12 de setembro de 2017

Capítulo sete

— BEM — AMYUS CROWE DISSE quando se acomodou em uma poltrona confortável — estas não são exatamente as circunstâncias que imaginei para o nosso próximo encontro, nem mesmo o lugar. — As molas rangeram sob seu peso.
— Nem eu — concordou Sherlock.
Eles estavam sentados na sala de recepção do castelo – a mesma em que Sherlock conversara com seu irmão ferido. Os últimos vinte minutos foram um turbilhão de atividades conforme Crowe mostrava suas credenciais a Sir Sadrach Quintillan, apresentava sua filha, conhecia os outros representantes e supervisionava a transferência de sua bagagem para seus aposentos. Virginia evitou Sherlock durante todo esse tempo, embora ele estivesse dolorosamente consciente de sua presença. Quando foram oferecidos refrescos, Crowe aceitou, enquanto Virginia alegou estar cansada após a longa jornada. Sherlock lembrou-se de como a viagem marítima a afetara no caminho de ida e volta de Nova York, e não se surpreendeu quando ela foi para o quarto se deitar.
Ou talvez, uma parte de sua mente rebelde falou, ela apenas não quer falar com você.
— Onde está o Holmes Senior? — perguntou Crowe.
— Ah. Ele está descansando em seu quarto depois de ser sido atacado esta manhã na biblioteca.
— Atacado? — o rosto de Crowe vincou-se em preocupação, as rugas quase escondendo os olhos. — E isso tem algo a ver com esse sujeito psíquico – Albano – ou foi apenas um ataque aleatório?
Sherlock deu de ombros.
— Provavelmente o primeiro, mas o motivo não está claro. Ou alguém quer melhorar suas chances no leilão, eliminando a provável concorrência, ou alguém quer forçar o preço a subir, fazendo com que pareça que por Albano vale-se a pena lutar. Isso significa que os suspeitos são quase todos na casa.
Crowe assentiu.
— Esta é uma análise sucinta da situação. Eventos futuros provavelmente nos dirão qual é.
— Como assim?
— Bem, se o ataque foi projetado para se livrar da concorrência, então é provável que haja mais ataques a outros representantes. Se quiser reduzir o leque de concorrentes, então você não se livra de apenas um. — Ele sorriu. — Mas, claro, você não se livra de todos os outros candidatos, porque esse movimento entregaria o jogo a respeito de quem é o responsável. O último homem em pé, entre todos eles.
— E se o ataque foi projetado para fazer de Albano uma mercadoria mais valiosa para que valesse a pena disputá-lo?
— Então Albano reaparecerá — Crowe apontou. — Não há nenhum motivo para se leiloar algo que está desaparecido. Ele vai retornar com alguma história maluca fazendo-se parecer importante e poderoso. — Ele fez uma pausa por um momento. — Como está o seu irmão? Será que ele vai... se recuperar?
— Ele estava lúcido e conversando quando recuperou a consciência. A lesão não parecia muito grave. Aparentemente, um médico foi chamado para examiná-lo. Eu não sei se ele já foi atendido ou não, tive que caminhar até a cidade para enviar um telegrama em nome de Mycroft.
— Conhecendo o seu irmão, o telegrama provavelmente era algo na linha de “Enviem-me vinhos finos e bolos de creme: o serviço de bufê daqui não é o ideal”.
Sherlock sorriu.
— Na verdade, o serviço é muito bom. Certamente a refeição da noite passada teve a aprovação de Mycroft.
— Então você conheceu Ambrose Albano, e presumivelmente teve a chance de vê-lo em ação?
Sherlock estava prestes a responder quando de repente percebeu que não estava mais falando com um amigo, falava com um concorrente em potencial. Perguntou-se com um lampejo de preocupação o que Mycroft desejaria que ele fizesse – dissesse a verdade, não dissesse nada ou tentasse mostrar que Albano provavelmente era falso, a fim de reduzir a probabilidade de que Crowe fizesse uma oferta séria em nome do governo americano. Ele balançou a cabeça. Isso era complicado. Qual seria a melhor coisa a fazer?
