23 de outubro de 2017

Capítulo 10

Adrian

— ADRIAN?
Abri os olhos e encontrei o rosto de uma menina que não conhecia. Ela estava totalmente vestida, e eu estava totalmente vestido, o que era um sinal promissor. Ao ver minha cara de confusão, ela abriu um sorriso irônico.
— Sou Ada. Você apagou aqui em casa ontem à noite. Mas precisa ir agora, antes que meus pais voltem pra casa.
Consegui sentar e vi que tinha dormido no piso duro de madeira, o que explicava a dor nas costas e na cabeça. Olhando ao redor, vi alguns dos convidados em situação parecida, levantando rapidamente e indo até a porta. Satisfeita em me ver saindo, Ada, que estava ajoelhada, se ergueu e foi expulsar o próximo hóspede indesejado.
— Obrigado por me deixar ficar — disse para ela. — A festa foi ótima.
Pelo menos imaginava que tivesse sido, já que eu apagara no chão. Havia uma garrafa vazia de vermute perto de onde eu havia dormido, mas não sabia se era minha ou não. Torci para que não fosse. Me embebedar com vermute seria deprimente. As últimas duas semanas tinham sido um borrão de decadência e farra, mas essa era a primeira vez que eu realmente dormia fora. Em geral, Charlotte conseguia fazer com que eu voltasse para casa. Por um momento, fiquei magoado por ela não ter cuidado de mim. Então lembrei vagamente que era segunda-feira e ela não queria ficar fora até tarde porque tinha que trabalhar no dia seguinte.
Eram umas seis da manhã quando saí, e o sol nascente foi impiedoso com a minha ressaca.
Havia pouca gente circulando. Em horário vampírico, era bem tarde. Nas próximas horas, as pessoas estariam indo para a cama. Até os guardiões tinham patrulhas leves a essa hora do dia, e passei por poucos enquanto me arrastava até o prédio de hóspedes. Um deles olhou para mim, virou, depois olhou de novo para confirmar se era eu mesmo.
— Adrian?
Pensei que minha reputação havia me precedido, mas então vi que era Dimitri.
— Ah, oi — eu disse. — Bom dia. Ou sei lá que horas são.
— Parece que você já teve dias melhores — ele comentou. — Acabei de terminar meu turno. Quer tomar café da manhã?
Fiquei em dúvida, sem saber quando tivera minha última refeição sólida.
— Meu estômago está bem vazio. Não sei como vai reagir.
— Quanto menos você sabe, de mais comida precisa — ele disse, o que me pareceu a lógica mais estranha que eu já ouvira. — Pelo menos na minha experiência.
Eu não sabia quanta “experiência” ele tinha nesses assuntos. Não fazia a menor ideia do que ele fazia no tempo livre. Talvez seu consumo de vodca russa fosse maior do que eu imaginava. Sempre pensei que, quando não estava trabalhando, ele e Rose ficavam se atacando em tatames, ou o que quer que aqueles dois faziam como preliminares.
— Tem certeza de que não prefere voltar pra casa e dormir de conchinha com a Rose? — perguntei. — Espere... ela já voltou? Elas não estavam em Lehigh?
— Faz uma semana que elas voltaram — Dimitri disse, paciente. — Venha, é por minha conta.
Fui porque, sinceramente, era difícil dizer não para Dimitri Belikov. Além disso, eu ainda estava processando a notícia de que Rose e Lissa tinham voltado havia tanto tempo.
— Posso pagar. Quer dizer — acrescentei, amargurado —, meu pai pode, já que pelo visto esse é o único jeito que eu e a minha mãe temos para sobreviver.
A expressão de Dimitri ainda estava neutra enquanto entrávamos num prédio que tinha vários restaurantes, a maioria ainda fechada.
— É por isso que você está se destruindo desde que voltou?
— Prefiro pensar nisso como um estilo de vida — disse. — E como você sabe o que eu ando fazendo?
— Essas notícias correm — ele disse, misterioso.
