19 de outubro de 2017

Capítulo 10

Sydney

EU TINHA ACABADO DE DEITAR quando alguém surgiu na porta, batendo com tanta fúria quanto era possível, considerando que o alojamento estava no sétimo sono. Zoe, que tinha acabado de adormecer, sentou rapidamente e abafou um grito, provavelmente achando que uma multidão de vampiros com asas de morcego estivesse invadindo o dormitório. Trêmula, atravessei o quarto em silêncio, sem saber que maluquice encontraria dessa vez.
Era Jill.
— Oi — ela disse, entrando como se não fosse quase meia-noite. — Preciso de um favor.
A presunção na voz dela parecia tanto com a de Angeline que precisei piscar algumas vezes para ter certeza que estava falando com a pessoa certa.
— Sabe que horas são?
— Não é tão tarde assim. Quer dizer, pelo menos não pra nossa raça. A gente está só começando. — Seu tom malicioso e a risadinha que soltou fizeram Zoe se agarrar ainda mais às cobertas. Já eu ergui as sobrancelhas, incrédula. — E é exatamente esse o problema — Jill continuou, fazendo bico. — Sei que a gente foi pro Clarence ontem… mas você não imagina como preciso de sangue. Tipo, só consigo pensar nisso. Você precisa me levar pra lá agora, senão… não sei se vou aguentar!
Eu a examinei por vários momentos, cogitando várias explicações para aquilo, uma mais maluca que a outra. Antes que tivesse a chance de responder, Zoe disse:
— Já passou da hora do toque de recolher. Você não pode sair do alojamento.
— Sydney consegue me tirar daqui — Jill disse. — É só ligar para sua professora e dizer que quer estudar fora do campus até tarde. Ela faria qualquer coisa por você. Vai, por favor?
Zoe engoliu em seco, dividida entre a indignação e o medo.
— A gente não pode atender a todos os seus caprichos. E a sra. Terwilliger está ocupada hoje. A gente ouviu ela falando.
— Não é um capricho, é uma necessidade! Não incomodaria vocês se não fosse sério. — Jill pôs as mãos nos quadris para enfatizar. — E o pior é que estou presa num prédio cheio de humanas. Dá pra imaginar a tentação? — Ela deu um olhar significativo para nós.
— Ela tem razão, Zoe — eu disse, inexpressiva. — Se ficar nesse estado, pode ser perigoso para os humanos. Faz parte do nosso trabalho evitar esse risco. Além disso, a sra. Terwilliger já deve ter voltado. — Quer dizer, se não fosse passar a noite na casa do Wolfe. Que nojo! — E, mesmo se não tiver, tenho certeza que ligaria para a recepção se eu pedisse.
— Ligaria? — Zoe perguntou, esquecendo as ameaças de vampiro por um momento.
Jill sorriu, mostrando as presas para ela.
— Viu? Não é problema nenhum. Vamos lá. — Ela se virou para a porta. — Não demorem.
Assumi um ar severo.
— Só eu vou com você. Além de a sra. Terwilliger não poder tirar todo mundo da escola, não acho que… — Fiz a pausa mais longa e melodramática que consegui. — Enfim, Zoe, acho melhor você ficar aqui. Quer dizer, precisamos de uma alquimista no campus, né? — Tentei fazer essa última afirmação parecer animada ao mesmo tempo que lançava um olhar de É para o seu próprio bem. Ela engoliu em seco.
— Sydney, você vai para a mansão de Clarence no meio da noite…
— Vai ficar tudo bem — prometi, querendo soar ao mesmo tempo amedrontada e destemida. Não foi tão difícil, considerando que meu nervosismo estava no ápice. O que estava acontecendo? Qualquer progresso que Eddie tivesse feito com Zoe em suas aulas de direção devia ter regredido com Jill se comportando como a noiva do Drácula. Peguei o casaco e a bolsa. — Envio uma mensagem quando chegar lá.
Jill pigarreou e apontou para as minhas roupas.
