20 de setembro de 2017

Capítulo três

O JANTAR FOI UMA REUNIÃO surpreendentemente divertida. Havia cinco deles ao redor da mesa – tirando Sherlock, eram todos estudantes da Christ Church College.
Inicialmente, sentiu-se fora de lugar, mais novo e menos experiente que os outros, mas logo percebeu que várias coisas que havia feito em sua vida o tornavam como uma celebridade aos olhos deles – não apenas viajar para a Rússia, América e China, mas até algo simples como viver em Londres, que eles consideravam o centro da sofisticação.
Enquanto o jantar continuava, descobriu que eles estavam fazendo mais e mais perguntas sobre ele, e Sherlock estava achando cada vez mais difícil responder às perguntas sem entrar em território perigoso sobre o trabalho sensível de Mycroft no Governo Britânico e os esquemas da Câmara Paradol. Ele teve que recorrer a vários estratagemas para voltar a conversa aos outros e descobrir mais sobre eles.
Thomas Millard era um jovem um pouco gordo com óculos de lentes grossas e pouco cabelo. Ele estudava teologia, visando se tornar um vigário como seu pai e seu avô. Ele tinha uma maneira de falar que parecia sempre estar dando um sermão, mesmo quando pedia a Sherlock para passar o molho.
Mathukumal Vijayaraghavan era um garoto indiano muito magro de cabelos pretos e olhos escuros que falava pouco mas escutava tudo e realmente cursava matemática – estranhamente considerando seu primeiro nome, que soava como math, matemática em inglês.
Reginald Musgrave era um químico alto que passou a maior parte da refeição discutindo críquete com a pessoa sentada ao seu lado – Paul Chippenham, que estudava ciências naturais. Nenhum deles parecia se importar que Sherlock ainda não fosse um estudante da Universidade.
Como prometido, o prato principal era hadoque, um tipo de peixe, com batatas e feijão, mas foi precedido por sopa mulligatawny, o sabor picante fazendo Vijayaraghavan levantar as sobrancelhas de surpresa.
— O faz lembrar da Índia? — Musgrave perguntou.
— Não totalmente. — O garoto respondeu. Sherlock se perguntou se ele foi o único que detectou o tom irônico em sua voz.
Quando Sherlock tentou voltar a conversa para o tema Charles Dodgson numa tentativa de prepará-lo para o encontro no dia seguinte, os quatro levantaram as sobrancelhas e compartilharam olhares divertidos. Vijayaraghavan foi o único que disse algo, e tudo que murmurou foi:
— Um homem interessante. Muito, muito inteligente. Muito, muito estranho.
— Sim, você ouviu falar — Musgrave adicionou excitadamente — que ele foi interrogado pela polícia semana passada?
Os outros balançaram as cabeças.
— Sobre o quê? — Chippenham perguntou.
— Alguns roubos que ocorreram, mas aqui está o curioso: os objetos roubados foram partes de corpos, e foram pegos do necrotério!
— O que é um “necrotério”? — Vijayaraghavan perguntou em sua voz baixa e precisa. — Não reconheço a palavra.
— É o lugar para onde os corpos das pessoas são levados após a morte — Musgrave explicou.
Chippenham acrescentou:
— Mas apenas se eles morrem de um jeito incomum, por assassinato ou devido a algum tipo de doença ou acidente que poderia precisar ser investigado. Um patologista abrirá o corpo e examinará os órgãos para verificar a causa da morte para que esta seja registrada corretamente. De outra forma, quando a causa da morte é óbvia, o corpo apenas é preparado, posto em um caixão e então deixado por um tempo na sala de recepção de modo que as pessoas possam ficar com ele e despedir-se. Depois eles são enterrados. — Ele assentiu para Millard. — Em antecipação, isto é, da ressurreição dos mortos e da obtenção da vida eterna em algum momento indefinido no futuro.
— Pensei — Sherlock começou, relembrando os intermináveis sermões que seu tio Sherrinford havia escrito para enviar aos ministros de toda a Inglaterra e exterior — que as pessoas fossem direto para o Céu ou o Inferno quando morriam. Não percebi que deviam esperar até a ressurreição. E como eles saem dos caixões que foram enterrados a dois metros abaixo do solo? Tudo fica um pouco bagunçado, não?
