3 de outubro de 2017

Capítulo 10

A VIAGEM A SAN DIEGO continuava me incomodando, por mais que soubesse que devia deixar pra lá.
Como vivia me relembrando, Adrian não era problema meu — não na mesma medida que Jill e os outros. Mesmo assim, não conseguia tirar da cabeça o confronto terrível entre ele e Nathan, muito menos a expressão no rosto de Adrian depois. Me senti ainda pior quando Eddie, preocupado, veio falar comigo sobre Jill na segunda-feira, durante o café da manhã.
— Tem alguma coisa errada com ela — ele disse.
Olhei imediatamente para a fila do restaurante, onde Jill aguardava com a bandeja. Seu olhar era vago, como se ela mal estivesse consciente de tudo ao seu redor. Mesmo sem nenhum dom mágico de enxergar auras, conseguia praticamente ver a angústia que ela irradiava.
— Micah também percebeu — Eddie acrescentou. — Mas não sabemos o que poderia deixá-la tão chateada. Será que é por causa de Lia? Ou será que voltaram a pegar no pé dela aqui na escola?
Naquele momento, não soube por quem me sentia pior: Adrian, Jill... ou Eddie. Havia quase tanto sofrimento no rosto dele quanto no da própria Jill. Ah, Eddie, pensei. Por que você continua fazendo isso consigo mesmo? Ele estava visivelmente preocupado, mas não se atreveria a abordá-la, nem a oferecer conforto.
— Não tem nada de errado com Jill. O problema é com Adrian, e ela está sentindo por causa do laço. Ele está passando por um momento muito difícil.
Não dei mais detalhes sobre a situação de Adrian; não tinha esse direito.
O semblante de Eddie escureceu um pouco.
— Não é justo ela ter de aturar as mudanças de humor dele.
— Não sei — eu disse. — Parece uma troca justa pela vida dela.
O fato de Adrian ter usado o espírito para trazer Jill de volta à vida ainda era uma questão complicada para mim. Durante todo o meu treinamento alquimista, disseram-me que aquele tipo de magia era errado, muito pior que qualquer outro que eu já tivesse presenciado. Seria possível até argumentar que o que ele fez estava a poucos passos da imortalidade dos Strigoi. Por outro lado, sempre que via Jill viva e radiante, tinha certeza de que Adrian fizera a coisa certa. Eu havia falado a verdade quando lhe disse isso em San Diego.
— Acho que sim — Eddie disse. — Queria que ela tivesse um jeito de bloqueá-lo. Ou pelo menos de fazê-lo ficar menos temperamental.
— Pelo que ouvi dizer — eu disse, meneando a cabeça —, Adrian já era assim muito antes de Jill ser beijada pelas sombras.
Mesmo assim, aquela conversa ficou na minha cabeça e passei o resto do dia me perguntando o que podia fazer para deixar Adrian mais contente. Obviamente, não poderia arranjar outro pai para ele. Se pudesse, teria tentado conseguir um para mim mesma muitos anos antes. Raspadinhas também não eram uma opção, em parte porque só ofereciam dez minutos de alívio, e também porque eu ainda estava me recuperando da última. Mais tarde finalmente tive uma ideia, embora não fosse nada fácil colocá-la em prática. Na verdade, tinha certeza de que meus superiores diriam que eu não devia tentar fazer isso, razão pela qual decidi não deixar rastro nenhum em e-mail ou papel. Porém, não podia executar isso naquele dia, então fiz uma nota mental para tratar do assunto depois. Além disso, quem sabe Adrian não conseguiria superar os efeitos do encontro com o pai por conta própria?
Essas esperanças acabaram ganhando força quando vi Jill no dia seguinte, durante uma assembleia da escola.
Assembleias como aquela ainda eram uma novidade para mim, e havíamos tido exatamente duas desde o início das aulas. A primeira tinha sido uma reunião de boas-vindas na nossa primeira semana. A segunda, um agrupamento para festejar o retorno do time de futebol americano. A daquele dia se chamava Estilos de Vida Saudáveis. Não conseguia entender sobre o que era ou por que seria tão importante a ponto de interromper minha aula de química.
