20 de setembro de 2017

Capítulo quinze

SHERLOCK SENTIU SEU ROSTO bater no chão quando caiu. Havia algo pegajoso na sua testa, bochecha e queixo. Seria sangue? Quão grave eram seus ferimentos?
Ele rolou de lado, para o caso de Jude estar dando seguimento ao ataque correndo até ele. A substância em suas mãos era marrom, não vermelha. Era creosoto. Jude deve ter jogado uma das latas nele e acertado sua cabeça. Aliviado por não estar sangrando – não muito, de qualquer maneira – ele se levantou. A foice estava a poucos metros de distância, e ele a alcançou e a puxou do chão. Sherlock se virou, sentindo o gosto alcatroado do creosoto na boca, e viu que Jude estava agachado próximo ao celeiro. Ele tinha algo na mão, tirado de uma pilha de madeira, e, quando se virou, Sherlock viu que era uma foice – uma lâmina curvada como aquela da foice que ele tinha, mas com um cabo curto.
— Lâmina contra lâmina — Jude murmurou. Sua voz estava arrastada. — Como isso soa histórico. E adequado, considerando que isso tudo é por causa de um tesouro escondido de um Cavalier.
— Não precisa ser desse jeito — Sherlock falou, ofegante. — Nós estamos praticamente empatados. Só vamos continuar nos machucando, e a polícia está a caminho. Você viu o sinal que eu deixei para eles.
Jude olhou para a estrada, e depois se voltou para Sherlock. Sua expressão, por baixo do sangue, da sujeira e do creosoto que agora cobria os dois garotos era pensativa.
— Eu sei o que você está pensando — Sherlock falou. — Você está tentando determinar se consegue chegar às chamas e apagá-las antes que eu possa impedi-lo, mas você não consegue. Pode brigar comigo ou apagar as chamas, mas não pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
— E eu sei o que você está pensando — Jude respondeu. Em algum momento, seu lábio havia se partido. Estava começando a inchar e tornando difícil para ele falar. — Você não quer me matar, e só está disposto a me machucar o bastante para me impedir. Você tem escrúpulos e eu não, o que quer dizer que eu vencerei no final, com todas as outras coisas sendo iguais. — Ele gesticulou para si mesmo e depois para Sherlock. — E elas são iguais, não são? Nós dois somos do mesmo tamanho, temos a mesma força e mesma habilidade, e agora temos uma arma similar. A única coisa que nos diferencia é: quanto dano nós estamos dispostos a causar um ao outro? Acho que eu venço nesse aspecto.
Sherlock balançou a cabeça.
— Eu acho que não. — Ele sabia que a conversa não ia a lugar algum, mas ele precisava recuperar seu fôlego, e suspeitava que Jude também.
— Eu realmente preciso apagar esse sinal — Jude falou. Seu corpo se arqueou, como se ele fosse fazer algum movimento repentino e explosivo e estivesse se preparando para isso. — Na verdade, eu quero tanto isso que estou disposto a matá-lo para conseguir o que quero. Você está disposto a me matar para me impedir, porque é isso que terá que fazer? — ele sorriu – um sorriso distorcido, por causa de seu lábio partido. — Eu posso ler o seu caráter pela sua expressão. Não acho que você tenha o necessário para ser um assassino.
Sherlock sabia o que Jude estava fazendo. Ele estava tentando afetar a confiança de Sherlock, sua habilidade de lutar, tentando debilitar a confiança de Sherlock em si mesmo, e isso não funcionaria.
— Eu já matei antes — Sherlock disse sem rodeios. Ele não estava orgulhoso disso, mas era um fato.
O garoto inclinou a cabeça para o lado.
— Não por escolha, imagino. No calor do momento, talvez. Por acidente, quem sabe. Mas não acho que você possa tomar a decisão de me matar se...
Sem terminar a frase, ele começou a correr em direção ao sinal flamejante na estrada, mancando com sua perna direita, mas mesmo assim cobrindo a distância com uma velocidade impressionante.
Sherlock lançou a foice como uma lança.