O restaurante aonde ele me levou estava cheio de guardiões que haviam acabado de terminar seus turnos. Pela quantidade deles, devia ser o lugar mais seguro na Corte.
— O que faço da vida é problema meu — eu disse, inflamado.
— Claro que é — ele concordou. — Mas você não se comportava assim há muito tempo. Fiquei surpreso por ter voltado aos velhos hábitos.
O restaurante servia um buffet de café da manhã. Minha mãe teria um ataque se fosse obrigada a se servir sozinha, mas peguei um prato e entrei na fila atrás de Dimitri. Depois de pegar as bandejas, sentamos numa mesinha no canto. Ele não tocou na comida. Em vez disso, se inclinou para perto de mim com uma expressão séria.
— Você é melhor do que isso, Adrian — ele disse. — Qualquer que seja o motivo, você é melhor do que isso. Não se engane pensando que é mais fraco do que realmente é.
Era tão parecido com o que Sydney me dissera no passado que, por um momento, levei um susto. Então minha raiva voltou.
— Foi por isso que me chamou aqui? Pra me dar um sermão? Não aja como se me conhecesse! Nem somos amigos.
Esse comentário o pegou de surpresa.
— É uma pena. Queria ser seu amigo. Achei que te conhecesse de verdade.
— Pois não conhece — eu disse, empurrando a bandeja para o lado. — Ninguém me conhece. — Só Sydney, pensei. E ela estaria com vergonha de mim.
— Tem muita gente que se importa com você. — Dimitri ainda era o retrato da tranquilidade. — Não vire as costas para elas.
— Como elas viraram as costas pra mim? — perguntei, pensando em Lissa, que havia se recusado a fazer qualquer coisa por Sydney. — Tentei pedir ajuda e todo mundo recusou! Ninguém pode me ajudar. — Levantei abruptamente. — Perdi a fome. Obrigado pelo discurso.
Deixei a bandeja intocada e saí furioso. Ele não veio atrás de mim, pelo que fiquei grato, uma vez que era provável que pudesse, literalmente, me arrastar de volta sem o mínimo esforço. Fui embora porque estava com raiva, mas também porque me sentia humilhado. Suas palavras me feriram, não só porque ele estava me julgando — como eu próprio me julgava —, mas porque me lembraram de Sydney. Sydney, que sempre dizia que eu era melhor do que aquilo. Bom, eu fizera um excelente trabalho provando que ela tinha se enganado. Falhara com ela. Sem saber, Dimitri havia confirmado minhas suspeitas.
Voltei para o quarto e tomei algumas doses de vodca antes de cair na cama e dormir quase imediatamente. Sonhei com Sydney, não da forma mágica do espírito como queria, mas do jeito normal. Sonhei com sua risada e o jeito exasperado, mas divertido, com que ela falava “Ai, Adrian” quando eu fazia alguma coisa estúpida. Sonhei com a luz do sol que deixava seu cabelo da cor de ouro derretido e realçava o brilho âmbar de seus olhos. O melhor foi quando sonhei com seus braços me envolvendo, seus lábios nos meus, e com a maneira como conseguiam encher meu corpo de desejo e meu coração de mais amor do que eu me achava capaz de suportar.
O mundo dos sonhos e o da realidade se inverteram e, de repente, havia braços carinhosos ao meu redor e lábios macios me beijando de verdade. Respondi na mesma moeda, aumentando a intensidade do beijo. Fazia tempo demais que eu estava sozinho, à deriva não apenas no mundo, mas dentro da minha própria cabeça. Ter Sydney me dava forças e me deixava centrado de um jeito que eu não sabia ser possível. As tormentas no meu mundo, a loucura da minha família... tudo isso podia ser suportado agora que Sydney estava ao meu lado.
Mas ela não estava ali.
Sydney estava desaparecida, sendo mantida longe, muito longe de mim... o que significava que aqueles não eram seus braços me envolvendo nem seus lábios me beijando. Me esforcei para sair do torpor do sono, abri os olhos e tentei distinguir o que estava ao meu redor. As persianas filtravam quase toda a luz da manhã, mas ainda havia claridade suficiente para perceber que o cabelo da menina na cama comigo era preto, não dourado. Seus olhos eram cinza, não castanhos.
