12 de setembro de 2017

Capítulo quinze

BARÃO MAUPERTUIS ESTAVA, se é que isso era possível, ainda mais frágil do que tinha parecido estar da última vez que Sherlock o vira. Isso fora dois anos antes, quando Maupertuis tentava destruir o exército britânico com abelhas assassinas. Ele estava então preso a um conjunto elaborado de cordas, cabos e fios que permitiam que seus criados o movessem por aí como uma marionete. Isso, no entanto, tinha sido em seu próprio terreno, em sua própria mansão. Agora, a céu aberto e cercado por guarda-costas, ele parecia um esqueleto animado vestido com uniforme militar. Sherlock podia ver claramente as juntas de seus dedos e dos pulsos – inchaços onde os ossos magérrimos se encontravam e articulavam. A trança de ouro na frente de seu uniforme negro parecia mais grossa do que os dedos. Seu rosto era uma caveira encoberta com pergaminho. Veias proeminentes rastejavam seu caminho através de seu couro cabeludo, surpreendentemente roxo contra a pele branca. Seus olhos eram as únicas coisas nele que pareciam vivos, e eles tinham vida suficiente para vários homens. Eles olhavam para Sherlock com um ódio maníaco que o menino podia sentir como uma força física empurrando-o para trás.
Os homens que estavam com ele se moveram de forma a rodear Sherlock e Crowe. Eles estavam, com exceção do gigante que estava parado logo atrás de Maupertuis, todos armados. Seguravam várias armas medievais – alguns tinham espadas, outros carregavam lanças ou alabardas. Parecia a Sherlock que os bandidos tinham feito a limpa nas armas de algum depósito nos porões do castelo.
Maupertuis era logicamente incapaz de se levantar sem ajuda, mas lá estava ele, sem meios visíveis de apoio. Sherlock tentou descobrir o que o mantinha de pé, então percebeu com um choque que Maupertuis estava preso por uma espécie de cinta complicada ligada ao corpo do homem que estava atrás dele. Aquele homem era alto, grande e musculoso, mas usava roupas que eram de cinza fosco, manchado em tons diferentes, enquanto as tiras de fixação de Maupertuis eram da mesma cor que a vestimenta do Barão. Um capuz feito do mesmo material cobria a cabeça do homem, terminando em duas projeções feito chifres acima das orelhas. Duas fendas tinham sido cortadas para ele ver. O efeito era fazê-lo desaparecer ao fundo, como se ele não estivesse lá.
Maupertuis se destacava em relevo acentuado, com a cabeça localizada no nível do peito de seu carregador. Os braços e pernas de Maupertuis estavam anexados aos braços e pernas do gigante atrás dele. Quando o homem andava para frente, seguindo algum tipo de comando escondido, as pernas do Barão se moviam como se estivessem de fato o impulsionando para frente. Quando o homem levantava o braço, era como se o Barão estivesse apontando para Sherlock.
— Você — o Barão anunciou, sua voz um pouco mais alta do que o vento, mas ainda coberta com veneno — não é Ambrose Albano.
Agora que o truque tinha falhado, Sherlock tirou seu disfarce.
— Não — ele disse em voz baixa — mas já nos encontramos antes.
— É claro. — As feições de Maupertuis contorceram-se de raiva. — O garoto, Sherlock Holmes. Eu sabia que você estava no castelo, e sabia que você interferindo com os planos de Quintillan expondo seus truques estúpidos, mas não esperava que você estaria aqui, substituindo o psíquico. Eu não achava que você seria tão tolo!
— Eu devia ter adivinhado que a Câmara Paradol estava envolvida nessa... mistura de disparates — Crowe anunciou, tentando atrair a raiva do Barão.
Os lábios finos de Maupertuis formaram um sorriso de escárnio. Ele nem sequer olhou para Crowe quando disse:
— Você não tem a inteligência para entender nada. Eu sei tudo sobre você, Amyus Thaddeus Crowe. Eu o estudei desde que cruzou o meu caminho brevemente em Farnham, há dois anos. Sempre tenho por objetivo entender meus inimigos. Conheço seus segredos e sei de sua história, desde quando nasceu até o momento em que irá morrer – que será em poucos minutos. Sua vida não tem sido de grandes realizações. Poucas pessoas lamentarão a sua passagem, e menos ainda se lembrarão daqui a cinquenta anos, mas o nome Barão Maupertuis ressoará através dos séculos! Isso é o que acontece quando...
