20 de setembro de 2017

Capítulo quatorze

SUA MENTE PASSOU PELAS POSSIBILIDADES. Parecia grande demais para ser um inseto ou um besouro. Muito grande. Serpentes e besouros não grunhiam nem resmungavam. Uma raposa, talvez? Talvez ao longo dos anos as raposas tivessem tomado os túneis, usando-os como tocas ao invés de cavarem novas.
Ou talvez fosse um texugo. Um súbito arrepio tomou conta dele como água gelada. Os texugos eram notoriamente perigosos. Eles tinham garras para escavar, dentes afiados e eram mal-humorados. Não tinham predadores naturais, nada se arriscaria contra um texugo. E ele estava preso em um túnel com um. Ele começou a avançar para trás, muito silenciosamente e com muita calma.
— Sherlock, é você? — uma voz sussurrou.
— Matty! — O alívio o encheu, fazendo-o ficar tonto. — O que você está fazendo?
— Escapando. O que você está fazendo?
— O mesmo. Você encontrou a escotilha na parte inferior da caixa então?
— Na verdade, eu caí direto no túnel. A madeira estava podre. Quando cai aqui, pensei em explorar um pouco. Estes são túneis de fuga, então?
— Parece que sim.
— Qual é o caminho para sair daqui?
Sherlock considerou por um momento. Seu pensamento inicial era que haveria saídas no final de cada túnel, mas ele podia ver agora que estava errado sobre isso. Saídas ao redor do pomar seriam fáceis demais de encontrar, e fariam toda a esperteza quanto às macieiras, os barris e os buracos perderem o sentido. Não, haveria uma saída habilmente disfarçada; provavelmente só acessível por dentro, e não visível do lado de fora até que fosse aberta.
Se houvesse apenas uma saída, no entanto, com aquela quantidade de túneis, como encontrar o caminho? Sim, talvez as pessoas que se esconderam anteriormente tivessem lâmpadas a óleo, mas pode ser que não. Elas precisariam de uma maneira diferente de encontrar a saída caso não tivessem luz.
— Sherlock?
— Pensando.
— Tudo bem, só não demore muito.
Sherlock recuou um pouco até que estava abaixo da caixa em que havia começado. Ele estava no cruzamento de quatro túneis agora. Ele verificou cuidadosamente cada canto em que dois túneis se encontravam. Em algum lugar lá, ele tinha certeza, haveria um sinal, uma indicação.
Sim! Na parede de um dos tuneis ele sentiu uma pedra redonda e lisa, completamente diferente de qualquer outra coisa que ele pudesse sentir nas paredes do túnel. Era um marcador, ou pelo menos, a coisa mais próxima de um marcador que ele conseguiria.
— Acho que encontrei. Siga-me.
Sherlock fez o seu caminho ao longo do túnel para o próximo cruzamento, com Matty o seguindo. Levou alguns minutos para localizar a pedra lisa, mas ela indicava a esquerda. Ele fez isso em cada cruzamento, certificando-se de que Matty soubesse em que direção deveria ir.
Para direita no próximo, depois reto pelos próximos três. As próximas foram estranhas, esquerda, depois direita, depois direita novamente e depois esquerda, como se estivessem desviando em torno de alguma coisa. Depois disso, era reto pelos próximos cinco.
Isso o levou contra uma barreira dura. Matty colidiu atrás dele.
— Desculpa!
— Achei que a gente estivesse no caminho certo.
Ele empurrou, primeiro timidamente, depois mais forte. Nada se moveu. Sherlock examinou a barreira com os dedos. Parecia que ela era construída de pedras ásperas de tamanho similar arranjadas em uma parede. Sherlock voltou e pensou por um momento.
Não faria sentido permitir que os simpatizantes escondidos chegassem tão longe e depois frustrarem seus esforços para fugir no último minuto. Tinha que haver uma resposta para este enigma, como havia acontecido com os outros.
Algum tipo de ferramenta, talvez? Ele cuidadosamente tateou no solo à sua esquerda e à direita, na esperança de que houvesse uma ferramenta que não tivesse sido levada por algum animal à procura de material para construir uma toca.