— Charlotte?
Eu a empurrei de leve e me afastei o máximo possível dela na cama. Seus olhos brilharam, achando graça, e ela riu com a minha surpresa.
— Estava esperando outra pessoa? Espere, não responda.
— Não... mas o que você está fazendo aqui? — Olhei ao redor, na penumbra do quarto. — Como conseguiu entrar?
— Você me deu uma chave pra emergências, lembra? — Eu não lembrava, mas isso não era uma surpresa. Ela parecia um pouco decepcionada que minha atitude tivesse sido um impulso de embriaguez. — Como não falou comigo hoje, fiquei preocupada e vim ver se estava bem na minha hora de almoço. Meu turno é meio tarde.
— Pular em cima de mim não é o mesmo que ver se eu estava bem — eu disse.
— “Pular em cima” é um exagero — ela discordou. — Ainda mais porque foi você quem me puxou quando sentei ao seu lado na cama.
— Foi? — De novo, não era uma grande surpresa. — Bom... desculpe. Eu estava dormindo e não sabia o que estava fazendo. Estava... sonhando.
— Você parecia saber muito bem o que estava fazendo — Charlotte disse, sedutora. Ela se aproximou. — Estava sonhando com ela?
— Quem?
— Você sabe quem. Ela. A garota que te atormenta. Não negue — ela disse, vendo que eu estava prestes a argumentar. — Acha que não percebo? Ai, Adrian. — Era difícil ouvir aquilo depois de ter sonhado com Sydney dizendo essas mesmas palavras. Charlotte acariciou minha bochecha. — Desde que você voltou pra Corte, percebi que alguém tinha partido seu coração. Odeio te ver sofrendo desse jeito. Isso acaba comigo.
Balancei a cabeça, mas não afastei a mão dela.
— Você não entende. Tem muita coisa que não sabe.
— Sei que ela não está aqui. E que você está triste. Por favor... — Ela se aproximou e se inclinou sobre mim, deixando que seu cabelo formasse uma cortina de cachos escuros ao nosso redor. — Gosto de você desde que a gente se conheceu. Deixe eu fazer você se sentir melhor...
Ela abaixou para me beijar e ergui a mão para impedi-la.
— Não... não posso.
— Por quê? Ela vai voltar?
Charlotte não queria ser cruel, mas sua voz tinha um tom de desafio, e desviei o olhar.
— Eu... eu não sei...
— Então por que resistir? — ela perguntou, suplicante. — Sei que você gosta de mim. Mais importante: sei que me entende. Ninguém mais sabe como é ficar balançando de um lado para o outro nas ondas do espírito, e aguentar o que a gente aguenta. Isso não vale alguma coisa? Ter alguém por perto pra não se sentir sozinho?
Ela tentou me beijar de novo e, dessa vez, não a impedi, em grande parte porque não tinha como rebater o argumento dela. Era óbvio que não a amava como amava Sydney, mas a gente entendia o que era viver com o espírito. Charlotte não julgava o que eu fazia nem me obrigava a lidar com meu desespero de um jeito melhor. E, sim, ela tinha razão: era bom não estar sozinho.
De repente, as palavras da minha mãe me atingiram como um tapa na cara: Pare de correr atrás de uma fantasia e procure alguém com quem possa construir uma vida junto. Foi isso que seu pai e eu fizemos.
Era isso que eu estava fazendo com Charlotte? Construindo uma relação com alguém que compartilhava meus vícios e minha vontade de fugir da realidade, mas que, no fundo, eu não amava? Não seria difícil. Charlotte garantiria isso. A gente podia passar uma vida juntos, reclamando das dificuldades de ser um usuário de espírito, indo a uma festa atrás da outra na esperança de adiar um pouco mais a escuridão. Seria uma vida agradável. Estável, minha mãe diria. Mas eu nunca tentaria ser uma pessoa melhor. Nunca chegaria à grandeza, como Sydney sempre me fazia sentir que era capaz. E nunca sentiria aquele amor eufórico e avassalador que me envolvera em todos os momentos com Sydney, aquela sensação que me fazia pensar: Isso sim é vida.
