12 de setembro de 2017

Capítulo quatorze

— SHERLOCK! — MATTY GRITOU DO OUTRO lado do saguão, fazendo cabeças se virarem. Ele correu e derrapou até parar na frente de seu amigo. Ele parecia não saber se abraçava Sherlock ou apertava sua mão. No final, decidiu-se por bater firmemente no ombro de Sherlock. — Eu não tinha certeza se você voltaria algum dia!
— Houve momentos — Sherlock admitiu, sorrindo de prazer — em que eu não tinha certeza também.
— Quanto tempo você esteve fora?
— Você não sabe?
— Não tenho calendário, nem relógio. Houve bastante neve entre você partir e retornar, então calculo que foi quase um ano.
— Esse tanto e um pouco mais — disse Sherlock tristemente.
— Albert morreu. — O rosto de Matty estava sério. — Ele simplesmente parou de trotar um dia, caiu e expirou, bem na minha frente.
— Virginia me contou em uma carta.
— Tenho um novo cavalo, no entanto, ele se chama Harold.
Mycroft colocou as mãos em seus ombros.
— Apesar de este encontro ser tocante, há algumas questões importantes que precisamos discutir. Vamos ficar confortáveis e conversar.
Rufus Stone estava de pé quando Sherlock e os outros vieram até ele. Ele acenou para Mycroft e Amyus Crowe, então apertou a mão de Sherlock calorosamente.
— É bom vê-lo novamente, garoto. Tive visões de você se estabelecendo na China e aprendendo a tocar um daqueles instrumentos de cordas abomináveis que se vê em bares à beira-mar em Limehouse.
— Tentador — Sherlock respondeu — mas violino já é difícil o suficiente. Eu tenho praticado, por sinal. Todo esse tempo.
— Sempre haverá pelo menos um violinista em um navio de trabalho — disse Stone, sorrindo. — O problema é que eles raramente praticam, apesar da afinidade com tantas cordas.
Sherlock estremeceu com a piada.
— É bom estar de volta — ele falou.
Mycroft gesticulou para que todos se sentassem.
— Sem dúvida, vocês estão se perguntando — disse ele para Sherlock e Crowe — por que essas duas pessoas desagradáveis estão aqui.
— Você lhes enviou um telegrama — Sherlock deu de ombros. — Isso é óbvio.
— Você não decodificou o telegrama — Mycroft franziu as sobrancelhas.
— Não, mas você me pediu para enviar um telegrama urgente depois que foi atacado, e agora Rufus e Matty estão aqui. Existe aí uma clara conexão a ser feita.
— De fato. — Mycroft não parecia convencido. — Sabendo que eu viria à Galway, e sabendo que eu o encontraria e que nós possivelmente terminaríamos em uma situação com que não pudéssemos lidar, tomei a precaução de colocar o Sr. Stone em alerta. Não pedi especificamente para trazer o jovem Matthew, mas não descartei essa possibilidade.
— Nos fomos até Liverpool — disse Stone — e esperamos por mais instruções. No minuto em que recebemos o telegrama do Sr. Holmes, partimos para a Irlanda.
— Mas eu enviei o telegrama para Londres — Sherlock apontou, e então tomou a si mesmo com uma exclamação. — É claro, alguém reenviou o telegrama para você.
— Nunca, se puder impedir, entregue suas intenções ou seus agentes — disse Mycroft. Ele bateu as palmas uma vez. — Agora preciso informar vocês dois sobre os acontecimentos recentes.
Sucintamente, Mycroft resumiu tudo o que tinha acontecido. Enquanto falava, bules de chá e pratos de sanduíches e bolos foram trazidos para eles.
— Você está mais alto do que você costumava ser — Matty sussurrou para Sherlock enquanto Mycroft falava. — E está mais magro também. E você pegou um bronzeado.
— Você está menor do que costumava ser — Sherlock rebateu.
