12 de setembro de 2017

Capítulo quatro

— VOCÊ ESTAVA FALANDO SÉRIO, não estava? — Sherlock perguntou a Niamh. — Sobre a Besta, quero dizer.
Isso foi duas horas mais tarde, quando estavam sentados lado a lado no jantar. Logo após Niamh ter mencionado a Besta Negra, a Sra. Silman aparecera no átrio declarando que conduziria Sherlock e Mycroft para seus quartos. Sherlock sorriu para Niamh e deu de ombros, em seguida, foi buscar seu irmão.
Seus quartos ficavam no segundo andar do castelo, e eles usaram a sala ascendente para chegar até lá. Quando Sherlock foi pressionado para um canto da sala ascendente pelo volume de seu irmão, ele percebeu que havia um painel de madeira ao lado da porta com cinco botões. Sua mente rapidamente fez as ligações – cinco botões, mas apenas quatro pisos – o térreo e três andares superiores. Quatro dos botões estavam marcados com “T”, “1”, “2” e “3”. O quinto não possuía marca alguma.
— Para que serve o quinto botão? — ele perguntou à Sra. Silman, que operava a sala de ascendente. — Existe um andar extra no topo do castelo?
— Não — ela disse, apertando o botão marcado “2”. — É um botão de emergência, no caso improvável de que haja uma avaria mecânica e alguém fique preso.
— Não seria mais sensato marcar “Emergência” no botão? — perguntou ele.
— Não queremos que ninguém fique preocupado com a possibilidade de um mau funcionamento.
A sala ascendente estremeceu para a vida, e serenamente começou a elevá-los no interior do átrio. Sherlock olhou para fora e para baixo, e viu Niamh Quintillan olhando de volta para ele. Ela acenou, e ele acenou de volta.
Seus quartos ficavam apenas a poucos passos do átrio, e havia uma porta que fazia a conexão entre eles. A bagagem de Sherlock – comprada naquela tarde – já tinha sido desfeita e um banho fora preparado para ele. Enquanto esperava que a água esfriasse um pouco, ele foi até a janela e a abriu. Uma brisa quente soprou para dentro. Baseado no reconhecimento desta pequena evidência, o clima na Irlanda parecia bastante inconstante, Sherlock observou. Ele fez uma nota mental para manter um olho nisso. O sol já tinha descido, mas havia uma lua quase cheia no céu, e com sua luz ele podia ver o oceano além da borda do penhasco. A brisa trazia o som das ondas se quebrando nas pedras. O luar refletia na espuma da água, transformando tudo em uma cena mágica. Fazia agora um longo tempo desde que ele pudera olhar para as ondas a partir desta altura – no último ano, ou até mais, ele estivera bem próximo das águas.
Eventualmente, ele puxou a cortina para fechá-la, despiu-se e deslizou para o banho. A água ainda estava quente, e ele percebeu que estava incomodado com isso. Tendo em conta que havia passado mais de um ano cercado de água que ficava entre fria e morna, a ideia de água quente era... estranha.
Depois de sair do banho, ele se vestiu em seu novo traje de noite e descobriu um pouco surpreso que ainda se lembrava de como dar o nó em uma gravata borboleta. Um gongo tocou exatamente quando ele terminava a última laçada, e ele deixou seu quarto para encontrar Mycroft no corredor.
— Sim — seu irmão havia dito, olhando criticamente para ele. — Você se sairá bem. Vamos lá, então.
A sala de jantar fora esvaziada dos lanches de mais cedo, e recebido um conjunto de mesa para um jantar formal. Sir Shadrach Quintillan estava na cabeceira da mesa, com Mycroft Holmes à sua direita e o conde Shuvalov à esquerda. Sherlock reconhecera o conde de imediato – ele ainda usava um uniforme militar ornamentado, seu cabelo grisalho ainda era cortado rente ao crânio, e seu bigode ainda era voltado para cima nas pontas. Ele reconheceu a presença de Sherlock com um leve aceno de cabeça.
