22 de setembro de 2017

Prólogo - Amadurecimento

Seth se agachou para dar uma olhada no rosto da mortal que tremia a seus pés. Tinha sido um acidente – um acidente maravilhoso, terrível, incrível. A euforia e o horror se retorciam em seu interior a ponto de ele se sentir quase fisicamente doente com o turbilhão emocional causado pelo que tinha feito.
Pelo que ele... era.
Séculos tinham se passado sem nenhum sinal de que Seth algum dia iria dominar os próprios poderes. Osíris  alto e bonito, com o maxilar bem talhado e o sorriso fácil, o herói preferido de todos – ostentava suas habilidades desde garotinho. Ísis  a irmã linda, gloriosa e distante de Seth  era em todos os aspectos a deusa perfeita e intocável. Se Seth tivesse uma fração que fosse de sua capacidade de lançar feitiços e manipular a magia, agradeceria às estrelas e ficaria satisfeito com a parte que lhe cabia.
Até Néftis, por mais discretos que fossem seus poderes, tinha desenvolvido certo talento como vidente e a capacidade de traduzir as mensagens das estrelas muito antes dele.
Não era justo.
Seth ficou ali parado com os punhos cerrados ante esse pensamento, ignorando a mulher que se contorcia prostrada à sua frente.
Ele era o último filho. O mais novo. Não era culpa sua que as Águas do Caos já estivessem quase vazias quando nasceu; no entanto, era ele quem pagava o preço. Enquanto seus irmãos aprenderam a aperfeiçoar suas habilidades desde crianças e passavam as noites se exibindo uns para os outros, tudo que lhe restava era ficar observando, cheio de inveja, com o peito apertado e os dentes cerrados, imaginando quando, ou mesmo se um dia, encontraria seu lugar no universo.
Durante a adolescência desajeitada  que para os deuses era éons mais longa do que para os mortais, visto que seu ciclo de vida está mais para o das estrelas  ele havia treinado com determinação ao longo de dias e semanas seguidas, sem nunca parar para se alimentar nem descansar, até desabar de exaustão e se afundar no vale do peito do pai em busca de uma trégua. Ele tinha esperança de que o pai pelo menos reconhecesse seus esforços, talvez notasse o suor pungente que lhe escorria pela nuca e pelo rosto vermelho acalorado. Mas o deus da terra não ligava para essas coisas e, na realidade, considerava a dolorosa ausência de progresso do filho caçula algo bem menos do que digno de um deus.
Quando Seth reclamava e implorava por uma audiência, seu pai, Geb, respondia com um mero tremor de terra, isso quando se dava ao trabalho de responder. Aos poucos, Seth parou de procurar sua orientação.
Em seguida, voltou os olhos para os céus e implorou para a mãe, que olhou lá de cima para ele, as nuvens de seu cabelo se agitando. Não havia nada que ela pudesse fazer para confortá-lo, a não ser oferecer suas lágrimas. Gotas salgadas caíam e ele logo se via no meio de uma poça do pesar dela. Não. Geb e Nut não iriam ajudá-lo.
Uma vez, ele procurou o avô em busca de conselhos. Mas Shu, o deus do ar, só lhe disse que parasse de reclamar e se transformasse logo no deus que era. Se não conseguia fazer isso, devia se espelhar no comportamento do irmão mais velho, Osíris. E, para completar suas observações, Shu mandou uma ventania forte para secar as lágrimas do jovem Seth; no entanto, o vento quente o carregou até o outro lado da Terra antes que ele conseguisse reunir força suficiente para resistir ao poderoso empurrão de seu ancestral.
Não demorou muito para que parasse de procurar qualquer ajuda. Com o tempo, Seth deixou de buscar a companhia de seus parentes mais velhos e passou a ignorar os chamados deles para que participasse das arrastadas reuniões do recém-organizado Ennead.
Que importância tinham para ele as dificuldades dos mortais ou o governo do cosmos? O que esse mesmo cosmos tinha feito por ele? Além do mais, ele não suportava os olhares de pena das irmãs ou, pior, a expressão alvoroçada de prazer de ambas sempre que Osíris agraciava os salões de Heliópolis com sua presença.
