20 de setembro de 2017

Capítulo treze

OS HOMENS TIRARAM AS ÁRVORES da carroça e conduziram os cavalos em um semicírculo para que pudessem voltar para o pomar novamente, presumivelmente para pegar mais árvores. O homem mais magro que os supervisionava deu uma última olhada ao redor, olhou para a casa e foi atrás dos homens.
Sherlock e Matty moviam-se cautelosamente pelas laterais da casa, mantendo-se abaixados para que pudessem ficar escondidos nas sombras da casa. Quando chegaram ao fim, espiaram pela borda. Estavam olhando para o pomar agora, e vendo mais árvores arrancadas.
A carroça vazia rondava lentamente um espaço que havia sido deixado entre as árvores.
Sherlock viu um arbusto grande ao lado da parede alta que delimitava os terrenos da casa. Ele olhou ao redor para verificar se não estavam sendo observados, então arrastou Matty pelo terreno aberto e mergulhou atrás do arbusto. Eles estavam olhando diagonalmente para o pomar agora, e era óbvio o que acontecia.
As macieiras mais próximas da casa tinham sido removidas e deslocadas para o gramado. As árvores mais adiante no pomar também foram movidas, algumas delas para o gramado e algumas delas colocadas nos buracos deixados pelas árvores que já haviam sido movidas anteriormente. Havia agora um espaço no meio do pomar onde antes havia macieiras – apenas buracos escuros restavam, como crateras na terra. O homem mais magro e alguns dos seus companheiros estavam abaixados na borda de um dos buracos, olhando para dentro. Enquanto Sherlock observava, um deles pulou dentro de um dos buracos. A cabeça do homem desapareceu quando ele se abaixou e começou a vasculhar lá embaixo. O homem magro, na borda do buraco, parecia que sussurrar instruções para o homem dentro do buraco.
— Eles estão procurando por algo que foi enterrado ali — observou Matty. — O problema é que eles não sabem onde foi enterrado, só que está embaixo de uma dessas macieiras.
— Isso mesmo. Eles estão trabalhando pelo pomar em uma sequencia lógica, das árvores mais fáceis para as mais difíceis de alcançar. — Sherlock sentiu um caloroso brilho de satisfação. Ele estava certo em suas deduções. — Você se lembra da história que Ferny Weston nos contou, a respeito do pomar que foi plantado na época da Guerra Civil Inglesa? Ele disse que havia um rumor de que o príncipe Charles ficou escondido das forças dos Cabeças Redondas de Oliver Cromwell aqui e que, em troca, ele havia dado à família Maberley um grande tesouro quando finalmente foi coroado rei. Eu estava me perguntando onde exatamente os simpáticos Cavaliers e o príncipe poderiam ter ficado escondidos, não há nenhum lugar na casa em que poderiam ter ficado secretamente. Imagino agora que seja óbvio que existam esconderijos sob as árvores do pomar. Os buracos devem ter uma profundidade maior do que um barril, deixando espaço para os refugiados se esconderem e esperarem até que os soldados que os estavam procurando por eles tivessem ido embora, e aí as árvores poderiam ser puxadas de novo e eles seriam resgatados. Eles devem ter levado comida com eles, e talvez até mesmo lâmpadas à óleo para que pudessem ler e se aquecer. — Ele gesticulou para os homens que procuravam. — Acho que eles pensam que o tesouro está escondido em um dos buracos também, e isso faz todo o sentido. Sabemos que eles buscaram a casa de Maberley primeiro, porque ele disse que às vezes acordava e a casa estava mais arrumada do que antes. Eles não encontraram o tesouro em qualquer lugar da casa, então começaram a procurar no pomar. Muito inteligente.
— Hmm... Eles estão trabalhando todo esse tempo para encontrar o tesouro? Isso que é dedicação.
— Provavelmente é algo extremamente valioso, joias e ouro, certamente, e a conexão histórica os tornariam mais valiosos ainda.
Matty pareceu impressionado.
— Todo esse tempo, noite após noite, e eles continuam.
— Não sei por que — murmurou Sherlock. — É óbvio onde o tesouro está.
