiu para a porta.
— Ei, cada qual com as suas taras. Você gosta de moinhos de vento, e eu de porrada.
— Não acredito que você acabou de dizer isso — falei.
No entanto, cogitei se não era mesmo verdade, e concluí que, de fato, todos nós tínhamos nossas “taras”. O estilo de vida de Trey era muito diferente do meu. Ele se dedicava muito ao esporte e estava sempre com machucados do treino, inclusive naquele dia. Estavam, aliás, mais graves do que de costume. Jamais conseguiria entender a paixão dele pelo esporte, assim como ele jamais conseguiria entender meu amor pelo conhecimento. Meu celular voltou a vibrar.
— Melhor voltar para o seu fã-clube — ele disse, e então foi embora.
Um pensamento estranho me ocorreu. Será que todos os machucados recentes de Trey eram causados pelo esporte? Ele vinha fazendo várias referências à família dele e, de repente, me perguntei se algo muito pior não estaria por trás de seu afastamento. Era uma ideia perturbadora, com a qual eu não tinha muita experiência.
Outro apito do celular me tirou das minhas preocupações.
Olhei para a tela e vi mais uma mensagem de Adrian, tão grande que teve de ser dividida em duas. Era a resposta para minha pergunta sobre por que ele faria o curso de defesa pessoal também.
Vai me dar 1 motivo p/ evitar S&D. Além disso, vc n é a única q pode precisar de proteção. Aqueles caras eram humanos e sabiam que S era vampira. Talvez os caçadores de vampiros existam msm. Já pensou q Clarence pode estar falando a vdd?
Fitei o celular, incrédula, processando as palavras de Adrian e as implicações do ataque da noite anterior.
Já pensou q Clarence pode estar falando a vdd?
Não. Até aquele momento, não.

2 comentários:

  1. "Ei, cada qual com as suas taras. Você gosta de moinhos de vento, e eu de porrada." Ri demais nessa parte!!! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

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  2. Mmm. Descofio desse Trey e do primo dele, ele não era bem alto?

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Boa leitura :)