20 de setembro de 2017

Capítulo quatro

SHERLOCK PASSOU O RESTANTE do dia andando por Oxford e seus arredores, familiarizando-se com a cidade. O sol brilhava, fazendo com que a pedra de cor clara da qual as várias faculdades eram construídas parecesse reluzir na luz avermelhada da tarde.
Sherlock nunca gostou de estar em um lugar onde não soubesse o que havia na rua ou dobrando a esquina. Onde quer que ele fosse, tinha que saber da geografia local. Até comprou um mapa das ruas de uma loja na cidade e o consultava enquanto caminhava para aprender os nomes das áreas pela qual passava.
Enquanto vagava, repetiu várias vezes na sua mente a conversa que tivera com Charles Dodgson. O homem tinha uma mente muito excêntrica – isso estava bem claro – mas deveria ser um matemático capaz e lógico, do contrário as autoridades da universidade não o deixariam lecionar. Eles obviamente fizeram vista grossa para o lado mais curioso de sua personalidade. Sherlock se perguntou quanto desse estranho lado era simulação calculada.
Ocorreu a ele que existiam outras coisas que ele queria conversar com Dodgson, mas que havia se esquecido de mencionar. Havia a questão de como Dodgson conseguia equilibrar seu sério trabalho matemático com a escrita de livros infantis, para começar. Havia muitas coisas que Sherlock queria saber sobre a juventude de seu irmão também, quando ele estava em Oxford. Havia também a questão dos roubos de partes de corpos que surgira durante o jantar na noite anterior. Sherlock se lembrou de Reginald Musgrave dizendo que Dodgson fora interrogado sobre o assunto, e ele queria desesperadamente conseguir mais fatos com o homem. Por que partes do corpo? Como elas haviam sido roubadas? Onde elas estavam? Sherlock descobriu que, conforme andava, seu cérebro estava se voltando cada vez mais para essas perguntas sem resposta.
Ele sabia o que estava fazendo, é claro. Estava procurando por um mistério.
Nos últimos dois anos ele havia sido confrontado por vários deles, aparentemente insolúveis, e começava a pegar gosto por desvendar um labirinto de evidências contraditórias e impossibilidades para descobrir a verdade.
Talvez este fosse outro deles.
Trabalhando nesse pensamento, Sherlock perguntou a alguns moradores locais onde ficava o necrotério. Ele não sabia por que – não tinha planos de ir até lá – mas estava interessado em saber.
As duas primeiras pessoas a quem perguntou – senhoras fazendo suas compras – o olharam com estranheza e simplesmente seguiram seu caminho. Talvez achassem estranho que um garoto perguntasse sobre algo tão macabro quanto um lugar onde cadáveres eram armazenados. A terceira pessoa – um homem corpulento, de bigode e um colete pequeno demais murmurou “Estudantes!” e foi embora. Felizmente a quarta pessoa – um homem de negócios em um chapéu coco e terno – o informou. Não ficava muito longe, era parte do hospital local. Ele registrou a localização em sua cabeça caso viesse a precisar dela e continuou com suas explorações pela cidade.
A certa altura ele passou por um prédio que, de acordo com a placa do lado de fora, era o lugar onde o jornal local era elaborado, impresso e distribuído. Ele havia descoberto anteriormente que jornais locais eram fontes valiosas de informação e meios igualmente valiosos de enviar mensagens rapidamente a um grande número de pessoas. Ele não tinha intenção de algum dia fazer aquilo de novo, mas enfim, nunca tivera a intenção de fazer nada daquilo antes, fato que não impedira a necessidade no passado.
Ele almoçou em uma barraca do lado de fora de uma taberna e seguiu em frente, pegando carona em carroça para poder ir mais longe para dentro do campo nos arredores. Até a hora do jantar, ele já havia visto vilarejos distantes como Jericho e Sunnymede, Wolvercote e Cowley, e tinha em sua cabeça um mapa mais ou menos completo de toda a área.
