20 de setembro de 2017

Capítulo sete

ELE SAIU PELA PORTA DOS FUNDOS e sentou-se ao lado de fora, na brisa fria que era soprada através do hospital, deixando que seu corpo relaxasse e sua mente processasse o que tinha visto. Por um lado, as coisas iam como ele antecipara, a não ser pela queda através da claraboia. Por outro, a revelação de que o ladrão estava atrás de um corpo em particular dessa vez, e provavelmente todas as vezes, era totalmente nova. Agora a parte mais importante, no entanto, era se Matty poderia segui-lo de volta até sua base de operações.
Um pensamento o fez rir. E se a polícia tivesse escolhido aquela noite para encenar sua própria observação? E se o tivessem o visto ali e decidido prendê-lo?
O pensamento fez com que Sherlock andasse. Afinal, ele não poderia ficar ali a noite inteira. Ele andou em direção ao buraco sob a árvore.
Inicialmente Sherlock tinha a intenção de voltar à casa da Sra. McCrery, mas estava preocupado com Matty, então foi ao barco. Matty não arriscaria voltar para pensão e acordar Sherlock. Ele voltaria ao barco e esperaria – isto é, se conseguisse escapar do ladrão.
O barco estava exatamente como Sherlock se lembrava. Harold, o cavalo, dormia num campo ali perto. Ele dormia em pé, com a cabeça para baixo, relinchando suavemente conforme sonhava com o que quer que cavalos sonhassem. Feno, provavelmente, ou talvez correr livremente pelos campos e pulando cercas enquanto sua crina voava com o vento.
Sherlock pegou um cobertor de dentro do barco e se acomodou no deque, cobriu-se bem para se proteger do frio e ficou à espera do retorno de seu amigo.
Ele esperava que a agitação da noite e a preocupação com o que acontecia com Matty significasse que ele não conseguiria dormir, mas estava errado. Ele passou lentamente a um estado de confusão onde as memórias e sonhos se misturam numa estranha paisagem, como algo que Charles Dodgson – ou seu alter ego, Lewis Carrol – talvez escrevesse. Foi somente quando o sol brilhou diretamente em seus olhos enquanto ele estava lá deitado, com a bochecha contra a madeira, que ele acordou. Suas costas doíam e seus pés e mãos estavam dormentes.
O sereno da madrugada encharcou as roupas dele. Ele se sentia completamente miserável.
Não havia nenhum sinal de Matty. Serlock entrou no barco e encontrou meia fatia de pão, que comeu vorazmente, partindo-a em duas e engolindo sem manteiga ou geleia. Enquanto comia, torturava-se com pensamento de Matty sendo descoberto e espancado, possivelmente até assassinado. O garoto era astuto e ágil, mas não era invisível nem indestrutível.
Sherlock estava prestes a ir até a delegacia reportar o desaparecimento de Matty quando o garoto chegou no barco. Era final da manhã, e o canal estava ocupado com barcas carregadas de carvão, madeira ou engradados. Matty parecia, se possível, em estado ainda pior que de Sherlock. Exausto, ele se jogou no deque da barca.
— Se eu tentar aquilo novamente — falou — me impeça.
— O que aconteceu? — Sherlock perguntou.
— Nada. Só andei um longo caminho e fiquei escondido em lugares desconfortáveis. — Ele suspirou, virando-se para olhar para cima. — Estou vendo que você não vai me deixar dormir até que eu conte o que aconteceu.
— Eu deixarei você dormir — Sherlock cedeu — mas vou checar a cada dez minutos para ver se você já está acordado. Você não conseguiria descansar.
— É, eu imaginei. — Ele esfregou os olhos com as costas da mão. — Tá bom, então. Eu segui aquele ladrão até uma carroça que ele tinha do lado de fora. Eu sabia que se ele tivesse vindo a cavalo eu nunca o alcançaria, mas consegui subir na traseira dela e me esconder debaixo de uma lona sem que ele me visse. Nós rodamos por volta de vinte minutos, e toda vez que passávamos por uma lombada na pista, eu sentia o impacto da cabeça aos pés. Finalmente, enquanto eu estava pensando que não aguentaria mais e estava prestes a pular fora, nós paramos. Ele saiu e eu esperei alguns minutos antes de segui-lo. Acontece que ele é um faz-tudo local, faz alguns serviços de carpintaria, construção e jardinagem. Ele tem um estábulo onde trabalha e era lá que estávamos.