Algo sobre a forma como o barão Maupertuis se movia em conjunto com o gigante de pé atrás dele provocou um pensamento no cérebro de Sherlock. Ele seguiu essa conexão brilhante até que de repente se iluminou com um conjunto de outros fatos que haviam estados ocultos na memória de Sherlock.
— A Besta Negra! — ele anunciou, interrompendo discurso do Barão. — Você é a Besta Negra!
Isso parecia tão óbvio agora que ele estava olhando para Maupertuis. O contorno volumoso e disforme dos dois homens ligados... Sherlock não sabia o que era que as pessoas tinham relatado ter visto anos atrás, mas ele sabia agora tão claramente como sabia qualquer outra coisa, que as recentes aparições da Besta Negra tinha sido na verdade aparições do barão Maupertuis amarrado ao peito do seu portador gigante, vislumbrado na escuridão, ou na névoa, ou nas sombras, movendo-se em torno do castelo e de seus jardins.
— Uma lenda estúpida — disse o Barão — mas que foi útil para mim. Ela deteve os camponeses locais de investigar, e me deu rédea livre para me mover por aí.
— Com que fim? — perguntou Crowe. — O que exatamente veio fazer aqui no Castelo Cloon Ard?
Maupertuis moveu seu olhar feroz de Sherlock para Amyus Crowe, e o grande americano deu um pequeno passo para trás quando sentiu a força de vontade fanática de Maupertuis. Isso preocupou Sherlock. Ele já tinha visto Crowe superar um urso furioso apenas pela força de sua própria vontade.
— Você morrerá sem saber — disse o Barão. — Esse é o menor dos prazeres que ganharei com sua morte.
— Na verdade — disse Sherlock — é óbvio. Tem sido evidente o tempo todo. A Câmara Paradol é o sexto licitante invisível. Vocês estiveram discutindo com Sir Sadrach Quintillan. O que aconteceu? Ele foi honrado demais, à sua maneira, ou achava que conseguiria um preço melhor com uma competição aberta?
— O que não entendo — Crowe falou em tom informal — é por que vocês o querem em primeiro lugar. Quero dizer, o homem é uma fraude. O jovem Sherlock aqui provou isso bastante conclusivamente. — Ele olhou para Sherlock. — Você tem alguma teoria sobre isso, filho? Sobre o porquê de a Câmara Paradol querer Albano tão seriamente, apesar do fato de ele ser uma fraude?
Por alguma razão, o grande americano parecia querer perder tempo para manter Maupertuis falando. Na verdade, se essa era a alternativa a Maupertuis matar os dois, então Sherlock se contentaria com isso.
— Penso que Albano e Quintillan enganaram a Câmara Paradol exatamente como enganaram Herr Holtzbrinck e von Webenau.
— Então conde Shuvalov não se deixou enganar? — Crowe assentiu. — Ele é um cara inteligente. E seu irmão também – ele viu através disso desde o início.
— Herr Holtzbrinck e von Webenau queriam acreditar — Sherlock apontou. O medo fez com que ele quisesse falar mais rápido, mas ele reprimiu o impulso. Crowe queria retardar as coisas por algum motivo, e ele precisava seguir com o plano. Seja lá qual fosse o plano. — Se aprendi algo sobre truques de crença é que as pessoas que querem acreditar são as mais facilmente enganadas.
— Os poderes de Albano são reais — Maupertuis sibilou. — E eles estarão à serviço da Câmara Paradol quando finalmente o levarmos! Ele nos servirá, e os mortos nos dirão seus segredos!
Crowe gargalhou.
— Pois isso é pura estupidez. O jovem Sherlock aqui mostrou muito claramente que as sessões eram apenas estelionato!
— As duas primeiras sessões, sim. — A fina estrutura de Maupertuis balançou com a raiva que sentia constantemente. — O psíquico estava fraco, e seus poderes estavam instáveis. Estupidamente, ele e Quintillan falsificaram as sessões para impedir os interessados de partir. Mas a torre e as pinturas? Como isso poderia ter sido feito, se não fosse através da comunicação com os mortos? Como?