Mandaram que nos sentássemos agrupados em turmas no ginásio da escola, de modo que eu e Jill fomos colocadas em seções distintas da arquibancada. Ao esticar o pescoço para vê-la, percebi que ela tinha ficado perto da quadra, com Angeline e alguns amigos que fez através de Micah. Eles a receberam bem depois que a conheceram melhor, o que não era nenhuma surpresa considerando sua doçura. Até mesmo Laurel, uma menina que antes lhe atormentava a vida, agora lhe sorria, simpática. Angeline disse alguma coisa que a fez rir e, no geral, havia uma melhora em sua disposição. Uma grande melhora, a julgar pelo tanto que ela ria. Fiquei contente. Talvez Adrian realmente tivesse se recuperado.
— Alguém sabe me dizer o que é isso? — perguntei a Eddie e Micah, que estavam sentados de um lado, e a Trey, que estava do outro.
— É um grupo que vem para a escola fazer apresentações sobre questões como drogas e sexo com segurança — Micah explicou.
Ele era bem ativo no grêmio estudantil, então não foi uma surpresa ele saber da pauta do dia.
— São assuntos bem importantes — eu disse. — Isso não é para durar uma hora? Não acho que vão conseguir tratar de tudo isso em tão pouco tempo.
— Acho que é só uma revisão geral bem rápida — Trey disse. — Não querem fazer nenhum seminário ou coisa assim.
— Pois deveriam — argumentei.
— Perdemos alguma coisa? — Julia e Kristin abriram caminho aos empurrões, e se encaixaram entre mim e Trey. Trey não pareceu se importar.
— Estamos tentando explicar o objetivo disso para Sydney — ele contou a elas.
— Acho que o objetivo era escapar da aula — Julia disse.
Kristin revirou os olhos.
— Isso vai mostrar o que você perdeu sendo educada em casa, Sydney.
Nada poderia ter me preparado para o espetáculo que se desenrolou, sobretudo porque nem nos meus sonhos mais loucos eu imaginaria questões sociais de peso sendo tratadas em números musicais. O grupo que se apresentou chamava-se Katar Geral, e o uso inapropriado do K quase foi suficiente para me fazer sair dali na hora. Antes de cada música eles faziam um resumo rápido e completamente vago sobre o tópico ou, ainda pior, encenavam um esquete. Esses discursos rápidos sempre começavam com um “Alô, criançada!”. A primeira música se chamava “DSTs não são pra vocês”. Foi então que comecei a fazer minha tarefa de matemática.
— Ah — Eddie me disse. — Não é tão ruim. E as pessoas precisam saber esse tipo de coisa.
— Exatamente — respondi, sem levantar os olhos. — Ao tentarem usar uma linguagem “descolada” e “acessível”, estão transformando questões sérias em brincadeiras idiotas.
O único momento em que voltei a prestar atenção foi quando a Katar Geral começou a falar sobre os males do álcool. Um dos versos daquela canção particularmente horrenda era: “Não ouve o teu amigo/ Uísque vai acabar contigo”.
— Argh. Já deu — murmurei, voltando a procurar Jill com os olhos.
Ela estava assistindo, incrédula e perplexa, mas assim como antes não havia nem sinal daquele desespero ou melancolia. Meus instintos sugeriram um motivo diferente para aquela variação de humor. Adrian não tinha superado a tristeza. Era mais provável que estivesse bebendo para afogar as mágoas. Às vezes, Jill sentia alguns dos efeitos colaterais da embriaguez, como as risadinhas que eu tinha visto, mas eventualmente o álcool acabava enfraquecendo o laço de espírito. O lado positivo do comportamento dele era que a poupava um pouco da depressão. O lado negativo era que ela poderia sentir os efeitos físicos da ressaca no dia seguinte.
Felizmente a Katar Geral tocou sua última música, um grande número musical celebrando os prazeres de se sentir bem e ter um estilo de vida feliz e saudável. Eles chamaram membros do corpo discente para dançar com eles, o que gerou reações diversas. Alguns alunos simplesmente ficaram parados, morrendo de vergonha, com expressões que denotavam que estavam contando os segundos até aquilo acabar. Outros, sobretudo os que já costumavam chamar atenção na aula, davam os espetáculos mais esdrúxulos possíveis.
