12 de setembro de 2017

Capítulo quinze

BARÃO MAUPERTUIS ESTAVA, se é que isso era possível, ainda mais frágil do que tinha parecido estar da última vez que Sherlock o vira. Isso fora dois anos antes, quando Maupertuis tentava destruir o exército britânico com abelhas assassinas. Ele estava então preso a um conjunto elaborado de cordas, cabos e fios que permitiam que seus criados o movessem por aí como uma marionete. Isso, no entanto, tinha sido em seu próprio terreno, em sua própria mansão. Agora, a céu aberto e cercado por guarda-costas, ele parecia um esqueleto animado vestido com uniforme militar. Sherlock podia ver claramente as juntas de seus dedos e dos pulsos – inchaços onde os ossos magérrimos se encontravam e articulavam. A trança de ouro na frente de seu uniforme negro parecia mais grossa do que os dedos. Seu rosto era uma caveira encoberta com pergaminho. Veias proeminentes rastejavam seu caminho através de seu couro cabeludo, surpreendentemente roxo contra a pele branca. Seus olhos eram as únicas coisas nele que pareciam vivos, e eles tinham vida suficiente para vários homens. Eles olhavam para Sherlock com um ódio maníaco que o menino podia sentir como uma força física empurrando-o para trás.
Os homens que estavam com ele se moveram de forma a rodear Sherlock e Crowe. Eles estavam, com exceção do gigante que estava parado logo atrás de Maupertuis, todos armados. Seguravam várias armas medievais – alguns tinham espadas, outros carregavam lanças ou alabardas. Parecia a Sherlock que os bandidos tinham feito a limpa nas armas de algum depósito nos porões do castelo.
Maupertuis era logicamente incapaz de se levantar sem ajuda, mas lá estava ele, sem meios visíveis de apoio. Sherlock tentou descobrir o que o mantinha de pé, então percebeu com um choque que Maupertuis estava preso por uma espécie de cinta complicada ligada ao corpo do homem que estava atrás dele. Aquele homem era alto, grande e musculoso, mas usava roupas que eram de cinza fosco, manchado em tons diferentes, enquanto as tiras de fixação de Maupertuis eram da mesma cor que a vestimenta do Barão. Um capuz feito do mesmo material cobria a cabeça do homem, terminando em duas projeções feito chifres acima das orelhas. Duas fendas tinham sido cortadas para ele ver. O efeito era fazê-lo desaparecer ao fundo, como se ele não estivesse lá.
Maupertuis se destacava em relevo acentuado, com a cabeça localizada no nível do peito de seu carregador. Os braços e pernas de Maupertuis estavam anexados aos braços e pernas do gigante atrás dele. Quando o homem andava para frente, seguindo algum tipo de comando escondido, as pernas do Barão se moviam como se estivessem de fato o impulsionando para frente. Quando o homem levantava o braço, era como se o Barão estivesse apontando para Sherlock.
— Você — o Barão anunciou, sua voz um pouco mais alta do que o vento, mas ainda coberta com veneno — não é Ambrose Albano.
Agora que o truque tinha falhado, Sherlock tirou seu disfarce.
— Não — ele disse em voz baixa — mas já nos encontramos antes.
— É claro. — As feições de Maupertuis contorceram-se de raiva. — O garoto, Sherlock Holmes. Eu sabia que você estava no castelo, e sabia que você interferindo com os planos de Quintillan expondo seus truques estúpidos, mas não esperava que você estaria aqui, substituindo o psíquico. Eu não achava que você seria tão tolo!
— Eu devia ter adivinhado que a Câmara Paradol estava envolvida nessa... mistura de disparates — Crowe anunciou, tentando atrair a raiva do Barão.
Os lábios finos de Maupertuis formaram um sorriso de escárnio. Ele nem sequer olhou para Crowe quando disse:
— Você não tem a inteligência para entender nada. Eu sei tudo sobre você, Amyus Thaddeus Crowe. Eu o estudei desde que cruzou o meu caminho brevemente em Farnham, há dois anos. Sempre tenho por objetivo entender meus inimigos. Conheço seus segredos e sei de sua história, desde quando nasceu até o momento em que irá morrer – que será em poucos minutos. Sua vida não tem sido de grandes realizações. Poucas pessoas lamentarão a sua passagem, e menos ainda se lembrarão daqui a cinquenta anos, mas o nome Barão Maupertuis ressoará através dos séculos! Isso é o que acontece quando...
Algo sobre a forma como o barão Maupertuis se movia em conjunto com o gigante de pé atrás dele provocou um pensamento no cérebro de Sherlock. Ele seguiu essa conexão brilhante até que de repente se iluminou com um conjunto de outros fatos que haviam estados ocultos na memória de Sherlock.
— A Besta Negra! — ele anunciou, interrompendo discurso do Barão. — Você é a Besta Negra!
Isso parecia tão óbvio agora que ele estava olhando para Maupertuis. O contorno volumoso e disforme dos dois homens ligados... Sherlock não sabia o que era que as pessoas tinham relatado ter visto anos atrás, mas ele sabia agora tão claramente como sabia qualquer outra coisa, que as recentes aparições da Besta Negra tinha sido na verdade aparições do barão Maupertuis amarrado ao peito do seu portador gigante, vislumbrado na escuridão, ou na névoa, ou nas sombras, movendo-se em torno do castelo e de seus jardins.
— Uma lenda estúpida — disse o Barão — mas que foi útil para mim. Ela deteve os camponeses locais de investigar, e me deu rédea livre para me mover por aí.
— Com que fim? — perguntou Crowe. — O que exatamente veio fazer aqui no Castelo Cloon Ard?
Maupertuis moveu seu olhar feroz de Sherlock para Amyus Crowe, e o grande americano deu um pequeno passo para trás quando sentiu a força de vontade fanática de Maupertuis. Isso preocupou Sherlock. Ele já tinha visto Crowe superar um urso furioso apenas pela força de sua própria vontade.