Perto do anoitecer, enquanto pensava em voltar para o alojamento da Sra. McCrery e preparar-se para o jantar, ele se viu caminhando por uma longa parede de tijolos. Estava em algum lugar perto do canal: ele podia sentir o cheiro da água e escutar as vozes dos barqueiros enquanto chamavam uns aos outros. A parede tinha aproximadamente três metros de altura, e na metade de seu comprimento estava um conjunto de portões. Sherlock caminhava neste ponto, esperando por uma carroça que passasse e o levasse de volta ao centro de Oxford, e desacelerou momentaneamente para olhar através dos portões.
Ele viu algo que já havia visto antes, mas de uma direção diferente. Era a casa pela qual ele e Matty passaram quando estavam no barco indo em direção a Oxford. Ele só podia ver uma ponta da casa pelo portão, mas soube, instantânea e instintivamente, que era o mesmo lugar. Seu coração sentia isso como se vacilasse dentro de seu peito enquanto Sherlock olhava para a casa, e ele teve o mais estranho impulso de se colocar de um dos lados do portão e forçar a vista a fim de que a construção fizesse algum sentido.
Apesar de somente poder ver uma parte do lugar, ainda assim parecia que as várias linhas e ângulos que formavam a estrutura não tinham sentido algum. Ele estava lembrado da conversa que tivera com Charles Dodgson sobre os Elementos de Euclides. De acordo com a geometria euclidiana, os ângulos internos de um triângulo sempre resultam em 180 graus, mas olhando para a casa, Sherlock imaginou se poderia haver outro tipo de geometria, uma na qual os ângulos de um triângulo resultassem em menos ou mais do que isso, e na qual linhas paralelas pudessem realmente se encontrar em um ponto distante. A casa dava a impressão de estar distorcida, como se uma mão gigante a tivesse pego e torcido levemente, de modo que tudo era desvirtuado.
Apesar do calor do dia, ele de repente sentiu frio. Tremeu. Isso não era lógico. Não estava certo. Construções não podiam inspirar sentimentos como esse, certamente. Elas eram apenas pedra e tijolos, tábuas e argamassa. Não podiam inspirar medo da maneira como essa construção inspirava. Ele estava obviamente com fome, e isso o estava deixando tonto. Ou isso ou o sol lhe causara um pequeno caso de insolação.
Um barulho atrás dele o fez virar-se esperançosamente. Se fosse uma carroça indo para Oxford, então ele poderia pedir uma carona. Poderia deitar e descansar e, com sorte, ser mais como ele mesmo quando voltasse ao alojamento da Sra. McCrery. Assim que tivesse alguma comida dentro dele, ficaria bem.
Não era uma carroça; era uma carruagem, feita de madeira pintada de preto e puxada por dois cavalos totalmente pretos. O cocheiro estava vestido de preto também: não somente suas roupas, mas o chapéu de aba larga e o lenço que estava amarrado na parte baixa de seu rosto. Somente seus olhos podiam ser vistos e, na luz do fim de tarde, eles pareciam pretos também.
A carruagem desacelerou conforme se aproximava dos portões. Sherlock saiu do caminho, para a beira da grama. Os portões se abriram, aparentemente sozinhos, já que Sherlock não conseguia ver nenhuma evidência de que havia alguém ali. Os cavalos rumaram para o portão, e a carruagem começou a segui-los. Sherlock olhou para cima, para a janela, e congelou.
Tudo o que ele podia ver dentro da carruagem era uma mão, descansando na parte inferior da moldura da janela. A mão era larga e pálida, e uma cicatriz carmesim corria ao redor de seu pulso. Outras cicatrizes, também de um vermelho vívido, corriam ao redor das bases de seus dedos, onde se uniam à palma. Uma cicatriz mais distante subia seu braço, para longe do pulso e para dentro da escuridão da carruagem. Todas as cicatrizes eram prova de que a pele havia sido costurada em algum momento no passado.
 E, de alguma maneira, Sherlock soube que estava sendo observado de dentro da carruagem por olhos que o consideravam com interesse, mas não com emoção. Olhos frios, vazios.
Todo o incidente levou somente um momento para se desenrolar, depois a carruagem passou por ele e os portões se fecharam novamente. Sherlock ficou encarando o portão, tentando entender o que havia acabado de acontecer. A casa podia causar sentimentos estranhos de pânico dentro dele, e quem vivia lá parecia exercer o mesmo efeito. O dono e a propriedade eram um par perfeito.
