20 de setembro de 2017

Capítulo seis

DEIXANDO O NECROTÉRIO e o terreno do hospital, Sherlock tomou a rota mais curta de volta para onde sabia que encontraria o rio. Ele encontrou um banco que tinha uma vista bonita e se sentou ali, pegando seu caderno para verificar as datas dos furtos. Talvez fosse a conversa que teve com Charles Dodgson sobre sequências matemáticas, mas ele sabia que havia um padrão, se ele pudesse ver. Ele ficou sentado ali por um longo tempo enquanto o sol gradualmente se punha e as sombras das árvores do outro lado do rio se alongavam em sua superfície ondulante. Depois de um momento, percebeu que Matty estava sentado pacientemente ao seu lado, mas ele não se lembrava de ver o amigo chegar.
 Eventualmente ele olhou para cima. Sua boca estava seca e com um gosto diferente, e ele tinha uma leve dor de cabeça.
— Não há padrão — ele disse a Matty, as primeiras palavras que falava em várias horas. — Esse é o padrão.
— O que isso significa? — Matty perguntou.
— Algumas coisas desapareceram do necrotério local, partes de corpos. Meu novo tutor, Charles Dodgson, é um suspeito em potencial, e também um dos alunos com quem estou hospedado, Paul Chippenham. Você lembra, nós o vimos sendo levado ontem pela polícia para ser interrogado. Falei com o patologista e recebi uma lista das datas em que as partes dos corpos desapareceram. Pensei que poderia encontrar um padrão, então eu poderia prever quando o próximo roubo aconteceria, mas não posso.
— Então é isso? Você precisa encontrar outra linha de investigação.
Sherlock sacudiu a cabeça.
— Não, a falta de um padrão é na verdade um padrão. O ladrão, quem quer que seja, evitou deliberadamente fazer o roubo no mesmo dia do mês, ou quando a lua está na mesma fase ou com o mesmo número de dias entre os furtos. Eles fizeram roubos no mesmo dia da semana – dificilmente poderiam evitar isso, porque há apenas sete dias na semana, mas eles não farão furtos consecutivos no mesmo dia os. Não há segundas-feiras juntas, nem terças juntas...
— Entendi a ideia.
— Eles também variam as condições climáticas. Há apenas uma segunda-feira chuvosa, apenas uma segunda-feira ensolarada, apenas uma segunda-feira nublada. Em suas tentativas de evitar a configuração de qualquer tipo de padrão, eles estabeleceram um padrão diferente.
Matty coçou a cabeça.
— O que você quer dizer?
— Pense assim: se passaram vinte e dois dias desde o último roubo. O ladrão já teve um espaço de vinte e dois dias entre os roubos, então ele não vai realizar um roubo hoje. Amanhã seria uma possibilidade, de acordo com as lacunas de dias, mas não de acordo com o clima. Amanhã será uma quinta-feira ensolarada, que deve ser descartada já que o primeiro roubo foi em uma quinta-feira ensolarada. Se eu puder descobrir todas as variáveis, posso passar para um calendário e determinar quais dias sobrarão.
Matty assentiu lentamente.
— Esse... é um pensamento realmente inteligente. — Ele fez uma pausa.  — Pensar faz você gastar energia, do mesmo jeito que correr ou carregar caixas, né?
Sherlock considerou.
— Estou morrendo de fome agora, se isso significa alguma coisa.
— Vamos arrumar alguma coisa pra comer então, acho que você vai precisar.
Eles comeram, e então seguiram seus caminhos separados.