— Você morrerá sem saber — disse o Barão. — Esse é o menor dos prazeres que ganharei com sua morte.
— Na verdade — disse Sherlock — é óbvio. Tem sido evidente o tempo todo. A Câmara Paradol é o sexto licitante invisível. Vocês estiveram discutindo com Sir Sadrach Quintillan. O que aconteceu? Ele foi honrado demais, à sua maneira, ou achava que conseguiria um preço melhor com uma competição aberta?
— O que não entendo — Crowe falou em tom informal — é por que vocês o querem em primeiro lugar. Quero dizer, o homem é uma fraude. O jovem Sherlock aqui provou isso bastante conclusivamente. — Ele olhou para Sherlock. — Você tem alguma teoria sobre isso, filho? Sobre o porquê de a Câmara Paradol querer Albano tão seriamente, apesar do fato de ele ser uma fraude?
Por alguma razão, o grande americano parecia querer perder tempo para manter Maupertuis falando. Na verdade, se essa era a alternativa a Maupertuis matar os dois, então Sherlock se contentaria com isso.
— Penso que Albano e Quintillan enganaram a Câmara Paradol exatamente como enganaram Herr Holtzbrinck e von Webenau.
— Então conde Shuvalov não se deixou enganar? — Crowe assentiu. — Ele é um cara inteligente. E seu irmão também – ele viu através disso desde o início.
— Herr Holtzbrinck e von Webenau queriam acreditar — Sherlock apontou. O medo fez com que ele quisesse falar mais rápido, mas ele reprimiu o impulso. Crowe queria retardar as coisas por algum motivo, e ele precisava seguir com o plano. Seja lá qual fosse o plano. — Se aprendi algo sobre truques de crença é que as pessoas que querem acreditar são as mais facilmente enganadas.
— Os poderes de Albano são reais — Maupertuis sibilou. — E eles estarão à serviço da Câmara Paradol quando finalmente o levarmos! Ele nos servirá, e os mortos nos dirão seus segredos!
Crowe gargalhou.
— Pois isso é pura estupidez. O jovem Sherlock aqui mostrou muito claramente que as sessões eram apenas estelionato!
— As duas primeiras sessões, sim. — A fina estrutura de Maupertuis balançou com a raiva que sentia constantemente. — O psíquico estava fraco, e seus poderes estavam instáveis. Estupidamente, ele e Quintillan falsificaram as sessões para impedir os interessados de partir. Mas a torre e as pinturas? Como isso poderia ter sido feito, se não fosse através da comunicação com os mortos? Como?
Sherlock olhou para Maupertuis por um momento, e o que ele viu não era um criminoso psicótico, mas um ser humano dolorosamente magro que, como qualquer ser humano, era capaz de ser enganado – se ele quisesse ser. Da mesma forma que um homem poderia ser enganado, em seguida um país, se tomasse o conselho deste homem. Alguém certa vez lhe descrevera a Câmara Paradol como um país sem território ou fronteiras, e parecia que eles eram tão capazes de seguir um mau conselho quanto os impérios alemão e austro-húngaros.
— Quem você perdeu — ele perguntou suavemente — que quer acreditar tão desesperadamente que não está morto?
— Não é outra pessoa — Crowe apontou — olhe para ele. Ele está pairando perto da morte a cada momento de sua existência. Ele quer desesperadamente acreditar que a morte não é o fim; que é possível sobreviver a ela e continuar.
— Isso é possível — Maupertuis gritou — e Ambrose Albano prova isto!
—Então é por isso que você matou Sir Sadrach? — Sherlock avançou na direção de Maupertuis. Ele realmente queria saber a resposta à pergunta.
— Nos encontramos com ele, em seus aposentos. — A mudança de assunto pegou Maupertuis desprevenido. Seu tremor diminuiu um pouco, e seus olhos, que pareciam violentos o suficiente para botar fogo em galhos secos, tornaram-se mais calmos. — Nós lhe oferecemos dinheiro para que ele e o psíquico trabalhassem conosco – voluntários são mais úteis que escravos forçados – mas ele argumentou. Queria mais dinheiro do que estávamos dispostos a pagar. Sua morte foi um aborrecimento, mas um com o qual podemos conviver. Albano é aquele que tem o poder.
— Você perdeu a calma — Sherlock adivinhou. — Ele se pôs contra a sua vontade, então você tinha que matá-lo. — A brutalidade casual disso não deveria tê-lo surpreendido – ele sabia exatamente do que a Câmara Paradol era capaz – mas, ele lembrou a si mesmo, o Barão era claramente insano. Se seus desejos eram diferentes dos da Câmara Paradol, ele seguiria seus desejos pessoais, mesmo que colocasse os objetivos da organização em risco.
— Por que esconder o corpo no topo da torre? — Perguntou Crowe.
Sherlock suspeitava que ele já tinha descoberto a resposta por si próprio, mas ele ainda tentava atrasar os eventos para impedir Maupertuis de agir. À espera de alguma coisa.
— Essa é fácil — Sherlock deu de ombros. — Não foi o Barão Maupertuis quem colocou o corpo de Sir Sadrach em exibição no topo da torre. Não lhe importava se o corpo fosse encontrado ou não – ele queria Albano, e estava determinado a sequestrá-lo já que não podia comprá-lo.
— Não vai me dizer que foram os espíritos dos mortos? — Crowe riu, mas era uma risada forçada. Havia muita tensão nela.
— Não — Sherlock confirmou. — Foi a mordomo, Silman, juntamente com Ambrose Albano. Eles sabiam como a torre funcionava, então esconderam o corpo lá em cima com a ajuda dos criados. Seu objetivo era impedir que o corpo fosse encontrado até que pudessem seguir com o leilão por eles mesmos. Eles provavelmente estavam preocupados que Niamh fosse procurar no castelo por seu pai se ele não estivesse em seus aposentos. Albano disse isso esta manhã. Ele claramente sabia que alguma coisa tinha acontecido – estava irritado e nervoso. Ele só queria ter o leilão concluído e bem sucedido e ficar sob a proteção de qualquer poder internacional que ganhasse. Foi pura má sorte para eles eu ter me deparado com o corpo enquanto explorava.
