12 de setembro de 2017

Capítulo um

COM OS BRAÇOS EM TORNO DAS cordas tensas e úmidas de água do mar, sentindo as fibras de cânhamo ásperas contra sua bochecha, Sherlock Holmes observava de uma posição no alto do cordame do Gloria Scott enquanto o navio singrava pelo oceano agitado. Acima dele, gaivotas gritavam como bebês famintos. Ele podia sentir o gosto de sal nos lábios por causa dos respingos que enchiam o ar. Ele convivia com esse gosto já por meses agora. Perguntou-se como seria sua vida sem isso, sem os constantes arremessos e balanços do convés sob seus pés, sem o som regular das velas que de repente se enchiam com o vento, sem os gritos constantes dos marinheiros e as ordens latidas pelo primeiro imediato do navio, o Sr. Larchmont.
O céu acima estava cinza e pesado, como uma chuva que nunca vinha. O mar também estava cinza. Durante meses ele tinha se acostumado a ver o céu azul acima de si durante o dia, e um céu negro salpicado de estrelas à noite, de ver as ondas cor de jade brilhando como joias ao redor do navio. Mas agora tudo parecia ter sua vivacidade sugada de si. O céu e o mar estavam ambos da cor da fumaça que se derramava das chaminés das fábricas das áreas industriais de Londres.
Ele estava quase em casa.
Em algum lugar no horizonte estava a costa oeste da Irlanda – o ponto mais próximo da Inglaterra em que o navio atracaria nesta viagem, e o ponto em que ele planejava descer para encontrar o caminho de casa. Ele não tinha planejado deixar a Inglaterra no Gloria Scott. Fora arrancado de sua família e amigos, sequestrado, sedado e escondido no navio por uma organização secreta chamada de Câmara Paradol. Ele tinha cruzado o caminho da Câmara por várias vezes nos últimos dois anos o suficiente para fazê-los querer livrar-se dele. Ou talvez tivessem feito isso porque queriam que ele fizesse um trabalho para eles na China, para onde o navio tinha ido. Talvez tenha sido um pouco de ambos.
Até onde ele podia dizer, a Câmara Paradol nunca fez nada por uma única razão. Eles tinham planos aninhados dentro de outros planos, como os mecanismos intrincados de um relógio.
Segundo o Sr. Larchmont, o Gloria Scott atracaria em Galway no Spanish Arch e ficaria ali por alguns dias antes de partir para Antwerp. Era ali que a carga que eles traziam de Xangai seria vendida pelo melhor preço. Sherlock desembarcaria em Galway, pegaria seu salário como qualquer membro regular da equipe, e partiria de Galway para Dublin. De lá, ele tomaria uma embarcação para Liverpool, em seguida, viajaria para baixo até Londres de trem.
Para quê? Essa era a pergunta que ele se fazia. Voltar para a mansão Holmes, em Hampshire? Voltar para seus tios como se ele nunca tivesse estado fora? Ou talvez de volta para sua família imediata, se seu pai tivesse voltado da Índia e sua mãe tivesse se recuperado de sua persistente doença. E para qual de seus amigos – Matty ainda estaria lá, ou ele teria se estabelecido ao longo dos canais para algum outro lugar onde pudesse sobreviver com sua inteligência? Será que Rufus Stone ainda o ensinaria violino e perseguiria senhoritas em Farnham, ou será que o irmão de Sherlock, Mycroft, o teria enviado para algum outro lugar para coletar informações para o governo britânico? E quanto ao professor de Sherlock, Amyus Crowe? E quanto à filha de Crowe, Virginia?
Sua mão subiu para tocar o lado externo de sua camisa. No interior, em uma bolsa de couro amarrada ao redor do pescoço, havia um pequeno pacote contendo a carta que Virginia escrevera para ele e havia dado a seu irmão Mycroft para que lhe entregasse.

Querido Sherlock,
Esta é a carta mais difícil que já tive que escrever e, provavelmente, a mais difícil que algum dia escreverei. Tentei isso por tantas vezes, e desisti a cada uma delas, mas seus irmão está aqui visitando meu pai e me disse que se eu quisesse, ele faria essa carta chegar até você, então esta é minha última chance. Devo-lhe algum tipo de explicação sobre o que aconteceu, por isso aqui está. Eu gostaria que fosse diferente.