Um olhar de pânico cruzou a face de Millard. Seu olhar escorregou envolta da sala de jantar como se tentasse pensar em alguma resposta teológica, e falhasse.
A mente de Sherlock; pelo menos a parte que não pensava sobre o momento da ressurreição, quando literalmente milhões de pessoas mortas deslizariam para fora de seus caixões enterrados, estava fixada em Charles Dodgson e sua conexão com esses roubos bizarros.
— Por que Dodgson foi interrogado? — ele perguntou. — Creio que ele seja matemático e professor universitário, não um patologista ou um doutor. Qual a conexão que ele pode ter?
— Ah, aqui está a parte interessante. — Musgrave explicou — Dodgson é bem conhecido em Oxford pelas fotografias que faz, capturando uma imagem ou cena ou uma pessoa usando luzes, material químico e vidro. Aparentemente, além de tirar fotos do rio, das construções do colégio e seus amigos, às vezes e tira fotos de corpos mortos.
— Por quê? — Sherlock perguntou, notando que Vijayaraghavan, ao seu lado, estremeceu novamente.
 — O que ele contou à polícia foi que ele é fascinado pela maneira como o corpo funciona e quer fazer um registro de todas as partes para posteridade, e para ajudar com o ensino de anatomia aqui em Oxford.
— Como se alguém precisasse disso — Chippenham fungou. — Leonardo da Vinci desenhou todos os aspectos do funcionamento do corpo humano trezentos e cinquenta anos atrás. Não há mais nada a ser dito no assunto.
E esse foi o fim da discussão sobre Charles Dodgson.
Eles foram para sala de estar depois da sobremesa, que foi trifle de xerez. Café foi servido, e Paul Chippenham buscou uma garrafa de sua sala, que eles beberam em pequenos copos.
Musgrave apontou para o gato empalhado aninhado perto da lareira – onde sempre estaria.
— Já conheceu Macallistair, estou certo? — ele perguntou para Sherlock.
— Sim, já. Qual a história dele?
— Isso foi antes de mim, mas aparentemente a Sra. McCrery era completamente apaixonada por aquele gato. Ela costumava aquecer o jantar dele toda noite, e dizem que ele comia melhor do que qualquer estudante que esteve aqui. Quando ele morreu, como todo animal faz no final, a Sra. McCrery estava devastada. Ela parou de cozinhar, de limpar a casa e apenas se retraiu dentro de si. Um dos estudantes da casa no momento estava estudando anatomia, e era meio que um taxidermista amador. Em desespero, ele se ofereceu para empalhar o animal para ela, de modo a poder sempre tê-lo por perto. Ela concordou, e ele tem estado aqui desde sempre, e a casa tem estado sempre alegre.
 — Há um papagaio na sala de visitas — Vijayaraghavan disse calmamente. — Eu soube que é mais ou menos a mesma história. Ela amou o papagaio, o papagaio morreu, e um de seus inquilinos se ofereceu para empalhá-lo. Apesar de não ser tão talentoso quanto quem empalhou o gato. Ele parece decididamente de mau jeito.
— Ouvi dizer — Chippenham acrescentou — que o estudante que empalhou o papagaio manteve toda a carne no gelo, e um açougueiro amigo dele a vendeu de volta para a Sra. McCrery como frango fresco. A casa inteira jantou papagaio naquela noite, sem ninguém além do estudante em questão saber. — Ele fez uma pausa. — Aparentemente estava delicioso.
 Sherlock lembrou-se da sua conversa com Matty mais cedo.
— Algum de vocês viu um dos estudantes que morava aqui depois que eles partiram? — ele perguntou casualmente.
Houve um longo silêncio enquanto os outros quatro pensavam por um momento e lançavam olhares entre eles.
— Tenho certeza de que nós os vimos por aí, em algum lugar — Millard respondeu com traço de preocupação em sua voz.
Depois disso, a conversa mudou para outros assuntos mais agradáveis. Quando Millard mostrou uma caixa prateada de pequenos charutos e os ofereceu, Sherlock decidiu que era hora de ir.
Ele teve um sono pesado, sem sonhos de companheiros envernizados e empalhados, e acordou com um brilhante céu azul.
