12 de setembro de 2017

Capítulo três

— SIR SHADRACH — MYCROFT cumprimentou enquanto subia a rampa de pedra em direção à porta da frente. — É um prazer e uma honra conhecê-lo. — Ele parou um pouco abaixo, de modo a não ficar mais elevado que o homem na cadeira de rodas. Ele estendeu a mão, e Quintillan a tomou, agitando-a duas vezes e, em seguida, renunciou a ela. — Eu sou...
— Mycroft Holmes, o representante do governo britânico — completou Quintillan. — Sua fama o precede, Sr. Holmes. Bem-vindo à minha casa. — Ele olhou para Sherlock. — Sugiro que seu lacaio leve suas malas e as coloque em seu quarto.
— Eu não trouxe nenhum criado — Mycroft explicou suavemente. — Este é o meu... irmão, Sherlock. Ele tem a capacidade de pensar logicamente, e observar desapaixonadamente, o que penso ser raro e valioso.
— Então seu irmão é bem-vindo aqui — disse Quintillan. Sua voz era profunda e calorosa. — Por favor, venham para dentro. Temos refrescos preparados para vocês. — Ele olhou por cima do ombro brevemente. — O cavalheiro de pé nas sombras da entrada é, como já devem ter adivinhado, o Sr. Ambrose Albano. Permita-me apresentar-lhes.
Sherlock tentava não olhar para o homem, apesar de sua aparência impressionante, mas agora que Albano foi introduzido formalmente, ele sentiu que podia olhar sem parecer rude.
Albano era magro e alto, com pele branca e mãos grandes, mas finas. Seu terno lhe parecia mal ajustado, era grande demais ao redor de seu tórax e ombros, porém as mangas eram tão curtas que os ossos de seus pulsos estavam à mostra, e as bainhas de sua calça pairavam longe mais que o suficiente acima de seus sapatos, de modo que suas meias estavam claramente visíveis. Seu rosto era branco como leite, sombreado pelo chapéu de abas largas, e estava crivado de cicatrizes circulares de alguma doença na infância. Seus proeminentes dentes da frente e suas narinas davam-lhe uma aparência semelhante a um cavalo, mas foi seu olho esquerdo que atraíra a atenção de Sherlock como um ímã. Ele tinha cor de leite misturado com água, e não tinha pupila nem íris.
Ele não se adiantou para oferecer mão a Mycroft ou a Sherlock. Em vez disso, ele observava os dois.
— Porventura meu olho o ofende? — ele perguntou, notando a maneira como Sherlock o olhava. Sua voz era estridente, e soou estranhamente como alguém deixando o ar escapar de um balão.
— Tenho certeza de que meu irmão não desejou parecer rude — Mycroft falou antes que Sherlock pudesse dizer qualquer coisa.
— Imagino — Sherlock disse, dirigindo-se não para Mycroft, mas para Albano — que as pessoas ou tentam ignorar seu olho, ou se fixam nele, excluindo tudo o resto. Eu estava apenas tentando descobrir o que aconteceu com o senhor. Um acidente, presumo?
— Sherlock… — Mycroft advertiu.
— Seu irmão é bem direto — disse Albano. — Eu aprecio isso. Ele está correto – a maioria das pessoas ou finge que não há nada de errado, ou vê e gagueja quando tenta falar. — Ele levantou a mão para sua têmpora esquerda. — A resposta é simples: eu me feri quando era jovem. Estava cortando lenha com um machado. Um fragmento de madeira voou e penetrou meu olho esquerdo. O olho não pôde ser salvo. Por muitos anos usei um tapa-olho, mas quando estava com meus vinte e poucos anos eu viajei para a Índia, onde conheci um homem santo. Ele falou-me de uma pedra, uma pedra especial, que era o olho de uma estátua de um dos templos locais. Sobre esta pedra, disse ele, havia rumores de ela ser forte em qualidades mágicas, e tinha sido usada no passado para ver além do véu deste mundo, em outros planos de existência. Eu me tornei obcecado por esta pedra. Eventualmente, e por circunstâncias muito complicadas para se relatar no momento, ela veio parar em minha posse. Tomei como não sendo mera coincidência que a pedra fosse do tamanho exato da cavidade vazia do meu olho. E desta forma eu a trouxe para casa – usando um tapa-olho, de modo que ninguém a viu e comentou sobre isso.