— Melhor você se trocar. Clarence é muito formal, sabe.
Eu não estava exatamente de pijama, e tinha pensado que a camiseta larga e a calça de flanela serviriam para o que Jill tinha em mente. Quer dizer, imaginando que houvesse um plano.
— O que você sugere? — perguntei, desconfiada.
Ela deu de ombros.
— Jeans e camiseta servem.
Troquei de roupa rápido, disse outras frases animadoras para Zoe e, então, segui Jill até o fim do corredor, perto da escadaria. Abaixei a voz quando tive certeza que tínhamos privacidade.
— Certo. Por que está agindo assim? Tenho duas teorias. Uma é que o laço está no controle e você está seguindo um daqueles impulsos malucos de Adrian. A outra é que está nos ajudando a fugir para uma escapadinha romântica, mas acho que teria me feito pôr um vestido nesse caso.
Jill nem tentou sorrir.
— Queria que fosse tão simples. Desculpe se exagerei lá em cima. Imaginei que ficar histérica por sangue seria grave o bastante para Zoe deixar você sair sem fazer muitas perguntas… e que ela não iria querer vir junto. Mas me sinto meio mal de assustar sua irmã.
— Funcionou. Mas, sério… o que está acontecendo? — Senti um aperto no peito. — Adrian está bem?
— Não sei — ela disse, devagar. — Mas acho que não, já que o laço entorpeceu depois que eles começaram a tomar doses de Jäger meia hora atrás.
— Depois que eles… espere. Quê?
— Adrian está num bar perto de Carlton. Ele saiu depois que você cancelou hoje… mas não se sinta culpada — ela acrescentou, rápido. — Sei que não tinha escolha.
— Não estou me sentindo culpada. Estou me sentindo… — Como escolher uma emoção só? Minha cabeça estava a mil. Adrian. Num bar, tão bêbado que conseguiu enfraquecer o laço. Tive vontade de chorar enquanto vários sentimentos surgiam em mim. Tristeza. Raiva. Decepção. Esses eram só os primeiros sentimentos que ameaçavam explodir no meu coração. Assumi uma expressão impassível. — Enfim. Não importa o que estou sentindo. A escolha foi dele e não preciso fazer nada a respeito. Ele pode lidar com as consequências amanhã.
Comecei a dar meia-volta, mas Jill me segurou pelo braço.
— Sydney, por favor. As coisas devem estar bem ruins se perdi o contato com ele desse jeito. E foi muito difícil pra ele em Dallas ontem. Muito mesmo. Você nem imagina o poder que ele usou. — Ela estremeceu com a lembrança.
— Não diga que a culpa não é dele — adverti.
— Não vou… mas não me surpreende que isso tenha acontecido depois de todo aquele espírito. Ouça, você tem todo o direito de ficar chateada. Sei que ele quebrou o trato, mas, por favor, vá atrás dele. Só para ajudar. Estou preocupada.
Foi difícil. Não conseguia identificar um sentimento porque estava começando a ficar fria, me recusando a sentir o que quer que fosse. Porque, se sentisse, teria de aceitar que Adrian havia me traído.
Bom, talvez “trair” não fosse a palavra certa. Mas definitivamente tinha me decepcionado. Se outra pessoa que não Jill me dissesse que Adrian havia sofrido uma recaída, eu não teria acreditado. Ele parecera tão determinado que eu tinha depositado toda a minha confiança nele.
— Está bem — eu disse. O olhar suplicante de Jill quase me fez chorar. — Onde ele está?
Ela me deu o nome do bar e voltou para o quarto. No andar de baixo, encontrei uma das moças da recepção. Ela sabia das várias tarefas que eu fazia para a sra. Terwilliger e mal prestou atenção enquanto eu explicava que conseguiria permissão retroativa para sair. Depois de assentir, distraída, voltou para sua edição da Vogue e abafou um bocejo.