Você se foi por um longo tempo, e seu irmão me disse que é provável que não volte por um bom tempo – se você voltar. Eu sei a maneira como sua mente funciona, e sei que você gosta de coisas novas e interessantes. Penso que ir para a China lhe mostrará muitas coisas interessantes, e não o culpo nem por um momento caso você decida ficar longe daqui, no Oriente, e fazer uma nova vida para si.
Talvez eu esteja enganando a mim mesma, mas acho que você e eu tivemos algum tipo de conexão especial naquele ano que passamos juntos. Nós certamente compartilhamos várias experiências. Eu senti algo por você que não senti por mais ninguém na minha vida, e eu podia ver pelo jeito como olhava para mim que você sentia o mesmo. O problema é que o tempo passou. Em sua ausência, meu pai começou a ser tutor do filho de um empresário americano que vive perto de Guildford.
Eu o conheci um dia, quando ele veio visitar o meu pai, e acabamos conversando por horas. Desde então temos passado muito tempo juntos. Ele sabe montar bem, quase tão bem quanto eu. Ele é alto e magro, como você, mas seu cabelo é mais curto e sua pele se bronzeia mais facilmente. Ele me faz rir. O nome dele é Travis – Travis Stebbins.
O que preciso te dizer é que ele deixou claro que quer que eu seja sua noiva um dia e, mais tarde, sua esposa. Por um tempo, eu apenas ria, pensando que ele se apaixonara pela primeira garota americana que conheceu na Inglaterra e que logo encontraria outra pessoa. Mas isso não aconteceu, e comecei a perceber o quanto gosto dele. Eu não seria infeliz com ele, e sei que ele cuidaria de mim. Se eu dissesse não e esperasse você voltar, poderia continuar esperando por um longo tempo. E se você encontrasse alguém enquanto estivesse ausente? O que eu faria se esperasse três anos por você e então você chegasse com uma esposa chinesa?
Eu perguntei ao meu pai o que fazer, mas ele não quis me dar nenhum conselho. Ele pensa muito em você, e eu sei que ele queria que você estivesse aqui. Eu penso que é uma das principais razões pelas quais ele permanece na Inglaterra – para que um dia possa vê-lo novamente e passar a ensinar-lhe de onde parou. Mas ele quer que eu seja feliz, e esteja segura, e penso que parte dele anseia se ver livre de quaisquer responsabilidades e ser capaz de montar e sair para onde decida ir e acampar sob as estrelas. Ele não é domesticado.
Nem você, é claro, e você nunca será. Essa é provavelmente a principal diferença entre você e Travis – posso imaginá-lo de pé junto a uma lareira, embalando uma criança em seus braços, mas penso que o seu futuro não inclui crianças, ou mesmo a felicidade doméstica. Espero que você entenda.
Eu ainda vejo Matty, de tempos em tempos. Ele aparece do nada, permanece por algumas horas, em seguida, desaparece novamente. Acho que a vida em Farnham lhe convém – ele ganhou um pouco de peso depois que você se foi. Albert, seu cavalo, morreu, mas ele tem outro agora – uma coisa enorme com patas peludas chamado Harold. Ele (Matty, não o Harold), fica perguntando se já tive notícias suas.
Seu irmão disse que incluirá minha carta, junto com a dele, mas o que ele nunca te dirá é que sente a sua falta terrivelmente. Ele agora está diferente da maneira como costumava ser – mais contido, mais sombrio. Mesmo papai andou comentando.
Eu gostaria que houvesse mais para dizer-lhe, mas a vida continua praticamente do mesmo jeito que estava antes de você ir, com a grande exceção de que você não está aqui. E eu queria que estivesse. Gostaria que as coisas tivessem sido diferentes do jeito que agora, mas a vida nos colocou em caminhos diferentes, e não há como virar e retornar.
Tenho escrito bastante. Se continuar a escrever, começarei a chorar, e minhas lágrimas apagariam as palavras de tal modo que você não conseguiria lê-las. O que poderia ser um conforto para você.
Com amor,
Virginia.

A tinta era violeta, Sherlock notara quando a leu pela primeira vez. Da cor dos olhos dela. Ele nunca vira tinta violeta à venda em qualquer papelaria. Talvez ela tivesse trazido consigo um suprimento da América para a Inglaterra. A carta não estava carimbada, é claro, porque fora incluída com a carta de Mycroft. O envelope era de um cartão duro com uma trama perceptível, estampar uma marca seria um pequeno problema, caso fosse preciso. Duas pequenas manchas ao lado o nome de Sherlock na parte da frente do envelope indicavam que Virginia tinha, de fato, começado a chorar.