O outro homem em uniforme militar – um corpulento com cabelos de corte baixo e uma sombra escura nas bochechas e no queixo, onde precisava fazer a barba – era, presumivelmente, o criado a que Sir Shadrach se referia. Ele estava atrás de Shuvalov, olhando para a parede distante, para o caso de seu mestre querer alguma coisa.
Von Webenau e Herr Holtzbrinck estavam sentados ao lado de Mycroft e Shuvalov, respectivamente. Criados do castelo estavam atrás deles, prontos para servir conforme a necessidade. Sherlock estava ao lado de von Webenau, entretanto o austríaco o ignorava, o tempo todo dirigindo-se a Quintillan. O assento oposto a Sherlock estava vazio, reservado presumivelmente para o representante americano ausente, e Niamh Quintillan sentava-se do lado oposto da mesa a seu pai.
— Estava falando muito sério — ela respondeu à pergunta de Sherlock enquanto as lacaias serviam a sopa para todos. — Há um monstro.
— E você o viu?
— Eu o vi.
— De verdade, e não em um sonho ou em uma visão?
— De verdade — ela confirmou.
Sherlock tomou um gole de sua sopa. Tinha a aparência e o sabor de um delicioso molho de carne.
— Que tipo de sopa é essa? — perguntou ele.
— Tartaruga — respondeu Niamh simplesmente, e tomou um gole da sua própria.
— Oh. Certo. — Ele tomou outro gole. Na verdade, era muito agradável. — Tartarugas de verdade?
— Ah, sim. Tartaruga mordedora, se quiser ser mais preciso. Papai as importou.
— Como é muito cosmopolita. — Ele fez uma pausa. — Então, fale-me sobre a Besta Negra.
Ela olhou para ele.
— Você não vai achar que sou estúpida, não é? Por acreditar em um monstro?
— Eu sei que você não é estúpida, mas tenho dificuldade em acreditar em monstros. — Ele pensou por um momento. — Bem, os que não são humanos, pelo menos. Onde você o viu?
— Lá embaixo na praia. Eu vou muito lá.
— Sozinha?
— Claro. — Ela olhou para ele desafiadoramente. — Quem mais iria comigo?
— Eu não sei. Sou um estranho por aqui. Existe uma trilha que leva até a praia?
— Não uma pela qual se possa descer facilmente. Há seções em que você tem que lutar para descer as áreas íngremes de rocha, e se errar o passo, cai pelo resto do caminho. Há uma que sai do castelo. Eu escalo como um cabrito montanhês. — Ela levantou uma sobrancelha. — E você?
Sherlock lembrou-se do número infinito de vezes que teve que escalar o cordame do Gloria Scott até o topo de um dos mastros.
— Posso lidar com isso — respondeu ele.
— Eu desci lá certa noite. Saí furtivamente do castelo. Só queria ver o mar à luz da lua. Eu costumava fazer isso muitas vezes em Barbados – sentava na areia e assistia as ondas virem. Enfim, eu estava lá fazia um tempo quando ouvi algo se movendo. Pensei que poderia ser um javali, ou algo assim, então virei a cabeça e olhei para trás, na direção do precipício. — Ela olhou para a toalha da mesa, mas seus olhos estavam desfocados e Sherlock sabia que ela revia o que ocorrera naquela ocasião, de volta no tempo. — Há uma grande quantidade de cavernas nos penhascos, formadas pela erosão das pelas ondas. Os contrabandistas costumavam usá-las para esconder coisas. Foi saindo de uma dessas cavernas que eu vi... algo. Era tão grande quanto um urso, mas... — seu olhar flutuou para Sherlock por um momento, avaliando a reação dele, e depois voltou para a toalha da mesa. — Mas tinha mais braços e pernas do que um urso teria.
— Quantos braços e pernas tinha? — Sherlock perguntou em voz baixa.
— Era difícil dizer no escuro. A lua estava baixa no céu, atrás das falésias, e o monstro andava nas sombras.
— Para onde estava indo?
— Ele se arrastou ao longo da praia por um tempo, e depois foi para outra caverna. Fiquei lá, imóvel, esperando que ele pensasse que eu era apenas um pedaço de madeira ou algo assim.
