20 de setembro de 2017

Capítulo onze

— POR ONDE COMEÇAR? — disse Weston. — Bem, vamos começar com o próprio Mortimer Maberley.
— Querido Mortimer — disse sua esposa enquanto a mão de Weston descia rumo à colcha da cama, e ela colocou a mão sobre a dele. — Ele era um homem muito carinhoso. Um grande amigo. Sherlock dizia agora mesmo ter visto uma foto nossa com Mortimer e o irmão de Sherlock.
Ferny franziu o cenho.
— É aquela com... — ele parou abruptamente, então olhou para Sherlock e continuou como se nada tivesse acontecido: — Mortimer e eu estávamos juntos na Força Policial de Oxford. Ele era meu sargento. Um ótimo oficial, justo e imparcial. Era mais velho do que eu. A família dele era antiga na área, remonta a gerações desde o tempo da Guerra Civil ou ainda antes. Eles haviam sido ricos, mas muito do dinheiro desapareceu durante o interregno, entre os reinados de Carlos I e Carlos II, quando Oliver Cromwell e seus Cabeças Redondas controlavam a Inglaterra com mão de ferro. No início deste século, tudo o que restara aos Maberley era uma grande casa a trinta quilômetros a leste daqui e os pomares adjacentes. — Ele sorriu, torcendo os lábios de forma inquieta. — Lembro que o pai e o avô de Maberley tentaram fazer cidra à partir das maçãs, mas os frutos eram pequenos e atrofiados, e fermentavam como se fossem vinagre. Nunca vendeu, e eles nunca se tornaram cidreiros milionários como esperavam. Maberley se juntou a polícia porque era um emprego regular que, pelo menos, proveria algum retorno financeiro à família. Infelizmente sua mãe morreu de gripe quando ele tinha seus trinta anos, e seu pai teve um infarto alguns anos depois, deixando-o sozinho na casa. Ele nunca se casou.
— Não havia uma lenda familiar de um tesouro? — Marie Weston perguntou de repente, sentando-se em sua cama. — Lembro que uma vez ele veio para jantar uma noite e mencionou isso. — Ela sorriu — Ele trouxe duas garrafas de cidra como presente. — Ela gargalhou. — Nós esvaziamos nossas taças num vaso de flor quando ele não estava olhando.
— É — seu marido franziu a testa ao se recordar. — Havia algo sobre um tesouro de ouro e joias que foi entregue eles pelo príncipe Carlos quando ele liderava os Cabeças Redondas por volta de 1651. Aparentemente, de acordo com a lenda da família, eles tinham escondido o príncipe e seus companheiros por várias semanas nas quais os Cabeças Redondas varavam os campos atrás deles. Como gratidão, quando a família reconquistou o trono, Carlos II deu-lhes riquezas, mas no tempo de Maberley ninguém da família sabia o que havia acontecido com o ouro e as joias. Sempre estive inclinado a acreditar que havia um pouco de verdade e muito exagero nessa história, mas Maberley acreditava nela. Pelo menos, ele queria acreditar nela, mas nenhuma busca pela casa ou pelo terreno jamais revelou algo. — Ele balançou a cabeça, banindo as lembranças. — De qualquer forma, isso é irrelevante. O ponto é que nós trabalhamos juntos e eu lhe devo a minha vida.
— Por que ele o tirou de um prédio que estava desabando? — Sherlock arriscou. — O que foi explodido com você dentro?
Westou acenou com a cabeça.
— Sim, ele me salvou, colocando sua própria vida em risco, e depois voltou por Marie. Foi o ato mais corajoso que já vi.