O cabo de madeira passou entre as pernas de Jude, fazendo-o tropeçar. O garoto começou a dar piruetas, de pernas para o ar, caindo no chão. Sherlock passou correndo por ele, ignorando a foice, mas determinado a ficar entre Jude e o arco flamejante.
Quando chegou à estrada e se virou, Jude já estava de pé, ainda segurando sua foice. Com o creosoto pegajoso, a sujeira e o sangue, ele parecia algo saído de um pesadelo. Sherlock suspeitou que ele não devesse estar muito melhor.
— Qual é o seu problema? — Jude rosnou. — O que o motiva a continuar? Eu não posso...
De novo, ele deixou a frase no ar e subitamente correu em direção a Sherlock, mas Sherlock conhecia o truque agora, e já estava pronto. Ele recuou alguns passos até conseguir ver o creosoto com o canto dos olhos queimando na estrada, então se curvou, recolheu um pouco do creosoto com a mão e o jogou no garoto que vinha correndo.
As chamas queimaram sua mão, e ele rapidamente a esfregou na poeira da estrada para retirar o líquido pegajoso, mas o efeito em Jude foi mais dramático. As chamas atingiram o creosoto em suas roupas, incendiando-as. Ele atirou a foice longe e mergulhou para o chão, rolando na poeira até que as chamas fossem extintas. Levantando-se devagar, ele examinou seus braços e suas pernas por queimaduras. As partes de sua roupa que não estavam cobertas de creosoto estavam agora pretas, e sua pele estava com bolhas.
— O que é tão importante que o faz continuar? — ele gritou. — Por que você não pode simplesmente parar? Você já deveria ter parado!
 —Eu tenho um trabalho a fazer — Sherlock disse simplesmente, e a simplicidade das palavras foi uma surpresa para ele tanto quanto foi para Jude. — Eu prometi a alguém que ajudaria seu amigo a solucionar um mistério, e pretendo fazer isso.
— Quem é tão relevante para você se importar tanto assim em manter uma promessa? — Jude quis saber.
— Ninguém importante. Seu nome é Ferny Weston. Ele é um policial. Ele era um policial.
O nome pareceu acertar Jude como um balde de gelo. Ele se endireitou, seu rosto imóvel. Por um longo momento ele ficou ali, olhando para Sherlock, então se virou e correu em direção ao celeiro.
Sherlock colocou as mãos no joelho e descansou por um momento ou dois. Ele estava quase acabado. Ele não tinha mais nada. Tudo o que podia fazer era esperar a polícia e Matty chegarem, e torcer para que Jude não estivesse prestes a lançar outro ataque.
Pensamentos davam voltas pelo seu cérebro – pedaços de quebra-cabeças que giravam em torno um do outro, às vezes batendo uns nos outros com um tinido de dor antes de ricochetearem para longe de novo. Jude. Seu rosto quando Sherlock mencionou Ferny Weston. Sua confissão de que ele estava recebendo informações internas sobre os roubos de arte que ele e seu bando haviam cometido. A fotografia que Sherlock vira na sala de Charles Dodgson mostrando Ferny Weston, sua esposa Marie e um garoto, juntamente com Mortimer Maberley e Mycroft Holmes.
E ele subitamente soube para onde Jude havia corrido, e o que ele faria.
Isto ainda não havia acabado.
Deixando para trás o sinal flamejante e o celeiro cheio de criminosos em estado de coma, Sherlock cambaleou de volta pela estrada para onde ele e Matty haviam deixado seus cavalos, do lado de fora da casa de Mortimer Maberley. Ele lembrava vagamente de ter sugerido a Matty que Maberley usasse seu cavalo se não tivesse um. Agora ele esperava desesperadamente que Maberley tivesse um cavalo, porque senão ele teria que voltar ao celeiro e torcer para que os criminosos tivessem deixado alguns de seus cavalos por lá – além dos cavalos de tração, é claro, que eram ótimos em puxar coisas, mas não tão bons em galopar rapidamente.