Assim que estava prestes a pedir a Matty para verificar onde estava agachado, seus dedos encontraram um objeto de metal duro. Era frio ao toque. Ele escavou-o da terra e verificou-o de um lado para o outro. Parecia um pé de cabra, uma haste de metal com uma ponta entalhada numa das extremidades. O tipo de coisa que se pode usar para alavancar pedras para fora de uma parede.
Levou cinco minutos, e ele estava molhado de suor quando terminou, mas ele fez uma abertura na parede de pedra grande o suficiente para passar.
Além da parede havia terra macia, que ele escavou até poder sentir o ar fresco em seu rosto. Sherlock jogou a cabeça para trás e respirou com gratidão, depois empurrou os últimos remanescentes de solo para fora do caminho, atravessou uma barreira de musgo e saiu pela abertura.
A lua brilhava, e parecia a luz mais brilhante que ele já tinha visto. Sherlock piscou, deslumbrado, enquanto Matty subia ao seu lado.
Eles estavam do outro lado do pomar, onde estavam no início do dia. O terreno inclinado na frente deles dava para uma paisagem distante de campos escuros e bosques com árvores escuras.
Olhando para trás, ele podia ver que a saída teria sido completamente invisível do lado de fora, até que fosse aberta. Ele rapidamente espalhou um pouco de musgo e ramos pelo buraco para ajudar a disfarçá-lo de qualquer passante.
— Isso... — ele sussurrou. — foi perto demais.
— Eu sabia que você conseguiria nos tirar de lá. — Matty falou baixinho. Colocou sua mão no ombro de Sherlock. — Obrigado, amigo.
— Sem problemas.
— E agora? — ele perguntou.
— Agora nós vamos alertar a polícia. Não vou arriscar uma briga com esses caras. Estou exausto, há muitos deles e eles estão armados.
— Amém! — Matty murmurou.
Sherlock calculou o caminho a seguir. A estrada que levava à casa de Maberley era uma linha preta à sua direita. Se eles fossem por lá, poderiam voltar para onde seus cavalos estavam amarrados, assumindo que ainda estivessem lá.
— Vamos — ele disse.
Suas pernas estavam bambas e fracas, mas levantar-se era uma benção, e a brisa no rosto era uma delícia. Quando os dois caminharam lado a lado ao longo da encosta, ele tentou ouvir qualquer som que pudesse indicar os criminosos no pomar, mas ele não ouviu nada. Eles se foram, depois de tudo o que foi feito e dito, com uma abordagem muito profissional.
Sherlock, no entanto, tinha uma vantagem. Ele já tinha descoberto onde estava o tesouro. Não tinha dúvidas de que, se voltasse mais tarde, à luz do dia, poderia encontrá-lo.
Eles andaram pela superfície plana da estrada, no canto. O pomar era visível à sua direita, e eles ficaram abaixados e silenciosos enquanto se moviam. Eles alcançaram a entrada para o terreno da casa de Maberley e pararam, procurando por qualquer sinal de atividade.
O gramado estava quase completamente sem árvores agora. A carroça utilizada para mover as árvores estava parada, abandonada, logo ao lado da casa, com os cavalos de tração comendo a grama com satisfação. Sherlock assumiu que os criminosos estavam no pomar, ocupados colocando todas as árvores de volta. Obviamente eles ainda não tinham encontrado o tesouro, e estavam se preparando para sair apenas para voltar novamente em outra noite. Ele os perderia a menos que fizesse alguma coisa. Seu cérebro girou, pensando em todas as opções.
Ele havia especulado anteriormente que a gangue deveria ter acesso a algum tipo de celeiro vazio nas proximidades, onde podiam armazenar a enorme carroça modificada quando não a estivessem usando. Eles certamente não o conduziriam pelas estradas durante o dia. Deveriam ir para lá em breve, enquanto ainda estava escuro e, presumivelmente, descansariam um pouco, talvez dormiriam, ou teriam uma refeição pesada antes de se dispersarem para suas várias casas até a próxima vez que fossem chamados. Sherlock precisava, de alguma forma, descobrir onde era sua base e mantê-los todos ali para que a polícia pudesse prender toda a gangue.