— Isso explica tudo — Crowe assentiu. — E a criada de que você me falou? Aquela que foi encontrada morta com uma expressão de terror no rosto?
— Ela viu algo nos porões do castelo – provavelmente o Barão, que se deslocava ao redor. Presumo que ela tinha um coração fraco e morreu de susto, mas seu corpo teve de ser movido das adegas porque o Barão e seus homens estavam usando-os como base. E claro, seus sapatos saíram durante a movimentação, mas ninguém notou.
— Você notou — Crowe observou.
O gigante, em cujo tórax e membros Maupertuis estava amarrado, moveu-se ligeiramente, em resposta a algum comando escondido, e a cabeça do Barão parecia inclinar para um lado, como se estivesse pensando.
— Você diz que a terceira manifestação foi falsa também? Prove! Diga-me como foi feita!
— E você nos deixará viver? — Sherlock perguntou em voz baixa.
— Não — disse o barão, também em voz baixa — mas vou matá-lo rapidamente, ao invés de lentamente. Sua morte tem estado em minha mente por um longo tempo agora, e não serei privado disso.
Sherlock explicou brevemente a forma como as marés haviam sido usadas para elevar a torre e permitir que um dos criados – ou, quem sabe, ocorreu-lhe, a própria Niamh Quintillan – pudesse observar o interior de uma sala no castelo que nenhum ser humano poderia aparentemente ter observado. Maupertuis ficou em silêncio por um minuto ou dois depois disso, os olhos fechados. Sherlock estava prestes a dizer algo mais quando os olhos do Barão se abriram novamente.
— Você está mentindo. Quer o psíquico para o Império Britânico. Você não poderá ficar com ele – ele trabalha para a Câmara Paradol agora, quer ele queira quer não. — Seu braço, preso ao braço maior por detrás dele, levantou-se, e sua mão fez um gesto para os homens que os rodeavam. — Matem os dois agora. Eles já desperdiçaram o bastante do meu tempo.
— Ah, mas sabe por que o desperdiçamos? — perguntou Crowe.
— Para adiar o inevitável, é claro.
— Não. Para atrasá-lo até que isso acontecesse!
Antes que Sherlock pudesse reagir, um grupo de homens explodiu para fora dos arbustos e moitas que os cercavam. Eles estavam vestidos com jaquetas e calças ásperas, e a maioria deles usava chapéus de pano e lenços. Eles carregavam bastões pesados e forcados e caíram sobre os homens da Câmara Paradol como lobos em cordeiros. Gritos ecoaram, alguns de raiva e alguns de dor.
Sherlock estava prestes a perguntar o que estava acontecendo, mas depois viu Rufus Stone entre os rufiões, erguendo uma clava e trazendo-a para baixo com força em um braço que segurava uma espada. Um grito rasgou o ar, e o braço se dobrou de uma maneira que os braços normalmente não fazem.
— Como eles sabiam que estávamos aqui? — Sherlock perguntou a Crowe.
— Eu vi Matty na parte de trás da outra carruagem — Crowe respondeu. — Stone deve tê-lo escondido lá enquanto a carruagem estava à caminho do castelo. Quando ele nos viu indo em outra direção, deve ter saltado para avisar Stone, e o violinista trouxe seu bando de capangas aqui atrás de nós. Eu estava mantendo Maupertuis distraído até que chegassem.
— Bem pensado!
Uma alabarda – uma lâmina de machado preso num eixo quase tão longo quanto Sherlock era alto e com uma ponta de lança na parte superior – caiu perto dele, solta por um dos capangas de Maupertuis.
Ele a pegou, preparado para usá-la em qualquer um que chegasse perto. A luta parecia ser autossuficiente no entanto, e o contingente irlandês estava claramente vencendo.
Mas onde estava o Barão?
Ele tinha se movido – ou seu carregador gigante o movera – para longe da luta. Sherlock teve um vislumbre deles se dirigindo para o tojo.
Ele os perseguiu.
— Sherlock – volte! — Crowe gritou. — Ele não vale a pena! Qualquer plano que ele tenha está acabado agora, e nós já sabemos que a Câmara Paradol matou Sir Sadrach!
— Isso nunca vai acabar até que ele esteja morto ou preso! — Sherlock gritou de volta. — Ele me odeia, e quer me matar.
E, ele pensou, ele é louco.
Um pouco além dos arbustos mais próximos, que eram mais altos do que a cabeça de Sherlock, a vegetação rasteira era desbastada.
Emergindo em uma corrida, Sherlock encontrou-se na borda de um precipício. Ele derrapou até parar antes que viesse a cair. Ele podia ver as ondas espumando muito abaixo. Ao longe, à esquerda, as ameias do castelo Cloon Ard eram visíveis.
Não havia nenhum sinal de Barão Maupertuis.
Sherlock olhou em todas as direções, frustrado. Um caminho estreito conduzia ao longo da borda do penhasco, mas ele podia ver por algumas centenas de metros em cada sentido antes das curvas do penhasco e não havia sinal de alguém. Tinha o Barão se virado de volta para a vegetação? Estaria ele se erguendo atrás de Sherlock agora mesmo?
Ele se virou, mas ninguém estava lá. Nas proximidades ele ainda podia ouvir o som de luta.
Sherlock voltou para a beira do penhasco e, num instinto, caminhou até a borda. Ele olhou diretamente para baixo.
A borda estreita levava para baixo, diretamente contra as rochas.
Sherlock olhou em volta mais uma vez, tentando se convencer de que esta era a melhor coisa a se fazer, e então seguiu em frente, ainda segurando a alabarda.