O Matchbox não era exatamente uma espelunca, mas também não era o tipo de lugar moderninho que Adrian gostava de frequentar. Mesmo assim, servia álcool e estava lotado de universitários — provavelmente os únicos critérios dele. O segurança me deixou entrar depois de marcar minha mão com um carimbo vermelho para mostrar que eu era menor de vinte e um. A música de uma banda local enchia o lugar e, por um momento, não consegui me concentrar com toda aquela gente e movimento.
Quando consegui me acostumar com o ambiente, não vi sinal de Adrian. Mas avistei um grupo de pessoas que tinham cara de estudantes de arte. Arriscando, caminhei até a mesa deles e esperei que alguém me notasse. A mesa estava cheia de garrafas e copos vazios. Quando finalmente me viram, perguntei:
— Por acaso vocês conhecem Adrian?
Um menino riu.
— Claro. Ele é a alma da festa. Pagou duas rodadas.
Embora surpreendente, essa era a menor das minhas preocupações agora.
— Onde ele está?
Uma menina de cabelo lilás, mais séria que os outros, me respondeu:
— Ele acabou de sair. Disse que tinha que pegar uma coisa.
— Falou pra onde estava indo? — perguntei.
Ela fez que não e a menina loira abraçada a ela respondeu:
— Ele comentou alguma coisa sobre “despenhorar”. Existe essa palavra?
— Não — murmurei, confusa. Uma casa de penhores? Por que Adrian iria para lá? E para qual? Havia muitas na região.
— Ele pegou um táxi — acrescentou a primeira menina. — Disse que depois voltaria para casa a pé.
Isso já era alguma coisa. Peguei o celular e pesquisei casas de penhores de onde dava para ir a pé até o apartamento dele. Havia duas. Então mandei uma mensagem: Onde você está? Não sabia se poderia esperar uma resposta, mas, nesse meio-tempo, não seria difícil dar uma olhada nas duas lojas.
— Obrigada — eu disse para as meninas. Já estava perto da porta quando a de cabelo lilás veio correndo na minha direção.
— Ei, espere — ela disse. — É você, né? Sydney? A namorada?
Hesitei. Teoricamente não deveríamos admitir nosso relacionamento em público, mas, pelo jeito, ele vinha divulgando um pouco.
— Sim.
— Sou Rowena. — O rosto dela ficou grave e, pela lucidez em seus olhos azuis, percebi que não estava tão bêbada quanto os outros. — Desculpe. Eu não fazia ideia.
— Não fazia ideia de quê?
— Que Adrian tem um problema com bebida. Ele quase nunca sai com a gente e, nas poucas vezes que aceitou o convite, não bebeu nada. Fiquei meio surpresa hoje quando topou e então… quanto mais eu olhava, mais entendia. Ele estava com o mesmo olhar do meu padrasto quando voltava a beber. Como se estivesse vivendo num deserto e de repente encontrasse uma máquina de bebida. E, quanto mais a noite seguia… — Ela suspirou. — Eu sei. Desculpe. Devia ter ido com ele, mas ele parecia tão confiante.
A seriedade e a preocupação nas palavras dela me deixaram emocionada.
— Não tem por que pedir desculpas. Não é sua obrigação cuidar dele. — Era minha obrigação.
— Sim, eu sei… é só que… — Ela hesitou e entendi por que Adrian falava tão bem dela.
Abri o melhor sorriso que consegui, por mais que me sentisse péssima.
— Obrigada.
— Tomara que ele esteja bem — ela acrescentou. — Ele bebeu bastante.
— Aposto que vai ficar — eu disse, tentando parecer tranquila.
A primeira loja de penhores em que passei estava vazia, e o rapaz atrás do balcão disse que ninguém tinha passado lá na última hora. Torci para que minhas deduções estivessem certas. Senão, estaria sem sorte, já que Adrian não havia respondido à minha mensagem. Mas, quando cheguei à outra loja, o encontrei. Ele estava do lado de fora, bloqueado por uma grade de metal atrás da qual eles trabalhavam à noite. Dava para entender, visto que pessoas de aparência duvidosa deveriam aparecer de madrugada. E, de fato, Adrian parecia uma delas.