Os outros quatro já haviam levantado, se vestido, tomado o café da manhã e partido quando ele desceu as escadas. Apesar da insistência da Sra. McCrery sobre o café da manhã às sete horas em ponto, ela trouxe às pressas um pouco de bacon, salsichas e ovos para ele, juntamente com uma xícara de chá. Ele deixou a casa com um bom humor, assobiando uma das músicas que escutara Pablo Sarasate tocar no recital.
Christ Church College ficava a apenas uma curta caminhada de distância. A entrada era um arco enorme que era quase inteiramente fechada por uma porta de madeira. Uma passagem menor no portão permitia que estudantes e professores entrassem e saíssem.
Quando Sherlock passou pela soleira, uma voz grossa disse:
— Posso ajudá-lo, senhor?
À esquerda havia uma pequena janela em uma parede de pedra. Atrás da janela, um homem de uniforme escuro escrevia em uma folha. Ele tinha um bigode grande e costeletas exuberantes. Não havia olhado quando Sherlock passava pela porta, e não olhara quando Sherlock pôs-se de pé em frente à janela.
— Tenho um encontro marcado com o Sr. Charles Dodgson — Sherlock respondeu.
— Em qual horário, senhor?
Sherlock franziu as sobrancelhas:
— Não tenho certeza. Isto foi deixado meio ambíguo.
— Isto não parece coisa do Sr.  Dodgson. Ele é muito preciso. Muito particular sobre horário, local e coisas do tipo.
Ele esticou o braço para pegar uma prancheta em uma estante à sua esquerda, e Sherlock notou uma tatuagem em seu antebraço quando a manga de sua camisa foi puxada para trás. Era um peixe entrelaçado com uma âncora, mas as cores eram sutis, mais aquarelada que as tatuagens brilhantes que os marinheiros normalmente faziam em portos como Londres ou Southampton, e as linhas eram tão finas e precisas que poderiam terem sido desenhadas com um único fio de cabelo.
— Mares do sul da China? — Sherlock arriscou.
O homem sorriu, fazendo as pontas de seu bigode se curvarem.
— De fato, senhor. Muito esperto de sua parte detectar isso.
— Eu poderia dizer... Xangai.
— Correto novamente, senhor — ele levantou o rosto para um lado, os olhos cintilando. — Cuidado ao ser mais preciso, senhor.
— Mais abaixo no cais — Sherlock continuou, e de repente a sua mente voltou ao calor e aos cheiros das docas de Shanghai, e uma pequena barraca com um ancião chinês sentado enquanto fazia a mais maravilhosa pintura nas peles dos marinheiros que nunca apreciavam o artista. — Loja de Chen-shu.
— Bem, abençoe minha alma! — o homem recostou-se em sua cadeira, maravilhado. — Nunca pensei que encontraria um homem que me dissesse onde no mundo minha tatuagem havia sido feita.
— Pura sorte — Sherlock respondeu. — Apenas conheço a loja de Chen-shu. Tomei chá com ele algumas vezes, enquanto esperava meu navio partir.
— Um artista. — O homem devolveu. — Um verdadeiro artista.
— Mas ele fazia um chá terrível — Sherlock lembrou.
O homem endireitou-se, arrumando seu casaco conscientemente.
— Passei cinco anos atrás do mastro, navegando pela Ásia. Então vim para cá porque minha esposa queria se estabelecer. Meu nome é Mutchinson, isto é Sr. Mutchinson, e sou o porteiro aqui na Christ College. É meu dever e meu privilégio checar todos que entram e saem, trancar os portões às dez horas e não abri-los antes das seis, e patrulhar os muros da universidade em busca de qualquer jovem que volte de madrugada de uma taverna e tente escalar.
— Tenho certeza que o senhor faz um trabalho maravilhoso.
— Sr. Dodgson, você disse — ele consultou a prancheta. — Você seria, por algum acaso, o senhor Sherlock Holmes?
— Sou eu.
— O Sr. Dodgson me avisou que você poderia vir visitá-lo. Eu deveria escoltá-lo até sua sala quando você chegasse. — Ele olhou por cima de seu ombro, para dentro das sombras. — Stevens, cuide da recepção por um minuto, preciso acompanhar um visitante.