Alguma coisa incomodava o seu cérebro. A solução estava lá, na frente dele, se ele pudesse vê-la.
Enquanto não havia ninguém, ele correu para ver dentro da carroça. Estava vazia excetuando-se de um monte de terra deixada para trás pelas árvores, alguns rolos de corda e lonas. Ele assumiu que os homens apenas colocariam as coisas no carrinho e o puxariam para sua base, então, mesmo que ele conseguisse entrar no carrinho e se cobrir com a lona ou algo, provavelmente descobririam com rapidez que ele estava ali se acabassem tirando a lona acidentalmente, ou simplesmente decidissem que estavam com frio e puxassem a lona para se esquentar. Não, tinha que haver outra maneira.
Segui-los a cavalo? Eles estariam prestando muita atenção em quem demonstrasse interesse neles, e se ele estivesse perto demais, sem dúvida poderiam vê-lo.
Ele se agachou e olhou por baixo da carroça. Os eixos foram reforçados para aguentar o peso das árvores. Cada eixo percorria vários aros grossos de ferro que foram rebitadas por baixo da madeira do carrinho. Os aros eram maiores do que os eixos, o que significava que havia um espaço entre o fundo do eixo giratório e o interior do aro. Isso deu a Sherlock uma ideia.
Ele levantou, enfiou a mão na parte de trás do carrinho e pegou um rolo de corda.
— Rápido — ele disse a Matty. — Me ajude a amarrar esta corda entre os aros do eixo embaixo desta coisa. Preciso construir uma espécie de rede para mim.
A expressão no rosto de Matty indicou que ele não entendia por que Sherlock queria fazer isso, mas ele obedeceu. Rapidamente, antes que alguém da gangue voltasse e trabalhando pelo lado do carrinho em que não podiam ser vistos do pomar, eles cortaram a corda com a faca de Matty e a amarraram na carroça, formando uma rede grossa que pendia debaixo dela, presa em cada aro do eixo.
Quando terminaram, Sherlock deu um tapinha no ombro de Matty.
— Bom trabalho. Agora seu trabalho é entrar e acordar Maberley quando a gangue tiver saído. Obviamente eles vão levar o clorofórmio embora com eles, na carroça, em vez de deixá-lo para trás para serem descobertos. Quando Maberley acordar, explique para ele o que está acontecendo, então vocês dois vão até a aldeia mais próxima e chamem o maior numero de policiais e cidadãos interessados que puderem. Nossos cavalos estão aqui, pegue o seu, e acredito que Maberly tenha um cavalo. Se não tiver, pode pegar o meu. E traga a polícia aqui.
— Onde você vai estar? — perguntou Matty.
— Ainda não sei, mas enviarei um sinal. De alguma forma.
Matty o encarou por um momento.
— Eu odeio quando você não tem um plano... — ele falou finalmente. — Você não se dá bem quando improvisa.
— Ei, eu tirei você inteiro do pomar, não tirei?
Matty assentiu com a cabeça.
— É, você fez isso. Tudo bem então, cuide-se. E não morra.
— Vou tentar.
Matty saiu correndo em direção à casa, e Sherlock se arrastou para a rede de corda debaixo da carroça. Seu peso o empurrou mais para o chão do que ele pretendia, e ele teve um pensamento repentino e horrível de que ele poderia acabar sendo arrastado pela estrada em vez de conseguir ficar ali, mas de repente era tarde demais para fazer algo sobre isso. Ele ouviu os sons dos homens que retornavam do pomar e conversas abafadas.
— Pegue as latas de clorofórmio — disse a voz de Jude, mais alta e mais fina do que as outras, mas seu tom transmitia inconfundivelmente que ele estava no comando.
A corda estava machucava Sherlock enquanto ele estava deitado de barriga para baixo. Ele podia senti-las pressionando suas costelas e forçando seus braços para trás de uma maneira desconfortável.