— Sydney.
O tom de alerta na voz de Eddie me impediu de voltar à lição. Esse tipo de preocupação era reservado apenas a Jill e, no mesmo instante, olhei para ela. Jill, porém, não era o problema. Angeline era. Um dos membros da Katar Geral estava tentando convencê-la a dançar e chegou a pegar a mão dela. Angeline balançou a cabeça enfática, mas o rapaz parecia ignorar. Angeline podia se sentir à vontade em danças selvagens no meio das florestas da Virgínia Ocidental, mas aquela não era uma situação em que se sentiria confortável.
Para ser justa, o que aconteceu em seguida não foi inteiramente culpa dela. O cara realmente devia tê-la deixado em paz quando ela se recusou, mas imagino que estava absorto demais naquele humor descontraído. Ele deu um jeito de levantá-la à força, e foi então que Angeline deixou sua recusa perfeitamente clara.
Dando um soco na cara dele.
Foi impressionante, já que o cara era quase trinta centímetros mais alto do que ela. Supus que ela havia aprendido aquilo com o treinamento de Eddie sobre como nocautear um Moroi mais alto. O cara cambaleou para trás e caiu, com um baque no chão. Quase todos os alunos por perto abafaram um grito de espanto, embora apenas uma das pessoas da banda, a guitarrista, tivesse notado. O restante continuou cantando e dançando. A guitarrista correu até o colega caído e Angeline deve ter sentido seu espaço pessoal ameaçado, porque também a socou.
— Eddie, faça alguma coisa! — exclamei.
Ele virou para mim, perplexo.
— O quê? Nunca chegaria lá a tempo.
Era verdade. Estávamos a uma altura de dois terços da arquibancada, cercados por outras pessoas. De mãos atadas, só me coube assistir à continuação do espetáculo. A banda não demorou a perceber que algo estava terrivelmente errado e a música começou a vacilar até que, por fim, deu lugar ao silêncio. Enquanto isso, um grupo de professores foi correndo até a quadra, tentando afastar Angeline do baixista da Katar Geral. O olhar dela era selvagem, como o de um animal encurralado que perdera a cabeça e só queria escapar. Os professores finalmente conseguiram controlá-la, mas não antes que ela atirasse uma caixa de som contra o vocalista (e errasse) e desse um soco no professor de marcenaria.
Trey me cochichou, boquiaberto.
— Aquela é a sua prima? Uau.
Nem me dei ao trabalho de responder. Tudo em que conseguia pensar era como iria controlar os danos dessa vez. Meter-se em brigas era uma infração grave por si só. Sequer conseguia imaginar o que atacar um grupo musical educativo acarretaria.
— Ela derrubou, tipo, três pessoas com o dobro do tamanho dela! — Kristin exclamou. — E, tipo, derrubou mesmo. Nocauteou total.
— É, eu sei — respondi, desolada. — Estou aqui. Eu vi tudo.
— Como ela conseguiu fazer isso? — Julia questionou.
— Ensinei uns golpes a ela — Eddie comentou, incrédulo.
Como era de se esperar, ninguém sequer se deu ao trabalho de remeter o acontecido à sra. Weathers. Angeline foi mandada diretamente para a diretora o vice-diretor. Depois de sua demonstração, acho que se sentiriam mais seguros em um número maior. Talvez por recomendação da sra. Weathers, ou simplesmente porque nossos pais fictícios (assim como os da nossa “prima” Angeline) eram conhecidos pela dificuldade de se contatar, pediram que eu a acompanhasse até a diretoria.
Meus conselhos prévios a ela foram curtos e diretos:
— Você tem que agir de maneira arrependida e contrita — disse a ela enquanto esperávamos na frente da sala da diretora.
— O que quer dizer “contrita”?
— Arrependida.
— Então por que você não disse só...
— E — continuei —, se perguntarem seus motivos, você diz que perdeu o controle e entrou em pânico. Diga que não sabe o que deu em você.
— Mas eu não...