A melhor coisa, ele decidiu, era dizer a verdade e danem-se as consequências. Ele conhecia e confiava em Amyus Crowe; e, fortalecendo o argumento, o mesmo fazia o seu irmão. Além disso, Crowe poderia se perguntar se Sherlock estava dizendo a verdade ou mentindo, e nesse caso Sherlock poderia muito bem dizer a verdade de qualquer maneira, já que o que ele dissesse poderia ser desacreditado.
— Sábio movimento — disse Crowe suavemente. — Fale sempre a verdade se puder. Isso confundirá ainda mais os seus inimigos – e você sabe que não sou um inimigo.
— Como você sabia o que eu estava pensando? — exigiu Sherlock.
— É muito simples, embora dê um bom truque de mágica. Você hesitou após eu ter feito a pergunta, indicando que estava em dúvida quanto a me responder. Seu olhar desviou-se para cima, onde presumo, estejam os aposentos de Mycroft. Você estava imaginando o que ele gostaria que você dissesse. Depois olhou para mim, mas seus olhos não se focaram em meu rosto – eles tinham aquela aparência de quando as pessoas ficam relembrando alguma coisa. Imaginei que estivesse relembrando tudo o que já passamos juntos. Você, então, olhou para baixo e para a direita, o que é um sinal de que você estava colocando seus pensamentos em ordem lógica antes de me contá-los. As pessoas que estão procurando por uma mentira muitas vezes olham para baixo e para a esquerda. É uma coisa estranha, mas importante de se saber. Tem algo a ver com qual lado do cérebro se está usando, creio eu – o lado analítico, ou o lado que usamos para construir histórias.
— Muito inteligente. Você tem que me ensinar a fazer isso.
— Se tivermos a chance de termos mais lições — respondeu Crowe, e havia um tom triste em sua voz que Sherlock não gostou. — Agora — ele continuou rapidamente — suas impressões sobre o Sr. Albano.
— Ele é falso — Sherlock disse imediatamente. — Eu não descobri ainda como ele consegue fazer seus truques, mas tenho certeza de que são truques.
— Que tipo de coisas ele tem feito?
— Mensagens de giz que aparecem em lousas, placas de madeira que se movem para letras a fim de explicitar outras mensagens, a produção de algum tipo de substância que é aparentemente chamada de “ectoplasma”, que pode tomar a forma de um suposto espírito...
— O repertório padrão, então. Nenhuma outra coisa mais engenhosa.
— Exatamente.
— E seu irmão concorda?
— Concorda.
Crowe balançou a cabeça lentamente.
— Suspeitei que Mycroft e eu teríamos a mesma posição, estando menos convencidos do que nossos respectivos governos estão. Pela sua descrição, posso imaginar que não ficarei nem um pouco mais convencido quando vê-lo em ação por mim mesmo do que estou agora.
— Então, como você se tornou o representante americano? — perguntou Sherlock.
— Diga-me você, meu filho.
Sherlock pensou por um momento.
— O convite saíra atrasado o suficiente para que o governo americano não tivesse tempo de enviar alguém da América; ou talvez eles achassem que a recompensa provavelmente não valeria a pena pelo custo e pelo esforço de uma viagem dessas. Eles buscaram as pessoas de confiança que estivessem mais próximas geograficamente. Isto significaria o pessoal da Embaixada em Londres, é claro, mas por alguma razão escolheram você no lugar deles. — Sherlock fechou os olhos por alguns instantes, para ajudar a si mesmo a se concentrar. — Presumo que precisavam de alguém em quem confiassem e também que tivesse a reputação de não ser enganado por trapaças, o que os levou diretamente a você.
— Precisamente.
Sherlock pensou sobre o que eles estiveram falando por um momento.
