3 de outubro de 2017

Capítulo 1

A MAIORIA DAS PESSOAS TERIA MEDO de ser levada a um abrigo subterrâneo numa noite de tempestade.
Mas não eu.
Tudo que eu pudesse explicar e definir de maneira objetiva não me intimidava. Por isso, enquanto descia cada vez mais abaixo do nível da rua, ficava enumerando fatos para mim mesma em silêncio. O abrigo era uma relíquia da Guerra Fria, construído para servir de proteção num tempo em que as pessoas acreditavam que os mísseis nucleares estavam por toda parte. Na superfície, o prédio parecia abrigar uma loja de equipamentos ópticos. Mas era só uma fachada. Nada assustador. A tempestade? Simplesmente o fenômeno natural da colisão de frentes atmosféricas. E, sério, se você está com medo de se machucar numa tempestade, então ir para o subsolo não deixa de ser uma boa ideia.
Portanto, não. Aquela jornada aparentemente ameaçadora não me aterrorizava nem um pouco. Tudo se apoiava na lógica e em fatos racionais. Eu conseguia lidar com aquilo. Era com o resto do meu trabalho que eu tinha problemas.
Sinceramente, talvez fosse por isso que excursões subterrâneas em noites de tempestade não me atormentavam. Quando se passa a maior parte do tempo vivendo entre vampiros e meio-vampiros, transportando-os para que consigam sangue, e ocultando a existência deles do resto do mundo... bem, isso meio que dá uma perspectiva diferente da vida. Já havia presenciado batalhas sangrentas entre vampiros e visto proezas mágicas que desafiavam todas as leis da física que eu conhecia. A minha vida era uma luta constante para reprimir meu medo do inexplicável e tentar, desesperadamente, encontrar uma maneira de explicá-lo.
— Cuidado por onde pisa — meu guia disse, conforme descíamos outro lance da escada de concreto. Tudo que eu tinha visto até então era de concreto: as paredes, o piso, o teto. A superfície cinzenta e áspera absorvia a luz fluorescente que tentava iluminar o caminho. Tudo era frio, melancólico e de um silêncio sinistro. O guia pareceu adivinhar meus pensamentos. — Fizemos algumas modificações e ampliações na construção original. Você vai ver quando chegarmos à área principal.
Dito e feito. As escadas finalmente acabaram em um corredor com várias portas fechadas dos dois lados. O revestimento ainda era de concreto, mas as portas eram modernas, com fechaduras eletrônicas exibindo luzes verdes ou vermelhas. Ele me acompanhou até a segunda porta à direita, que tinha luz verde, e entrei num saguão perfeitamente normal, como a sala de espera de qualquer escritório moderno. Um carpete verde cobria o chão, numa tentativa nostálgica de imitar a grama, e as paredes em um tom marrom-claro davam a ilusão de calor. Um sofá confortável e duas cadeiras ficavam do outro lado da sala, junto a uma mesa entulhada de revistas. E o melhor de tudo: a sala tinha um balcão com uma pia — e uma cafeteira.
— Fique à vontade — o guia disse.
Achava que ele tinha mais ou menos a minha idade, dezoito anos, mas a barba irregular que ele tentava deixar crescer o fazia parecer mais jovem.
— Logo virão buscá-la.
Eu não tirava os olhos da cafeteira.
— Posso fazer café?
— Claro — ele respondeu. — O que você quiser.
Ele saiu e eu praticamente corri até o balcão. O café era pré-moído e parecia que também estava lá desde a Guerra Fria. Mas o que importava era que tivesse cafeína. Depois do voo noturno que me trouxera da Califórnia, ainda me sentia sonolenta e com a visão embaçada, apesar de ter usado parte do dia para me recuperar. Liguei a cafeteira e perambulei pela sala. As revistas estavam espalhadas ao acaso, e tratei de arrumá-las em pilhas alinhadas. Não suportava bagunça.
Sentei no sofá e, enquanto esperava o café ficar pronto, voltei a me perguntar sobre o que poderia ser aquela reunião. Havia passado a tarde ali na Virgínia relatando a alguns funcionários alquimistas em que pé estava minha missão atual. Eu estava morando em Palm Springs, fingindo cursar o último ano num internato particular, para cuidar da segurança de Jill Mastrano Dragomir, uma princesa vampira obrigada a se esconder.
