20 de setembro de 2017

Capítulo oito

PARA SHERLOCK – E, ELE SUSPEITAVA, para Matty – era uma recapitulação da vigia que eles haviam feito no necrotério. Era maçante e mentalmente entorpecedor da mesma maneira. Em certo momento uma carruagem passou pela estrada, e um menino passou em sua bicicleta, mas isso era tudo.
O sol não era visível de onde os dois estavam sentados. Com as suas costas apoiadas contra o tronco da árvore, eles podiam acompanhar a trajetória do sol pelo modo como as sombras avançavam na estrada entre a floresta e os portões da casa. Minutos e então horas passaram vagarosamente. Formigas vindas de um formigueiro próximo investigavam os recém-chegados ao bosque. Sherlock sentiu quando elas escalaram sua perna, fazendo cócegas, enquanto passavam dele para a árvore, e acompanhou o trajeto delas enquanto a sensação de cócegas subia pelo seu corpo. Depois de um tempo as formigas se cansaram dele, presumivelmente porque ele não era uma fonte óbvia de açúcar, e foram em frente. Para Matty, provavelmente, a julgar pelo som abafado das palavras “Mas o quê... saiam de mim, seus vermezinhos!” que Sherlock ouviu.
A brisa balançava as folhas das árvores, fazendo um calmo som de sussurro, como ondas quebrando contra uma praia distante. Sherlock perdeu a noção de tempo completamente. Havia somente um momento constante se estendendo a sua frente até onde ele conseguia perceber.
Um barulho mecânico repentino vindo da estrada despertou completamente os dois garotos. Era o som de engrenagens e correntes – o som de uma bicicleta.
Eles encararam a estrada, sabendo que poderia ser somente mais uma pessoa passando, mas também cientes de que poderia, finalmente, ser o carteiro.
Era o carteiro. Ele desacelerou perto dos portões de Gresham Lodge, desmontando habilmente de sua bicicleta enquanto parava completamente. Ele não era muito mais velho do que Sherlock, mas usava um uniforme escuro e um quepe, e carregava uma bolsa de lona encorpada na parte de trás da bicicleta. Ele a pegou, abriu, vasculhou dentro dela e puxou um pequeno pacote. Voltando-se para a caixa de correio presa à parede, ele a encarou por alguns instantes, então olhou para o pacote. Sherlock pensou que ele estava tentando adivinhar se conseguiria fazer o pacote passar pela abertura da caixa. Em seguida decidiu que não valia a pena tentar e pegou em seu bolso um molho de chaves. Cada chave tinha uma etiqueta presa nela. Todas deveriam ser de diferentes caixas de correio das casas ao longo de seu percurso – pelo menos das casas cujos ocupantes trancavam seus portões e tinham suas encomendas entregues pelas caixas de correio. Pela experiência de Sherlock, a maioria das casas grandes preferia que o carteiro fosse até a porta de entrada para entregar e coletar as cartas. Quem morava em Gresham Lodge valorizava sua privacidade.
O carteiro abriu a caixa de correio, colocou o pacote dentro e então a trancou novamente. Dentro de poucos segundos ele já pedalava novamente, assoviando uma canção.
A cabeça de Matty apareceu pela curva do tronco da árvore.
— O que você quer fazer? — ele sussurrou. — Quer arrombar a fechadura e dar uma olhada no embrulho?
— Não tem porquê — Sherlock sussurrou de volta. — Nós temos quase certeza do que tem dentro. Você viu a caixa sendo embrulhada. Vamos esperar e ver quem a retira.
A espera se prolongou. O sol estava mais baixo no céu agora, e o tempo esfriava. O estômago de Sherlock roncava, e ele achou que podia ouvir barulhos vulcânicos vindos da direção de Matty também. Ele tentou ignorar a fome o melhor que pôde.