Sherlock olhou para Maupertuis por um momento, e o que ele viu não era um criminoso psicótico, mas um ser humano dolorosamente magro que, como qualquer ser humano, era capaz de ser enganado – se ele quisesse ser. Da mesma forma que um homem poderia ser enganado, em seguida um país, se tomasse o conselho deste homem. Alguém certa vez lhe descrevera a Câmara Paradol como um país sem território ou fronteiras, e parecia que eles eram tão capazes de seguir um mau conselho quanto os impérios alemão e austro-húngaros.
— Quem você perdeu — ele perguntou suavemente — que quer acreditar tão desesperadamente que não está morto?
— Não é outra pessoa — Crowe apontou — olhe para ele. Ele está pairando perto da morte a cada momento de sua existência. Ele quer desesperadamente acreditar que a morte não é o fim; que é possível sobreviver a ela e continuar.
— Isso é possível — Maupertuis gritou — e Ambrose Albano prova isto!
—Então é por isso que você matou Sir Sadrach? — Sherlock avançou na direção de Maupertuis. Ele realmente queria saber a resposta à pergunta.
— Nos encontramos com ele, em seus aposentos. — A mudança de assunto pegou Maupertuis desprevenido. Seu tremor diminuiu um pouco, e seus olhos, que pareciam violentos o suficiente para botar fogo em galhos secos, tornaram-se mais calmos. — Nós lhe oferecemos dinheiro para que ele e o psíquico trabalhassem conosco – voluntários são mais úteis que escravos forçados – mas ele argumentou. Queria mais dinheiro do que estávamos dispostos a pagar. Sua morte foi um aborrecimento, mas um com o qual podemos conviver. Albano é aquele que tem o poder.
— Você perdeu a calma — Sherlock adivinhou. — Ele se pôs contra a sua vontade, então você tinha que matá-lo. — A brutalidade casual disso não deveria tê-lo surpreendido – ele sabia exatamente do que a Câmara Paradol era capaz – mas, ele lembrou a si mesmo, o Barão era claramente insano. Se seus desejos eram diferentes dos da Câmara Paradol, ele seguiria seus desejos pessoais, mesmo que colocasse os objetivos da organização em risco.
— Por que esconder o corpo no topo da torre? — Perguntou Crowe.
Sherlock suspeitava que ele já tinha descoberto a resposta por si próprio, mas ele ainda tentava atrasar os eventos para impedir Maupertuis de agir. À espera de alguma coisa.
— Essa é fácil — Sherlock deu de ombros. — Não foi o Barão Maupertuis quem colocou o corpo de Sir Sadrach em exibição no topo da torre. Não lhe importava se o corpo fosse encontrado ou não – ele queria Albano, e estava determinado a sequestrá-lo já que não podia comprá-lo.
— Não vai me dizer que foram os espíritos dos mortos? — Crowe riu, mas era uma risada forçada. Havia muita tensão nela.
— Não — Sherlock confirmou. — Foi a mordomo, Silman, juntamente com Ambrose Albano. Eles sabiam como a torre funcionava, então esconderam o corpo lá em cima com a ajuda dos criados. Seu objetivo era impedir que o corpo fosse encontrado até que pudessem seguir com o leilão por eles mesmos. Eles provavelmente estavam preocupados que Niamh fosse procurar no castelo por seu pai se ele não estivesse em seus aposentos. Albano disse isso esta manhã. Ele claramente sabia que alguma coisa tinha acontecido – estava irritado e nervoso. Ele só queria ter o leilão concluído e bem sucedido e ficar sob a proteção de qualquer poder internacional que ganhasse. Foi pura má sorte para eles eu ter me deparado com o corpo enquanto explorava.
— Isso explica tudo — Crowe assentiu. — E a criada de que você me falou? Aquela que foi encontrada morta com uma expressão de terror no rosto?
— Ela viu algo nos porões do castelo – provavelmente o Barão, que se deslocava ao redor. Presumo que ela tinha um coração fraco e morreu de susto, mas seu corpo teve de ser movido das adegas porque o Barão e seus homens estavam usando-os como base. E claro, seus sapatos saíram durante a movimentação, mas ninguém notou.
— Você notou — Crowe observou.
O gigante, em cujo tórax e membros Maupertuis estava amarrado, moveu-se ligeiramente, em resposta a algum comando escondido, e a cabeça do Barão parecia inclinar para um lado, como se estivesse pensando.
— Você diz que a terceira manifestação foi falsa também? Prove! Diga-me como foi feita!