Ele meio andou, meio correu ao longo do muro até a esquina, onde a estrada ia para um lado e o muro se dobrava em um ângulo reto – ou talvez algo próximo a um ângulo reto, mas não exatamente um. Sherlock se distanciou da casa, seguindo pela estrada, e sentiu um peso gradativamente sair de sua mente.
O que era aquele lugar?
Vinte minutos depois uma carroça se aproximou, e ele pegou uma carona de volta a Oxford com o fazendeiro que a conduzia. Diversas vezes ao longo do caminho Sherlock tentou perguntar ao homem sobre a casa pela qual ele deve ter passado, mas todas as vezes as palavras se prendiam em sua garganta. Ele não queria levantar o assunto.
Depois de vinte minutos de silêncio, foi o próprio carroceiro quem falou primeiro.
— Você deve ter cuidado ao vagar pelos bosques.
— Por quê? — Sherlock perguntou, pensando que o homem levantaria o assunto da estranha casa ele mesmo.
Ao invés disso, ele respondeu:
— As pessoas estão dizendo que tem algum tipo de criatura vagando por aqui. Eu mesmo não dou muito crédito a isso, mas alguns dizem ter visto a criatura – uma coisa ímpia feita de partes de cadáveres costuradas juntas. Até escreveram ao jornal local sobre isso, mas nada aconteceu. É como digo, eu nunca vi nada, mas mesmo assim não andaria pelos bosques sozinho. Nunca se sabe.
— Eu tomarei cuidado — disse Sherlock. Ele se lembrou do homem que vira dentro da carruagem, que havia entrado na estranha casa. Seus pulsos eram marcados por cicatrizes. E se alguém o tivesse visto de relance nas sombras e tirado uma conclusão errada? — Obrigado pelo aviso.
De volta aos seus aposentos, Sherlock teve tempo para lavar-se rapidamente e trocar de roupas antes do jantar. Três dos outros hóspedes estavam ausentes – provavelmente comendo na universidade – e Sherlock compartilhou uma refeição silenciosa com o teólogo Thomas Millard e o matemático Mathukumal Vijayaraghavan. Ninguém tinha muita coisa a dizer, e Sherlock foi direto para a cama depois.
Saindo do seu quarto na manhã seguinte, ele cruzou com o esguio Paul Chippenham, descendo as escadas.
— Alguma coisa para hoje? — Chippenham perguntou, vestindo seu paletó enquanto passava por Sherlock.
— Nada — Sherlock admitiu. — Pensei em dar uma olhada por Oxford, talvez passear no rio. E você?
— Palestras — Chippenham disse por cima do ombro. — Estamos falando sobre anatomia – a estrutura do esqueleto e a disposição dos órgãos internos.
— Pensei que você estivesse estudando ciências naturais.
— Biologia é parte disso, e anatomia é parte da biologia. Estamos fazendo uma aposta sobre qual dos estudantes passará mal primeiro e terá que sair.
O cérebro de Sherlock girou por um momento. Palestras sobre anatomia? Isso parecia fascinante.
— Eu poderia ir junto? — ele falou atrás do aluno.
O som das palavras saindo de sua boca o surpreendeu, mas uma breve reflexão confirmou sua rápida decisão. Por que limitar suas matérias somente a lógica e matemática, e por que limitar seus professores somente a Charles Dodgson? Porque não tirar vantagem de todo o conhecimento que Oxford tinha a oferecer?
Chippenham olhou para cima, franzindo a testa.
— Não vejo porque não poderia — ele finalmente disse. — Geralmente há lugares vagos no fundo. Só não chame atenção para si, não faça perguntas e não, não mesmo, passe mal.
— Eu prometo — Sherlock respondeu.
— Precisamos ir, então. Já estou atrasado.
Sherlock seguiu Chippenham escada abaixo e para fora da casa. O estudante mais velho correu pela rua, virando a esquina e indo direto para a fachada imponente da universidade, com Sherlock fazendo o seu melhor para acompanhá-lo. Ele acenou para Mutchinson, o porteiro, ao passar, e o homem o saudou vivamente de volta.