— E o sequestro, como você acha que foi arranjado?
— Eu não sei, filho, eu não estava aqui. O que você viu?
Sherlock fechou os olhos novamente, relembrando os eventos e colocando-os em ordem lógica, consciente de que Crowe tinha acabado de apontar que fechar os olhos era um sinal de alguém relembrando.
— Eu tinha acabado de retornar da cidade sozinho, e estava observando os eventos de um ponto próximo da estrada. Os outros estavam mais próximos do castelo, assim entre nós, havia uma visão de ambos os lados. Albano estava fora do castelo, aparentemente deixando-o. Ele estava tendo algum tipo de discussão com Sir Sadrach – para o benefício da retrospectiva, suspeito que tivesse algo a ver com o ataque a Mycroft. Talvez ele estivesse com medo. De qualquer forma, ele tinha acabado de sair e caminhava na minha direção quando uma carruagem surgiu a partir da estrada. A carruagem parou próximo do Sr. Albano. Dois homens saltaram para fora, mas vi um terceiro homem dentro. Todos tinham lenços sobre o rosto. E, evidentemente, o condutor somava quatro homens no total. Os dois homens que saltaram atacaram Albano, deixando-o desacordado, puseram um saco em sua cabeça e o atiraram dentro da carruagem. Eles entraram também e o condutor partiu, mas a carruagem pareceu desviar-se do caminho, até que estilhaçou-se nos muros. Os quatro homens correram para longe, e todos ainda tinham lenços sobre o rosto. Eu tinha a carruagem à vista o tempo todo desde antes do sequestro até quando ela se estilhaçou, e o Sr. Albano não saiu, mas quando eu e os outros dois representantes corremos até o local do acidente, ele não estava lá. A carruagem estava vazia.
Crowe balançou a cabeça lentamente.
— Uma boa e sucinta descrição, meu jovem. Seu cérebro não afrouxou enquanto esteve fora. Agora, algumas coisas me ocorreram. Coincidências, coisas que se destacam como sendo diferentes. Em primeiro lugar, foi muita sorte dos sequestradores que o Sr. Albano estivesse fora do castelo no momento exato em que se aproximaram. Se ele estivesse lá dentro, o que eles fariam? Teriam ido procurá-lo?
— Bom argumento — disse Sherlock. — Eles teriam que saber que ele estaria fora naquele exato momento, e a única pessoa que poderia saber isso era, eu suponho, o próprio Albano.
— Precisamente. O segundo ponto é: foi coincidência que estivéssemos todos do lado de fora observando o Sr. Albano indo embora. Todo mundo pôde então ver o rapto e, mais importante ainda, o truque do desaparecimento. Todo truque precisa de uma plateia.
— Mais uma vez — disse Sherlock — isso nos leva ao Sr. Albano. Ele era o único que tinha o motivo. Se começou aqui dentro, então as pessoas notaram e o acompanharam para assistir, então seguiram Sir Sadrach para o lado de fora. Eles eram o público perfeito. — Ele tomou uma respiração profunda. — Então foi um truque, e organizado pelo próprio Sr. Albano, ou pelo menos com o seu conhecimento e assistência. O que significa que podemos esperar que ele reapareça em pouco tempo, como você falou.
— Há outro ponto — disse Crowe.
— E qual é?
— Diga-me você.
Sherlock pensou por um momento.
— Se estivermos certos, e Albano organizou o sequestro e o próprio desaparecimento, ou pelo menos sabia que tudo estava caminhando para isso, então era importante que o acidente acontecesse dentro do terreno do castelo, porque essa era a única maneira de garantir que estivéssemos lá e soubéssemos que ele havia desaparecido. Se o acidente tivesse acontecido meio quilômetros abaixo na estrada, então não teríamos estado lá, e talvez, quando finalmente chegássemos, assumiríamos que o Sr. Albano tivesse saído. O misterioso desaparecimento só funciona quando acontece na frente de nossos olhos. Isso significa que o acidente foi deliberadamente arranjado para ocorrer exatamente onde ocorreu. Mas como?