Mantê-la viva significava manter seu povo livre de uma guerra civil, conflito que sem dúvida revelaria aos humanos o mundo sobrenatural que se escondia sob a superfície da vida moderna. Era uma missão importantíssima para os alquimistas, então era de se esperar que quisessem ficar por dentro de tudo. O que me surpreendia era o fato de não terem feito isso apenas por telefone. Não conseguia descobrir que outro motivo poderia ter me levado àquele lugar.
O café ficou pronto. Havia programado a cafeteira para fazer o equivalente a apenas três xícaras, o que eu considerava suficiente para aguentar a noite. Quando acabei de encher o copinho de isopor, a porta se abriu.
Quase derrubei o café quando vi quem entrava.
— Sr. Darnell — eu disse, devolvendo a jarra à base da cafeteira; minhas mãos tremiam. — É... é um prazer ver o senhor de novo.
— O prazer é meu, Sydney — respondeu, forçando um sorriso tenso. — Você cresceu muito.
— Obrigada, senhor — respondi, sem saber ao certo se tinha sido um elogio.
Tom Darnell tinha a mesma idade do meu pai, e seu cabelo castanho se entremeava de fios prateados. O rosto dele exibia mais rugas do que na última vez que o vira, e seus olhos azuis demonstravam uma apreensão que eu não costumava associar à sua figura. Tom Darnell era um funcionário do alto escalão dos alquimistas e havia alcançado seu cargo com ações decisivas e uma ética profissional inabalável. Quando eu era pequena, ele me parecia grandioso, terrivelmente confiante e imponente. Agora dava a impressão de estar com medo de mim, o que não fazia o menor sentido. Ele não estava zangado? Afinal, eu era a responsável pelos alquimistas terem capturado e aprisionado o filho dele.
— Obrigado por ter vindo até aqui — acrescentou, passados alguns instantes de silêncio constrangedor. — Sei que é uma longa viagem, ainda mais num fim de semana.
— Não tem problema nenhum, senhor — respondi, tentando parecer confiante. — Fico feliz em poder ajudar no que... no que for necessário.
Eu ainda me perguntava o que exatamente aquilo poderia ser.
Ele me examinou por alguns segundos e assentiu levemente com a cabeça.
— Você é muito dedicada — ele disse. — Exatamente como seu pai.
Não respondi. Sabia que aquilo pretendia ser um elogio, só que eu não encarava desse jeito.
Tom pigarreou.
— Muito bem. Vamos acabar logo com isso. Realmente não quero incomodá-la mais do que o necessário.
Voltei a sentir aquela energia nervosa e complacente. Por que ele estaria tão preocupado com o que eu estava sentindo? Afinal, depois do que eu tinha feito com Keith, o filho dele, eu esperava um acesso de fúria e acusações. Tom abriu a porta e fez um gesto para que eu saísse.
— Posso levar o café?
— Claro.
Ele me acompanhou de volta ao corredor de concreto, na direção de outras portas fechadas. Eu segurava meu café com força, como se fosse o cobertorzinho que eu carregava quando criança, e sentia muito mais medo do que quando havia entrado naquele lugar. Tom parou em frente a uma das portas com luz vermelha, mas hesitou antes de abri-la.
— Quero que saiba... que o que você fez foi de uma coragem incrível — ele disse, sem me olhar nos olhos. — Sei que você e Keith eram... são... amigos, e não deve ter sido fácil para você entregá-lo. Isso mostra seu comprometimento com o trabalho, algo que nem sempre é fácil quando sentimentos pessoais estão envolvidos.
Keith e eu não éramos amigos, nem nunca tínhamos sido, mas acho que consegui entender o engano de Tom. Keith havia morado com a minha família durante um verão e, mais tarde, trabalhamos juntos em Palm Springs. Entregá-lo por seus crimes não havia sido nada difícil para mim. Na verdade, tinha sido um prazer. Mas, pelo olhar angustiado no rosto de Tom, eu sabia que não podia dizer nada desse tipo.
Engoli em seco.
— Bem, nosso trabalho é importante, senhor.
— Sim, sem dúvida — respondeu, com um sorriso triste.