Demorou mais da metade do dia seguinte para Sherlock descobrir o padrão. Ele acabou tendo que comprar um grande papel de parede e usar a mesa de jantar na casa de hóspedes da Sra. McCrery – com a permissão dela, é claro. Ele desenrolou o papel de parede de modo a cobrir a mesa toda, e depois com uma régua e uma caneta preparou cuidadosamente um calendário para os próximos três meses, com cada dia marcado separadamente, e espaços em cada dia para listar o tempo, a fase da lua e todas as outras variáveis que ele achava que o ladrão estava usando, inclusive se eram ou não feriados ou dias de feira. Ele, então, anotou no calendário tudo o que pôde. A previsão do tempo era o problema, os jornais locais apenas previam alguns dias à frente, o que pelo menos lhe mostrava que o ladrão não poderia estar planejando mais adiante do que isso de qualquer maneira. Teria sido inútil organizar um assalto para uma segunda-feira ensolarada com uma lua nova apenas para descobrir que, no dia marcado estava nevando e ele já havia conduzido um assalto em uma segunda-feira nevada de lua nova.
Sherlock teria que fazer o que ele assumia que o ladrão estava fazendo e planejar apenas alguns dias antes, verificando o clima e prevendo o quanto pudesse. O que ele fez, no entanto, foi riscar os dias que poderiam ser descartados porque seu conjunto de características já havia sido usado. Isso, pelo menos, lhe dizia em quais dias o próximo assalto não ocorreria. Não surpreendentemente, muitas das combinações já haviam sido usadas, e não restavam muitos dias para que um assalto pudesse ocorrer.
O próximo estava a três dias de distância, mas dependia totalmente do tempo. Em várias ocasiões em que ele estava trabalhando a Sra. McCrery, ou sua cozinheira, ou um dos meninos que ajudavam com a lareira, ou um dos outros estudantes na casa, passava pela entrada, olhava e franzia a testa ou sorria, mas devia ter alguma coisa na expressão de Sherlock que os impedia de entrar e questioná-lo. Por duas vezes uma bandeja de chá e biscoitos apareceu em uma mesa lateral, embora ele não tivesse ideia de como chegaram lá.
Os dois dias seguintes passaram com uma lentidão agonizante. Sherlock foi a mais uma sessão com Charles Dodgson na qual eles passaram pela geometria euclidiana, tentando derivar tudo dos primeiros princípios. Sherlock sentiu-se esgotado pela sessão, mas também estimulado. Dodgson, ele sentia, estava treinando sua mente do jeito que um treinador de esportes treinaria o corpo de um atleta.
No final da aula, Dodgson disse de repente:
— Oh, quase esqueci, você gostaria de ver algumas fotografias de seu irmão? Eu as encontrei outro dia e pensei que você pudesse querer ver.
— Seria fascinante! — respondeu Sherlock, animado.
Dodgson atravessou de sua sala para o escritório, onde pegou uma caixa de papelão. Ele colocou a caixa em uma mesa e tirou a tampa. Sherlock se juntou a ele e viu que dentro da caixa havia uma pilha de pedaços de papel rígido. Na parte superior estava uma imagem em preto e branco do irmão de Sherlock, Mycroft, sentado em uma mesa sob uma planta enorme presa à parede. Ele olhava fixamente para um lado, provavelmente se perguntando qual seria sua próxima refeição, pensou Sherlock de forma pouco caridosa. A julgar pela relativa magreza de seu rosto, o comprimento do cabelo e a forma como os botões de seu colete não estavam repuxados no algodão, a foto deveria ter cinco ou seis anos.
Sherlock sorriu. Era como uma janela para o passado. Este era o seu irmão, não a interpretação de algum artista embelezando a foto para agradar, mas a forma real como Mycroft esteve em um determinado dia e momento em que a foto foi feita. Mesmo o fato de que era apenas preto e branco não preocupava Sherlock, Mycroft só vestia roupas pretas ou riscadas, seu cabelo era preto e seu rosto, pálido, então a imagem se parecia exatamente com ele.
— Isso... — ele disse suavemente — é bastante surpreendente.
— Ele está olhando para um prato de biscoitos — falou Dodgson. — Eu disse a ele que ele tinha que ficar sentado por quinze minutos sem se mover enquanto eu tirava o retrato. Na verdade, o processo demorou apenas oito minutos, mas eu estava gostando tanto de vê-lo ansioso para comer os biscoitos que acabei deixando-o lá sofrendo mais um pouco.