— E você nos deixará viver? — Sherlock perguntou em voz baixa.
— Não — disse o barão, também em voz baixa — mas vou matá-lo rapidamente, ao invés de lentamente. Sua morte tem estado em minha mente por um longo tempo agora, e não serei privado disso.
Sherlock explicou brevemente a forma como as marés haviam sido usadas para elevar a torre e permitir que um dos criados – ou, quem sabe, ocorreu-lhe, a própria Niamh Quintillan – pudesse observar o interior de uma sala no castelo que nenhum ser humano poderia aparentemente ter observado. Maupertuis ficou em silêncio por um minuto ou dois depois disso, os olhos fechados. Sherlock estava prestes a dizer algo mais quando os olhos do Barão se abriram novamente.
— Você está mentindo. Quer o psíquico para o Império Britânico. Você não poderá ficar com ele – ele trabalha para a Câmara Paradol agora, quer ele queira quer não. — Seu braço, preso ao braço maior por detrás dele, levantou-se, e sua mão fez um gesto para os homens que os rodeavam. — Matem os dois agora. Eles já desperdiçaram o bastante do meu tempo.
— Ah, mas sabe por que o desperdiçamos? — perguntou Crowe.
— Para adiar o inevitável, é claro.
— Não. Para atrasá-lo até que isso acontecesse!
Antes que Sherlock pudesse reagir, um grupo de homens explodiu para fora dos arbustos e moitas que os cercavam. Eles estavam vestidos com jaquetas e calças ásperas, e a maioria deles usava chapéus de pano e lenços. Eles carregavam bastões pesados e forcados e caíram sobre os homens da Câmara Paradol como lobos em cordeiros. Gritos ecoaram, alguns de raiva e alguns de dor.
Sherlock estava prestes a perguntar o que estava acontecendo, mas depois viu Rufus Stone entre os rufiões, erguendo uma clava e trazendo-a para baixo com força em um braço que segurava uma espada. Um grito rasgou o ar, e o braço se dobrou de uma maneira que os braços normalmente não fazem.
— Como eles sabiam que estávamos aqui? — Sherlock perguntou a Crowe.
— Eu vi Matty na parte de trás da outra carruagem — Crowe respondeu. — Stone deve tê-lo escondido lá enquanto a carruagem estava à caminho do castelo. Quando ele nos viu indo em outra direção, deve ter saltado para avisar Stone, e o violinista trouxe seu bando de capangas aqui atrás de nós. Eu estava mantendo Maupertuis distraído até que chegassem.
— Bem pensado!
Uma alabarda – uma lâmina de machado preso num eixo quase tão longo quanto Sherlock era alto e com uma ponta de lança na parte superior – caiu perto dele, solta por um dos capangas de Maupertuis.
Ele a pegou, preparado para usá-la em qualquer um que chegasse perto. A luta parecia ser autossuficiente no entanto, e o contingente irlandês estava claramente vencendo.
Mas onde estava o Barão?
Ele tinha se movido – ou seu carregador gigante o movera – para longe da luta. Sherlock teve um vislumbre deles se dirigindo para o tojo.
Ele os perseguiu.
— Sherlock – volte! — Crowe gritou. — Ele não vale a pena! Qualquer plano que ele tenha está acabado agora, e nós já sabemos que a Câmara Paradol matou Sir Sadrach!
— Isso nunca vai acabar até que ele esteja morto ou preso! — Sherlock gritou de volta. — Ele me odeia, e quer me matar.
E, ele pensou, ele é louco.
Um pouco além dos arbustos mais próximos, que eram mais altos do que a cabeça de Sherlock, a vegetação rasteira era desbastada.
Emergindo em uma corrida, Sherlock encontrou-se na borda de um precipício. Ele derrapou até parar antes que viesse a cair. Ele podia ver as ondas espumando muito abaixo. Ao longe, à esquerda, as ameias do castelo Cloon Ard eram visíveis.
Não havia nenhum sinal de Barão Maupertuis.
Sherlock olhou em todas as direções, frustrado. Um caminho estreito conduzia ao longo da borda do penhasco, mas ele podia ver por algumas centenas de metros em cada sentido antes das curvas do penhasco e não havia sinal de alguém. Tinha o Barão se virado de volta para a vegetação? Estaria ele se erguendo atrás de Sherlock agora mesmo?