A porta tinha um teclado de segurança. Tom pressionou cerca de dez dígitos e a fechadura soltou um estalido de aprovação. Ele abriu a porta e eu entrei atrás dele. A sala quase vazia era mal iluminada e outras três pessoas estavam ali. Inicialmente não notei o que mais havia na sala, mas logo percebi que os outros também eram alquimistas. Se não fossem, não haveria motivo para estarem ali. E, claro, todos possuíam os sinais que eu identificaria mesmo numa rua movimentada. Trajes sociais de cores neutras. Tatuagens de lírios dourados reluzindo na bochecha esquerda. Era o uniforme que compartilhávamos. Éramos um exército secreto, espreitando sob as sombras dos outros humanos.
Todos os três seguravam pranchetas e olhavam para uma das paredes. Foi então que notei a finalidade da sala.
Uma janela na parede dava para outro espaço, bem mais iluminado que aquele.
E Keith Darnell estava ali dentro.
Ele disparou na direção do vidro que nos separava e começou a esmurrá-lo. Meu coração acelerou e, assustada, dei uns passos para trás, certa de que ele queria me atacar. Demorei um tempo para entender que, na verdade, ele não conseguia me ver. Relaxei um pouco. Só um pouco. A janela era um espelho unidirecional. As mãos dele faziam pressão contra o vidro, e ele lançava olhares frenéticos de um lado para o outro, para os rostos que sabia que estavam lá, mas não conseguia ver.
— Por favor — ele gritava. — Me deixem sair! Por favor, me deixem sair daqui!
Keith parecia mais magro do que na última vez em que o tinha visto. Seu cabelo estava desgrenhado e parecia não ter sido cortado recentemente. Vestia um macacão igual ao de prisioneiros ou doentes mentais, cuja cor cinza me lembrava do concreto do corredor. O que mais me chamou atenção foram o pavor e o desespero em seus olhos — ou melhor, em seu olho. Keith havia perdido um dos olhos num ataque vampiro que eu, secretamente, havia ajudado a orquestrar. Nenhum alquimista sabia disso, assim como nenhum deles sabia que Keith havia violentado Carly, minha irmã mais velha. Duvido que Tom Darnell teria elogiado minha “dedicação” se soubesse da minha vingança particular. Vendo o estado em que Keith se encontrava naquele momento, me senti um pouco mal por ele e especialmente mal por Tom, que carregava uma expressão cheia de dor. Ainda assim, não me sentia mal pelo que havia feito contra Keith. Nem a prisão, nem o olho. Resumindo, Keith Darnell era uma pessoa ruim.
— Você certamente reconhece Keith — disse uma alquimista com prancheta, cujo cabelo grisalho estava preso em um coque firme.
— Sim, senhora — respondi.
Fui poupada de fazer qualquer outro comentário quando Keith bateu no vidro com sua fúria renovada.
— Por favor! Estou falando sério! O que vocês quiserem! Faço qualquer coisa. Digo qualquer coisa. Acredito em qualquer coisa. Mas, por favor, não me mandem de volta para lá!
Tom e eu tivemos um sobressalto, mas os demais alquimistas apenas observaram com um distanciamento clínico e rabiscaram algumas anotações em suas pranchetas. A mulher de coque voltou a olhar para mim como se nada tivesse acontecido.
— O jovem sr. Darnell tem passado o tempo em um de nossos centros de reeducação. Uma medida lamentável, mas necessária. O tráfico de bens ilícitos foi sem dúvida errado, mas a colaboração com os vampiros é imperdoável. Ainda que ele alegue não ter nenhuma relação com eles... bem, nós realmente não temos como comprovar. Mesmo que ele esteja falando a verdade, ainda é possível que essa transgressão se transforme em alguma coisa maior, não apenas uma colaboração com os Moroi, mas também com os Strigoi. O que temos feito o mantém longe desse terreno perigoso.
— É realmente para o bem dele — disse outro alquimista com prancheta. — Estamos fazendo um favor a ele.
Uma sensação de terror tomou conta de mim. O objetivo dos alquimistas era esconder dos humanos a existência dos vampiros. Acreditávamos que eles eram criaturas abomináveis e não deveriam ter qualquer relação com humanos como nós. Nossa preocupação principal eram os Strigoi — vampiros assassinos perversos —, que poderiam ludibriar a humanidade e escravizá-la com promessas de imortalidade. Mesmo os pacíficos Moroi e seus correspondentes semi-humanos, os dampiros, eram vistos com desconfiança. Trabalhávamos muito com estes dois últimos grupos e, apesar de terem nos ensinado a tratá-los com desprezo, era inevitável que alguns alquimistas não apenas se aproximassem dos Moroi e dos dampiros... mas também acabassem gostando deles.