Travis Stebbins. Ele tentou imaginar um rosto para acompanhar o nome, mas era inútil. Os nomes das pessoas raramente dizem alguma coisa sobre sua aparência, ou vice-versa. Sherlock não podia deixar de imaginar um rapaz alto, musculoso, com um rosto aberto, bronzeado. Bonito. Forte.
Ele desejava que Virginia tivesse uma vida feliz. Realmente desejava. Tudo o que ela havia dito era verdade – ele fora embora já há muito tempo, e poderia terminar por não voltar um dia, e mesmo se voltasse, poderia ter encontrado outra pessoa enquanto estava fora. Ele não poderia ficar na expectativa de que ela o esperasse.
Mas ele desejava que sim.
A costa da Irlanda apareceu como uma longa mancha no horizonte. O Sr. Larchmont andou pela plataforma gritando ordens à tripulação para aparar as velas, ajustar o curso e, é claro, permanecer de olho vivo. Quando veio para a lateral do navio, levantou o olhar. Sherlock esperava que ele fosse inquiri-lo, com xingamentos variados, o que exatamente Sherlock pensava que estava fazendo pendurado lá quando havia trabalho a ser feito, mas seus olhos azuis desbotados apenas consideravam o menino, intrigado.
— Não será do jeito que você pensa, eu garanto — ele falou com a voz rouca.
— O que não será do jeito que penso, senhor?
— Seu retorno. Nunca é. — Ele fez uma pausa, ainda olhando para Sherlock. — Deixe-me contar-lhe o grande segredo da vida de um marinheiro, filho. Você nunca pode voltar. A razão é que o lugar para o qual pensa que está voltando não está do jeito como você se lembra, em parte porque ele mudou, em parte porque você mudou, mas principalmente porque suas lembranças não são verossímeis, são apenas memórias brilhantes que disfarçam a verdade. É por isso que a maioria dos marinheiros permanece em alto-mar. É a única coisa para a qual eles podem voltar vez após vez, e que não muda. — Ele olhou para o horizonte distante. — Eu me lembro quando vim ao mar pela primeira vez, eu tinha acabado de me casar. Fiquei fora por mais de um ano. Quando voltei, não reconheci a minha mulher no cais, e ela não me reconheceu quando desci pela ponte. Nós éramos estranhos um para o outro. — Ele olhou para Sherlock, depois de volta para o horizonte. — Se quiser ficar, sempre haverá um lugar para você — ele falou, em seguida, andou para longe antes que Sherlock pudesse responder.
Sherlock ficou no cordame por mais algum tempo, até que uma linha cinza apareceu no horizonte. Por um tempo, pareceu ser uma onda maior do que o habitual, mas, gradualmente, ela definiu-se em colinas baixas que se enrolavam umas nas outras. O Sr. Larchmont gritou para os marinheiros no convés que aparassem as velas e mudassem o curso em cinco graus para o sul. Sherlock se moveu subindo ainda mais no cordame para onde a verga cruzava com o mastro principal e começou a ajudar a controlar as velas. As vigas úmidas de madeira do navio rangiam conforme ele convergia gradualmente sobre si, indo para onde o navegador estimava que Galway Bay ficava.
A terra ficava cada vez mais perto: um contraponto verde acinzentado para as pesadas nuvens cinzentas que pairavam sobre suas cabeças.
Em certo momento, eles navegavam pelas últimas colinas escuras no lado estibordo do navio. Normalmente, quando o Gloria Scott aportava, os marinheiros ficavam alegres, olhando para a frente enfeitiçados pela terra, mas agora eles pareciam sombrios.
Talvez fosse o tempo, talvez fosse a aparência da costa.
Muito à frente Sherlock podia ver o cais e as casas de pedra de Galway. Ele podia ver as pessoas se movimentando. Vários outros navios já estavam atracados, mas havia espaço suficiente sobrando para o Gloria Scott se juntar a eles com facilidade. Mesmo assim, demorou mais de uma hora para o navio atracar. Pessoas se movimentavam em torno do cais – trabalhadores portuários, curiosos, comerciantes ansiosos para reabastecer as provisões do navio, homens e mulheres que ofereciam alojamento na cidade. Cordas foram lançadas do navio para a terra e amarradas em postes.
E era isso. Sherlock estava em casa – ou o mais próximo de casa que o Gloria Scott o levaria.