Ele pausou momentaneamente, os olhos cheios de lágrimas, então continuou:
— Ele se aposentou da polícia logo após eu ser afastado como inválido, e voltou para a casa de sua família. Ele não podia se dar ao luxo de pagar por empregados. Simplesmente fazia todo o serviço doméstico sem pressa naquela casa enorme. Sozinho, ele tentava cozinhar, limpar e cuidar do jardim. Uma vez por semana um garoto da vila deixava uma caixa de legumes e carne, que os comerciantes locais forneciam em forma de fiado e cuja conta só crescia e nunca seria paga, mas eles não ligavam. Eles se lembravam da família Maberley e o que fizeram pela vila em tempos passados. Nós nos correspondemos intermitentemente. E então, há menos de um ano, recebi uma carta muito estranha dele. Ele parecia... ansioso e inquieto, como se sua escrita e escolha de palavras não estivessem sendo levadas em consideração.
Weston pausou, quase como que envergonhado pela história que estava contando. Sherlock o induziu a continuar, perguntando:
— O que havia na carta?
— Ele escreveu que tinha a impressão de que toda noite, enquanto ele dormia, a casa se movia.
Sherlock sentiu calafrios na espinha. Uma casa que se movia? Então ele se recordou das palavras de Charles Dodgson, no primeiro encontro deles, falando sobre a lenda russa de Baba Yaga, a bruxa cuja cabana tinha pernas e que podia andar sozinha.  Seria coincidência ou Dodgson sabia algo sobre os problemas de Maberley e tentara avisar Sherlock com antecedência?
— O que ele quis dizer, a casa dele se movia? — Matty perguntou, inclinando-se para frente.
— Você lembra que eu disse que tudo o que a família dele tinha era a casa e os pomares?
Matty fez que sim com a cabeça.
— A casa em si ocupa uma pequena área do terreno — Weston continuou. — Ao sul do terreno, começava o pomar, que ocupava vários acres. O que Maberley me contou foi que, às vezes, se ele acordasse durante as primeiras horas da manhã, ele descobria que a sua casa não estava à beira do pomar, mas no meio dele!
— No meio do pomar? — Sherlock repetiu, querendo ter certeza absoluta daquilo que Weston dizia.
— Sim. Ele jurou que se olhasse pela janela do quarto, podia ver as macieiras ao redor da casa, ao invés de estarem bem ao sul do terreno. De algum modo a casa havia deslizado vários metros, como se estivesse tentando chegar a algum lugar. Maberley disse que o choque da visão normalmente o fazia desmaiar, e quando acordava, a casa já estava de volta em seu devido lugar, cercada pelo gramado.
— Era um sonho.— Matty disse firmemente. — Eu tenho alguns desses sonhos, que continuam voltando. Eu sempre sonho que...
— E isso acontecia toda noite? — Sherlock interrompeu.
— Não toda noite — ele virou a cabeça para encarar Matty. — E ele dizia que não podia ser um sonho porque toda noite em que isso acontecia, ele anotava exatamente o que via, e pela manhã as anotações ainda estavam lá, em seu diário.
— E ele nunca tentou se forçar a ficar acordado para ver exatamente o que acontecia? — Sherlock pressionou.
— Ele disse que tentava, usou todos os métodos para espantar o sono, mas não importava o que tentasse, o sono dava um jeito de pairar sobre ele, e então ele despertava mais tarde para se encontrar no meio do pomar. E em adição...
— Nas noites em que ele tentou ficar acordado — Sherlock interrompeu. — Ele sempre acabava dormindo?
Weston franziu o cenho, e pensou um pouco. Ele se virou para a esposa e disse:
— Você também leu as cartas, querida. O que ele disse exatamente?
— Pelo que eu me lembre — Marie respondeu, fechando os olhos e franzindo a testa — ele disse que em algumas noites quando conseguia ficar acordado, nada acontecia, mas havia algumas em que ele dormia e depois acordava para descobrir que a casa tinha se movido.
Ela encarou Weston com simpatia em sua expressão.
— Você deve encarar isso, Ferny.  A mente dele era perturbada. É óbvio que ele estava alucinando, provavelmente depois de beber muito da cidra da família dele.
Weston balançou a cabeça negativamente.
— Mortimer Maberley era o homem mais estável. Eu não o vejo como alguém que devaneia tanto. Nem mesmo agora, dado o que ele escreveu na carta.