Seus pensamentos vagavam, e ele tentou forçá-los a entrar em algum tipo de ordem. Ele percebeu que estava cambaleando bastante, então se concentrou em características particulares da estrada e tentou andar em linha reta por ela. De alguma maneira ele se encontrou nos fundos da casa de Maberley, selando seu cavalo, somente com uma vaga lembrança de como havia ido parar da estrada até lá. Seus dedos estavam atrapalhados, mas ele conseguiu por fim selar o cavalo. Impulsionando-se para a sela do cavalo que aguardava pacientemente, ele o incitou a ir adiante, de volta à casa de Weston – onde, ele suspeitava, uma reunião familiar um pouco desagradável estava prestes a acontecer.
Nos anos seguintes, Sherlock não se lembraria de nada daquele percurso louco, somente imagens que pareciam pesadelos, como um conjunto de fotografias tiradas por um fotógrafo insano – igrejas passando como um borrão, nuvens passando rapidamente pela lua, a batida implacável dos cascos do cavalo na estrada. O cavalo em si parecia saber, por meios sobrenaturais, aonde Sherlock queria ir. Certamente ele não estava em condições de guiar o cavalo.
O trajeto demorou eternamente, ou apenas alguns momentos. Parecia os dois. A casa de Ferny Weston era tão distorcida quanto Sherlock se lembrava da primeira vez que a viu. O portão da frente estava aberto, e o cavalo galopou do portão até a porta de entrada e então parou, deixando que Sherlock meio deslizasse, meio caísse para o chão. Ele cambaleou para dentro da casa. Não se importou em checar os cômodos no térreo – ele sabia onde isso acabaria. Onde teria que acabar.
Quando ele empurrou a porta do quarto de Marie Weston, havia três pessoas lá dentro.
Marie estava, como antes, na cama. Sua face estava pálida, mas ela parecia tranquila enquanto puxava o lençol para se proteger. Ferny estava ao seu lado, sentado na ponta da cama com um braço ao redor de Marie. Ele vestia sua máscara de couro.
Jude – Jude Weston – estava parada ao pé da cama, apontando a arma de Ferny Weston para os dois. Ele estava queimado, cheio de bolhas, sujo e besuntado com creosoto, mas todo o seu corpo ardia com uma raiva terrível.
Ele girou a arma para envolver Sherlock.
— Sim, claro que é você. Quem mais seria? Por favor, entre e junte-se à família.
Sherlock passou por Jude para chegar até a cabeceira da cama. Por um segundo louco, ele pensou se poderia pegar a arma da mão do garoto, mas ele podia perceber pelos olhos arregalados de Jude e sua expressão febril que ele estava no limite.
Um tremor, um pequeno movimento, e a arma dispararia.
Sherlock se postou ao lado de Ferny Weston.
— Eu solucionei o problema do Sr. Maberley — ele disse vivamente, tentando quebrar o pesado silêncio de alguma maneira. — Acontece que a casa nunca se moveu, mas o pomar sim. Era tudo sobre o tesouro Cavalier no fim das contas.
— E essa é uma conversa que nós precisamos ter — Jude respondeu. — Mas primeiro, acho que meu pai tem desculpas a pedir.
— Desculpas? — a voz de Ferny era baixa e gutural, cheia de raiva. — Seu garoto imprudente! Foi você quem saiu de casa. Foi você quem desonrou o nome da nossa família.
— Você sabia que ele estava por trás dos roubos de arte? — Sherlock adivinhou.
— Eu suspeitava mais e mais conforme o tempo passava, mas nunca tive provas. O garoto sempre foi muito esperto, mas nunca teve nenhuma moral, nem escrúpulos. Qualquer coisa que quisesse, ele pegava. Tentei discipliná-lo enviando-o a escolas rigorosas, mas nada surtia efeito. Pior – ele parecia controlá-las por pura força de personalidade, fazendo com que os alunos se virassem contra os mestres e fomentando rebeliões. As pessoas o seguiam, sempre, em qualquer lugar. Ele tinha esse tipo de personalidade. Ele conseguiu uma bolsa para Oxford, embora eu suspeite que trapaceou para consegui-la, mas quando o expulsaram, ele desapareceu. Nós nunca mais soubemos dele depois disso.