Em alguns segundos ele estava fora da recepção e conduzindo Sherlock para o pátio, uma grande área de grama limitado por um caminho pavimentado que seguia diretamente dos portões principais. Ele olhou em volta, evitando pisar na grama verde e atravessando um arco. Durante todo o tempo em que conduziu Sherlock, seguindo por um caminho ziguezagueado, atravessando uma pequena área aberta e finalmente subindo uma série de escadas estreitas em espiral, ele engajou o garoto em uma conversa sobre a China e s navegação. Era óbvio que ele sentia saudade dos tempos antigos, e quando chegaram à porta de Charles Dodgson, os dois eram melhores amigos. Sherlock tinha um forte sentimento de que, se o Sr. Mutchinson o encontrasse escalando os muros da Christ Church depois que os portões estivessem fechados, o porteiro viraria a cabeça e olharia para o outro lado.
Mutchinson bateu na porta, que era pequena e empenada.
— Sr. Dodgson, visita para o senhor! — ele olhou para Sherlock. — O Sr. Dodgson não recebeu nenhum aluno esta manhã, caso contrário, eu teria pedido que você esperasse — ele falou mais baixo.
— Muito obrigado, Mutchinson. Eu o receberei em alguns m-m-momentos. — Uma voz fina e débil falou do interior.
— O senhor jantará na universidade esta noite?
— Sim, Mutchinson. Resta algum daquele excelente clarete?
— Ouso dizer que sim, senhor. Ouso dizer que haverá.
— E uma girafa? Haverá girafa?
— Não, senhor. — Mutchinson virou-se para Sherlock e ergueu uma sobrancelha. — Parece que estamos sem girafas. Será carneiro, senhor.
Um suspiro veio de dentro da sala.
— Nunca há girafa ou um pequeno e precioso hipopótamo no cardápio nos dias de hoje. Às vezes temo por esta faculdade.
— Boa sorte, senhor — Mutchinson assentiu para Sherlock, então virou-se e marchou descendo as escadas.
Sherlock ficou lá por um momento. Nada aconteceu. Ele podia sentir seu coração acelerando em seu peito. Este encontro seria importante, e ele queria causar uma boa primeira impressão. Ele se perguntou se deveria bater na porta e relembrar ao Sr. Dodgson que estava ali, mas ele não sabia como o homem poderia reagir. Ele poderia se ofender ao ser lembrado?
Passado algum tempo, quando ele estava prestes a reunir coragem suficiente para bater na porta, ela se abriu abruptamente.
O homem dentro da sala era alto e magro, mais alto e mais magro que qualquer um que Sherlock já tivesse visto. Seu cabelo era de um castanho lustroso: liso no topo e um pouco enrolado nas pontas, que desciam mais abaixo nas bochechas e no pescoço do que a moda normalmente ditava. Seu terno era ligeiramente pequeno para ele, e seus pulsos se projetavam do fim das mangas, inapropriadas tanto para o clima quanto para ambientes internos, pensou Sherlock. Ele imaginou o que havia em suas mãos que Dodgson tentava esconder. Ele pôs o pensamento de lado. Olhando para baixo, ele podia ver as meias de Dodgson no espaço entre a barra da calça e seus sapatos, que estavam arranhados e tinham traços de lama. Alguém que gostava de caminhar, então, e alguém com pouco dinheiro para gastar em roupas que servissem e fazer reparos em sapatos. Ou alguém que não se importava com a aparência. Ou ambos.
— Sim?
— Sr. Dodgson? Meu nome é Sherlock Holmes. Foi-me dito para vir aqui falar com o senhor pelo...
— Pelo seu irmão M-M-Mycroft, obviamente. — A voz de Dodgson era tão fina e débil em pessoa como quando o ouvira de fora da sala, e ele tinha uma leve gagueira em algumas letras. — Entre, entre. Posso oferecer-lhe chá ou xerez, ou chá e xerez, embora eu não recomende a m-m-mistura. Também posso oferecer-lhe biscoitos no plural, como tenho três e quero apenas um.
— Muito obrigado.