— E o macaco?
— Ele ganhou do pai, que costumava carregar um realejo pelas ruas. O macaco pegava as moedas enquanto ele tocava a música. Ele se aposentou há alguns anos.
— E como você sabe disso?
— Porque eu perguntei, não? — Matty soava indignado.
— Então o que ele fez com o dedão? — Sherlock perguntou.
— Estou chegando lá! Eu entrei no estábulo sem que ele me visse e consegui chegar perto do escritório onde ele estava trabalhando. Você nunca vai adivinhar o que ele fez!
Sherlock pensou por um instante. Ele realmente não tinha ideia, mas não admitiria isso para o Matty.
— Eu nem pensei nisso. — Ele disse entusiasmado. — Eu faço julgamentos baseados em evidências, e ainda não tenho evidência suficiente para fazer um julgamento.
— Você quer dizer que não tem nenhuma pista. — Matty sorriu. — Na verdade ele colocou o dedão numa caixa de madeira. Havia uma lona encerada na caixa, que acredito que seja para a água não vazar.
— Que água? — Sherlock perguntou.
— A água do gelo.
Sherlock inspirou pacientemente. Afinal de contas, o garoto estava cansado.
— Que gelo?
— O gelo com que ele encheu a caixa após ter colocado o dedo dentro — ele franziu o cenho para Sherlock. — Preste atenção, eu só tenho energia pra contar essa história uma única vez. — Ele fechou os olhos e continuou. — Ele aparafusou a caixa, embrulhou-a em papel pardo e amarrou com uma corda. Depois escreveu um endereço na frente.
— Ele está enviando as partes de corpos para algum lugar? — Sherlock estava incrédulo. Ele nunca esperou por isso. O gelo sim, obviamente era necessário para impedir que os pedaços se descompusessem e se tornassem inúteis para qualquer propósito, mas ele não imaginou que as partes estivessem sendo roubadas por encomenda.
— Ele levou o pacote para fora, colocou em sua carroça e partiu — Matty continuou. — Pude entender o que ele planejava, então cheguei lá primeiro e me escondi debaixo da lona de novo. Você não sabe aonde fomos depois!
— Para a agência postal — disse Sherlock.
— Como você adivinhou?
— Ele tinha um pacote. Ou entregaria a alguém pessoalmente ou enviaria para alguém. O fato de que ele escreveu o endereço apontou para a última opção.
— Ah. — A boca de Matty se curvou em desapontamento. — Bem, você está certo; ele foi direto para a agência e esperou que abrisse. Quando abriu, ele entrou, foi até o balcão, entregou o pacote e passou uma quantia de dinheiro. Então foi embora.
— Eu realmente queria que a gente soubesse para onde o pacote foi enviado. — Sherlock disse, sentindo seu coração afundar. Parecia um beco sem saída. A investigação estava acabada.
— Na verdade, nós sabemos. — Matty estava sorrindo. — Eu entrei dez minutos depois e disse que meu funcionário tinha trazido uma encomenda mais cedo, mas ele não sabia se tinha colocado o endereço certo, então poderia checar? O sujeito atrás do balcão trouxe o pacote pra mim e deixou que eu olhasse. Não me deixou tocar, mas estava tudo certo. Eu disse a ele que o endereço estava correto e fui embora.
— Matty — Sherlock disse gentilmente — você não sabe ler.
— Não, mas sei desenhar. Eu memorizei o contorno das letras e escrevi num pedaço de papel antes de sair da agência. Eles têm muitos formulários e canetas que as pessoas podem usar para preenchê-los.
Ele colocou a mão no bolso e tirou um pedaço amarrotado e sujo de papel.
— Aqui está, o melhor que pude fazer.
Sherlock pegou o papel e encarou com dúvida. Lá, em cuidadosa e grande letra bastão, estava o endereço:

SR THOMAS NATROUS
RYDAL CLOSE, 23
EALING
LONDRES

 — Matty, você é incrível.
— Eu sei. — O garoto respondeu. Ele franziu o cenho, e olhou para Sherlock. — Tá certo? Quer dizer, o endereço faz sentido? Eu copiei certo?
— Faz, e sim, você copiou certo.