— Deixe-me ver seu rosto, pai, se vai ficar falando de mim desse jeito — Jude falou em uma voz de zombaria. — Tire sua máscara. Olhe-me nos olhos.
— Jude, não! — sua mãe choramingou, mas Jude virou a arma em sua direção e ela ficou quieta.
Ferny Weston levantou as mãos e desprendeu a máscara. Ele a tirou, revelando seu rosto quebrado, cheio de cicatrizes, seu couro cabeludo em forma de quebra-cabeça, seus olhos flamejantes.
— Você fez isso comigo. Você montou aquela armadilha, na casa em que pensamos ser seu esconderijo.
— Sim, fui eu, e agora pretendo terminar o que comecei. Você interferiu em meu trabalho naquela época e ainda está interferindo, enviando este... detetive fedelho... para me parar. — Ele balançou a arma e a apontou diretamente para o rosto de Ferny. — Diga boa noite, pai — ele murmurou.
— Uma pergunta — Ferny disse calmamente. — Você me deve isso.
— Eu não te devo nada, mas pergunte de qualquer maneira. Posso me divertir respondendo.
— Quem na polícia estava fornecendo informações para você sobre nossa investigação? Eu nunca descobri. Só me conte isso, então mate a nós dois, se é isso o que tem que fazer. Deus sabe que seria uma benção para nós dois.
— Ah, eu não vou matar vocês dois — Jude respondeu. Ele olhou para Sherlock. — Diga a ele por que. Eu sei pelos seus olhos, e pela maneira como apertou os lábios, que você já sabe.
— Sabe o quê? — Ferny exigiu.
Sherlock suspirou.
— Não foi tão difícil descobrir. É a mesma pessoa que contou a Jude sobre Mortimer Maberley e seu tesouro Cavalier.  É a pessoa de quem ele herdou suas tendências criminais. É a sua esposa, Ferny.
As palavras permaneceram no ar como uma vibração de um sino pesado.
— Mas... — Ferny disse, então parou. Muitas emoções diferentes passaram por seu rosto, uma após a outra – descrença, compreensão, raiva e aceitação relutante.
— Ela planejou a coisa toda, até onde sei — Sherlock continuou.
— Mas... a casa? A armadilha? Ela também ficou presa nela!
— Um acidente, suponho. — Sherlock olhou de Ferny para Marie, que observava o desenrolar dos fatos com uma expressão de interesse atento. — Ela entrou para verificar se você estava realmente morto, mas foi pega quando parte da casa desabou sobre ela. Precisou de você desde então e, com foi invalidado pela polícia, não era mais uma ameaça para eles. Ela tem estado em contato com Jude desde então, dando a ele os elogios de que precisa e suas ordens, enquanto ele a mantém informada do progresso de seus crimes.
— Mas... como? — Ferny balbuciou.
Sherlock notou que sua mão havia saído das costas da sua esposa e estava agora no acolchoado da cama.
Sherlock apontou para o papel e o fio marrom que ainda estavam na mesinha de cabeceira, deixados para trás do embrulho contendo a parte do corpo em cera que ele e Matty seguiram, o que parecia ter acontecido semanas atrás.
— É o fio, não é? — ele perguntou a Marie. — Tem muitos nós, e eles estão espaçados de maneira estranha. Eu notei da primeira vez que vi. Tem um código ali, na maneira como os nós são arranjados? — ele olhou de volta para Ferny. — Um dos agentes pegava os pacotes antes de eles chegarem aqui e os embrulhava de novo, codificando as mensagens no fio. Presumo que havia um sistema similar saindo daqui – a sua esposa pedia para você postar pacotes que ela mesma havia embrulhado?
— Bordados — Ferny murmurou, ainda apertando a colcha com seus dedos desajeitados, quebrados. — Ela enviava bordados para seus amigos – para o mundo todo, aparentemente. Nunca entendi como ela conhecia tantas pessoas.
— Ah — Sherlock concordou — bordado é apenas uma série de nós, todos juntos, não é mesmo?
