12 de setembro de 2017

Capítulo seis

IGNORANDO SILMAN E NIAMH, SHERLOCK correu de volta para o castelo. A ideia de que seu irmão fora ferido o encheu de horror. Ele tinha acabado de voltar às Ilhas Britânicas apenas para se encontrar com seu irmão novamente. Ter algo acontecendo com Mycroft agora era inimaginável. Ele sempre foi uma presença fixa, sólida na vida de Sherlock. E assim tinha que permanecer!
Ele correu através do fosso e atravessou o arco elevado que se abria para a área central do castelo, o coração palpitando e a respiração áspera na garganta. A entrada para a torre principal estava agora a sua esquerda, e ele atirou-se em direção a ela, subindo a rampa sem diminuir a velocidade.
No átrio, os criados estavam reunidos em torno da entrada de uma sala em que Sherlock não estivera antes. Adivinhando que era onde Mycroft estava, ele passou por eles.
O cômodo era uma sala de recepção, com cadeiras confortáveis, chaises longues e sofás espalhados. Mycroft estava sentado em uma das cadeiras, a sua grande estrutura espalhada sobre os braços da cadeira, ameaçando quebrar suas pernas finas. Ele estava branco como o ectoplasma que Ambrose Albano manifestara na noite anterior. Pareceu por um momento que ele tinha uma enorme ferida na testa, até que Sherlock percebeu que era uma mancha de sangue embebido em uma bandagem enrolada em torno da cabeça de Mycroft. Sua pele estava tão branca que o curativo era quase invisível.
Sir Shadrach estava ao lado de Mycroft, ainda em sua cadeira de rodas. Na ausência de Silman, uma das lacaias estava imóvel atrás da cadeira, pronto para empurrá-la se necessário. Conde Shuvalov estava de pé de uma maneira similar atrás da cadeira de Mycroft com a mão em seu ombro.
Mycroft tinha os olhos fechados e uma mão pousada na testa. Sentindo a abordagem de Sherlock, ele abriu os olhos e acenou com seus dedos roliços.
— Ah, Sherlock — disse ele, a voz fraca. — Peço desculpas por perturbar o seu momento pré-almoço.
— O que aconteceu? — perguntou Sherlock com urgência.
— Eu estava sozinho na biblioteca. Sir Sadrach havia muito gentilmente me dado sua permissão para realizar algumas pesquisas – compreendi que você teve a mesma ideia antes, e lamento não tê-lo encontrado. Em contrapartida, alguém me encontrou. Fui derrubado por trás. Informaram-me que o objeto em questão foi um candelabro, embora confesso que não tenha percebido no momento. Felizmente, uma das criadas entrou para ver se eu precisava de uma xícara de chá, e encontrou-me no chão.
— Você fechou a porta quando entrou na biblioteca? — perguntou Sherlock.
— Fechei, sim.
— E quando a criada entrou na biblioteca, a porta permanecia fechada?
Sir Sadrach desviou o olhar de Mycroft para uma das empregadas. Ela fez uma breve reverência e respondeu:
— Sim, senhor, ela estava.
— A porta da biblioteca dá diretamente para o átrio — Sherlock apontou. — Qualquer pessoa entrando ou saindo estaria sujeita a ser vista por alguém – a menos que haja outra maneira de entrar ou sair.
Ele estava pensando, como fizera antes, em passagens secretas.
— Não estou ciente — disse Quintillan rigidamente — de outras maneiras de entrar ou sair da biblioteca, salvo as janelas, que estavam e ainda estão firmemente fechadas. — Ele fez uma careta. — Por outro lado, havia pessoas passando pelo átrio o tempo todo, e nenhuma delas viu alguém entrando ou saindo da biblioteca entre o período em que seu irmão entrou até o momento em que ele foi encontrado inconsciente.
— Como você se sente? — perguntou Sherlock, ajoelhando ao lado do irmão.