Chippenham correu pela borda do gramado e passou por baixo de um arco lateral, com Sherlock em seus calcanhares. Ambos já estavam ofegantes nesse momento. Sherlock olhou para cima, para onde ele se lembrava ser a sala de Dodgson, mas não havia sinal do homem na janela. Passaram por outros dois arcos na diagonal de um pátio pavimentado, e então Chippenham correu para uma porta estreita e subiu algumas escadas.
No topo da escadaria, uma porta se abriu para o anfiteatro. Sherlock esperava algo como uma das salas de aula da Escola Deepdene para Meninos, onde ele havia sido educado inicialmente – carteiras organizadas em filas com um professor em frente ao quadro-negro – mas a sala em que estava parecia mais como o teatro onde ele assistira o violinista Pablo Sarasate algumas semanas antes. O tablado era menor, e a inclinação da fileira superior da plateia era mais íngreme, mas o sentimento geral era similar. Exceto, ele percebeu, que não havia assentos. Ao invés disso, os estudantes estavam dispostos – em alguns lugares, apertados – contra uma série de grades que corriam ao redor da borda de seus balcões.
O som era praticamente o mesmo que o do teatro, com todos os estudantes aparentemente falando ao mesmo tempo com seus vizinhos, ou gritando de um lado do anfiteatro ao outro.
Sherlock e Chippenham tinham saído no balcão superior. Chippenham esgueirou-se rapidamente pela multidão, descendo pelo lance de degraus mais próximo até onde um grupo de seus amigos estava. Sherlock ficou no topo e achou uma brecha na multidão onde ele poderia ficar contra a grade e olhar para baixo.
Eles haviam chegado a tempo. A palestra ainda não havia começado, mas o professor estava em posição. Ao seu lado havia uma mesa coberta por um lençol branco. Na mesa, coberto pelo lençol, estava um objeto irregular que, Sherlock pensou com um repentino calafrio, provavelmente era um cadáver.
O palestrante era um homem alto com sobrancelhas espessas e uma área calva no topo de sua cabeça que reluzia com o brilho das luzes fortes que estavam dispostas ao redor do anfiteatro. Sherlock podia sentir o cheiro da pressão dos corpos dos estudantes, assim como os vários odores de loção pós-barba e tônicos capilares. Por baixo desses odores, estava o cheiro de combustível e, por baixo desse, um cheiro forte como de desinfetante.
O professor deu um passo à frente. O silêncio caiu imediatamente. Ele era obviamente muito respeitado ou um disciplinador rigoroso, ou ambos.
— Uma palavra antes de começarmos, senhores — ele disse em uma voz grave, que chegava até cada canto e cada fissura daquela sala alta. — Em breve vocês me observarão enquanto eu desmembro um corpo, parte por parte, demonstrando a vocês em cada etapa o que cada um dos pedaços faz e como eles estão conectados com o restante. No próximo ano vocês irão, se tiverem permissão para retornar a esta universidade, desmembrar um corpo vocês mesmos. Estas são partes importantes – até mesmo vitais – da sua educação. Se voltarmos na história, as pessoas acreditavam em todo tipo de coisas estranhas sobre o corpo humano que se revelaram sendo falsas, e que somente se provaram falsas por observação direta do interior do corpo. — Ele fez uma pausa, olhando ao redor com seus olhos penetrantes. — Por favor, lembrem-se de duas coisas. Primeiro, tenham em mente que estudantes em sua posição são afortunados por viverem em um tempo esclarecido, onde alunos que desejam tornar-se médicos ou cirurgiões tem a oportunidade de ver como o corpo humano funciona ao examinar um verdadeiro corpo humano. Houve períodos, não muito tempo atrás, em que coisas assim eram proibidas por religiosos ou por razões éticas. Segundo, esses corpos, que nós casualmente desmembramos, já foram pessoas vivas que doaram voluntariamente seus corpos para sua educação. Tratem-nos com o respeito que merecem. — Ele pousou a mão no corpo coberto pelo lençol ao seu lado. — Este é o Sr. Adam Bagshawe, até recentemente membro desta paróquia. Estamos em débito com a Sra. Rachel Bagshawe, por doar o corpo de seu marido para fins de pesquisa médica, conforme o desejo expresso em seu testamento. Posso, inadvertidamente, me referir ao corpo do Sr. Bagshawe como “isto” mais tarde, como se eu estivesse me referindo a um pedaço de maquinaria ou um bloco de madeira, mas tentem ter em mente, assim como tentarei, que uma vez houve a alma de um homem habitando esta máquina, este bloco, e que ele tinha afeições, aversões e desejos similares aos seus.