— Muito esperta. — Ele fez uma pausa por um momento. — Você sabe como essa história soa, não é?
— Soa como um sonho, mas eu não estava sonhando. Olha, eu posso provar!
— Como?
— As pessoas da cidade falam sobre a Besta também. Os pescadores todos sabem sobre ela. Toda vez que uma das redes é rasgada, eles dizem que foi a Besta Negra. Eu conversei com um dos criados daqui do castelo que disse que a viu uma vez, durante a noite, andando ao redor do lado externo do fosso.
— Isso não é prova — Sherlock apontou.
— Mas significa que não sou a única pessoa que a viu.
— Há quanto tempo essas histórias começaram?
Ela pensou por um momento.
— Aparentemente houve histórias da Besta Negra por centenas de anos, mas tem havido muito mais ocorrências recentemente. Talvez ela estivesse dormindo por um longo tempo. Ou talvez algo tenha acontecido para fazê-la sair do seu habitat natural.
— Ou talvez todo mundo esteja apenas imaginando, e conversas sobre isso torna mais provável que alguém veja um movimento nas sombras e o tome por um monstro.
— Eu sabia que você não iria acreditar em mim — ela retrucou, e voltou sua atenção para a sopa.
Depois de alguns minutos os criados levaram as tigelas de sopa para longe e as substituíram por pratos contendo fatias de carne de veado. Travessas com vegetais fumegantes foram trazidos para a mesa, e os convidados encheram seus pratos.
— Sinto muito — Sherlock falou após vários bocados da tenra carne de veado. — Só acredito no que posso ver com meus próprios olhos.
— Você não pode ver o vento — ela apontou — ou o calor do sol.
Ele suspirou.
— Não, mas posso ver seus efeitos.
— E você pode ver o efeito da Besta Negra. Ela me assustou. Assusta os moradores locais e os pescadores também.
— Eu não vou ganhar essa discussão, vou?
— Não — ela disse com determinação. — Você não vai.
Sherlock sabia que prosseguir com essa conversa seria inútil, mas não se conteve. Ele estava prestes a dizer alguma coisa quando um ruído de tilintar veio da cabeceira da mesa, cortando a conversa. Quintillan batia em sua taça de vinho com a faca.
— Senhores — ele chamou com sua voz rouca e sombria. — Muito obrigado por estarem aqui esta noite. Dada a disposição dos assentos na mesa, há apenas dois cavalheiros com quem posso interagir diretamente — ele acenou para Mycroft Holmes e o conde Shuvalov — mas, por favor, acreditem que isto não indica qualquer tratamento preferencial. Os assentos serão alterados a cada refeição. Eu terei o prazer de falar diretamente com todos vocês pelo tempo em que estivermos concluindo nossos negócios. — Ele fez uma pausa e olhou ao redor para todas as pessoas sentadas à mesa. — Posso apenas pedir desculpas pela ausência de nosso amigo americano. Estou certo de que ele estará aqui amanhã. No entanto, não tenho nenhuma intenção de atrasar nossos assuntos esperando que ele chegue. Estaremos dentro do cronograma, e permaneceremos no horário. Se ele faltou aos eventos desta noite, então é lamentável, mas ele, não vocês, será o único prejudicado.
Herr von Holtzbrinck e Webenau assentiram sua apreciação.
— Tenho certeza de que notaram — Quintillan continuou — que o Sr. Albano não está presente no jantar desta noite. Quando ele sabe que se comunicará com o plano astral, ele não participa de qualquer refeição. Ele descobriu que ela interfere em sua capacidade de se comunicar com os espíritos dos mortos. O Sr. Albano está atualmente em seu quarto, preparando-se para a sessão desta noite – relaxando, meditando e convocando seus poderes mentais. A intenção desta sessão é dar-lhes algumas indicações sobre o alcance e a escala das habilidades do Sr. Albano. Peço-lhes que prestem atenção ao que acontecerá, mas não tentem interferir. Os espíritos estão por vezes agitados e o excesso de barulho ou confusão pode deixá-los irritados. Por favor, para o seu próprio bem, mantenham a calma e tranquilidade enquanto a sessão estiver em curso. Não pedirei a nenhum de vocês que assumam compromissos financeiros esta noite. Apenas quero que observem e reflitam sobre o que verão. Amanhã começamos as negociações.