— Você tem certeza? — disse uma voz alta atrás deles. — Nesse caso, pode nos poupar esforços.
Sherlock e Matty se viraram. Atrás deles, três homens mascarados estavam de pé. Dois deles tinham facas. O outro segurava uma arma, que estava apontada a meio caminho entre os dois meninos.
— Nós deveríamos ter acordado Maberley — Matty falou. — Ou, pelo menos, ter pego sua arma.
— Não adianta falar agora — murmurou Sherlock. — Você devia ter dito isso meia hora atrás.
— Ei, você deveria ser o inteligente.
— Parem de falar — ordenou o homem com a arma. — Pelo menos, por alguns minutos. Então vocês poderão falar tudo o que quiserem. Na verdade, não conseguirão falar com rapidez suficiente. — Ele gesticulou com a arma. — Vão para o pomar.
O grupo saiu, com Sherlock e Matty na frente e os outros homens os seguindo. Os dois homens que estavam com as facas ficaram um de cada lado, caso Sherlock ou Matty tentassem fugir. Eles atravessaram o gramado, entre os barris maciços que guardavam as macieiras e para o próprio pomar.
No centro do pomar havia doze buracos de onde as árvores foram removidas. À luz das estrelas e da lua em quarto crescente, e das lâmpadas blindadas que ele agora via que os homens usavam, os lados dos buracos pareciam lisos, alinhados com pequenas raízes na terra. Ele olhou para um dos buracos, e viu que o fundo era circular, mas que havia um buraco quadrado menor cavado na terra em seu centro. Esse buraco era mantido com madeira, parecia que uma caixa havia sido deixada lá dentro, mas sem a tampa. Ali, ele adivinhou, era onde os refugiados Cavalier teriam se escondido dos soldados Cabeças Redondas.
— Quem são esses? — perguntou uma voz.
Sherlock olhou para cima e viu o rapaz mais magro e mascarado que tinha visto direcionar os outros antes. O chefe. O responsável.
— Nós os encontramos perto da casa, chefe. Eles estavam observando vocês.
— Ah, mesmo? — o rapaz se aproximou para olhar Sherlock. — O que vocês querem?
Sherlock deu de ombros.
— Apenas saber o que está acontecendo. O Sr. Maberley nos contou sua história sobre a casa se movendo. Eu queria saber a verdade.
O homem, que pelo tom de sua voz estava mais perto de menino, riu.
— Sim, ele está contando essa história faz um tempo. No começo pensei que alguém poderia escutá-lo e vir verificar o que acontecia, mas não o fizeram, então deixei de me preocupar. Qual o seu nome?
— Isso importa? — Sherlock olhou para os olhos azuis do homem sob a máscara. — Não acho que você vai deixar a gente ir embora, certo?
— Não, não vou. Talvez, como você, eu só quisesse saber.
O homem com a arma deu um passo à frente.
— Ele disse que sabe onde está o tesouro.
O chefe deles moveu-se para encarar Sherlock e o olhou nos olhos por um longo momento.
— Ele não sabe — ele disse depois, com total confiança. — Ele pensa que sabe, mas é apenas um palpite. Ele não tem certeza.
— Mas se ele souber, poderia nos poupar muito tempo.
O rapaz sacudiu a cabeça novamente.
— Ele não sabe. Está apenas tentando se mostrar importante para manter a si e seu amigo vivos.
— Mas...
O rapaz fez um movimento de corte com a mão.
— Chega, o assunto está encerrado. — Ele se voltou para Sherlock e puxou a máscara de forma abrupta. Ele tinha aproximadamente a mesma idade que Sherlock e a mesma altura, embora seu cabelo castanho fosse mais longo. Ele olhou para Sherlock desafiadoramente. — Pensei que você poderia querer ver meu rosto, antes de morrer. Uma última cortesia.
— Muito gentil. — Sherlock sorriu. — Ou talvez você esteja cansado de ninguém saber quem você é, e quer que pelo menos uma pessoa veja seu rosto, saiba seu nome e lhe diga quão inteligente é antes disso acabar?
O rapaz deu de ombros.
— A fama tem seus benefícios e seus problemas. Dito isto, já fui desconhecido por um bom momento agora. Talvez isso mude.