Os estudantes estavam hipnotizados por essa introdução. Olhando ao redor, Sherlock podia perceber que as palavras do palestrante haviam tocado fundo. Alguns dos estudantes engoliam em seco, presumivelmente imaginando que um dia poderia ser eles deitados na mesa do anfiteatro, ao invés do infeliz Sr. Bagshawe.
O palestrante começou a arrancar o lençol que cobria o corpo do Sr. Bagshawe, e então fez uma pausa. Ele olhou ao redor do anfiteatro novamente, franzindo a testa.
— Vocês devem ter escutado conversas pela cidade — ele acrescentou — ou talvez visto reportagens nos jornais locais sobre partes de corpos humanos que foram roubadas do necrotério local nos últimos meses. Pode ter ocorrido a vocês que esses ladrões podem ter conexão com este curso – para obter espécimes frescos para usarmos aqui na frente de vocês ou, talvez, por alunos mais maduros empreendendo algum tipo de tarefa de casa grotesco. Posso lhes garantir que a primeira opção não é verdadeira – cada corpo que dissecamos aqui nos foi fornecido inteiro, pela família do infeliz falecido. Também posso lhes assegurar que, se algum estudante for encontrado adquirindo partes de corpo ilegais, por roubo ou qualquer outro meio, para conduzir sua própria pesquisa depois do expediente, será imediatamente expulso da universidade e processado em toda a extensão que a lei permite. Nós não, eu repito, não apoiamos esse tipo de atividade. Estou sendo claro?
Então ele ficou em silêncio, olhando ao redor e encarando cada par de olhos fixados nele até que um burburinho de concordância se agitou pela sala.
— Muito bem — ele continuou afinal. — Agora, vamos conhecer o Sr. Bagshawe.
Ele puxou o lençol do corpo. Um grande silêncio caiu na sala. Sherlock encontrou-se pensando, estranhamente, nas mortes que havia testemunhado. Ele provavelmente vira mais mortes do que qualquer um naquela sala, salvo o palestrante, mas mesmo assim ele se inclinou para frente, silencioso em reverência, enquanto o palestrante continuava.
Depois que o corpo do recentemente falecido Sr. Bagshawe foi cortado de forma abrangente e seus vários órgãos internos dispostos para apreciação pública, e depois que nada menos que cinco estudantes passassem mal e tivessem que correr porta afora, a palestra terminou. O professor cobriu os restos do Sr. Bagshawe com um lençol – que imediatamente começou a manchar-se com a perda de sangue do corpo – enquanto os estudantes que permaneceram aplaudiam educadamente, e dois assistentes levaram o corpo embora.
Sherlock permaneceu ali por um tempo enquanto os estudantes passavam por ele, pensando sobre o que vira. Pensando sobre o fato de que os milagres do corpo humano podiam ser tratados da mesma maneira que as engrenagens, rodas e molas de dentro de um relógio – desmontados e dispostos em uma mesa para inspeção. A diferença sendo, é claro, que os vários componentes de um corpo não poderiam ser remontados, enquanto um relógio poderia. A vida, uma vez perdida, não podia ser recuperada. Então o quê, ele pensou consigo mesmo, fazia a vida? Seria a mesma coisa que a alma? Seria a mesma coisa que a consciência? O que exatamente era?
Grandes perguntas. Talvez esse fosse o papel da universidade, no fim das contas. Não responder às grandes perguntas, necessariamente, mas fazê-las.
Eventualmente ele deixou o auditório. O sol brilhava lá fora, e Matty esperava por ele.
— Divertindo-se? — Matty perguntou.
— Eu estava olhando para um cadáver — Sherlock confidenciou.
Matty pensou por um instante.