O estranho era que, apesar do crime de vender sangue de vampiro, Keith era uma das últimas pessoas que eu imaginaria tendo um relacionamento amigável com eles. Foram várias as vezes em que ele deixou sua aversão aos vampiros muito clara para mim. Na verdade, se alguém merecia ser acusado de simpatizar com vampiros...
... bem, esse alguém era eu.
O outro alquimista, um homem com óculos escuros espelhados habilmente pendurados no colarinho, deu sequência ao discurso:
— Você, srta. Sage, é um exemplo excepcional de alguém capaz de trabalhar muito com eles e manter a objetividade. Sua dedicação não passou despercebida por nossos superiores.
— Obrigada, senhor — respondi pouco à vontade, me perguntando quantas vezes teria de ouvir a palavra “dedicação” naquela noite. Era uma grande diferença em relação a alguns meses antes, quando entrei numa enrascada por ajudar uma dampira fugitiva a escapar. Ela acabou sendo absolvida e meu envolvimento foi descartado e entendido como “ambição de carreira”.
— E — continuou o sr. Óculos Escuros —, considerando sua experiência com o sr. Darnell, pensamos que seria a pessoa ideal para nos dar um depoimento.
Voltei a prestar atenção em Keith. Ele esteve esmurrando e gritando quase ininterruptamente por todo aquele tempo. Os demais tinham conseguido ignorá-lo, então tentei fazer o mesmo.
— Um depoimento sobre o quê?
— Estamos considerando se devemos ou não levá-lo de volta à reeducação — explicou a sra. Coque Grisalho. — Ele teve um progresso excelente lá, mas alguns acham que é melhor prevenir até termos certeza de que toda e qualquer simpatia pelos vampiros tenha sido erradicada.
Se aquele comportamento de Keith era um “progresso excelente”, não conseguia imaginar como seria um progresso ruim.
O sr. Óculos Escuros segurou a caneta acima da prancheta.
— Com base no que você presenciou em Palm Springs, srta. Sage, qual é a sua opinião sobre o estado mental do sr. Darnell no que concerne aos vampiros? O vínculo que você presenciou era grave o bastante para justificar outras medidas cautelares?
Supus que “outras medidas cautelares” significavam mais reeducação.
Enquanto Keith continuava a bater com força no vidro, todos os olhos na sala se voltaram para mim. Os alquimistas com pranchetas pareciam atentos e curiosos. Tom Darnell suava visivelmente, observando-me com medo e expectativa. Era compreensível. O destino do filho dele estava nas minhas mãos.
Emoções conflitantes se contorciam dentro de mim enquanto eu observava Keith. Não é que eu não gostasse dele — eu o odiava. E eu não odiava muita gente. Não conseguia perdoá-lo pelo que tinha feito com Carly. Além disso, as lembranças do que ele fizera contra mim e contra outras pessoas em Palm Springs ainda estavam vívidas na minha memória. Ele havia me difamado e tornado minha vida um inferno para tentar acobertar seu esquema de tráfico de sangue. Além disso, tratava de maneira abominável os vampiros e dampiros de quem deveríamos cuidar. Essa atitude me fazia questionar quem eram os verdadeiros monstros.
Não fazia ideia do que realmente acontecia nos centros de reeducação. A julgar pela reação de Keith, parecia ser bem terrível. Parte de mim adoraria dizer aos alquimistas que era melhor mandá-lo de volta por anos a fio e nunca mais deixá-lo ver a luz do sol. Os crimes dele mereciam uma punição cruel — mas, apesar disso, eu não tinha certeza se mereciam aquela punição em particular.
— Acho... acho que Keith Darnell é perverso — disse por fim. — Ele é egoísta e imoral. Não se preocupa com os outros e prejudica as pessoas para favorecer a si mesmo. Está disposto a mentir, manipular e roubar para conseguir o que quer. Mas... — hesitei antes de continuar — não acredito que ele tenha perdido a noção do que os vampiros são. Não acho que seja tão íntimo deles ou que possa se aliar a eles no futuro. Dito isso, também não acho que deva ser permitido que ele volte ao trabalho alquimista num futuro próximo. Cabe a vocês decidir se isso significaria trancafiá-lo ou apenas deixá-lo em liberdade assistida. Seu histórico mostra que ele não leva nossas missões a sério, mas isso é por egoísmo. Não por uma relação anormal com eles. Ele... bem, para ser sincera, é só uma pessoa ruim.