— E o homem santo estava correto? — perguntou Sherlock. — A pedra lhe permite ver além deste mundo?
— Acredito que vocês estão aqui para decidirem isso por si mesmos — respondeu Albano, dando um delicado sorriso.
— Certamente sim — Mycroft retumbou. — Agora, creio que refrescos foram mencionados?
— Silman os levará para a sala de jantar, onde uma seleção de bolos e sanduíches foram preparados. — Sir Shadrach indicou a mulher de face severa em pé atrás dele. — Silman é meu mordomo.
— Uma… mulher… mordomo — disse Mycroft, erguendo as sobrancelhas. — Muito original.
— O senhor achará uma quantidade de coisas sobre Castelo Cloon Ard que são o contrário do que se poderia esperar. Eu tenho uma mulher como um “mordomo”, uma mulher como “jardineiro” e mulheres como “homens de infantaria”. Minha “cozinheira” e “minhas criadas”, no entanto, são homens. Por que as coisas não podem ser invertidas de vez em quando? Sacudir a ordem estabelecida das coisas pode ser… emocionante.
— Desde que não se espere que durmamos no teto e comamos o jantar antes do almoço e almoço antes do café, então estou certo de que nos adaptaremos — Mycroft falou diplomaticamente.
— Muito bom. — Quintillan bateu palmas. — É um homem do mundo, Sr. Holmes. Penso que alguns dos outros representantes foram tomados por certa surpresa com a minha disposição idiossincrática de empregados.
— Outros... representantes? — Mycroft levantou uma sobrancelha interrogativamente. — Tive a impressão de que eu era o único representante aqui. Existem outros departamentos do governo britânico também representados? Posso ver que o Ministério dos Assuntos Internos faria bom uso de ser capaz de comunicar-se com os mortos, uma vez que estão no comando da polícia, mas posso garantir-vos que estou negociando em nome de todo o governo britânico, e não apenas do Ministério das Relações Exteriores.
— Isso está bem claro, Sr. Holmes. Não, estes são os representantes de outras nações, não de outros departamentos do governo.
Mycroft ficou tão surpreso que deu um passo para trás e quase tropeçou no declive da rampa de pedra.
— Outras nações? — perguntou ele. — Sir Shadrach, tive a impressão de que se tratava de um acordo exclusivo. Eu não... e por... Eu, quero dizer, o governo britânico não percebeu que estava em uma competição pelas habilidades específicas e recônditas do Sr. Albano. — Ele parecia, Sherlock pensou, quase indignado, embora Sherlock tivesse certeza de que ao menos um pouco da emoção na voz de seu irmão fora exagerado para o efeito.
Sir Shadrach deu de ombros, ainda sorrindo.
— Os talentos do Sr. Albano são altamente valorizados, e muito procurados — disse ele. — Seríamos insensatos, ou não, se nos limitássemos a apenas um licitante, quando há um mundo inteiro lá fora, que poderia usá-lo?
— E quem mais está aqui?
— O czar da Rússia enviou um representante, e este trouxe um criado com ele. O Império Alemão e o Império Austro Húngaro enviaram representantes que teriam viajado sozinhos – eu lhes cederei criados do meu próprio pessoal. Acredito que o presidente norte-americano enviou um representante, também, mas ele ainda está a caminho – viajando com outra pessoa. Espero que ele chegue a tempo para o leilão.
— Leilão? — Mycroft estremeceu. — Meu Deus, feito plebeus.
Sherlock olhou para o Sr. Albano. Pareceu-lhe que a pele pálida do homem provavelmente reagia mal à luz solar, e era por isso que ele estava em pé na escuridão parcial.
— E você, Sr. Albano? — ele chamou. — Como se sente sobre ser leiloado como um vaso chinês?
A voz fina como papel de Albano desceu as escadas:
— Meus dons são destinados para o bem maior da humanidade. Eu não preciso de algo tão vulgar como dinheiro. Deixo isso para o meu patrão, Sir Shadrach Quintillan. Só quero ter certeza de que o que faço trará benefício para as massas, e que a comunicação com o mundo espiritual nos permitirá crescer em direção a um melhor entendimento do plano de Deus.
— E suponho que a nação que oferecer a recompensa mais alta, será, por definição, a única que usará o espiritualismo para trazer o bem maior para as massas e iluminar o melhor do plano de Deus? — Mycroft retumbou.