— Ele realmente acredita em tudo isso? — Sherlock perguntou Niamh quando os convidados voltaram a comer.
Ela assentiu com a cabeça.
— Sim, ele acredita.
— A sobremesa será servida em breve — Quintillan continuou um pouco depois. — Quando tiverem terminado, sugiro que retornemos à sala de entrada para a sessão. Depois disso, recomendo alguns charutos e conhaque.
Sherlock mal podia esperar para ver o que aconteceria na sessão.
Felizmente, todos os outros na mesa tinham o mesmo sentimento que ele. A conversa morreu conforme todos corriam para terminar o jantar.
Quando todos terminaram, a Sra. Silman apareceu, atrás da cadeira de três rodas de Sir Shadrach Quintillan. Ela a segurou as alças, puxou-o para trás e manobrou-o para longe da mesa.
— Por favor — convidou ele — todos vocês, sigam-me.
Mycroft Holmes, conde Shuvalov, Von Webenau e Herr Holtzbrinck todos levantaram-se e o seguiram. Shuvalov fez um gesto para o seu criado, despedindo-o.
Sherlock olhou para Niamh.
— Você vem? — perguntou ele.
— Eu não fui especificamente convidada — ela admitiu — mas eu adoraria ver o que acontecerá.
Sherlock acompanhou Niamh, seguindo os outros convidados do jantar. Eles caminharam pelo corredor do castelo atravessando uma entrada em arco para uma sala que estava escura, iluminada apenas por velas. Cortinas grossas de veludo bloqueavam qualquer iluminação que pudesse vir das janelas. Uma mesa tinha sido colocada no centro da sala, menor do que a de jantar, e de formato circular. Não era coberta por uma toalha, e nas beiradas estavam inscritas as letras do alfabeto juntamente com os números de 1 a 10 e as palavras “sim” e “não”.
Seis cadeiras estavam dispostas ao redor da mesa, com uma lacuna para a cadeira de rodas de Quintillan.
Ambrose Albano estava de pé junto a uma das janelas. Ele usava trajes para a noite pretos e luvas brancas que contrastavam com as roupas. Seu olho esquerdo falso parecia brilhar à luz das velas.
Ele estava de costas para a porta, e não notou a chegada dos convidados.
— Por favor — pediu Quintillan — sentem-se.
Os quatro representantes internacionais sentaram-se, enquanto Silman movia a cadeira de rodas de Quintillan para abertura. Isso deixou dois lugares vazios. Um deles era, obviamente, reservado para Ambrose Albano; o outro, para o misterioso americano.
Mycroft acenou para Sherlock.
— Sente-se! — ele chamou.
Sherlock olhou para Quintillan, que olhou em volta para os outros representantes.
— Alguém tem alguma objeção? — perguntou ele.
O russo, o austríaco e o alemão balançaram a cabeça. Quintillan acenou para Sherlock.
— Por favor, sinta-se à vontade para juntar-se a nós.
Sherlock virou-se para Niamh.
— Perdoe-me — disse ele. — Mas o dever me chama.
— Assistirei daqui de fora — ela concordou.
Silman moveu-se para a porta e puxou um conjunto de cortinas através da entrada. Com a luz do corredor cortada, a sala ficou muito mais escura. Sherlock sentou-se à mesa.
Ambrose Albano andou até a mesa para juntar-se aos outros.
Quando ele se sentou, Sherlock percebeu como, nas sombras, seu olho falso parecia um buraco negro em seu rosto.
Do bolso, Albano tirou uma placa de madeira mais ou menos do tamanho de sua mão. Era arredondado na parte de trás, e pontiagudo na frente.