— Qual o seu nome?
— Jude — o rapaz respondeu.
— Jude de quê?
Ele sorriu.
— Isso é tudo o que você vai saber até o momento. E você é...?
— Sherlock Holmes. E este é Matthew Arnatt. Tenho que admitir, estou impressionado em como você trabalhou para deixar esses homens na linha, sendo tão jovem e inexperiente, e eles tão maiores e fortes do que você. Estou surpreso por eles seguirem suas ordens e não terem tomado a liderança. Dessa forma, eles poderiam ter uma parte maior do tesouro, e não teriam que receber ordens de uma criança.
O menino riu.
— Você está tentando criar uma intriga entre nós. Não vai funcionar. Eles sabem que lhes darei o que querem.
— Eles querem dinheiro — observou Sherlock. — Não é tão difícil resolver.
Jude balançou a cabeça.
— Não é isso. Todo mundo quer algo diferente, mas eles quase sempre pensam que o dinheiro vai conseguir por eles. — Ele indicou um dos homens que tentava tirar uma macieira do chão. — Ali está Take Sutton. Ele diz que quer dinheiro, mas o que ele realmente quer é uma boa saúde e um fim para a dor terrível que tem em seus dentes podres. Eu sei disso. Posso falar com ele sobre isso e levá-lo a sério. — Ele apontou para outro homem, que patrulhava ao redor do pomar. — Aquele é Dillman, também diz que quer dinheiro, mas na verdade quer uma família que o ame, uma esposa e três filhos. Eu entendo isso, e ele sabe que eu entendo. É por isso que todos me seguem, conheço seus desejos mais profundos.
— Como você consegue fazer isso? — Sherlock perguntou, intrigado.
— Posso ver o que as pessoas querem. Posso dizer pelo jeito que eles olham para um lado quando falam, ou a maneira como brincam com seus dedos, até mesmo as palavras específicas que eles usam. É um talento que sempre tive.
— O que eu quero então? — Matty perguntou desafiadoramente.
Jude olhou para ele.
— Você quer um bom chute — ele retrucou.
Matty franziu o cenho para ele.
— Quer saber de uma coisa, eu não gosto de você.
— Nossa, como isso me magoa — respondeu Jude. — Independentemente disso, seus próprios desejos são irrelevantes. A partir de agora, o que acontece com você é o que eu quero.
— Você era estudante da universidade. — adivinhou Sherlock. — Entrou cedo por causa de seu brilho acadêmico.
— Bem deduzido. Eu era um aluno com bolsa de estudos, entrei por meus méritos, não porque meus pais pagaram. Eles não eram suficientemente ricos ou do círculo social certo.
— E você foi chutado.
Jude assentiu.
— Coisas desapareceram. Dinheiro foi roubado. Eu era mais novo, e não tinha experiência. Não tinha pensado nas implicações do que estava fazendo. Eu agi impulsivamente, em vez de pensar nas coisas. Então, eles se livraram de mim. As autoridades universitárias não tinham provas suficientes para ir à polícia, mas isso não as impediu de me expulsarem. Fiquei na área, e comecei a me especializar em assaltos de alto nível, obras de arte, estátuas, esse tipo de coisa. Há muitas pessoas ricas com coisas raras e agradáveis em torno de Oxford, e há mais gente ainda rica, longe de Oxford, que não têm essas coisas raras e agradáveis, mas que as desejam. Decidi agir como o homem do meio, tirando dos ricos e dando, bem, vendendo, aos mais ricos. Tem financiado um estilo de vida muito confortável para mim, e comprou a lealdade desses excelentes companheiros, cada um dos quais ganhando o de dinheiro que um professor de Oxford poderia esperar, além de satisfazer seus próprios desejos mais profundos.
Sherlock lembrou-se de algo que Ferny Weston lhe contou, sobre uma gangue de ladrões de arte que não era capturada.
— Você continuou fugindo a polícia. Deve ter tido informações privilegiadas, não só sobre as grandes casas e suas coleções de arte, mas também sobre o progresso da investigação policial.
O rapaz sorriu.
— Informação interna é minha especialidade. É o que me dá a minha vantagem.