— Ótimo. Depois disso eu voltei, coisa que levou horas. Eu sei onde o ladrão vive agora, caso você precise saber, mas acho que você está mais interessado em Londres no momento — ele bocejou de repente. — Agora eu vou dormir. Não me acorde.
— Feito.
— O que você vai fazer?
— Vou enviar um telegrama ao meu irmão. Prometi a ele que manteria contato.
Sherlock deixou a barca e andou até Oxford. Ele considerou ir até a casa da Sra. McCrery para trocar de roupa, mas sabia que ele precisava mandar o telegrama o mais rápido possível. Cartas e encomendas eram rápidas; o pacote deveria chegar ao destinatário no dia seguinte, senão naquele mesmo dia, mas telegramas eram ainda mais rápidos. Ele o compôs em sua mente enquanto andava, o mais breve possível, visto que os telegramas eram pagos por letra, e quando chegou à agência postal central, de Oxford pôde ditar para o indivíduo no balcão assim que chegou.

Caro irmão. Estou bem. É vital que eu saiba o que acontece com o pacote enviado hoje para Thom. Natrous, Rydal Close, 23, Ealing. Por favor responda logo. Saudações, Sherlock.

Agora não havia mais nada a fazer a não ser esperar.


A resposta chegou dois dias depois, enviada diretamente à casa da Sra. McCrery. Enquanto isso, Sherlock havia participado de diversas aulas na Christ Church, e também fizera uma expedição ao celeiro até onde Matty seguira o ladrão.
As aulas foram mais informativas que o celeiro, que era, como Matty tinha observado, o local de trabalho de alguém que fazia muitas coisas diferentes para várias pessoas diferentes. Sherlock conseguiu entrar enquanto o ladrão estava fora podando as roseiras de alguém, mas não havia nenhum sinal de partes de corpo ali, ou um motivo para elas terem sido levadas. Esta era apenas uma estação do percurso, uma parada, não o destino final.
Seu próximo encontro com Dodgson provou ser mais estranho que Sherlock esperava, e ele esperava algo estranho.
Ele chegou exatamente às dez horas, encontrando um bilhete preso à porta dos aposentos de Dodgson. Dizia:

Encontre-me nos jardins entre a faculdade e o rio.
Dodgson.

Sherlock andou de volta até as escadas novamente e encontrou o caminho entre a faculdade e os jardins dos fundos, imaginando o que Dodgson estava armando. Seria alguma nova lição lógica que só poderia ser feita do lado de fora, como os exercícios que Amyus Crowe costumava praticar usando rastros de animais ou o modo como o musgo crescia ao lado das árvores?
Ele encontrou o tutor numa trilha de grama próxima ao rio. Ele montava um dispositivo complicado que parecia uma caixa de madeira sobre pés. Era alto, fino e desajeitado, como o homem que trabalhava nele. Eles combinavam perfeitamente. Na frente da caixa havia uma lente, como um pequeno telescópio. Perto, uma pequena cabana tinha sido montada, presa por cordas.
— Ah, Holmes — Dodgson disse. — B-b-bem na hora. Por favor, fique em frente à c-c-câmera.
Ele estava, Sherlock notou, ainda usando as mesmas luvas brancas de quando Sherlock o conheceu.
— De que lado é a frente? — Sherlock perguntou. — É onde fica a lente?
— Exato.
Sherlock foi onde Dodgson indicou. Quando passava perto da câmera, viu que ela também possuía um material preto sanfonado que possibilitava variar a distância entre a lente e sua parte traseira. A parte traseira era construída de forma que a lâmina de vidro pudesse ser retraída para dentro dela. A distância variável devia ter alguma coisa a ver com o foco da lente, Sherlock concluiu. Um pano preto poderia ser jogado sobre todo o dispositivo, provavelmente para evitar que qualquer feixe de luz entrasse.
Sherlock estava prestes a ter sua fotografia tirada. Ele não tinha certeza se estava feliz ou apreensivo.
Dodgson inclinou-se para frente e jogou o pano preto sobre si mesmo e a câmera.
Sherlock podia ver seus cotovelos se mexendo enquanto ele arrumava alguma coisa.
— Faça uma pose dramática! — ele gritou, sua voz abafada pelo tecido.
Sherlock tentou várias poses: mãos nos quadris, mãos atrás das costas, uma mão no bolso e a outra dentro do paletó. Nada parecia natural.