— Isto — ele falou solenemente — permitirá que os espíritos se comuniquem conosco. Se eles tiverem mensagens para enviar, então moverão esta placa de madeira entre as letras e números ao redor da mesa, soletrando-as. Para que vocês não pensem que estou manipulando essa placa, todos nós teremos nossas mãos sobre ela. Eu não serei capaz de movê-la sem que vocês percebam, mas os espíritos farão com que se mova independentemente de minha mão, ou das mãos. Mas primeiro...
Teatralmente, ele ergueu as mãos enluvadas no ar. Com a mão esquerda ele empurrou a manga direita para cima quase até o cotovelo, e repetiu o mesmo gesto com o outro braço.
— Como dizem os mágicos — ele proclamou: — Não tenho nada nas mangas, exceto meus braços. Não há truques aqui – unicamente comunicação genuína com os mortos.
Sherlock olhou para Mycroft. Seu irmão olhou para ele com seriedade. Observe atentamente, ele parecia estar dizendo. Não tome nada por garantido.
Albano pareceu captar algo da comunicação entre os dois irmãos. Ele olhou de Mycroft para Sherlock e de volta para Mycroft.
— E caso alguém entre vocês acreditar que escondi algum objeto sob a mesa que usarei mais tarde como apoio: por favor, vá em frente e verifique — ele olhou para Sherlock. — Tenha a gentileza de olhar embaixo da mesa, meu jovem.
Sherlock olhou para seu irmão, que concordou com a cabeça.
Ele olhou a parte de baixo da mesa. Era de madeira nua, sem adereços ou artifícios presos ali. Sherlock estendeu a mão e tocou-a, batendo suavemente com os nós dos dedos. Não havia um fundo falso, nenhuma indicação de qualquer área oculta.
Retornando ao seu lugar, Sherlock disse:
— Posso confirmar que não há nada debaixo da mesa que não devesse estar lá.
— Obrigado. — Albano levantou a mão e estalou os dedos. Silman, a mordomo, se aproximou dele segurando um objeto do tamanho de um livro grande e fino. Albano pegou dela e entregou-o Sherlock. — Por favor, diga-nos o que este objeto é, rapaz.
Sherlock olhou para ele.
— É uma lousa, do tipo que se usa nas escolas. Escreve-se mensagens nela com giz.
— E há algum giz?
Sherlock virou a lousa e olhou atrás.
— Não vejo nenhum giz.
— Bom. Existe algo que possa nos dizer sobre esta lousa?
— Tem moldura de madeira, e a base também — Sherlock tentou tirar a folha de madeira e falhou. — Parece ser bem robusta, não consigo tirá-la.
— Por favor, passe-a ao redor da mesa. Vamos todos verificá-la. — Ele deu um leve sorriso. — Afinal de contas, tanto quanto os outros representantes estão cientes, você pode ser meu assistente secreto.
Sherlock passou a lousa para Mycroft, que a examinou e passou-a para frente a von Webenau. A partir dele foi para o conde Shuvalov, para Quintillan e depois para Herr Holtzbrinck. O representante alemão a devolveu para Ambrose Albano, que a segurou com as duas mãos.
— Então vamos começar — proclamou. — Mais tarde demonstrarei o poder que me torna diferente de outros médiuns – a capacidade de chamar um determinado espírito pelo nome para podermos nos comunicar – mas por hora vou apenas ver quais espíritos estão mais próximos e desejam se comunicar. — Ele fechou os olhos e jogou a cabeça para trás. — Chamo os grandes espíritos do plano astral! Eu os invoco através do Grande Divisor que separa os vivos dos que já partiram. Tem alguém aí? Existe algum espírito disposto a conversar conosco? Existe algum espírito desejoso de atuar como interlocutor para o Outro Lado?
Sherlock olhou em volta para os rostos dos outros. Eles mantinham uma variedade de expressões que ia de detida atenção a suave descrença. A última expressão estava, é claro, no rosto de seu irmão.
Sherlock olhou para a porta, onde Silman estava. Atrás dela, ele pôde distinguir o rosto de Niamh na escuridão do corredor. Ela sorriu para ele.
— Posso sentir alguém se aproximando — Albano falou.
Von Webenau olhou ao redor ansiosamente.