Recebi um silêncio em resposta, acompanhado pelo escrevinhar frenético das canetas enquanto os alquimistas faziam suas anotações. Ousei olhar na direção de Tom, com medo do que veria depois de ter falado tão mal do filho dele. Para minha surpresa, Tom parecia... aliviado. E agradecido. Na verdade, parecia prestes a chorar. Quando seus olhos encontraram os meus, ele murmurou um obrigado. Impressionante. Eu tinha acabado de afirmar que Keith era um ser humano horrível em todos os aspectos possíveis. Mas nada daquilo importava para o pai, desde que eu não acusasse Keith de se aliar aos vampiros. Eu poderia ter chamado Keith de assassino e é provável que mesmo assim Tom agradecesse, caso significasse que Keith não era íntimo demais do inimigo.
Aquilo me incomodou e voltei a me perguntar quem eram os verdadeiros monstros naquela situação. O grupo que havia deixado em Palm Springs era cem vezes mais digno do que Keith.
— Obrigada, srta. Sage — a sra. Coque Grisalho disse, terminando suas anotações. — Você ajudou muito. Levaremos seu depoimento em consideração quando tomarmos nossa decisão. Pode ir agora. Você encontrará Zeke no corredor, esperando para levá-la embora.
Foi uma dispensa abrupta, mas era algo típico dos alquimistas. Eficientes. Diretos ao ponto. Me despedi com um aceno educado e dei uma última olhada em Keith antes de sair. Assim que fechei a porta atrás de mim, o corredor ficou num silêncio misericordioso. Não conseguia mais ouvir Keith.
Zeke, como descobri, era o mesmo alquimista que me acompanhou quando cheguei.
— Tudo pronto? — perguntou.
— Parece que sim — respondi, ainda um tanto atordoada pelo que havia acabado de acontecer. Agora eu sabia que o relatório anterior sobre minha missão em Palm Springs fora apenas uma maneira de aproveitar a oportunidade. Já que eu estava na região, por que não fazer uma reunião pessoalmente? Não era algo essencial.
Ver Keith tinha sido o verdadeiro objetivo para eu cruzar o país.
Ao caminharmos de volta pelo corredor, uma coisa que eu não tinha notado antes chamou minha atenção. Uma das portas tinha vários dispositivos de segurança, bem mais do que a sala em que eu estivera. Além das luzes e do teclado, havia também um leitor de cartão. Acima da porta, um fecho que se travava por fora. Nada luxuoso, mas estava claro que todo aquele aparato pretendia manter bem preso o que quer que estivesse atrás da porta.
Parei involuntariamente e examinei a porta por alguns segundos. Depois segui andando, sabendo que era melhor não dizer nada. Bons alquimistas não faziam perguntas.
Ao notar meu olhar, Zeke se deteve. Olhou para mim, depois para a porta, e então de volta para mim.
— Você... quer saber o que tem aí dentro?
Lançou um olhar rápido para a porta de onde eu tinha acabado de sair. Estava claro que ele era do baixo escalão e tinha medo de arrumar problemas com seus superiores. Ao mesmo tempo, havia nele uma ansiedade que sugeria um entusiasmo pelos segredos que guardava, segredos que não podia revelar às outras pessoas. Eu seria um meio seguro de dar vazão a eles.
— Depende do que tem aí — respondi.
— É a razão do nosso trabalho — ele respondeu, misterioso. — Dê uma olhada e vai entender por que nossos objetivos são tão importantes.
Decidindo correr o risco, ele passou um cartão na leitora e digitou outro longo código. A luz na porta ficou verde e ele abriu o fecho. Eu estava esperando outra sala mal iluminada, mas a luz ali dentro era tão intensa que tive que proteger os olhos com a mão.
— É um tipo de banho de luz — Zeke explicou, em tom de desculpas. — Sabe as lâmpadas bronzeadoras que as pessoas usam em regiões muito nubladas? É o mesmo tipo de raio. A esperança é que faça com que pessoas como ele voltem a parecer um pouco mais humanas ou, pelo menos, deixem de achar que são Strigoi.
