12 de setembro de 2017

Capítulo onze

O ALMOÇO TINHA ACABADO de ser concluído quando uma voz se elevou:
— Senhores.
Sherlock, junto com os outros representantes - Mycroft, Crowe, von Webenau, Holtzbrinck e Shuvalov – virou-se para olhar para a entrada. Sir Sadrach Quintillan bloqueava o espaço com a sua cadeira de três rodas, a sempre presente Silman atrás dele.
— Estão prontos para o final, o conclusivo, o absolutamente infalsificável teste? — continuou ele.
Havia um sorriso em seu rosto e ele parecia relaxado, mas Sherlock podia sentir a tensão sobre ele. Talvez fosse a maneira como suas mãos descansavam em seu colo, os dedos entrelaçados.
— Estamos, penso eu, preparados para qualquer coisa que o senhor nos apresente — disse Mycroft. — Mas o avisamos – depois dos artifícios de ontem à noite, estamos sem disposição para mais truques.
— Não haverá nenhum truque — Quintillan prometeu. — Todos os senhores estão convidados para inspecionar todos os recursos da demonstração. Se notarem qualquer sinal de fraude, então pararemos de imediato, e eu abandonarei todos planos que tenho de persuadi-los ainda mais.
— Muito bem — disse Herr Holtzbrinck. — Prossigamos.
Von Webenau tossiu para chamar a atenção.
— Será esta demonstração na mesma sala de antes? — perguntou ele.
— Não. Precisávamos de uma sala especial – um lugar isolado.
— Uma sala, suponho, que já foi escolhida e preparada pelos senhores? — Mycroft apontou acerbamente.
Quintillan fez uma careta.
— Infelizmente, por razões que se tornarão evidentes quando chegarmos lá, o cômodo precisa ser no andar superior, onde não poderá ser observado ou supervisionado por alguém de fora, mas ficarei feliz em que escolham a sala sozinhos. De fato, antecipei sua solicitação. — Ele acenou para que uma lacaia se aproximasse, segurando uma taça contendo vários pedaços de papel. — Meus criados marcaram números com giz em todos os cômodos no andar superior. Há números equivalentes nas tiras de papel desta taça. Por favor, alguém poderia pegar um papel?
Os representantes se entreolharam por um momento, então por algum acordo tácito, von Webenau se aproximou e pegou um papel da taça. Ele desdobrou-o e leu:
— Vinte e quatro.
— Estão todos satisfeitos que este seja o número escolhido? — perguntou Quintillan.
— Não — disse Mycroft, alto. — Desejo que von Webenau escolha outro número.
— Muito bem. — Quintillan gesticulou para von Webenau, que amassou o primeiro papel, colocou-o sobre a mesa ao lado da taça e puxou outro. Ele o abriu.
— Trinta e cinco — ele anunciou.
Quintillan virou-se para Mycroft.
— Sr. Holmes?
— Estou satisfeito — Mycroft retumbou. — Eu só queria estabelecer se a taça não estava cheia de papéis contendo “vinte e quatro”.
— Então já que estamos satisfeitos em usar a sala trinta e cinco, por favor, sigam-me.
Silman puxou Quintillan para fora da entrada, virou sua cadeira e empurrou-o para fora da vista. Todos os outros a seguiram, mas Mycroft parou junto à mesa. Ele enfiou a mão na taça e tirou um punhado de tiras de papel. Abriu-as, uma após a outra, e deu uma olhada nelas.
— Qual é o veredicto? — perguntou Sherlock.
— São todos diferentes. — Mycroft jogou os papéis de volta na taça. — Eu tinha que ter certeza absoluta.
No átrio, Silman empurrou Quintillan até a sala ascendente. Ambrose Albano já estava lá, com aparência pálida mas resoluta. O sol, que brilhava já alto no céu, refletia em seu olho falso e criava uma explosão de luz branca em sua face.
— Faremos nossa viagem para o piso superior — Quintillan anunciou. — Ficará bem apertado, mas sugiro que subamos primeiro, com o Sr. Crowe, Herr Holtzbrinck e von Webenau. Mandarei a sala ascendente para baixo novamente, e o Sr. Ambrose poderá seguir com os dois senhores Holmes, mais o conde Shuvalov. Alguém discorda desta ideia?
Ninguém se manifestou, então Silman abriu a porta e puxou Quintillan de ré para dentro da sala ascendente. Holtzbrinck, Crowe e von Webenau seguiram-na. A porta se fechou e o dispositivo começou a subir.