Seria fácil, murmurou tia Tatiana, instável como sempre. Ela está aqui. Use essa garota. Faça a dor desaparecer. Sua outra garota está muito longe. Aceite. É só dizer sim. Sim, sim, sim...
— Não — eu disse.
Parei de beijar Charlotte e, dessa vez, levantei, fazendo questão de ficar longe dela. Eu estava agindo feito um imbecil. Um imbecil fraco e preguiçoso. Deixara que a depressão por causa dos meus pais e da falta de pistas sobre o paradeiro de Sydney tomasse conta de mim.
Não tinha desistido apenas de Sydney. Tinha desistido de mim mesmo, me abandonando a uma vida decadente de festas e prazeres da Corte porque era fácil — muito mais fácil do que procurar Sydney me manter forte quando parecia não haver nenhuma esperança.
— Charlotte, desculpe, mas não posso fazer isso — eu disse, com o máximo de firmeza possível. — Desculpe se te levei a pensar o contrário, mas não vai acontecer nada entre nós. Gosto de sair com você, mas nunca vou sentir mais do que sinto agora. Essa situação não é aceitável pra nenhum de nós. Desculpe. A gente nunca terá um futuro juntos.
Foi um pouco excessivo, em parte porque o sermão era tanto para ela quanto para mim mesmo. Ela se espantou e percebi, tarde demais, que eu devia ter encontrado um jeito mais gentil de expressar meus sentimentos — ainda mais sabendo como nós, usuários de espírito, somos sensíveis. O sorriso dela se desfez, e ela recuou como se eu tivesse lhe dado um tapa.
Piscando para conter as lágrimas, ela levantou da cama com o máximo de dignidade possível.
— Entendo — ela disse. Sua voz estava trêmula e ela retorcia tanto as mãos que enfiava as unhas na própria carne. — Bom, desculpe por desperdiçar seu tempo nessas últimas semanas. Eu devia saber que uma secretária não seria boa o suficiente para o lorde Adrian Ivashkov.
Agora fui eu quem se espantou.
— Charlotte, não é nada disso. Quero muito ter você como amiga. Se me deixar explicar...
— Não precisa. — Ela virou as costas e seguiu rumo à porta. — Não quero desperdiçar mais seu tempo e ainda preciso arranjar alguma coisa pra comer antes que meu horário de almoço acabe. Desculpe por te acordar. Fico feliz que esteja bem.
— Charlotte... — comecei. Mas ela já tinha batido a porta antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.
Me afundei na cama, me sentindo um lixo física e mentalmente. Não queria que nossa amizade acabasse assim. Não queria que muitas coisas tivessem acontecido. E, quando a situação avassaladora da minha vida ameaçou me engolir, precisei lutar contra o impulso de fazer um drinque.
— Não — eu disse em alto e bom som. — Chega.
Naquele exato momento, decidi parar de beber. Eu vinha me iludindo (mais do que de costume), pensando que não haveria problema em beber ao longo do dia se procurasse Sydney de vez em quando. Por falar nisso... quando a procurara à noite — na noite humana — pela última vez? Depois que a levaram, eu vivia procurando por ela. Mas, nos últimos tempos... bom, fazia uma ou outra tentativa de má-vontade quando acordava de ressaca. Quando escurecia — a hora em que era mais provável que ela estivesse dormindo, se é que estava nos Estados Unidos —, eu geralmente já tinha tomado alguns drinques na primeira festa da noite. Tinha perdido o ânimo, desestimulado pelos fracassos anteriores e pelas distrações da vida real. Mas não voltaria a cometer esse erro. Precisava me manter sóbrio e cheio de espírito para procurá-la regularmente ao longo do dia. Não importava quantas vezes eu fracassasse. Algum dia, alguma hora, eu a encontraria.