Aliás, Seth só tinha visitado Heliópolis nos últimos cem anos para observar Ísis. Seth havia passado muitas e longas noites recostado entre as folhas dos galhos da árvore que roçava a janela dela. Ela quase sempre estava fora, dando conta de uma ou outra tarefa que o senhor de todos os deuses, Amon-Rá, lhe atribuíra. Quando era assim, Seth abandonava a árvore, decepcionado, com um torcicolo desagradável que não deveria incomodar nenhum deus que se prezasse. Mas, de vez em quando, sua paciência era recompensada e ele conseguia avistar a princesa de gelo sem empecilhos enquanto ela se preparava para dormir.
No começo, ele a espiava para tentar aprender seus segredos, memorizar os feitiços que ela criava e treinava antes de ir para a cama. Mas logo descobriu que, independentemente de quanto fosse meticuloso ou da precisão com que copiasse o feitiço, ele simplesmente não conseguia praticar a magia do mesmo jeito que ela. Ainda assim, ele se sentia atraído pela princesa e se via diante da janela dela com frequência.
Ísis era fria, linda e extraordinária. Seth a considerava a mais bem dotada entre os irmãos. Ali, acomodado sem conforto, noite após noite, ele imaginava que pudesse tomar as habilidades dela para si. Distorceria a magia dela e a adequaria aos próprios fins. Então ninguém mais o olharia com pena nem faria caretas ao ver suas tentativas frustradas de manipular a matéria. Não se ele tivesse os dons de Ísis à sua disposição.
No começo, Seth imaginava tomar o poder de Ísis. Depois, à medida que o tempo foi passando e ele se tornou adulto, suas fantasias se distorceram. Ele passou a alimentar sua obsessão claramente doentia e anormal por Ísis, a ponto de ignorar as próprias necessidades físicas. Passar fome era doloroso, mas isso não iria matá-lo, e os outros ou não se incomodavam com isso ou nem reparavam nas manchas escuras sob seus olhos ou nos cabelos ralos. E, de qualquer forma, ninguém prestava a menor atenção nele quando Osíris estava por perto.
Empoleirado nas sombras de sua árvore, observando-a escovar os cabelos, ele convocou uma levíssima brisa  algo tão insignificante que nem chegava a ser considerado um talento, mas que, no entanto, exigia muita energia dele  para lhe trazer o perfume do delicado pescoço dela. A fragrância disparou na direção de sua mão e ele a capturou e a manteve perto do rosto até que se dissipasse, horas mais tarde.
Então, entregando-se ao objeto que mantinha escondido durante o dia, Seth pegava a pena que tinha tirado da banheira dela e a acariciava, passando o polegar pela pluma macia em movimentos contínuos e vagarosos enquanto pensava na dona da pena. Quando Ísis finalmente caía no sono, ele se acomodava o mais confortável possível e continuava em sua vigília silenciosa, permitindo que seus pensamentos secretos e obscuros tomassem forma e fincassem raízes vacilantes na própria mente.
Se ele tivesse mais segurança, teria feito algo a respeito de seus sentimentos anos antes. Teria confrontado Ísis, mostrado que Osíris não era digno da atenção que ela lhe dedicava. Que o desejo verdadeiro era bem mais que um sorriso charmoso e ombros largos.
Não.
O desejo verdadeiro era o tremor que ele, Seth, sentia nas pernas quando olhava para ela, a necessidade de absorvê-la completamente. De criar um mundo onde só existissem os dois, em que pudessem ocupar seu lugar apropriado de rei e rainha do cosmos e ter todos os outros ajoelhados a seus pés, adorando-os. Era isso que ele imaginava quando olhava para Ísis. Não havia mais nenhuma mulher que fosse digna dele.
Principalmente agora que ele tinha domado seu poder. Apesar de toda a exaustão, da ansiedade e do medo que o paralisavam por ter demorado tanto tempo a domá-lo, Seth percebeu que todo o esforço tinha valido a pena. Porque sua habilidade era a mais terrível e mais fantástica de todas: ele tinha o poder de desfazer.
Isso foi comprovado pela forma como a mulher se contorcia no chão. Seth tinha se irritado com os choramingos histéricos dela. Ele havia ateado fogo na plantação de trigo da mulher, sobretudo porque sabia que Osíris estivera ali no último ano e ficara falando a todos sobre a necessidade de cultivar e colher o próprio alimento.