O grupo deixado no átrio olhava um para outro sem jeito. Nenhuma palavra foi trocada.
Uma vez que estavam todos juntos novamente no andar superior, Silman empurrou Quintillan ao longo de um dos corredores de ligação e os outros homens foram atrás. Cada uma das portas continha um número riscado sobre ela, mas Sherlock percebeu que elas não estavam em ordem consecutiva. Ele fez uma nota mental dos números conforme passava pelas portas: 15, 42, 11, 49, 27...
Silman continuou empurrando a cadeira de rodas pelo corredor até a sala que continha o número 35. A chave estava inserida pelo lado de fora da fechadura.
— Aqui é onde a demonstração terá lugar — Quintillan anunciou.
Silman girou a chave, puxou-a para fora da fechadura e abriu a porta; Quintillan fez então um gesto para os representantes reunidos ali entrarem.
— Por que não estão os números em ordem? — perguntou Sherlock.
Quintillan virou-se para olhar Sherlock.
— Fui informado de que aqueles que habitam o mundo espiritual têm uma antipatia por ordem e organização — explicou ele. — Eles preferem muito mais que as coisas sejam aleatórias – mais como a natureza do que como a matemática.
— É verdade — Albano confirmou de onde estava atrás do grupo. — Muitas vezes tenho sido informado por aqueles que já passaram para o outro lado que eles preferem muito mais que as coisas estejam desordenadas.
— Oh, entendo — Sherlock disse, mas ele estava se lembrando das letras sobre a mesa para as sessões das noites anteriores. Elas estavam em ordem alfabética, e ninguém havia feito nenhum comentário até então – nem os espíritos e nem Ambrose Albano. Havia aqui algo de estranho sobre os números serem aleatórios.
Todo o grupo entrou na sala com a exceção de Albano. Ele ficou para trás, dizendo:
— Por razões que logo entenderão, eu devo ficar aqui. Isto fará a demonstração ser ainda mais convincente.
A sala estava vazia – sem tapetes, cortinas, nem pinturas na parede. Havia apenas duas aberturas – a porta por onde tinham entrado e uma janela. Também havia um pedaço da parede mais claro que o restante e encimado por um gancho, o que mostrava que uma pintura esteve pendurada ali. A sala estava tão vazia que parecia ter sido previamente preparada para a chegada deles. Sherlock estava prestes a dizer algo quando conde Shuvalov o ultrapassou em fazer isso.
— As salas deste andar todas vazias assim?
— Este andar do castelo não é usado — Quintillan confirmou. — Não há, portanto, nenhum motivo em mobiliá-los.
— Será que podemos verificar os outros cômodos? — perguntou Mycroft.
Quintillan olhou para ele.
— Aí chegamos ao ponto quando suspeitas transformam-se em insulto. Os senhores foram autorizados a escolher uma sala de forma aleatória, e foram permitidos a mudarem sua escolha. Não havia como eu saber que terminaríamos nesta sala. Isto deve ser prova suficiente, Sr. Holmes.
Mycroft afundou-se, mas Sherlock vislumbrou algo em seu rosto. Ao invés de incômodo, era um olhar de diversão. Ele obviamente tinha alguma suspeita de que ainda era um truque, ainda que mais complicado. Sherlock era da mesma opinião.
— Agora, senhores — Quintillan anunciou — por favor, fiquem à vontade para examinar esta sala de cima a baixo e de lado a lado. Chequem todas as pedras da parede e os azulejos do chão em busca de entradas secretas. Quero que estejam seguros de que não há nenhuma maneira de entrar e nenhuma maneira de sair.
Enquanto Mycroft, Sherlock e Amyus Crowe ficaram de um lado, os outros três homens investigaram a fundo as paredes, o piso e o teto. Todos conferenciaram por alguns instantes e, em seguida, viraram-se para Quintillan.
— Como o senhor indicou, não há jeito de entrar ou sair da sala com exceção da janela e da porta — Holtzbrinck declarou com firmeza. — Procuramos, também, por buracos através dos quais alguém poderia observar a sala ou influenciar o que está dentro. Não há buracos ou outras lacunas, e todas as pedras são seguras.
— Excelente — disse Quintillan. — Agora, por favor, examinem a janela. Desejo que certifiquem-se de que ninguém pode subir até aqui vindo de fora.