— Estou com aquele tipo de dor de cabeça que eu normalmente tenho depois de beber uma garrafa de vinho do porto particularmente velha e encrostada, e meu estômago está me informando com urgência que o almoço está completamente fora de questão. — Ele sorriu fracamente. — Por outro lado, estou vivo, o que é sempre vantajoso.
— Já chamamos um médico — falou Sir Sadrach. — Precisamos verificar se há uma concussão, obviamente, bem como sinais de fratura no crânio.
— As questões importantes — o conde Shuvalov disse em seu sotaque russo atrás da cadeira de Mycroft — são, por que o ataque foi realizado, e por quem.
— O por quê, é óbvio — Quintillan apontou. — Alguém queria impedir o governo britânico de participar do leilão pelos serviços do Sr. Albano. Esse tipo de ação é desprezível e deplorável, e não tolerarei esse tipo de atitude no Castelo Cloon Ard.
— O senhor parece implicar — o Conde Shuvalov falou calmamente — que eu, Von Webenau ou Herr Holtzbrinck, somos os responsáveis. Por uma questão de formalidade, eu nego qualquer envolvimento, embora tenha certeza de que os outros dois senhores farão o mesmo.
— Acalmem-se, senhores — disse Mycroft fracamente, acenando com a mão novamente. — Há ainda outra possibilidade. O ataque pode ter sido organizado com o objetivo de aparentar que, para se ter os serviços do Sr. Albano vale a pena matar e, portanto, levar o preço lá em cima.
— Isso — Quintillan falou ameaçadoramente — sugere que ou eu ou o Sr. Albano somos os responsáveis. Eu inteiramente...
— Apenas tive a intenção de mostrar — Mycroft o interrompeu — que há uma série de explicações alternativas que poderiam apontar para qualquer um neste castelo. Mesmo o jovem Sherlock teria alguma razão no passado para querer me machucar, mas ele gentilmente se absteve até agora. Não há acusações sendo feitas, e eu gostaria de sugerir que nenhuma ofensa seja tomada – mesmo porque eu não tenho certeza se minha dor de cabeça deixaria qualquer argumento sair agora. Além disso, isso poderia constituir um incidente internacional, e tenho instruções estritas para evitá-las a todo custo.
Quintillan assentiu.
— É claro. Sábias palavras. Deve descansar, Sr. Holmes. Gostaria de ser levado ao seu quarto para se deitar até que o médico chegue?
— Em um momento. — Mycroft chamou a atenção de Sherlock. — Eu gostaria de ficar aqui por um tempo, só até que eu tenha minha força de volta, então meu irmão poderá me ajudar a ir até o meu quarto. Talvez um bule de chá possa ser arranjado?
— É claro. — Quintillan gesticulou para a lacaia, que começou a manobrar a cadeira de rodas para a porta. — Se houver mais alguma coisa que precise, por favor, não hesite em chamar.
— Um prato de biscoitos? — Mycroft disse esperançosamente quando Quintillan saía.
O conde Shuvalov deu um tapinha no ombro dele.
— Velho amigo, você tem a minha palavra de que...
— Não diga mais nada — disse Mycroft, interrompendo o russo. — Conheço você tanto quanto me conheço, tenho certeza que se me quisesse morto, eu estaria morto agora, e de uma forma consideravelmente mais inventiva do que ser derrubado por um candelabro. Falaremos mais tarde, quando eu estiver me sentindo melhor.
Shuvalov acenou para Sherlock e saiu. Sherlock foi até a porta e a fechou. Ainda havia funcionários agrupados no átrio do lado de fora. Ele vislumbrou Niamh, ainda entrando no átrio, mas ele não tinha tempo para explicar-lhe o que acontecera.
— Como você está se sentindo de verdade? — ele perguntou quando se virou para o irmão.