Uma carruagem coberta esperava no cais. Sherlock pôde apenas distinguir uma figura lá dentro usando um chapéu alto. Quem quer fosse estava olhando para o navio. Talvez um funcionário do cais, à espera do desembarque para que ele pudesse discutir os detalhes oficiais com o capitão Tollaway. O condutor estava sentado em cima e na frente da carruagem, envolto em um cobertor. Ele parecia estar dormindo.
A próxima hora, mais ou menos, foi gasta em certificar-se de que tudo no Gloria Scott estava fixado, amarrado ou coberto com uma lona. Em algum momento Sherlock viu alguém vindo a bordo através da ponte. Ele olhou para a carruagem, mas a porta ainda estava fechada e a figura de cartola ainda era visível em seu interior. Um arrepio percorreu a coluna de Sherlock, e ele levou um momento para traçar o pensamento aleatório que tinha provocado esse sentimento. Talvez o ocupante da carruagem fosse alguém que trabalhasse para a Câmara Paradol, enviado para se certificar de que Sherlock não voltaria vivo dos mares sul da China. Bem, se fosse, então havia pouco que ele pudesse fazer além de mergulhar pela borda do navio e tentar nadar para a terra sem ser visto.
Ele voltou ao trabalho, mas a tripulação já terminava suas tarefas, obviamente ansiosa para desembarcar e fazer o que quer que marinheiros fizessem em um porto novo. O Sr. Larchmont deu à tripulação enfileirada a última parcela de seus salários, e, em seguida, eles foram autorizados a desembarcar.
Quando Sherlock recebeu seu salário, o comandante do navio lhe disse:
— Adiarei preencher sua posição por um dia, rapaz. Apenas para o caso.
— Obrigado, senhor — disse Sherlock.
Em seu coração, ele sabia que não voltaria para o Gloria Scott, mas o Sr. Larchmont tinha sido bom para ele, e ele não queria rejeitar a bondade que o homem lhe fazia.
Sherlock desceu a ponte, já sentindo a instabilidade que vinha em terra com as pernas que estavam condicionadas ao balanço do convés de um navio.
Quando Sherlock se aproximou da carruagem coberta, uma mão chamou-o a partir da janela da carruagem. Claramente a Câmara Paradol não o havia punido o suficiente?
Não era ninguém da Câmara Paradol. Na luz aguada do sol que era filtrada de fora para dentro da carruagem, Sherlock pôde apenas distinguir um rosto de queixo duplo olhando para ele a partir da escuridão.
— Olá, Sherlock — disse uma voz. Era profunda, ressonante e muito familiar.
— Olá, Mycroft — respondeu Sherlock, tentando conter as emoções que se agitavam em seu peito. — Você não precisava vir me receber, sabia?
Mycroft Holmes deu de ombros, sua figura corpulenta ondulando na escuridão. — Senti que era meu dever de irmão. Apesar do fato de que deixar Londres me faz sentir como um caranguejo que foi de alguma forma removido de sua concha e colocado para correr enquanto gaivotas famintas circulam em cima, eu queria poupar-lhe o trabalho de encontrar o seu próprio caminho para casa.
— E você queria se certificar de que eu realmente estava voltando para casa — Sherlock acrescentou. — Em vez de ficar a bordo do Gloria Scott e fazer uma vida para mim no oceano aberto.
— Você tem uma boa cabeça — Mycroft retumbou. — Ou, pelo menos, tinha antes de ir. Dedicá-la a memorizar canções de marinheiro e os vários tipos diferentes de nós que os marinheiros devem dominar seria um desperdício.
Sherlock sorriu.
— Na verdade, você ficaria surpreso com quantas coisas se precisa saber para ser um marinheiro. Não é apenas sobre fazer nós e algazarras marítimas. Precisa-se ser capaz de prever o tempo só de olhar o céu ou o comportamento das aves, há os vários idiomas que você precisa conhecer pelo menos um pouco a fim de aproveitar ao máximo o seu tempo em terra, há a possibilidade de barganha sobre a compra e venda de sua carga, o conhecimento médico que precisa saber para que possa tratar infecções fúngicas, cortes, queimaduras, problemas digestivos e escorbuto… — ele fez uma pausa, pensando. — Mas você está certo – há uma série de nós.
— Você poderia subir aqui? — pediu Mycroft. — Estou ficando com um torcicolo olhando para você nessa posição.
Sherlock contornou a carruagem pela frente até o outro lado.