— Isso não faz nenhum sentido. As pessoas não se tornam menores à medida que crescem. É por isso que é chamado crescer.
— Eu estava brincando — Sherlock parou por um momento. — Mas você está maior ao redor da cintura. Surrupiou muitas tortas das bancas do mercado?
— Há uma mulher que dirige uma padaria — Matty explicou com uma fungada. — Ela meio que me adotou. Ela me enche de comida o tempo todo, mesmo quando não quero. — Um olhar perplexo cruzou seu rosto. — Eu nunca quis não comer antes. É um sentimento estranho.
— Isso é chamado de “sentir-se saciado” — Sherlock apontou. — Acostume-se com isso.
— Então — finalizou Mycroft, olhando para os dois — temos uma espécie de enigma. Quem matou Sir Sadrach Quintillan, e por quê?
— A partir de como isso soa, há aí três grupos diferentes de vilões envolvidos — disse Stone, pegar um sanduíche. — Em primeiro lugar, há Sir Sadrach e o Sr. Albano, apoiados pelos funcionários do castelo e, possivelmente, pela filha de Quintillan. Eles estavam envolvidos na falsificação dos eventos psíquicos para que pudessem ter lucro ao leiloar os serviços de Albano, e na organização do falso sequestro, a fim de torná-lo parecer mais importante.
— Concordo, e óbvio — disse Mycroft.
— Em segundo, há a pessoa que o atacou – o assistente do conde Shuvalov, mas agindo fora de sua autoridade.
— Mais uma vez — disse Mycroft — você situou o óbvio.
— E em terceiro, tem-se a pessoa misteriosa ou pessoas que querem sabotar todo o leilão, e fizeram isso ao matar Sir Sadrach Quintillan.
Sherlock franziu o cenho.
— Como você pode ter certeza de que eles querem sabotar o leilão? A coisa toda foi um truque do início ao fim.
— Mas pelo o que o seu irmão nos disse, o conhecimento de que a terceira demonstração de poderes psíquicos era um truque é conhecido apenas por nós cinco aqui. Por essa razão, não pode ter sido qualquer um dos representantes internacionais quem matou Sir Sadrach. Eles, obviamente, ainda acreditam nos poderes de Ambrose Albano, e querem que o leilão aconteça. Eles não o teriam sabotado.
— O violinista tem um ponto — Crowe retumbou. — Existe um terceiro grupo em algum lugar, e não sabemos quem eles são.
— Nós sabemos algumas coisas sobre eles — Sherlock apontou. — Sabemos que eles acreditam nas habilidades psíquicas de Ambrose Albano, sabemos que eles não querem que qualquer uma das grandes nações internacionais tenham acesso a essas habilidades, e sabemos que eles querem fazer uso dessas habilidades eles mesmos.
— Como você descobriu isso? — perguntou Matty. Ele acompanhava a conversa com interesse.
— Porque eles mataram Sir Sadrach, mas deixaram Ambrose Albano vivo. Se quisessem impedir que qualquer um dos impérios usasse o psíquico, então teriam matado Albano ao invés disso.
Matty assentiu.
— Bom argumento. — Ele franziu a testa, pensando. — Então por que não sequestrar esse sujeito Albano mais cedo? Se fosse eu, o teria agarrado na primeira oportunidade que tivesse.
— Eles não o agarraram antes — Mycroft explicou — porque seu amigo Sherlock o tinha exposto como fraude durante a segunda sessão. Eles provavelmente estavam se preparando para fazer as malas e ir para casa, sabendo que os representantes internacionais fariam o mesmo, quando Sir Sadrach encenou esse miraculoso regresso usando o truque com a pintura. Isso os colocou em alerta novamente. Precisamos planejar uma oportunidade para eles e não dar-lhes tempo suficiente de bolar algo a não ser um plano rudimentar.