— Ligeiramente melhor do que a impressão que estou dando, mas não muito. — Ele estendeu a mão para a testa cautelosamente. — Todos esses anos a serviço do governo, e eu consegui escapar de um ataque direto até agora. Não posso recomendar isso. Ainda assim, penso que o lado bom é que isso me dá uma visão melhor sobre os perigos que os meus agentes enfrentam. — Ele franziu o cenho. — Eu suponho.
— Você não se lembra de mais nada além do que acabou de contar?
— Nada. Há um período em branco desde um pouco antes de eu ser golpeado até o ponto em que foi encontrado.
— E você tem alguma ideia de por que foi derrubado?
— Não mais do que foi dito anteriormente. Ou é para reduzir o campo de licitantes ou para forçar o preço a subir. O problema é que não nos permite excluir quaisquer suspeitos.
— Certo. — Sherlock agachou-se na frente de seu irmão. — O que faremos agora?
— Várias coisas. Em primeiro lugar, contarei com você para manter-se envolvido nas sessões. Devemos ter a certeza de que não há truques envolvidos. Se você não puder provar a trapaça, então deve ofertar em nome do governo britânico. No caso improvável de que essa conversa de fenômenos psíquicos seja verdade, então não podemos permitir que os russos, os alemães ou os austro-húngaros venham a controlá-lo.
— Ou os americanos, se eles aparecem em algum momento.
— Os norte-americanos sempre chegam atrasados — apontou Mycroft. — É uma característica nacional.
— Posso fazer-lhe uma pergunta?
— E alguma vez fui capaz de detê-lo?
— Ambrose Albano não é o único vidente do mundo. Mesmo que o governo britânico venha a perder o leilão por seus serviços, claramente eles só precisariam contratar os serviços de algum outro médium, não?
— Um bom argumento — Mycroft admitiu — e que já me tinha ocorrido. A questão é que o Sr. Albano afirma ser capaz de atingir espíritos particulares, separá-los, de alguma forma, da massa psíquica e trazê-los para o plano terreno para comunicarem-se. Todos os outros médiuns, creio eu, dizem que não têm controle sobre quais espíritos aparecerão – às vezes pode ser um ente querido, e às vezes pode ser Wolfgang Amadeus Mozart.
— Tudo bem, continuarei assistindo as sessões, e investigando os bastidores, como tenho feito. O que mais?
— Preciso que você envie um telegrama para mim.
— De onde?
— Há um telégrafo na cidade. Vou lhe dar o endereço para o qual você deve enviar a mensagem. Temo que a mensagem em si será em código. Sei que você vai sentir um desejo quase irresistível de quebrar o código, mas acredite em mim quando eu lhe digo que isso depende de um livro de códigos mantido pelo homem a quem estou enviando a mensagem. Você estará desperdiçando várias horas preciosas de sua vida, caso venha a tentar.
— Entendo.
— Agora, por favor passe-me uma folha de papel e uma caneta. Comporei a mensagem.
Sherlock caçou ao redor até que encontrou papel e envelopes, junto com um tinteiro e uma caneta, em uma gaveta. Ele os levou para Mycroft, juntamente com um livro para usar de apoio conforme ele escrevesse. Mycroft rapidamente começou a trabalhar escrevendo uma série de letras em grupos de quatro no papel. Sherlock observou enquanto ele escrevia, mas não podia ver nenhum padrão ou razão para os grupos de letras. Pareciam ser aleatórias.
Depois de um tempo, Mycroft – que parecia visivelmente exausto – escreveu um endereço na parte inferior do papel. Era algum lugar em Londres, mas não um lugar com que Sherlock estivesse familiarizado. Mycroft dobrou a folha, colocou-a dentro do envelope, selou o envelope e entregou-o a Sherlock.
— Por favor, leve isto para o telégrafo na cidade. O custo em será pequeno. — Ele apalpou os bolsos. — Creio que tenho algum trocado por aqui...
— Posso pagar, Mycroft. Não se preocupe.