— Chega — Marie Weston interrompeu em sua voz vivaz e amigável. Ela soava como uma professora de escola falando com uma classe cheia de crianças indisciplinadas. — Isto poderia continuar o dia todo se não pararmos. Jude, eu não quero nenhum sangue aqui. Leve os dois para fora e atire neles no jardim, então enterre os corpos. Você pode até se mudar para cá novamente. As coisas vão mudar.
— E quanto ao George? — Jude perguntou.
— Ele ainda está doente lá em cima, depois que deixou que uma das cobras o mordesse, de outra maneira eu o mandaria ajudá-lo.
Com seu olho, Sherlock mediu a distância entre si e o garoto, mas era grande demais. Jude atiraria nele antes que se movesse. Ele sentiu Ferny tensionar ao seu lado, e colocou a mão no ombro dele, segurando-o no lugar. Eles poderiam ter uma chance enquanto desciam a escada, ou quando chegassem ao térreo. Poderiam. Ele não estava confiante, entretanto. Jude Weston era perigosamente inteligente, e era provável que previsse o que Sherlock faria antes mesmo que ele fizesse, apenas por uma flexão de ombros.
— Levantem — Jude disse, gesticulando com a arma. — Para fora.
Ele recuou até o corredor para que eles pudessem chegar até a porta, mas também para que estivessem longe o suficiente para que não o atacassem antes que ele puxasse o gatilho.
— Marie...? — Ferny chamou melancolicamente. Ele se aproximou para pegar a mão de sua esposa. Ela afagou sua mão, sorriu para ele e disse:
— Não se preocupe, querido. Jude será rápido. Isso são só negócios para mim e para ele. Só negócios.
Ferny se levantou, e pareceu para Sherlock que ele havia encolhido para dentro de si mesmo. Ele era um homem quebrado agora, tanto emocional quanto fisicamente.
Sherlock saiu para o corredor, com Ferny o seguindo. Jude moveu-se para trás ao longo do corredor, para longe das escadas. Ele manteve a arma apontada para a testa de Sherlock.
— Agora desçam — ele ordenou — e devagar. Se vocês se moverem subitamente, ou até mesmo se virarem, colocarei uma bala em sua cabeça.
Sherlock se virou para encarar as escadas. Ele não conseguia pensar em uma única coisa para fazer. Jude havia planejado cada ângulo, cada movimento. Ele podia prever cada provável movimento de Sherlock e contra-atacar.
Desespero se apoderou dele quando se aproximou da escada e da sua morte.
Algo se levantou de onde estava escondido nos primeiros degraus da escada. Era Matty. Ele tinha algo em sua mão. Algo vermelho vivo.
— Abaixe-se — ele disse.
Sherlock mergulhou no chão. Enquanto se abaixava, ele viu Matty puxar seu braço para trás e arremessar o objeto vermelho com a maior força que conseguiu. Atrás de si, Sherlock escutou Jude gritar:
— Mas o que...
Porém as palavras foram cortadas por um baque úmido e um barulho asfixiante.
Virando-se, mesmo enquanto mergulhava em direção ao chão, Sherlock viu Jude Weston de pé no final do corredor. Havia algo vermelho saindo de sua boca. Ele ainda segurava a arma, mas parecia não saber o que fazer com ela. Sua mão caía ao lado corpo, levando a arma junto. Seus olhos estavam arregalados, enlouquecidos, e ele gorgolejava.
Ele caiu para frente como uma árvore que tivesse sido cortada na base e bateu com força no carpete. Seu pai olhava, incrédulo.
Sherlock se voltou para Matty, que estava se erguendo.
— O que você fez? — ele perguntou.
O rosto de seu amigo estava pálido e suado.
— Fui ao celeiro — ele disse, com dor em sua voz. — Eu vi o sinal. Segui você até aqui porque as pessoas o viram passar galopando como se tivesse saído inferno. Cheguei aqui e não sabia o que fazer. Eu não tinha uma arma, então peguei um dos sapos venenosos do Ferny de um tanque lá embaixo. Pensei que o veneno deles não surtia efeito quando os tocamos, só quando está dentro de nós. Por isso arremessei nele.
Ele levantou sua mão direita, que estava cheia de bolhas e pegajosa.