— Ah, há várias maneiras.
— Mas e quanto ao desaparecimento de dentro da carruagem? Como ele conseguiu isso?
Crowe franziu a testa em sinal de desaprovação.
— Estou surpreso com você, Sherlock. Essa é a coisa mais simples de todas. Há apenas uma resposta. Vamos, por si mesmo.
— Oh! — exclamou Sherlock, de repente, mudando de assunto. — Esqueci-me de contar. Uma das empregadas morreu. Eu não sei se há alguma conexão com o resto ou se foi apenas uma coincidência trágica, mas eu a encontrei lá fora. Não havia nenhuma marca no corpo, mas ela tinha uma expressão de horror no rosto, e seus sapatos não estavam lá.
— Hmm. Difícil de ver como isso possa se conectar com qualquer outra coisa. Esse tipo de expressão de horror pode ser um sinal de um coração fraco tomando seu caminho, já vi esse tipo de coisa antes. Vamos deixar de lado por enquanto. — Seu olhar se suavizou. — Mas acho que há uma pergunta que você tem evitado esse tempo todo em que estivemos conversando. Você quer fazê-la agora, ou prefere fingir que não há nada de errado?
Sherlock sentiu uma súbita obstrução na garganta que o impediu de dizer qualquer coisa por um momento. Ele queria perguntar sobre Virginia, mas não tinha certeza se queria saber a resposta. Seria melhor apenas fingir que não havia nada de errado acontecendo e continuar em frente com um sorriso no rosto?
Não, ele decidiu. É sempre melhor saber a verdade, não importa o quanto doa, porque essa dor é a do tipo que se tem quando uma ferida começa a cicatrizar.
— Como vai Virginia? — ele perguntou em voz baixa.
— A resposta curta é: ela está crescendo. Ela não é mais a garota que você conhecia há um ou dois anos. Bolas, ela não é mais a garota que eu conhecia há um ou dois anos, e isso que sou o pai dela. — Ele balançou a cabeça tristemente. — Sei que você tinha sentimentos por Virginia, embora eu não tenha certeza de que você tivesse conhecimento disso, e sei que ela retribuiu, pelo menos do modo dela. O problema é que você se foi há mais de um ano, e isso aconteceu justamente quando ela estava crescendo e mudando. Ela estava pensando em garotos, em casamento, e no futuro, e você simplesmente não estava lá. Há um velho ditado, Sherlock: “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Isso significa que ter algo garantido é preferível a esperar algo melhor, porém incerto, que você na verdade não tem.  Acho que ela pensou em esperar por você. Acho que ela pensou bastante sobre isso, mas no final apenas não sabia se você voltaria algum dia. Ela teve que fazer uma escolha – esperar por uma promessa, ou pegar o que estava na frente dela.
— Então ela conheceu outra pessoa, simples assim?
Crowe fez uma careta.
— Ela não agiu como se fosse “simples assim”, filho. Levou um considerável período de tempo. Travis e Virginia se conheceram naturalmente, assim como você e ela se conheceram, na cabana. Ele monta como se tivesse nascido sobre uma sela, logo ele e Ginnie acabaram imediatamente conversando sobre isso. Ele é gentil, forte, um rapaz de boa aparência, e ela não pode deixar de se impressionar. Ela o manteve à distância por quase seis meses, mas eventualmente veio até mim uma noite e me perguntou se eu achava que você nunca voltaria. — Ele fez uma pausa, e fez uma careta. — Eu tive que ser honesto, Sherlock. Eu tinha que dizer a ela que havia uma forte probabilidade de que você poderia ter sido pego em alguma aventura, ou tivesse decidido ficar em um dos países em que esteve, ou talvez até mesmo ido para a Índia para procurar seu pai. Você poderia ter encontrado outra garota e ficado por ela. E mesmo que voltasse, eu disse a ela que poderia demorar um ano ou mais, e que você estaria mudado. Ela pensou sobre isso, e imagino que ela tenha tomado sua decisão. Mais vale um pássaro na mão do que dois voando. Então a coisa entre ela e Travis ficou mais séria, e ele a pediu em casamento. — Ele suspirou profundamente. — Não posso dizer que não gostaria que as coisas fossem diferentes, mas esperar tal coisa seria simples tolice. Temos que aceitar o mundo do jeito que é.