Já era fim de tarde quando ouviu o barulho de uma chave na fechadura. Ele voltou sua atenção do esquilo que estivera observando para os portões de Gresham Lodge. O sol estava atrás da casa agora, o que queria dizer que os muros ao redor do terreno lançavam uma longa sombra sobre a estrada. Os portões estavam quase invisíveis, mas Sherlock pensou que conseguiria saber quando eles se abrissem. Nada aconteceu por um longo tempo. O bosque parecia se aquietar – os pássaros e os insetos subitamente silenciando como se estivessem esperando algo acontecer. Então justo quando Sherlock começou a achar que seus olhos e seus ouvidos estivessem pregando uma peça, uma sombra mais escura deslizou da abertura entre o portão fechado e o que estava aberto. Até onde Sherlock podia perceber, era só parte da escuridão que se movia, mas de alguma maneira dava a impressão de ser maior, mais volumoso do que um homem normal, porém encurvado ao mesmo tempo. Também passava a impressão de estar em alerta, como se estivesse observando ao seu redor por qualquer coisa que ameaçasse sua segurança. Havia algo feroz, animalesco sobre aquilo.
A figura foi até a caixa de correio, obstruindo-a na escuridão, e Sherlock novamente ouviu o barulho de uma chave sendo usada. Momentos depois a figura retornou aos portões da casa. Parou ali, e naquele momento um raio de sol passou entre duas chaminés no topo da casa e iluminou a figura por trás. Quem quer que fosse, estava enrolado em um grosso casaco de couro e usava um chapéu de couro esticado até seu rosto. Julgando pela posição de sua cabeça, Sherlock calculou que tinha aproximadamente dois metros de altura. Ocorreu a Sherlock que deveria ser a mesma pessoa que ele vira no telhado da casa quando passava de barco, e então de novo na carruagem que entrara na casa alguns dias antes. O homem com cicatrizes nas mãos.
O homem ficou ali por um tempo, observando e esperando, então deslizou para dentro das sombras novamente. O portão se fechou com um clank, e então Sherlock ouviu o barulho da corrente e do cadeado se fechando.
Ele contou até cem, para o caso de o homem grande ainda estar por ali, nas sombras, observando, então desceu da árvore e cruzou a estrada até chegar aos portões. Eles estavam, de fato, trancados de novo. Matty se juntou a ele.
— Bem, foi uma tarde divertida — comentou — mas não estou certo se sabemos mais agora do que sabíamos antes.
— Nós estamos só ligando os pontos. — Sherlock disse pensativamente. — Nós rastreamos os itens roubados do necrotério até aqui. Sabemos que este lugar está ligado aos roubos.
— Ótimo — Matty disse — Então, de volta a Oxford para comermos, certo?
— Receio que não.
— Achei que você pudesse dizer isso. — Matty suspirou — Você quer entrar, não quer?
— Só subir em uma janela, para poder ver o pacote sendo aberto. Tem alguma ideia?
— Julgando pela cautela que aquele sujeito grande de casaco tinha, ele não deve ter nenhuma brecha no muro. Ele consertaria assim que encontrasse uma. Nossa melhor chance é encontrar uma árvore que esteja bem perto do muro e subir por lá.
— Ele não podaria regularmente os galhos da mesma maneira como procuraria por brechas no muro?
— Não. Porque ele é um sujeito grande, então só vai procurar por passagens que aguentem seu próprio peso. Vai se esquecer que existem pessoas menores por aí. Como eu.
— Mas eu sou maior que você — Sherlock observou — um galho que o aguenta pode vir a quebrar sob meu peso.
— Sim — Matty disse, abrindo sua jaqueta para revelar uma corda escondida em volta da cintura. — Mas eu vim preparado. Eu vou subir, e depois jogo esta corda para que você possa escalar.
Você pode aguentar meu peso?
— Se eu não encontrar um tronco de árvore do outro lado para amarrar a corda, então terei que aguentar, não?
Tudo transcorreu da maneira que Matty havia descrito. Eles andaram ao redor dos muros da casa até encontrar um galho de árvore que se projetasse por cima do muro, então Matty escalou como um macaco. Assim que havia passado para o outro lado, jogou a corda de volta na direção de Sherlock. Ele deve ter encontrado um ponto de apoio, porque quando Sherlock puxou a corda, ela ficou firme. Ele escalou, os pés contra o muro e as mãos segurando firmemente a corda. Quando chegou ao topo, parou e olhou ao redor, mas tudo estava quieto. A aura sombria da casa parecia pairar sobre ele. Sherlock cuidadosamente desceu paro o gramado de Gresham Lodge. Parecia estar muito mais frio do lado de dentro dos muros do que do lado de fora, e, mesmo de costas para a casa, Sherlock estava ciente de sua presença. Ele podia sentir que ela o observava. Ele deu de ombros, tentando se livrar da sensação indesejada. Casas não tinham olhos, e não tinham personalidades. Não observavam pessoas, ou pairavam sobre elas. Ele só estava um pouco desorientado pela falta de comida, só isso.