Seixos deslizaram sob seus pés quando ele se moveu para baixo na borda. O vento soprou-lhe alternadamente contra a face do penhasco e, em seguida, tentou puxá-lo para longe dele. O caminho era apenas largo o suficiente para ele descer; e ele se perguntou como o transportador gigante do Barão Maupertuis poderia ter conseguido isso. Se ele tivesse conseguido. Se ele tivesse tomado esse caminho de qualquer forma.
Uma forte rajada de vento quase arrancou-o para longe. Ele encostou-se contra rocha até que ele diminuísse, os dedos de sua mão livre agarrando nas fendas, projeções do cascalho e tufos de grama. Se ele caísse, despencaria centenas de metros até o mar. Ele teria sorte se não fosse esmagado contra o penhasco pelo vento quando caísse. Teria ainda mais sorte se não acertasse uma rocha no mar, ou fosse transformado em uma polpa num trecho de areia. Seu coração disparou, e ele podia sentir pontas de suor escorrendo por suas costas.
Depois de um momento ele se forçou a ir em frente.
A borda reduziu para alguns centímetros apenas momentos antes que ele avistasse o buraco escuro de uma caverna na face do penhasco.
Tinha que ser para onde Maupertuis tinha ido. O barão conhecia a área ao redor melhor do que Sherlock – ele estivera lá por mais tempo.
Sherlock moveu-se cuidadosamente ao longo da borda estreita, o peito encostado na rocha. Ele podia sentir seus calcanhares pairando sobre a longa queda até o mar conforme deslizava lentamente um pé após o outro: direita e esquerda, direita e esquerda.
A rocha abaixo de seu pé direito começou a ceder.
Sherlock saltou desajeitadamente, atirando a alabarda à sua frente e, em seguida, aterrissou na boca da caverna. Seu ombro bateu no chão, enviando uma pulsação de dor pelo seu braço, mas ele não se importou. Pelo menos estava fora da borda, e seguro.
Relativamente seguro.
Ele olhou para a borda. Um trecho de seis metros ou mais tinha desaparecido, caindo dentro do mar. Talvez tivesse sido enfraquecida pela passagem do gigante transportando o barão Maupertuis. Talvez milênios de tempestades e ventos tivessem terminado por corroê-lo.
Seja qual lá fosse a razão, não havia como voltar.
Ele olhou ao redor cautelosamente. Na escassa luz do sol que penetrava na caverna, ele só podia ver algumas dezenas de metros no interior. Havia marcas de desgaste na poeira - feitas recentemente, o que indicava que o Barão tinha realmente vindo por aqui – mas elas desapareciam na escuridão.
Ele teria que segui-las. Sabia que teria.
Reunindo sua coragem e mantendo-a firme, ele foi mais fundo na caverna.
A escuridão o engoliu. Moveu-se com cuidado, testando cada passo antes de colocar todo o seu peso no caso de haver uma queda brusca, ou uma seção pontiaguda de rocha. Ele arrastou seus dedos contra a rocha áspera da parede, certificando-se de não perder as aberturas ou curvas.
Uma brisa soprou em seu rosto do fundo da caverna. Deve haver um caminho de volta para a superfície em algum lugar lá, ele pensou, caso contrário o vento não teria como entrar, porém havia um cheiro de podridão no ar. Algo tinha morrido ali. Talvez muitas coisas, ao longo dos anos. Talvez houvesse ossos de contrabandistas espalhados pelo chão e ele simplesmente não podia vê-los na escuridão.
Algo fino e quebradiço quebrou sob seu sapato, e ele amaldiçoou sua imaginação superativa. Provavelmente eram apenas gravetos, ele disse a si mesmo, ou o esqueleto de uma ave marinha.
Em algum lugar à frente, a caverna teria de juntar-se com os outros túneis que ele tinha explorado – os que se ligavam com a base do folly e as adegas do castelo. Todas as cavernas do penhasco provavelmente estavam interligadas num grande labirinto de túneis como um enorme formigueiro.
O que poderia significar, pensou, que ele poderia vagar ali por dias, talvez semanas, antes de morrer de inanição e desidratação.
Não, isso era estupidez, ele disse a si mesmo. Onde havia brisa, havia uma saída. Ele só tinha que seguir a brisa.
E esperar que ela não estivesse saindo de uma fenda menor do que sua mão.
Mais à frente, algo fez um som.
Sherlock congelou.
Seu coração batia em seu peito, e ele podia sentir a respiração áspera na garganta. Certamente quem quer que estivesse ali podia ouvi-lo também? Se fosse uma pessoa. Sua mente voltou aos cães albinos cegos que vira nos esgotos sob as ruas de Moscou.
Que tipo de coisas pode haver aqui? Javalis que não tinham visto o sol por gerações, e se adaptaram à vida na escuridão total? Ou talvez algo estranho, algo que nenhum ser humano jamais tinha visto e vivido para contar?
Ele tomou uma profunda inspiração. Isso estava virando estupidez. Ele estava em pânico por nada. Tinha sido apenas um som.
Mas algo devia ter feito aquele som.
Depois de alguns minutos de silêncio, e tentando manter a respiração e os batimentos cardíacos sob controle, Sherlock começou a se mover novamente. O que quer que tivesse feito aquele som fora uma ilusão e passara, ou estava de pé na escuridão esperando por ele. Seja qual fosse a explicação, ele não podia adiar por mais tempo. Ele tinha que se mover.
Ele avançou para frente o mais silenciosamente que pôde.
Nada saltou sobre ele das trevas, e a cada passo ele se sentia um pouco mais aliviado.
Seus olhos tinham ficado completamente acostumados com a escuridão agora, tanto que quando um brilho fraco cintilou perto de uma curva do túnel à frente, aquilo bateu em seus olhos como uma lanterna apontada diretamente para eles. Ele teve que esperar alguns minutos para que seus olhos se acostumassem com a ideia de luz novamente, antes que pudesse se mover em direção a ela.
A luz se intensificou quando ele avançou mais. Era uma iluminação quente que causava projeções nas paredes rochosas lançando longas sombras em direção a ele, como dedos agarrando.
Moveu-se cautelosamente em direção À curva e enfiou a cabeça para ver o que havia ali.