Ele tentou esticar os braços nas cordas, mas logo elas desceram quase até o chão e ele sabia que quando a carroça começasse a se mover, os seus dedos seriam arrastados no chão, então ele os tirou de lá. Uma corda estava em sua garganta, e ele se sentiu enforcado toda vez que movia a cabeça e pressionava sua traqueia.
Esta talvez não tenha sido sua ideia mais inteligente.
Ele sentiu a carroça balançar quando os objetos foram carregados e as pessoas subiram a bordo. A madeira ia se curvando cada vez mais perto dele enquanto eles subiam. Eventualmente, com algum sinal silencioso, os cavalos começaram a andar e a carroça começou a se mover.
O preenchimento das rodas fez o caminho parecer suave, mas mesmo assim Sherlock estava se mexendo muito, balançando de um lado para o outro. A estrada passava alguns centímetros abaixo dele, e ele encontrou-se olhando fixamente para pedras diferentes surgidas no caminho quando entravam em seu campo de visão. Ele se sentiu enjoado. Era como estar em um navio, com a exceção de que ele não podia ver o horizonte ou sentir a brisa. Em um navio abaixo do convés, talvez.
Em circunstâncias melhores, balançar de um lado para outro assim poderia fazê-lo dormir, mas ele estava preocupado com os nós que seguravam a teia de cordas nos aros do eixo de ferro. Se apenas um desses nós escorregasse, então o melhor que poderia acontecer era que ele seria jogado na estrada e deixado para trás. O pior seria seu pé enganchar nas cordas, o que o faria ser arrastado por baixo da carroça, sua pele ralando nas rochas até ele parecer um pedaço de carne pendurada na janela de um açougueiro.
A poeira subindo da estrada fez sua garganta ficar seca. Ele daria cem libras por um copo de água naquele momento.
O caminho parecia que nunca acabaria, mas, na realidade, eles não poderiam ter passado mais do que oitocentos metros na estrada antes que o carrinho abrandasse e começasse a fazer uma curva em um campo fechada. Ainda estava escuro, mas quando a luz da lua sumiu depois de passarem para algum lugar fechado, Sherlock soube que sua dedução sobre um celeiro estava correta. A carroça entrou no celeiro e parou. Sherlock esperou enquanto os homens a bordo desembarcavam e os cavalos foram desatados.
— Tem cerveja, pão e carne nas mesas de cavalete — gritou o menino, Jude. — Descansem por algumas horas, depois de comer e beber. Se forem fumar, vão lá fora, este feno é muito seco, e um cigarro que cair pode colocar fogo em todo o lugar. Quando amanhecer vocês podem sair, mas não saiam todos de uma vez. Certifiquem-se de ir apenas um ou dois de cada vez para não levantar suspeitas e façam rotas diferentes até a casa de vocês. Voltem aqui amanhã ao pôr do sol, acho que estamos perto agora, e quero manter o ritmo — sua voz ficou mais alta. — Confiem em mim, rapazes, estaremos com o dinheiro em breve.
Eles comemoraram um pouco e depois passaram cerca de meia hora conversando, e sons de pessoas comendo e bebendo vieram até ele. Os homens deveriam estar cansados pelos esforços, porque os sons logo diminuíram e eles começaram a roncar.
Sherlock deu-lhes mais dez minutos antes de sair da rede de cordas e ir para o chão do celeiro.
Ele cuidadosamente se agachou, pronto para correr para fora do celeiro se alguém ainda estivesse acordado e o visse, mas os homens estavam todos esparramados em pilhas de feno, as bocas abertas e os olhos fechados. Sherlock olhou para a jarra de cerveja na mesa e sentiu vontade de beber, mas teria que passar por mais de meia dúzia de homens para chegar até lá. Não vale o risco, pensou ele.
