12 de setembro de 2017

Capítulo treze

— A PERGUNTA ÓBVIA — Amyus Crowe disse — é: Como diabos ele subiu até lá?
— Não—, Mycroft Holmes respondeu. —A pergunta óbvia é: Por que ele foi colocado lá em cima? A maioria das vítimas de assassinato é deixada onde o crime foi cometido ou é escondida em outro lugar, na esperança de que não sejam encontradas. O assassino, apesar de toda a complicação, levar o corpo até o alto da torre indica que ele tinha uma forte motivação. E qual seria?
Horas se passaram desde que Sherlock encontrara o corpo de Sir Sadrach. Sua reação imediata foi, é claro, verificar se Sir Sadrach estava realmente morto, mas o corte no pescoço do homem e o sangue que tinha encharcado sua camisa e se acumulado em seu colo eram provas suficientes do ponto de vista Sherlock. Sua segunda reação foi olhar ao redor, à procura de alguma maneira pela qual o corpo pudesse ter sido levado, juntamente com a cadeira de rodas, ao topo da torre, mas não havia nada – nem cordas, escadas, nem nenhum mecanismo para erguer algo do tamanho e do peso de um homem a tal altitude. Sua terceira reação foi descer a torre da mesma maneira pela qual subira e retornar ao castelo para relatar a morte de Sir Sadrach, e esta descida e a corrida subsequente pareciam ter sido os momentos mais longos de sua vida.
Mycroft e Crowe acreditaram nele imediatamente, é claro, mas levou um certo tempo antes que ele pudesse convencer von Webenau, Herr Holtzbrinck e conde Shuvalov. Depois, os seis marcharam de volta para o folly junto com um punhado de criados chocados e uma Silman claramente angustiada.
Niamh Quintillan ainda estava fora, e não pôde ser encontrada. Duas das lacaias subiram até a torre usando a mesma rota que Sherlock tomara. Elas falaram lá de cima, confirmando o fato de que Sir Sadrach estava realmente lá, e que estava mesmo morto.
— Poderia ser esta uma forma de ocultar o corpo? — Sherlock perguntou, olhando para a torre. — Quero dizer, ninguém adivinharia que eu subiria lá em cima, e o corpo é invisível daqui de baixo, do chão.
— Mas por que ter todo esse trabalho? — Mycroft repetiu. Ele estava procurando em volta por um lugar para sentar, e ficou carrancudo quando percebeu que não havia nenhum lugar adequado. — Por que simplesmente não cavar um buraco e enterrá-lo no matagal?
— É uma mensagem — disse Crowe. — Talvez o assassino não se importasse se o corpo seria descoberto ou não, mas teria nisso algum objetivo. Ou talvez estivesse para nos enviar algum tipo de bilhete ou mensagem para nos dizer onde o corpo estava, e o jovem Sherlock aqui apenas se antecipou a isto.
Sherlock ainda olhava para cima.
— Suponho que o corpo possa ter sido manobrado através de uma daquelas fendas lá no alto — disse ele — mas Sir Sadrach teria que estar vivo para isso, caso contrário haveria vestígios de sangue por toda parte. Penso que ele teria que estar inconsciente, no entanto, de outra forma ele teria lutado. O que é bem estranho é a cadeira de rodas. Ela não passaria pelas fendas. Deve ter sido puxada para cima por meio de cordas, mas isso teria levado horas, e com que propósito?
— Pelo o que você descreveu — Mycroft falou — não há dúvidas sobre a causa da morte. A garganta do homem fora cortada.
— Foi o que eu vi — Sherlock confirmou.
— O que exatamente é esta coisa? — Mycroft olhou para a torre. — Parece não ter nenhum propósito prático.
— É um folly — Sherlock apontou.
Crowe fez uma careta.
— O que é um “folly” aqui nessa região?
— Um ornamento de jardim grande e impraticável — Mycroft explicou. Ele balançou a cabeça. — Por que as pessoas não podem ficar satisfeitas com gnomos de jardim é o que não entendo.
Silman, que estivera falando com von Webenau, Holtzbrinck e Shuvalov, aproximou-se deles.
— Senhores — ela começou — eu estou... triste que esta coisa terrível tenha acontecido. Estou perdida sem saber o que devo fazer.
