20 de setembro de 2017

Capítulo um

SHERLOCK HOLMES INCLINOU-SE para frente em seu assento, fascinado, enquanto o jovem no palco levava seu violino até o ombro, apoiava o queixo no instrumento e erguia o arco até este pairar acima das cordas. A luz cintilante das lâmpadas à gás que beiravam o palco iluminou o violinista com sombras dançantes, fazendo parecer que cem expressões diferentes passavam por seu rosto em alguns instantes.
A audiência parecia tensa. Por um longo momento teria sido possível escutar um lenço caindo no chão de tão silencioso que estava teatro, mas então ele começou a tocar.
A primeira nota cresceu do nada até preencher o auditório. Era pura e requintada, o tipo de nota que Sherlock teria dado um ano de sua vida para poder tocar. Parecia-lhe quase impossível que algo feito de madeira e crina de cavalo, interpretado por alguém humano e falível, pudesse ser tão próximo da perfeição.
— Ele está tocando um Stradivarius — Rufus Stone sussurrou ao lado de Sherlock, mas a atenção do rapaz estava fixa sobre o jovem no palco, e ele mal registrou as palavras do amigo e tutor. Concentrou-se na música, na sucessão de notas e acordes que emanavam do pequeno palco como se fossem algo absolutamente real e o teatro e o público fossem insubstanciais. Sherlock nunca tinha imaginado que era possível tocar o violão que lindamente.
Nos próximos quarenta e cinco minutos, Sherlock ouviu, inconsciente de qualquer coisa ao seu redor, mal respirando, já que o violinista tocava uma sucessão de peças. Uma ou duas Sherlock reconheceu de seus próprios exercícios, algumas danças espanholas e algumas melodias bem conhecidas das óperas, mas muitas eram novas para ele. Ele suspeitava que o homem tivesse feito as composições sozinho, ele parecia tão confortável tocando. Algumas músicas eram tão complexas e lindas, exigiam que a mão esquerda do violinista se movesse ao longo do braço do instrumento tão rápido que ela se parecia com um borrão.
Depois de um tempo, ele percebeu que seu irmão, Mycroft, sentado do seu outro lado, movia-se em seu assento de estofamento cheio. Era bastante pequeno para ele em primeiro lugar, e seus cotovelos empurravam o braço de Sherlock e o do homem ao lado dele. Sherlock podia ouvi-lo sussurrar de vez em quando, como se estivesse inconscientemente tentando enviar um sinal a todos ao redor de sua infelicidade e de seu desejo de estar em outro lugar. Ou talvez não fosse inconsciente. Talvez Mycroft soubesse exatamente o sinal que estava enviando para as pessoas cada vez mais irritadas em volta, e simplesmente não se importava.
Depois de uma sequência particularmente difícil de notas que o violinista tocou como se não fossem nada, a primeira metade do concerto terminou. O músico fez uma referência para os aplausos entusiasmados, e a cortina desceu.
— Graças a Deus — murmurou Mycroft. — Eu estava começando a pensar que eu tinha morrido e fui para o inferno. Quem você disse que esse jovem violinista era?
Sherlock olhou para Rufus Stone. A expressão no rosto de Stone estava em algum lugar entre diversão e indignação.
— Seu nome é Pablo Sarasate — disse Stone com uma voz cuidadosamente controlada. — Ele é espanhol, tem vinte e seis anos e provavelmente é o violinista mais conhecido desde Niccolò Paganini.
— Humf! — Mycroft resmungou. — Eu preferiria uma banda de música no parque. A música seria mais melodiosa a meus ouvidos.
— E as cadeiras seriam mais complacentes para a sua... — Stone hesitou. Sherlock simpatizou, Mycroft era tecnicamente o chefe de Stone — ... para a sua posição natural. — Stone terminou suavemente.
— Sinto a necessidade de uma grande taça de vinho seco — Mycroft disse como se Stone não tivesse falado. — Acha que podemos ter tempo para visitar o bar durante esta pausa bem-vinda da preparação no palco?
Stone estremeceu e abriu a boca para dizer algo cortante, mas Sherlock respondeu primeiro.