Sherlock entrou na sala, que era maior que a escada apertada do lado de fora sugerira. Ele era mobiliado como uma sala de estar, com cadeiras confortáveis, uma mesa e estantes. Portas levavam a outros cômodos, provavelmente um quarto ou talvez uma sala de jantar, embora Sherlock estivesse bastante seguro, pelo que seu irmão havia falado, de que os estudantes e professores fizessem suas refeições todos juntos em um algum grande refeitório na universidade.
Dodgson gesticulou para uma cadeira.
— Por favor, sente-se.
Sherlock notou um livro aberto e virado para baixo em uma mesa lateral.
— Minhas desculpas, senhor. — Ele disse educadamente. — Estou perturbando-o.
— Eu estava apenas lendo um livro — Dodgson respondeu. — É uma atividade que pode ser facilmente interrompida e então recomeçada, ao c-c-contrário da atividade de c-c-cobrir uma gralha de m-m-miçangas, claro. Uma vez que você tenha c-c-começado a c-c-cobrir uma gralha, você precisa ir até o final, apenas porque gralhas são c-c-criaturas impacientes. Uma vez que elas c-c-começam a sacudir suas asas, as m-m-miçangas voarão para todos os lados, e você não tem outra opção senão recomeçar.
Sherlock olhou fixamente para ele. Girafas e hipopótamos no jantar, e gralhas cobertas com miçangas? O que estava acontecendo na mente desse homem?
Dodgson se sentou em uma cadeira que era muito pequena para ele e olhou para Sherlock.
— Onde esteve morando? — ele perguntou normalmente, mas aparentemente sendo aleatório. — Não da casa da família, suspeito. Seu irmão me contou um pouco sobre as suas circunstâncias.
— Recentemente estive em Londres, e antes disso na China. Antes disso eu estava com meus tios em Farnham.
— Ah, Farnham. Sim. Recentemente eu adquiri uma casa em Guildford para minha própria família. — Ele olhou para os lados, para fora da janela. — Meu pai faleceu alguns meses atrás. Seu pai está na Índia, não?
— Sim, está.
Dodgson considerou por um momento.
— China? O que o levou até lá, se me permite perguntar?
Sherlock não pôde se impedir.
— Uma escuna com três mastros — ele respondeu.
Ele havia julgado a atitude de Dodgson perfeitamente. O matemático soltou uma risada repentina.
— Oh, muito bem! Muito rápido. — Ele olhou para Sherlock por um momento, aparentemente reavaliando-o. — Então você esteve na China. Para onde mais no mundo já viajou?
— França, América e Rússia — Sherlock respondeu, lembrando-se das várias aventuras em cada país.
— Ah, Rússia. Eu também já estive lá. Um país fascinante, mas a população local aparenta ter pouca imaginação. Todos os seus livros são v-v-volumes l-l-longos sobre o que as pessoas dizem e fazem no dia a dia — ele deu de ombros. — É interessante comparar a literatura deles com o folclore. Veja a lenda da Baba Yaga, por exemplo. Uma velha bruxa que mora numa cabana e possui pernas de galinha! Que extravagância!  Por que não temos nada assim no folclore britânico?
— Eu não sei. — Sherlock pensou por um momento. — Talvez exista uma correlação entre a dureza da vida das pessoas e as histórias que elas contam à noite. Na Inglaterra nossas vidas são generalizadamente muito agradáveis, mas na Rússia os invernos podem ser severos e a comida escassa — ele havia dito tudo isso da boca para fora, sem pensar realmente, mas fez uma nota mental para voltar a esse pensamento mais tarde. Possivelmente poderia escrever uma redação sobre isso, ou algo.
— Um argumento interessante, e possivelmente válido — Dodgson observou. — Mas nós nos desviamos do objetivo de sua visita. O senhor deseja estudar m-m-matemática aqui em Cambridge. — Foi mais uma afirmação que uma pergunta.
— Si-im — Sherlock disse, torcendo para que Dodgson não houvesse percebido a hesitação.
— E você faltou algumas escolas recentemente, por razões que seu irmão hesita em descrever.
— Isso também.
— E, dado esse postulado, a conclusão é que seu irmão deseja que eu o prepare para a rigorosa vida universitária ensinando-o em particular por um período de tempo, até que eu sinta que você está pronto.