— Também sabemos que eles têm um agente dentro da casa — Sherlock acrescentou. — Eles precisam ter, a fim de obter informações sobre o andamento das negociações, e também para terem levado Sir Sadrach para fora sem que ninguém percebesse. Isso nos dá uma vantagem.
Mycroft assentiu.
— Nós podemos alimentá-los com informações falsas para trazê-los à tona apenas por discutir sobre isso abertamente na casa.
— Posso ver — concordou Crowe. — Vamos fazê-los pensar que há uma negociação ocorrendo e que Ambrose Albano está prestes a ser levado por um de nós. Eles terão que agir rapidamente então para manter a posse dele.
Sherlock franziu o cenho.
— Onde estará Albano? Eu não o vejo desde a última noite.
— Ele se trancou em seu quarto — disse Mycroft. — Ele tem pavor de que possa ser o próximo a ser morto. Ele foi entrevistado pela polícia, mas por meio de uma porta trancada. Acho que podemos assumir que ele quererá ficar por lá. — Ele olhou ao redor do grupo. — O que proponho é o seguinte: primeiro, Sherlock, o Sr. Crowe e eu voltaremos para o castelo. Segundo, instruirei Ambrose Albano a que mantenha a calma e fique em seu quarto. Terceiro, o Sr. Crowe fará um grande alarde sobre ter sido ordenado pelo presidente dos EUA a fazer um acordo com o Sr. Albano e dirá a todos que ele e Albano partirão em uma hora. Quarto, o Sr. Stone e o jovem Matty contratarão um coche e cavalos e o farão ir para o castelo esta tarde. Quinto, descobriremos onde, ao longo da rota que o coche fizer de volta para Galway, seria o lugar lógico para que um ataque ocorra. Sexto, o Sr. Stone e o jovem Matty esperarão lá, junto com alguns moradores que o Sr. Stone terá que contratar. Sétimo...
— Acho que entendemos o plano — Sherlock interrompeu — mas como faremos parecer que o Sr. Crowe está levando o Sr. Albano embora se ele estiver trancado em seu quarto?
— Esta — Mycroft falou — é uma pergunta muito boa. — Ele se virou para Rufus Stone. — Trouxe as coisas que pedi?
— Trouxe. — Stone levantou um estojo que estava ao lado de sua cadeira. — Maquiagem teatral, perucas, todos os tipos de coisas para fazer com que uma pessoa parecer com outra.
Mycroft olhou para Sherlock.
— Você, Sherlock, têm a constituição geral e a magreza do Sr. Albano. Com um pouco de maquiagem pálida e uma peruca preta você pode, à distância, ser um substituto aceitável – e sabemos que este misterioso terceiro personagem estará observando de longe. Terá que estar.
Crowe se mexeu de preocupação em sua cadeira.
— E aquele singular olho de cristal? Difícil de falsificar. Poderia entregar o jogo.
— Ah. — Mycroft pensou por um momento. — Um tapa-olho é, provavelmente, a única resposta. Isso ou Sherlock terá que manter a cabeça abaixada.
— Não necessariamente — disse Sherlock. — Deixe comigo, acho que posso fazer melhor que isso.
Mycroft olhou ao redor do grupo novamente, encontrando o olhar de todos.
— Todos sabem sua parte? Estão todos razoavelmente confiantes de que suas funções poderão ser realizadas?
— Uma pergunta — disse Rufus Stone. — Quando eu e esses bandidos locais que ainda terei que contratar saltarmos de onde estivermos escondidos e detivermos a tentativa de sequestro, qual será nosso objetivo? Duvido que possamos fazer prisões, e não quero entrar numa luta até a morte com um criminoso desesperado.
— Quero trazer à tona quem quer que seja o responsável por dar as ordens. — O rosto de Mycroft estava inflexível. — Se houver lá um líder óbvio, então o pegamos e deixamos que o resto escape. Se não, então podem pegar qualquer um e o interrogaremos para nosso lazer e descobriremos para quem eles estão trabalhando e onde é sua base. — Ele olhou ao redor da mesa. — Estamos todos esclarecidos?