— Acho que eu estava errado — ele falou, e então desabou nos braços de Sherlock.

Epílogo
O sol brilhava em um céu azul perfeito, refletindo os lustrosos instrumentos de latão da banda militar enquanto eles se sentavam no palanque. Todos os rostos dos músicos se concentraram no regente ao centro, observando enquanto ele erguia sua batuta.
Ele a trouxe para baixo dramaticamente, e todos começaram a tocar uma marcha vibrante.
O parque estava cheio de pessoas – casais caminhando, pais com seus filhos e o casual homem mais velho em um traje preto, cartola e bengala passeando na luz do sol. A maioria das cadeiras de praia ao redor do palanque estava ocupada, mas Sherlock e Mycroft haviam conseguido achar duas cadeiras juntas, que estavam na sombra e também separadas das outras por uma fileira vazia.
— Isso é vida — Mycroft comentou. Ele segurava um sorvete na mão, ocasionalmente lambendo as gotas que derretiam e escorriam pela casca. — Família, luz do sol, sorvete e uma banda de música. Eu realmente acho que a Inglaterra tem a melhor música marcial do mundo. Os italianos têm Verdi e Rossini, os austríacos têm Mozart e os alemães têm diversas gerações de Bach, mas nós temos bandas marciais e marchas vibrantes. Acho que ficamos com a melhor parte.
— Você me deixou no escuro — Sherlock falou baixo. Ele queria desesperadamente estar bravo com seu irmão, mas ele segurava um sorvete também, e isso dificultava as coisas.
— Suspeito que os Estados Unidos da América  nos ultrapassarão no que diz respeito a música marcial — Mycroft continuou como se Sherlock não tivesse dito nada. — Eu já estou ouvindo bons relatos de um jovem compositor de lá chamado John Philip Sousa. De qualquer maneira, no momento nós ainda somos superiores no assunto. Não se pode derrotar uma boa marcha militar.
— Mycroft...
— Como está o seu amigo Matthew? — Mycroft interrompeu.
— Ele está se recuperando.
Sherlock estremeceu, pensando em quão perto Matty havia estado de morrer. Somente a rápida reação de Ferny Weston em esfregar as mãos de Matty com carvão e injetar-lhe uma droga que neutralizava o veneno na pele do sapo o salvou. Uma vez que ele estava estável, Sherlock o levou ao alojamento da Sra. McCrery, onde havia uma cama sobrando. A Sra. McCrery parecia ter se afeiçoado a Matty, então ele estava acomodado confortavelmente lá e sendo alimentado praticamente de hora em hora. Sherlock achava que Matty engordaria bastante até voltar para Londres.
— Bom. Ele é um garoto corajoso e engenhoso. Um mundo sem ele seria um mundo ruim.
— Ele não teria estado em perigo em primeiro lugar se você tivesse sido honesto comigo! — Sherlock rebateu. Irritado consigo mesmo pela reação emocional, ele lambeu seu sorvete.
Mycroft suspirou pesadamente – que era, Sherlock refletiu, a única forma como seu irmão podia suspirar hoje em dia.
— Não é como se eu estivesse deliberadamente segurando informações. Eu apenas não queria que você fosse sobrecarregado com isso quando chegasse a Oxford. Minha intenção era enviar-lhe uma carta depois de algumas semanas mencionando de passagem a situação de Mortimer Maberley e sugerindo que você desse uma olhada quando estivesse na vizinhança. Eu teria contado sobre Ferny Weston também, no decorrer do tempo. Eu só...
— Você só queria que eu pensasse que eu era um agente livre, ao invés de um dos seus agentes, durante o maior tempo possível — Sherlock completou.
— De fato. — O rosto de Mycroft estava ilegível. — O melhor agente é aquele que nem sequer percebe que é um agente.
— Mortimer Maberley foi a única razão para você me enviar a Oxford? — Sherlock perguntou.