— No plano astral — Quintillan sussurrou.
Von Webenau recostou-se na cadeira, aliviado.
Ambrose, convulsionando, elevou-se um pouco em sua cadeira como se estivesse sendo eletrocutado. Então caiu para trás em uma posição sentada. Seus olhos ainda estavam fechados. Suas mãos enluvadas, que ainda seguravam a lousa, caíram em seu colo.
— Identifique-se! — ele solicitou em voz tensa.
Houve silêncio por alguns momentos, durante o qual Sherlock esperou por algum tipo de resposta – uma voz, talvez, ou algum movimento da placa de madeira em direção à borda da mesa, mas o tipo de resposta que veio tomou Sherlock de surpresa. Albano trouxe as mãos para cima da mesa, ainda segurando a lousa, mas esta não estava mais em branco. Havia uma mensagem rabiscada com giz.
Albano segurava a lousa erguida e a girava ao redor de modo que todos pudessem ver.
— Por favor — disse ele em uma voz excitada — alguém leia a mensagem.
— Meu nome é Invictus — Herr Holtzbrinck recitou. — Eu fui selecionado para ser o seu guia por esta noite.
— Incrível! — Von Webenau murmurou.
Sherlock olhou para Mycroft, cujo olhar se desviou de Sherlock para a mesa e de volta para Sherlock. Intuindo sua intenção, Sherlock abaixou sua cabeça no nível do tampo da mesa, à procura de alguma evidência que tivesse perdido. Talvez Ambrose tivesse um pedaço de giz escondido entre os joelhos, ou preso do lado da mesa em que estava e com o qual pudesse ter escrito a mensagem por si mesmo? Mas não havia nada. As calças de Albano eram pretas, e ali deveria haver alguma evidência de pó de giz.
Sherlock endireitou-se e balançou a cabeça brevemente. Mycroft assentiu, com uma carranca no rosto. Era óbvio para Sherlock que ele também não sabia como o truque fora feito. Se fosse um truque.
— Você está disposto a agir como nosso guia, procurando os espíritos dos mortos que têm mensagens para amigos ou parentes que ainda vivem?— Albano perguntou.
Olhos bem fechados, ele moveu a cabeça ao redor como se procurasse por algo. Suas mãos, Sherlock percebeu, estavam em seu colo novamente, ainda segurando a lousa.
O silêncio na sala era profundo com a expectativa. Depois de um minuto ou dois, a cabeça de Albano se contraiu. Ele trouxe a lousa para fora novamente e a ergueu. Ela estava coberta de rabiscos de giz, mas estes eram diferentes da vez anterior.
— Eu estou pronto a ajudar — Herr Holtzbrinck leu — mas os outros não têm o poder de escrever, como eu. Eles usarão a placa.
As palavras finais foram escritas em letras menores, espremidas, como se o espírito chamado Invictus de repente percebesse que estava ficando sem espaço. De alguma forma, Sherlock achou a ideia de um espírito fazendo um equívoco desses bastante cômico.
Albano segurou a lousa em sua mão direita. Silman avançou para tirá-la dele. Ele estendeu a mão colocando as pontas dos dedos sobre a placa de madeira, que esteve em cima da mesa todo esse tempo.
— Por favor — pediu ele — todos vocês, coloquem suas mãos ao lado da minha.
Os outros seis ao redor da mesa inclinaram-se para frente e fizeram o que Albano pediu. Sherlock sentiu como se a placa estivesse tremendo ligeiramente. Ele olhou em volta para ver se a mão de alguém estava tremendo, mas ele não viu nenhum movimento incomum.
— Tem alguém aí? — perguntou Albano.
Nada aconteceu por um longo momento, tempo suficiente para que Sherlock pensasse que nada aconteceria, mas então a placa de repente atirou-se através da mesa para a palavra “Sim”, arrastando as mãos com ela. O conde Shuvalov prendeu a respiração, enquanto as sobrancelhas de von Webenau subiram em surpresa.
— Você tem uma mensagem para alguém aqui?