Von Webenau foi até a janela e abriu-a. Ele se inclinou para fora, olhando para a esquerda e para a direita, para cima e para baixo.
— A parede é inclinada — falou ele, puxando-se para dentro — sem pontos de apoio para as mãos ou para os pés.
— E quanto a hera? — perguntou Shuvalov.
— Não há plantas de nenhum tipo — von Webenau confirmou. — Nada que permitiria que alguém escalando se pendurasse.
— E quanto à parte de cima? — Mycroft falou. — alguém poderia descer pelo telhado?
Von Webenau inclinou-se de novo e olhou para cima.
— Há um beiral considerável — ele avisou lá de fora. — Não consigo ver como uma pessoa poderia descer lá de cima.
— Além disso — Quintillan acrescentou conforme von Webenau voltava a pôr a cabeça para dentro e fechava a janela — demonstrarei dentro em pouco que ninguém poderia descer sem deixar vestígios. — Ele olhou para o conde Shuvalov. — Conde, poderia por favor confirmar que não há como alguém de fora olhar para dentro desta sala?
Shuvalov caminhou até a janela. Von Webenau saiu do seu caminho. Shuvalov olhou para fora por alguns momentos.
— Não vejo como alguém do lado de fora poderia olhar aqui dentro — disse ele finalmente. — As árvores e arbustos são baixos demais para permitir uma visão de alguma coisa além do primeiro piso, mesmo com um telescópio.
— Obrigado — disse Quintillan. — Penso que estamos prontos para continuar.
— Que tal uma cortina? — solicitou Amyus Crowe. — Isso garantirá que ninguém possa ver aqui dentro.
— Ah — respondeu Quintillan — mas devemos deixar um meio de entrada para os espíritos. A cortina poderia bloquear seu acesso.
— Mesmo? — Crowe pareceu cético, mas não perseguiu a questão.
— Sem dúvida. Além do mais — Quintillan sorriu — você ou o Sr. Holmes poderiam argumentar que alguém estava escondendo-se nas cortinas. Se não há cortinas, então não há lugar onde alguém possa se esconder, não é?
Crowe deu de ombros.
— Se diz que sim, Sr. Sadrach.
Um ruído na porta fez com que todos se virassem. Quatro criados entraram, cada um carregando uma grande pintura em uma grossa moldura ornamentada. Representavam um homem em uniforme militar, um cavalo, uma cena clássica com homens de togas de pé e discutindo em um templo e uma paisagem com árvores e colinas. Eles colocaram os quadros alinhados contra a parede que possuía o gancho, e então foram embora.
— Temos aqui quatro pinturas — Quintillan anunciou. — Cada uma das pinturas é diferente das outras. Daqui a pouco todos sairemos, com exceção do Sr. Sherlock Holmes. O resto de nós irá até o telhado, onde demonstrarei que nenhum homem poderia descer sem deixar rastro. Enquanto isso, o jovem Sr. Holmes escolherá um, e somente um, dos quadros e pendurá-lo na parede. Só ele saberá qual pintura escolheu. Também gostaria de pedir ao senhor Holmes que escolhesse a maneira como o pendurará: normal, de cabeça para baixo, ou rotacionado para a esquerda ou para a direita. O Sr. Albano já terá sido vendado e terá tampões de cera colocados em seus ouvidos. Ele será completamente incapaz de ver ou ouvir qualquer coisa, e ainda assim, através da ajuda e assistência dos espíritos, saberá qual pintura e qual orientação o Sr. Holmes escolheu. — Ele olhou para Sherlock. — O seu papel está bem claro, meu jovem?
— Está.
— E sabe por que escolhi você para esta importante tarefa?
— Presumivelmente, porque fui aquele que expôs os truques na noite passada — disse Sherlock.
— Correto. De todos nós, o senhor é o único que não tem como estar em conluio com qualquer trapaça. — Ele olhou em volta. — Agora, senhores, vamos deixar o jovem Sr. Holmes fazer sua escolha. — Ele olhou para Sherlock. — Espere até que tenhamos todos saído e que a porta esteja fechada. Coloque a chave na fechadura para que ninguém possa ver através do buraco, em seguida, escolha e pendure o quadro. Espere até ouvir a minha voz falando lá de cima. Entendeu?
— Entendi.
— E nunca, por sua vida, conte a ninguém qual pintura escolheu, ou a orientação em que pendurou. — Ele fez uma pausa. — Muito bem. — Ele fez um gesto para Silman, que entregou a chave da sala para Sherlock e então levou Quintillan para fora. Os outros a seguiram.