— Preciso dele de volta! — ele exclamava. — Preciso de volta. Ela precisa de volta. É uma herança real!
O homem de aparência desalinhada atrás da grade o encarou com firmeza.
— Claro que é. Mas, se não conseguir pagar, não posso devolver. — Eu tive a impressão clara de que não era a primeira vez que ele falava aquilo para Adrian.
— Adrian — eu disse. Ele deu meia-volta e me assustei com a agressividade em seus olhos avermelhados. Seu cabelo normalmente perfeito estava desgrenhado e suas roupas, amarrotadas. Se não o conhecesse, iria querer uma grade entre nós também.
— O que está fazendo aqui? — ele perguntou.
— Procurando você. — Me obriguei a ficar calma, tentando conter o pânico que crescia dentro de mim. — Vem. Precisamos ir. Vou levar você pra casa.
— Não! Não antes de eu pegar de volta. — Ele apontou um dedo acusatório para o penhorista. — Ladrão!
O homem suspirou.
— Meu filho, você penhorou o item em troca de dinheiro.
— Que item? — perguntei. — O que você vendeu?
Adrian passou a mão no cabelo, bagunçando-o ainda mais.
— Não vendi nada. Nunca venderia. Só emprestei pra ele. E agora preciso de volta. — Ele enfiou a mão no bolso e tirou dez dólares. — Olha, devolve pra mim e dou isso para você. É tudo o que tenho, mas dou o resto daqui a duas semanas. Prometo. É um ótimo trato.
— Não é assim que funciona — o homem respondeu.
— O que você… emprestou? — insisti.
— O rubi. Um dos rubis das abotoaduras da tia Tatiana. Não deveria ter deixado aqui. Num lugar como esse. É um sacrilégio! Uma coisa daquelas não pode ficar aqui. Ela me mandou fazer isso, mas sei que não estava falando sério.
Senti um calafrio na espinha.
— Quem mandou você fazer isso?
— Ela. A tia Tatiana.
— Adrian, ela não pode falar nada. Ela… se foi.
Ele apontou para a cabeça.
— Não, ela está aqui. Quer dizer, não agora, mas sei que ela está esperando. E, quando eu estiver sóbrio, ela vai voltar e brigar comigo por causa disso! Preciso pegar o rubi de volta! — Ele se virou com uma velocidade assustadora e bateu na grade.
O dono da loja recuou.
— Vou chamar a polícia.
— Não, espere — eu disse, avançando rápido. — Quanto ele está devendo para o senhor?
— Duzentos e cinquenta.
— Era duzentos! — Adrian gritou.
— Mais taxas e juros — o homem disse, com muito mais paciência do que eu teria.
Tirei a carteira do bolso.
— Que cartões de crédito você aceita?
— Todos — ele respondeu.
Paguei o rubi e, enquanto o homem ia pegá-lo, Adrian gritou:
— É melhor não ter nenhum arranhão nele! — Quando pegou o rubi de volta, o ergueu e estreitou os olhos para examiná-lo, como se fosse um mestre joalheiro.
— Vem — eu disse, puxando-o pelo braço. — Vamos embora.
Adrian ficou parado onde estava, apertando o rubi com o punho cerrado, e deu um beijo nele. Seus olhos se fecharam por um momento e então, depois de respirar fundo, ele me seguiu até o carro.
Ele falou muito no caminho, contando as aventuras e desventuras da noite, e repetindo sem parar que tinha sido enganado pelo penhorista. Eu não disse nada e mal ouvi uma palavra que saiu da boca dele. Em pânico, apertava o volante e só conseguia pensar na expressão transtornada em seu rosto enquanto batia contra a grade.
Ele começou a se acalmar enquanto eu procurava um lugar para estacionar no quarteirão dele. Quando entramos no apartamento, ele começou a cair em si. Eu não sabia se me sentia aliviada ou com pena dele.