— Você entendeu — disse Quintillan. — Fico contente. Agora, por favor, venha para dentro. A luz solar fadiga o Sr. Albano, e nós precisamos dele em sua melhor forma para as suas manifestações. Farei meus lacaios buscarem sua bagagem e levá-la para seus quartos. Silman?
Sra. Silman, a mordomo – Sherlock não conseguia pensar nela simplesmente como Silman – puxou a cadeira de rodas de volta para dentro do castelo. O Sr. Albano entrou nas sombras como um peixe desaparecendo sob uma rocha. Mycroft se virou para Sherlock e deu de ombros.
— Isso não era o que eu queria, e nem o que esperava — falou em voz baixa. — Estou certo de que os recursos do governo britânico podem ultrapassar a dos austro-húngaros e dos alemães, mas o dos americanos e dos russos são de uma quantidade desconhecida. Teremos que trilhar com cuidado, e manter os olhos abertos.
Entrando na escuridão do castelo atrás de seu irmão, Sherlock viu que eles estavam em um átrio de pedra maciça. Armaduras de vários períodos da história estavam postados em torno das paredes, sob tapeçarias penduradas e cabeças empalhadas de veados montadas em suportes. À esquerda havia uma escada que levava para cima, espiralando em torno das quatro paredes da torre com parapeitos balaustrados em cada andar; tanto na lateral como na frente deles havia entradas arqueadas para outros cômodos.
Estranhamente, cada balaustrada parecia ter uma seção cortada para fora, uma lacuna onde as pessoas poderiam cair se não estivessem prestando atenção. Em uma tentativa de evitar que isso acontecesse, havia cordas de veludo esticadas entre as lacunas, presas por ganchos, mas Sherlock se perguntou qual era o motivo disso.
No centro do átrio havia um dispositivo estranho que parecia ser uma armação feita de madeira. Quatro colunas, uma em cada canto, se erguiam desde o piso até o distante teto. Vigas atravessadas corriam na horizontal e na diagonal a cada meio metro, mais ou menos. No centro da armação havia uma caixa grande o suficiente para três ou quatro pessoas, com uma porta frontal de vidro que dava para o centro do átrio. Cordas saíam do teto da caixa até um conjunto de roldanas meio escondidas nas sombras do teto.
— Este prédio é a torre principal do castelo — Quintillan anunciou, interrompendo as observações de Sherlock. — A maioria dos quartos fica nesta seção do castelo. Há outra torre, no entanto, uma menor, onde eu e o Sr. Albano temos nossos quartos.
— E quanto aos criados? — perguntou Sherlock.
Quintillan parecia confuso, como se nunca tivesse ocorrido a ele que seus criados teriam que viver em algum lugar quando não estavam esperando por ele, mas a Sra. Silman avançou.
— Eu e os outros criados temos quartos nas muralhas do castelo — disse ela. — As muralhas conectam as duas torres, e correm ao redor do exterior dos recintos do castelo.
Quintillan notou Mycroft e Sherlock olhando para o dispositivo.
— Vocês provavelmente estão se perguntando o que é isso — disse ele, satisfeito. — Permitam-me explicar…
— Não será necessário — falou Mycroft. — O princípio é óbvio por observação. Sherlock, você se importaria de discorrer sobre os detalhes?
Sherlock assumiu que Mycroft queria que ele demonstrasse as capacidades intelectuais dos representantes britânicos para Sir Shadrach Quintillan. Ele lançou um olhar mais cuidadoso sobre a estrutura de madeira, observando a forma como a caixa de madeira estava firmemente instalada dentro das quatro colunas, aparentemente com pequenos cilindros ligando os pequenos espaços, e a forma como a porta abria-se para fora, para o átrio.
— Parece ser um dispositivo usado para alcançar os andares superiores do prédio sem ser necessário o uso das escadas. A caixa é grande o suficiente para várias pessoas, e presumo que seja movido por essas cordas usando alguma força de fonte externa. Eu sugeriria vapor ou, mais provavelmente, ar comprimido ou um sistema hidráulico seria a melhor solução. — Ele se virou para Quintillan. — Presumo que esta máquina seja usada porque seus próprios aposentos fiquem em um andar superior e o senhor não possa usar as escadas.
— Por que ar comprimido ou sistema hidráulico em vez de vapor? — perguntou Mycroft, testando-o.