Ele olhou em volta. O celeiro parecia recém-construído, ele ainda podia sentir o cheiro da madeira fresca e o creosoto que tinha sido usado para protegê-lo contra o tempo. O rapaz, Jude, provavelmente o construíra para seu empreendimento. Sherlock se viu admirando o rapaz cada vez mais, todo o planejamento que estava fazendo, além da maneira como conseguiu dar ordens aos homens três ou quatro vezes mais velhos que ele sem que fosse questionado. Isso significava que ele tinha uma personalidade forte e modos convincentes. Em outra vida ele teria sido um bom soldado, ou talvez um detetive, mas ele escolheu um caminho aparentemente mais fácil, porém menos moral.
Pensando em Jude, Sherlock olhou ao redor do celeiro para ver onde ele estava, mas o rapaz não estava em lugar nenhum. Talvez estivesse enrolado sob uma pilha de feno.
O que fazer agora? Jude havia mencionado sobre o feno ser extremamente seco. Sherlock poderia facilmente iniciar um incêndio no celeiro, mas e depois? Isso poderia interromper os planos de Jude, mas a gangue se espalharia e nunca seria levada à justiça.
E, além disso, as pessoas poderiam morrer. Eles podiam ser maus, mas não mereciam a execução, e Sherlock não queria a morte deles em sua consciência.
Ele teria que seguir o plano que havia pensado na casa de Mortimer Maberley e esperar que tudo desse certo.
Olhando pela última vez, ele subiu na carroça. Como ele esperava, o latão cheio de clorofórmio ainda estava lá. Eles não tinham motivo pra tirar do carrinho para depois recolocar.
Levou apenas cinco minutos para abrir todas as tampas.
O cheiro característico começou a inundar o celeiro, e Sherlock sentiu seus olhos doerem e seus membros ficarem pesados. Rapidamente ele pulou do carrinho e correu em direção à porta. Antes de sair, pegou alguns pedaços de feno.
As grandes portas estavam encostadas, deixando uma pequena abertura. Ele saiu por ali, fechou a porta completamente, depois preencheu as frestas nas bordas com o feno para impedir que o clorofórmio escapasse. Provavelmente havia todo tipo de buraco no celeiro, mas se ele tivesse sorte, o clorofórmio evaporaria mais rápido das latas do que vazaria do prédio.
Os bandidos que estavam lá dentro dormiriam docemente até que a polícia chegasse lá.
O que o fez lembrar... Ele ainda precisava definir algum tipo de sinal para Matty e a polícia encontrarem o celeiro quando chegassem.
Ele estava fora do celeiro agora, em um jardim aberto. Os equipamentos agrícolas descartados estavam deixados pra fora. Ele rapidamente fez um inventário mentalmente do que viu: enxadas, arados, vigas de madeira, latas de creosoto... Creosoto! Isso era inflamável!
Enquanto ia até as latas de creosoto, ele ainda aprimorava seus planos. Por alguns segundos, ele considerou fazer uma pilha de madeira e incendiá-la, mas se algum dos homens acordasse e percebesse o que estava acontecendo, então eles poderiam apagar o fogo facilmente. Em vez disso ele levou as latas em direção à estrada. Levou pouco tempo para despejar o líquido pegajoso. Uma parte do creosoto afundou na sujeira, mas era grosso feito melaço, e depois de alguns segundos do derramamento, começou a parar na superfície: uma mancha marrom brilhante com a forma de uma flecha gigante, apontando para o celeiro.
Tudo o que ele precisava agora era de uma chama.
Sherlock tinha uma pederneira e uma pedra comum dentro de uma pequena caixa de metal no bolso. A vida, ele achava, era cheia de situações em que você poderia desejar iniciar uma chama. Ele também tinha alguns pedaços de papel no bolso, então os rasgou, empilhou-os no creosoto, tirou a pedra e a pederneira e as bateu algumas vezes.
Em instantes o papel pegou fogo, e então o creosoto também. Ele recuou rapidamente quando as chamas começaram a se espalhar, um sinal de fogo que ninguém poderia perder, bem no centro da estrada. Ele sentiu o calor do fogo nas bochechas e na testa enquanto recuava.
— Eu tenho que lhe dar crédito — uma voz falou atrás dele. — Você é inventivo. Eu sabia que teria problemas com você. Como escapou de debaixo da árvore?