            Por fim, e com muita timidez, ele cruzou os braços sobre o peito e olhou para longe, para o rio.
— Levante sua mão direita e o queixo! — Dodgson aconselhou.
Sherlock concordou, ciente de que as pessoas caminhando ali por perto olhavam para eles dois.
— Pareça pensativo! No momento você parece estar esperando um telegrama que diz que seu cachorro predileto foi comido por um t-t-tigre!
Sherlock deu o seu melhor para parecer pensativo, embora não tivesse certeza de como.
Ele tentou se lembrar das vezes em que estava pensativo, mas não ajudou. Por fim, lembrou-se da sequência que Dodgset havia usado para testá-lo alguns dias antes, a sequência que ele não conseguiu resolver. A memória passou pela sua mente, e ele tentou resolver o problema.
— Excelente! — Dodgson tirou a cabeça debaixo do pano e moveu-se para frente da câmera. Ele viu com o canto dos olhos Dodgson tirar uma tampa da lente. — Agora não se mova por mais cinco m-m-minutos.
— Quê?! — ele disse por entre os dentes. Ele tinha que manter aquela pose ridícula por mais cinco minutos?
— Tem tudo a ver com a quantidade de luz que entra na placa de vidro sensível antes de a imagem se formar. O bom Deus abençoou o mais humilde animal em seu domínio com olhos que podem detectar uma imagem tão rápido que parece que o tempo não passou, até mesmo nas situações mais escuras. A q-q-química, no entanto, tem um longo caminho a percorrer até que consiga criar o que Deus fez. Apenas seja grato que a ciência tenha avançado tanto. Quando a primeira foto foi tirada, em 1826, era preciso ser exposto por oito horas, não cinco minutos. — Ele pausou. — Você vai gostar de ouvir que não era um retrato, mas uma p-p-paisagem.
Sherlock ficou parado por mais cinco minutos enquanto pessoas passavam por ali. Ele podia ouvi-las conversando, imaginando o que ele e o e professor alto e magro faziam. Um ou dois passantes já tinham ouvido falar de fotografia e fizeram comentários informativos. Todos acabaram se perguntando quem era Sherlock, e porque ele era tão importante para que tivesse sua fotografia tirada. Ele fez a mesma pergunta a si mesmo diversas vezes durante aqueles cinco minutos.
Enfim, Dodgson repôs a tampa na lente, impedindo a luz de entrar na lâmina de vidro.
— É isso! Pode relaxar agora.
Sherlock juntou-se a ele, suas articulações reclamando do movimento súbito depois de tanta rigidez. Dodgson mergulhou debaixo do tecido mais uma vez e tirava algo de dentro da câmera. Ele emergiu segurando uma pequena caixa de madeira.
— A placa está aqui dentro. — Ele anunciou. — Protegida de qualquer luz que possa recair sobre ela. Ela é revestida por uma mistura de colódio e nitrato de prata. Agora preciso levar isso de volta à cabana, onde vou “revelar” a imagem com sulfato ferroso e então “consertá-la” usando uma solução de t-t-tiossulfato de sódio para que a luz não a afete mais. Os dois processos têm que ser feitos rapidamente para que a imagem não degrade. Por favor, fique aqui por alguns minutos. Falamos-nos mais tarde.
Ele entrou na cabana. Era mais baixa que ele, e Sherlock o imaginou de joelhos lá dentro, a cabeça curvada, despejando produtos químicos de garrafas de vidro numa bandeja, abrindo a caixa de madeira, pegando a placa de vidro cuidadosamente de dentro da caixa e, então, colocando-o na bandeja para que os químicos passassem por ele. Enquanto imaginava a cena, conseguia sentir o odor penetrante de ácido vindo da cabana. Ele não entendia como Dodgson aguentava ficar tão próximo dos reagentes químicos.
Finalmente Dodsgon saiu de lá. Ele estava rígido por ter ficado curvado tanto tempo. Ele atravessou até onde Sherlock estava.
— Por favor, aceite meu pedido de desculpa. — Ele disse. Parecia envergonhado. — Minhas luvas ficaram encharcadas pela solução de t-t-tiossulfato, e tenho que trocá-las ou minha pele descascará. Eu tenho outro par.
Delicadamente, colocou as mãos nos bolsos do paletó e tirou um par de luvas brancas dobradas, entregando-as a Sherlock.