— Parece que durante as noites em que ele estava acordado, observando, ele podia impedir a casa de se mover talvez só por estar acordado — Matty falou lentamente, e depois olhou para Marie Weston com uma expressão de arrependimento. — Se ele estivesse são.
— Ou — Sherlock apontou devagar — o inverso é verdadeiro. Somente quando dormia contra a sua vontade que alguma força decidia mover a casa. — Ele deu de ombros. — Nós temos duas pressuposições: o Sr. Maberley involuntariamente caía no sono apesar de suas precauções e a casa aparentemente se movimentava. Nós ainda não sabemos qual circunstância causa a outra, isto é, se elas estiverem relacionadas. — Ele sorriu. — Se, claro, alguma das duas for verdadeira. — Ele se virou para Weston. — Você escreveu de volta?
— Sim.
— O que disse?
— Eu fui compreensivo e perguntei várias das questões que você levantou. Ele escreveu com as respostas que lhe dei. Desde então as cartas dele tem se tornado completamente desvairadas. Ele tem medo de sair de casa e, quando voltar, não encontrá-la mais lá. Temo que ele tome uma atitude drástica se isso não for resolvido.
Sherlock estava prestes a perguntar para Weston o que ele pensava que ele poderia fazer sobre o assunto, quando uma ideia o atingiu. Na verdade mais uma memória que uma ideia. O teatro de Londres há algumas semanas, onde ele e seu irmão Mycroft passaram a noite assistindo o violinista Pablo Sarasate. Ele se lembrou do intervalo entre os atos da apresentação, quando deixara seu irmão sentado num assento próximo à janela do bar do teatro. Um homem fora até Mycroft e lhe entregara uma carta, e Mycroft dissera algo. Sherlock teve que revirar seu cérebro atrás das palavras: “O problema de Mortimer Maberley de novo. Eu não sei o que ele acha que posso fazer!” O problema de Mortimer Maberley. Mycroft sabia!
— Você me contou — ele disse a Weston, mantendo o controle sobre seu tom de voz e suas palavras — que costumava beber numa taberna com meu irmão Mycroft. Mortimer Maberley bebia com vocês?
— Sim — Weston respondeu. — Eles se davam muito bem. Por que a pergunta?
— Porque — Sherlock disse amargamente — estou começando a perceber que não estou aqui por acidente.
— Talvez seja parte dos planos de Deus — respondeu Weston firmemente. — Mortimer Maberley precisa da minha ajuda, mas sou incapaz de ajudá-lo. Não posso viajar mais de alguns quilômetros dessa casa sem chamar atenção, e não posso investigar a situação de Maberley de maneira que resolva os problemas dele. Talvez isso requeira perguntas entre os moradores da vila, ou uma ligação com a polícia local, e eu não posso fazer isso. — Ele fez um gesto embarcando o próprio rosto. — Assim que as pessoas veem o meu rosto, elas param de ouvir o que eu digo.
— E você quer que Matty e eu investiguemos no seu lugar — Sherlock concluiu.
— Vocês invadiram minha casa, devastaram meus espécimes e invalidaram George, meu criado. Acho que vocês me devem essa.
— Você quebrou a lei ao roubar partes de corpos dos necrotérios de Oxford e outros lugares — Sherlock destacou. — O que quer que seja que devemos a você, está anulado pelo fato que investigávamos suas atitudes condenáveis.
Os dois ficaram se encarando por um longo tempo, nenhum deles disposto a ceder. Finalmente Marie Weston exclamou:
— Oh, Ferny, isso é bobagem! Você não pode envolver duas crianças num problema que nem mesmo é seu! Seria errado enviá-los para a casa de Mortimer.
Weston abriu a boca para responder, mas Sherlock foi mais rápido.
— Na verdade, acho que é um problema bem interessante. Eu não me importaria de visitar o Sr. Maberley e dar uma olhada. Não posso prometer nada, mas...
— Você está falando sério? — Matty perguntou.
— Muito sério. Você não fica curioso? Quero dizer, uma casa que anda?