Através da porta aberta, Sherlock pôde ver Ambrose Albano. Um dos criados havia amarrado um grosso pedaço de tecido em torno de seus olhos. Ali estava ele, com os olhos vendados, a cabeça inclinada para um lado como se estivesse se perguntando o que acontecia ao seu redor.
Outra lacaia surgiu a partir do corredor. Ela segurava um longo bastão de madeira. Ela o entregou para Sherlock.
— Tome o bastão — disse Quintillan. — Você precisará dele mais tarde.
Mycroft foi último a sair. Ele virou-se e levantou uma sobrancelha para Sherlock. Sherlock assentiu e Mycroft saiu, fechando a porta atrás de si.
Sherlock foi deixado sozinho.
Ele respirou fundo, e saboreou o silêncio por um momento.
Então, lembrando suas instruções, colocou o bastão contra a parede, caminhou até a porta e colocou a chave na fechadura para que ninguém pudesse olhar pelo buraco. Ele também olhou para a porta mais uma vez para ter certeza de que não havia buracos por onde espiar, mas aquele era um bloco sólido de madeira.
Olhando para pinturas, ele se perguntou se houvera alguma palavra ou frase sub-reptícia que Quintillan tinha usado para convencê-lo a escolher alguma tela em particular. Ele não conseguia pensar em nada. Ele deveria, decidiu, fazer a escolha tão aleatoriamente quanto pudesse. Ele pensou por um momento.
— Tudo bem — falou consigo mesmo. — Quantas letras há no nome “Virginia?” Oito. — Ele começou a contar a partir da pintura da esquerda, reiniciando quando chegou a quarta. Isso significava que quando chegou a oitava, ele estava apontando para a última tela: a paisagem de colinas e árvores. Foi até ela e tentou pegá-la. A pintura era pesada – provavelmente mais por causa da grande moldura do que por qualquer outra coisa. Ele a virou até que a imagem estivesse de cabeça para baixo. Ele a ergueu e colocou sobre o gancho na parede. Recuando, os braços estendidos para o caso de ela cair, esperou por alguns instantes, mas ela ficou estável.
Ele foi até a janela e olhou para fora. Como von Webenau havia dito, não havia como alguém olhar para dentro da sala a partir de fora: a janela era muito alta, e aqui não havia árvores altas, pelo que Sherlock podia observar. A torre que tinha visto algumas vezes anteriormente, a partir de vários pontos ao redor do castelo, poderia fornecer uma plataforma adequada para um observador, mas ele não conseguiu detectá-la. Devia estar em um lado diferente do castelo – era difícil dizer pois a paisagem tendia a ter a mesma aparência em todas as direções, excetuando-se a direção das falésias.
Ele abriu a janela, debruçou-se nela e olhou para baixo. Os terrenos do castelo ficavam lá embaixo, junto à muralha que marcava a fronteira entre os terrenos e o mundo exterior. A muralha estava muito abaixo para que qualquer um pudesse ter uma visão de dentro do cômodo.
— Sr. Holmes! — uma voz chamou de cima. — Você pode me ouvir?
Sherlock virou a cabeça e olhou para cima, mas o beiral do telhado o impedia de ver alguém.
— Sim, eu posso ouvi-lo!
— Você pode trazer o bastão de madeira, por favor?
Sherlock atravessou a sala, pegou o bastão e voltou para a janela.
— Estou com ele.
— Agora, por favor, projete o bastão para fora da janela, e continue segurando uma extremidade.
Com alguma dificuldade, Sherlock equilibrou o bastão no parapeito da janela e deslizou-o para fora, mantendo o suficiente dentro do cômodo para impedi-lo de cair.
— Pronto! — ele falou.
De algum lugar acima, Sherlock ouviu Quintillan dizer:
— Senhores, por favor, confirmem se podem ver o bastão abaixo de nós, provando assim que estamos diretamente acima da sala que vocês viram anteriormente.
Houve uma breve pausa, seguido de um quieto murmúrio de vozes concordando que sim, eles podiam ver o bastão.
— Desculpe-me — disse Mycroft — mas o senhor poderia ter nos levado a um ponto acima de um cômodo diferente, e esse bastão estar nas mãos de um de seus criados. Precisamos estabelecer que é Sherlock que está segurando o bastão.