Ele tirou a fotografia e a colocou de lado. Embaixo havia outra. Esta tirada do lado de fora, em um jardim. Mycroft estava de pé com um grupo de pessoas, um homem grande de ombros largos e um chapéu-coco, uma mulher bonita com um vestido franzido, um garoto que parecia ter cerca de nove anos de idade e um homem mais velho com cabelo branco escovado.
— Este é o seu irmão novamente, com alguns amigos — disse Dodgson. — Não me lembro quem são.
— Mycroft tinha amigos? — Sherlock perguntou, espantado.
— Sim. — Dodgson respondeu calmamente. — Eu era um deles.
Sherlock deixou a sala de Dodgson ainda impressionado com as fotografias inéditas de seu irmão e fascinado com o que isso poderia causar na sociedade.
Ele lia o jornal local todos os dias, esperando desesperadamente que não houvesse mais relatos de assaltos no necrotério. Se houvesse, significava que toda a sua teoria estava errada. Ele também manteve os ouvidos atentos enquanto andava pela cidade, mas ninguém mencionou nada sobre os assaltos. Havia muitas discussões sobre outros assuntos de interesse, mas nada sobre roubos bizarros ou macabros.
Na manhã do terceiro dia, Sherlock acordou e olhou imediatamente pela janela. Estava nublado, que era o que ele queria, mas não parecia chuvoso, o que também era o que ele queria. Por enquanto, tudo bem.
Ele passou o dia em uma expectativa agonizante. Eventualmente, à medida que a noite se aproximava, ele se encontrou com Matty, fora dos portões do hospital. Matty vestia roupas escuras conforme instruído. O próprio Sherlock vestia-se com as calças e o paletó mais escuros que tinha. Ele só tinha camisas brancas, então enrolara um cachecol escuro em volta do pescoço e colocara para dentro do paletó, para esconder o branco da camisa. Ele até tinha colocado luvas.
— Pronto? — Matty perguntou em voz baixa.
— Como sempre. Espero estar certo.
— Você está certo... — disse Matty — você está sempre certo. — Ele olhou ao redor e continuou. — Então, qual é o plano? Se virmos algo interferimos ou corremos para chamar alguém?
— Nenhuma dessas opções — Sherlock disse com firmeza. — Se virmos algo, então observamos à distância e o seguimos. Quero saber aonde o ladrão vai e o que faz com essas partes dos corpos. Se ele for preso aqui, ele pode se calar e eu nunca vou saber.
— Então esse é basicamente um enorme exercício para satisfazer a sua curiosidade.
Sherlock considerou por um momento.
— Suponho que seja. — Admitiu ele. — Você acha que eu deveria chamar a polícia?
Matty deu de ombros.
— Não sei. Só estou seguindo você.
Os portões do hospital estavam trancados, e havia apenas algumas lâmpadas à gás espalhadas acesas no interior do grande prédio. Sherlock e Matty andavam ao redor dos muros exteriores, que distavam três metros das árvores e arbustos que cercavam a propriedade. O muro tinha três metros de altura, e se isso não dificultasse o bastante a tarefa de escalar em circunstâncias normais, o topo era pontilhado com pedaços de vidro quebrados para impedir os intrusos. Sherlock assumiu que o hospital fosse a casa de alguém antes de ser transformado em hospital, o que explicaria as medidas de segurança. As pessoas geralmente não tentavam invadir hospitais: geralmente estão mais interessados em sair.
De vez em quando eles passavam por uma árvore particularmente velha e grande cujos ramos subiam pela parede. Matty olhava para Sherlock cada vez que passava por uma dessas árvores, mas Sherlock balançava a cabeça. Ele queria se aproximar de onde o necrotério ficava localizado, e também procurava algo diferente.
Em frente, Matty parecia ouvir algo. Sherlock também prestou atenção mas, além do som dos pássaros noturnos despertando e os chamados ocasionais de uma raposa, não havia nada.
— O que você está ouvindo? — Sherlock perguntou afinal.