— Talvez você possa segurá-las para mim por um momento.
Sherlock pegou as luvas e assistiu enquanto Dodgson tirava as luvas molhadas de suas mãos e as jogava na grama. Suas mãos estavam manchadas de preto e azul, como se estivessem severamente machucadas.
Ele viu a direção em que Sherlock olhava e estremeceu.
— Ah. Sim. Por mais interessante que a nova ciência fotográfica seja, há um lado negativo. O nitrato de prata sensível à luz que cobre a placa de v-v-idro antes de ser colocado na câmera tende a descolorir a pele. É o preço que se paga pela experiência e pela arte.
— Já vi isso antes — Sherlock respondeu tranquilamente. — Conheci um homem chamado Arrhenius que bebia solução de prata como um meio de evitar doenças. A pele dele também era descolorida, mas de dentro para fora, não de fora para dentro.
— E ele ficou protegido de d-d-doenças? — perguntou Dodgson interessado, pegando o novo par de luvas brancas das mãos de Sherlock e vestindo-as.
— Ele achava que sim.
— Então vamos torcer para que o nitrato de prata tenha o mesmo efeito em mim — ele sorriu. — Devo dizer que não me lembro de ter p-p-pego sequer um resfriado desde que comecei a mexer com fotografia.
Sherlock olhou para a cabana.
— Quando a placa ficará pronta? — perguntou.
— Nós precisamos deixá-la secar. Durante esse tempo, podemos continuar com nosso t-t-tutorial de lógica. Ou você achou que eu havia esquecido? Venha por aqui.
Dogdson conduziu Sherlock para longe da cabana e da câmera até um muro de pedra que se projetava dos próprios muros da universidade.
— Esse é o jardim do reitor da Christ Church College. O muro o envolve por inteiro. Se eu lhe dissesse que há uma l-l-lagoa dentro, com peixes nadando, você poderia me dizer o quão g-g-grande ela é?
Sherlock pensou um pouco.
— Menor que a área do jardim, claro. Além disso, eu não poderia dizer. — Ele olhou ao redor. Havia uma porta na parede, um pouco distante. — Caso aquela porta não esteja trancada, eu poderia entrar e olhar. Senão, eu escalaria o muro.
Ele observou os prédios mais próximos, procurando por janelas com visão para o jardim, mas não encontrou nenhuma.
— Além disso, eu não sei. Poderia perguntar a alguém?
— Não. E se eu lhe dissesse que há uma maneira de estimar o tamanho da lagoa sem sair daqui ou dizer uma palavra a qualquer outra pessoa?
— Eu acreditaria no senhor, mas não saberia por onde começar.
Dodgson se abaixou e pegou uma pedra do chão. Entregou-a para Sherlock.
— Aqui, jogue esta p-p-pedra por cima do muro.
— Tem certeza?
— Tenho. Jogue-a.
— Mas esse é o jardim do reitor!
— Ele não vai se importar. Eu sempre jogo pedras lá.
Sherlock olhou duvidosamente para Dodsgon.
— Bem, se o senhor tem certeza.
— Confie em mim. Jogue a pedra.
Ainda preocupado, Sherlock jogou a pedra o mais forte que pôde. Ela passou sobre o muro e desceu sobre o jardim. Alguns segundos depois, ele ouviu um barulho como se tivesse atingido o chão, uma estátua ou alguma coisa sólida.
— Muito bom. Agora jogue outra. Mire em um ponto diferente.
Sherlock pegou outra pedra e jogou, dessa vez mirando mais ao centro do jardim. Meio segundo depois que a pedra desapareceu, ele ouviu um splash quando o objeto atingiu a água.
— Perfeito! Agora outra.
— O senhor tem certeza de que está tudo bem?
— Totalmente. Agora, digamos que você jogue cem pedras, todas em direções diferentes, mas todas dentro do jardim. Digamos também que trinta e três dessas p-p-pedras façam um som de splash quando aterrissam. O restante ou atinge o chão, como ouvimos antes, ou a terra, ou a grama, que no caso não podemos ouvir n-n-nada. O que podemos deduzir por essa informação?
Era como se uma luz tivesse acendido na mente de Sherlock, iluminando alguma coisa que esteve lá o tempo todo, mas ele nunca tivesse notado.