— Qual foi a última vez que viu Sir Sadrach? — perguntou Mycroft.
— Ele estava se sentindo mal, então tomou o café da manhã em seu quarto. Essa foi a última vez que o vi. Fui procurá-lo mais tarde, mas ele não estava lá. Assumi que outra criada, ou talvez a filha, estivesse com ele.
— Ninguém o viu deixando o castelo?
— Ninguém — disse ela.
— A polícia precisa ser notificada — disse Mycroft com firmeza. — E ninguém que esteve aqui deve ser autorizado a partir.
— Mas os cavalheiros estrangeiros estão falando em partir imediatamente — Silman protestou. — Eles pediram que o transporte fosse providenciado.
— Absolutamente não — Mycroft insistiu. — Eles estiveram presentes no castelo quando o assassinato ocorreu e portanto são suspeitos, quer gostem disso quer não.
— Será que eles não possuem imunidade diplomática? — perguntou Crowe calmamente.
— O Congresso de Viena garante certos direitos — Mycroft admitiu — mas apenas a diplomatas certificados, não a visitantes comuns. Não sei quanto aos outros três cavalheiros, mas quanto a você, Sr. Crowe, possui documentos diplomáticos?
A boca de Crowe contraiu-se.
— Não exatamente. Eu sou suspeito?
— Não exatamente — Mycroft rebateu. — Estou apenas demonstrando o argumento. Somente pessoas com documentos diplomáticos têm direito a imunidade, e mesmo assim essa imunidade pode ser retirada pelos seus próprios governos se eles estiverem envolvidos em um crime grave a parte de suas funções diplomáticas. Mas estamos nos adiantando demais – em primeiro lugar, tem de haver um crime oficial, e isso implica no envolvimento da polícia. Todos nós devemos ficar aqui até que a polícia chegue e tenha concluído o seu exame e interrogatório.
— A polícia irlandesa? — Crowe questionou. — De Galway? Este não é um caso de uma vaca desaparecida, você sabe. É um assassinato.
— E estou certo de que a cidade de Galway em uma noite de sexta-feira verá seu quinhão de violência. — Mycroft olhou para Silman, que ouvia a discussão pacientemente. — Em primeiro lugar, não organize uma viagem para quem quer que seja. Em segundo, envie alguém até a cidade para chamar a polícia, energicamente se possível. Em terceiro, encontre algum meio de descer o corpo de Sir Sadrach da torre. Suponho que a polícia vai querer vê-lo no local do crime, mas precisamos estar preparados para movê-lo assim que houver permissão.
— E em quarto lugar — Sherlock acrescentou — encontre Niamh. Ela precisa ser informada.
Mycroft assentiu.
— Um ponto válido, Sherlock. Agora, irei me retirar e acalmar os ânimos destes cavalheiros. Se me dão licença...
Ele foi até o outro grupo. Crowe ficou olhando para ele por um momento, e então disse:
— Preciso ir ter uma conversa com Virginia. Prefiro que ela ouça o que aconteceu por mim ao invés de ouvir de um dos criados, ou escutando uma conversa de passagem.
— E quanto a Niamh? — perguntou Sherlock.
— Se eu vê-la, direi a ela também. E quanto a você?
— Ficarei por aqui e verei se alguma coisa me ocorre.
Crowe assentiu e foi embora. Sherlock foi para a beira da clareira em que a torre se erguia e encontrou um velho tronco de árvore onde pôde se sentar. Ele ficou lá por várias horas, vendo quando a polícia chegou de Galway e examinou brevemente a cena, e então como primeiro o corpo e em seguida a cadeira de rodas de Sir Sadrach Quintillan foram baixados com cordas a partir do topo da torre. Ele ouviu, de onde estava sentado, o sargento de polícia dizendo a Silman que este era obviamente um assassinato, e que ele teria que falar com todos no castelo. Um par de criados levou o corpo agora envolto em um lençol, embora conduzindo-o na cadeira de rodas da maneira como teriam feito se Sir Sadrach ainda estivesse vivo.