— Cães de guarda. — Matty disse por cima do ombro. — Não consigo ouvir nenhum latido, mas pensei que poderia ouvi-los respirar enquanto nos rodeavam pelo interior do hospital.
— Não há cães de guarda.
— Você tem certeza?
— É um hospital, não um banco. Por que haveria cães de guarda? E, além disso, sempre há a possibilidade de que alguém drogado pelos analgésicos possa se levantar tarde da noite e vagar pelo pátio do hospital. A última coisa que os diretores do hospital iriam querer é ter um paciente ferido por um cão de guarda.
— Tudo bem então. — disse Matty duvidoso, mas ele ainda parecia procurar algo enquanto caminhavam.
No final Sherlock encontrou o que procurava, no mesmo momento em que o sol mergulhava no horizonte. Não muito longe de onde ele calculava ser o necrotério, havia um lugar onde as raízes de uma árvore enorme haviam minado a parede, quebrando os tijolos. Alguns dos tijolos caíram, deixando um buraco, e as raízes brotavam em espaços entre os tijolos, derrubados pela chuva talvez, o que permitiria que uma pessoa passasse.
Com base no fato de que havia marcas de raspão ali, Sherlock assumiu que o ladrão também havia usado esse caminho.
Ele olhou ao redor, nervoso. Havia planejado sua expedição para que eles chegassem ao necrotério antes do ladrão, mas isso se baseava presumindo que o ladrão viria tarde da noite. Se ele conduzisse esse roubo ao pôr do sol, então talvez já estivesse lá. Isso significava que ele poderia estar assistindo Sherlock e Matty naquele momento.
Sherlock estremeceu.
— Com frio? — perguntou Matty.
— Não.
— Com frio na espinha?
— Definitivamente não.
— Vamos então.
Matty se ajoelhou e depois se contorceu para entrar através da abertura. Ele deu impulso com os pés para dentro do buraco escuro por um momento e então sumiu por ela. Sherlock contou até dez, olhou em volta e o seguiu.
O pequeno túnel sob a parede era úmido e cheirava a mofo, terra e um animal que Sherlock assumia ser ou uma raposa ou um texugo. O pensamento desencadeou outro em sua mente, e se Matty, rastejando à frente dele, de repente encontrou um texugo vindo do outro lado? Os texugos eram notoriamente ferozes, com dentes afiados e até garras mais afiadas. Matty não teria chance!
Sherlock acelerou, sabendo que isso não afetaria a velocidade de Matty, mas incapaz de se impedir.
No final, sentiu uma brisa fresca no rosto momentos antes de sair do túnel para dentro do hospital. Matty estava a poucos metros de distância, espanando-se.
— Isso foi divertido — disse ele, sorrindo. — Devemos fazer isso de novo qualquer dia.
Sherlock decidiu não mencionar os texugos. Melhor não deixar seu amigo preocupado demais.
Juntos, eles correram pelo terreno do hospital, passando de arbusto em arbusto, árvore em árvore, até o necrotério de tijolos vermelhos que estava à frente. Sherlock segurou Matty pelo ombro, puxando-o para trás.
— Nós vamos assistir daqui? — Matty sussurrou.
— Não. Se o ladrão veio pelo mesmo caminho, logo passará por aqui. Precisamos mudar de lugar para que possamos ver a abordagem e o edifício também.
Sherlock rodeou o necrotério, Matty logo atrás, até encontrar um grande arbusto em que os dois pudessem se esconder. Daquele lugar eles tinham uma clara linha de visão: pela direita podiam ver a porta do necrotério, e à esquerda era a direção que Sherlock achava que o ladrão viria. Se o ladrão viesse de um lugar diferente, como por trás deles, então o arbusto continuaria escondendo-os.
O sol já havia desaparecido, e as estrelas começavam a cintilar no céu. Fiapos de nuvens flutuavam contra a escuridão. Não havia, felizmente, nenhum sinal de chuva. As condições eram perfeitas.