— Indicaria que a lagoa tem um terço do tamanho do jardim. Tudo o que precisaríamos fazer seria medir o jardim por fora, então saberíamos o tamanho da lagoa!
— Justamente. E não teríamos que sair daqui para fazer isso. É um exemplo de dedução lógica através de um conjunto de provas. — Ele se abaixou e pegou uma terceira pedra. — Mais uma vez! Vamos completar o experimento.
Sherlock pegou a pedra, e dessa vez mirou a um ponto de distância a, mais ou menos, dois terços do jardim. Dessa vez ele ouviu um clink como se a pedra tivesse atingido algum vaso de cerâmica, seguido de um grito:
— Dodgson, é você de novo? Maldição, eu o avisei da última vez!
— Ah. — Dodgson disse. — Ele está no jardim. É uma pena. — Ele pensou por um segundo. — A lição acabou. Você corre e eu me escondo na cabana. Mesmo horário daqui d-d-dois dias?
Sem esperar pela resposta, ele saiu correndo em direção à cabana e desapareceu lá dentro. Seus pés ficaram para fora das abas.
Sherlock escutou alguém abrindo as trancas por dentro da porta que levava ao jardim. Ele correu o mais rápido que conseguiu de volta à universidade antes que a pessoa saísse e visse seu rosto. Ele ria durante toda a corrida.
Quando o telegrama de Mycroft chegou, era bem mais educado que o de Sherlock. Em parte, Sherlock concluiu, porque Mycroft não achava fácil ser miserável com palavras e, também, porque não era miserável com seu dinheiro. Ele preferia pagar mais a se arriscar a ser ambíguo.

Caro Sherlock. Um de meus agentes esperou no endereço, uma pequena casa ocupada por um policial aposentado, até que o pacote chegasse. Meu agente viu pela janela o policial levar a caixa para dentro e abri-la. Após isso, ele pegou uma caixa, talvez a mesma, levou à agência postal e enviou de volta para Oxford. O agente disse que o embrulho parecia, aqui citando, diferente de alguma maneira, mas não sabia dizer como. O endereço era Gresham Logde, Wolvercote, Oxon. Levar carvão para Newcastle é uma frase adequada para essa situação. Eu ficaria fascinado em ouvir o que está acontecendo. Até breve. Seu amado irmão, Mycroft.

Sherlock leu o telegrama na sala de jantar da casa da senhora McCrery. Ele tinha um prato de torradas a sua frente e um copo de suco de maçã. Releu somente para se certificar de que não tinha perdido nenhuma palavra. A caixa fora enviada de volta para Oxford? Por que se incomodar? Por que o ladrão não a levou para Gresham Lodge? Economizaria um bom tempo e não correria o risco do pacote se perder na postagem, como acontecia com algumas encomendas.
A menção ao antigo ditado “levar carvão para Newcastle” era totalmente apropriada. Newcastle era o maior produtor de carvão da Inglaterra. Não fazia sentido levar carvão para lá, assim como não fazia sentido enviar um pacote de Oxford para Londres e de volta a Oxford. Qual era o sentido?
Claro! Ele quase bateu na própria testa, mas parou bem a tempo de evitar. Era óbvio! O ladrão tinha sido contratado por alguém em Oxford que queria se manter anônimo. Ele fez o bandido enviar as partes do corpo para um endereço em Londres. Desse modo, a única informação que o ladrão teria seria a da conexão em Londres. O ex-policial embalou a caixa mais uma vez e enviou para Oxford, para a pessoa chave, mas tudo o que o ex-agente sabia era o endereço, não o conteúdo da embalagem. Duas informações cruciais – o endereço da pessoa em Oxford que estava no comando de tudo e o fato de que estava interessada em partes frescas de corpos – nunca estando no mesmo lugar. Muito simples e muito esperto!
O que fazer agora? Era óbvio que Sherlock precisava investigar o endereço em Wolvercote. Se fizesse isso logo, talvez visse o pacote ser entregue novamente.
Ele foi ao canal para encontrar Matty e rapidamente o atualizou sobre o ocorrido. Matty compreendeu a lógica imediatamente.
— Esse sujeito é esperto. Toma muito cuidado para cobrir seus traços. Ele é um verdadeiro pensador, assim como você.