— De maneira alguma. Oxford é o melhor lugar para você estar nesse momento da sua vida. O fato de minha atenção ter sido direcionada ao dilema do Sr. Maberley por uma carta anônima de Ferny Weston foi meramente uma coincidência. O que não antecipei era que você seria tão rápido em descobrir o problema e solucioná-lo. Ou que o jovem Matthew seria tão gravemente ferido no processo. — Ele parou por um momento. — Sherlock, tenha em mente que se eu o tivesse enviado a Cambridge ao invés de Oxford, haveria assuntos lá que necessitariam de investigação do mesmo jeito. Na verdade, em qualquer lugar que você vá na Inglaterra haverá questões e mistérios a serem solucionados que a polícia local parece incapaz de direcionar.
Sherlock deu de ombros.
— Então parece que toda a polícia da Inglaterra precisa de um detetive que seja melhor informado e mais obstinado que a polícia.
— Um pensamento que você faria bem em guardar para o futuro — Mycroft lambeu seu sorvete. — Ferny Weston pensou que fosse esse tipo de detetive, mas, por mais que eu respeite o homem, ele tem um cérebro de policial. Seus pensamentos caminham em linha reta. Ele não lida bem com becos sem saída, enquanto o seu cérebro, sim.
— E quanto à esposa dele? O que acontecerá com ela?
— Quanto mais investigamos, mais nós achamos — Mycroft disse enigmaticamente.
— Nós? — Sherlock o desafiou. — Pensei que você estivesse no Ministério de Relações Internacionais, não com a polícia?
— No ano passado, um empresário americano de ferrovias morreu enquanto tomava sopa em um restaurante caro, no dia anterior em que assinaria um importante contrato de negócios. Inicialmente um ataque cardíaco foi a suspeita, mas mais investigações revelaram a presença de um veneno de ação rápida em sua sopa de lagosta – um veneno derivado da água-viva. Dois dias depois uma empresa russa assinou o contrato no lugar dele. Três meses depois disso um juiz na Itália morreu enquanto bebia uma taça de vinho, logo antes de começar a presidir o julgamento de um oficial do Vaticano por fraude bancária. Novamente, um ataque cardíaco foi a suspeita; e de novo foi provado ser um veneno – desta vez derivado de uma cascavel. O julgamento subsequentemente desmoronou, já que nenhum juiz assumiria o inquérito. Eu poderia chamar sua atenção para vinte, talvez trinta casos parecidos ao redor do mundo desde que Ferny Weston e sua esposa sofreram seu “acidente”.
— Ela estava fornecendo venenos a criminosos pelo mundo? — Sherlock estava horrorizado.
— Estava — seu irmão confirmou. — Veneno é a arma de uma mulher. A propagação dos casos ao redor do mundo e seus efeitos desestabilizadores na política e nos governos fez disso um assunto do Ministério de Relações Internacionais.
— Ela era tão agradável. — Sherlock se lembrou da conversa que ele tivera com Marie Weston em seu quarto. — E tão bonita.
— “Um indivíduo pode sorrir, sorrir, e ser um vilão” — Mycroft citou calmamente. — Ou foi o que Shakespeare disse em Hamlet. Eu já disse antes e direi outra vez: a solução para qualquer problema político pode ser encontrada em Hamlet.
— Mas ela não poderia estar fornecendo os venenos sozinha, alguém deveria estar ajudando, e me recuso a acreditar que fosse Ferny.
— Suspeito do criado, George. Ele está sob investigação também. E, para responder sua pergunta anterior, creio que nada acontecerá com a Sra. Weston. Ela está paralisada, acamada e, como você observou, é bonita. Levar tal mulher a julgamento causaria comoção e raiva entre a população em geral. Não, ela será severamente advertida, e será observada. Todos os pacotes que entrarem e saírem da casa serão inspecionados. Sua vida estará sob constante vigilância. Pior – seu marido saberá de tudo. Ele não sairá da casa, mas a abandonará em tudo, menos em termos geográficos. Um final triste para as coisas. — Bruscamente mudando de assunto, ele continuou: — Mas e sobre esse tesouro Cavalier? Depois do garoto e da mãe procurarem por ele por tanto tempo, não me diga que você simplesmente trombou com ele?