— O poder do vapor exigiria que uma caldeira fosse mantida perpetuamente em queima para a eventualidade de que alguém querer usar a máquina de subida, o que só deve acontecer algumas vezes por dia. Seria um terrível desperdício de carvão.
Quintillan bateu palmas.
— Muito bom — disse ele, embora seu tom de voz indicasse que ele estava um pouco irritado por ter-lhe sido negada a oportunidade de explicar o dispositivo para os seus convidados. — O dispositivo é conhecido como “sala ascendente”. Foi construído especialmente para mim por uma equipe de engenheiros americanos – tais salas ascendentes estão se tornando cada vez mais comuns em Nova York, creio. A água é mantida sob pressão por um sistema engenhoso que utiliza as ondas locais como uma fonte de energia. Temos fortes marés nesta parte da costa, e o penhasco em que o castelo foi construído está cheio de túneis naturais e outros escavados pelo homem através do qual as águas sobem e escoam. Agora, se me dão licença, preciso descansar um pouco antes do jantar.
Silman indicou a sala à esquerda para Sherlock e Mycroft.
— Por favor, sirvam-se de refrescos na sala de jantar. Voltarei mais tarde para lhes mostrar seus próprios aposentos, onde poderão se preparar para o jantar.
Mycroft inclinou-se ligeiramente na direção de Quintillan.
— É claro — respondeu ele suavemente. — Estou ansioso para lhe falar mais tarde, e convencê-lo de que o governo britânico pode melhor atender às suas necessidades.
A Sra. Silman empurrou Sir Shadrach Quintillan para a sala ascendente. O Sr. Albano, ainda meio oculto nas sombras, acenou para Mycroft e Sherlock, então os seguiu. A Sra. Silman abriu a porta e entrou de costas, puxando Quintillan com ela. O Sr. Albano deslizou para dentro ao lado da cadeira de rodas. A Sra. Silman fechou a porta de vidro e puxou uma alavanca na lateral da caixa. Com um assobio alto e um tremor, a caixa começou a subir no ar. Para Sherlock parecia um truque de mágica, e ele teve que se lembrar que aquilo era alimentado exclusivamente com água sob pressão. A caixa continuou a subir de forma imponente e lenta, passando o primeiro e o segundo balcões, e Sherlock de repente percebeu o objetivo das lacunas nas balaustradas que tinha notado antes. Deveria haver uma porta equivalente do outro lado da caixa, ele percebeu, por meio do qual os ocupantes poderiam ter acesso aos balcões. De fato, quando a caixa estremeceu com uma parada no terceiro andar, Sherlock pôde ouvir claramente o som de uma porta sendo aberta, embora a que era virada para o vazio do átrio permaneceu misericordiosamente fechada. Felizmente, uma tira de madeira entre duas colunas teria impedido alguém de precipitar-se, caso a porta tivesse sido aberta.
— Posso entender quão orgulhoso Sir Shadrach é de sua caixa de truques — disse Mycroft — mas já existem vários desses dispositivos em Londres. Estou intercedendo para que um seja montado no Diogenes Club.
— Por quê? — perguntou Sherlock. — Há apenas dois andares no Diogenes.
— Exatamente — Mycroft bufou. — E eles esperam que eu suba as escadas toda vez que quiser almoçar ou jantar. É um ultraje. — Ele franziu o cenho. — E por falar em comida, está com fome?
— Após a refeição voltaremos a Galway?
— Seria rude não permanecermos pelo menos para algumas bebidas, uma vez que o nosso anfitrião foi tão gracioso em apontá-las. Devo admitir que um pequeno lanche antes do jantar cairia muito bem, neste momento. Gastei um bocado de energia hoje.
Mycroft liderou o caminho para a sala de jantar. Esta se mostrou ter o dobro do tamanho do átrio, com um pé-direito alto e uma mesa de carvalho maciça no centro. Bandejas com bolos, sanduíches e outros aperitivos estavam servidos ao longo de seu comprimento.
Um lacaio – um lacaio feminino de fraque, calças e um colete listrado, Sherlock notou – adiantou-se.
— Posso oferecer-lhes um pouco de chá, senhores? — ela perguntou.
— Seria formidável — Mycroft retumbou.
Um homem estava de pé do outro lado da mesa, olhando para eles com interesse. Ele caminhou ao redor da mesa e se aproximou deles, uma mão estendida para Mycroft.