Sherlock descobriu que não queria aceitar o mundo do jeito que era. Ele o queria de volta do jeito como costumava ser. Ele queria mudar o mundo.
Mas isso não era justo om Virginia. Ela tinha feito a escolha dela. Tentar reconquistá-la seria agir como se suas opiniões não tivessem nenhuma validade, que não eram importantes para ele, que apenas os desejos dele tinham qualquer importância, e essa não era a mensagem que ele queria enviar. Ele tinha que deixá-la fazer a sua própria escolha.
— Existe alguma chance — ele perguntou em voz baixa, sentindo o peso morto dessa emoção indesejada em seu coração — de que ela mude de ideia agora que estou de volta?
Crowe deu de ombros.
— Você sabe quão teimosa Ginnie pode ser. A única coisa que pode mudar sua mente é ela mesma. A melhor coisa que você pode fazer é apenas estar próximo, ser um amigo, falar com ela e deixá-la a decidir o que ela quer fazer. — Ele franziu o cenho. — Mas não há muito tempo. Ginnie e eu voltaremos para os Estados Unidos depois que estas peripécias psíquicas tiverem terminado. Estive sendo chamado de volta, em parte porque o governo dos EUA quer que eu o informe pessoalmente sobre este Sr. Albano, mas em parte porque Pinkerton tem trabalho para mim. Com Bryce Scobell morto, não há mais nenhuma ameaça para nós.
— Voltando? — Sherlock sussurrou. Seu coração, que estava pesado antes, agora parecia estar cheio de chumbo e afundando em seu peito.
— As coisas mudam, Sherlock — Amyus Crowe falou simplesmente.
— Quando eu crescer, não quero que as coisas mudem. Quero viver em algum lugar que nunca mude, e não quero que meus amigos mudem também.— Ele sabia que soava petulante, mas não se conteve.
— Seu irmão Mycroft sente a mesma coisa. É por isso que ele passa a maior parte do seu tempo no Diogenes Club. Esse lugar não mudou desde seu início, e nunca vai mudar. — Ele fez uma pausa. — Falando em seu irmão, tenho que falar com ele, ver como ele está, mas antes de eu ir, fale-me sobre a China. Como é o lugar? Ouvi rumores que você fez algum grande serviço para a Marinha norte-americana, enquanto esteve lá, e eu realmente gostaria de saber mais sobre isso.
Sherlock passou a próxima hora contando a Amyus Crowe em grandes detalhes sobre suas aventuras a bordo do Gloria Scott e sobre Xangai. Crowe ficou particularmente interessado no grotesco Sr. Arrhenius e em sua filha selvagem. Sherlock explicou sobre o USS Monocacy e a trama para explodi-lo para iniciar uma guerra comercial, e do jeito como ele detectou a localização da bomba e do bombardeador. No final da história, Crowe aplaudiu.
— Você claramente não teve uma viagem simples, Sherlock. Invejo as aventuras que aconteceram com você, e me orgulhoso da maneira como usou sua mente para resolver problemas e colocar-se fora de perigo, e sou grato, em nome do governo americano, pelo o que fez. Guerra no Extremo Oriente pode ser benéfica para determinados empresários, mas não é algo que o presidente gostaria que acontecesse, e eu o tenho como a mais alta autoridade. Mas estou preocupado com o possível envolvimento da Câmara Paradol. Você e Mycroft têm certeza de que há alguma conexão?