— Isso é um sim ou um não? — ele olhou para Sherlock, e então balançou a cabeça. — Não importa, vou presumir que seja um “sim” no seu caso. Você adora esse tipo de coisa.
Sherlock estava a ponto de responder, apontando que ele também gostava de todo tipo de coisa que as pessoas poderiam considerar normal, quando viu Chippenham do outro lado da área pavimentada, conversando com alguns amigos. Ele estava quase sugerindo a Matty que eles fossem até lá se juntar a Chippenham, quando viu dois homens de uniforme azul de sarja e capacetes indo naquela direção. Ele se deteve, observando.
Um dos homens segurou o cotovelo de Chippenham.
— Sr. Paul Chippenham? — ele perguntou.
O estudante pareceu intrigado e preocupado.
— Sim. Quem é o senhor?
— Eu sou o sargento Clitherow, da Polícia de Oxford. Este é meu colega, o policial Harries. Gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas.
— Oh, tudo bem. O que querem saber?
— Aqui não, senhor. Na delegacia de polícia, se o senhor não se importar.
— Eu tenho uma reunião com meu tutor! — Chippenham protestou.
— Não se preocupe senhor, não tomará muito tempo, e haverá outras reuniões, tenho certeza.
Um dos amigos de Chippenham deu um passo à frente.
— Eu estou estudando direito — ele disse, tentando soar prestativo, mas soando somente pretensioso. — Exijo que nos digam por que querem falar com o Sr. Chippenham.
— Perguntas a respeito de uma série de roubos recentes — o sargento respondeu.
— Roubos de corpos — o policial confidenciou. — Bem, pedaços de corpos.
O sargento o encarou, enrugando a testa, e o policial se afastou.
— O Sr. Chippenham é um suspeito? — o estudante de direito perguntou.
O sargento deu de ombros.
— Vamos dizer que ele nos ajudará ao responder nossas perguntas — ele disse. Ele retornou a Chippenham. — Não ajudará, senhor? Poderia ser suspeito se o senhor se recusasse. Pareceria que tem algo a esconder.
— Eu irei e responderei quaisquer perguntas que tiverem — Chippenham falou firmemente, mas Sherlock detectou um pequeno tremor em sua voz. Chippenham se voltou para seus amigos. — Falem com o meu tutor. Contem o que aconteceu. Pode ser que ele... possa interceder com a polícia, ou algo assim.
O policial guiou Chippenham para longe pelo cotovelo. Ele lançou um último, desesperado olhar sobre os ombros antes de desaparecer em uma esquina.
— Ainda bem que não sou ele — Matty disse sombriamente. — A Polícia de Oxford tem uma reputação. Eles não gostam de atrevimento, ou de ninguém respondendo eles. É melhor que ele coopere, senão se encontrará tropeçando cada vez que descer um lance de escadas. Ele poderia conseguir alguns ferimentos desagradáveis sozinho dessa maneira.
— Não consigo imaginá-lo como culpado — Sherlock disse.
— Por que não?
— Ele parece muito normal, muito comum. E quando falou sobre os roubos, na outra noite na pensão da Sra. McCrery, ele foi completamente aberto. — Sherlock deu de ombros. — Acho que não podemos dizer o que se passa na mente das pessoas, mas eu gostaria de saber se existe alguma evidência contra ele. Não estou convencido de que a polícia realmente se importa com provas, desde que tenham alguém atrás das grades.
— Com certeza — Matty defendeu — se os roubos continuarem, eles terão que soltá-lo.
— Não necessariamente — Sherlock disse friamente. — O ladrão pode parar por outras razões. Ou, se eu fosse o criminoso e alguém tivesse sido preso por crimes que eu estava cometendo, eu mudaria para uma área diferente, um necrotério diferente, e começaria de novo.
— Você tem uma mente habilidosa — Matty apontou. — Já pensou em se tornar um criminoso?
Já era muito mais tarde naquela noite, após o jantar, quando Paul Chippenham retornou à pensão da Sra. McCrery. Ele estava pálido, e suas mãos tremiam enquanto ele tomava um gole de xerez que Reginald Musgrave lhe serviu. Havia um machucado recente em sua testa.