— Vocês devem ser os representantes britânicos — ele falou com um sotaque forte. — Eu sou Herr Doctor Holtzbrinck. Seis meses atrás, eu estaria representando a Prússia; agora estou representando o Império Alemão unificado. — Quando Mycroft delicadamente apertou sua mão, Herr Holtzbrinck olhou para os dois com a cabeça virada para um lado. — Sr. Holmes, creio eu? — perguntou a Mycroft.
— O senhor me conhece?
— Eu li seu arquivo — disse Holtzbrinck. — É um volume bem grosso. Bastante abrangente.
— Holtzbrinck, não é? — Mycroft perguntou sem interesse. — Creio que não temos um arquivo a seu respeito.
— Assim — disse o alemão em voz baixa — é exatamente como deve ser.
O lacaio – a lacaia, Sherlock se corrigiu – voltou com uma bandeja contendo um bule de chá, xícaras, pires e um jarro de leite. Ela colocou-a em cima da mesa perto deles e passou a servir duas xícaras de chá.
— E o que o senhor fará neste... leilão? — Mycroft perguntou a Holtzbrinck.
— O processo em si soa bem — respondeu o alemão — mas a pergunta que todos devemos nos fazer é: estão oferecendo um artigo genuíno, ou um falso?
— De fato — Mycroft concordou. — Mas como podemos saber? Estamos sendo solicitados a investir uma grande quantidade de dinheiro como prova de boa fé.
— Acredito que demonstrações das habilidades místicas do Sr. Albano foram organizados para mais tarde. Se constituirão uma prova suficiente ou não, é outra questão.
— E os outros representantes? O senhor já se encontrou com eles?
Holtzbrinck assentiu com um movimento preciso e rápido da cabeça.
— O representante Austro-Húngaro é um tal de Louis-Adolphe von Webenau. Ele é bastante adequado, bem ereto. Um estatístico, creio eu. O representante russo é o conde Pyotr Andreyevich Shuvalov. Dado o caos na França no momento, com o estabelecimento de sua Terceira República, não há nenhum representante francês.
Mycroft levantou uma sobrancelha. Sherlock abriu a boca para dizer “Você não conhece conde Shuvalov?”, mas a mão direita de Mycroft, oculta de Holtzbrinck, acenou para atrair a atenção de Sherlock. Parecia que Mycroft não queria Holtzbrinck soubesse que ele e o representante russo estavam familiarizados um com o outro.
— Perdoe-nos — disse Mycroft polidamente — mas estou começando a sentir-me um pouco fraco de fome. Se eu não encher um prato imediatamente, não saberia dizer quais seriam as consequências.
— Eu jamais ficaria entre um inglês e uma mesa de comida — disse Holtzbrinck. Ele curvou-se ligeiramente. — Mais tarde, talvez?
— É claro. — Mycroft liderou o caminho até a mesa carregada. — Presumo que reconheceu o nome do conde Shuvalov?
— Este não é o homem que encontramos em Moscou? O homem que a Câmara Paradol queria assassinar e culpá-lo por isso?
— Exatamente o mesmo. Senti que poderia ser vantajoso esconder nossa amizade com o conde Shuvalov de Herr Holtzbrinck. Obrigado por seguir minha liderança. — Mycroft pegou um prato e se moveu ao longo da mesa, examinando cada prato com interesse.
— Por quê?
— Por que o quê? — perguntou Mycroft.
Ele pegou um garfo da mesa e começou a carregar o prato com fatias de carne fria, pedaços de peixe e arranjos de legumes em vários molhos marinados.
— Por que não quer que Herr Holtzbrinck saiba que você e o conde Shuvalov são amigos?
— Há várias razões — respondeu ele, espetando um pouco de queijo com o garfo e adicionando-o a seu prato. — Em parte é porque Herr Holtzbrinck suspeitaria imediatamente que nós e os russos estaríamos conspirando contra a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e a América, mesmo que não estejamos, e eles poderiam reagir de maneira imprevisível. Em parte, é claro, é porque o fato de eu conhecer o conde Shuvalov pode muito bem nos dar a oportunidade de organizar uma conspiração contra a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e a América, e não quero que Herr Holtzbrinck descubra isso antes que realmente aconteça. Na maior parte, no entanto, é porque não sei se o conde Shuvalov deseja reconhecer a nossa amizade neste encontro ou não. Preciso falar com ele sozinho em primeiro lugar a fim de descobrir o que ele deseja admitir.