Crowe, Stone, Sherlock e Matty se entreolharam, depois se viraram para Mycroft. Todos assentiram ao mesmo tempo.
— Muito bem, vamos começar. Eu não preciso dizer-lhes quanto isso é importante, ou o quanto é perigoso.
— Ninguém me disse que esta viagem seria perigosa — Matty murmurou para ninguém em particular. — É tarde demais para voltar pra casa?
Lá fora, a carruagem esperava para levar Sherlock, Mycroft e Crowe de volta para o castelo. Enquanto eles entravam, Sherlock viu Rufus Stone e Matty saindo do hotel e indo em direção ao cais.
— Você acha que eles serão capazes de encontrar homens suficientes para ajudá-los? — perguntou ele.
Mycroft assentiu.
— Normalmente você pode encontrar homens suficientes em um cais para fazer quase tudo, até e inclusive tomar o controle de um pequeno país. Neste caso, o Sr. Stone apenas precisa de cinco ou seis homens de confiança que não estejam preocupados que eles poderão – na verdade, eles quase certamente irão – se envolver em uma briga. Ou, talvez, dobre ou triplique esse número se, quando ele examinar o mapa do local, ele encontre vários locais que serviriam igualmente bem como o local de um sequestro e rapto. O problema que ele terá é fazer com que eles entendam e sigam as suas instruções, mas ele está, naturalmente, em casa, em seu ambiente, e ele fala a mesma língua que os homens operários. — Uma expressão melancólica atravessou seu rosto, tão brevemente que Sherlock quase perdeu. — Duvido que eu teria essa habilidade. Eu meramente os teria atrás de mim, enquanto o Sr. Stone os teria comendo em sua mão. — Ele fez uma pausa, considerando as palavras que tinha acabado de proferir. — Essa foi uma mistura mal concebida de metáforas, mas acho que você entendeu o que estou tentando dizer.
A carruagem chacoalhou todo o percurso, levando-os de volta para o castelo. À medida que se aproximavam, Mycroft acenou para Amyus Crowe, que estava olhando para fora da janela e disse:
— Enquanto Sherlock leva o kit de maquiagem de teatro do Sr. Stone para o quarto e começa o processo de disfarçar-se como o Sr. Albano, você e eu precisamos prosseguir com uma forte discussão no átrio, para que os agentes desta misteriosa terceira parte possam nos ouvir.
— O que precisamos dizer?
— Você precisa me dizer que fez um acordo em separado com o Sr. Albano em nome do Governo dos Estados Unidos e que irá levá-lo embora em breve. Ah, o que me faz lembrar, você tem que certificar-se de que esta carruagem e seu condutor esperem do lado de fora do castelo para levá-los embora depois. Seria embaraçoso se, depois de fazer todo esse alarde sobre partir, vocês não sejam capazes de fazê-lo.
— Ponto anotado — disse Crowe. — O que mais?
— Eu, é claro, protestarei em voz alta com você, dizendo que você não tem autoridade para fazer um acordo em separado. Você responderá que, com a morte de Sir Sadrach Quintillan, o arranjo como originalmente firmado, com o processo de leilão e os quatro concorrentes, está terminado, e que você está fazendo seus próprios arranjos. Lance todo seu peso ao redor. Faça-se desagradável e grosseiro.
— Você acha que isto será crível?
Mycroft sorriu.
— A percepção que se tem dos norte-americanos, especialmente os empresários norte-americanos, é que eles acreditam que o dinheiro é a solução para qualquer problema. Não é, evidentemente – o dinheiro é, na verdade, a causa da maioria dos problemas. Mas isso é irrelevante – os outros representantes internacionais e, mais importante, os agentes do terceiro grupo, ficarão completamente felizes em acreditar que um americano saiu do processo acordado e fez um acordo lateral de uma forma que eles não acreditariam com respeito a qualquer um dos outros.