Ver a evidência das pequenas e maduras habilidades de Osíris com as plantas – na opinião de Seth, tristes, ridículas e inúteis – o deixara irritado, por isso ele resolvera queimar a plantação. Talvez tenha sido por mesquinhez, talvez por inveja. De todo modo, aquilo iria magoar o garoto de ouro favorito de Amon-Rá. Além disso, Seth também gostava de ver os animais correndo na tentativa de fugir da fumaça e das chamas. Gostava de saber que as subcriaturas temiam a ele e ao seu poder. E usar sua recém-descoberta habilidade para atrapalhar o irmão fazia com que se sentisse bem, superior.
Foi então que a mulher apareceu. Ela veio correndo de sua casinha e se jogou aos pés de Seth, envolvendo-lhe as pernas com os braços grossos. O rosto redondo dela estava vermelho e inchado e ela implorava por misericórdia, pedindo ao “deus poderoso” que salvasse seu marido, que naquele momento fazia a colheita na plantação.
Quando Seth a ignorou e a empurrou para longe com um gesto brusco, ela exclamou que ele devia ser aquele de quem tinha ouvido falar, o “deus impotente”. Ela elevou a voz aos céus, lamentando-se e clamando para que Osíris a ajudasse.
O fato de uma mortal ter a ousadia de chamá-lo de impotente deixou Seth chocado e, ironicamente, imóvel. Mas rapidamente foi tomado por uma fúria que cresceu dentro de si. Qualquer compaixão que pudesse ter sentido antes pela mulher, por mais improvável que fosse, derreteu-se no calor de sua ira.
Seth normalmente não sentia nada pelas criaturas mortais sobre as quais Amon-Rá e os outros estavam sempre falando. Com o nome de Osíris ainda nos lábios da mulher, Seth a agarrou pelo pescoço, ergueu-a do chão e a sacudiu.
— Você vai parar com essa lamúria imediatamente! — Como ela não parou, ele a jogou no chão e gritou: — Pelos deuses, eu queria que os céus apagassem o seu rosto da minha visão!
Os gritos dela logo cessaram e a única coisa que se escutava eram os balidos dos animais e o crepitar do trigo que queimava. A mulher tinha se encolhido, ficando de quatro. Seu corpo todo se sacudia, mas nenhum som vinha dela.
Enfiando a ponta da bota sob o seu corpanzil, ele a empurrou para o lado, fazendo-a rolar. Seth então arquejou. No lugar onde antes havia um nariz adunco, lábios pálidos e finos e olhos muito próximos, ele agora só via uma forma oval vazia. Uma pele lisa feito a casca de um pêssego maduro se estendia no lugar onde devia haver um rosto.
As mãos da mulher se lançaram àquela pele onde antes ficavam a boca e o nariz, arranhando. Mas, como se um interruptor tivesse sido acionado, seu corpo se sacudiu e então ela desabou, morta. Sem boca nem nariz, não tinha como respirar. Seth ergueu a cabeça, chocado, fascinado e nauseado. Será que ele tinha feito aquilo?
Só para ter certeza, ergueu a mão e a estendeu sobre o pé da mulher, desejando que desaparecesse.
De repente, o pé, incluindo a bota enlameada que ela estava usando, evaporou no ar, deixando apenas um cotoco na ponta da perna. Em rápida sucessão, Seth desfez uma cobra que se esgueirava do meio do trigo em chamas. Em seguida, vários ratos desapareceram. Então ele saiu correndo, desfazendo animais, tanto por inteiro quanto em partes.
Fez pedras e árvores desaparecerem com um gesto da mão. E, quando deparou com a forma moribunda do camponês queimado, o marido da mulher que agora estava morta e sem rosto, Seth o desfez, pedacinho por pedacinho.
Resolveu deixar apenas o torso e a cabeça do homem para saber exatamente quanto podia tirar de um mortal prolongando sua vida cheia de dor.
Agora ele estava pronto. Agora estava completo. Seu poder finalmente tinha chegado. E era maior do que jamais esperara.
Nada. Ninguém. Poderia desafiá-lo agora.
O mundo, o cosmos, estava pronto para ser saqueado, e sua primeira parada era a beleza que o assombrava.
Ísis era uma fruta madura pendurada em um galho baixo — suculenta, carnuda, implorando para ser consumida. E Seth nunca tivera tanta fome.

3 comentários:

  1. C.a.r.a.c.a.s
    - Capital da Venezuela

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  2. O homenzinho amargurado hein....

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  3. Já li os outros dois e estava ansiosa para ler esse.

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Boa leitura :)