— Esta é acredito, a intenção de meu irmão — Sherlock respondeu cuidadosamente.
— Muito bem. Posso presumir que estudou pelo menos um pouco de m-m-matemática durante sua escolaridade incompleta?
— Estudei.
— Do que se lembra? Você, por acaso, estudou Os Elementos de Euclides? Pode me falar quais são os cinco n-n-noções básicas de Euclides?
Sherlock pensou por um momento.
— Primeiro, que coisas iguais a uma terceira são iguais entre si.
— Correto.
— Segundo, que acrescentando-se quantidades iguais entre si, obtêm-se somas iguais.
— Igualmente correto.
— Terceiro, Subtraindo-se quantidades iguais de outras iguais entre si, os restos serão iguais.
— Sem dúvida.
— Quarto, que coisas que coincidem a uma com a outra são iguais entre si.
— Em cheio!
— E quinto, que o todo é maior que a parte.
Dodgson bateu palmas.
— Ideal. Você as tem em uma casca de n-n-noz. Das proposições e noções básicas de Euclides, obviamente, toda a m-m-matemática pode ser construída, teorema por teorema — ele jogou a cabeça para trás e olhou fixamente para o teto. — É uma boa matéria, a m-m-matemática. O Universo de Deus é descrito na linguagem dos números, apenas o universo de Rembrandt é descrito em cores e pinturas a óleo em sua paleta e o de Mozart pelas vibrações do ar que nós chamamos de notas. — Ele pausou, dedos finos sob o queixo. — Vamos ver quão longe seu conhecimento sobre a matemática se estende. Diga-me, jovem Sherlock, qual é o próximo n-número nesta sequência: 1, 2, 4, 8, 16...?
— 32. — Sherlock disse imediatamente. — Cada número é o dobro de seu anterior.
— Com certeza. Elementar, de fato. Qual, então, é o próximo número nesta sequência: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13...?
Sherlock pensou por um momento.
— Há p-p-papel e uma caneta na mesa ao seu lado, você pode usá-los.
— Não é necessário.
Sherlock considerou os números, em relação aos anteriores e aos próximos. Os números aumentavam cada vez, sugerindo algum tipo de soma, e...
— Cada número é a soma dos dois números que o precede — ele disse triunfalmente, as palavras saindo de sua boca um segundo depois que a resposta chegara a seu cérebro.
— Exatamente. Este é um grupo de números muito interessante conhecido como a sequência de Fibonacci. Ela foi descrita primeiramente pelo matemático Leonardo de Pisa, também conhecido como Fibonacci, mais de quinhentos e cinquenta anos atrás, apesar de um aluno indiano aqui da Christ College me dizer que esta sequência é conhecida na matemática indiana há muito mais tempo — ele aparentava falar para si mesmo agora mais que para Sherlock, e sua gagueira havia desaparecido. — Devo tentar descobrir o máximo que puder sobre os poetas e filósofos indianos Pingala, Virahanka e Gopala. Suspeito que eu possa ter que aprender sânscrito, embora esta faculdade provavelmente seja um lugar tão bom para fazer isso quanto qualquer outro.
— O nome deste estudante indiano seria por acaso Mathukumal Vijayaraghavan?
— Você o c-c-conhece?
— Nós estamos hospedados no mesmo estabelecimento.
— Ah. — Dodgson pensou por um momento. — E a seguinte sequência: 1, 5, 12, 22, 35, 51, 70, 92, 117, 145...?
Sherlock ponderou os números em sua cabeça por alguns momentos. Não havia ligação óbvia, os números não eram quadrados, ou cubos, ou múltiplos, ou nada do tipo. Eventualmente, e com um sentimento de derrota eminente, ele pegou o papel e a caneta da mesa e rabiscou os números, então rabiscou várias possibilidades ao redor. Depois, porém, teve que admitir a derrota.
— Temo não conseguir resolver essa.
— Não há vergonha nisso. E se c-c-contar que o fato de que o segundo número ser um cinco é importante?
Sherlock considerou por um momento, então sacudiu a cabeça.
— Ainda não.
— Muito bem. Eu o verei... — ele pensou por um momento. — Toda segunda, quarta e sexta-feira entre as dez e doze horas. Chá e b-b-biscoitos a serem providenciados por você.