Eles saíram depois do almoço. Wolvercote era longe, por isso eles pegaram a mesma carroça que Matty usara para ajudar Sherlock a transportar sua bagagem algumas semanas atrás. Havia algo na jornada que Sherlock achou familiar, e ele percebeu depois de um tempo que eles estavam viajando paralelamente ao canal fora de Oxford. Reconheceu algumas das vilas por que passaram, e até mesmo trechos da floresta.
Uma das maiores vilas perto do destino deles possuía uma pequena agência postal. Sherlock entrou e perguntou com que frequência eles recebiam postagens. A funcionária da agência estava desconfiada, mas Sherlock a fez falar e logo conversavam como velhos amigos. Ela contou que a área de distribuição deles era tão grande que havia apenas uma entrega e coleta por dia, e que os garotos ainda não tinham saído para a entrega do dia porque ainda esperavam receber as encomendas na agência postal. Era exatamente isso que Sherlock queria ouvir.
Conforme se aproximavam do local, Sherlock teve a sensação de que sabia para onde estavam indo. E ele estava certo. “Gresham Lodge” era uma casa enorme, o muro ao redor do terreno tão alto que não se podia ver lá dentro. Embora os portões estivessem trancados com cadeados, a casa podia ser vista pelas barras. Sherlock já tinha a vira antes – uma vez quando estava no barco viajando em direção a Oxford com Matty, e a segunda vez quando vagava pela área local, tentando aprender sua geografia. Essa era a casa com um ar estranho, a casa que dava a impressão de ser um pouco torta, mesmo que cada linha fosse reta e cada ângulo tivesse noventa graus; a casa parecia ser vista pelo fundo de uma garrafa de vidro. Olhar para ela agora deixou Sherlock com dor de cabeça.
— Nós já estivemos aqui antes — disse Matty. Sua voz era baixa. — Nós estávamos no barco.
— Isso mesmo.
Ele não mencionara a enorme figura com um formato estranho em cima do telhado daquela vez. Matty não tinha visto, e Sherlock não queria preocupá-lo ainda mais. Ele também não contou que fora ali alguns dias depois e vira um homem com uma mão cicatrizada entrando com uma carruagem.
— Ainda parece estranha. — Matty observou. — Mesmo por esse ângulo. — Ele olhou ao redor, fazendo um cálculo mental. — O canal deve ser do outro lado.
— É ­— Sherlock confirmou.
— É aqui mesmo? Você tem certeza?
Sherlock ergueu a mão e empurrou a hera eu crescia sobre uma pedra pálida colocada no portão. Cravado na pedra estavam os dizeres “Gresham Lodge”.
— Sim. É aqui.
— Um garoto pode sonhar. — Matty murmurou. — Diga-me que não vamos entrar.
— Não agora. — Sherlock respondeu. — Precisamos ficar de guarda, ver quando o pacote chegará. Se a encomenda não for entregue ainda, voltaremos amanhã, e no dia seguinte, e no próximo, até que chegue.
— Essa brincadeira de investigação não é a coisa mais divertida do mundo, é?
Sherlock sorriu.
— Depende do quão a sério você leva.
A alguns passos do portão, Sherlock viu uma caixa de metal presa por um suporte na parede. Era uma caixa de correio. Tinha uma fresta, possivelmente para cartas, e uma porta com uma fechadura que deveria ser para entregas. O carteiro, provavelmente, tinha uma chave para destrancar a caixa e trancá-la novamente. Uma pequena bandeira de metal estava instalada na caixa por meio de uma haste articulada. Sherlock levou apenas alguns segundos para decifrar que aquele era o sinal para o carteiro, indicando se havia cartas para ele levar. Se a bandeira estivesse levantada, o carteiro deveria destrancar a caixa, independente de haver entregas ou não, e levar as cartas. Se a bandeira não estivesse levantada, e se ele só tivesse cartas, então ele as coloria pela fresta e iria embora. Um sistema muito elegante.
Ele olhou em volta. A beira da floresta ficava do outro lado da estrada. Camuflagem suficiente para ele e Matty ficarem à espreita.
Juntos, eles levaram a carroça pela estrada até um espaço entre as árvores em que ficaria fora da visão dos que viessem pela estrada e de quem não estivesse procurando por ela. Amarram o cavalo a uma árvore de modo que o animal pudesse alcançar a grama e voltaram a espiar. Encontraram uma posição relativamente confortável num dos galhos baixos de um velho carvalho, acomodaram-se e esperaram.

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