Sherlock ficou sentado ali por um longo tempo depois disso, apenas olhando para a torre, deixando os pensamentos girarem em torno de sua mente até que, como acontecia com frequência, eles se tocaram e começaram a encaixar. Ele estava começando a desenvolver uma teoria, e ela dependia da torre estar onde estava, e do que ela era.
Ele ouviu um movimento atrás dele, e falou:
— Está tudo bem. Estou apenas sentado aqui. Você pode vir para campo aberto, se quiser.
Niamh Quintillan saiu dos arbustos. Ela obviamente esteve chorando: seus olhos estavam vermelhos e a pele debaixo deles estava inchada.
— Você o matou — ela disse em voz baixa, mas com uma intensa ferocidade.
— Eu não — replicou ele, sentindo-se sem fôlego com a força de sua acusação. — Não tinha razão para isso.
— Você expôs os truques que ele e o Sr. Albano estavam usando durante as sessões. Se você não o tivesse exposto, ele ainda estaria vivo.
— Na verdade, não é bem assim — disse Sherlock calmamente, esperando que Niamh se acalmasse também. — Ele e o Sr. Albano conseguiram recuperar grande parte do terreno que haviam perdido quando revelei todos os truques que estavam usando. O leilão se encaminhava para ocorrer esta tarde, com a licitação para os alemães, os russos e os austro-húngaros. A situação tinha mais ou menos voltado ao que era antes que eu dissesse qualquer coisa. — Ele fez uma pausa. — Isto, penso eu, é o motivo de ele ter sido morto – porque o leilão seguiria em frente. Acho que, se os outros delegados internacionais tivessem me escutado e o leilão tivesse sido cancelado, ele ainda estaria vivo.
— Então talvez você devesse ter explicado o truque com a pintura também. Se tivesse feito isso, o leilão teria sido cancelado.
— Temo que seu pai tenha sido esperto demais para mim — admitiu Sherlock — embora eu esteja a ponto de descobrir como foi feito.
— É tarde demais — disse Niamh. Ela começou a se afastar, mas Sherlock não se virou para olhá-la.
— Sim, é tarde demais — ele concordou em voz baixa, sentindo-se tonto com o pensamento de que ela o culpava — ainda assim, eu não o matei. Não fui eu quem segurou a faca contra a garganta dele para cortá-la. Não fui eu quem o assistiu sangrar até a morte. — Suas palavras eram duras, ditas deliberadamente – ela o tinha ferido com sua acusação e ele queria feri-la de volta.
Houve silêncio por um tempo. Sherlock pensou que Niamh tivesse ido embora, mas de repente ela falou.
— Eu sempre vou te culpar.
— Eu sei — ele respondeu, em seguida: — Niamh, você tinha conhecimento dos truques em que seu pai estava envolvido? Você sabia que as sessões eram falsas? — Quando ela não respondeu, ele acrescentou: — Você ajudou a fixar os fios para pendurar o material, ou foi quem operou o projetor de luz, talvez?
Ainda não houve resposta. Quando ele se virou, ela já tinha ido.
Ele caminhou em direção à torre. Achava agora que sabia como o truque com a pintura tinha sido feito, mas precisava ter certeza. Ter uma teoria é inútil, a menos que você tenha evidências para apoiá-la.
Ele começou com as quatro pedras de cor clara que estavam emperradas na base da torre, aquelas com anéis de ferro fixados. De pé ao lado de uma delas, ele fez o que deveria ter feito antes, quando as percebera inicialmente, e olhou para cima na lateral da torre. Sim! Lá, a cerca de seis metros de altura, havia um espaço escuro que deveria ser um buraco na pedra. Tinha cerca do mesmo tamanho que o buraco no nível do solo em que a pedra estava emperrada. Seis metros acima, havia outro buraco. Ele caminhou ao redor da circunferência da torre, notando que havia espaços equivalentes acima de cada uma das quatro pedras. Eles pareciam continuar até o topo da torre, sempre a cada seis metros, mais ou menos.
Havia mais uma coisa que ele precisava saber. Escolhendo uma das pedras mais claras ao acaso, ele caminhou em linha reta para longe da torre, mantendo-a às suas costas. Ele descobriu que havia uma trilha tênue através da vegetação rasteira onde não crescia arbustos, e onde a grama estava atrofiada. Virando-se, ele olhou para a pedra mais clara. Se, pensou ele, uma corda fosse presa ao anel de ferro e um burro ou um cavalo estivesse preso à corda, a pedra poderia ser puxada da torre. Se todas as quatro pedras fossem puxadas para fora...