Marinheiros que ainda saíam do Gloria Scott olharam para ele com curiosidade indisfarçável, obviamente se perguntando o que o tornou tão importante para que uma carruagem esperasse por ele.
Os cavalos o cheiraram quando ele passou. Eles não pareciam estar exaustos, o que significava que não vieram de muito longe, puxando a carruagem. Galway ficava no oeste da Irlanda, o que significava que Mycroft tinha navegara por todo o caminho ao redor da costa do outro lado ou, mais provavelmente, havia tomado uma embarcação da Inglaterra para Dublin, na costa leste da ilha, e então pego uma carruagem. Como os cavalos ainda estavam refrescados, ele, obviamente, não tinha acabado de chegar na Irlanda. Deve ter esperado em algum lugar por ali. Todos esses pensamentos vieram em menos de um segundo. Quando ele chegou à sua conclusão, Sherlock olhou para o condutor enrolado no cobertor, mas tudo o que podia ver de seu rosto era um par de olhos fechados. Ao chegar ao outro lado, ele abriu a porta e entrou.
Uma vez que se acostumou com a escuridão relativa do interior, ele olhou criticamente para o irmão. O rosto de Mycroft era tão familiar para Sherlock quanto o seu próprio, mas seu irmão tinha engordado. Ganhado um bocado de peso, do seu ponto de vista. Suas bochechas eram quase invisíveis sob camadas de gordura, e ele parecia ter desenvolvido mais alguns queixos, nenhum dos quais definidos por qualquer osso subjacente. Ele tinha uma bengala preta de ébano, com o topo em prata, sobre a qual descansava suas mãos. Era mais grossa do que a maioria das bengalas que Sherlock vira. Ele supôs que precisava ser, para aguentar o peso de seu irmão sem rachar, e isso disse a ele mais do que gostaria de saber sobre as mudanças na saúde de seu irmão no ano que se passou.
— Você parece estar bem — Sherlock falou depois de um tempo.
— Você está sendo muito gentil. Isso, ou a sua faculdade de observação secou no tempo em que esteve fora. Não estou parecendo bem, nem me sentindo bem. Temo o início da gota em meu pé direito, e posso precisar recorrer a óculos em um futuro próximo. Ou um monóculo, talvez. — Ele olhou para Sherlock de cima a baixo. — Você, porém, desenvolveu músculos em lugares onde eu não fazia ideia que eles poderiam aparecer. Seus olhos estão limpos com todo esse sol que tem experimentado, e seu cabelo está fora de moda há muito tempo. Percebo que sua barba ainda não começou a crescer, o que é uma pequena benção em minha opinião, mas creio que isso continuará por muito mais tempo antes que você ostente um bigode pouco apelativo e um pequeno cavanhaque. — Ele fez uma pausa, considerando. — Vejo traços em você dos vários portos de sua escala – Dakar, Bornéu, Xangai, é claro, e, se não estou muito enganado, Mombasa e as Seychelles também. A pele áspera em suas mãos indica que o capitão lhe permitiu trabalhar em sua passagem pelo Gloria Scott, que foi o que Amyus Crowe e eu assumimos que aconteceria. Seu desenvolvimento muscular geral sugere uma grande dose de escalada, mas a mudança em sua postura, sua maneira de portar-se, sugere uma forma diferente de atividade. — Ele inclinou a cabeça para um lado. — Ginástica? Não, acho que não. Mais provável que seja uma arte marcial oriental na mesma linha do karatê ou do judô.
— Tai chi — Sherlock respondeu suavemente.
— Já ouvi falar. Vejo pelos calos nos dedos de sua mão esquerda que ainda está praticando aquele instrumento abominável, o violino, embora eu não tenha certeza de como, uma vez que você o deixou na Mansão Holmes. — Ele estremeceu um pouco, as camadas de gordura em torno de seu pescoço tremendo como um manjar branco perturbado. — Eu não deveria dizer, mas espero que não tenha feito nenhuma tatuagem em suas viagens. Acho a ideia de desfigurar a pele com um padrão que nunca pode ser removido abominável ao extremo.
— Não, Mycroft, nada de tatuagens. E, só para deixar sua mente descansada, eu não contraí nenhuma doença tropical estranha também.
— Fico aliviado ao ouvir isso. — De repente, ele estendeu a mão e a colocou no joelho de Sherlock. — E com você está… tudo bem, Sherlock? Você está bem?
Sherlock levou um momento antes de responder.