— O que propõe? — perguntou Quintillan.
— Sherlock! — Mycroft chamou. — Você pode me ouvir?
— Eu posso ouvi-lo!
— Eu vou dizer algumas letras, escolhidas de forma aleatória. Quando eu chegar à primeira letra do nome de um amigo seu que não está aqui, e que vive em um canal, então, puxe o bastão de volta para dentro. Você entendeu?
— Entendi.
— Muito bem. “A, “T”, “L”, “V”, “F”, “L”, “M”...
Quando ele ouviu Mycroft dizer “M”, Sherlock puxou o bastão de volta.
— Está satisfeito? — ele ouviu a voz de Quintillan perguntar à seu irmão.
— Razoavelmente — Mycroft respondeu.
— Sr. Holmes! — Quintillan chamou. — Por favor, fique onde está até que nos veja na grama abaixo da janela, em seguida, saia da sala, tranque a porta e fique de guarda do lado de fora. Enviarei um criado até você ao final. Você entendeu?
— Perfeitamente! — ele gritou.
Ele esperou na janela pelo o que deve ter sido meia hora. A sala estava em silêncio atrás dele, e a paisagem que via era impressionante em sua beleza. O sol estava baixo no céu, e a sombra da muralha nos limites castelo alongava-se sobre a grama.
Eventualmente, uma porta se abriu na parede do castelo abaixo, e ele pôde ver um grupo de figuras emergindo. Um deles estava em uma cadeira de rodas, e outro, sendo conduzido por um criado.
— Sr. Holmes! — Quintillan chamou. A distância tinha deixado sua voz muito baixa. — Pode me ouvir?
— Muito pouco — Sherlock gritou de volta.
— Pode confirmar que a sala se manteve imperturbável desde que saímos?
— Posso. Ninguém além de mim esteve neste cômodo, e ninguém tentou olhar para dentro.
— Muito bem. Por favor, agora venha para fora, tranque a porta e espere que um criado venha para buscá-lo. Manteremos vigilância daqui.
Com um último olhar para verificar se não havia como ver o cômodo a partir de fora em qualquer ponto de vista na paisagem, Sherlock saiu, tirando a chave da fechadura e trancando a porta atrás de si pelo lado de fora.
O corredor estava vazio. Ele ficou ali, de costas contra a porta, a chave no bolso, olhando para a esquerda primeiro, depois para a direita, e depois para a esquerda novamente, certificando-se de que ninguém se aproximava. Ele também prestou atenção para o caso de ouvir alguém se movimentando dentro da sala, mas estava perfeitamente em silêncio.
Vinte minutos se passaram. Nada aconteceu, e Sherlock encontrou sua mente vagueando, tentando descobrir como Quintillan e Albano estavam agindo para gerir seu truque – porque isto tinha que ser um truque. O problema era que ele não conseguia pensar em como isto poderia ser feito. Quintillan aparentemente tinha coberto todas as possibilidades, eliminado-as.
Eventualmente, uma empregada entrou no corredor à esquerda de Sherlock.
— O mestre disse que o senhor me seguiria até lá embaixo. — Ela entregou-lhe um pequeno saco de pano. Sherlock olhou para dentro. Ela estava cheia de pó de giz azul. — O mestre pediu que, por obséquio, este pó fosse esparramado do lado de fora da porta, de modo que se alguém entrar, sua passagem fique marcada.
Sherlock fez o que lhe foi instruído, espalhando o pó não só na frente da porta, mas também no corredor em ambas as direções.
Mesmo se alguém tentasse varrer, entrar no quarto e depois espalhar mais giz na saída, vestígios seriam deixados – disto ele tinha certeza. O corredor teria de ser lavado para remover os vestígios de giz de todas as fendas entre as lajes.
Sherlock seguiu a lacaia escadas abaixo até o átrio, e então, atravessou corredores que não tinha visto antes até uma porta que dava para fora, para o ar livre. A lacaia fez um gesto para que Sherlock prosseguisse.
— Por favor, senhor, o mestre o espera lá fora.
Os cinco representantes internacionais, junto com Quintillan e Albano de olhos vendados, estavam do lado de fora. O sol estava tão baixo que já estava quase atrás da muralha.
Sherlock foi até onde Mycroft estava.
— Como foi? — perguntou ele.
Mycroft encolheu os ombros.