Era, naturalmente, outro túnel, mas pelo menos este estava iluminado por uma lanterna posta sobre um engradado de madeira.
À luz da lanterna, Sherlock pôde ver um corpo deitado no chão do túnel. Ele era magro e contorcido, e parecia como o esqueleto de algum traficante que tinha morrido há muito tempo ali e fora deixado para apodrecer.
Era o corpo do barão Maupertuis.
Cautelosamente, Sherlock chegou mais perto, preocupado que poderia ser algum tipo de truque, mas pelo tempo que ele estava olhando para o corpo grotesco, era óbvio que o Barão estava morto.
As tiras que o tinham prendido a seu carregador gigante, estavam postas sobre ele como fitas. Seus olhos estavam abertos, mas a força de sua vontade maníaca tinha ido embora. Toda a energia que o mantivera vivo tinha declinado agora, deixando-o tal qual um feixe de varas descuidadamente jogados em uma pilha.
— Ele morreu enquanto eu o estava carregando — disse uma voz profunda, ecoando ao longo do túnel. — Por um tempo eu nem percebi. Ele sempre esteve apenas à um passo da morte, e era apenas por sua força de vontade que continuava. Talvez seu coração tenha cedido, ou talvez eu o tenha sacudido demais e seu pescoço quebrou. Pelo menos ele está em repouso agora, e pelo menos isso significa que eu finalmente posso cuidar de você, seu filhote enxerido!
— Sr. Kyte — disse Sherlock em voz baixa. — Prefiro pensar que poderia ser você sob este capuz.

Capítulo dezesseis
SHERLOCK OLHOU MAIS AO FUNDO do túnel. À frente, bloqueando a luz de outra lanterna assim como uma pedra bloqueando uma corrente de água que derrama em torno dela, havia a figura de um homem grande. Um homem muito grande. Sherlock não podia ver seu rosto, mas reconheceu a voz. Ele havia visto o homem pela última vez brevemente em uma plataforma da estação ferroviária em seu caminho para Edimburgo há quase dois anos, e antes disso na condução de uma carruagem, em Moscou. Seu nome era Kyte, e ele era um agente da Câmara Paradol.
— Um pouco abaixo de seu posto, não é mesmo, carregar um homem como o Barão por aí? — Sherlock perguntou, endireitando-se. — É um pouco como transportar bagagem, o que faz de você apenas um porteiro.
— O Barão cometeu o erro de realmente prestar atenção em você — disse Kyte.
Ele deu um passo à frente, e a luz da lanterna ao lado do corpo do Barão iluminou seu rosto corado e sua enorme barba vermelha. Eles estavam escondidos sob o capuz que ele usava do lado de fora, mas ele tinha se livrado dele fora agora. Também havia jogado fora as roupas cinza que vestia e agora estava com calça e camisa pretas, as mangas arregaçadas. Um tipo de algema de couro estava preso em seus antebraços, estendendo-se a partir de pulsos para cotovelos. Seus braços eram enormes, e suas mãos eram do tamanho de espadas.
— Não temos que fazer isso — disse Sherlock.
— Ah, mas faremos. Você se pôs em nosso caminho várias vezes, jovem Holmes. Tem que haver um acerto de contas.
Kyte bateu seus pulsos e lâminas gêmeas saltaram das algemas amarradas em seus antebraços. Elas fizeram um som de clique-clique mortal quando travaram na posição. Elas se estendiam além de suas mãos, que ele fechou para mantê-las fora do caminho das lâminas. Sob a luz oscilante das lanternas, elas pareciam brilhar como ouro.
Sherlock se preparou: perna direita para trás, perna esquerda para frente, alabarda presa na posição em ambas as mãos.
Kyte correu para Sherlock, girando as lâminas em frente ao peito enquanto corria.
Sherlock deu um passo para trás e apontou a alabarda para o rosto de Kyte. Kyte se esquivou para sua direita, ainda movendo-se para frente, usando as lâminas para empurrar a lâmina de Sherlock para fora do caminho. Sherlock lançou-se no sentido oposto, pressionando contra a parede do túnel. Conforme Kyte passava trovejando, Sherlock girou a alabarda e colocou o cabo longo entre as pernas de Kyte. Quando as pernas se juntaram, ficaram presas no cabo, quase arrancando-o de Sherlock, mas lançou Kyte tropeçando para frente fora de equilíbrio. Sherlock puxou a alabarda de volta e virou-a para espetar a ponta de lança em Kyte, mas apesar de sua massa, o homem tinha rolado com flexibilidade para fora do caminho e saltava de pé.
Ele se virou, rosnando, e disparou diretamente para Sherlock novamente, desta vez com as lâminas mantidas retas à frente como os chifres de um touro. Segurando a alabarda com as duas mãos, Sherlock desesperadamente baixou a lâmina na diagonal, descendo de seu ombro direito para o joelho esquerdo. Kyte saltou para trás para evitar ser cortado.
Havia duas projeções curvas antes das lâminas da alabarda – provavelmente usadas para prender cavaleiros e derrubá-los de seus cavalos, Sherlock notou – e ele conseguiu dar uma estocada para frente e embaraçar uma delas na manga da camisa de Kyte. Ele puxou a alabarda de volta, trazendo Kyte fora de equilíbrio, mas Kyte girou, e a lâmina anexada ao seu braço direito deslizando sob o eixo da alabarda, rasgando diretamente através da camisa de Sherlock e desenhando uma linha de agonia de fogo ao longo de suas costelas.
Ele sentiu gotas de sangue caírem da ferida quando se afastou rapidamente, raspando as costas contra a parede do túnel.
Os lábios de Kyte estavam contorcidos em fúria, e seus olhos brilhavam da mesma maneira fanática que os de Maupertuis, mas ele parecia não ter interesse em falar. Ele só arrancar a cabeça de Sherlock de seu corpo. Voltou para trás e erguendo-se em toda sua estatura, ele atacou Sherlock com uma lâmina após a outra, como um boxeador fazendo chover socos em seu adversário, mas com espadas em vez de punhos. Sherlock recuava desesperadamente para longe, aparando os golpes com sua alabarda, desejando que o destino lhe tivesse dado algo menos desajeitado do que a arma longa e pesada.