— E não vai mencionar o quanto eles eram idiotas nem dizer nada negativo, seja o que for.
— Mas eles eram...
— Na verdade, não fale nada a menos que perguntem diretamente para você. Se me deixar cuidar disso, tudo vai acabar rápido.
Aparentemente Angeline levou isso ao pé da letra, porque cruzou os braços e me encarou, recusando-se a dizer qualquer outra coisa.
Quando fomos chamadas no escritório, a diretora e o vice — sra. Welch e sr. Redding, respectivamente — estavam sentados do mesmo lado da mesa, um ao lado do outro, em um fronte unido que mais uma vez me levou a pensar que eles temiam por suas vidas.
— Srta. McCormick — a sra. Welch começou —, espero que tenha consciência de que a senhorita perdeu a linha completamente. — McCormick era o sobrenome falso de Angeline.
— Violência e brigas de qualquer espécie não são toleradas em Amberwood — o sr. Redding disse. — Temos normas severas, normas que visam garantir a segurança de todos nesta escola, e esperamos que nossos alunos as obedeçam. Nenhuma de suas outras violações às regras da escola chegou perto do que você fez hoje.
— Mesmo que sua ficha fosse limpa, não restam dúvidas aqui — a sra. Welch disse. — Não temos lugar para você em Amberwood.
Senti um frio na barriga. Expulsão. Apesar de os Conservadores não serem inteiramente incultos, a bagagem de conhecimentos dela nem chegava perto da média dos estudantes de ensino médio do mundo moderno. Ela tinha que fazer várias aulas de recuperação, e conseguir que entrasse em Amberwood tinha sido uma grande façanha. A expulsão não era tão terrível quanto uma investigação sobre como era possível uma menina delicada como ela causar tanto estrago, mas ainda não era o resultado que eu queria. Já podia imaginar meus superiores me perguntando: Como você pôde deixar de perceber que a escola a estava deixando tão explosiva? Minha única resposta possível seria: Desculpe, eu estava muito ocupada namorando e ajudando vampiros que não são de minha responsabilidade.
— Você tem alguma coisa a dizer em sua defesa antes que notifiquemos seus pais? — a sra. Welch perguntou.
Eles olharam para Angeline, com expectativa.
Me preparei para um discurso irracional. Mas, em vez disso, Angeline conseguiu derramar algumas lágrimas que, admito, realmente pareciam de arrependimento.
— Eu... eu entrei em pânico — ela gaguejou. — Não sei o que deu em mim. Tanta coisa aconteceu de uma só vez e aquele cara era assustador e eu surtei. Me senti ameaçada. Queria que todo mundo ficasse longe de mim...
Quase me convenceu, talvez porque houvesse um fundo de verdade naquilo. Angeline vinha tendo momentos conturbados em Amberwood, apesar de toda a sua presunção. Havia mais pessoas na escola do que em toda a sua comunidade nas montanhas, e ela ficara tão atordoada durante a primeira semana que tivemos de nos revezar para escoltá-la até as aulas. Eu realmente devia ter prestado mais atenção nela.
O sr. Reeding pareceu um pouquinho solidário, mas não o bastante para mudar de ideia.
— Tenho certeza de que foi difícil, mas isso não justifica o seu comportamento. Machucar três pessoas e danificar equipamentos caros de audiovisual não são, de forma alguma, reações adequadas.
Que eufemismo.
Estava cansada das formalidades e precisava consertar as coisas antes que se agravassem ainda mais. Me inclinei para a frente na cadeira.