— Aprecio isso, Sherlock. Obrigado por estar aqui. Eu não poderia ter esperado um assistente mais confiável ou competente nesta hora de necessidade.
Sherlock ergueu o envelope.
— Nesse caso, por que está solicitando ajuda de fora?
As sobrancelhas de Mycroft dispararam em direção ao seu couro cabeludo.
— Sherlock, você não pode ter decodificado a mensagem. É impossível.
— Você está certo — respondeu Sherlock, parte em triunfo, parte em tristeza. — Eu não decodifiquei a mensagem, mas a sua reação confirmou um significado que eu apenas adivinhei.
— Muito inteligente. — Mycroft relaxou em sua cadeira. — Sua mente é tão afiada, Sherlock, que você acabará se cortando um dia desses. — Ele suspirou. — Agora estou me fatigando rapidamente. Se puder me ajudar, tentarei fazer o meu caminho para a cama. Faça com que o médico suba quando ele chegar – assim como meu chá e biscoitos.
A menção do médico lembrou Sherlock de algo importante que ele tinha esquecido de mencionar.
— Uma das criadas foi encontrada morta do lado de fora, nos terrenos do castelo — ele falou de repente.
Mycroft olhou para ele com interesse.
— Quem encontrou o corpo?
— Eu.
— Sim, é claro que foi você quem encontrou — Mycroft parou, estremecendo com uma dor súbita em sua cabeça. — Havia circunstâncias suspeitas?
— Não pude distinguir nenhuma causa para a morte. Parecia que ela apenas... — ele deu de ombros — caiu e morreu. Talvez um ataque cardíaco.
— Coisas estranhas têm acontecido — Mycroft refletiu — mas este momento é certamente ímpar.
— Ah, e ela não estava usando sapatos.
— Interessante. — Mycroft estremeceu novamente. — Mas não consigo pensar direito sobre isso agora. Preciso me deitar. Você poderia me ajudar a chegar em meu quarto, por favor?
Depois de ter feito isso, Sherlock desceu a escadaria de pedra. Ele meio que esperava que Niamh Quintillan estivesse esperando por ele quando chegasse à base, mas o átrio estava vazio. Ele pesou o envelope na mão. Mycroft queria que ele o enviasse imediatamente. Ele supôs que devia ir até a cidade postar a carta. Poderia pedir a um empregado do castelo que a levasse, mas sabia que Mycroft esperava que ele próprio a postasse, para certificar-se de que seria enviada. Era uma boa distância até a cidade. Ele poderia pedir Sir Sadrach Quintillan uma carruagem, mas ele se sentia desconfortável em fazer isso. Uma caminhada lhe faria bem.
Saindo do castelo, ele teve o prazer de descobrir que a nuvem baixa fora soprada para o interior, deixando o céu azul descoberto, e a leve chuva havia cessado. O clima ali certamente era bastante instável.
Ele partiu no sentido inverso da rota que carruagem tomara na tarde anterior, levando a ele e Mycroft de Galway até o castelo. O caminho foi principalmente de descida, é claro – o castelo ficava em cima das falésias, e a cidade, no nível do mar. A caminhada foi agradável, com o sol brilhando baixo em um céu cada vez mais azul e o cheiro de grama molhada o acompanhando, mas ele estava dolorosamente consciente de que na volta teria que caminhar para cima. Talvez ele pudesse pegar uma carona.
Ele levou quase duas horas para ir de Salthill ao centro de Galway. Parte dele desejava que Niamh tivesse ido com ele, para passar o tempo com perguntas e jogos de adivinhação, mas outra parte percebia quão irritante se tornaria. Havia algo fascinante sobre Niamh, mas apenas em pequenas doses.