— Toda a sua vida é assim? — perguntou Sherlock.
— Assim como?
— Duplas e triplas adivinhações das ações, não só de todos ao seu redor, mas também de si mesmo?
Mycroft pensou por um momento.
— Sim — ele disse finalmente. — Sim, creio que seja. É chamado de “diplomacia internacional”.
Sherlock riu baixinho.
— Acho que eu não poderia fazer o trabalho que você faz, Mycroft. Meus pensamentos são muito diretos: A sempre leva a B no meu mundo. Seus pensamentos se torcem e dão voltas em todas as direções, aparentemente, dependendo da hora do dia, da temperatura ambiente e da direção do vento.
Mycroft virou-se e olhou com simpatia para Sherlock.
— Assim é — disse ele em voz baixa — e por isso eu o invejo. Minha mente já foi afetada pelo o que faço. Bunca posso relaxar essas voltas e reviravoltas. Sua mente, pelo contrário, é muito mais simples – e, portanto, muito mais feliz.
— Eu pensei — Sherlock falou, antes de a conversa ficar muito pessoal — que o conde Shuvalov nunca saísse em público por causa do medo de ser assassinado. Pensei que só viajasse com guarda-costas todo o tempo.
— Isso era verdade quando ele estava no comando da Terceira Seção – a polícia secreta russa. Seu papel mudou enquanto você estava na China. As pessoas entram e saem dos favores do czar o tempo todo na Rússia – é um risco ocupacional. A sorte de Shuvalov está em declínio – ele já não é o segundo homem mais importante na Rússia, e, portanto, já não é de interesse para a Câmara Paradol, ou qualquer outra pessoa. Tenho certeza que ele dorme muito mais profundamente em sua cama agora. Estou, no entanto, feliz em saber que ele ainda está se mostrando ser de utilidade para o czar. Esta pode não ser a missão diplomática mais importante que ele poderia ter, mas tem o potencial para tornar-se importante. — Ele olhou para Sherlock. — Você não pretende comer?
— Eu vou me guardar para o jantar.
— Como quiser.
Um homem de cabelos, suíças e bigodes brancos entrou na sala. Suas roupas eram muito formais. Ele olhou de Mycroft para Sherlock e depois para Herr Holtzbrinck.
— Von Webenau — disse Mycroft suavemente, movendo-se em direção ao homem antes de Herr Holtzbrinck pudesse. — Eu ouvi muito sobre o senhor. Meu nome é Mycroft Holmes...
Abandonado, Sherlock olhou para a comida, mas ainda não estava com fome. Ele pensou em talvez envolver o representante alemão em uma conversa, mas estava preocupado que pudesse acidentalmente dizer algo que Mycroft desaprovaria, por isso moveu-se até a porta e saiu para o átrio. Não havia ninguém por perto. Ele foi até o estranho dispositivo de colunas e vigas de madeira e cordas. A sala ascendente ainda estava no terceiro andar, onde Quintillan a havia deixado.
Sherlock espiou entre as vigas para a área que a sala ascendente ocuparia quando retornasse ao nível do solo. Havia um buraco no chão com cerca de um metro e meio de profundidade, e olhando pelo lado de baixo da sala ascendente, Sherlock pôde ver que havia ali várias protuberâncias metálicas que precisariam acomodar-se no piso da sala para ficar nivelado com o chão do átrio. A base do buraco parecia ser feita de uma folha de madeira, e Sherlock achou que podia ver dobradiças de um dos lados. Talvez houvesse máquinas abaixo dela.
Levantando os olhos e observando as armações de madeira, Sherlock percebeu duas placas de metal, uma de cada lado do eixo. Cordas partiam delas e iam para cima, passando pela sala ascendente e atingindo o telhado. Pensando nisso por um momento, Sherlock percebeu que eram contrapesos para o peso da sala. Puxar a sala ascendente por três andares demandaria muito trabalho e a deixaria em uma situação potencialmente perigosa, mas se houvesse um peso semelhante na outra ponta da corda, então, os dois se equilibrariam, reduzindo a quantidade de trabalho que precisaria ser feito e aumentando a segurança da coisa toda. Era, ele decidiu, muito inteligente, embora ele não tivesse certeza de que alguma vez quereria viajar naquilo.