E foi ali que eles ficaram pelas próximas três horas. O tempo passou lentamente, como melado escorrendo de uma lata. Sherlock se sentiu começar a cochilar algumas vezes, teve que se chacoalhar para se manter acordado. Uma vez ele ouviu Matty roncar e cutucou o garoto nas costelas com o cotovelo para acordá-lo. Ele não se importaria se Matty dormisse um pouco, mas fazer barulho como um porco era demais. Poderia alertar o ladrão.
Sherlock pegara alguns biscoitos da cozinha da Sra. McCrery antes de sair e os escondera no bolso. Quando ficou com fome o suficiente, ele pegou os biscoitos e passou alguns para Matty. Infelizmente ele não tinha água. Deveria ter pego uma garrafa em algum lugar para encher antes de sair. Na próxima vez ele se prepararia melhor. Depois de lembrar-se da água, não conseguia parar de pensar em quão seca estava sua boca.
Em algum momento durante a vigília, uma raposa atravessou o gramado do necrotério. Fez uma pausa, erguendo a cabeça e cheirando o ar, depois passou. Mais tarde, uma família de texugos, dois adultos e cinco filhotes, cruzou a área em uma fila. Eles não reagiram a nenhum cheiro ou som, simplesmente continuaram em movimento, sem medo.
A lua apareceu de cima das árvores. Estava três quartos cheia, o tamanho certo para o roubo acontecer naquele dia da semana, naquele dia do mês, nas condições climáticas.
A mão de Matty se fechou sobre o ombro de Sherlock e apertou. Sherlock olhou para os lados para ver o que seu amigo vira. Ele seguiu o olhar do garoto e notou uma forma coberta de preto se movendo pelos arbustos. Quem quer que fosse, estava agachado e se movia lentamente, olhando em todas as direções para ver se estava sendo observado.
Sherlock sentiu um caloroso sentimento de triunfo atravessá-lo. Ele estava certo! Ele previu o roubo com sucesso!
A figura surgiu na clareira em torno do necrotério e olhou em volta pela última vez, parando e farejando o ar um pouco como a raposa tinha feito.
Era um homem, e ele vestia um casaco longo de caçador, o tipo de casaco com bolsos grandes para esconder coelhos e perdizes. Ele foi até a porta. Seu corpo escondia o que ele estava fazendo, mas Sherlock achou que ele pegava algo de um bolso interno do casaco. O bolso parecia estar cheio de algo, algo que se contorceu quando a mão do homem se fechou sobre ele. Ele tirou a mão, e Matty e Sherlock ofegaram. Havia uma pequena figura, como uma boneca, agachada em sua palma, e aquilo se moveu!
— Isso é feitiçaria! — Matty sussurrou.
— Não — disse Sherlock — é um macaco.
— Eu sabia disso — disse Matty.
Sherlock precisou de alguns segundos para reconhecer que a coisa era um macaco. Ele tinha visto criaturas como essas antes em feiras, circos e zoológicos. Este era pequeno o suficiente para ser escondido no bolso de um homem, obviamente, mas inteligente o suficiente para que pudesse ser treinado. Enquanto os dois observavam, o manipulador do macaco sussurrou algo na orelha do animal.
Rápido como um flash, ele pulou da mão do homem para um tubo de drenagem que subia pela lateral do prédio até o telhado. Sherlock viu a silhueta do macaco contra o céu por um momento, então desapareceu.
O homem olhou ao redor, verificando se havia alguém lá e depois andou lentamente pela lateral do prédio. Matty e Sherlock o seguiram, mantendo-se nas sombras e atrás dos arbustos o máximo que puderam.
Eles viram o homem na frente da porta dos fundos. Ele estava apoiado na porta, ouvindo. Depois de alguns segundos, Sherlock ouviu o som dos parafusos sendo desrosqueados, sendo abertos pela sua pequena companhia. O homem empurrou a porta e ela se abriu. Dentro de um segundo, o homem escorregou para dentro e desapareceu na escuridão.
Sherlock considerou por alguns instantes. Usar um macaco para abrir a porta era muito inteligente, mas Sherlock ainda queria saber o que estava acontecendo lá dentro. Os dois deveriam esperar ou se aproximar?