Ele passou pelo hotel onde ele e Mycroft tinham ficado e almoçado. Sabia que o telégrafo teria de estar em um algum lugar central e óbvio, e acabou encontrando-o no final da rua principal de paralelepípedos, perto do porto. Entrando, ele encontrou o proprietário curvado sobre um dispositivo mecânico complicado consistindo de vários fios e ímãs, terminando em uma simples alavanca que ele pressionava de maneira regular. Ele usava camisa sem colete, com abas de metal mantendo os punhos da manga longe dos pulsos, e possuía uma viseira verde escura presa acima de seus olhos por um elástico.
— Posso ajudá-lo, jovem mestre?
— Tenho um telegrama para enviar a Londres.
O homem levantou uma sobrancelha.
— E o senhor tem os meios para o pagamento?
— Tenho. — Sherlock entregou o envelope ao homem, juntamente com um punhado de moedas. — A mensagem precisa ser enviada com certa urgência.
— É estranho — comentou o homem — como algumas pessoas vêm aqui e dizem: “Não se preocupe, é uma mensagem trivial e pode esperar por um tempo”.
Sherlock assentiu.
— Bom argumento. No entanto...
— Será enviado rapidamente. O senhor tem a minha palavra. E se houver uma resposta?
— Então estarei no castelo em Salthill.
— Castelo Cloon Ard – como convidado de Sir Sadrach Quintillan? — a voz do homem tinha assumido um tom respeitoso, mas tingida com cautela. — Você está lá em cima?
— Estou. Com o meu irmão.
O homem acenou com a cabeça.
— Mandarei uma mensagem para lá se houver uma resposta. — Ele fez uma pausa, obviamente querendo dizer outra coisa. — Jovem mestre, permita-me perguntar... o senhor viu alguma coisa no castelo?
Sherlock hesitou. Ele tinha visto um monte de coisas.
— Tal como o quê?
— Bem... — o homem hesitou novamente. — Há rumores de que... que a Besta Negra foi vista novamente. É verdade?
— Eu não a vi — disse Sherlock. As palavras pareciam verdadeiras quando deixaram seus lábios, mas ele se lembrou da forma negra que tinha visto no salão de baile no Castelo Cloon Ard escondendo-se por trás das cortinas. Certamente um monstro parecido com uma lagosta não se esconderia atrás de cortinas, certo? Isso seria... um tanto clichê.
— Mas é verdade que a Besta levou uma vida? — o homem sussurrou, olhando em volta e sub-repticiamente, benzendo-se para se proteger.
Sherlock ficou surpreendido com a rapidez com que a notícia tinha encontrado o seu caminho para a cidade.
— Alguém morreu, mas achamos que foi um acidente — ele falou com firmeza. — Não há nenhuma conexão com a Besta Negra.
— Mas a menina morta, que Deus a tenha, ela a viu, não foi? É por isso que ela está morta!
— Foi um ataque cardíaco — disse Sherlock. — Ou talvez uma convulsão. Não havia nada de sobrenatural sobre sua morte.
— Tudo bem — disse o homem, obviamente desapontado. — Mas é o que as pessoas falam.
— De fato, elas falam. — Sherlock acenou com a cabeça. — Obrigado.
Antes de voltar para o castelo, ele conseguiu ter seu almoço em um estabelecimento local. A caminhada o deixara com fome, e ele comprou duas tortas e algumas frutas, e as comeu enquanto voltava.
Ele passou um tempo olhando a paisagem – os montes baixos, os campos, as sebes. Estranhamente diferente dos campos Inglaterra de que ele se lembrava antes de partir.
Ao se aproximar do castelo, avistou algo alto e delgado elevando-se acima das árvores. Era a torre que ele tinha visto a partir do telhado. A visão lembrou-lhe que ele tinha a intenção de visitá-la, e ele fez uma nota mental para ir até lá mais tarde.
Levou mais de uma hora para alcançar os pilares de pedra que marcavam a entrada para os jardins do castelo. Quando chegou lá, ele pensou ter ouvido o barulho de rodas distantes na pedra e o relinchar de cavalos.