Uma alavanca estava fixada dentro de uma ranhura em uma das colunas. Sherlock assumiu que, se ele a puxasse, a sala ascendente voltaria para o chão. Perguntou-se se deveria puxá-la.
— Medo? — perguntou uma voz.
Ele virou-se. Atrás dele estava uma menina com mais ou menos sua idade. A julgar por sua pele morena, ela provavelmente era aparentada com Sir Shadrach Quintillan. Sua filha, talvez? Os olhos dela eram castanhos e cheios com uma viva curiosidade; seu cabelo era preto e encaracolado.
— O medo é uma reação natural quando confrontamos algo desconhecido ou inexplicável que pode ter o poder de matar ou ferir — disse ele. Sua voz soava como se ele estivesse lecionando, e ele se amaldiçoou internamente. — Neste caso — ele continuou, ainda parecendo para si como se estivesse recitando uma lição — é apenas um sistema simples de pesos contrabalançados. Não há nada a temer. É apenas mecânica simples.
— Tente dizer isso quando estiver na sala ascendente, indo para o alto, olhando para um chão de pedra dura que fica cada vez mais distante a cada segundo, e você ouve a corda que segura a sala rangendo.
— Sim — ele disse secamente — posso imaginar que isso causaria um certo estremecimento do coração.
— Você é um dos representantes?
Ele assentiu.
— Bem, estou com um dos representantes, o que provavelmente significa que, para todos os efeitos práticos, sou considerado como um representante também.
— Da Inglaterra?
— Sim. — Ele olhou para ela por um longo momento. — E você é a filha de Sir Shadrach Quintillan.
— Você parece muito certo disso. — Ela inclinou a cabeça para um lado, olhando para ele especulativamente. — Você está apenas dando um palpite, não é?
— Eu nunca dou um palpite. Sua confiança indica que você vive aqui, em vez de ser uma visitante, como uma representante, ou uma criada. A cor de sua pele e estrutura óssea subjacente de seu rosto são semelhantes aos de Sir Shadrach, enquanto sua idade sugere que você é sua filha ou sua sobrinha, em vez de irmã ou esposa. Se fosse a sobrinha dele, isso sugere a existência de um irmão ou irmã que ainda não foram mencionados por qualquer pessoa, por isso é mais fácil de assumir que você é a filha dele.
— Como eu disse: um palpite.
— Você é filha dele?
Ela olhou para ele, sorrindo.
— Sim — ela admitiu. — Sou a filha dele. Meu nome é Niamh. É escrito N-i-a-m-h, mas pronuncia-se “Neeve”. Niamh Quintillan.
— Como eu disse: filha dele.
— Só porque você está certo, não torna menos um palpite.
— Então, se ele é um “Sir” e você é a filha dele, a torna uma lady? Ou será uma apenas com o tempo?
Ela balançou a cabeça.
— Certamente não sou uma lady. Não é um título hereditário, o que significa que ele morre com meu pai quando ele morrer. Sou apenas uma plebeia e sempre serei.
Sherlock sorriu, a despeito de si mesmo.
— Acredite em mim, não há nada de plebeia em você.
Ela fez uma reverência fingida.
— Você é muito charmoso.
— Tenho que ser: estou falando com a filha um cavaleiro do reino. Então, como seu pai veio a ser um “Sir” em primeiro lugar? O título deve ter sido dado pela rainha Vitória.
— Foi assim que aconteceu. Somos de Barbados. Meu pai...
— Barbados? — Sherlock interrompeu. Ele nunca tinha ouvido falar desse lugar antes.
— É uma ilha no Caribe, perto de Antígua. É parte do Império Britânico. Posso continuar?
— Por favor.
— Os locais eram tratados como escravos até quarenta anos atrás. Quando foram libertados, meu pai entrou para a Marinha Real. Eu não sei se ele foi o primeiro ex-escravo a entrar, mas ele certamente estava entre a minoria. Serviu em um navio chamado HMS Euryalus. O segundo filho da rainha Victoria, príncipe Alfred, também serviu a bordo do navio. Houve algum tipo de acidente quando eles estavam no mar, e meu pai salvou a vida do príncipe Alfred. Em reconhecimento, e por gratidão, o príncipe persuadiu a rainha Vitória a dar a meu pai o título de cavaleiro. — O rosto dela se anuviou, e ela desviou o olhar de Sherlock. — Foi assim que meu pai ficou aleijado. Suas costas quebraram no acidente. Ele decidiu que queria se estabelecer aqui na Irlanda, próximo ao país que ele ama, mas não parte dele, em um lugar onde ele pudesse ver o mar. Foi agraciado com este castelo pelo príncipe Alfred.