A decisão era óbvia, ele tinha que ver. Tinha que saber.
Ele puxou Matty consigo para fora do arbusto e em direção ao necrotério. Por alguns instantes, ficou em dúvida se deveria entrar pela porta dos fundos, como o ladrão havia feito, mas percebeu que seria um erro. Ele poderia acabar encontrando o homem enquanto estivesse saindo, o que seria um desastre. Quando chegaram à parede, ele fez um gesto para Matty ficar de costas contra os tijolos e as mãos cruzadas na frente. Matty percebeu imediatamente o que estava acontecendo e deu ao seu amigo uma ajuda. Sherlock praticamente voou para o telhado, e teve que estender as mãos para se segurar quando caiu para frente.
O ar saiu de seus pulmões quando ele bateu na pedra. Ele permaneceu parado por alguns minutos, esperando desesperadamente que o ladrão em algum lugar abaixo não o tivesse ouvido. Não havia nenhum som; nenhum movimento. Eventualmente, quando pensou que era seguro, ele seguiu em frente.
O telhado era inclinado, e havia várias claraboias ali. Sherlock rapidamente se arrastou até uma delas e olhou para baixo. Felizmente a lua estava alta no céu, e sua luz prateada iluminava a sala através do vidro. Levou alguns minutos para Sherlock reconhecer o local, era a sala onde ele e Lukather conversaram alguns dias atrás. A sala estava vazia.
Sherlock arrastou-se para a próxima claraboia. A sala agora abaixo dele tinha duas mesas com tampo de metal do tamanho de camas em seu centro. Elas estavam dispostas lado a lado. As bordas das mesas eram erguidas, cada lado contendo um dreno voltado para o canto para que os líquidos escorressem. Presumivelmente, era aonde Lukather conduzia suas autópsias. Mais uma vez a sala estava vazia, mas havia uma porta aberta. Sherlock rastejou na direção dela e encontrou-se olhando através de uma terceira claraboia para uma sala contendo grandes gavetas colocadas contra a parede, cinco fileiras com quatro gavetas cada. As gavetas eram grandes o suficiente para que pudesse haver um corpo dentro de cada uma. Na frente de cada gaveta havia um espaço pequeno com um papel. Havia algo escrito em cada papel, presumivelmente o nome da pessoa cujo corpo residia nela.
O homem estava de pé no centro da sala. Sherlock não conseguia ver o rosto dele, ele usava um lenço no rosto que o cobria do nariz para baixo. Ele olhava para as gavetas. Enfiou a mão no bolso e tirou um pedaço de papel. Depois de olhar por alguns instantes, foi para a frente de uma delas e verificou o que estava escrito no papel daquela gaveta. Ele resmungou, e mudou-se para a próxima. Mais uma vez olhou para o papel na mão, verificando os detalhes. Essa deve ter sido a certa, porque ele estendeu a mão direita e abriu a gaveta.
Sherlock prendeu a respiração. Isso era fascinante, ele não tinha pensado naquilo antes, o ladrão estava procurando corpos específicos! Não estava apenas pegando partes de um corpo de forma aleatória, estava especificamente escolhendo-as! Isso significava que talvez estivesse escolhendo especificamente as partes também? E se sim, por quê?
Enquanto Sherlock se fazia estas perguntas, o ladrão puxava totalmente a gaveta. O movimento requeria muito esforço, mesmo que a gaveta parecesse deslizar. Eventualmente, a gaveta estava completamente aberta. Olhando para baixo, Sherlock podia ver um formato embaixo do lençol, presumivelmente o cadáver.
O ladrão estendeu a mão. Por um momento, arrepiado, Sherlock pensou que ele puxaria completamente o lençol, mas em vez disso ele puxou apenas uma parte, revelando os pés do cadáver. Sherlock viu que havia uma etiqueta de papelão no dedão do pé esquerdo presa com um barbante. Supôs que era para garantir que os corpos não se misturassem.