A placa lentamente retornou para o centro da mesa, em seguida, arrastou-se de volta para o “Sim.
— Para quem é a mensagem?
Mais uma vez, a placa retornou para o centro da mesa, e, em seguida, arrastou-se de volta para a borda novamente, mas desta vez, em vez de ir para o “Sim”, ela fez um ângulo, indo para o alfabeto que marcava a borda da mesa. Laboriosamente, a placa apontou para as letras “H”, “E”, o “R”...
— Herr Holtzbrinck — Sherlock murmurou, mas se o espírito o ouviu, então o ignorou, e continuou a soletrar o nome até que chegou ao “K” final.
Holtzbrinck olhou ao redor da mesa.
— Minhas desculpas — ele murmurou. — Eu não tinha ideia...
— Quem é você? — perguntou Ambrose. — Identifique-se.
A placa estremeceu, e depois partiu novamente ao redor da mesa. Dentro de trinta segundos tinha enunciado F-R-I-T-Z.
— Será que esse nome significa algo para o senhor? — Ambrose perguntou, olhando para Holtzbrinck.
— Fritz era meu irmão — disse o representante alemão. Sua voz soou trêmula, como se ele estivesse sob o domínio de uma forte emoção.
— E ele já ultrapassou o Grande Divisor?
Holtzbrinck assentiu uma única vez.
— Foi um acidente de barco há cinco anos. Ele se afogou.
Albano fixou sua atenção no espaço acima da mesa.
— Qual é a sua mensagem, Fritz Holtzbrinck?
A placa moveu-se novamente, de letra a letra. Sherlock encontrou-se empurrando a placa através da mesa conforme ela tentava chegar nas letras que estavam em frente a ele, e pôde ver os outros empurrarem em direções semelhantes quando a placa se movia para perto deles. Ele tentou detectar se alguém estava deliberadamente conduzindo a placa – Albano, ou qualquer um dos outros – mas era impossível dizer. A placa o fazia sentir, no entanto, como se estivesse se movendo por vontade própria.
Estou feliz aqui, a mensagem dizia. Não chorem por mim. Helga deve interromper seu luto e fazer uma nova vida para si.
— Helga era a esposa de Fritz — Holtzbrinck explicou calmamente. Ele parecia suprimir uma forte emoção. — Eles tinham se casado havia apenas dois meses quando ele morreu. Ela ficou, e ainda está... como posso dizer?... perturbada. — Ele virou o rosto para o espaço vazio no centro da mesa. — Você está no céu, Fritz? Ou no inferno? — Havia uma expressão de súplica no rosto.
Sherlock olhou para Mycroft. Ele sabia o que o irmão estava pensando – O alemão está sendo absorvido pela teatralidade da ocasião!
A placa soletrou uma nova mensagem. Não há céu e não há inferno. Há apenas a vida além do véu.
— Bastante enigmático — Mycroft sussurrou para Sherlock. Virando-se para enfrentar Albano, ele disse em voz mais alta: — A mensagem está em inglês, eu notei. É usual para espíritos alemães?
— A linguagem do plano espiritual é universal — Albano respondeu sem problemas. — Quando fazemos a sessão em inglês, as mensagens aparecem em inglês. — Ele se virou para Holtzbrinck antes que Mycroft pudesse fazer outra pergunta. — O senhor tem alguma mensagem final para o seu irmão?
A placa moveu-se novamente. Sherlock tentou adivinhar qual era a mensagem a partir das letras iniciais, mas levou um tempo para perceber o que o espírito – se fosse mesmo um espírito – estava soletrando: Acredite na vida além da vida. Acredite que todos vamos para um lugar melhor. Não chorem por nós, mas celebrem nossas vidas.
Herr Holtzbrinck estava respirando pesadamente no momento em que a mensagem fora completa. Seus olhos brilhavam com lágrimas não derramadas.
— Não vá — ele murmurou. — Por favor!
— É tarde demais — Ambrose anunciou. — O espírito de seu irmão voltou para o vazio sem forma, de onde todas as coisas vêm e para onde todas as coisas vão. — Ele fez uma pausa. — Outro espírito se aproxima. Invictus me diz isso.