— A percepção que se tem de um inglês, é claro — Crowe acrescentou — é que ele ainda participaria de um leilão se ele fosse o único candidato e alegremente faria lances contra si mesmo só porque tinha dado sua palavra de que um leilão seria a forma como as coisas seriam feitas.
— É completamente correto também. — Mycroft assentiu com firmeza. — Se estivéssemos todos a renegar os nossos acordos, que tipo de mundo seria esse? Nós ingleses temos que fornecer um bom exemplo para os outros seguirem.
— É bom saber que está brincando, comigo, Sr. Holmes.
Mycroft levantou uma sobrancelha, mas não disse nada.
Conforme a carruagem entrava nas terras do castelo, Sherlock se inclinou para verificar se ainda tinha a caixa de maquiagem teatral com ele.
— Está à vontade em que deixemos que aplique o seu disfarce por sua própria conta? — Mycroft perguntou a ele.
Sherlock assentiu.
—Sim. Depois do tempo que você e eu passamos em Moscou, quando falhei completamente em reconhecer uma sala cheia de agentes disfarçados da Câmara Paradol mesmo tendo passado os últimos dias com eles, fiquei um tempo estudando as técnicas de maquiagem teatral. Há um teatro em Farnham, e eu costumava ir lá e ver os atores colocando sua maquiagem. Eles acabaram me ensinando muito sobre as coisas que você pode fazer com massa de vidraceiro, pinturas, cabelo e resina. Fiquei muito bom nisso.
— Alguma vez já lhe ofereceram um emprego no palco?
Sherlock sorriu.
— Fiz figuração em algumas peças que estavam apresentando. Eu realmente gostei da experiência. Gostaria de fazer isso novamente.
Mycroft estremeceu.
— A vida teatral não é vida para um Holmes. Demasiada boêmia. Eu ainda o vejo no setor bancário, Sherlock.
— Eu não gostaria do setor bancário, mas poderia me disfarçar de banqueiro.
— Sim, muito engraçado.
A carruagem passou através da ponte levadiça e para dentro da área central do castelo. Conforme ela esboçava o caminho para as portas principais, Sherlock percebeu que estava usando o humor para disfarçar seus próprios sentimentos de nervosismo. De repente, ocorreu-lhe que ele se colocaria em perigo ao disfarçar-se como um homem que era de interesse para uma gangue misteriosa que ficara muito feliz em cometer assassinato para promover seus próprios objetivos. Não era isso o que ele pensava em fazer ao voltar para casa.
Isso, no entanto, parecia ser o tipo de coisa que continuava a acontecer com ele.
Ele pensou sobre o que seu irmão havia dito, sobre ele assumir uma carreira no setor bancário. Ele honestamente não conseguia ver algo assim acontecendo. Ele não teria um cargo público, como seu irmão, e também certamente não se juntaria ao Exército como seu pai. Mas o que sobrava? Voltar para o mar? Criar uma empresa de comércio e importação de alimentos e de seda da China?
De repente, ocorreu-lhe que nos últimos dias, quando ele esteve definindo uma série de problemas para solucionar e praticamente resolver todos eles, tinha sido uma das melhores diversões que tivera há tempos. Ele gostava de resolver problemas. Satisfazia um comichão dentro de seu cérebro. Ele particularmente gostou de ver as expressões nos rostos de von Webenau, Herr Holtzbrinck e conde Shuvalov quando ele explicou como as sessões tinham sido organizadas, e a expressão no rosto de seu próprio irmão Mycroft quando vira o modelo de cartolina da torre. Tinha sido uma emoção, e ele queria ver se poderia obter essa emoção mais uma vez.
O problema era que ele não via como poderia fazer disso uma carreira. O mais próximo que poderia chegar disso era juntar-se à força policial, mas ele realmente não se via usando um uniforme, e em sua experiência sobre a polícia, embora limitada até agora, era que eles apareciam na cena de um crime, diziam algumas coisas que já eram evidentes para todos, e prendiam o homem de aparência suspeita mais próximo.