Ele se virou, mas ninguém estava lá. Nas proximidades ele ainda podia ouvir o som de luta.
Sherlock voltou para a beira do penhasco e, num instinto, caminhou até a borda. Ele olhou diretamente para baixo.
A borda estreita levava para baixo, diretamente contra as rochas.
Sherlock olhou em volta mais uma vez, tentando se convencer de que esta era a melhor coisa a se fazer, e então seguiu em frente, ainda segurando a alabarda.
Seixos deslizaram sob seus pés quando ele se moveu para baixo na borda. O vento soprou-lhe alternadamente contra a face do penhasco e, em seguida, tentou puxá-lo para longe dele. O caminho era apenas largo o suficiente para ele descer; e ele se perguntou como o transportador gigante do Barão Maupertuis poderia ter conseguido isso. Se ele tivesse conseguido. Se ele tivesse tomado esse caminho de qualquer forma.
Uma forte rajada de vento quase arrancou-o para longe. Ele encostou-se contra rocha até que ele diminuísse, os dedos de sua mão livre agarrando nas fendas, projeções do cascalho e tufos de grama. Se ele caísse, despencaria centenas de metros até o mar. Ele teria sorte se não fosse esmagado contra o penhasco pelo vento quando caísse. Teria ainda mais sorte se não acertasse uma rocha no mar, ou fosse transformado em uma polpa num trecho de areia. Seu coração disparou, e ele podia sentir pontas de suor escorrendo por suas costas.
Depois de um momento ele se forçou a ir em frente.
A borda reduziu para alguns centímetros apenas momentos antes que ele avistasse o buraco escuro de uma caverna na face do penhasco.
Tinha que ser para onde Maupertuis tinha ido. O barão conhecia a área ao redor melhor do que Sherlock – ele estivera lá por mais tempo.
Sherlock moveu-se cuidadosamente ao longo da borda estreita, o peito encostado na rocha. Ele podia sentir seus calcanhares pairando sobre a longa queda até o mar conforme deslizava lentamente um pé após o outro: direita e esquerda, direita e esquerda.
A rocha abaixo de seu pé direito começou a ceder.
Sherlock saltou desajeitadamente, atirando a alabarda à sua frente e, em seguida, aterrissou na boca da caverna. Seu ombro bateu no chão, enviando uma pulsação de dor pelo seu braço, mas ele não se importou. Pelo menos estava fora da borda, e seguro.
Relativamente seguro.
Ele olhou para a borda. Um trecho de seis metros ou mais tinha desaparecido, caindo dentro do mar. Talvez tivesse sido enfraquecida pela passagem do gigante transportando o barão Maupertuis. Talvez milênios de tempestades e ventos tivessem terminado por corroê-lo.
Seja qual lá fosse a razão, não havia como voltar.
Ele olhou ao redor cautelosamente. Na escassa luz do sol que penetrava na caverna, ele só podia ver algumas dezenas de metros no interior. Havia marcas de desgaste na poeira - feitas recentemente, o que indicava que o Barão tinha realmente vindo por aqui – mas elas desapareciam na escuridão.
Ele teria que segui-las. Sabia que teria.
Reunindo sua coragem e mantendo-a firme, ele foi mais fundo na caverna.
A escuridão o engoliu. Moveu-se com cuidado, testando cada passo antes de colocar todo o seu peso no caso de haver uma queda brusca, ou uma seção pontiaguda de rocha. Ele arrastou seus dedos contra a rocha áspera da parede, certificando-se de não perder as aberturas ou curvas.
Uma brisa soprou em seu rosto do fundo da caverna. Deve haver um caminho de volta para a superfície em algum lugar lá, ele pensou, caso contrário o vento não teria como entrar, porém havia um cheiro de podridão no ar. Algo tinha morrido ali. Talvez muitas coisas, ao longo dos anos. Talvez houvesse ossos de contrabandistas espalhados pelo chão e ele simplesmente não podia vê-los na escuridão.
Algo fino e quebradiço quebrou sob seu sapato, e ele amaldiçoou sua imaginação superativa. Provavelmente eram apenas gravetos, ele disse a si mesmo, ou o esqueleto de uma ave marinha.
Em algum lugar à frente, a caverna teria de juntar-se com os outros túneis que ele tinha explorado – os que se ligavam com a base do folly e as adegas do castelo. Todas as cavernas do penhasco provavelmente estavam interligadas num grande labirinto de túneis como um enorme formigueiro.