— Quem era seu informante? Quem lhe deu informações sobre as grandes casas e a polícia?
— Agora isso — Jude disse, rindo — é um passo longe demais. Eu não me importo de me divertir com o quão inteligente eu sou, mas não me arrisco em dizer o quão inteligente são as outras pessoas, especialmente se elas trabalham para mim.
— Ou se você trabalha para elas. — Sherlock encontrou o ponto fraco de Jude. — Sim, você não é o chefão, é? Não é tão inteligente quanto quer que pensemos.
Jude virou-se para o homem com a arma.
— Eu me diverti muito — ele falou bruscamente. — Jogue-os em um buraco, coloque uma árvore sobre eles e deixe-os morrer de fome ou sufocar.
O homem olhou para a arma.
— Por que não apenas atirar neles? — ele perguntou, intrigado.
— Eu não gosto deles — disse o rapaz, olhando para Sherlock. — Este é muito inteligente. Quero que eles sofram, e enquanto ficam lá, morrendo, quero que se lembrem de quem foi que os superou.
Ele se afastou. Matty olhou para Sherlock e disse:
— Ele não é tão brilhante quanto pensa que é, não é?
— Como muitas pessoas — Sherlock respondeu — Ele é inteligente em alguns aspectos, mas não em todos.
— Chega de falação. — O homem com a arma deu um passo à frente, apontando a arma para Sherlock. — Entre no buraco.
— Ou o quê? — Sherlock desafiou. — Você vai atirar em mim? Seu chefe lhe disse especificamente para não atirar.
O homem não disse nada em resposta. Apenas deu um passo à frente e bateu com a arma na cabeça de Sherlock. O cano o atingiu na testa; Através da dor, Sherlock sentiu-se empurrado pelo pé de alguém para cada vez mais perto da borda do buraco mais próximo. Ele tentou desesperadamente cravar os dedos no solo para parar de se mover, mas não funcionou. Ele tentou se segurar na pessoa que o empurrava, mas o homem o chutou no estômago até ele se soltar.
— Não há espaço para os dois no mesmo buraco! — alguém falou.
O homem que empurrava Sherlock respondeu:
— Não é como se eles fossem ficar ali para sempre. O ar vai acabar antes de eles ficarem desconfortáveis! Deixe-os sofrer, o outro é pequeno de qualquer maneira!
— Não, quero dizer, com dois deles no mesmo buraco, não seremos capazes de colocar a árvore direito. Vai ficar mais alta, e alguém notará.
Ele hesitou um pouco e então disse:
— Tudo bem, coloque o menor no outro buraco. Eu estou terminando com esse aqui.
Sherlock olhou ao redor desesperadamente para ver onde estava Matty. Ele conseguiu um pequeno vislumbre do menino à sua direita, lutando com seus sequestradores, e então Sherlock sentiu os ombros serem empurrados para dentro do espaço vazio do buraco. Ele tentou sair, mas uma bota o segurou firme pelos ombros. A bota empurrou fortemente, e ele estava caindo, cada vez mais para o fundo.
Seus ombros e costas caíram para dentro do buraco, enquanto suas pernas batiam nas paredes enquanto seguiam pelo mesmo caminho. Um pico de agonia brotou dentro dele. Ele achou que poderia ter quebrado as costas. O peso de seu corpo caindo o fez bater contra a parede de dentro do buraco.
Ele tentou fazer suas pernas funcionarem, tentar escalar, embora o que ele pretendia fazer não fosse exatamente fácil. Um passo de cada vez. Ele conseguiu sentir sua perna, graças Deus, mas ela se recusava a fazer o que ele queria, apenas caiu como borracha quando ele tentou colocar algum peso sobre elas.
Ele olhou freneticamente, tentando resolver se tinha ficado lá sozinho enquanto lidavam com Matty ou se todos estavam agrupados ao redor do buraco, olhando para ele e rindo, mas tudo o que podia ver era a tampa da caixa que eles jogaram em cima dele. Ele se encolheu ao máximo para ficar com o corpo totalmente dentro da caixa e a tampa não o acertasse, e então a tampa bateu na caixa – ela tinha alguns buracos por onde passavam luz. Pelo menos até eles colocarem o barril contendo a macieira no buraco. Aí a luz desapareceu, e a terra caiu dentro da caixa junto com as raízes da árvore quando ela se encaixou no buraco, selando Sherlock.