— Isso seria… excelente. — Sherlock olhou para Dodgson por um momento. — Qual é o próximo número da sequência?
— Deixarei que o senhor me conte. Isto lhe dará algo em que pensar até a próxima vez que nos encontrarmos.
Sherlock sentiu que a discussão estava encerrada. Ele estava começando a levantar-se e fazer sua despedida quando Dodgson disse:
— Seu irmão, eu não o tenho visto por alguns bons anos. Bem, eles foram bons anos para mim. Acredito que tenham sido bons para ele. Como é o seu personagem hoje em dia? Ele ainda se ofende facilmente? Ele odeia ser provocado?
— Ele pode ser um pouco… espinhoso. — Sherlock concedeu.
— Sim, eu tinha receio disso. — Ele franziu a testa.
Sherlock perguntou-se sobre o que exatamente era a pergunta de Dodgson. Isso parecia incomodar bastante o matemático. De repente ele se lembrou do que seu irmão havia contado, sobre Dodgson escrever livros infantis sob o pseudônimo de Lewis Carroll.
— O senhor está planejando colocar meu irmão em um de seus livros como personagem? — ele perguntou, sentindo uma alegria repentina. — Que ideia maravilhosa!
Dodgson pareceu culpado.
— Estive pensando nisso. — Ele confessou. — Obviamente seu irmão lhe contou sobre meu primeiro livro, As Aventuras de Alice no Subterrâneo. Ele foi feito tolerantemente bem, e estou pensando em uma sequência, uma c-c-continuação da aventura de Alice, por assim dizer. Tenho contado a história em partes para as filhas de alguns amigos, e o personagem de Humpty Dumpty apareceu nela, de onde eu não sei. Você é familiarizado com a canção infantil?
— Naturalmente.
— Foi apenas quando recebi a carta de seu irmão me pedindo para colocá-lo sob minha asa que repentinamente percebi, para minha eterna vergonha e horror, que eu parecia ter colocado M-M-Mycroft em minha história como Humpty Dumpty!
Sherlock teve que sufocar uma risada.
— Baseado em seu… tamanho? — ele perguntou.
Dodgson assentiu.
— Ele ainda…?
— Mais do que nunca. — Sherlock confirmou.
— Não apenas por isso — Dodgson admitiu. — O personagem de Humpty Dumpty é alguém bastante argumentativo, um indivíduo formalista, e é assim que me lembro de seu irmão. — Ele sorriu. — Não que isso fosse um problema enquanto ele esteve aqui. Eu tenho, e sempre terei, um grande respeito por Mycroft. Eu não sou, contudo, cego para seus pontos fracos. — Uma pausa. — Você acha que ele se importará? — Ele perguntou lamentosamente.
Sherlock pensou por um momento.
— Enquanto o personagem não é obviamente ele, acho que ele pode ficar lisonjeado. Ele não iria, entretanto, desejar ser reconhecido, especialmente por quem não o conhece muito bem.
— Então seguirei com a narração, escreverei e enviarei uma cópia para ele quando terminar, dedicado ao homem que inspirou o personagem mais majestoso em todo o livro.
— Penso que ele gostará disso.
— Então acho que nossos negócios aqui acabaram, jovem homem — Dodgson falou, batendo palmas e levantando-se. — Agora, se me permite, tenho uma gralha para cobrir e você deve ir. Eu o verei em dois dias no horário combinado. Não se esqueça do chá e dos biscoitos.
Sherlock o olhou por alguns segundos. Dodgson estava falando sério ou não?
— Se eu trouxer o chá em forma de folhas — ele falou, como se esta fosse a conversa mais comum do mundo — e os biscoitos em uma bolsa, o senhor poderia trabalhar com eles? É só que não tenho certeza de que possa trazer uma bandeja com um bule e um prato por todo o caminho até aqui, e o chá provavelmente ficaria frio.
— De qualquer maneira, traga os elementos — respondeu Dodgson — e devemos construir juntos o resultado final.
— Obrigado — Sherlock disse, desconcertado, mas também intrigado com o que ficara reservado para o curso de matemática. Ele tinha a impressão que, finalmente, não ficaria entediado.

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