— Sydney, espere — ele disse, quando percebeu que eu estava prestes a dar meia-volta e ir embora. — A gente precisa conversar.
Soltei um suspiro.
— Não. Agora não. Estou cansada e quero minha cama. E não quero conversar com você nesse estado. Amanhã vamos ter tempo de sobra.
— Vamos? — ele perguntou. — Ou você vai ter que manter distância e ficar com Zoe?
— Nem comece — adverti. — Você sabe muito bem que a gente não tem como evitar. Sabia desde o começo, então não me culpe por termos que tomar cuidado.
— Não estou culpando você — ele disse. — Mas por que continuar com isso? Vamos fazer um plano de fuga de verdade. Vamos embora. Podemos nos juntar aos Conservadores ou alguma coisa assim e escapar de toda essa baboseira.
— Adrian — eu disse, cansada.
— Não fale “Adrian” desse jeito — ele disse, com uma faísca de fúria surpreendente no olhar. — Não sei como você consegue, mas só de dizer meu nome assim, sinto como se tivesse cinco anos.
Quase disse que ele estava agindo como se tivesse cinco anos, mas consegui manter a calma.
— Certo. Não podemos nos juntar aos Conservadores porque os alquimistas vivem indo pra lá. E você não sobreviveria uma hora naquelas condições. Além disso, conseguiria abandonar Jill?
O olhar atormentado em seu rosto serviu como resposta.
— Exato. Estamos presos aqui e só podemos nos esforçar ao máximo até que… sei lá. Alguma coisa mude. Você sabe disso. Sempre soube.
— Eu sei — ele disse. Ele passou a mão pelo cabelo de novo e, dessa vez, virou um caso perdido. — Eu sei… e odeio isso. E não preciso ficar bêbado para me sentir assim. Até quando, Sydney? Aonde isso vai dar? Quando vamos sair dessa? Quando você e Marcus vão fazer sua revolução contra os alquimistas?
— Não é tão fácil assim. — Desviei os olhos. — Também estamos fazendo uma revolução contra os tabus das nossas raças.
— E o que vai acontecer com a gente? — Ele se recostou na parede da cozinha e ficou olhando para uma janela escura, perdido em pensamentos. — Qual é nosso plano de fuga?
O silêncio caiu. Eu não tinha respostas e resolvi ser covarde, voltando a conversa contra ele.
— Foi por isso que agiu assim hoje? Por nossa causa? Ou foi por causa do espírito? Jill comentou que você usou muito.
— Não, Sydney. — Era desconcertante ouvi-lo usar meu primeiro nome. Ficava difícil continuar com raiva. Ele veio até mim e segurou minhas mãos, o olhar perturbado. — Não é que usei o espírito. Era como se eu fosse feito de espírito. Ele me preencheu. Precisei olhar dentro daquela menina, Olive, para descobrir o que tinha acontecido com ela. O espírito tinha penetrado todas as partes dela e precisei invocar muito para ver. Depois tive que confiná-lo. Sabe como é difícil? Faz alguma ideia? A única coisa que já fiz que exigiu mais de mim foi salvar Jill.
— Daí o efeito colateral — eu disse.
Ele balançou a cabeça.
— Eu tentei. Tentei me segurar. Mas, quando estou balançando desse jeito… enfim, mais cedo ou mais tarde o pêndulo cai. É difícil explicar.
— Eu já fiquei mal também.
— Não desse jeito — ele disse. — E não estou querendo dizer que sei mais que você. Eu me sinto… é como se o mundo começasse a se desmoronar em volta de mim. Todas as dúvidas, todos os medos… me consomem. Caem sobre mim até que sou engolido pela escuridão e não consigo mais diferenciar o que é real do que não é. E, mesmo quando sei que não é real… como com a tia Tatiana… enfim, mesmo assim é difícil…
Congelei, me lembrando das palavras dele na casa de penhores.
— Com que frequência ouve a sua tia?
A voz dele era quase um sussurro.