Tudo o que ele podia sentir era o cheiro da terra úmida. Tudo o que podia ouvir era a sua própria respiração. Ele tentou se levantar novamente, e descobriu que suas pernas estavam funcionando melhor agora. A paralisia só tinha sido temporária, o que significava que suas costas estavam bem. Isso foi um pouco reconfortante, mas o resto não.
Algo vivo caiu através de uma das lacunas das raízes da árvore. Ele sentiu aquilo batendo em seu ombro e andando ao redor do seu pescoço, pequenas pernas grudando contra sua pele enquanto se movia. Era um besouro, pensou ele. Inofensivo. Mais assustado com ele do que ele com o bicho.
Ele voltou a sua atenção para tentar ficar de pé. Seus ombros e a parte de trás de sua cabeça atingiram a tampa da caixa, e pararam. Não houve nenhum movimento, nenhuma alavanca. O peso de toda a macieira acima dele efetivamente selava a caixa fechada.
Ele estava sozinho, e preso. Aqueles pensamentos continuavam girando em sua cabeça. Não havia saída. Matty também estava preso, e Maberley estava drogado. Ninguém mais sabia onde eles estavam, e os criminosos não teriam uma culpa de última hora e os deixariam sair. Era isso. Este era o fim.
Não, não era o fim. O pensamento surgiu na confusão de sua mente como algo vasto e certo, quebrando a superfície de um mar agitado. Não era o fim. Ele sairia. A lógica o levaria para fora.
Ele descansou suas costas enquanto tentava pensar em tudo o que já tinha ouvido sobre esconderijos da família real e tudo o que tinha pensado quando Ferny Weston contara a história. Tentou imaginar o que os nobres ou a família Maberley teriam pensado enquanto cavavam os buracos e construíam os esconderijos. Havia tantos buracos, vinte, trinta, talvez mais. Mesmo que apenas metade deles estivesse ocupado, haveria muitas pessoas presas no subsolo esperando que os soldados se afastassem, e isso poderia levar horas. Talvez até dias. Algumas pessoas escondidas podem ser claustrofóbicas e entrar em pânico. Algumas teriam problemas para respirar. Outras ficariam famintas. Fazia sentido construir algum tipo de via de fuga para eles, talvez um conjunto de túneis embaixo das caixas, de modo que, se houvesse uma emergência, eles pudessem sair mesmo que fosse difícil e demorado. Sim, isso fez todo o sentido.
Sherlock começou a sentir as bordas da caixa, procurando sinais de dobradiças ou uma espécie de abertura. No fundo de sua mente veio o pensamento indesejado de que ele estava inventando algo que na realidade provavelmente não existia, mas ele se recusou a deixar esse pensamento influenciá-lo. Ele tinha que ficar calmo, manter a sanidade e sair de lá.
A lógica dizia que os construtores teriam colocado uma rota de fuga, e, portanto, ele a encontraria. Pronto.
Exceto que ele não conseguia sentir nenhuma dobradiça ou qualquer abertura. Ele tentou o painel a sua frente, então ele se virou para a direita e repetiu o procedimento. Nada ainda. Ele se virou novamente, de modo que estava voltado para trás. Nada ainda. Mais uma rotação, e ele tinha que encontrar as dobradiças desse lado. Elas tinham que estar lá.
Mas não estavam.
Ele sentiu sua respiração raspando em sua garganta. Seus dedos estavam em carne viva com o esforço de arranhar a madeira da caixa. Ele podia ouvir um gemido distante, e por um segundo pensou que alguém estava tirava a macieira e o chamava, mas então percebeu que o som vinha de sua própria garganta. Apesar de sua lógica, uma parte dele estava sucumbindo ao pânico e ao desespero.
Ele tentou os quatro lados, e sabia que a tampa acima dele não se movia. Ainda havia uma direção para checar.