— Acho que seria uma boa ideia.
Stone pegou o cotovelo de Sherlock enquanto faziam o caminho ao longo da fila de assentos para o corredor.
— Seu irmão será a minha morte — ele sibilou. — Se não for por causa das perigosas tarefas secretas a que ele me atribui, será porque lhe darei um soco na cara se ele continuar a dizer sobre o quanto odeia esta música por muito mais tempo.
— Eu nem sei por que ele quis vir — falou Sherlock. — Este não é o tipo de coisa que ele normalmente gosta.
— Ele me disse que queria conversar conosco em um ambiente confortável e informal.
— Mesmo assim... — Sherlock olhou ao redor do auditório. — Deve ter havido algo mais do que isso.
Stone fez uma careta.
— Talvez eu tenha dito a ele que estava levando você ao teatro sem ser específico sobre o que veríamos. Olhando para trás, seu irmão pode ter pensado que iríamos para uma peça de teatro, em vez de um concerto.
— Ele gosta de um bom drama — admitiu Sherlock. — Ele me disse uma vez que o Hamlet de Shakespeare lhe ensinou tudo o que precisava para saber sobre a política escandinava.
Já estavam no corredor, indo em direção ao bar.
— O que você achou do concerto? — Stone perguntou.
— Incrível. — Sherlock fez uma pausa por um momento, lembrando os sentimentos que derramaram sua mente enquanto o violinista tocava. — A técnica dele é perfeita.
— Ele será famoso — confirmou Stone. — Apenas fique feliz por tê-lo visto no início da carreira.
Eles chegaram ao bar. Mycroft passou pela multidão como um galeão que atravessava mares agitados. Dentro de alguns minutos, eles estavam todos instalados em uma janela que se projetava para fora e bebiam suas bebidas.
Mycroft tomou um gole de xerez e fez uma careta.
— Se isso é seco, o Tâmisa é árido e empoeirado em comparação. — Ele balançou a cabeça com pesar. — Isto é o que acontece quando se deixa os ambientes confortáveis do escritório, do próprio clube e dos quartos. O mundo se torna imprevisível. — Ele olhou para Sherlock e Stone. — Acredito que não voltarei para a segunda metade do recital. Não consigo imaginar que a música se tornará mais sombria ou meu assento, mais confortável. No entanto, desejo dizer algo antes de sair. — Voltando sua atenção para Sherlock, ele prosseguiu: — Você está em Londres faz um mês agora, desde que voltamos da Irlanda, e precisamos tomar uma decisão sobre o seu futuro. O custo do seu quarto de hotel e sua comida é pequeno, no esquema das coisas, mas não negligenciável. Infelizmente, com a morte de nosso tio Sherrinford, não vejo sentido em você retornar para Farnham.
— E sobre... em casa? — Sherlock perguntou calmamente.
— A situação não mudou. — O rosto de Mycroft era grave. — Nosso pai ainda está no exterior, na Índia com o Exército britânico, e nossa mãe ainda está confinada à cama, fraca demais para se mover. As únicas coisas que passam por seus lábios são ocasionais fatias de torrada e goles de chá fraco. Temo por seu futuro.
— E… nossa irmã?
Mycroft balançou a cabeça.
— Na ausência de qualquer orientação parental, ela, fui informado, caiu sob o feitiço do mais inadequado admirador. Tentei falar com ela sobre isso, mas ela não ouvirá a razão. Não, temo que a mansão da família também não seja um lugar adequado para você.
— Então o que mais há? — Rufus Stone perguntou.
— Você poderia encontrar acomodações para mim aqui em Londres — Sherlock apontou. — Estou acostumado a viver aqui agora. Eu amo essa cidade.
— Você tem quinze anos — Mycroft apontou. — Não deixarei que viva sozinho em uma metrópole tão perigosa.
— Na verdade eu tenho dezesseis anos — Sherlock apontou. — E estou me acostumando a sobreviver e até mesmo ser bem sucedido por mim mesmo. Não preciso de ninguém para cuidar de mim.