— Não. — Matty respondeu honestamente. — Isso me classificaria como louco.
— Então você não quer vir comigo?
— É uma pegadinha, não é? É claro que vou junto. — Ele olhou para a Sra. Weston. — Alguém tem que mantê-lo longe de confusões. Ele pode ficar tão perfeitamente focado no que vê a sua frente, que ignora todas as coisas perigosas que estão crescendo sobre ele.
— Parece ser igualzinho ao Ferny quando estava num caso — Marie respondeu com um sorriso abatido.
— Então — Matty falou — qual será a forma de pagamento?
 Sherlock e Weston olharam para ele e disseram em uníssono:
— Pagamento?
— Sim, pagamento. Você quer que o Sherlock aqui faça um trabalho, então deve pagar. Você não espera que um jardineiro trabalhe de graça, ou um encanador.
— Pensei que tivéssemos estabelecido — Weston falou pacientemente — que vocês invadiram minha casa, atacaram meu criado e foram os responsáveis pela morte de vários dos meus espécimes. Eu descontarei seu “pagamento” dos prejuízos que me causaram.
— Eu também achei que tivéssemos estabelecido — Matty replicou, igualmente paciente — que você faz parte das atividades ilegais as quais investigávamos, que seu criado nos atacou, e não o contrário, e que seus preciosos espécimes tiveram que ser destruídos para que não matassem mais pessoas, como nós dois e o seu criado. Acho que somos nós quem devemos receber pelos danos – e sem falar do pagamento pelo serviço a ser prestado.
— Matty, o que você está fazendo? — Sherlock sibilou.
— Estabelecendo o seu valor de mercado — o amigo respondeu.
— O Sr. Weston e sua esposa não têm dinheiro. Olhe em volta. Eles não recebem salário.
— Eles podem pagar um empregado, e aquele sujeito com o macaco — Matty apontou racionalmente. — E presumidamente aquelas partes do corpo de cera não vêm de graça. Duvido que se possa arranjar cobras venenosas no mercado de Oxford, então alguém é pago para encontrar os espécimes, buscá-los e entregá-los aqui. Tudo isso requer dinheiro, mas ele espera que você trabalhe de graça? — ele balançou a cabeça com tristeza. — Sherlock, você precisa de um agente.
— É verdade — Ferny murmurou. — Eu recebo uma generosa pensão da força policial, e minha querida esposa gerencia todas as nossas finanças de modo que sempre temos dinheiro sobrando, eu não sei como ela faz isso. Porém, não posso dizer que somos ricos.
Sherlock ia dizer alguma coisa, mas Matty o calou.
— Nós podemos discutir uma remuneração justa quando vocês voltarem — Weston falou depois de uma longa pausa. — Quando virmos o quanto progrediu em busca de uma solução.
— Parece justo — Sherlock respondeu antes que Matty voltasse a discutir.
— Eu vou escrever uma carta a Mortimer Maberley — Weston falou. — Explicar quem vocês são e o que esperam conseguir. Desse modo ele os deixará entrar na casa. Eu também lhes emprestarei dois cavalos do estábulo para que possam chegar lá.
— Cavalos, hã? — Matty repetiu brilhantemente. — Eles também não são baratos.
— Quando partirão?
Sherlock olhou para Matty.
— Acho que amanhã cedo, depois do café da manhã.
Marie Weston se alegrou:
— Então vocês devem ficar aqui esta noite. Nós temos camas extras. Ferny preparará uma ótima refeição antes de vocês partirem.
Eles ficaram acordados por mais um tempo, conversando não sobre Mortimer Maberley, mas sobre as teorias de Weston sobre os efeitos da ocupação ou carreira no corpo humano, e os sintomas causados pelos vários venenos. Enquanto conversavam, Weston pegou uma folha de uma escrivaninha no quarto e começou a escrever uma carta de apresentação para Mortimer Maberley, como havia prometido.
— Vocês deveriam ler — ele disse. — Caso achem que eu esteja colocando instruções secretas aqui.