Os dedos de Sherlock tatearam ao redor do fundo da caixa. Era estranho, e ele tinha mover os pés e girar o corpo ligeiramente, mas sabia que esta era a sua última chance e ele tinha procurar direito.
Seus dedos roçaram algo metálico, e depois seguiram em frente. Ele voltou, tentando encontrar novamente. Sim, ali estava! Ele tentou descobrir o que era naquela escuridão. Retangular, sim, e metálico. Poderia ser uma dobradiça. Se fosse, então haveria outra por perto... ali!
Sim, estava lá. Ele sentiu seu coração começar a acalmar-se agora, e antes de continuar, respirou fundo várias vezes para se acalmar. Tudo bem, se havia uma dobradiça aqui e ali, então haveria uma abertura do outro lado, certamente.
Ele esticou a mão direita e roçou a base da caixa. Algo se contorceu sob sua mão – um verme, talvez? Ele engoliu sua repentina náusea e continuou.
Sim! Havia uma fixação de metal na junção entre o fundo e o lado da caixa. Parecia para Sherlock que todo o fundo da caixa estava articulado para que ele se abaixasse para dentro de outro espaço.
Exceto que ele não conseguiu arrumar o dispositivo. Aquilo segurava o fundo da caixa no lugar, mas seu peso sobre a madeira estava bloqueando, impedindo que a tranca se movesse. Ele teve um súbito estalo de frustração ao imaginar os projetistas dos esconderijos há duzentos ou mais anos olhando para a sua obra e felicitando-se pela estrutura impecável sem realmente ter tentado ver se funcionava na prática.
Ele tinha que fazer aquilo funcionar. Ele tinha duas dobradiças, uma abertura e uma base que funcionava como um alçapão, o que era significativamente mais do que ele tinha cinco minutos antes.
Sherlock apoiou as pernas contra os lados da caixa, tirou o peso da base e tentou novamente mover o trinco com os dedos. Desta vez, houve movimento, e ele colocou toda a sua energia em deslizar a lingueta para o lado.
Os músculos de suas pernas começaram a queimar como se estivessem banhados em ácido, e lascas estavam penetrando em sua pele por toda parte, mas ele moveria aquela lingueta. Apesar de dois séculos de negligência, apesar da ferrugem e da podridão e tudo o que a natureza pode ter jogado sobre ele, aquele pino estava entre ele e a liberdade, ele iria se mexer!
A lingueta deslizou calmamente para o lado, como se esse tivesse sido o seu plano o tempo todo. O fundo da caixa saiu e Sherlock caiu em um espaço estreito e úmido.
Olhando ao seu redor, ele parecia estar em uma encruzilhada. Havia túneis que levavam para frente, para os dois lados e para trás dele. As paredes dos túneis eram feitas de terra, com raízes e outros detritos orgânicos crescendo neles. A cada trinta centímetros mais ou menos, tábuas de madeira estavam pregadas para impedir os túneis de entrar em colapso.
Qual caminho percorrer? Uma opção era dirigir-se para a fronteira mais próxima do pomar, que provavelmente teria um caminho para a superfície, mas isso deixaria Matty preso e em pânico. Não, ele tinha que buscar seu amigo primeiro.
Mas em qual direção? Matty estava à direita de Sherlock quando Sherlock foi jogado no buraco, mas Sherlock tinha feito uma volta de três quartos dentro da caixa quando estava tentava encontrar uma saída. Isso significava... Significava que Matty estava atrás dele.
Ele se virou no túnel estreito, terra caindo em sua cabeça enquanto seus ombros raspavam as paredes do túnel e sua cabeça roçava o teto. Ele tentou estimar a distância a que o próximo buraco estava. Três metros, talvez?
Sherlock começou a rastejar, os dedos cavando na terra do chão do túnel. Pequenos besouros e outros invertebrados corriam sob seus dedos quando ele se movia, mas ele os ignorou. Suas costas doíam de ficar dobradas, mas ele também ignorou isso. Tudo o resto era uma distração, ele tinha que chegar a Matty, e depois tirar os dois daqui.
Algo fez um ruído como um grunhido a sua frente. Ele parou no túnel, ouvindo. Um ruído estranho. Havia algo no túnel com ele.

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