Apesar da dor de cabeça latejante, entrei no transe necessário para controlar o espírito e procurar por ela. Nada. Mas tudo bem. Voltei a mim, jurando que tentaria mais tarde. Corri para o banho e tirei aquele cheiro da festa da noite anterior. Quando saí, senti que alguma coisa para comer cairia bem e peguei o resto de um donut que havia trazido no dia anterior. Ou talvez dois dias antes. Estava velho, mas serviu para encher o estômago.
Enquanto mastigava, fiz uma lista mental de coisas a fazer, a qual não incluía nenhuma festa naquela noite. Pedidos de desculpas estavam em primeiro lugar na lista. Além de Charlotte, precisava consertar a situação com Dimitri depois de ter agido feito um babaca deixando-o sozinho. Também precisava conversar com minha mãe. O fato de ela ter desistido de si mesma não era desculpa para eu fazer o mesmo. Começaria com ela, já que era com quem eu não falava havia mais tempo. Porém, antes disso, decidi que era melhor passar num fornecedor, já que nem lembrava a última vez que havia bebido sangue. Isso ajudaria a clarear a cabeça.
Estava perto da porta de entrada quando decidi procurar Sydney de novo. Buscar de hora em hora podia ser excessivo, mas me obrigaria a continuar sóbrio. Era importante tornar esses novos comportamentos rotineiros para mudar de vida. Fechei os olhos e respirei fundo. Fios de espírito saíram de mim pelo mundo dos sonhos, em busca de Sydney, como tantas outras vezes...
... e, dessa vez, a encontraram.
Fiquei atordoado. Fazia tanto tempo que não conseguia estabelecer contato através dos sonhos que praticamente não sabia o que fazer. Não tinha nenhum ambiente planejado quando entrei porque estava no piloto automático, tentando sem esperança de sucesso. Enquanto o mundo cintilava ao nosso redor e eu a sentia se materializar no sonho, rapidamente invoquei nosso antigo ponto de encontro: a Getty Villa de Malibu. Colunas e jardins surgiram ao nosso redor, cercando o ponto central do museu: uma enorme fonte. Sydney surgiu do outro lado. Por vários segundos, só fiquei olhando para ela do outro lado da água, convencido de que estava imaginando tudo aquilo. Seria possível ter uma alucinação dentro de um sonho que eu mesmo havia criado? Ainda era cedo demais para ter sintomas malucos de abstinência do álcool.
— Adrian?
Sua voz era baixa, quase abafada pela água que jorrava da fonte. Mas a força que transmitia e os efeitos dela sobre mim foram imensos. Já tinha ouvido gente falar que os joelhos tinham “cedido”, mas nunca havia sentido isso na pele até então. Meus músculos não pareciam capazes de me sustentar, e meu coração estava apertado por um turbilhão de sentimentos que não conseguia nem começar a descrever. Amor. Alegria. Alívio. Incredulidade. E, misturados a todos eles, havia também as emoções dos últimos meses: desespero, medo, tristeza. Elas se espalharam para além do meu peito e senti lágrimas se formando nos olhos. Não era possível que uma pessoa pudesse fazer você sentir tanta coisa ao mesmo tempo, que uma pessoa pudesse despertar um universo de sentimentos só pronunciando seu nome.
Naquele momento também soube que eles estavam errados, todos eles. Minha mãe. Meu pai. Charlotte. Todas as pessoas que achavam possível construir um relacionamento baseado apenas em objetivos em comum nunca tinham vivido algo como o que eu tinha com Sydney. Não podia acreditar que quase perdera isso por ignorância. Até olhar em seus olhos agora, não tinha percebido como era vazia a vida que estava levando.
— Sydney...