— Assim como em Hamlet — Sherlock observou. — Quando Claudius envia Rosencrantz e Guildenstern para a corte inglesa carregando uma carta que pede ao rei para matar o amigo deles, Hamlet, que está com eles.
— Exceto que Hamlet reescreve a carta e então são Rosencrantz e Guildenstern quem são executados — Weston abriu um enorme sorriso. — Lembro que Hamlet era a peça favorita de Shakespere do seu irmão quando ele estava aqui. Você, obviamente, herdou o amor dele pelos poetas.
— É uma coisa de família — Sherlock concordou.
Ele leu a carta, a qual só continha um parágrafo inicial de saudações e, depois, um parágrafo onde Weston contava a Maberley que ele estava enviando dois rapazes, Sherlock Holmes e Matthew Arnatt, para ajudar a resolver os problemas de Maberley.
Antecipando qualquer protesto da parte de Maberley, Weston adicionou que embora os rapazes parecessem jovens, eram inteligentes e obstinados.
— Parece boa. — Sherlock disse, devolvendo-a.
Weston selou a carta num envelope com um pouco de cera e a passou de volta para Sherlock.
Quando Weston foi arrumar as roupas de cama nos quartos deles, sua esposa olhou seriamente para Sherlock.
— Por favor, diga-me que você não prosseguira com isso — ela falou com misericórdia. — Meu querido Ferny tem essas obsessões e não consegue largá-las. Apoiá-lo apenas reforça suas obsessões. Ele precisa abrir mão delas.
Sherlock estava dividido. Por um lado, ele queria dar a Marie Weston todo o apoio de que ela precisava, mas por outro, estava intrigado com o mistério em potencial.
— Eu prometo — ele falou por fim — que daremos o nosso melhor para provar que o Sr. Maberley está imaginando coisas e que há uma explicação simples.
Na manhã seguinte, eles tomaram um café da manhã completo com bacon, ovos fritos e pão. Foram apresentados aos cavalos e eles saíram antes de o sol ficar muito alto. Sherlock tinha a carta para Mortimer Maberley guardada dentro do paletó, enquanto Matty tinha um mapa feito à mão dentro do casaco. Estranhamente, a casa não parecia nem um pouco ameaçadora com a luz da manhã. As linhas e ângulos pareciam excêntricos ao invés de sinistros. Ou talvez fosse apenas o conhecimento sobre o que havia lá dentro que a tornava menos malevolente.
— Como está se sentindo? — Sherlock perguntou enquanto cavalgavam.
— Poderia ter tido uma noite de sono melhor — Matty respondeu. — Eu ficava pensando que podia ouvir alguma coisa rastejando debaixo da cama. E no café da manhã, eu estava bem até começar a pensar se era realmente bacon ou se aquele Weston tinha fritado a carne de uma das cobras para não desperdiçar nada.
— Você tem uma imaginação fértil, não? — indagou Sherlock.
— Eu digo isso, mas se fosse uma cobra, estaríamos fazendo parte de uma proeza aqui na Inglaterra. Estava muito saboroso.
A viagem durou cerca de uma hora. Enfim Matty anunciou que eles estavam se aproximando da casa de Maberley. O campo era exuberante e verde e relativamente plano, com campos alternados com copas de faias e plantações de macieiras ou pereiras. Havia morros baixos no horizonte.
A casa de Maberley ficava ao final da estrada, sem nenhuma outra propriedade por perto. Um conjunto de arbustos há muito tempo sem poda escondeu a construção até que Sherlock e Matty amarrarem seus cavalos e seguirem seu caminho através do portão enferrujado e passarem pelo matagal.
— Este deve ser o lugar — Matty disse, parecendo horrorizado.
— Você acha? — Sherlock devolveu.
A casa era pequena, dois andares, com cômodos de cada lado de uma porta central. Era muito mal cuidada, o telhado de palha cheio de musgo, e alguns dos tijolos se desfazendo nos cantos. O que a tornava única, porém, era a viga de madeira instalada de um lado da casa, reforçando a construção diagonalmente do telhado ao chão.