Sherlock se virou. Jude estava a poucos metros de distância. Ele tinha algum tipo de ferramenta da fazenda em suas mãos, um longo cabo de madeira com uma lâmina curva e afiada no final, como uma lua crescente. Uma foice, pensou Sherlock; algo para cortar o feno. Não que ele fosse um especialista em instrumentos agrícolas, mas durante os últimos anos ele conseguiu acumular conhecimentos bem trabalhados sobre armas afiadas.
— Você lê pessoas — disse Sherlock. — Eu leio situações. Eu vejo evidências como você vê espasmos da boca ou o piscar dos olhos. Tinha que haver uma saída, se pessoas se escondiam ali. Uma saída de emergência.
— Muito inteligente, descobrindo isso — Jude assentiu. — Talvez você realmente tenha conseguido descobrir onde o tesouro estava escondido. Eu deveria ter lhe dado mais crédito.
— Para ser justo — Sherlock admitiu — quando nos falamos pela última vez, eu só sabia como resolver, não onde estava realmente. Desde então, no entanto, consegui resolver.
— Você gostaria de me contar?
Sherlock sacudiu a cabeça.
— Sem chance.
Jude ergueu a foice.
— Posso convencê-lo?
— Você pode tentar.
— Eu te ofereceria uma arma, mas... — ele deu de ombros. — Isso igualaria as chances, e gosto de ter as chances a meu favor sempre que...
Sem terminar a frase, ele balançou a foice na direção da cabeça de Sherlock. Foi apenas uma contração nos músculos de sua mão direita que o avisou disso. Sherlock abaixou-se e a foice passou pelo ar acima de sua cabeça. Ele pôde sentir o vento de sua rápida passagem.
Sherlock ergueu-se para ver Jude balançando a foice para cima, pronta para trazê-la sobre o crânio de Sherlock. Ele chutou com o pé direito, jogando um dos potes de creosoto em direção ao rapaz. A lata acertou Jude no joelho, espirrando o líquido oleoso em todos os lugares. A perna de Jude cedeu e ele caiu de lado, a foice desequilibrando-o enquanto ele caía no chão sujo.
Sherlock se lançou sobre Jude antes que o rapaz pudesse se recuperar. Sua cabeça acertou no peito dele, empurrando-o para trás, e Sherlock segurou em suas roupas para manter o controle sobre o rapaz. Eles rolaram juntos no chão, Sherlock em cima primeiro e depois Jude. Eles terminaram com Jude ajoelhado em cima de Sherlock, o tendo superado por pouco. Ele olhou ao redor procurando a foice, mas estava longe demais para alcançá-la. Então começou a socar o rosto de Sherlock, punho direito, punho esquerdo, punho direito de novo.
Sherlock podia sentir o gosto de sangue. Ele estava bloqueando com os antebraços o máximo que podia, mas os punhos de Jude eram como martelos voando nele por todos os lados.
Ele levantou a perna direita bruscamente. Seu joelho atingiu Jude na parte inferior das costas e o garoto avançou, caindo em direção a Sherlock, os braços automaticamente esticados para aparar a queda. Aproveitando sua distração momentânea, Sherlock encaixou a mão sob o queixo do outro e empurrou forte.
Ele sentiu um clique afiado quando os dentes de Jude se fecharam. Ou talvez fosse o pescoço dele quebrando quando a cabeça foi para trás.
Sherlock se afastou de debaixo do rapaz que caía e correu para os lados, para onde a foice estava no chão. Se Jude ainda estivesse vivo, ainda se movendo, então a foice parecia sua única chance de ter uma vantagem.
Quando seus dedos tocaram a haste de madeira, ele viu um objeto escuro arremessado em sua direção vindo do lado. Ele só teve tempo de mover a cabeça ligeiramente para ver o que era quando algo duro e afiado o acertou acima de seu olho esquerdo.
Ele caiu de lado, fogos de artifício parecendo explodir em sua cabeça.

2 comentários:

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Boa leitura :)