Sherlock deu de ombros.
— Não há nenhuma evidência real, mas as indicações são de que a Câmara Paradol quer uma guerra no Extremo Oriente tanto quanto o seu presidente a quer. Ou melhor, se haverá uma guerra, então eles querem que seja em um momento de sua escolha. Eu provavelmente nunca saberei se eu realmente estava trabalhando para eles ou não, mas acho que é provável.
Crowe assentiu.
— Eles parecem ser um grupo complicado. E espero que os tenhamos visto pela última vez, mas suspeito que não. — Ele começou a se erguer da poltrona, que era tão pequena em comparação com a sua massa que ameaçava se levantar com ele, confortavelmente encaixada em torno de seus quadris. Ele empurrou-a para baixo. — Farei uma visita de cortesia ao seu irmão agora. E quanto a você, filho?
Sherlock olhou ao redor, verificando se não havia ninguém à entrada.
— Investigarei os aposentos do Sr. Albano enquanto ele ainda está seguramente desaparecido. Quero ver se consigo descobrir como alguns de seus truques foram realizados. E preciso usar a mesma linha de raciocínio para saber como ele desapareceu, também.
— Boa ideia. Informe-me os resultados.
Eles deixaram a sala de estar juntos e dirigiram-se para a sala ascendente. Sherlock mostrou a Crowe como operá-la, e eles subiram juntos para o segundo andar. Sherlock deixou Crowe à entrada do quarto de seu irmão, voltou para a sala ascendente e subiu para o terceiro andar. Ele caminhou ao longo do corredor para a segunda torre, onde Sir Sadrach Quintillan, Niamh Quintillan e Ambrose Albano tinham seus aposentos.
Niamh já tinha lhe mostrado quem ficava em cada quarto, e ele parou do lado de fora da porta de Ambrose Albano. Ninguém estava por perto, ele girou a maçaneta da porta e entrou rapidamente. Foi só quando ele estava de pé no centro do cômodo que lhe ocorreu que o Sr. Albano poderia muito bem estar escondido ali depois de seu falso sequestro – se este realmente tivesse sido forjado. Felizmente, o lugar estava vazio.
Ele olhou ao redor, catalogando mentalmente tudo para que pudesse ter certeza de que quando saísse, deixasse aparente que nada fora mexido. Albano era exigente e meticuloso: tudo estava no lugar e cuidadosamente alinhado. Sherlock começou pelo guarda-roupa, onde as roupas de Albano estavam penduradas. Ele revistou todos os bolsos e verificou se havia alguma coisa escondida entre as roupas ou por trás delas, mas não conseguiu encontrar nada. Então fez uma busca pelas gavetas da cômoda, mas as camisas dobradas, calções, meias e lenços não escondiam quaisquer segredos.
Sherlock até mesmo se ajoelhou e olhou por debaixo da cama, mas além de vários pares de sapatos engraxados, não havia nada de interessante lá.
O próximo passo foi verificar por trás das pinturas e impressões emolduradas que estavam penduradas na parede, e depois em cima do guarda-roupa. Mais uma vez: nada. Ele puxou a cômoda para longe da parede e verificou arás dela, mas além de uma linha de poeira no chão, seus esforços foram em vão.
Lembrando da época em que ele fizera uma busca pelo quarto da Sra. Eglantine – a ex-governanta de seu tio e sua tia, lá na Mansão Holmes – e encontrou o que estava procurando escondido em uma corda pendurada do lado de fora, ele abriu a janela e olhou para fora para ver se alguma coisa estava pendurada abaixo do parapeito, mas a construção de pedra do castelo não era adornado por quaisquer acréscimos. Ele puxou os tapetes, mas não havia quaisquer documentos por debaixo deles e não havia nenhuma área no piso de pedra que pudesse aparentemente ser alavancado para revelar algum buraco embaixo.
Voltando ao centro do quarto, ele olhou em volta novamente, frustrado. Estava começando a ficar sem ideias.