Agora ele tinha evidência suficiente, mas se quisesse convencer Mycroft e Amyus Crowe, então precisaria construir um modelo em escala. Palavras não seriam o bastante.
Antes de partir para o castelo, ele retornou para a torre e procurou ao redor da base. Ele rapidamente encontrou o que procurava: fragmentos da pedra mais escura de que a própria torre era feita: a pedra cheia de minúsculos buracos de ar. Elas eram surpreendentemente leve em sua mão, e ele as deslizou para dentro do bolso para mais tarde.
De volta ao castelo, o sargento da polícia entrevistava os criados na sala de recepção. Ele obviamente tinha acabado com os representantes estrangeiros mais importantes.
Sherlock notou um sino em uma mesa lateral no salão principal. Ele tocou-o e esperou. Após alguns minutos Silman apareceu. Ela parecia, se é que alguma coisa, ainda mais séria e azeda do que o habitual. A morte de Sir Sadrach obviamente a tinha abalado.
— Sim, senhor? — ela perguntou polidamente.
— Eu preciso de uma grande bacia de água e algumas folhas de cartolina — solicitou ele. — Ah, e um jarro de água também. E uma tesoura. — Ele pensou por um momento. — E quatro facas. E alguns alfinetes. Ah, e um pouco de cera de selagem e uma vela acesa.
Ela levantou uma sobrancelha, mas apenas disse:
— Sim, senhor. É claro.
— E você poderia mandar tudo para a sala de jantar para mim?
— Dadas as circunstâncias, uma refeição leve e fria foi preparada na sala de jantar caso alguém sinta fome e queira almoçar. A mesa está quase cheia.
— Ah. Tudo bem... pode levar o material à biblioteca então? — de repente, ocorreu-lhe que ele mesmo não tinha almoçado. — E um dos criados poderia montar um prato de carnes frias e levá-lo para mim?
— Sim, senhor.
Em uma febre de excitação, Sherlock foi à biblioteca esperar. Enquanto isso, examinou as prateleiras em busca de livros de geografia e geologia, e logo encontrou o que procurava. Quando o material e a comida chegaram, ele começou a trabalhar. Primeiro colocou a bacia sobre uma mesa e cortou uma tampa circular para ela de cartolina – seu diâmetro alguns centímetros maior que o da bacia. No centro da tampa ele fez um buraco. Em seguida, fez um longo ao enrolar uma folha de cartolina, prendendo-a com alfinetes. Fez uma base circular para o tubo menor do que a tampa sobre a bacia mas maior do que o próprio tubo e a fixou com um pouco de cera derretida de selagem.
Olhando para ele de forma crítica, percebeu que teria que fazer algumas modificações no tubo. Usando uma das facas, cortou aberturas na lateral para representar as janelas do folly, e então, para terminar, fez uma série de pequenas fendas na cartolina do tubo. Fez isso em grupos de quatro, espaçadas igualmente em torno da circunferência, e separando os grupos de quatro ao longo do comprimento do tubo por alguns centímetros.
Agora estava pronto. Ou quase. Ele pegou um pouco de comida da bandeja e enfiou na boca, trabalhando enquanto mastigava.
Ele deslizou o tubo de cartolina através do orifício na tampa da bacia, de modo que a base circular do tubo estivesse pressionada contra a parte de baixo da tampa. O tubo era um pouco mais estreito do que o buraco, por isso deslizava facilmente pelo espaço. Então, porque ele não queria que a parte inferior da base do tubo ficasse encharcada, ele derreteu um pouco de cera de selagem e espalhou sobre a base para selá-la.
Agora era arrumar a coisa toda. Ele colocou a tampa de cartolina sobre a bacia de água de modo que o tubo de cartolina ficasse suspenso no ar, então deixou que o tubo descesse de modo que a base circular, a que ele tinha coberto com cera de selagem para impermeabilizar, ficou descansando na superfície da água. Ele então posicionou as quatro facas no topo da tampa da bacia ao redor da circunferência do tubo.