— Quase “trombei”. Eu tinha percebido que as macieiras do pomar eram de diferentes tipos, e me ocorreu que, quem as tivesse plantado poderia ter deixado uma pista de onde o tesouro estava enterrado. Se, por acaso, houvesse apenas uma macieira do tipo “variedade do rei”, ou “jardim real”. Depois, quando Matty e eu atravessávamos daquele labirinto de túneis, percebi que havia uma árvore cujas raízes nós desviávamos completamente. A única razão para que não houvesse túneis entrando ou saindo daquela árvore seria se ninguém nunca tivesse se escondido ali, o que significaria que era o local perfeito para o tesouro.
— Ah — Mycroft falou. — É claro. Que simples.
— Simples se você estivesse lá — Sherlock murmurou.
— O que você acha de Charles Dodgson? — Mycroft continuou como se Sherlock não tivesse dito nada.
— Seu cérebro funciona como um saca rolhas — Sherlock disse, sorrindo. — Seu amor por jogos de palavras e quebra-cabeças matemáticos é impressionante. Sinto como se tivesse sempre que correr para acompanhá-lo, mentalmente, pelo menos. É um sentimento revigorante.
— Ele pensa muito bem de você. Me escreveu para contar isso. Ele acha que você é um aluno excelente — ele sorriu. — Fico contente.
A banda militar terminou sua melodia, e a multidão aplaudiu. Sherlock e Mycroft fizeram o melhor para acompanhá-los, visto que estavam com os sorvetes nas mãos.
— Se você não gosta de Oxford — Mycroft continuou — então pode retornar a Londres. Não quero forçá-lo a seguir um rumo que não queira.
Sherlock pensou por um momento.
— Não, acho que ficarei. Estou me divertindo. E, é claro, Matty não está em condições de se mudar no momento.
— De fato. — Mycroft ficou em silêncio por um tempo. — Talvez eu possa enviar a ele uma cesta de comida — ele acrescentou. — Como um pedido de desculpas.
— Acho que ele está recebendo mais do que o suficiente de comida onde está — Sherlock respondeu. Ele riu subitamente.
— O que foi?
— Você pode sempre reparar e pintar seu barco enquanto ele está acamado. Acho que ele apreciaria.
— Então é isso que farei. — Mycroft se reclinou em sua cadeira e fechou os olhos enquanto a banda começava uma nova música. — Ah — ele murmurou — isto é perfeito. Eu gostaria de poder captar este momento para sempre. Eu gostaria de poder tirar um retrato seu, como está agora, antes que fique mais velho e se torne um homem e não mais um garoto.
Sherlock se lembrou de um tempo não muito antes, nas margens do rio Isis, com Charles Dodgson tirando sua fotografia.
— Um dia — ele falou calmamente — nós todos teremos equipamentos do tamanho de uma caixa de fósforos com alavancas do lado, e quando apertarmos essas alavancas, uma lâmina de vidro dentro da caixa registrará exatamente o que vimos e preservará para a posteridade.
— Quão fantasioso — Mycroft respondeu, com seus olhos ainda fechados. — Você poderia dizer também que teremos outras pequenas caixas que, ao pressionarmos uma alavanca, de alguma maneira gravará essa linda música que estamos escutando para podermos ouvi-la novamente mais tarde, no conforto de nossas próprias casas.
Sherlock sorriu.
— Novas coisas estão sendo desenvolvidas o tempo todo — ele respondeu. — Talvez seja até a mesma caixa.
Mycroft bufou.
— Aproveite o momento. Aproveite enquanto pode. Ele nunca mais poderá ser recriado.
Sherlock fechou seus olhos e se recostou na cadeira. Ele sabia que seu irmão estava errado a esse respeito, e a insistência de Mycroft em pensar que o mundo sempre estaria basicamente do mesmo jeito que estava agora o incomodou. Havia mudanças a caminho – grandes mudanças – e o mundo precisava estar pronto para elas.

2 comentários:

  1. Já estão acabando a série </3 uma pena, estou gostando tanto desses livros do Sherlock jovem, se tivesse 50 livros da série , eu acho que eu leria todos

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Boa leitura :)