— Ele fala sério sobre essa casa se mover?
— Sério o suficiente para fazer algo para detê-la — Sherlock concordou.
— Não pode estar funcionando, ou não estaríamos aqui.
— Vamos olhar ao redor antes de batermos na porta da frente.
Matty seguiu Sherlock conforme ele seguia para o canto da casa, onde a viga de madeira fora fixada. Parado ali, Sherlock olhou para o vasto gramado onde as macieiras começavam. Centenas de árvores com o dobro de sua altura, espaçadas a três metros, mais ou menos, num padrão regular. O gramado continuava por baixo das árvores e pela vegetação sem uma descontinuidade.
Não havia maçãs nas árvores, não era época para isso.
Ele deixou seu olhar cair sobre a grama entre a casa e a primeira fileira de árvores. Se a casa tivesse andado, se, ele enfatizou na sua mente, a não ser que tudo fosse uma invenção da mente superaquecida de Mortimer Maberley, então teria que haver traços no terreno. Ele não podia ver nada, nenhum risco, nenhum arranhão, nada que indicasse que alguma coisa pesada tivesse sido empurrada ou puxada através daquele campo. Na verdade, observando a casa, estava claro que ela não estava somente na superfície. Nenhuma casa estava. Sempre haveria o alicerce no solo, senão também um porão. Se essa casa de fato se movia, o que acontecia com todas essas partes subterrâneas, ficavam ali onde estavam ou se moviam também? Não, a coisa toda era muito tola.
Ele voltou a observar o terreno. Ajoelhou-se, olhou fixamente para as macieiras, tentando estabelecer se havia alguma marca no solo. Ele supôs que seria possível, se a casa fosse plana na superfície do chão, e se o solo fosse lamacento o suficiente, que a casa pudesse deslizar em direção à plantação, mas tal ação requereria uma situação que a desencadeasse, como um terremoto, o que faria mais sentido em outro país, não na Inglaterra. E também deixaria traços, ranhuras na terra. O problema era que, mesmo que os eventos fossem verdadeiros, a casa deslizaria em uma direção, mas como poderia deslizar de volta? E repetidamente?
Ele se levantou, suspirando. A teoria toda era improvável, ainda mais porque o solo não era inclinado.
— Saiam daqui! — uma voz gritou atrás dele. — Eu disse, saiam daqui!
Com um bang! ensurdecedor um trecho de mato crescido ao lado de Sherlock voou numa explosão de terra e folhas. Ele sentiu parte disso voar em seu rosto. Sherlock se virou lentamente para não assustar o homem que havia atirado.
— Desculpe-me. Estamos aqui para ajudar. Ferny Weston nos enviou! Nós temos uma carta dele!
Enquanto virava, viu o homem apoiado na janela do andar de cima. Ele apontava uma arma para Sherlock, uma arma Fowling com um cano longo. Atiraria vários chumbinhos, Sherlock sabia, e faria uma bagunça aonde quer que acertasse.
O homem com a arma não tinha a barba feita. Seu cabelo branco despenteado apontava para todas as direções, e seus pequenos óculos redondos estavam tortos em seu nariz. Seus olhos, atrás dos óculos, brilhavam intensamente para Sherlock e Matty.
— Você, rapaz — o homem esbravejou, apontando a arma na direção de Matty. — Vá e fique ao lado de seu amigo. Quero vocês perto o suficiente para acertá-los com um único disparo! Você disse que tem uma carta?
— Sim — Sherlock a tirou do bolso do paletó e balançou-a. — O senhor é Mortimer Maberley?
— Talvez eu seja. Esperem aí.
Ele sumiu da janela. Sherlock e Matty ficaram parados ali enquanto o homem fazia seu caminho pela casa, finalmente aparecendo na porta da frente.
— Venham aqui e deixem-me ver isso.
Sherlock e Matty caminharam até a porta da frente, cientes de que a arma estava apontada para eles novamente e igualmente cientes de que Mortimer Maberley não era o homem mais estável.