— E sua mãe? — Sherlock perguntou gentilmente. Ele suspeitava que já sabia a resposta.
— Oh, ela morreu. — A voz de Niamh estava muito calma, muito controlada. — Tuberculose. Ela não se adaptou ao clima daqui. Nunca quis sair de Barbados, em primeiro lugar. Ela tinha sonhos de que algo ruim aconteceria se fosse embora, e ela estava certa.
— Sinto muito.
— Obrigada. — Ela olhou para ele de novo, e Sherlock podia ver as lágrimas não derramadas em seus olhos. — E quanto a você? Tem família?
Sherlock indicou a porta de entrada para a sala de jantar.
— Meu irmão está lá no momento, preenchendo o tempo entre o almoço e o jantar, comendo. Nosso pai está na Índia, com o exército britânico. Nossa mãe está... doente. — Ele olhou para longe de Niamh, e depois de volta novamente. — Ninguém me diz o que ela tem, mas acho que é tuberculose também.
— Então eu sinto muito — ela deu de ombros. — Ela leva seu próprio tempo. É uma doença de espera.
Havia algo que Sherlock queria perguntar, mas não tinha certeza se deveria. Às vezes, ele havia notado, perguntas diretas poderiam levar as pessoas a ficarem ofendidas ou chateadas.
Niamh percebeu que ele lutava para se impedir de dizer alguma coisa.
— O que foi? — perguntou ela. — Você está obviamente explodindo para fazer uma pergunta.
— O interesse de seu pai no espiritualismo... tem alguma coisa a ver com a morte de sua mãe?
— Acho que sim. Pelo menos, ele nunca demonstrou muito interesse na vida após a morte enquanto ela estava viva. — Ela se conteve. — Nós somos uma família cristã, obviamente, mas o céu é algo sobre a qual não se pensa muito a respeito. É só uma palavra que você ouve em sermões, ou lê na Bíblia. Mas depois que minha mãe morreu, papai tornou-se... obcecado com a ideia de que poderia ser capaz de comunicar-se com ela de novo. Ele visitou diferentes videntes e médiuns, mas não se convenceu por nenhum deles. Em seguida, ele conheceu o Sr. Albano...
— Então o Sr. Albano conseguiu estabelecer a comunicação entre o seu pai e o espírito de sua mãe?
— Assim ele disse. Assim meu pai disse. — Ela deu de ombros. — Eu não tenho tanta certeza. Tenho participado de sessões, mas as mensagens que o Sr. Albano transmite de minha mãe são todas... genéricas. “É bom aqui, no plano espiritual”, “Sinto a falta de vocês dois e estou olhando por vocês”, esse tipo de coisa.
— Essa é uma das coisas que me faz pensar que o espiritualismo não é verdadeiro — Sherlock admitiu. — S possibilidade de que, se assim realmente for, estamos sempre sendo observados por centenas de pessoas mortas. Tudo o que fazemos está sendo observado. Tudo.
— Eu penso que os espíritos não são destinados a preocupar-se tanto com as coisas terrenas uma vez que se foram.
— No entanto, eles ainda retornam em sessões espíritas, escrevem mensagens em pedaços de lousa e movem mesas por aí?
— Ei — disse ela, levantando as mãos defensivamente — eu não estou reivindicando ser uma especialista. Estou apenas transmitindo o que ouvi. — Seu rosto de repente se tornou mais sério. — Além disso, se estamos falando de entidades sobrenaturais, há outras coisas com as quais eu me preocuparia antes de querer saber sobre os espíritos dos mortos.
Sherlock ficou intrigado.
— E o que estaria no topo da lista?
— Conhece a Besta Negra?
Ele sorriu, hesitante.
— Que Besta Negra?
— É uma espécie de criatura do mar que pode subir para a terra e levar consigo ovinos e bovinos. Às vezes, até mata pessoas. Os contrabandistas que costumavam levar mercadorias ao longo desta costa, muitos anos atrás, ficaram aterrorizados por ela – mais aterrorizados do que com os homens da receita.
— Ah, é mesmo?
Ela apenas olhou para ele sem nenhum traço de um sorriso.
— Sim — ela disse simplesmente. — Eu já a vi.

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