Olhando de lado para Matty, Sherlock podia ver que o rosto do garoto estava pálido e tenso. Ele também estava sentindo, seja lá o que isso fosse.
— Vamos. Vamos acabar com isso o mais rápido possível.
— Eu perdi alguma placa? — Matty perguntou. — Isto é um asilo? Porque certamente se parece com um.
— É só uma casa — ele olhou para sua fachada inexpressiva novamente. — Só uma casa comum.
Os dois correram ao longo do terreno, mirando o canto da casa para que estivessem fora da linha de visão de qualquer um nas janelas. Quando chegaram lá, se espremeram-se contra a parede de alvenaria. A casa parecia estranhamente quente sob as palmas das mãos de Sherlock. Deveria ser o calor do sol ainda se prolongando nos tijolos, ele falou a si mesmo.
Ele seguiu pela lateral da casa até a janela mais próxima e espreitou pela beirada. Do lado de dentro parecia ser uma sala de jantar: uma mesa longa e escura com velas. O cômodo estava vazio. Ele gesticulou para Matty, e eles avançaram para a próxima janela.
Esta dava para um cômodo que estava revestido de armários de madeira com portas de vidro. Pelo ângulo que estava olhando, Sherlock não conseguia ver o que havia nos armários. Havia duas portas para sair do cômodo – uma do outro lado da janela, presumivelmente levando a um corredor, e uma a direita de Sherlock, a qual, ele assumiu, levava a outro cômodo.
Ele estava prestes a mudar de posição para ter uma visão melhor quando a porta que estava à direita abriu e um homem entrou.
O recém-chegado era o homem que havia coletado o pacote da caixa de correio. Ele havia tirado seu chapéu, mas ainda vestia seu grande casaco de couro. Ele cobria a porta de lado a lado, de cima a baixo, mas na luz tremulante da lâmpada a gás que iluminava o ambiente, Sherlock podia ver que ele usava uma máscara de couro no rosto. Ele ouviu Matty prender a respiração ao seu lado enquanto via a cena. A máscara era feita de fragmentos de couro de vários tons, tamanhos e formas, todos remendados juntos. Havia dois furos para os olhos, mas a luz não chegava até eles, então eram só dois buracos escuros.
O sujeito segurava a caixa que estava no pacote. Ele caminhou até um dos armários e abriu o vidro. Ele abriu a caixa lá dentro, tirou algum objeto de dentro dela e o colocou no armário, fechando-o novamente. Ele ficou parado, encarando o objeto por um momento, então saiu do cômodo, levando a caixa consigo. Fechou a porta atrás de si quando saiu.
Se aquele fosse o dedo do pé que havia sido roubado do necrotério, então o homem misterioso o havia colocado dentro da vitrine. A lógica falou para Sherlock que tudo mais que havia dentro da vitrine deveria ser uma parte de corpo roubada, mas por quê? Qual era o objetivo?
Ele sentiu uma onda agonizante de curiosidade se abater sobre ele. Ele tinha que entrar no cômodo!
— Podemos entrar? — ele sussurrou.
— Eu não sei... você trouxe um macaco?
Sherlock encarou seu amigo:
— Não seja debochado.
— Se eu soubesse o que isso significa, então eu não seria. — Matty correu as mãos pela borda da janela — Este lugar é bem velho — ele sussurrou. — Acho que conseguiria soltar um pouco dessa moldura da janela, mas suponho que você não queira deixar nenhum vestígio.
— Isso mesmo — Sherlock sussurrou de volta — sem barulho e sem nenhuma evidência de que estivemos aqui.