Entrando, ele notou um grupo de pessoas de pé do outro lado do fosso do castelo. Sir Sadrach Quintillan estava lá, facilmente reconhecível em sua cadeira de três rodas, sendo empurrado por Silman. Von Webenau estava lá também, bem como Herr Holtzbrinck, e Ambrose Albano, que vestia um longo casaco e um chapéu, como se estivesse indo para uma caminhada. O vidente estava discutindo com Quintillan – seus braços se movimentavam, e mesmo daquela distância Sherlock podia ouvi-lo falando alto em sua voz fina e esganiçada, embora não consegusse distinguir as palavras exatas. Os representantes austro-húngaro e alemão pareciam apelar à ele para que se acalmasse – havia muitos gestos de mão deles dando batidinhas, e palavras baixas que Sherlock não conseguia ouvir. Depois de alguns minutos, Albano fez abruptamente um gesto de desprezo com a mão, virou-se e afastou-se do grupo, atravessando o fosso em direção a Sherlock.
Sherlock continuou andando ao longo do caminho de cascalho que levava ao fosso e ao castelo. Ele e Albano se cruzariam no meio do caminho. Albano, no entanto, andava rápido com a cabeça baixa, olhando para o cascalho. Ele não tinha visto Sherlock.
Uma comoção atrás dele, na entrada para o terreno do castelo, fez Sherlock virar-se. Uma carruagem preta de quatro rodas puxada por dois cavalos pretos tinha aparecido no espaço entre os pilares. O condutor – que tinha um lenço em volta do rosto – derrapou perigosamente para fazer a curva. A carruagem ia diretamente para Sherlock, que teve que saltar para fora do caminho para evitar ser atingido. Ele rolou, tentando manter o veículo à vista.
Ele teve um breve vislumbre por uma janela lateral do interior da carruagem, onde três homens estavam sentados: dois virados para a frente e um virado para trás.
Albano vira a carruagem nesse momento, ou talvez tivesse sido alertado pelo clamor do grupo no fosso. Ele parou e olhou para o veículo preto que se aproximava rapidamente dele.
Apenas momentos antes de Albano ser ceifado pelos cascos dos cavalos a galope e pelas rodas da carruagem, o condutor puxou as rédeas para a esquerda e chicoteou levemente a cabeça dos cavalos. A carruagem girou sobre si de modo que parou entre Albano e Sherlock, suas laterais voltadas uma para cada homem. A força levou-a para fora da pista de cascalho por alguns metros antes de o condutor retomar o controle.
Conforme se levantava, a mente de Sherlock corria, tentando encontrar alguma explicação para o comportamento bizarro do condutor, mas antes que pudesse chegar a qualquer conclusão, as portas de cada lado da carruagem se abriram e dois homens – também com os rostos envolto em lenços – saltaram para fora. Sherlock só teve tempo de ver o terceiro homem, imóvel dentro da carruagem, antes que o homem do lado de Sherlock desse a volta na carruagem para se juntar a seu companheiro do outro lado, e juntos eles saltaram sobre Ambrose Albano, levando-o ao chão. Um dos homens puxou um saco de seu cinto e colocou-o sobre a cabeça de Albano. O outro homem bateu em Albano, deixando-o inconsciente ou atordoado. Ou possivelmente morto. De qualquer forma, o que Sherlock sabia era que o homem não estava se movendo.
Atordoado de surpresa com a súbita mudança de eventos, voltou a si eventualmente e começou a correr em direção ao trio.
— Ei! — ele chamou. — Vocês! Parem! Larguem esse homem!
Von Webenau e Herr Holtzbrinck saíram correndo do castelo em direção à carruagem, mas eles não eram tão rápidos quanto Sherlock, e eles estavam mais longe. Levaria mais tempo para chegarem lá.
Sherlock sabia que teria que enfrentar o combate inicial sozinho.