Algo se moveu ao lado de Sherlock. Ele se afastou de repente, pensando que poderia ser o macaco, mas quando girou a cabeça para ver, era apenas Matty. Ele deve ter encontrado o seu próprio caminho.
— O que está acontecendo? — Matty perguntou.
— Shh! — Sherlock avisou. E mostrou a cena abaixo.
Na sala de armazenagem do necrotério, o ladrão checava a etiqueta no dedo do pé do cadáver, verificando se o nome na gaveta correspondia, tendo certeza de que era o certo. Ele soltou a etiqueta e enfiou a mão no bolso, tirando algo. Demorou um instante para que Sherlock descobrisse o que era, e então ele percebeu, era uma faca!
O ladrão se abaixou e começou a trabalhar no pé direito do cadáver – aquele sem etiqueta.
— Ele está tirando o dedão! — Matty sussurrou.
De fato, era isso que o ladrão parecia fazer. Ele estava cortando o dedão do pé direito do cadáver. Era um trabalho duro, Sherlock ouviu algum palavrão vindo da sala abaixo, mesmo através do vidro. Eventualmente, no entanto, ele conseguiu, e o dedão desapareceu no bolso dele junto com a faca. Ele rapidamente jogou o lençol de volta sobre o cadáver, fechou a gaveta e partiu.
Sherlock recuou pelo telhado para a primeira claraboia que observara, tentando fazer o menor ruído possível. Ele viu através do vidro embaçado quando o homem lá embaixo entrou novamente na sala de autópsia e começou a abrir caminho para a porta do corredor. Seu macaco ainda estava sentado na mesa de metal do necrotério, olhando ao redor.
Sherlock sentiu uma cãibra repentina na perna. Ele estava agachado por tempo demais no frio. Ele tentou estendê-lo às escondidas, mas perdeu o equilíbrio e caiu para frente. Mudou a posição das mãos para sustentar seu peso, mas devia ter uma lasca de madeira na moldura da claraboia, e ele sentiu que penetrou em sua palma. Sem pensar ele tirou a mão, mas o seu peso estava muito para frente, e ele caiu no vidro da claraboia.
A claraboia quebrou sob seu peso e ele caiu de cabeça na sala abaixo. A mesa de autópsia de metal estava diretamente abaixo. Se ele caísse, provavelmente quebraria algo, bem provavelmente quebraria seu crânio. Ele torceu desesperadamente seu corpo, tentando pegar a borda da claraboia com o pé. Conseguiu encaixar a ponta de sua bota sobre a madeira, e seu corpo balançou como um pêndulo.
Sua cabeça balançou em direção a um conjunto de correntes que pendiam do teto, presumivelmente para mover corpos ao redor e segurá-los, ele agarrou a corrente desesperadamente com as duas mãos. Sherlock conseguiu se segurar bem na hora em que seu pé já começava a escorregar da claraboia. Abaixo ele via a expressão confusa do ladrão, que olhava para cima em estado de choque, e saiu correndo pelo caminho que tinha vindo.
O corpo de Sherlock caiu da claraboia de novo, mas desta vez ficou pendurado nas correntes como um acrobata em um trapézio. O metal estava escorregadio sob seus dedos, e ele perdeu o controle. Ele caiu de lado, saltando da parede e pousando no chão de azulejos. Sua cabeça bateu no piso e ele viu uma galáxia de estrelas girando em seu campo de visão. Ele se sentiu mal, e suas mãos estavam queimavam de dor.
Sabendo que o ladrão estava lá, e desesperado para passar por ele, Sherlock levantou-se. Sua visão estava embaçada, ele via dois ladrões de pé em duas portas separadas, e piscou até que sua cabeça aclarou.
O ladrão franziu o cenho para Sherlock. Ele tinha barba por fazer, cabelos pretos selvagens e orelhas que pareciam ter sido repetidamente atingidas pelos punhos de alguém. Um boxeador talvez, Sherlock pensou. Um boxeador com um macaco, o que provavelmente significava que ele vinha de um parque de diversões: um cuidador de animais e um participante das rodas de boxe que eram uma característica central da maioria das feiras itinerantes. Não o tipo de pessoa que roubaria partes de corpos, necessariamente.