O olhar de Matty analisou a janela novamente. Ele a empurrou levemente. A parte de baixo era obviamente feita para ser deslizada para cima se alguém na casa quisesse abrir a janela, mas havia um parafuso na parte de cima que impedia qualquer um de abri-la pelo lado de fora. Sherlock a ouviu estalar.
— Certo, acho que consigo fazer isso — Matty falou.
Ele pegou em seu bolso um carretel de fio. Rapidamente puxou um pouco do fio e o forçou até arrebentar. Então fez um laço em uma das pontas e inseriu-o pela fresta entre as duas partes da janela. Ele ficou tentando pescar o parafuso por alguns instantes até que conseguiu. Colocou o laço ao redor do parafuso e puxou. O parafuso caiu para trás.
— Você já fez isso antes — Sherlock cochichou acusadoramente.
— Não fiz não!
— Então porque mantém um carretel de fio no seu bolso?
— Porque é útil para vários tipos de coisas. Se um homem tem um canivete e um carretel de fio, pode fazer praticamente qualquer coisa. E reparar qualquer coisa.
Sherlock olhou para a janela:
— Você parecia saber exatamente o que fazer ali.
— Era óbvio, não era? — Matty protestou.
Sem retrucar, Sherlock cuidadosamente colocou as mãos contra o vidro da parte de baixo da janela e empurrou para cima. Havia um contrapeso em algum lugar ali dentro, porque a janela subiu sem barulho e sem esforço. Sherlock olhou para Matty:
— Você vem?
— Você quer que eu vá, ou quer que eu fique aqui do lado de fora, montando guarda?
— Acho que o risco maior é de alguém vir pelo corredor e entrar na sala do que dar a volta pela casa e ver a janela aberta.
— Certo.
Sherlock subiu pelo peitoril da janela e entrou no cômodo. Ele olhou para as vitrines e arfou.
Elas estavam cheias de partes de corpos.
Sherlock ouviu um baque no carpete ao seu lado quando Matty entrou na sala. Alguns segundos depois o garoto engasgou e disse:
— Oh, meu Deus! O que é esse lugar?
Sherlock não sabia. Ele estava petrificado pela visão de braços, mãos, pernas, pés, olhos e orelhas, todos cuidadosamente colocados sobre um veludo roxo. Todas as mãos estavam juntas em um armário, todas as orelhas em outro... tudo estava agrupado com seus similares. Vê-los juntos, e separados de seus corpos, deixava Sherlock maravilhado em perceber como eram diferentes uns dos outros. No caso das mãos, havia mãos grandes, pequenas, mãos peludas com unhas despedaçadas, mãos delicadas... todas as possíveis variações – e muito mais do que era possível ter vindo do necrotério de Oxford, Sherlock percebeu.  Esses roubos eram maiores do que ele havia imaginado.
As mãos tinham sido cortadas perfeitamente perto do pulso, ele percebeu. Não havia sangue, nenhuma parte dilacerada ou machucada. Todas pareciam ainda estar presas aos seus corpos.
Havia etiquetas ao lado de cada mão, ele notou. Estavam escritas com uma elegante caligrafia arredondada, e pareciam retratar a ocupação da pessoa a quem a mão pertenceu. Uma delas dizia “Trabalhador braçal”. Outra dizia “datilógrafo”.
Na mente de Sherlock, uma teoria começou a se formar.
Matty estava pasmo olhando uma caixa que continha globos oculares. Sherlock foi se juntar a ele. Os olhos não eram tão diferentes uns dos outros como as mãos, mas cada um era de uma cor diferente, e nas etiquetas dessa vez estava escrito: “Míope”, “boa visão” e “cego”.
— Eles estão olhando para mim — Matty sussurrou roucamente.
— É sua imaginação.
Matty deu um passo para o lado:
Não, eles estão definitivamente me observando. Estão me seguindo pela sala.
— É uma ilusão de ótica. A mesma coisa acontece com retratos bem pintados, eles parecem estar te olhando o tempo todo.
— Talvez eles também estejam.
De fato, Sherlock tinha que admitir que na luz bruxuleante do cômodo os olhos realmente pareciam se virar levemente sobre o veludo.
— Como eles podem não estar deteriorados? — Matty perguntou. — O que os está mantendo frescos?
— Eu estava me perguntando isso.