Mycroft e Amyus Crowe saíram da carruagem, e Sherlock os seguiu com a caixa de maquiagem teatral. Enquanto Mycroft entrava no átrio e Crowe conversava com o cocheiro, Sherlock dirigiu-se para as escadas.
Ele foi direto para o quarto de Ambrose Albano, certificando-se de que não era observado por qualquer um dos criados. Felizmente, o corredor estava vazio quando ele chegou, e ele bateu na porta.
A voz de Albano veio de dentro:
— Vá embora! Eu já falei, não pretendo sair deste quarto até que eu tenha uma escolta policial que me colocará segurança! É perigoso lá fora!
— É Sherlock Holmes. Eu queria fazer uma pergunta.
Uma pausa, e então:
— Você pode fazer qualquer pergunta que quiser, contanto que a resposta não envolva eu abrir a porta.
— Isso pode ser um problema. Eu queria pedir emprestado um de seus ternos, e seu chapéu.
— Em vista de que isso me obrigaria a abrir a porta, a resposta é não.
Sherlock pensou rapidamente.
— E se você fizer uma trouxa com seu terno e seu chapéu e descê-los pela janela? Eu poderia descer as escadas e pegar depois.
— Isso poderia funcionar — Albano respondeu. — Mas preciso saber por que você os quer. Soa como se pretendesse algo suspeito, e eu não gosto de coisas suspeitas.
— Eu não posso te dizer o que estou fazendo — falou Sherlock pacientemente — mas posso assegurar-lhe que isto está destinado a garantir sua segurança. — Ele fez uma pausa, e então disse: — É uma espécie de desvio de atenção. Você deve gostar disso.
Albano pareceu pensar por um tempo.
— Então a resposta é sim. Você tem uma mente rápida, dedos ágeis e uma habilidade natural para truques de mágica. Posso vê-lo se tornando um bom mágico, um dia. Se o seu desvio de atenção distrair a atenção de mim, tanto melhor. Então, sim, eu vou emprestar-lhe um terno e meu chapéu, e aguardarei com interesse os resultados. Você voltará e me dirá o que fez?
— Voltarei — Sherlock prometeu. — Dê-me cinco minutos para chegar no térreo, em seguida, abra a janela e procure por mim.
Tudo correu perfeitamente bem. Sherlock saiu do castelo e ficou esperando na grama até que uma janela se abriu muito acima dele. Ele gesticulou a Albano para que esperasse até que ele tivesse verificado dos dois lados em busca de observadores, depois indicou ao psíquico que ele podia soltar o pacote. Ele caiu direto em seus braços, envolto em um cinto. Sherlock acenou em agradecimento e ouviu a janela fechar-se acima dele.
Parte dele queria contar para Albano que ele havia descoberto como o truque com as pinturas havia sido feito, mas sabia que isso seria uma má ideia. Ele sabia que não tinha sido observado recebendo as roupas, mas não havia como saber quem poderia estar ouvindo, o que teria destruído o plano de Mycroft se houvesse se tornado de conhecimento geral que a última demonstração de poderes de Albano tinha sido tão falsa quanto as duas primeiras.
Ele retornou ao castelo e subiu até seu quarto.