— Tem certeza? — Mycroft deu a Sherlock um olhar persistente, indo das pontas dos sapatos de Sherlock até seu último fio de cabelo. — Vejo que tem conspirado com esse amigo em sua bagunçada casa no canal, Matthew Arnatt, que, aparentemente, mudou sua morada aquática para Camden Locks. Vejo também que já visitou muitos mercados em Londres, além de viajar no Tâmisa várias vezes. Durante tais escapadas você entrou — ele parou por um momento, olhando as mãos de Sherlock — em cinco brigas diferentes, e escapou dos problemas pelos telhados em três ocasiões. Também foi detido e interrogado pela polícia oito vezes. É isso o que você quer dizer com "ser bem sucedido"?
Sherlock abriu a boca para dizer algo em sua própria defesa, mas Stone falou primeiro.
— Você pode saber tudo isso apenas olhando as roupas, os sapatos, o rosto e as mãos do seu irmão? — perguntou. — Sr. Holmes, fiquei impressionado com suas deduções antes, mas isso é simplesmente incrível.
Mycroft se endireitou, como um gato grande sendo acariciado. Sherlock não pôde se impedir e disse:
— Ele sabe de tudo porque mandou me seguirem e seus agentes estão lhe dando relatórios diários.
Os lábios de Mycroft franziram em aborrecimento.
— Isso é verdade? — Stone perguntou, desapontado.
— O jovem Sherlock tem o hábito de se meter em problemas — grunhiu Mycroft. — E na ausência do nosso pai, tenho a responsabilidade de me certificar que ele tenha seu aniversário de vinte e um anos saudável de corpo e mente.
— Achei que era eu quem deveria cuidar dele — murmurou Stone, olhando para longe através das janelas para as pessoas na calçada do teatro.
— Você tinha outras coisas para fazer para mim. — Mycroft apontou com um tom de voz que não carregava nenhuma desculpa. — E, além disso, Sherlock o teria reconhecido. Sua capacidade de ver através de disfarces melhorou acentuadamente nos últimos dois anos. — Ele olhou para Sherlock e levantou uma sobrancelha. — Estou, confesso, em algum lugar entre divertido, satisfeito e irritado por você ter visto seus seguidores.
Sherlock sorriu para o irmão.
— Não só isso, encontrei um carregador de malas no hotel que tem mais ou menos o meu tamanho e estrutura, dei-lhe um xelim e meu casaco e deixei-o andar por Londres em meu lugar. Seus homens nem perceberam.
— Você está enganado — disse Mycroft de forma uniforme. — Eles seguiram você e ele. Ele foi a uma sala de música; você, ao Museu Britânico.
— Oh. — Sherlock estava abatido.
— Há também a questão de sua educação contínua a considerar — disse Mycroft, como se a discussão anterior nunca tivesse ocorrido. — Você foi removido da Escola Deepdene para Meninos antes de seus exames, e suas experiências desde então, enquanto possam tê-lo ensinado muito sobre o modo como o mundo funciona e sobre como sobreviver em lutas de rua e escalar telhados, o deixam lamentavelmente abaixo da média nos campos do latim, grego, das ciências naturais e do grande corpo da literatura inglesa.
— Não vejo necessidade de saber sobre línguas mortas ou livros antigos — murmurou Sherlock.
— Você pode não ver — respondeu Mycroft. — Mas o resto do mundo discorda, pelo menos, as partes que contam. Para garantir um emprego lucrativo no serviço civil ou em um dos principais bancos, precisará aprender muitas coisas que você pode não pensar serem importantes. É meu trabalho garantir que faça isso.
— Você está me enviando de volta à escola — percebeu Sherlock, sentindo seu coração ficar mais pesado.
Ele temeu esse momento. Sua vida nos últimos dois anos foi interessante, emocionante e até mesmo perigosa. Ele viajou para países estrangeiros e viu coisas que nunca teria acreditado se não tivesse experimentado ele mesmo. Tinha sido jogado para viver com seus próprios recursos, e havia sobrevivido. Ele não poderia voltar para a escola e fazer o que os professores dissessem. Agora não. Ele era uma pessoa diferente daquela que deixara a Deepdene no final do verão dois anos antes, de uniforme e seus casacos embalados.