Ele deu um passo pra trás para examinar o seu trabalho e percebeu com uma maldição que tinha esquecido algo. Ele precisava ser capaz de pôr água dentro da bacia. Agarrando uma das facas, ele cuidadosamente cortou um buraco quadrado na tampa da bacia.
Agora estava pronto.
Sem querer perder um precioso segundo sequer, ele correu para o átrio. Como estava com sorte, Mycroft e Amyus Crowe estavam de pé ao lado da porta, acompanhando o sargento da polícia prestes a ir embora. Eles apertaram as mãos e o policial partiu.
Mycroft se virou e avistou Sherlock.
— Que diabos é isto? — perguntou ele. — Você está como quando encontrava um sapo no jardim dos fundos e o trazia para dentro de casa para mostrar à nossa mãe.
— Eu sei como o truque da pintura foi feito — ele anunciou. — Venham comigo e demonstrarei.
Mycroft e Crowe seguiram-no até a biblioteca. Mycroft bateu o olhar no modelo de cartolina em cima da mesa e disse:
— É claro! Como pude ser tão cego?
Crowe olhou dele para Sherlock e de volta para ele.
— Alguém quer me deixar partilhar o segredo?
Sherlock fez um gesto para o modelo.
— Este é o folly – a torre nos terrenos do castelo.
— Certo. Pude ver isto.
— Não achou que a torre é feita de uma pedra bastante incomum?
— Achei — Crowe admitiu. — Muito porosa, e muito escura.
— É de fato chamada de pedra-pome. É produzida em vulcões quando a lava derretida esfria. — Ele pegou do bolso os fragmentos que havia coletado e entregou-os para Mycroft e Amyus Crowe examinarem.
— Não há muitos os vulcões na Irlanda — Crowe observou.
— Exatamente. A pedra foi trazida para cá de outro lugar. A principal coisa sobre pedras-pome é que elas têm densidade menor que a água. Pedras-pome flutuam na água.
— Acho que sei aonde você quer chegar com isso.
— A torre é feita de pedras-pome — Sherlock continuou. — As pedras devem ter sido enviadas para cá de algum local vulcânico, esculpidas em blocos e usadas na torre. O negócio é que a torre não termina no chão: ela desce além da superfície. Sei disso porque encontrei sua parede exterior quando explorava os túneis sob o castelo. Pensei que fosse apenas um bloqueio no túnel, mas na verdade era a própria torre.
— Para baixo até onde? — perguntou Crowe.
— Para baixo até onde o mar entra através de uma série de cavernas. Toda esta área é repleta de cavernas. Em algum ponto há a base da torre, que é um grande bloco de pedra-pome que repousa sobre a superfície do mar – ou, pelo menos, faz isso quando o mar entra. Quando o mar está recuado, então a pedra repousa sobre o solo.
— E quando o mar entra — Crowe inspirou — a torre flutua, e começa a subir.
— Exatamente.
Sherlock pegou a jarra de água da mesa e esvaziou-a na bacia através do buraco que tinha feito. O nível da água aumentando empurrou a base circular da torre para cima, por baixo da tampa da bacia, e a torre cresceu lentamente em altura.
— Eu não conseguia entender — ele falou — porque às vezes eu conseguia ver a torre e às vezes não. No começo pensei que fosse devido à paisagem, mas a resposta real é que às vezes ela estava mais alta e às vezes mais baixa.
Crowe balançou a cabeça.
— Mas nós teríamos visto o fato de que a torre estava crescendo. Estivemos lá por horas, e ela não se moveu.
— Isso porque as âncoras estavam lá — disse Mycroft. — Mostre-lhe, Sherlock. Presumo que seja para isto que as facas sirvam?
Sherlock assentiu. Ele tinha parado de despejar água na bacia quando quatro das fendas que tinha feito na torre de cartolina apareceram acima do nível da tampa da bacia. Ele deixou o jarro de lado e deslizou as facas através da cartolina, uma por vez, até que estivessem todas presas na parede da torre, nas fendas. Ele pegou a jarra de novo e derramou mais água na bacia. As facas ancoraram a torre no lugar.