— Não muito. Mas uma vez já é demais. É estranho. Sei que ela não está aqui. Sei que partiu. Mas consigo imaginar o que ela diria e parece tão real… é quase como se eu conseguisse vê-la. Ainda não vi, mas algum dia… tenho medo que algum dia eu a veja de verdade e então vou saber que sou um caso perdido…
Eu estava tão assustada que não sabia o que dizer. Já tínhamos conversado muito sobre loucura e espírito, mas nunca tinha parado para pensar que poderia haver mais além das variações de humor dele.
Eu o puxei para perto e finalmente encontrei palavras.
— Adrian, você precisa procurar ajuda.
O riso dele foi seco.
— Como? Essa é a minha vida. Algumas doses de Jäger é o máximo de ajuda que vou conseguir. Pelo menos me acalmam um pouco.
— Isso não é a solução. Você precisa de ajuda de verdade. Pegue uma receita, como Lissa fez.
Ele se afastou abruptamente.
— E acabar com o espírito de uma vez?
— Bloqueando o espírito, você se livra da depressão e… de outras coisas também. Como ter que beber até ficar berrando com um penhorista.
— Mas daí não vou ter o espírito.
— Pois é, esse é o objetivo.
— Não posso. Não consigo abandoná-lo. — Rugas de sofrimento surgiram no rosto dele.
— Você consegue fazer o que quiser — eu disse, com firmeza. Havia um sofrimento agudo dentro de mim que fiz o máximo para esconder. Pulinho estava sentado ali perto e o peguei como uma distração, fazendo carinho em suas escamas douradas. — Se fizer isso, vai se salvar. E salvar Jill. Você sabe que essa escuridão pode passar para ela.
— Eu já salvei Jill! — ele exclamou. Um brilho frenético e desesperado voltou a se agitar em seus olhos. — Ela estava morta e eu a salvei. Com o espírito. Salvei a mão de Rowena. Salvei o sangue de Olive. Tem ideia do trabalho que foi? Não era só a quantidade… a magia era tão complicada, Sydney. Não sei se outra pessoa teria conseguido. Mas eu consegui. Com o espírito. Com o espírito consigo fazer coisas boas, pra variar!
— Você faz muitas coisas boas.
— Ah, é? Tipo isso? — Ele apontou para sua última tentativa de autorretrato, que até eu precisava admitir que era bem ruim.
— Você não é só a sua magia — insisti. — Não amo você por causa dela.
Ele hesitou por um momento.
— Mas como posso abandonar a capacidade de ajudar outras pessoas? Já falamos sobre isso antes. Eu deveria ter deixado Jill morrer? Deixado Rowena perder a carreira dela? Perdido a chance de impedir que as pessoas sejam transformadas em Strigoi?
Finalmente perdi o controle e coloquei Pulinho de volta no chão.
— Existe um limite! Em algum momento, existe um limite que você não pode ultrapassar! Sim, você faz coisas incríveis, mas está chegando a um ponto em que precisa pagar um preço grande demais por isso. Está disposto a pagar esse preço? Porque eu não estou! Adrian, você precisa parar um pouco e pesar as suas necessidades contra as dos outros. O que vai acontecer se usar o espírito a ponto de perder o controle? A ponto de ser internado? Ou morrer? E aí? O que vai conseguir fazer então? Nada. Você não sabe o que o futuro guarda. Não sabe o que pode fazer se estiver livre da influência do espírito.
Ele avançou e segurou minhas mãos de novo.
— Mas não vou conseguir. Acha que não vou fazer nada da próxima vez que puder curar alguém? Acha que vou deixar as pessoas sofrerem? É uma tentação que não vou conseguir suportar.
— Então não suporte. Fale com um médico. Tire a escolha das suas mãos e veja as coisas maravilhosas que pode fazer quando está no controle de si mesmo.
Aqueles olhos verdes, verdíssimos, pareceram me encarar por uma eternidade. Finalmente, ele engoliu em seco e balançou a cabeça.