Levaria tempo demais para dar a volta na fonte. Pulei dentro dela, atravessando a água até Sydney. Teria feito isso mesmo se não estivesse em um sonho. Nenhum desconforto físico importava. Só importava chegar perto dela. Todo o meu universo e toda a minha existência estavam focados nela. O caminho levou questão de segundos, mas pareceu demorar anos. Alcancei o outro lado e saí da fonte, pingando água nas pedras iluminadas pelo sol. Hesitei apenas um instante e então a envolvi nos braços, quase esperando que ela desaparecesse no ar.
Mas ela era real. Real e sólida (daquele jeito dos sonhos, pelo menos), e todo o seu corpo estremeceu com um soluço reprimido enquanto ela afundava o rosto no meu peito.
— Ai, Adrian. Onde você esteve?
Não era uma acusação, só um jeito de expressar sua saudade e seus medos. Não tinha como saber dos demônios que eu vinha enfrentando nas últimas semanas ou como quase perdera essa oportunidade. Levei as mãos ao seu rosto e olhei fundo naqueles olhos castanhos que tanto amava, olhos que agora cintilavam, à beira de lágrimas.
— Desculpe — murmurei. — Procurei tanto tempo... mas não conseguia te encontrar. E então... eu relaxei. Sei que não devia ter relaxado. Você não teria. Meu Deus, Sydney, sinto muito. Se eu tivesse tentado mais e antes...
— Não, não — ela disse baixinho, passando a mão no meu cabelo. — Não havia nada que você pudesse fazer até pouco tempo atrás. Eles regulam nosso sono aqui com uma espécie de gás. Eu estava drogada demais para que o espírito me encontrasse. — Ela começou a tremer. — Estava com tanto medo de nunca mais te encontrar... tanto medo de nunca encontrar uma saída.
— Agora me encontrou. Vai ficar tudo bem. Onde você está?
Uma transformação extraordinária aconteceu. Antes, ela parecia não querer nada além de me abraçar e chorar por todos os medos e frustrações que vinha sentindo nos últimos meses.
Eu entendia porque me sentia da mesma forma. Mas, apesar de todos os seus sofrimentos, de todo o inferno que havia suportado, ela continuava sendo a mulher mais forte e incrível que eu conhecia. Diante dos meus olhos, pôs todos esses medos e inseguranças de lado, ignorando a parte dela que só queria o consolo dos meus braços. Ela virou a Sydney Sage de antigamente: eficiente, forte, competente. Pronta para tomar decisões difíceis e fazer o que precisava ser feito.
— Certo — ela disse, secando as lágrimas. — Talvez a gente não tenha muito tempo pra conversar. Não sei há quanto tempo estou dormindo. E... não sei onde estou. Não vejo uma janela desde que me pegaram. Nós estamos sendo mantidos no subterrâneo.
— Nós quem? — perguntei.
— Somos em treze... quer dizer, catorze agora, acabou de chegar uma pessoa nova. Todos ex-alquimistas que fizeram alguma coisa errada. Eles foram reprogramados em graus variados. Alguns só estão fingindo, tenho certeza, mas é difícil saber quais. Quem sai da linha entra em apuros.
— Que tipo de apuros? — perguntei. Embora a olhasse encantado desde que tinha aparecido, só agora parei para observá-la de verdade. Estava usando uma roupa cáqui horrível, e seu cabelo dourado parecia mais longo do que antes. Seu rosto e seu corpo estavam mais magros, mas não dava para saber se isso correspondia à realidade. A menos que o usuário de espírito mudasse a aparência da outra pessoa, ela normalmente aparecia no sonho como um meio-termo entre a forma como era no mundo real e como se via. Muitas vezes, essas duas imagens não batiam. Fiz uma nota mental para perguntar sobre sua saúde depois.
— Não importa — ela disse, bruscamente. — Estou bem e tenho certeza de que há outros que se sentem como eu, mas têm medo de agir. Alguns foram completamente reprogramados. Estão exatamente como Keith. Estão... — Seus olhos se arregalaram. — Keith! É isso.
— Keith? — repeti, sem entender. Ainda estava pensando em como ela fora evasiva sobre os tais “apuros” e não entendi onde o cretino do seu antigo colega se encaixava nessa história.