Na bacia, o nível da água subiu acima da base da torre, fazendo com que a cartolina ficasse molhada, mas Sherlock não se importou. Ele tinha demonstrado o seu ponto.
— Há quatro grandes blocos de pedra encaixados ao redor da torre — disse ele. — Eu queria saber primeiramente o que elas eram, até que percebi que eram cunhas. Quando a torre chega numa certa altura, elas podem ser marteladas para dentro e segurá-la no lugar. Quando se precisa que a torre fique menor novamente, as cunhas pode ser puxadas para fora.
Mycroft estava franzindo a testa.
— Presumo que tal ação só possa ocorrer no momento em que o nível da água esteja em certo ponto, caso contrário a torre poderia cair verticalmente por muitos metros, e isso poderia ser catastrófico.
— Estou certo de que há um livro inteiro de instruções sobre como levantar e abaixar a torre — disse Sherlock. — Ainda estou tentando resolver isso tudo.
— Presumo que tenha algo a ver com contrabando? — perguntou Crowe. — Sei que esta parte do litoral era conhecida pelo contrabando há alguns anos. A torre daria a eles um lugar perfeito para esconder suas mercadorias ilegais. Colocá-las em uma sala da torre, esperar até a maré ir, e então fixar a torre no lugar para que as mercadorias estivessem abaixo do solo. Engenhoso!
Sherlock apontou para o modelo.
— E isso explica o truque com as pinturas. Quando nós olhamos pela janela da sala no andar de cima do castelo, a torre estava em seu ponto mais baixo – abaixo da linha dos arbustos e das árvores. Depois que nos reunimos lá fora, as cunhas foram removidas e a torre foi capaz de subir até sua altura máxima. Acho que havia um criado lá com um telescópio, capaz de ver dentro da sala. Viram qual pintura eu tinha pendurado, e de que maneira eu a tinha pendurado, e então deram a mensagem à Ambrose Albano enquanto ele estava longe de nosso olhar e fingia comunicar-se com os mortos.
Crowe balançou a cabeça.
— Um plano tão complexo.
— Truques de mágica são sempre complexos — disse Sherlock. — Aprendi isso com o Sr. Albano. E eles sempre usam algum tipo de distração. Neste caso, todo o negócio com o pó de giz azul foi a distração. Isso nos fez pensar em algo completamente diferente.
O rosto de Mycroft assumiu uma expressão sombria.
— E a morte de Sir Sadrach? Como entra esse fator na sua explicação?
— Eu não sei quem o matou, ou o por que — disse Sherlock — mas eu sei como. A torre foi descida em seu ponto mais baixo, na maré baixa. A parte superior da torre estava, provavelmente, no nível do solo então. Sir Sadrach foi morto, e sua cadeira de rodas foi simplesmente empurrada para cima da torre. Quando a maré voltou, a torre se elevou novamente, e as cunhas de pedra foram postas no lugar.
— Há uma falha no seu argumento — Crowe apontou. — Duvido que o nível do mar por aqui varie da maré baixa para a maré alta tanto quanto a altura da torre. Como você explica isso?
— Penso que há duas coisas funcionando aí. A primeira é que o mar provavelmente é canalizado através de pequenos túneis e fendas por todo o caminho para dentro das falésias, desenvolvendo uma pressão muito maior dessa maneira. Essa pressão hidráulica é o que empurra a torre para cima e para baixo. — Ele hesitou, pensando. — Quando Mycroft e eu chegamos, Sir Sadrach nos disse que a sala ascendente era operada por energia hidráulica, impulsionada pelas marés. A torre funciona da mesma maneira, numa escala muito mais maciça. A torre, quando ele a descobriu, deve ter-lhe dado a ideia para a sala ascendente.
— E a segunda coisa?
— Não acho que os traficantes gostariam de estar sujeitos ao sobe e desce das marés. Estou supondo que eles tinham algum tipo de sistema de barragem para que pudessem acumular a água do mar e impedi-la de chegar à base da torre, ou subitamente liberar a água acumulada e elevar a torre quando quisessem.
Mycroft bateu palmas.
— Fascinante, ainda que isso – e isso é fascinante, disso você não deve ter dúvida – não nos aproxime de resolver o mistério de quem matou Sir Sadrach.