Olhando novamente para a cama, percebeu que havia uma franja franzida correndo ao redor da borda do colchão. Estava pendurada em dobras a meio caminho do chão.
Anteriormente, ele tinha apenas olhado para o chão debaixo da cama, mas de repente notou que próximo ao pé da cama a franja fora levantada, como se alguém a tivesse erguido e empurrado sob o colchão e depois esquecido de retirá-la de novo.
Ele voltou a se ajoelhar e puxou a franja até tirá-la completamente, em seguida, olhou debaixo da cama novamente, desta vez com atenção especial para a parte de baixo do colchão.
Uma caixa estava pendurada debaixo da cama. Ganchos em cada canto a mantinham suspensa nas molas de metal. Sherlock a estudou com cuidado para ter certeza de que saberia exatamente como colocá-la de volta, então a alcançou por baixo e gentilmente retirou-a. Era do tamanho de uma caixa de sapatos. Ele a colocou sobre o tapete, desparafusou a tampa e a levantou.
Dentro havia uma massa de material branco, muito fino e muito leve. O peso da tampa a mantinha baixa, mas com a tampa solta ela inchou, trazendo consigo outro objeto de dentro da caixa, quase como se a estivesse revelando à Sherlock.
Levou alguns minutos para descobrir o que o outro objeto era. Era branco e pequeno, uma ponta arredondada e outra, plana. Alguma coisa afiada despontava na extremidade arredondada, enquanto que a extremidade plana parecia estar ligada a uma tira de tecido que terminava em um pequeno gancho.
Sherlock pegou o objeto com cuidado e percebeu que a ponta que ele achava que era plana na verdade era oca. Isso, somado ao seu tamanho, imediatamente disse a ele o que era, e para que servia. Era um dedal, algo destinado a ser colocado na extremidade de um dedo, e a ponta afiada projetada na outra ponta era uma lasca de giz. A tira que ele presumira ser um tecido erra na verdade elástico.
Ele sorriu para si mesmo e assentiu. Durante a sessão, Ambrose Albano usava luvas brancas. Se o dedal branco estivesse escondido na manga, ou dentro de sua jaqueta, ele poderia puxá-lo para fora e colocá-lo sobre um dedo sem que fosse notado. Dessa forma, ele poderia escrever mensagens na lousa enquanto a estivesse segurando por baixo da mesa. Uma vez que tivesse terminado, era só puxar o dedal do dedo e o elástico o levaria de volta para fora da vista. Engenhoso. Simples, mas engenhoso.
Ele colocou o dedal de lado e examinou o material. Ele já tinha uma ideia do que era, mas queria ter certeza. Ele o tirou da caixa e estendeu-o. não pesava quase nada – era tão leve que parecia flutuar em suas mãos. Ele examinou-o de perto, e encontrou vários rasgos minúsculos no material.
Este era certamente o “ectoplasma” que se manifestara da boca de Albano durante a sessão. Era tão fino que poderia ser amassado em uma pequena bola pouco maior do que o dedal. Ele deve tê-lo escondido em algum lugar por perto.
Cautelosamente, ele sentiu o material. Tinha sido lavado recentemente – ele ainda podia detectar a aspereza do ácido carbólico presente no sabão. Isso provavelmente era uma boa coisa, se suas suspeitas sobre onde Albano o escondera estivessem corretas. Sherlock suspeitava que estivera de fato na boca de Albano, pressionado entre a bochecha e os dentes. Esmagado até ficar bem pequeno, não teria absorvido muita saliva, e poderia ter sido tratado quimicamente para repelir a umidade. Sob o pretexto de asfixia, Albano deve tê-lo puxado para fora. Ele supôs que o material tivesse sido embebido em algum tipo de produto químico que brilhava no escuro, fazendo parecer mais assustador nas sombras da sessão.
Isto não era apenas engenhoso: era brilhante. Tão simples e tão eficaz.