Sherlock entregou a carta e eles esperaram enquanto Maberley a abria, apertava os olhos para o papel, ajustava seus óculos para que ficassem quase retos e, então, lia. Por fim ele a abaixou e os encarou.
— Então Weston enviou ajuda, hein?
— O Sherlock aqui é muito bom com enigmas e tal — Matty disse. — E eu sou bom com planos e artimanhas ousadas. O que quer que esteja acontecendo, podemos resolver!
 — Nenhum de vocês tem experiência com a área de espíritos malignos então?
Os rapazes se entreolharam.
— Não. ­— Matty disse. — Por quê?
— Não está claro? Demônios estão tentando arrastar essa casa para o ínferno, mas os anjos continuam os detendo e trazendo-a de volta.
— Por que os demônios iriam querer arrastar sua casa para o inferno? — Sherlock perguntou.
— Se eu soubesse disso — Maberley retrucou — eu não precisaria dos serviços de um profissional, precisaria?
Ele percebeu que ainda estava apontando a arma para eles e a baixou.
— É melhor vocês entrarem. Eu posso fazer um chá, ou tem cidra se vocês preferirem, muita cidra.
— Chá parece ótimo — Sherlock respondeu.
Maberley os guiou até a sala de estar que estava repleta de pequenos objetos, móveis antigos e pilhas de livros. A casa tinha um cheiro que Sherlock achou familiar, um cheiro medicinal que fazia sua pele arrepiar por alguma razão. Ele salvou aquela informação para considerar mais tarde.
Assim que Maberley sumiu para o outro cômodo, o qual Sherlock achou ser a cozinha, Matty olhou para Sherlock e sussurrou:
— Ele é louco. Acho que sabemos qual a história aqui.
— Eu não tenho tanta certeza. — Sherlock respondeu. — Vamos manter nossas mentes abertas até que tenhamos mais informações.
Maberley voltou com um bule de chá e três xícaras diferentes, os três se sentaram onde encontraram espaço. Maberley leu a carta de Weston novamente e os encarou por entre seus óculos.
— Vocês devem achar que sou louco — ele disse objetivamente.
— Sim. — Matty respondeu.
— Não. — Sherlock disse.
Maberley continuou a encará-los com seus olhos vermelhos e cheios d’água.
— Vocês são apenas crianças — falou calmamente. — O que podem fazer para ajudar?
Matty respirou fundo, pronto para responder rispidamente, mas Sherlock gesticulou para ele ficar quieto.
— Nós podemos ser testemunhas — Sherlock disse. — Podemos ver o que acontece e, se o que diz for verdade, podemos contar às pessoas. Nós podemos corroborar com a história.
— A mim parece bom — Maberley concordou com serenidade.
— Agora — Sherlock continuou com um tom de negócios — conte-nos tudo.
— Ferny Weston já não contou?
— Contou, mas quero ouvir da sua boca. Talvez haja partes que o senhor se esqueceu de contar a Ferny, coisas que pareciam simples demais ou muito óbvias que deixou de fora, mas que poderiam ser a chave para provar toda a teoria. Ou talvez ele tenha pulado algumas partes porque eram detalhadas demais, mas possam ajudar a desenrolar o mistério. É sempre bom ir até a fonte original da história, melhor que confiar em uma de segunda mão.
Maberley concordou.
— Vocês sabem que eu costumava trabalhar na Polícia de Oxford?
Sherlock fez que sim com a cabeça.
— Bem, uma atitude como a sua era o que eu e Ferny tentávamos fazer com que nossos colegas da base policial seguissem, mas eles raramente mostravam interesse. Eles preferiam acreditar em histórias que fossem coloridas e que apoiassem seus preconceitos a rastrear a fonte original e, provavelmente, ouvir uma história tediosa.
— Não que eu ache que a sua história será tediosa — afirmou Sherlock.
— Espero que não. Muito bem, vou lhes contar tudo como se eu nunca tivesse contado antes e vocês ouvirão como se nunca tivessem ouvido antes.

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