— Não. — Mycroft disse, surpreendendo Sherlock. — Isso seria olhar para trás, não para frente, o que seria um erro capital. Não, acredito que o seu futuro esteja em uma das grandes universidades, por isso proponho que você viva em Cambridge ou em Oxford por enquanto, tendo aulas individuais sobre matérias importantes com um tutor experiente, com vista em entrar nessas universidades daqui a dois anos.
— Cambridge fica mais perto da mansão da família, para quando nosso pai voltar para casa — Sherlock falou, sentindo seu coração aliviar um pouco. Isso podia ser divertido.
— Tenho conhecidos em Oxford — continuou Mycroft. — Então proponho enviá-lo para lá. Você recordará que estudei em Oxford há alguns anos. Não foi um momento feliz na minha vida, mas valorizo a educação que recebi e os amigos que fiz. Em particular, conheci um homem chamado Charles Lutwidge Dodgson, que agora é professor de matemática em Oxford, especializado no campo da lógica. Encontrarei acomodações na cidade e ele irá ensiná-lo uma hora por dia, quando não estiver envolvido em atividades da universidade ou em um de seus passatempos estranhos. Havia também um policial chamado Weston com quem compartilhava várias conversas muito interessantes.
Passando rapidamente a proposta de Mycroft, bem, mais um fato do que uma proposta, pensou Sherlock, ele achou que havia várias coisas que chamaram sua atenção. Um professor de lógica parecia fascinante. A mente de Sherlock sempre funcionou de uma maneira lógica, e ele achava a confiança que outras pessoas pareciam ter com sorte, fé ou superstição bastante estranha. Seu antigo tutor e amigo, Amyus Crowe, fizera muito para fazê-lo pensar de forma racional. Ele pensou que poderia gostar de estudar lógica.
— O que esse Charles Lutwidge Dodgson faz de tão estranho? — perguntou ele.
— Para começar, ele está interessado nesta coisa nova chamada fotografia. Você está familiarizado com isso?
Sherlock franziu a testa, tentando lembrar-se de coisas que tinha lido ou ouvido.
— É uma maneira de capturar os detalhes de um cenário, não em uma pintura ou um desenho, mas deixando a luz dessa cena cair sobre uma placa de vidro tratada quimicamente e gravando a imagem diretamente, não é?
— De fato, é. Os produtos químicos envolvem um nitrato de prata que muda de cor quando a luz o toca, pelo o que entendo. Possuo duas opiniões sobre a fotografia. Por um lado, o resultado final é muito menos bonito do que uma pintura, e é representado apenas em tons de cinza. Por outro, representa o que há realmente lá, ao invés do que o artista pensa que está lá, ou espera que esteja, ou que você acredite que existe. Ou isso é uma moda, ou suplantará retratos e pinturas de paisagem e também ajudará consideravelmente na investigação de crimes, ainda não sei qual dos dois. Eu costumava falar com meu conhecido policial sobre isso.
— Você disse, “Por um lado...” — afirmou Sherlock. — Quais são os outros passatempos dele?
— Ele é, aparentemente, em seu tempo livre, um escritor de livros infantis sob o pseudônimo de “Lewis Carroll”. Em particular, um com o título As Aventuras de Alice no País das Maravilhas atraiu a imaginação pública e vendeu bastante bem. É publicado pela Macmillan e Co, que são eles próprios publicitários respeitáveis. É até mesmo dito que Sua Majestade a Rainha Vitória leu e tornou a aprovação dela conhecida.
— Um livro para crianças? — Sherlock disse, duvidando um pouco.
— Sim, e um pouco estranho. Frente a isso, o livro é um conto sobre uma menina que cai numa toca de coelho e encontra um mundo de fantasia habitado por animais falantes, ou que pode simplesmente ter adormecido e sonhado tudo, mas é possível que haja um significado mais profundo e que o todo é uma sátira sobre vários conceitos matemáticos e lógicos.
— Você já leu? — Rufus Stone perguntou.