Mas como o material teria se expandido do lado de fora e flutuado no ar, e à respeito da face que pareceu materializar-se dentro de uma mortalha? Ainda havia perguntas a responder, mas Sherlock podia ver os traços gerais do truque.
Genial.
Sherlock cuidadosamente embrulhou o material de volta dentro da caixa e colocou o dedal branco em cima. Ele reparafusou a tampa, recolocou a caixa debaixo da cama, e puxou a franja de volta para sua posição.
Ele se levantou e olhou lentamente ao redor do quarto. Não havia, na medida em que ele podia ver, nenhum vestígio de que ele tivesse estado lá.
Sherlock rapidamente se retirou. Não tinha como saber se um dos criados entraria para virar o colchão, acender o fogo ou algo assim, e era óbvio agora que os criados tinham que estar envolvidos.
Saindo do quarto e fechando a porta com cuidado atrás de si, ele voltou para a torre principal do castelo e desceu para o andar térreo. Não viu ninguém no caminho. Ficou no átrio, indeciso, por alguns instantes, em seguida, dirigiu-se para fora, para a ar livre. Ele não suportava ficar confinado por muito tempo.
O céu estava ainda mais claro do que estivera mais cedo.
Sherlock saiu do castelo, atravessou a entrada principal e passou pela ponte levadiça. Ele não tinha certeza de para onde estava indo, mas a visão dos destroços da carruagem usada pelos sequestradores chamou sua atenção e ele foi até lá. Ele estava ciente do enorme castelo pedra atrás de si e também dolorosamente consciente de que Virginia estava atrás de uma daquelas janelas. O pensamento o fez sentir-se autoconsciente, e ele se viu andando com dificuldade, de maneira não natural.
Não, ele disse a si mesmo, isso é estúpido. Basta ser eu mesmo.
Quando chegou aos destroços, ele parou de pensar em Virginia e forçou-se a considerar a pilha de madeira em vez disso. Ajoelhou-se e começou a buscar através dela, incerto de primeira sobre o que exatamente estava procurando. A madeira tinha sido arremessada em direções aleatórias durante a busca infrutífera por Albano, e depois de alguns minutos Sherlock descobriu que ele estava, inconscientemente, classificando-as em montes mais ordenados, tentando o melhor que podia replicar a forma geral da carruagem.
Porta da esquerda aqui, roda traseira do lado direito lá, plataforma do condutor na frente, e bagageiro na parte de trás. Os pedaços de madeira que não pôde identificar, ele colocou de lado até que pudesse descobrir de onde eram.
Ele puxou uma longa haste que era quase com certeza um eixo. Não havia como saber se era o eixo frontal ou o traseiro, é claro. O segundo eixo estava ainda mais enterrado sob os destroços, mas quando ele finalmente conseguiu escavá-lo, descobriu que estava em vários pedaços. Devia ter se quebrado no acidente. Ele conciliou os comprimentos por alguns segundos, tentando descobrir como se encaixavam. As partes onde ficavam as rodas eram óbvias – estavam desgastadas e raspadas pela rotação constante – e isso lhe deu uma vantagem sobre como arranjar as outras peças, mas quando fez isso, ele percebeu algo estranho.
As extremidades partidas não estavam totalmente quebradas – aparentavam ter sido cortadas.
Ele olhou para o eixo por alguns momentos, pensamentos girando em torno de sua cabeça. A carruagem tinha sido deliberadamente sabotada. O eixo fora serrado de modo que se partisse quando aplicado pressão sobre ele. Albano provavelmente deu ao condutor uma manobra especial para desempenhar, que faria o truque exatamente no momento certo.
Sherlock levantou-se e suspirou. Crowe poderia achar fácil descobrir, mas Sherlock ainda não sabia como Albano tinha arranjado o seu próprio desaparecimento da carruagem. Suspeitava, no entanto, que aquilo também era algum tipo de truque de mágica.

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