Os dois bandidos com rostos escondidos puxaram o inerte Albano em direção à carruagem. O levantaram e lançaram-no, subiram atrás dele e puxaram as portas para fechá-las. O condutor, que estava esperando por esse momento, chicoteou os cavalos tensos para a vida. Eles se lançaram contra as correias, puxando a carruagem para longe. O condutor puxou as rédeas e os cavalos responderam, dando a volta e correndo pela grama em direção à pista de cascalho.
Em linha reta novamente para Sherlock.
Ele só teve tempo de saltar para fora do caminho mais uma vez antes de a carruagem acelerada passar como um borrão preto.
Sherlock teve uma impressão momentânea dos olhos revirados e selvagens do cavalo mais próximo, e então ele e a carruagem estavam passando por ele e se movendo em direção ao portão de entrada.
Sherlock ficou de pé novamente, espanando-se com as mãos, e assistiu enquanto a carruagem corria para longe dele. Era tarde para alcançá-la: na velocidade em que ia, se distanciaria facilmente dele.
Herr von Holtzbrinck e Webenau correram até ele, ambos respirando com dificuldade.
— Você está bem? — perguntou o austríaco, com falta de ar.
— Estou — respondeu ele. — O que está acontecendo?
— O que você pode ver — disse Herr Holtzbrinck. — Herr Albano foi raptado. Sequestrado. Levado.
— Mas por quê?
Von Webenau deu de ombros.
— Nós não fazemos ideia.
Enquanto os três fitavam a carruagem de partida, algo inesperado aconteceu. Ela parecia desviar-se para a lateral, inclinando-se sobre duas rodas e balançando de forma alarmante. De alguma maneira, o condutor conseguiu soltar os cavalos, ou talvez a torção repentina da carruagem tenha arrebentado as tiras que os ligavam à caixa. Seja qual for a razão, os cavalos fugiram para longe, arrastando as alças de couro e as rédeas por detrás deles, e desapareceram nos terrenos do castelo e pela estrada fora. O condutor, agora sem emprego e em perigo iminente de sua vida, pulou da carruagem, caindo para um lado. Ele parecia ileso a julgar pela forma como cambaleou de pé e saiu correndo.
A carruagem não teve tanta sorte. Deslizando em ângulo, ela colidiu com o pilar do lado direito com um som de estilhaços de madeira. A roda dianteira direita desabou, fazendo a carruagem inclinar-se para frente. As duas rodas do lado esquerdo saíram de seus eixos e se afastaram, voando sobre o topo da parede e desaparecendo além.
Sherlock, Herr von Holtzbrinck e Webenau trocaram um olhar chocado, em seguida, dispararam na direção do local do acidente o mais rápido que puderam.
Antes que pudessem chegar lá, três homens saíram dos destroços, batendo os estilhaços de madeira de suas roupas. Todos tinham lenços pretos enrolados em torno dos rostos – os dois homens que haviam sequestrado Ambrose Albano e o terceiro homem que Sherlock vira na carruagem. Eles viram von Webenau, Holtzbrinck e Sherlock se aproximando, entraram em pânico e fugiram através do espaço entre os pilares. Dentro de instantes, estavam fora de vista.
Sherlock teve uma sensação horrível sobre o que iriam encontrar quando chegassem aos restos esmagados da carruagem. Não havia nenhum sinal de Ambrose Albano levantando-se ileso. Ele devia ter se ferido no acidente, se já não estivesse morto.
Os três chegaram à pilha de madeira pintada de preto que era tudo o que restava da carruagem e começaram a puxar a madeira, jogando os fragmentos por sobre os ombros em suas tentativas de descobrir o psíquico.
Mas ele não estava lá.
No momento em que chegaram até a grama achatada e o cascalho espalhado debaixo de onde a carruagem esteve, eles tiveram que admitir que não havia nenhum sinal de Ambrose Albano. Os três se endireitaram e olharam em volta, procurando algum pedaço dos destroços grande o suficiente para esconder o corpo, mas não havia nada. Eles haviam movido cada fragmento dos escombros sem encontrá-lo.