— Certamente que não. — Bufou Mycroft, mas não encontrou o olhar de Sherlock ou Stone, e Sherlock se perguntou se ele falava a verdade. — Mas estamos nos afastando do ponto, que é que eu já escrevi para o Sr. Dodgson da Christ Church College e ele concordou em tê-lo como aluno extraordinário – em todos os sentidos da palavra, Sherlock. Estou no momento buscando alojamento para você em Oxford, provavelmente em algum estabelecimento irrepreensível perto da Christ Church.
— E haverá alguém me seguindo em Oxford assim como em Londres? — perguntou Sherlock.
— Eu precisarei? — Mycroft replicou.
Antes que Sherlock pudesse dizer alguma coisa, Rufus Stone respondeu por ele:
— Quase com certeza.
Uma campainha tocou, indicando o fim do intervalo.
— Eu posso sair agora — disse Mycroft, mas ele não se afastou da janela. — Ou talvez fique por mais um xerez seco. Vocês dois voltem e escutem o resto do barulho infernal. Sherlock, nos próximos dias lhe enviarei uma carta descrevendo onde você morará, quando se mudará e quando suas aulas começarão.
Sherlock abriu a boca para discutir, mas um olhar para o rosto de seu irmão o fez fechá-la novamente. Uma vez que Mycroft tomava conta de alguma coisa, não havia mudança.
Quando um segundo sino tocou, Sherlock e Stone voltaram para o auditório.
Sherlock olhou brevemente por cima do ombro. Mycroft ainda estava lá, sentado na alcova, preenchendo a alcova, para ser mais preciso, e tomando seu xerez. Enquanto Sherlock observava, um homem de blusa e calças desbotadas que eram curtas demais para ele se aproximou da janela projetada e hesitou, parando. Mycroft olhou para cima e acenou com a cabeça para ele. O homem tirou um envelope do bolso e entregou-lhe. Mycroft tirou uma pequena lâmina do bolso e abriu o envelope. Tirando a carta, leu brevemente, então suspirou. Sherlock estava muito longe para ouvir qualquer palavra, mas podia ver claramente os lábios de Mycroft formando as palavras “O problema de Mortimer Maberley novamente, eu não sei o que ele acha que posso fazer!”
Mesmo quando deveria estar no entretenimento de uma noite, Sherlock refletia, seu irmão ainda parecia estar trabalhando. Sherlock virou-se, balançando a cabeça. Amava seu irmão, mas estava cada vez mais irritado com ele. Sherlock estava crescendo, mas Mycroft ainda o tratava como uma criança.
A segunda metade do concerto foi, de qualquer forma, mais técnica e artisticamente surpreendente do que a primeira, mas Sherlock não gostou tanto. Seus pensamentos continuavam voltando para o que seu irmão havia dito, e para seu próprio futuro. Ele não tinha um grande amor por Farnham, era uma cidade agradável, com pessoas agradáveis, mas nunca a considerou nada mais do que um ponto temporário em sua vida, uma estação de passagem, como esses lugares em que carruagens puxadas por cavalos costumavam parar enquanto atravessavam o país para que os passageiros possam comer e dormir antes de continuar suas viagens. Londres, por outro lado, cativou-o durante o curto período de tempo que passou na cidade. A cidade era quase como uma pessoa, tinha seu próprio caráter, seu próprio humor, e poderia mudar em um momento. Ele adorava, e queria viver o resto da vida dele ali, se pudesse.
Mas primeiro, Oxford. Parecia não haver maneira de evitar. O problema era que tudo era construído como uma fila de dominós na mente de Mycroft, dois anos vivendo em Oxford, sendo ensinado por este Charles Dodgson, levando a entrada na Universidade e estudos em tempo integral, levando a um diploma em alguns assuntos inúteis, levando a um trabalho maçante no governo ou em um banco, levando a... o quê? Aposentadoria em algum lugar do mar? Esse não era o tipo de vida que ele havia planejado para si.
Claro, ele na verdade não tinha planejado nada para sua vida. No momento, estava apenas à deriva, testando as águas, vendo aonde as correntes o levariam.