A princípio, minha visão estava ofuscada demais para entender o que ele queria dizer. Até que vi uma cela do outro lado da sala vazia. Grandes barras de metal cobriam a entrada, trancada com outra leitora de cartões e outro teclado. Quando vi o homem dentro dela, me pareceu um exagero. Ele era mais velho do que eu — chutaria uns vinte e poucos anos — e tinha uma aparência tão desmazelada que fazia Keith parecer limpo e asseado. O homem esquelético estava encolhido em um canto, com os braços cobrindo os olhos para se proteger da luz. Tinha algemas nas mãos e nos pés, e estava claro que não iria a lugar nenhum. Ao entrarmos, atreveu-se a olhar para nós, revelando mais de seu rosto.
Senti um calafrio. Ele era humano, mas sua expressão era tão fria e perversa como a de qualquer Strigoi que eu já tinha visto. Seus olhos cinzentos eram predadores. Sem emoções, como um assassino sem compaixão alguma pelas pessoas.
— Trouxe o jantar? — perguntou com uma voz rouca que só podia ser forçada. — Uma linda garotinha, hein. Preferia que não fosse tão magra, mas tenho certeza de que o sangue dela é suculento mesmo assim.
— Liam — Zeke disse, com a paciência prestes a se esgotar —, você sabe onde está seu jantar.
Apontou para uma bandeja de comida intacta, que parecia estar fria havia muito tempo. Nuggets, vagem e um biscoito.
— Ele quase não come nada — Zeke explicou. — Por isso está tão magro. Insiste em querer beber sangue.
— O que... o que ele é? — perguntei, sem conseguir tirar os olhos de Liam.
Era uma pergunta boba, claro. Liam era visivelmente humano, mas... alguma coisa nele não estava certa.
— Uma alma corrompida que quer ser Strigoi — Zeke respondeu. — Alguns guardiões o encontraram servindo àqueles monstros e o trouxeram até nós. Estamos tentando reabilitá-lo, mas sem sucesso. Só fica repetindo que os Strigoi são grandiosos e que vai voltar para eles um dia e se vingar de nós. Enquanto isso, tenta com todas as forças fingir que é um deles.
— Ah — Liam disse, com um sorriso malicioso —, eu serei um deles. E eles vão me recompensar por minha lealdade e meu sofrimento. Vão me despertar e me conferir um poder muito maior do que vocês, mortais insignificantes, já ousaram sonhar. Viverei para sempre e virei atrás de vocês, de todos vocês. Vou me banquetear com seu sangue e saborear até a última gota. Vocês, alquimistas, mexem seus pauzinhos e acham que controlam tudo. Pura ilusão. Não controlam nada. Não são nada.
— Está vendo? — Zeke apontou, balançando a cabeça. — Patético. Mas é o que poderia acontecer se não fizéssemos nosso trabalho. Outros humanos poderiam se tornar como ele, vendendo a alma em troca da promessa vazia de imortalidade — afirmou e fez o sinal dos alquimistas contra o mal, uma pequena cruz sobre o ombro, que, sem perceber, imitei. — Não gosto de entrar aqui, mas, às vezes... às vezes é bom para lembrar por que tentamos manter os Moroi e os demais nas sombras. E por que não podemos nos deixar levar por eles.
No fundo, eu sabia que existia uma diferença gigantesca na maneira como os Moroi e os Strigoi interagiam com os humanos. Ainda assim, ali, diante de Liam, eu não conseguia encontrar argumentos para explicá-la. Ele me deixara muda — e assustada. Na presença daquele homem, era fácil acreditar em todas as palavras que os alquimistas diziam. Era contra aquilo que lutávamos. Era aquele pesadelo que não podíamos deixar acontecer.
Não sabia o que dizer, mas Zeke não parecia esperar muito.
— Certo, vamos. — E, para Liam, acrescentou: — É melhor você comer essa refeição aí, porque não vai receber mais nada até amanhã de manhã. Não me importa que esteja fria e dura.
— Por que devo me importar com alimentos humanos se logo mais beberei do néctar dos deuses? — disse, estreitando os olhos. — Sentirei seu sangue ainda quente nos meus lábios; o seu e o da garotinha bonita.
Então começou a rir, um som muito mais perturbador do que os gritos de Keith.
A gargalhada continuou enquanto Zeke me levava para fora da sala. Quando fechou a porta atrás de nós, fiquei paralisada no corredor, estarrecida. Zeke me olhava preocupado.
— Desculpe... Acho que não deveria ter mostrado isso para você.
Balancei a cabeça devagar.