O que poderia significar, pensou, que ele poderia vagar ali por dias, talvez semanas, antes de morrer de inanição e desidratação.
Não, isso era estupidez, ele disse a si mesmo. Onde havia brisa, havia uma saída. Ele só tinha que seguir a brisa.
E esperar que ela não estivesse saindo de uma fenda menor do que sua mão.
Mais à frente, algo fez um som.
Sherlock congelou.
Seu coração batia em seu peito, e ele podia sentir a respiração áspera na garganta. Certamente quem quer que estivesse ali podia ouvi-lo também? Se fosse uma pessoa. Sua mente voltou aos cães albinos cegos que vira nos esgotos sob as ruas de Moscou.
Que tipo de coisas pode haver aqui? Javalis que não tinham visto o sol por gerações, e se adaptaram à vida na escuridão total? Ou talvez algo estranho, algo que nenhum ser humano jamais tinha visto e vivido para contar?
Ele tomou uma profunda inspiração. Isso estava virando estupidez. Ele estava em pânico por nada. Tinha sido apenas um som.
Mas algo devia ter feito aquele som.
Depois de alguns minutos de silêncio, e tentando manter a respiração e os batimentos cardíacos sob controle, Sherlock começou a se mover novamente. O que quer que tivesse feito aquele som fora uma ilusão e passara, ou estava de pé na escuridão esperando por ele. Seja qual fosse a explicação, ele não podia adiar por mais tempo. Ele tinha que se mover.
Ele avançou para frente o mais silenciosamente que pôde.
Nada saltou sobre ele das trevas, e a cada passo ele se sentia um pouco mais aliviado.
Seus olhos tinham ficado completamente acostumados com a escuridão agora, tanto que quando um brilho fraco cintilou perto de uma curva do túnel à frente, aquilo bateu em seus olhos como uma lanterna apontada diretamente para eles. Ele teve que esperar alguns minutos para que seus olhos se acostumassem com a ideia de luz novamente, antes que pudesse se mover em direção a ela.
A luz se intensificou quando ele avançou mais. Era uma iluminação quente que causava projeções nas paredes rochosas lançando longas sombras em direção a ele, como dedos agarrando.
Moveu-se cautelosamente em direção À curva e enfiou a cabeça para ver o que havia ali.
Era, naturalmente, outro túnel, mas pelo menos este estava iluminado por uma lanterna posta sobre um engradado de madeira.
À luz da lanterna, Sherlock pôde ver um corpo deitado no chão do túnel. Ele era magro e contorcido, e parecia como o esqueleto de algum traficante que tinha morrido há muito tempo ali e fora deixado para apodrecer.
Era o corpo do barão Maupertuis.
Cautelosamente, Sherlock chegou mais perto, preocupado que poderia ser algum tipo de truque, mas pelo tempo que ele estava olhando para o corpo grotesco, era óbvio que o Barão estava morto.
As tiras que o tinham prendido a seu carregador gigante, estavam postas sobre ele como fitas. Seus olhos estavam abertos, mas a força de sua vontade maníaca tinha ido embora. Toda a energia que o mantivera vivo tinha declinado agora, deixando-o tal qual um feixe de varas descuidadamente jogados em uma pilha.
— Ele morreu enquanto eu o estava carregando — disse uma voz profunda, ecoando ao longo do túnel. — Por um tempo eu nem percebi. Ele sempre esteve apenas à um passo da morte, e era apenas por sua força de vontade que continuava. Talvez seu coração tenha cedido, ou talvez eu o tenha sacudido demais e seu pescoço quebrou. Pelo menos ele está em repouso agora, e pelo menos isso significa que eu finalmente posso cuidar de você, seu filhote enxerido!
— Sr. Kyte — disse Sherlock em voz baixa. — Prefiro pensar que poderia ser você sob este capuz.

5 comentários:

  1. Não acredito que ja acabou x((((

    ResponderExcluir
  2. Nossaa!! Ele é demais!! E ainda beijou a garota!!

    ResponderExcluir
  3. Fã do barão Maupertuis3 de abril de 2018 21:57

    Adeus barão Maupertuis, sentiremos sua falta, o primeiro inimigo de Xeroque Rolmes.

    Karina o capítulo 16 está fundido com o capítulo 15!

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!