Uma vez lá, trancou a porta e começou a trabalhar fazendo-se parecer com Ambrose Albano. Ele usou uma camada de base branca em sua pele e depois escovou com pó para torná-lo ainda mais branco, usando a extremidade oposta do pincel para fazer uma série de marcas de espinha na maquiagem. Seu rosto era magro o suficiente para igualar ao de Albano, mas ele inseriu algumas pequenas almofadas na parte interna das bochechas para afastar seus lábios longe dos dentes e enfatizar seus incisivos da forma encavalada semelhante a de Albano, e colocou um tipo de material elástico em suas narinas para deixá-los alargados de uma forma semelhante. Havia uma seleção de perucas na caixa também, e ele escolheu aquela que mais ou menos se aproximava do comprimento, formato e cor do cabelo de Albano, untou e penteou seu próprio cabelo para trás para baixá-los contra seu couro cabeludo, e colocou a peruca. Ele examinou-se criticamente no espelho. Não era uma má construção, ele teve que admitir. O único problema era que as sobrancelhas eram muito escuras, então ele cuidadosamente cobriu com tiras falsas de cabelo da mesma cor que o da peruca, grudando às suas próprias sobrancelhas com resina. Se ele pudesse preparar-se com mais tempo, ou se fosse observado de perto, então poderia ter cortado o próprio cabelo e talvez raspado as sobrancelhas para que a ilusão fosse melhor, mas ele só tinha que parecer com Albano à distância.
Ele tirou as roupas e vestiu o terno de Albano. Era um pouco grande, mas não a ponto de fazê-lo parecer uma criança vestindo-se com as roupas do pai.
A última coisa que ele fez foi pegar uma bola de massa teatral da caixa e moldá-la em uma curva, como um fragmento de uma esfera oca. Utilizando uma composição branca brilhante, que era geralmente usada para personagens orientais, coloriu a superfície exterior da massa. Uma vez que se sentiu satisfeito com o resultado, fechou o olho esquerdo e pressionou a massa contra a sua pálpebra, apertando firmemente ao redor da borda de modo que ela ficasse presa.
Agora ele realmente se parecia com Ambrose Albano, com olho falso e tudo. Pelo menos, a partir de uma certa distância.
Conforme ele deslizava o chapéu na cabeça, houve uma batida na porta.
— Quem é? — ele perguntou.
— Amyus Crowe. Seu irmão e eu causamos todo tipo de tumulto no andar de baixo. Ele agora está falando sobre uma quebra de contrato e todo tipo de coisas na sala de estar, para que possamos descer as escadas e sair sem que ninguém o veja de perto. Você está pronto?
— Pronto como sempre estarei — Sherlock murmurou. — Sim — ele falou, e se dirigiu para a porta.
Crowe olhou de cima a baixo de maneira crítica.
— Não sou nenhum juiz das artes dramáticas — disse ele — mas estou convencido de que se o visse em um palco à distância, diria que é Albano.
Eles desceram pela sala ascendente, o que removeu a chance de encontrarem alguém nas escadas. Quando chegaram lá embaixo, Crowe apressou Sherlock através da porta. Sherlock viu que a carruagem ainda estava esperando do lado de fora. Enquanto passavam pela porta, Sherlock ouviu seu irmão gritando:
— Lá vão eles! Esse Yankee desonesto está levando Albano embora!
— Entre na carruagem — Crowe murmurou. — Rápido, antes que eles possam ver algo mais do que suas costas.
Sherlock subiu e se acomodou no assento, puxando o chapéu sobre os olhos. Crowe subiu ao lado dele. Com o canto do olho Sherlock podia ver um grupo de pessoas se aglomerando na porta do castelo. Ele pensou que podia discernir a massa impressionante da cabeça de Mycroft, mas não se atreveu a virar a cabeça para olhar e vislumbrarem seu rosto.
— Vamos! — Crowe falou para o condutor, que estalou o chicote acima da cabeça do cavalo.
A carruagem partiu com um solavanco. Sherlock sentiu-se empurrado para trás contra os assentos acolchoados.
Em algum lugar atrás deles, ele podia ouvir vozes gritando, mas ele estava mais preocupado agora com o que estava à frente. Em algum lugar dos próximos minutos, no caminho para Galway, haveria um ataque contra a carruagem com a intenção de sequestrá-lo, e seria Rufus Stone e quem quer que fosse a ralé que ele tinha conseguido contratar no últimas duas horas que iriam detê-los.