— O que aconteceu? — Sherlock perguntou.
— Eles me fizeram muitas perguntas a respeito do necrotério do Hospital de Oxford, e por que eu o estava visitando. Tentei persuadi-los de que não era nada suspeito, mas eles estavam fixados na ideia de que era eu quem estava roubando aquelas partes de corpos que apareceram nos jornais e que o palestrante mencionou essa manhã. — Ele levantou uma mão até o machucado em sua testa. — As coisas ficaram um pouco... físicas, e o policial me bateu com o cinto na testa quando pensou que eu estava sendo arrogante.
— O que você contou a eles? — Thomas Millard quis saber.
— A verdade. — Ele parecia envergonhado. — Era para ser uma brincadeira – uma piada. Um pequeno grupo nosso iria roubar um corpo do necrotério, vesti-lo como um estudante e colocá-lo no anfiteatro durante a palestra de anatomia. Nós achamos que seria engraçado, saber que teria um corpo no auditório e outro na mesa.
— Sacrilégio, tratar a criação de Deus dessa maneira — Millard murmurou, balançando sua cabeça tristemente, mas ele não pareceu surpreso. Provavelmente era o tipo de coisa que os estudantes aprontavam regularmente.
— Presumo que vocês não conseguiram um corpo — Sherlock disse.
Chippenham balançou a cabeça.
— O patologista, doutor Lukather, era muito esperto. Ele nem falava comigo, que dirá me deixar olhar os corpos. Eu disse isso à polícia. Eles disseram que checariam com Lukather, mas parece que acreditaram em mim. Não vou dizer que eles ficaram satisfeitos, mas me soltaram.
A conversa mudou para famosas brincadeiras e peças que foram pregadas nos estudantes e nos professores ao longo dos anos. Sherlock escapou de lá depois de um tempo e subiu para seu quarto. Ele tinha muito sobre o que pensar.
Na manhã seguinte ele levantou cedo, tomou café da manhã e foi direto para a cidade. Algo havia ocorrido a ele durante a noite, e ele queria testar sua ideia.
Ele foi direto ao prédio do Oxford Post. Na recepção, pediu para ver qualquer repórter que estivesse de plantão naquele dia. Ele sabia que a maioria dos repórteres estaria fora pesquisando histórias, mas sempre ficava algum para trás, caso alguém chegasse lá com alguma coisa.
O que ficou para trás hoje era Ainsley Dunbard, um homem não muito mais velho que Sherlock, com barba e bigode murchos e uma expressão que sugeria que ele vira muita coisa na vida, e não gostara do que viu.
— O que posso fazer por você? — ele perguntou quando Sherlock foi introduzido em seu “escritório” – na verdade um cômodo não muito maior do que um armário de vassouras contendo uma mesa, uma máquina de escrever e nenhuma janela.
— Me desculpe incomodá-lo — Sherlock começou — mas estou interessado em me tornar um repórter quando sair da escola. Eu gostaria de saber se há algumas dicas que o senhor poderia me dar?
— Exatamente do que preciso — o homem resmungou — competição. — Ele encarou sua mesa, depois a parede. — Há somente algumas coisas que você deve saber — ele disse finalmente, suspirando. — A primeira é: sempre cheque seus fatos. Tenha certeza de que, se publicar algo, pelo menos duas pessoas tenham lhe falado sobre isso, e cheque se a primeira pessoa não contou para a segunda.
Sherlock obedientemente anotou as informações em um caderno que havia comprado em uma papelaria apenas alguns minutos antes.