— Sabem o que também não é adequado? Um sujeito de trinta e poucos anos — porque essa era a idade dele, apesar de tentarem parecer jovens e descolados — agarrando uma menina de quinze. Ele ter insistido quando ela demonstrou claramente que não queria acompanhá-lo já teria sido ruim o bastante. Mas a questão é que ele nem devia ter tocado nela, pra começo de conversa. Ela é menor de idade. Se um professor fizesse isso, teria sido demitido. Li todos os livros que o departamento de RH dá para os professores. — Tinha tentado descobrir se a sra. Terwilliger estava cometendo algum abuso comigo. — As únicas situações em que os professores podem pôr as mãos nos alunos são em caso de emergência médica e para separar uma briga. Vocês podem até argumentar que aquele sujeito não era professor nem empregado de Amberwood, mas o grupo dele foi convidado a vir até aqui pela escola, que tem a obrigação de manter a segurança dos alunos. Esta é uma escola particular, mas eu tenho certeza de que a Secretaria de Educação da Califórnia teria algumas coisinhas a dizer sobre o que aconteceu hoje, assim como o pai da Angeline, que é advogado. — Na verdade, ele era o líder polígamo de um bando de vampiros das montanhas, mas essa não era a questão. Alternei o olhar entre o rosto da sra. Welch e do sr. Redding. — Agora, será que podemos renegociar a decisão de vocês?
Angeline estava em êxtase no caminho de volta da diretoria para o alojamento.
— Suspensão! — ela exclamou, feliz demais para o meu gosto.— Eu realmente vou poder matar aula? Parece mais uma recompensa.
— Mas você não pode deixar de fazer as lições de casa — adverti. — E não pode sair do alojamento. Nem pense em sair às escondidas, porque isso causaria sua expulsão e não teria como eu salvar você de novo.
— Mesmo assim — ela disse, quase saltitante —, essa foi fácil.
Parei na frente dela, forçando-a a me encarar.
— Não foi fácil. Você se livrou por causa de uma brecha técnica. Você sempre reluta em seguir as regras por aqui, e hoje... bem, hoje você se superou. Você não está na sua casa. Só deveria pensar em se meter numa briga aqui se Jill fosse atacada. É para isso que você está aqui. Não para fazer o que quiser. Você disse que estava à altura do desafio de protegê-la. Se você for expulsa, e é um milagre não ter sido, ela estará correndo risco de vida. Então entre na linha ou comece a fazer as malas pra voltar pra casa. E, pelo amor de Deus, deixe Eddie em paz.
O rosto dela se inflamava de fúria conforme eu ia falando, mas minha última frase a pegou de surpresa.
— O que você quer dizer com isso?
— Quero dizer que você não para de se atirar pra cima dele.
Ela torceu o nariz:
— É assim que se mostra para um garoto que você está a fim dele.
— Talvez entre os não civilizados seja sim! Aqui, você precisa recuar e começar a agir como um ser humano... quer dizer, uma dampira responsável. Você está transformando a vida dele num inferno! Além disso, as pessoas acham que vocês são primos. Você está estragando nosso disfarce.
— Eu... estou transformando a vida dele num inferno? — ela perguntou, de queixo caído.
Quase me senti mal por ela. A surpresa em seu rosto era tamanha que ficou claro que ela realmente não fazia ideia de que seu comportamento com Eddie era inadequado. No entanto, estava irritada demais para sentir pena dela naquele momento. Jill também havia se comportado de forma impulsiva quando chegamos, o que tinha sido igualmente frustrante. Depois chegamos a desfrutar certa paz, mas agora Angeline ameaçava estragar tudo. Ao contrário de Jill, ela não parecia se dar conta de tudo isso, o que eu não sabia se melhorava ou piorava a situação.
Triste e frustrada, Angeline me acompanhou até o alojamento, onde verifiquei com Jill que Adrian realmente vinha bebendo. Somado à minha agitação, aquilo era mais do que o suficiente para me fazer querer fugir do campus. Mais cedo, Brayden havia me perguntado se eu queria sair com ele, mas eu não estava com ânimo para isso. Mandei uma mensagem rápida: Hoje não posso. Coisa de família. Então, fui para a casa de Clarence.
Liguei antes para garantir que Dimitri e Sonya estariam lá, afinal, não queria ficar sozinha com o velho Moroi. Ele não estava por lá quando cheguei. Encontrei Dimitri e Sonya debruçados sobre alguns cartões com gotas de sangue secas, cogitando sobre como proceder.
— Seria interessante conseguirmos sangue Strigoi para vermos o que aconteceria se eu aplicasse o espírito — ela dizia. — Você acha que consegue?
— Com prazer — Dimitri respondeu.
Eles me notaram. Assim que levantou os olhos, Sonya perguntou:
— Qual é o problema?