Seu pé prendeu em uma pedra projetada do chão do túnel e ele cambaleou para trás. Kyte estava sobre ele em um estalar de dedos, braço direito estendido como uma lança. Sherlock rolou para o lado e a lâmina soltou faíscas ao acertar a rocha que estava, momentos antes, embaixo dele. Ele se arrastou para trás sobre as mãos e os pés, de alguma forma ainda segurando a alabarda, e ouviu o barulho contra o chão do túnel.
Kyte seguiu-o, vez após vez se atacando com suas lâminas, mas errava Sherlock como se o menino estivesse sendo puxado de um lado para o outro.
Olhando rapidamente por cima do ombro para se certificar de que não bateria em nada que pudesse deter seu progresso, Sherlock notou a lanterna que havia projetado a silhueta de Kyte antes. Como a anterior, essa estava equilibrada em um caixote velho. Sem pensar muito, Sherlock estendeu a mão por sobre a cabeça e com a alabarda pegou a alça usando um dos pontos curvados na parte de trás da lâmina do machado. Ele puxou com força, trazendo-a por cima de seu corpo e arremessando em Kyte.
O enorme homem saltou para trás, mas tarde demais. Em vez de acertar Kyte, a lanterna se estraçalhou contra a parede do túnel, lançando respingos de óleo sobre ele. O pavio, ainda aceso, pegou em sua camisa.
E a acendeu.
As chamas passaram para o peito e barba de Kyte. Sherlock ouviu os cabelos chamuscando conforme queimavam. Um cheiro horrível encheu o túnel. Kyte bateu nas chamas com as mãos, tentando apagá-las, mas as lâminas chegaram perigosamente perto de seus olhos e ele teve que parar. Ao invés disso, ele se jogou no chão do túnel e rolou, com a areia e a sujeira que se acumulara ao longo dos anos, para abafar o fogo.
Sherlock rolou, saltou de pé e correu pelo túnel na direção oposta à boca da caverna. A alabarda em suas mãos parecia mais pesada do que nunca, arrastando-o para baixo, mas ele não a abandonaria agora. Lanternas ligadas a ganchos nas paredes agora iluminavam seu caminho. Presumivelmente, os capangas de Maupertuis mantinham-nas ali para sua própria conveniência. Ou isso, ou contrabandistas ainda operavam ali, e Sherlock tinha a sensação de que a Câmara Paradol teria apagado todos eles. Ou pagado para que saíssem.
O túnel torcia e virava, mas ele continuou correndo pra longe. Ele pensou poder ouvir os passos pesados de Kyte atrás dele, mas poderia ser apenas o bater do seu coração. Ele não ia parar para descobrir. Não olharia por cima do ombro, caso contrário poderia tropeçar e cair novamente. Se fosse pego, estaria tudo acabado. Ele estaria morto.
Se Kyte ainda o estivesse perseguindo.
As trevas voltaram a aparecer nas paredes do túnel: cavernas que conduziam em outras direções, mais profundas nas falésias, ou em direção à praia. Ele estava tão cansado e tão desorientado que não saberia dizer. A brisa ainda estava em seu rosto no entanto, assim ele permaneceu seguindo no túnel principal.
Túnel que teve um fim abrupto, logo à frente, em uma parede curva de pedra escura, assim como a que ele tinha visto alguns dias antes. Manchas de musgo estavam espalhadas pelas paredes do túnel e no chão em frente a ela, como as marcas de alguma doença terrível.
Ele continuou correndo, mas não havia aberturas no túnel de um lado ou do outro entre ele e a parede. Ele poderia virar, supôs, e voltar, mas estava preocupado que Kyte estivesse apenas alguns metros atrás dele, as lâminas estendidas em direção a suas costas.
Ele sabia onde estava. O muro era a parede pedras-pome da torre, continuando no subsolo. Ele a tinha visto do outro lado quando investigava os porões abaixo do castelo.
Ele ouviu um ruído atrás dele. Era o som das lâminas de Kyte batendo contra a parede do túnel enquanto corria, os braços balançando descontroladamente. Realmente não havia caminho de volta, mas não havia nenhum caminho à frente também.
Seu olhar frenético pegou a visão de algo – uma mancha mais escura na parede da torre, meio desaparecida sob o piso do túnel – uma das aberturas de janelas. Ela ficava menor enquanto ele observava. A torre estava afundando no chão! De alguma maneira, alguém a estava operando!
Ele sabia o que tinha que fazer.
Ainda segurando a alabarda, ele correu em direção à parede tão rápido que se batesse nela, poderia se nocautear. Sua respiração era como se inalasse fogo. Em alguma estranha ilusão de ótica causada pelo cansaço e pela dor, a porta na distante extremidade parecia estar retrocedendo ao invés de ficando mais perto. Obrigou-se a uma explosão final de velocidade, os pés batendo nas manchas de musgo e esmagando-as antes que pudesse deslizar sobre elas.
Isto era apenas como a corrida até a porta da torre contra Niamh, em cima nas ameias do castelo. Em sua cabeça, ele começou a contagem regressiva de 10 segundos novamente.
Quando chegou a oito, e o vulto escuro da janela havia reduzido a um terço do seu tamanho normal e ele se lançou e, quando caiu, deixou seus pés deslizarem sobre o musgo, atirando-se para a lacuna, a alabarda apertada contra o peito com seu eixo descendo até seus joelhos e a lâmina perigosamente perto do rosto. Ele escorregou, levando o impacto em seu ombro e começando a correr em suas costas. Seus pés atravessaram a abertura e entraram na sala da torre, e por um terrível momento, ele pensou que seus quadris ou seu peito ficariam para trás e o folly que descia o cortaria ao meio, mas ele agarrou as bordas da janela da torre com as duas mãos e se puxou para dentro, caindo na pequena sala circular.