— Qual é a frase que os médicos usam para transmitir notícias aos parentes? Eu estou “assim como se podia esperar”, suponho.
— Você sobreviveu. E é isso o que conta.
— Não sem mudanças, Mycroft — disse Sherlock.
— Se você estivesse em casa, na Inglaterra, então teria mudado de qualquer maneira. Isso é o que chamam de “crescer”.
— Se eu tivesse ficado em casa, na Inglaterra, então algumas coisas não mudariam. Ou, pelo menos, elas teriam mudado de uma forma diferente.
— Você se refere à Virginia, é claro. Ou, pelo menos, à crescente relação entre os dois. Você, obviamente, recebeu pelo menos uma das cartas que lhe enviei.
Sherlock olhou para os lados, para fora da janela, antes que Mycroft pudesse ver o brilho repentino de lágrimas em seus olhos.
Em vez de pressionar Sherlock sobre o assunto, Mycroft suspirou um leve harrumph, então disse:
— Antes que pergunte, nosso pai ainda está na Índia com seu regimento. Tenho recebido uma série de cartas dele, então sei que ele está em forma e bem. Mamãe está... estável... mas sua saúde ainda é frágil. Ela dorme muito. Quanto à nossa irmã, bem, o que se pode dizer — ele deu de ombros. — Ela está como sempre esteve. Temo ter que lhe dizer, a propósito, que o tio Sherrinford teve uma queda feia. Ele quebrou um braço e várias costelas. Tia Jane está cuidando dele, mas na idade dele uma queda como essa pode acelerar o fim inevitável a que todos nós nos encaminhamos.
Sherlock levou alguns minutos para processar a informação. Ele sentiu uma pontada de tristeza. Não conhecera seu tio muito profundamente, mas ele pegara gosto pelo homem. Sherrinford encarnava uma bondade, uma moral cristã e uma obsessão com a pesquisa que tinha impressionado Sherlock no tempo que passara na Mansão Holmes.
— E você? — ele perguntou após algum tempo. — Ainda está vivendo em Whitehall e trabalhando no Ministério das Relações Exteriores?
— Sherlock, suspeito que estarei vivendo em um e trabalhando no outro até que o dia em que eu morrer. Quando você adiciona o Diogenes Club, onde passo a maior parte dos meus almoços e jantares, os três locais formam um triângulo que define a minha vida. — Ele olhou para Sherlock por alguns momentos em silêncio. — Deveremos discutir a qualquer hora dessas sobre o seu futuro, mas tenho a sensação de que precisaremos de uma figura geométrica com consideravelmente mais vértices do que um triângulo para descrevê-lo.
— Eu não sei se gosto da ideia de ser definido por alguma forma geométrica, Mycroft. Tanto quanto posso ver, o meu futuro é amorfo. Disforme.
— Você terá que ganhar dinheiro de alguma forma. Terá que viver em algum lugar. Tem que despender seus pensamentos nessas coisas.
— Mas não agora — disse Sherlock.
— Concordo. Não agora. — Mycroft estendeu a mão que segurava a bengala e bateu contra o teto da carruagem. — Condutor! Vamos lá! Leve-nos de volta para o hotel. — À medida que a carruagem deu uma guinada adiante, ele se voltou para Sherlock. — Reservei quartos na taberna local. O camas são afundadas, mas a comida é aceitável. Acredito que você não se oponha a passar uma ou duas noites aqui antes de voltarmos para a Inglaterra? — Ele parou por um segundo, e quando voltou a falar, sua voz era estranhamente hesitante. — Você voltará para a Inglaterra, não é?
Sherlock assentiu.
— Voltarei — ele confirmou. — Estive no mar e retornei. Não pretendo tornar um hábito ou fazer uma carreira lá. — Só para provocar seu irmão um pouco, ele acrescentou: — Talvez eu me junte ao circo em seguida, para experimentar.
— Há algumas experiências que podem ser descartadas com confiança — disse Mycroft. — Essa é uma delas.
Conforme a carruagem se distanciava do porto e entrava na cidade, Sherlock perguntou:
— Como exatamente você soube quando o Gloria Scott chegaria em Galway? E por falar nisso, como soube que ele chegaria em Galway? Existem outros portos onde poderíamos ter atracado.
— Ah. — Mycroft mexeu-se desconfortavelmente. — Você, como já é de seu costume, chegou justamente ao cerne da questão. Há um trabalho aqui que preciso fazer, e preciso de sua ajuda para isso.

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