Nem me dei ao trabalho de perguntar como ela sabia. Era provável que a minha cara mostrasse mais que a minha aura.
— Angeline se meteu numa briga com um grupo musical educativo na escola.
Dimitri e Sonya trocaram olhares.
— Acho que a gente devia sair pra jantar — ele sugeriu. Pegou o chaveiro sobre a mesa. — Vamos para o centro.
Nunca teria imaginado que algum dia estaria ansiosa para sair com um Moroi e uma dampira. Era outro sinal de que eu havia progredido — ou regredido, de acordo com os padrões alquimistas. Comparados à maioria das pessoas da minha vida, Dimitri e Sonya eram realistas e firmes, o que me reconfortava.
Fiz um resumo do comportamento de Angeline, bem como minha falsa ameaça de processo. Sonya pareceu se divertir com essa parte.
— Foi bastante esperto — ela disse, enrolando o espaguete com o garfo. — Talvez você devesse estudar direito em vez de trabalhar para os alquimistas.
Dimitri não achou tanta graça.
— Angeline veio para cá para cumprir uma missão. Ela queria deixar os Conservadores e jurou que devotaria todos os minutos de sua vida para proteger Jill.
— Houve um pouco de choque cultural — admiti, sem saber bem por que a estava defendendo. — E aqueles caras, hoje... Se eles tivessem tentado me fazer cantar com eles, talvez também tivesse dado uns socos neles.
— Inaceitável — Dimitri disse. Ele já tinha atuado como instrutor de combate e eu entendia por quê. — Ela está aqui em uma missão. O que fez foi insensato e irresponsável.
Sônia deu um sorriso irônico.
— E eu achando que você tivesse um fraco por garotas jovens e insensatas.
— Rose nunca teria feito algo assim — ele rebateu. Então fez uma pausa para reconsiderar, e pude jurar que vi a sombra de um sorriso em seu rosto. — Bem, pelo menos não na frente de todo mundo.
Quando deixamos o assunto Angeline de lado, trouxe à tona o motivo por que tinha ido até eles.
— Então... nada de experimentos hoje?
Até mesmo a disposição de Sonya vacilou.
— Ah. Não, não exatamente. Fizemos algumas anotações por conta própria, mas Adrian não está... Ele não está muito disposto a pesquisar esta semana. Ou a assistir às aulas.
Dimitri concordou.
— Passei lá mais cedo. Ele mal conseguiu abrir a porta. Não faço ideia do que anda bebendo mas, seja lá o que for, tem bebido muito.
Considerando o relacionamento complicado entre eles, eu esperaria um tom de desprezo ao discutir os vícios de Adrian. Em vez disso, Dimitri parecia desapontado, como se esperasse mais dele.
— Era sobre isso que eu queria conversar — eu disse. Tinha comido pouco no jantar e agora estava esmigalhando um pão, nervosa. — O humor atual de Adrian não é inteiramente culpa dele. Digo, é, mas eu compreendo. Vocês sabem que fomos ver o pai dele no último fim de semana, certo? Então... não deu muito certo.
— Não fico surpreso — Dimitri disse, com um brilho compreensivo nos olhos pretos. — Nathan Ivashkov não é uma pessoa fácil.
— Ele meio que destruiu tudo o que Adrian vem tentando fazer. Tentei defendê-lo, mas o sr. Ivashkov não quis ouvir. Por isso eu estava me perguntando se vocês poderiam ajudar.
Sonya não conseguiu conter a surpresa.
— Eu ajudaria Adrian com prazer, mas algo me diz que Nathan não vai dar ouvidos ao que temos a dizer.
— Não era isso que eu tinha em mente. — Desisti do pão e soltei todas as migalhas no prato. — Vocês dois são próximos da rainha. Talvez pudessem pedir a ela que falasse com o pai de Adrian... sei lá. Sobre como ele tem sido útil. Como tem ajudado. Claro que ela não poderia explicar o que exatamente ele tem feito, mas qualquer coisa já ajudaria. O sr. Ivashkov não daria ouvidos a Adrian nem a mais ninguém, mas teria de levar um elogio da rainha a sério. Se ela puder fazer isso.