Sherlock olhou para a placa, esperando que ela se movesse, mas ela permaneceu onde estava. Em vez disso, Ambrose jogou a cabeça para trás e, olhando para o teto, pronunciou:
— Posso sentir um espírito se movendo dentro de mim! Este é um espírito poderoso. Ele deseja se manifestar nesta sala – tornar-se visível para nós!
Sherlock e os outros sentados ao redor da mesa olharam ao redor, esperando ver alguma forma fantasmagórica movendo-se através da sala, mas em vez disso Ambrose convulsionou em sua cadeira novamente. Ele ergueu os braços ao redor de seu corpo, agarrando-se, e tossiu uma vez, duas vezes. Suas mãos subiram até a cabeça, abrindo-se e agarrando ar, em seguida, elas se moveram para tampar sua boca, e ele tossiu como se tentasse expulsar algo de seus pulmões.
Para espanto de Sherlock, uma coisa branca e nebulosa começou a emergir da boca de Ambrose. Era como se ele estivesse expelindo alguma substância vaporosa para o centro da sala, mas em vez de dissipar-se, a substância retinha sua forma, expandindo-se acima da mesa até que começou a ficar parecida com uma mortalha escondendo um rosto. As mãos de Albano agitavam-se no ar, como se tentando conter a substância, para impedir a sua propagação.
Concentrando-se, Sherlock quase podia ver as características dentro do núcleo escuro – os traços de uma bela jovem, como um retrato feito em tinta a óleo.
Ele sentiu seu coração batendo mais rápido. Um estranho terror cortava seus pensamentos. Isto não era o que ele esperava. Sessões na mesa, sim. Mensagens, talvez. Mas um espírito materializando-se no centro da sala? Não – absolutamente não!
Ele tentou se concentrar na forma do espírito, mas era difícil discernir os detalhes. Ela não se mantinha fixa, movia-se, vibrava. A coisa era branca e tinha a aparência de fumaça, mas brilhava como se estivesse molhada e movia-se como se tivesse vontade própria.
— Ectoplasma! — Von Webenau perdeu o fôlego.
— Baboseira!— Mycroft murmurou.
Sherlock olhou para o austríaco.
— O que exatamente é ectoplasma? — ele perguntou.
— É a substância que os espíritos usam para dar forma a si mesmos — seu rosto estava extasiado. — É um estado da matéria diferente de tudo o que já se viu na terra. Médiuns podem gerá-lo a partir de seus próprios corpos. Ela emana de seus poros.
— Parece que você acredita em tudo isso.
Von Webenau olhou de soslaio para Sherlock.
— Como você pode não acreditar — ele perguntou — quando vê e ouve o mesmo que estamos vendo e ouvindo?
Sherlock olhou para o conde Shuvalov, que permaneceu quieto durante toda a sessão.
— E quanto ao senhor? — perguntou Sherlock.
Shuvalov olhou para Sherlock e deu de ombros.
— Eu sou da Rússia — ele disse simplesmente. — Acredito no que posso ver, no posso tocar e com o que posso falar. — Ele acenou com a cabeça em direção à massa ectoplásmica de vapor branco, que ainda pairava acima da mesa. — Isso está fora da minha experiência. Eu posso vê-lo, mas posso tocar e falar com ele? Penso que não.
Sherlock olhou para Ambrose Albano, que estava meio parado. Suas mãos enluvadas agarravam-se aos braços da cadeira. Sua boca estava aberta e ele fitava com os olhos arregalados a massa ectoplásmica, como se estivesse surpreso e aquilo nunca antes tivesse saído de seu corpo.
As luzes, que eram parciais, de repente se foram. A sala ficou mergulhada na escuridão. Sherlock ouviu suspiros em volta da mesa, e o som de Ambrose Albano caindo para trás em sua cadeira.
A luz de repente apareceu novamente: lâmpadas de gás queimaram ao redor da sala, inundando-a com seu brilho. As pessoas ao redor da mesa piscavam em confusão.
O ectoplasma havia desaparecido.

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