Em algum lugar no fundo de sua mente, o pensamento vago era que ele poderia transformar seus pensamentos lógicos e sua capacidade de ver as verdades simples através de problemas complexos em uma carreira em tempo integral, mas como o quê? Algum tipo de policial? Um agente secreto, talvez, como aqueles que obviamente faziam relatórios a seu irmão?
Ele suspirou. A vida parecia tornar-se cada vez mais complicada quanto mais velho ele ficava.
Esse pensamento levou naturalmente a Virginia Crowe. Ele, no passado, assumira que os dois teriam algum tipo de vida juntos, embora nunca tivesse ousado admirar a natureza dessa vida. Parecia que ela sempre estaria lá para ele, e ele para ela. Mas ela estava na América agora, noiva e prestes a se casar com outra pessoa, e seu pai – o homem que ensinara a Sherlock em dois anos mais do que ele aprendera em toda a vida até esse ponto – provavelmente estava ensinando o filho de outra pessoa. A vida, parecia, tinha outros planos para Sherlock.
Seria bom, ele refletiu amargamente, se a vida pudesse realmente deixá-lo saber quais eram esses planos.
O concerto chegou ao fim. O violinista tocou várias notas curtas enquanto os aplausos continuavam chegando. Stone estava de pé, batendo palmas. Sherlock juntou-se a ele, mas seu coração não estava ali. Os pensamentos de Oxford, diplomas e bancos continuavam se intrometendo.
Os dois saíram do teatro junto com o resto do público. Na calçada, Stone virou-se para Sherlock e estendeu a mão.
— Boa-noite, Sherlock — despediu-se ele, e depois acrescentou: — Não deixe as palavras do seu irmão o desencorajarem. Ele pode ter seus planos, mas a vida é sua para viver. Vá com seu coração.
— Obrigado — Sherlock respondeu, apertando a mão de Stone. — Mas onde quer que eu termine, espero que você me procure por aí. Não fiz muitos amigos na minha vida, mas o considero como um deles.
Stone assentiu.
— E eu a você — ele sorriu. — Tenho amigos na área de Oxford; bem, para ser completamente honesto, tenho amigos praticamente em todos os lugares. Farnham sempre foi apenas um lugar para viver enquanto eu fazia um trabalho, um trabalho que se tornou algo mais, devo ressaltar. Eu poderia muito bem viver em Oxford como em Farnham; e, tenho que dizer, a chance de ouvir e tocar música boa é muito melhor lá. Não se surpreenda se esbarrar em mim em breve. — Ele levou a mão à testa em um esboço de saudação. — Eu o verei novamente, Sherlock. Até então, tenha cuidado e cuide-se.
Stone desapareceu na multidão, e Sherlock virou-se. Ele deu apenas dois passos quando uma voz ao lado dele disse:
— O que foi isso tudo?
Era Matty, Matthew Arnatt. Sherlock conhecia a voz sem ter que olhar.
— Parecia bastante sério — ele continuou. — Parecia um “adeus e fique bem”. Você não está indo para China novamente, não é? — O tom de Matty era casual, mas Sherlock podia detectar uma onda de inquietação na voz de seu amigo.
Matty já havia dito a Sherlock que tinha passado sua vida assistindo amigos e familiares deixá-lo. Ele havia se resignado a ficar solitário todos os dias.
— É Mycroft — admitiu Sherlock sem se virar. — Ele tem planos para mim. Quer que eu vá para Oxford.
Houve um momento de silêncio. Sherlock não ousou olhar o rosto de Matty.
Ele e o menino passaram muito tempo juntos nos últimos anos, interrompidos por sua visita não planejada à China. Embora os dois se estivessem se aproximando novamente desde que se encontraram na Irlanda, ainda mais depois de algumas semanas em Londres, ele não tinha certeza de que Matty desejaria ser desenraizado novamente.
Ele foi surpreendido.
— Oxford é legal — comentou Matty. — Você pode chegar lá de barco indo pelo Tamisa, praticamente. Fui lá antes, e é muito agradável. Um monte de gente importante deixando comida largada perto do rio depois de um piquenique e muitos professores distraídos fazendo o mesmo. Coletas ricas para alguém como eu. Mesmo os cisnes comem melhor do que algumas das pessoas em Londres.