— Quantos homens vocês viram fugir da carruagem após o acidente? — perguntou Sherlock. Ele deliberadamente não disse número, de modo que poderia ouvir o que os outros dois lembravam sem influenciá-los com suas próprias memórias.
— O condutor fugiu primeiro — disse Herr Holtzbrinck — seguido por três homens saídos de dentro da carruagem. Eles estavam todos usando lenços nos rostos.
Von Webenau assentiu.
— Três homens de dentro da carruagem, além do condutor.
— Além do condutor, quantos homens estavam dentro da carruagem antes de Ambrose Albano ser sequestrado? — Sherlock continuou. Esta era a pergunta chave. Ele tinha visto três – os dois homens que tinham pego Albano e o terceiro homem dentro, mas talvez estivesse enganado. Talvez houvesse apenas dois homens.
— Três — respondeu von Webenau firmeza. — Dois homens saltaram da carruagem para levar Herr Albano, mas vi um terceiro homem dentro. Vi-o claramente. Ele nunca saiu.
Herr Holtzbrinck assentiu em acordo enfático.
— Três homens – um dentro e dois que saíram.
— Então, onde está Ambrose Albano? O que aconteceu com ele?
— Talvez ele tenha sido levado para o Outro Lado — disse von Webenau sombriamente. — Talvez tenha sido resgatado por seus amigos espirituais.
— O que ele estava fazendo aqui fora, em primeiro lugar?
— Ele disse que estava preocupado com o ataque a seu irmão. Queria ir embora imediatamente. Sir Sadrach estava tentando acalmá-lo e convencê-lo a ficar, quando...
— Deixem-me perguntar — uma voz os interrompeu — o que exatamente está acontecendo aqui? Eu quase fui decapitado por uma roda girando, e depois dois cavalos quase me atropelaram, em seguida, quatro homens mascarados passaram correndo por mim. Esse não é exatamente o tipo de boas-vindas que eu esperava.
A voz – profunda e com sotaque – enviou um arrepio na espinha de Sherlock. Ele se virou para a estrada fora dos portões. Uma carruagem estava parada lá. Descendo da carruagem havia um homem impressionantemente grande em um terno branco com um chapéu também branco de abas largas na cabeça. Seu rosto era bronzeado e enrugado como couro, e seus olhos eram de um azul desbotado.
— Sr. Crowe — Sherlock falou em uma voz que ele mal reconhecia como sendo sua, que era tão cheio de espanto e alegria. — Eu não o esperava vê-lo aqui.
— Aparentemente não, caso contrário, eu teria esperado uma recepção mais calma. — Ele caminhou em direção a Sherlock e estendeu a mão. Sherlock fez o mesmo, e eles apertaram as mãos solenemente. — Quando descobri que Mycroft Holmes tinha partido para cá, imaginei que havia uma chance que você pudesse ter retornado. Fico feliz em ver que eu estava certo.
— O que está fazendo aqui?
— Você é um homem inteligente. Descubra.
A luz brilhante da pura lógica inundou a mente de Sherlock, revelando a resposta óbvia.
— Você é o representante americano na licitação para os serviços do Sr. Albano.
— Exatamente. Minhas desculpas pela chegada tardia, por sinal — ele indicou a carruagem atrás de si com o polegar. — Nós perdemos a balsa porque minha filha precisava fazer compras.
Sherlock olhou por sobre o ombro de Amyus Crowe, para a carruagem que os havia trazido da cidade. Por um momento, tudo o que ele pôde ver foi o condutor, os cavalos, o carruagem e as bagagens empilhadas em cima dela.
E então, atrás do condutor, Virginia Crowe inclinou-se e olhou para ele, e seu coração partiu-se novamente.

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