— Muita teatralidade — disse ele. — Nós saímos para a cobertura do castelo, acima do cômodo em que você estava. O telhado é, como sabe, um lugar muito desagradável e possivelmente perigoso. Nós olhamos por sobre a borda para o local onde você estava na sala. O negócio com o bastão de madeira me convenceu de que estávamos no lugar certo. Depois disso ter sido feito, Sir Sadrach pediu a von Webenau para espalhar pó de giz azul em todo o telhado. Penso que ele não possa ser removido facilmente sem deixar vestígios, e por isso estou razoavelmente satisfeito que ninguém passará pelo telhado e descerá para a sala sem nosso conhecimento. Não que eu ache que isto será tentado: descemos até aqui, e você permaneceu na sala. Desde que saiu de lá, estivemos observando a janela e o telhado, e ninguém tentou qualquer descida. O que aconteceu na sala?
Sherlock contou a ele.
— Senhores — Quintillan chamou. — Posso ter sua atenção, por favor? Todos são da opinião de que o único caminho para dentro ou fora da sala é pela porta ou pela janela?
Houve comum assentimento e um murmúrio de “Sim”.
— E todos são da opinião de que não há como alguém entrar naquele cômodo através da porta, ou através da janela, sem deixar vestígios no pó de giz?
Novamente, houve concordância geral.
— E todos são da opinião de que a janela é tão alta, e a paisagem circundante tão baixa, que ninguém poderia olhar para dentro da sala pelo lado de fora e ver a pintura que o jovem Sr. Holmes colocou na parede?
Todos concordaram que este era o caso.
— Eles só poderiam ver do telhado — Herr Holtzbrinck acrescentou. — O muro seria muito baixo para que pudessem ver.
— Então, creio que podemos nos colocar nas mãos do Sr. Albano.
Uma das servas deu uma leve batida no ombro de Albano. Ele deu um passo a frente, ainda com os olhos vendados. Ele ergueu as mãos e puxou duas pequenas bolas de cera de seus ouvidos e as jogou fora, então estendeu as mãos e abriu os braços em um gesto amigável.
— Senhores — disse ele. — Amigos, se é que posso chamá-los assim. Para minha eterna vergonha, tem havido certo grau de fraude em nosso relacionamento com vocês até o momento. Lamento profundamente por estas fraudes, mas Sir Sadrach não estava certo de que meu estado físico e mental estivesse forte o suficiente para realizar com sucesso duas sessões convincentes. Talvez devêssemos ter tentado assim mesmo. Talvez devêssemos ter adiado a demonstração e o leilão até que eu estivesse mais forte. No entanto, como um homem muito sábio disse certa vez: “Estamos onde estamos”, e não podemos voltar atrás e mudar o que foi feito. Espero que, manifestando meus poderes em seu potencial máximo agora, num ambiente onde vocês exaustivamente procuraram por sinais de trapaça sem encontrá-los, nós possamos convencê-los de que o que ocorreu foi um evento infeliz mas de menor importância, a ser eclipsado por outra forma de demonstração bem-sucedida. Agora, os senhores terão de concordar, ou não terão, que por nenhuma ação humana poderia saber-se qual das quatro pinturas o jovem Sr. Holmes pendurou na parede?
Holtzbrinck, von Webenau e Shuvalov concordaram mais uma vez. Crowe e Mycroft apenas olharam sem comprometer-se.
— A marca de um fraudador de crenças — Crowe murmurou, baixo o suficiente para que apenas Mycroft e Sherlock pudessem ouvi-lo — é fazer com que seu público concorde com ele tanto quanto possível. Isso os coloca em um estado de espírito onde, quando ele diz algo falso ou improvável, eles estarão mais propensos a concordar com ele novamente.
— Vocês devem concordar também que eu, estando vendado desde antes de o jovem Sr. Holmes fazer a sua escolha, não poderia ter visto coisa alguma, ou que tenha sido passada qualquer mensagem. Estive sob a vista dos senhores o tempo todo. — Ele tirou a venda dos olhos com um floreio teatral. — Nesse caso, não preciso mais disso. A escolha foi feita, a sorte foi lançada, e resta-me determinar qual foi a escolha. Agora vou comunicar-me com o plano psíquico — Albano continuou — e persuadir um dos espíritos residentes a se materializar no cômodo acima. Por favor, fiquem o mais quietos que puderem. Esta é uma operação muito delicada e facilmente interrompida.