— Não posso, Sydney. Não posso desistir do espírito.
Naquele momento, não consegui mais me conter. Começou com algumas lágrimas e, quando me dei conta, estava soluçando sem parar. Escondi o rosto nas mãos e toda a dor, todo o medo que sentia por ele explodiram com tudo dentro de mim. Eu quase nunca chorava. Muito menos na frente de outras pessoas. E, embora considerasse a maior parte das lições de meu pai completamente inúteis nos últimos tempos, ainda acreditava que perder o controle daquele jeito e demonstrar tantas emoções era sinal de fraqueza. Mas não consegui evitar. Não conseguia parar.
Eu estava assustada. Muito assustada por ele. Eu dava conta de coisas lógicas e racionais, mas era muito difícil ter que lidar com o irracional. E eu estava falando sério. Tinha medo de que, um dia, a pintura frenética e as palhaçadas de bêbado não fossem suficientes. E se o penhorista tivesse chamado a polícia antes de eu chegar? E se a tia dele tivesse dito para ele pular de um prédio?
Senti os braços de Adrian me envolverem e, ainda que ele me abraçasse forte, sua voz era frágil.
— Sydney… você está… a gente… a gente está terminando?
Levei quase um minuto para conseguir falar. Levantei os olhos para ele em choque, sem acreditar que ele achava que eu o largaria porque ele estava sofrendo.
— Como assim? Não! Por que pensaria uma coisa dessas?
O efeito do álcool estava passando, e a frustração e a tristeza de antes estavam agora completamente superadas pelo medo e pela confusão.
— Então por que está chorando?
— Por você! — Bati meus punhos no peito dele. — Porque amo você e não sei o que fazer! Consigo resolver quase qualquer problema, mas não esse. Não sei como lidar com isso. E estou com medo. Com medo por você! Consegue imaginar como eu me sentiria se alguma coisa acontecesse com você? — Parei de bater nele e pus as mãos no meu próprio peito, como se houvesse perigo de meu coração sair. — Isso! Isso iria se partir. Se despedaçar. Se desintegrar até virar pó. — Abaixei as mãos. — O vento levaria até que não sobrasse nada.
O silêncio caiu entre nós, quebrado algumas vezes pela minha respiração arquejante enquanto tentava me recuperar dos soluços. Estava tudo tão silencioso que ouvi meu celular vibrando dentro da bolsa.
Zoe, lembrei. Depois do que aconteceu com Adrian, ela parecia vir de outra realidade. Aos poucos, fui caindo em mim. Ela era, na verdade, uma parte grande dessa realidade, e ainda deveria estar com medo de que Jill me fizesse de lanchinho.
Me separei de Adrian e li a mensagem, que era mais ou menos o que eu estava esperando. Respondi que estava tudo bem e que estava voltando para casa. Quando levantei os olhos, Adrian me observava com um ardor e um desespero que me fizeram querer voltar para junto dele. Mas eu sabia que, se fizesse isso, nunca mais iria embora, e estava na hora de partir. O resto do mundo continuava seguindo sua marcha.
— Depois a gente se fala — murmurei, por mais que não fizesse ideia do que dizer. Tirei a carteira e coloquei um pouco de dinheiro no encosto do sofá. — Para você passar esses dias.
— Sydney… — Ele deu um passo à frente e estendeu a mão para mim.
— Depois — repeti. — Vai dormir um pouco. E lembre-se: amo você. Aconteça o que acontecer, eu amo você.
Isso não parecia nada perto de tudo que o atormentava, mas, por enquanto, teria que bastar.

2 comentários:

  1. Quem diria, que Sydney e Adrian dariam um belo casal, com um dos relacionamentos mais bonitos que eu já vi... Não é por menos que Sydrian é OTP SUPREMO!!! <3 <3 <3!!!

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  2. não é avassalador como dimitri e rose, mas MEU DEUS QUE CASALZÃO DA PORRA...

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Boa leitura :)