Suas costas bateram no chão duro, tirando-lhe o ar pela segunda vez em três segundos. Ele se virou para olhar para a lacuna, que agora estava do tamanho de uma prancha de madeira. Um cão teria problemas em se espremer através dela.
Enquanto ele observava, a diferença diminuiu para a altura de um punho cerrado, em seguida, uma régua de madeira, então...
A lâmina afiada deslizou pela abertura, indo direto para seu olho direito.
Parou a dois centímetros de distância, a mão por detrás dela – a mão de Kyte – tinha atingido o topo da janela do lado de fora. A torre continuou a descer, e com um ecoante chink a lâmina quebrou, e caiu na torre com ele.
Ele estava sozinho, em escuridão total.
Sabia que não podia se dar ao luxo de perder tempo recuperando-se. Tinha que se lembrar que o próximo conjunto de janelas ficava localizado em ângulos retos com esta, o que significava que não havia probabilidade de haver outro conjunto de corredores vindo pelos lados, mas eventualmente, outra janela se alinharia com o túnel em que Kyte estava esperando, e ele entraria na torre. Havia aberturas nos andares entre as salas da torre – ele tinha usado essas aberturas no dia anterior, a fim de subir até o topo. Ele não tinha certeza se Kyte seria capaz de se espremer através das aberturas, mas não esperaria para descobrir. Ele tinha que se mexer.
Descer.
Antes de o pensamento poder se completar ele estava tateando pelo chão invisível, procurando pelo buraco. Ele o achou ao quase cair nele, então se virou, jogou a alabarda através dele e a ouviu bater no chão de pedra abaixo, escorregou as pernas nele e deslizou para a próxima sala, e então para a próxima, e para a próxima. A quarta sala não tinha buraco no chão, e ele levou um momento para ver que havia uma luz fraca que entrava pelas duas janelas. Ele foi até a oposta pela qual entrara e olhou para fora...
Dando com uma caverna circular natural, iluminada por feixes de luzes diagonais que tinham filtrado seu caminho através de fissuras na rocha da superfície.
Ele emergiu da janela, e pisou em uma plataforma estreita e circular de pedras-pome onde a torre tinha sido construída. A plataforma flutuava em um calmo lago subterrâneo de água do mar. Os feixes de luz solar refletiam fracamente na superfície do lago e lançavam ondulações de sombras turquesa sobre a rocha. As bordas ao redor da boca da caverna tinham sido bloqueadas com grossas portas de madeira. As portas poderiam ser puxadas ou descidas usando cordas que iam até em cima e desapareciam dentro de buracos que haviam sido recortados no teto da caverna. Estas deviam ser as represas sobre as quais ele teorizou mais cedo. Ao descê-las ou levantá-las, a água do mar que entrava na caverna poderia ser contida ou liberada, aumentando ou diminuindo o nível do lago e, assim, aumentando ou diminuindo a altura da torre.
Várias dessas portas já haviam sido levantadas, e Sherlock pôde ver que a água vazava do lago e ia para dentro das cavernas, onde presumivelmente retornaria ao mar. Alguém muito acima tinha obviamente decidido baixar a torre. Ele se perguntou quem. Parecia um momento estranho para fazê-lo, uma vez que Quintillan e Maupertuis estavam mortos, os capangas do Barão estavam presumivelmente sob custódia, e Sr. Kyte estava aqui, com Sherlock. Quem mais estaria lá?
Ele olhou com espanto para o lugar de onde a torre ainda descia, um buraco perfeitamente circular no teto da caverna com apenas alguns centímetros de sobra em torno de sua circunferência. Como esse buraco fora criado ele provavelmente nunca saberia. Era um milagre da engenharia. A coisa toda era um milagre – uma maravilha invisível, desconhecida do mundo, escondida debaixo do solo e das rochas da Irlanda.
Antes que pudesse se maravilhar mais do trabalho que esteve envolvido na criação da torre, algo caiu de uma janela alta e atingiu a superfície do lago, entrando com um grandioso splash!
O Sr. Kyte, ao que parecia, tinha desistido de tentar passar através dos espaços nas lajes das salas da torre e mergulhara de uma das janelas.
Sherlock afastou-se da borda da plataforma. Ele ainda tinha a alabarda e agarrou-a com as duas mãos agora, segurando-a na frente como uma barreira protetora. Não que isso seria muito útil contra a força imparável que era o Sr. Kyte.
Ele estava cansado. Não, ele estava exausto. Havia usado todas as suas reservas de energia, e sabia que não podia lutar mais. Não havia sobrado nada para ele poder lutar.
Não, ele disse a si mesmo. Se desistir, você morre. Se quiser ver Virginia novamente, se quiser ver Matty, e Rufus Stone, e o Sr. Crowe, e Mycroft, então você lutará. De alguma forma, você encontrará a energia.
Ele endireitou os ombros, trouxe a alabarda para cima de modo que estivesse paralela ao chão, e esperou.
Ele podia ouvir os respingos no lago conforme o Sr. Kyte nadava de volta para a plataforma de pedras-pome.
Pedras-pome. Algo em seu cérebro havia se agarrado à palavra “pedras-pome” e não a soltava.
Pedras-pome. Eram menos densas do que a água, graças aos furos minúsculos cheios de ar que passavam através delas, e então elas flutuavam. Eram quebradiças e frágeis. Ele ainda tinha cacos delas no bolso.
Quebradiças. Frágeis. Era isso!
Ele tinha apenas alguns segundos para agir antes que o Sr. Kyte nadasse até a borda da plataforma.
Girando ao redor, ele agarrou a alabarda pelo machado e usou a ponta de lança no topo da haste de madeira para espetar em um bloco de pedras-pome na torre – uma que estava por volta da altura do peito. A ponta de lança começou a arrancar lascas de pedras-pome. Ele ali, picando tão rápido quanto podia.