— Você viria comigo? — Sherlock perguntou, finalmente se virando para olhar para o rosto de Matty.
O menino sorria.
— Por que não? — respondeu. — Esta cidade é grande demais para mim, e os donos das lojas são atentos demais. É difícil conseguir uma refeição decente sem que me persigam pelo menos duas vezes por dia. Quando partimos?
— Logo, eu acho.
— Certo. Eu tenho tudo o que preciso no barco, e Harold está se coçando por movimento. Ele não é como meu velho cavalo, Albert. Ele só queria parar em um lugar, comer grama e ficar para sempre. Harold gosta de se mudar.
— Você consegue levar a barcaça ao longo do Tâmisa? — perguntou Sherlock. — Afinal é um rio, não um canal.
Matty assentiu com a cabeça.
— É possível, mas a largura torna complicado, não tanto quando se está se movendo ao longo do rio, é mais quando se precisa sair para o canal de Oxford. Pensando nisso, pode ser melhor se formos direto ao canal Grand Junction, depois formos ao canal de Oxford por cima, em vez de por baixo e chegando a Oxford pelo norte ao invés de sul.
— Parece bom para mim — Sherlock olhou nos olhos do menino. — Olha, você tem certeza de que deseja vir? Não faça isso apenas porque acha que eu preciso de ajuda.
Matty assentiu com a cabeça.
— Sim. — Ele parecia prestes a continuar, então desviou o olhar, de repente envergonhado. — Isto é, se você quiser. Quero dizer, se você preferir ir sozinho...
— Não. — Sherlock disse com firmeza. — Pode haver momentos em que gosto de ficar sozinho, mas definitivamente tenho tempo de estar com amigos, e não tenho muitos deles.
— Suponho que terei que ir então. — Matty falou com um sorriso.
— Suponho que sim — repetiu Sherlock.
— Além disso... — Matty disse, e parou.
— Além do quê?
— Bem, não gosto de dizer. Não é muito legal.
— Continue.
— Bem, suponho que veremos menos o seu irmão em Oxford.
Sherlock pensou por um momento. Ficava cada vez mais difícil tirar Mycroft de Londres. Na verdade, estava ficando cada vez mais difícil tirar Mycroft do Diogenes Club. Havia uma relação entre sua relutância em viajar e seu tamanho.
— Eu duvido que Mycroft passe tanto tempo lá conosco quanto aqui, em Londres — Sherlock respondeu.
— Isso é bom — Matty olhou para Sherlock. — Não é que eu não goste dele, é que ele não gosta de mim. Além disso, ele continua tentando me ensinar coisas, como ler e escrever. Não preciso disso.
Sherlock pensou novamente em sua discussão com seu irmão apenas uma hora antes, quando ele disse a Mycroft que não precisava aprender sobre línguas mortas ou livros antigos. Não era mais ou menos uma versão refinada do que Matty acabara de dizer? Talvez ele devesse ser menos exigente com os fatos que ele permitia em seu cérebro.
Ele se sacudiu para se livrar do pensamento desconfortável.
— Agora, vamos comer alguma coisa — disse ele, mudando de assunto. — Onde você recomenda?
— Borough Market estará fechando agora. Haverá muitas tortas e maçãs sendo dispensadas.
— Dispensadas? — Sherlock questionou.
— Bem, se o proprietário da banca estiver de costas. Da maneira como vejo, estamos fazendo um favor a ele. Se não pegarmos a comida, então ele terá que levá-la para casa e trazê-la de volta ao mercado no dia seguinte, e as chances são de que a comida estragaria durante a noite e amanhã alguém sofrerá de dor de estômago depois de comer.
— Você está certo. Nós realmente estamos prestando um serviço público.
Ele deu um tapinha no ombro de Matty.
— Vamos, e no caminho você pode me contar mais sobre Oxford.

Um comentário:

  1. Muito obrigado, estava querendo ler esse e o próximo mas n achava na net, até que me lembrei deste velho e maravilhoso site em que encontrei esse e futuramente o próximo, muito obrigado pelo ótimo trabalho

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Boa leitura :)