Ele olhou para cada um dos homens presente por alguns segundos. Quando seu olhar se voltou para Sherlock, o menino sentiu-se paralisado pela forma como o olho falso de Albano parecia brilhar em branco à luz do pôr do sol se aproximando.
O silêncio era quase insuportável. Eventualmente, ele foi quebrado quando Albano bateu palmas, então se virou e se afastou do grupo em direção à muralha. Ele ficou ali, olhando para as sombras recolhidas. Estendeu os braços, jogou a cabeça para trás, e começou a cantar em voz baixa.
— Ocorre-me — disse Mycroft, baixinho — que, mesmo que ele conjecture, terá uma chance em dezesseis de acertar. Há quatro pinturas e quatro maneiras de pendurar cada pintura.
— Estas são probabilidades muito escassas — Crowe apontou. — Não é como se ele pudesse repetir essas travessuras mais quinze vezes com diferentes representantes internacionais até que consiga acertar. Ele tem uma chance agora, e tem de acertar da primeira vez, se quiser que alguém acredite. — Ele fez uma pausa. — Não que eu esteja inclinado a acreditar nele, mesmo que ele acerte. Sei que ainda há algum truque envolvido – eu só não sei qual.
— Concordo — disse Mycroft. — Tem havido um alto grau de teatralidade nestes procedimentos – o giz, o agitar do bastão de madeira, a venda e os tampões de ouvido. Suspeito que são todos feitos para nos distrair das partes mais incomuns dos procedimentos.
— Que são? — Sherlock perguntou.
— Por que não nos diz você? — devolveu Crowe.
Sherlock coletou seus pensamentos.
— Bem, essa coisa toda sobre suspender as pinturas na parede é estranha. Ele poderia ter escolhido uma série de coisas diferentes. Por que usar algo tão grande e pesado?
Mycroft assentiu.
— Muito bom até agora. Continue.
— A numeração aleatória dos cômodos é estranho também. Eu não acredito nessa coisa de que os espíritos não gostam de coisas ordenadas. As letras sobre a mesa da sessão estavam em ordem alfabética.
— Novamente, um bom argumento, e suspeito que o truque dependa desta numeração aleatória. Sempre terminaríamos obrigatoriamente naquele cômodo, creio eu.
— O terceiro ponto é o próprio cômodo. Você mencionou a falta de cortinas, Sr. Crowe. A explicação de Sir Sadrach realmente não fez muito sentido. O truque deve ter algo a ver com o fato de a janela não estar bloqueada, ainda assim eu não consigo ver como. — Ele indicou a sala, vários andares acima, com um aceno de cabeça. — Não há realmente nenhuma maneira de ver a partir do nível do solo, ou em qualquer lugar fora dos muros. É impossível.
— E, no entanto — Crowe murmurou — isso vai acontecer.
Eles conversaram em voz baixa por um bom tempo conforme o sol se punha no horizonte e o céu passava do azul ao púrpura, do púrpura ao vermelho e do vermelho ao preto. O calor foi sugado do ar, e Sherlock se encontrou tremendo. Uma empregada emergiu do castelo com um cobertor, que Silman colocou sobre as pernas de Quintillan. Todo o tempo Albano permaneceu em campo aberto, sozinho, com as mãos estendidas, murmurando para si mesmo, aparentemente em comunhão com os espíritos.
Eventualmente Albano virou-se e caminhou de volta para o grupo. Todos agruparam-se em volta dele – três ansiosamente e três com algum ceticismo.
— Consegui convencer um espírito a aderir ao meu pedido — disse ele. — É meu velho amigo e guia espiritual, aquele que agora se chama Invictus. Ele retornou do cômodo acima e contou-me que a resposta é... — Ele fez uma pausa dramática. — A pintura da paisagem está pendurada na sala, e pendurada de cabeça para baixo.
Todos se viraram para Sherlock.
— É verdade? — perguntou Herr Holtzbrinck ofegante.
Por um momento Sherlock teve um desejo quase incontrolável de mentir, mas ele não podia fazer isso. Ele sabia que havia um truque aqui, mas teria de ser completamente honesto.
— Sim — disse ele. — Eu pendurei a paisagem na parede, e de cabeça para baixo.
Albano jogou a cabeça para trás e riu, enquanto von Webenau, Holtzbrinck e conde Shuvalov aplaudiam loucamente.

Um comentário:

  1. Meu deus...
    Sherlock você tem um talento natural para encontrar cadáveres

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Boa leitura :)