— Ah, acho que ela faria — Dimitri disse, pensativo. — Ela sempre teve um fraco por ele. Todo mundo tem, ao que parece.
— Não — respondi, teimosa. — Nem todo mundo. Existe uma divisão. Metade o condena e o considera inútil, como o pai dele. A outra metade simplesmente ignora e o tolera, pensando “Ah, é o Adrian”.
Sonya me examinou com cuidado, retomando o ar de divertimento.
— E você?
— Não acho que ele precise ser mimado nem desprezado. Se você esperar muito dele, ele não o desapontará.
Sonya não disse nada de imediato, e me senti desconfortável sob seu exame. Não gostava quando ela me olhava daquele jeito. Era algo que ultrapassava as auras, como se pudesse ver dentro do meu coração e da minha alma.
— Vou falar com Lissa — ela disse, por fim. — Tenho certeza de que Dimitri também falará. Nesse meio-tempo, vamos torcer para que, se seguirmos seu conselho e esperarmos que Adrian fique sóbrio, ele realmente fique.
Tínhamos acabado de pagar a conta quando o celular de Dimitri tocou.
— Alô? — ele atendeu. E assim, de repente, sua expressão mudou. Aquela ferocidade que eu costumava associar a ele se abrandou, e seu rosto se encheu de luz. — Não, não. É sempre uma boa hora para você ligar, Rose.
Qualquer que fosse a resposta do outro lado, o fizera sorrir.
— Rose — Sonya me disse. Ela se levantou. — Vamos dar um pouco de privacidade a eles. Quer dar uma volta?
— Claro — respondi, me levantando também. O sol estava se pondo lá fora. — Na verdade, tem uma loja de fantasias aqui perto que eu queria dar uma olhada, se ainda estiver aberta.
Sonya se virou para Dimitri.
— Você encontra a gente lá? — ela sussurrou para ele. Ele fez que sim, distraído. Assim que saímos para o ar morno do fim de tarde, ela sorriu. — Aqueles dois... Numa luta, são mortíferos, mas perto um do outro se derretem todos.
— Você e Mikhail são assim? — perguntei, pensando que não havia tanto derretimento entre mim e Brayden, por mais que eu gostasse de estar com ele.
Ela voltou a sorrir e olhei para o céu, colorido em tons de laranja e azul.
— Não exatamente — ela disse. — Cada relacionamento é diferente. Cada um ama de um jeito. — Houve uma longa pausa enquanto ela escolhia as próximas palavras. — Foi uma atitude bonita o que você decidiu fazer por Adrian.
— Não tinha o que decidir — argumentei. Atravessávamos uma rua movimentada, repleta de lojas muito iluminadas e com vaporizadores na frente para refrescar os clientes. Estremeci ao notar o que aquele vapor estava fazendo com o meu cabelo. — Eu precisava ajudar. Ele não merecia ser tratado daquele jeito. Nem consigo imaginar como suportou isso a vida toda. E você acredita que o que mais o incomodava era pensar que depois disso ele cairia no meu conceito?
— Na verdade — Sonya disse, de maneira vaga —, posso acreditar, sim.
A loja de fantasias ainda estava aberta, graças ao horário estendido de Dia das Bruxas, mas faltavam apenas dez minutos para fechar. Sonya circulou pelos corredores sem nenhum objetivo real, enquanto eu segui diretamente para a seção histórica. Eles tinham apenas um vestido grego no estoque, uma toga toda branca com um cinto de plástico dourado. Era vagabundo, talvez até inflamável. O tamanho era GG e cogitei se Jill tinha aprendido o suficiente no clube de costura para ajustá-lo para mim. Com menos de uma semana até a festa, minhas opções eram limitadas.
— Sério? — disse uma voz atrás de mim. — Você já não me insultou o bastante sem recorrer a esse lixo?
Em pé atrás de mim estava Lia DiStefano, com o cabelo encaracolado coberto por um lenço vermelho-vivo. O volume de sua blusa rústica fazia parecer que seu minúsculo corpinho tinha asas. Ela me olhou de cima a baixo com desaprovação nos olhos delineados.