A carruagem se aproximou dos portões do castelo. Sherlock preparou-se para uma conversão repentina para a direita, quando a atravessariam.
Em vez disso, ela virou para a esquerda.
Sherlock, que tinha se preparado para uma conversão no sentido contrário, sentiu-se então deslizar para o lado. Crowe, da mesma forma, deslizou e caiu em Sherlock. Conforme eles viraram, Sherlock olhou para fora da janela para a direita e viu a estrada que deveriam ter tomado. Ele viu outra carruagem, similar à deles, que tinha sido escondida no muro. Partindo na direção oposta.
— Ei! — Crowe gritou para o condutor. — Caminho errado!
O condutor ignorou. A velocidade da carruagem aumentou depois que fizeram a curva.
Crowe agarrou a maçaneta da porta e tentou girá-la. Ele não conseguia. Estava presa no lugar. Sherlock tentou girar a do lado dele, mas ela não se mexeu também.
— Você viu aquela outra carruagem? — ele perguntou sem fôlego.
— Nós fomos pegos — Crowe estalou. — Eles trocaram nossas carruagens. Droga, eu devia ter verificado o rosto do condutor!
— Pode ter sido o mesmo condutor — Sherlock apontou. — Eles podem ter dado a ele tanto dinheiro que ele seguiu com seus planos.
— Não. — Crowe balançou a cabeça com firmeza. — Eles poderiam muito bem ter pago o condutor, mas é uma carruagem diferente. Aquela esperando do lado de fora dos portões era a que deveríamos ter tomado. Dessa forma, quando ela chegar à Galway isso parecerá como um verdadeiro mistério. O condutor jurará cegamente que entramos, Stone e o garoto jurarão cegamente que nos seguiram sem problemas.
— Assim como o suposto desaparecimento de Ambrose Albano — Sherlock apontou severamente.
— Quem nos pegou tem senso de humor. — O rosto de Crowe mostrou que ele não achava nada divertido. — Eles estão virando os truques de Quintillan e Albano contra eles.
Ele se levantou e fez um gesto para que Sherlock fizesse o mesmo. Sherlock tentou segurar no teto da carruagem para manter-se de pé enquanto Crowe rasgava o estofamento que cobria os assentos na parte traseira na esperança de encontrar algum painel que ele pudesse remover para escaparem pelos fundos. Não que saltar de algo viajando na velocidade em que estavam fosse uma opção muito segura, pensou Sherlock. Eles poderiam muito bem quebrar algum osso se calculassem mal o salto.
Ele olhou para fora da janela, mas não conseguia ver nada além de arbustos e árvores passando rápido.
— Isso não é bom! — Crowe bateu com o punho contra a porta da carruagem em frustração.
A carruagem fez uma parada abrupta, jogando Sherlock e Crowe para frente. Conforme eles se levantavam, a porta se abriu. Eles esperaram por um longo momento, mas ninguém apareceu.
— Bem, eu não sou do tipo que espera em torno de uma promessa — disse Crowe, e saiu da carruagem.
Sherlock suspirou e o seguiu.
A carruagem tinha parado em uma clareira no meio do mato e das árvores. Sherlock podia sentir o cheiro salgado do oceano nas proximidades, e podia ouvir as ondas. Havia provavelmente dez homens que estavam ao redor da carruagem, mas foram os dois na frente que chamaram a atenção de Sherlock. Ele sentiu sua boca se abrir em estado de choque.
— Senhores, meus agradecimentos por juntarem-se a nós — disse o primeiro homem com uma voz fina, sussurrante que fez o cabelo de Sherlock ficar em pé.
— Quer me apresentar ao seu amigo? — perguntou Crowe.
— Amyus Crowe — Sherlock falou, a voz quase tão fina e sussurrante quanto a do homem que tinha falado. — Permita-me apresentar-lhe o Barão Maupertuis. Ele trabalha para a Câmara Paradol.

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