Sherlock olhou por cima do ombro desesperadamente. Uma grande mão apareceu na borda da plataforma, e então outra. Elas descansaram ali por um momento, como se estivessem reunindo forças.
Sherlock redobrou seus esforços. Ele havia esculpido um buraco – um tubo – indo fundo no bloco de pedras-pome. Felizmente, não tinha ido a uma profundidade suficiente para passar para o outro lado. Isso teria arruinado as coisas.
Olhando por cima do ombro novamente, ele viu o topo da cabeça do Sr. Kyte aparecendo acima da borda da plataforma.
Sherlock tinha apenas alguns segundos.
Ele virou a alabarda ao contrário e empurrou a extremidade do bastão de madeira no buraco. Ela ficou pendurada na altura do peito, ponta de lança apontada para fora, tombando ligeiramente com o peso do machado.
Sherlock se moveu para a frente da alabarda. Ele ficou de frente para o lugar onde o Sr. Kyte subia para fora do lago subterrâneo, a ponta de lança pressionada em suas costas.
Isso exigiria uma fração de segundo, caso contrário, ele se empalaria em sua própria arma.
Tremendo, em parte de frio e, em parte de medo, ele esperou.
O Sr. Kyte puxou-se para a plataforma e se endireitou, sua total altura de urso. Seu cabelo vermelho estava colado sobre sua cabeça escaldada e sobre seus ombros. Seus olhos eram como pequenas faíscas vermelhas na máscara torcida de seu rosto.
Ele havia retraído a lâmina remanescente ligada ao seu braço, mas com um rápido bater de pulsos ele ativou o mecanismo de mola e a lâmina deslizou para fora em toda a sua extensão letal.
— Há países no mundo que têm nos causado menos problemas do que você — disse ele em um tom profundo e retumbante. — Mas agora, finalmente, não há outro lugar para correr. Basta aceitar a sua morte, Sherlock Holmes.
Com isso, ele começou a correr para Sherlock, lâmina estendida diante de si. Sua boca se abriu e ele uivou um profundo grito gutural de guerra, obviamente com a intenção de fixar Sherlock contra a torre, achatando-o e atropelando-o inteiramente, ao mesmo tempo.
Pouco antes de a ponta da lâmina tocar seu peito, Sherlock se jogou no chão e rolou horizontalmente para debaixo da alabarda.
Sr. Kyte, com seu impulso irrefreável, correu direto para a ponta de lança. Ela cravou profundamente em seu peito. Apenas o machado e os dois chifres curvados do outro lado o detiveram.
Sherlock se levantou, trêmulo. A cabeça do Sr. Kyte virou para ele, e seus olhos fixaram-se profundamente entrando até a alma de Sherlock. Havia raiva neles, mas havia também surpresa, e uma crescente tristeza.
— A única pessoa que decidirá quando morrerei serei eu — disse Sherlock calmamente.
Sr. Kyte abriu a boca para responder, mas tudo o que saiu dela foi um filete de sangue que se misturou ao vermelho de sua barba queimada. Em um momento ele estava vivo, uma força vital no mundo, e no momento seguinte ele estava morto – nada mais do que um pedaço de carne inanimado e insensível.
Levou quase meia hora antes de Sherlock se sentir capaz de se mover, e mais meia hora para subir laboriosamente através das salas escuras da torre, andar por andar. Eventualmente, uma das janelas das salas se abriu para o ar fresco e a luz do sol brilhante. Ele subiu para o campo irlandês vividamente verde, quase caindo, para encontrar Mycroft, Rufus Stone, Matty, Amyus Crowe e Virginia em pé esperando por ele. Virginia deu um passo para a frente, mão na boca, mas parou antes de chegar a ele.
— Você levou um bom tempo — disse Mycroft.
Seu tom era amargo, mas Sherlock podia ver a preocupação e alívio em seus olhos.
— Presumo a partir de sua chegada tranquila que lidou com o Sr. Kyte?
— Sabe a maneira como alguns homens coletam borboletas, e as fixam em papelão? — perguntou Sherlock, cansado.
— Sim. Por quê?
— Porque acho que acabo de começar minha própria coleção.
— Ah — Mycroft assentiu. — O criminoso pica-pau espetado, vejo. Há, obviamente, toda uma história por trás disso, uma que estou ansioso para ouvir – durante o jantar.
— Quem foi responsável por baixar a torre? — perguntou Sherlock.
— Niamh Quintillan. Quando ela soube que você tinha ido para as cavernas, e que a borda tinha se desintegrado atrás de você, percebeu que seu único caminho para fora seria se ela movesse a torre para que uma das janelas ficasse alinhada com o túnel ao longo do qual você estava correndo. — Ele fez uma pausa. — Ela sabia tudo sobre a torre, e como operá-la. Ela era muito mais parte dos planos de seu pai do que talvez tivéssemos pensado. Ela estava, por sinal, muito preocupada com a sua segurança.
— O que acontecerá com ela?
Mycroft encolheu os ombros.
— Ela foi parte de um grandioso ato de fraude. É inteiramente uma questão para as autoridades irlandesas tratarem, embora haja três imperadores, uma imperatriz e um presidente que podem querer influenciar o resultado. A ação para salvar a sua vida contará a favor dela.
— E agora? — perguntou Sherlock. Ele sabia que deveria se sentir eufórico por sua sobrevivência, mas se sentia cansado e triste.
— O que você quer que aconteça agora? — perguntou Mycroft.
Em vez de responder, Sherlock caminhou até onde Virginia olhava para ele. Ela abriu a boca para falar, mas ele colocou um dedo sobre seus lábios para impedi-la. Tirando o dedo, ele se moveu para frente, passou os braços em torno dela, e a beijou.
Depois do que poderia ter sido alguns segundos ou alguns minutos – ele não tinha certeza – ele interrompeu o beijo e recuou. Ele olhou para Matty, que o fitava com um olhar nitidamente impressionado no rosto.
— Vamos para casa — disse ele.

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