— Você está me seguindo? — perguntei, na defensiva. — Sempre que venho para o centro, encontro você.
— Pra começo de conversa, se eu estivesse seguindo você, nunca a teria deixado pôr os pés aqui. — Ela apontou para a fantasia. — O que é isso?
— Minha fantasia de Dia das Bruxas — respondi. — Vou de grega.
— Nem é do tamanho certo.
— Vou mandar ajustar.
— Tsc, tsc. Estou tão horrorizada que nem sei por onde começar. Você quer um vestido grego? Faço um para você. Um dos bons. Não essa monstruosidade. Meu Deus. As pessoas sabem que você me conhece. Se virem você usando isso, minha carreira estará arruinada.
— É, porque minha roupa numa festa da escola é realmente um fator decisivo na sua carreira.
— Quando é a festa? — ela perguntou.
— Sábado.
— Fácil — declarou. Deu uma olhada rápida em mim. — Suas medidas são fáceis também. Sua irmã vai se vestir tão mal assim?
— Não sei — admiti. — Ela disse que ia fazer um vestido de fada no clube de costura. Azul, acho.
Lia ficou pálida.
— Pior ainda. Faço um vestido pra ela também. Já tenho as medidas.
Suspirei.
— Lia, sei o que você está tentando fazer, e já adianto que não vai dar certo. Jill definitivamente não pode voltar a modelar para você. Não importa o quanto você tente nos subornar.
Lia forçou um olhar inocente que não me convenceu nem um pouco.
— Quem falou em suborno? Estou fazendo isso por caridade. Seria uma desgraça deixar vocês duas irem a uma festa vestindo qualquer coisa que não o melhor.
— Lia...
— Não compre isso — ela advertiu, apontando para a fantasia. — Seria um desperdício. Valeria mais a pena atear fogo no seu dinheiro, apesar de que o dinheiro não iria queimar tão rápido quanto esse vestido. Aviso quando suas fantasias estiverem prontas.
Com isso, deu meia-volta em seus saltos de madeira e foi embora, me deixando lá, perplexa.
— Conseguiu a fantasia? — Sonya me perguntou depois, assim que a loja nos obrigou a sair para fechar as portas.
— Estranhamente, sim — respondi. — Mas não daqui.
Tudo indicava que o telefonema de Dimitri não havia terminado, já que ele ainda não tinha aparecido.
Voltamos devagar para o restaurante, querendo lhe dar mais tempo com Rose. Outras lojas estavam fechando e os turistas começavam a rarear. Contei sobre o encontro com Lia, e Sonya achou mais graça do que eu.
— Aceita, boba — ela disse. — Se a estilista se ofereceu pra fazer a fantasia, você não é obrigada a dar algo em troca. Talvez ela possa me ajudar com os vestidos das damas de honra.
Atravessamos uma rua menos movimentada e cortamos caminho por um beco estreito entre um prédio de tijolos e um gramado arborizado ao redor de uma igreja. Tinha achado a igreja bonita durante a ida, mas agora, pouco tempo depois, o crepúsculo a carregara de sombras, conferindo-lhe um aspecto de mau agouro. Era bom não estar passando por ali sozinha, apesar de ser estranho me sentir tranquilizada pela presença de uma vampira.
— Lia realmente faz coisas fantásticas — admiti. — Mas não acho que devêssemos encorajá-la.
— É verdade — Sonya disse. — Qualquer dia desses você poderia me ajudar a procurar alguns vestidos? Você tem um ótimo senso de...
De repente ela se virou para o terreno escuro em torno da igreja com uma expressão de medo no rosto. Eu não vi nada — a princípio. Segundos depois, quatro vultos de preto surgiram de trás das árvores. Enquanto um me prensava contra a parede de tijolos, os outros três jogaram Sonya no chão. Empurrei meu captor, mas seu braço forte me segurava firme. Sob a luz fraca, vislumbrei o brilho de algo que nunca esperaria ver nas ruas de Palm Springs: uma espada.
O vulto negro a empunhou sobre o pescoço de Sonya.
— Hora de voltar para o Inferno — ele disse.

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