— Não... você estava certo. É bom vermos isso. Para entender a importância do que estamos fazendo. Eu sempre soube, mas... jamais esperava uma coisa assim.
Tentei desviar meus pensamentos para as coisas do dia a dia e tirar aquele horror da cabeça. Voltei os olhos para o café. Não tinha sequer tocado nele, e acabara esfriando. Fiz uma careta.
— Posso pegar mais café antes de irmos?
Precisava de alguma coisa normal. Alguma coisa humana.
— Claro.
Zeke me levou de volta ao saguão. A jarra que eu havia preparado na cafeteira ainda estava quente. Joguei o café do meu copo fora e me servi um pouco mais. Enquanto isso, a porta se abriu de repente e por ela entrou Tom Darnell, visivelmente abalado. Ele pareceu surpreso ao perceber que a sala não estava vazia e desviou de nós, sentando no sofá e colocando a cabeça entre as mãos. Zeke e eu trocamos olhares hesitantes.
— Sr. Darnell — arrisquei —, o senhor está bem?
Ele não respondeu imediatamente. Manteve a cabeça entre as mãos; seu corpo tremia com soluços mudos. Eu estava prestes a sair quando ele levantou os olhos para mim, embora eu tivesse a sensação de que, na verdade, ele não estava me vendo.
— Eles decidiram — ele disse. — Decidiram o que vão fazer com Keith.
— Já? — perguntei, surpresa. Zeke e eu tínhamos passado apenas cinco minutos com Liam.
Tom assentiu, melancólico.
— Vão mandá-lo de volta... para a reeducação.
Não pude acreditar.
— Mas eu... eu disse a eles! Disse que ele não estava se aliando aos vampiros. Ele acredita... no que todos nós acreditamos. Só fez algumas escolhas erradas.
— Eu sei. Mas eles disseram que não podemos correr o risco. Mesmo que Keith pareça não se importar com os vampiros, mesmo que acredite que não se importa, o fato é que ele fez um acordo com um deles. Eles temem que a disposição dele para esse tipo de parceria possa influenciá-lo de maneira inconsciente. É melhor resolver tudo agora. Eles devem... devem estar certos. É para o bem de todos nós.
A imagem de Keith batendo contra o vidro e implorando para não voltar passou pela minha cabeça.
— Sinto muito, sr. Darnell.
O olhar perturbado de Tom se focou um pouco em mim.
— Não sinta, Sydney. Você já fez muito... muito por Keith. Graças ao que você disse eles irão reduzir a pena na reeducação. Isso significa muito para mim. Obrigado.
Senti um embrulho no estômago. Por minha culpa, Keith havia perdido um olho. Por minha culpa, tinha ido parar na reeducação pela primeira vez. O mesmo sentimento voltou a tomar conta de mim: ele merecia sofrer de alguma forma, mas não daquela.
— Eles tinham razão sobre você — Tom acrescentou, tentando sorrir sem sucesso. — Você é um exemplo excepcional. Tão dedicada! Seu pai deve estar muito orgulhoso. Não sei como consegue conviver com aquelas criaturas e, ainda assim, manter a cabeça no lugar. Outros alquimistas poderiam aprender muito com você. Você entende o verdadeiro significado da responsabilidade e do dever.
Desde que partira de Palm Springs, no dia anterior, vinha pensando muito sobre o grupo que deixara para trás — a não ser, é claro, quando os alquimistas me distraíam com os prisioneiros. Jill, Adrian, Eddie, e até mesmo Angeline... Por mais frustrante que às vezes fosse, eram pessoas que se tornaram próximas e com quem eu me importava, no final das contas. Apesar de toda a correria por causa deles, sentia falta daquele grupo heterogêneo desde o segundo que deixei a Califórnia. Eu me sentia vazia quando eles não estavam por perto.
Aquela sensação me deixava desnorteada. Será que eu estava confundindo os limites entre amizade e dever? Se Keith ficara em maus lençóis por uma pequena associação com um vampiro, o que dizer de mim? Será que algum de nós estava perto de ficar como Liam?
As palavras de Zeke ecoaram na minha cabeça: “Não podemos nos deixar levar por eles”.
E o que Tom acabara de dizer: “Você entende o verdadeiro significado da responsabilidade e do dever”.
Ele me olhava com expectativa; consegui esboçar um sorriso enquanto afastava meus medos.
— Obrigada, senhor — respondi. — Faço o que posso.

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