— Ele esteve aqui. Muito tempo antes de mim. Na mesma unidade. — Ela apertou meu braço, empolgada. — Eles têm uma parede onde as pessoas escrevem confissões, e ele escreveu uma... quer dizer, na verdade era um pedido de desculpas, pra minha irmã. A questão é que ele esteve aqui e a gente sabe que saiu. Talvez possa dizer onde fica essa unidade. Deve ter visto o lado de fora ao sair, certo?
— Mas você não disse que ele estava bem pirado? — perguntei. — Ele vai ter cabeça pra falar com a gente?
Sua expressão ficou sombria.
— É... estava mais do que pirado. É o que acontece quando as pessoas saem do retoque. Mas, na maioria dos casos, o efeito passa com o tempo e, embora a pessoa continue obediente, o cérebro volta a funcionar. Ele pode ter algumas respostas se você conseguir descobrir onde ele está.
— Talvez não seja tão fácil — murmurei, pensando nas dificuldades que tive para localizar o pai de Sydney e Zoe. — Os alquimistas não revelam muito sobre as missões dos agentes.
— Marcus pode te ajudar — ela disse, decidida. — E não me olhe com essa cara. Ele pode. Tem recursos. Sei que vocês são capazes de colocar as diferenças de lado e trabalhar juntos.
Eu fizera uma careta ao ouvir o nome dele e ela entendeu errado, sem saber que eu e Marcus tínhamos mantido contato constante desde o seu desaparecimento. A careta tinha sido mais porque Marcus era outra pessoa para quem eu tinha virado as costas, mas Sydney não precisava saber disso.
— A gente vai dar um jeito — prometi. — Além disso, ele tem uma lista de...
Sydney começou a desaparecer diante dos meus olhos conforme o mundo real a chamava de volta.
— Hora de acordar — ela disse, com tristeza.
Tentei segurá-la, mas ela estava perdendo consistência. O pânico tomou conta de mim. Havia tantas outras coisas que queria perguntar a ela, mas só tinha alguns segundos.
— Vou conversar com Marcus e te encontrar de novo. É nessa hora que você costuma dormir?
— Sim. Eu te amo.
— Também te amo.
Não sei se ela me ouviu porque, de repente, eu estava sozinho no jardim, com a fonte jorrando atrás de mim e o sol de Malibu iluminando tudo ao redor. Fiquei olhando para o lugar onde ela estava segundos antes e então deixei que o sonho se dissolvesse, voltando à suíte do prédio de hóspedes. Ainda estava na frente da porta, de onde estivera prestes a sair para ver minha mãe. Mas, agora, tudo havia mudado. Eu tinha entrado em contato com Sydney!
Tinha visto seu rosto e ela estava bem... relativamente bem, claro.
Pensar na minha mãe me causou uma pontada no peito, mas não podia ir conversar com ela. Não queria deixar as coisas como estavam — nem com Charlotte, Dimitri, Rose ou Lissa. Mas nenhum deles poderia me ajudar agora. Teriam que esperar. Era hora de voltar para as pessoas que poderiam me ajudar a encontrar Sydney.
Tirei o celular do bolso e comecei a procurar passagens para Palm Springs.

4 comentários:

  1. Vou falar, minhas esperanças para com o Adrian estava um fio só, ainda bem que ele conseguiu, não aguentava mais ver a Sydney sofrendo e sendo forte, enquanto o Adrian ia ladeira abaixo!!! Ainda bem... <3 <3 <3 <3 <3 <3!!!

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  2. "— Sydney...
    Levaria tempo demais para dar a volta na fonte. Pulei dentro dela, atravessando a água até Sydney."
    Até chorei imaginando essa cena, meu deus, eu amo esse casal <3

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  3. Minha nossa... Já estava apreensiva com Adrian, queria bater nele...que bom que ele finalmente reagiu!

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  4. Minha nossa... Já estava apreensiva com o Adrian queria bater nele... Que bom que finalmente ele reagiu! Tadinha da Sidney!

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Boa leitura :)