— A segunda coisa é que as pessoas não falam de uma maneira que rende uma boa reportagem de jornal, então você tem que modificar. Tire os “humm” e os “ahhhh” e os “oh, quero dizer” e coloque os eventos em uma ordem correta, porque as pessoas tendem a lembrar das coisas fora de ordem e ficam se corrigindo. Quando a reportagem for publicada, elas se lembrarão da história do modo como você escreveu, e não do modo como contaram. A terceira...  — ele olhou para os lados e para Sherlock com olhos injetados de sangue e cansados — lembre-se de que, se um cachorro morde um homem, não é notícia, mas se um homem morde um cachorro, sim. As pessoas querem histórias fora do comum, talvez um pouco grotescas. — Ele pensou por um instante. — Veja este caso que trabalhei no último ano — ele continuou. — Algumas pessoas me escreveram de um dos vilarejos locais. Foi como uma petição, todos assinaram a carta. Eles me contaram que há essa criatura vivendo nos bosques próximos que não é exatamente um homem de verdade, com mãe e tudo, mas que foi feito ao se costurar pedaços de cadáveres um no outro. Agora isso é macabro.  Teria sido uma grande história, exceto que soa como aquele livro Frankenstein da esposa do poeta – Mary Shelley. Concluí que alguém havia lido o livro, ou visto a peça, e teve um pesadelo sobre isso.  Comeu demais antes de dormir, presumo. — Ele  suspirou. — Eu realmente fiz algumas investigações por aí, apenas caso fosse verdade, mas não encontrei nenhuma confirmação. Não havia nada para uma matéria.
Esta história parecia a mesma que o fazendeiro, aquele que havia lhe dado carona de volta a Oxford, havia lhe contado – sobre a criatura que vivia nos bosques perto da casa estranha. Isso deu a Sherlock uma oportunidade que ele achou que teria de criar.
— Por falar em pedaços de cadáveres — ele disse, deliberadamente forçando sua voz para ficar igual a do jornalista — o que aconteceu no necrotério? Eu soube que houve alguns roubos lá. Não tem nada a ver com essa criatura, então?
Dunbarnd assentiu.
— Isso aí. É a coisa mais estranha de que já ouvi falar. Aparentemente está acontecendo há algum tempo – alguém morre, o corpo é levado ao necrotério para autópsia, depois enviado para sepultamento, mas parece que já tem menos partes no corpo do que havia na autópsia. Sempre partes diferentes somem – olhos, orelhas, mãos, pés, qualquer coisa. Eu realmente me perguntei se isso estava conectado com a história daquele monstro, mas concluí que fossem apenas estudantes pregando peças.
— Ladrões de cadáver? — Sherlock arriscou, lembrando do palestrante na Christ Church.
— Não, eles teriam levado o corpo inteiro. É aí que está o dinheiro. Pedaços de corpos não valem nada.
— Como isso foi descoberto?
Ele riu – um som amargo, como um latido de cachorro.
— Gent enterrou a esposa, depois se lembrou que ela havia sido enterrada com a aliança de casamento, alguns brincos e um colar de pérolas, então fez com que a desenterrassem. O problema é que as orelhas tinham sumido.  Criou um grande tumulto e muita correria por aí.
— E alguém sabe onde foram parar essas partes de corpos, ou quem as levou?
Dunbard balançou sua cabeça.
— Nem uma pista. A polícia está perplexa. Nós esgotamos diferentes maneiras de divulgar o caso, então paramos de publicar a história.
— Eu não li que a polícia interrogou um palestrante da Christ Church College?
— Isso mesmo — Dunbard confirmou. — Nós nunca o acusamos porque no fim das contas ele tinha um álibi para todas as datas em que as partes desapareceram.
— E o senhor falou alguma vez com o patologista no necrotério? — Sherlock perguntou. Era uma pergunta importante, porque a resposta ditaria o que ele faria a seguir, mas ele tentou manter seu tom o mais inocente possível.
— Não. Tentei, mas ele não quis me ver — ele deu de ombros. — Certo, é isso então? Porque tenho uma história importante sobre lodo no canal para datilografar.
— Sim, obrigado — Sherlock começou a se afastar, mas retornou. — Desculpe, mas o senhor tem um cartão comercial, de visitas ou qualquer coisa? Caso eu tenha mais perguntas?
Dunbard pescou um papel do bolso da camisa.
— Aqui está meus contatos, mas você pode me encontrar aqui quase todos os dias.
Enquanto Sherlock se distanciava, ele ouviu o homem falando, mais para si mesmo do que para Sherlock:
— E pensar que eu deixei a Gazeta de Londres por isso. Era para ser mais responsabilidade, mas o gato do escritório sai mais do que eu!
Sherlock guardou o cartão de visitas em um bolso do paletó. Tinha planos para ele, e não queria perdê-lo.

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