— Precisamos solucionar esse mistério? — o rosto de Crowe estava sério. — A polícia está envolvida, e o leilão não será realizado. Nosso papel aqui está terminado.
— Não — disse Sherlock simplesmente. — Não podemos ir sem encontrar o assassino.
— Por que não?
— Sir Sadrach está morto por nós estarmos aqui. Seu assassinato tem algo a ver com o leilão. Nós não causamos diretamente a sua morte, mas se nenhum de nós tivesse aparecido, então ele ainda estaria vivo. Acho que temos responsabilidade moral em encontrar seu assassino e levá-lo à justiça.
Fez-se silêncio na sala por alguns instantes.
— Reconheço essa expressão em seu rosto — disse Mycroft tristemente. — Isso significa que não sairemos daqui até que ele esteja satisfeito.
— Deve ser uma característica familiar — Crowe murmurou.
Mycroft consultou o relógio.
— Cavalheiros, acho que chegou o momento de tomarmos alguma ação assertiva. Venham comigo.
Ele foi até a porta da biblioteca. Sherlock e Crowe trocaram olhares, e depois o seguiram.
Mycroft os conduziu até o átrio do castelo e para a porta principal. Silman estava no átrio, e moveu-se para interceptá-lo.
— Como pediu, Sr. Holmes, todos os outros representantes permanecerão aqui. Presumo que o senhor também ficará?
— Ficarei — Mycroft retumbou — mas eu percebi que meu irmão não foi interrogado pela polícia. Ele esteve nos terrenos do castelo por toda a manhã. No momento em que retornou, o sargento da polícia estava saindo. Vou levá-lo à Galway agora, se a senhora tiver a amabilidade de nos arranjar uma carruagem. O Sr. Crowe aqui gentilmente se ofereceu para ir conosco, apenas caso alguém se preocupe que estejamos indo direto para a estação de trem.
Silman parecia incerta. Crowe sorriu tranquilizadoramente.
— Nós todos temos que ficar até que a investigação esteja concluída, madame — disse ele. — Eu não tenho nenhuma razão para não acreditar no Sr. Holmes quando ele diz que ele e seu irmão retornarão, mas há um velho ditado em meu país: “Ponha sua fé em Deus, mas sempre mantenha seu cavalo atrelado”. A senhora sabe que retornarei porque estou indo e deixando minha filha sob seu teto.
Silman assentiu.
— Agradeço, Sr. Crowe. Arranjarei uma carruagem de imediato.
Quando ela estava fora do alcance da voz, Crowe disse:
— Onde estamos indo?
O rosto de Mycroft era ilegível.
— Como eu disse, iremos para Galway.
A carruagem chegou somente dez minutos depois – uma de quatro com um único cavalo anexado. Todos eles subiram, e a carruagem partiu em direção aos portões principais do castelo.
Assistindo o castelo diminuir à distância, Sherlock descobriu que tinha sentimentos mistos. Embora não estivesse em casa, acostumara-se com ele ao longo dos últimos dias.
Então novamente ele pensou, onde era sua casa agora?
A carruagem chacoalhou pela descida, ao longo das estradas esburacadas e passando por campos irregulares, grupos de freixos e tramazeiras e ocasionais cabanas de palha, até que chegaram à Galway.
Mycroft bateu no teto quando se aproximaram do hotel em que ele e Sherlock tinham ficado logo após a chegada de Sherlock no Gloria Scott.
— Espere aqui por nós — ele falou ao condutor conforme a carruagem desacelerou para uma parada. — Ficaremos menos de uma hora, na minha opinião. Se quiser uma folga então pode tirá-la, desde que esteja de volta nesse tempo.
Os três dirigiram-se para o hotel.
— Ainda não temos certeza do que estamos fazendo aqui — Crowe retumbou.
— Estamos buscando reforços — Mycroft respondeu enigmaticamente.
Sherlock olhou ao redor para ver quem estes potenciais reforços poderiam ser. Dentro de poucos segundos ficou óbvio, e ele sentiu seu coração de repente ficar muito mais leve.
Matty Arnatt e Rufus Stone estavam sentados em poltronas no saguão do hotel.

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