— Um espião, hein? — ele rosnou. — Você trabalha para os tiras? Isso não vai me impedir, cortarei sua garganta de qualquer maneira!
Desesperadamente consciente de que havia arruinado todo o plano, Sherlock ergueu as palmas arranhadas e feridas.
— Desculpe, eu estava tentando pegar... — ele pensou por um momento — um pouco de morfina. Eu tenho uma espécie de... eu preciso disso! — Ele tentou parecer tão patético quanto possível. — Olha, vou sair do seu caminho. Eu não vou tentar pará-lo, e não vou atrás de você. Eu só quero a morfina.
— Estudantes! — o ladrão rosnou, Sherlock andou para um lado da mesa de metal e o ladrão foi para o outro.
Ele parecia ter aceitado a possibilidade de Sherlock ser um ladrão também, e, apesar de sua fúria, não parecia querer nenhum problema. Ele só queria sair com o dedo roubado.
Seu macaco, no entanto, tinha outras ideias. Agarrou um bisturi de uma bandeja de metal e saltou na cabeça de Sherlock, soltando um som selvagem. Sherlock viu a criatura pular pelo canto do olho e se virou-se. Ele se abaixou exatamente quando o macaco chegou até ele. O bicho passou por cima de sua cabeça, tentando cortar Sherlock com o bisturi, mas errando.
— Barney! Seu bicho estúpido, venha aqui! — gritou o ladrão, movendo-se rapidamente em direção à porta, mas o macaco não estava ouvindo.
Ele pousou na mesa de metal e girou, pulando nas costas de Sherlock. Agarrou sua camisa com os pés e a mão esquerda, e movimentou o bisturi na direção do olho esquerdo de Sherlock. Sherlock pegou o braço do macaco com a mão. Era fino como um galho, mas peludo e incrivelmente forte. Ele podia sentir os músculos se contorcendo sob sua pele quando o macaco lutou para forçar o bisturi mais perto dos olhos de Sherlock.
Sherlock forçou a mão direita entre o peito do macaco e o seu próprio, empurrando-o. As patas traseiras do macaco arranhavam sua barriga, tentando se segurar. Sua camisa rasgou, mas ele conseguiu afastar o animal. Com um enorme esforço, jogou-o do outro lado da sala. Ele acertou a parede, gritando de raiva e caindo fora da vista. O bisturi bateu na parede e depois caiu no chão. Sherlock podia ouvir as garras do macaco fazendo barulho no chão de azulejos enquanto se movia, mas não sabia onde ele estava. O ladrão tampouco, estava parado na entrada, sem ter certeza se devia correr ou resgatar seu bicho.
Sherlock estendeu a mão direita para a bandeja de metal onde o macaco pegou o bisturi. Sua mão tremia desde a queda inesperada e o choque do que estava acontecendo.
O macaco de repente apareceu na beirada da mesa de metal. Seu pequeno rosto magro estava contorcido de raiva. Ele agarrou a beirada da mesa com a mão esquerda e subiu nela, depois saltou diretamente para Sherlock, gritando. Sherlock levantou a bandeja de metal com inteligência como se fosse uma raquete de tênis e bateu na criatura, que voou pela sala na direção ao ladrão, que o pegou no ar, colocou debaixo do casaco e correu.
Sherlock ficou ali parado, respirando pesadamente. Um barulho fez com que ele olhasse pra cima. O rosto de Matty o observava.
— Você está bem? — ele sussurrou.
— Eu estou... Bem. — disse Sherlock, embora não estivesse realmente bem. — Foi apenas uma queda estúpida. Agora nunca saberemos aonde ele vai!
— Deixe isso comigo — disse Matty.
Antes que Sherlock pudesse responder, o menino desapareceu de vista. Sherlock teve que se conter para não ir atrás do seu amigo gritando. O ladrão tinha uma faca e um macaco homicida. Matty estava em perigo enorme!

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