— Eles estão, tipo, preservados em álcool ou algo assim?
— Eles não estão em garrafas, flutuando em líquidos.
— Mumificados então, como aqueles sujeitos do Egito?
— Múmias são enrugadas e marrons por causa do processo de preservação. Elas não aparentam estar frescas assim.
— Bem, então o que é? Magia?
Sherlock apontou para as mãos no estojo:
— Olhe para elas. Você nota alguma coisa?
Matty se agachou, um arrepio fazendo seus ombros tremerem.
— Elas parecem boas demais para ser verdade. E deveria haver algum machucado ou corte onde foram removidas do braço, mas não tem nada.
— Elas não são de verdade — Sherlock anunciou firmemente. — Olhe para a pele... está ligeiramente brilhante. São modelos de cera, não mãos de verdade — ele se virou e indicou os olhos — se eles fossem de verdade, pareceriam mais como ovos escalfados, todos murchos e sem cor, mas eles estão perfeitos. São feitos de cera também, acho.
Matty encarou Sherlock.
— Então alguém rouba essas coisas do necrotério, as envia para Londres, onde alguém as manda de volta, e, quando chegam aqui, estão transformados de carne para cera? Isso não faz sentido algum!
— Faz sentido se a caixa que retornou não for a mesma caixa do último roubo, se for a do roubo anterior. — Sherlock pensou por um instante. — O agente de Mycroft não viu o que aconteceu com a caixa enquanto ela estava dentro da casa, e não pode ter certeza se a que o homem enviou foi a mesma que foi entregue. Em algum momento, o dedo roubado foi retirado da caixa e outra coisa foi colocada em seu lugar, ou a caixa foi trocada por outra similar.
Ele olhou ao redor, tentando lembrar onde o sujeito grande estava parado quando ele e Matty observavam pela janela. Sim, era mais perto do canto do cômodo. Ele atravessou a sala e rapidamente esquadrinhou o armário. Oito dedos estavam alinhados lá dentro, no veludo. As pontas pareciam ter sido perfeitamente cortadas, mostrando o osso, o tecido e gordura, mas, olhando de perto, Sherlock podia perceber que estava tudo perfeito demais. A carne era da cor escarlate de sangue fresco, não a cor de ferrugem do sangue seco, e o brilho da cera fazia parecer como se estivessem molhados, não secos.
Um dos dedos falsos estava levemente torto, como se tivesse acabado de ser colocado na caixa, e apressadamente.
— Acho que da próxima vez que houver um roubo, seja lá o que for roubado será enviado a Londres e um dedo de cera será enviado para cá. Alguém em Londres está fazendo cópias de cera dos pedaços de corpos roubados.
— O que estão fazendo com os originais? — Matty quis saber.
— Jogando-os fora — — Sherlock arriscou. — ou talvez os queimando... se tiverem algum sentimento cristão.
Matty olhou ao redor novamente, mas estava relaxando agora que sabia que os pedaços de corpos não eram reais.
— Então isso é... o quê? Algum tipo de exibição? Como em um museu?
— Deve ser. Mas por quê? Qual o objetivo disso?
Matty andou ao longo da sala.
— Talvez existam outros cômodos com outras coisas dentro deles que possam nos esclarecer.
Antes que Sherlock pudesse impedi-lo, Matty abriu a porta de uma vez e olhou para o corredor. Rapidamente puxou sua cabeça de volta e fechou a porta.
— O que aconteceu? — Sherlock perguntou.
— Era um gato. — Matty respondeu. — Ele me assustou.
Ele abriu a porta de novo e olhou lá fora.
— Certo, ele já foi embora. Vamos ver qual é a próxima porta.
Rapidamente ele saiu porta afora. Com passos abafados, Sherlock o seguiu.
De um dos lados, o corredor possuía uma porta e depois desaparecia em uma curva. Um gato estava sentado no final dele, se lambendo. Havia mais três portas do outro lado. Matty avançou até a próxima porta e encostou o ouvido contra ela. Sherlock se juntou a ele o mais silenciosamente possível. Ambos escutaram com atenção, mas não escutaram nada lá dentro. Eventualmente Sherlock segurou a maçaneta e a girou lentamente. Não houve reação de dentro do cômodo. Ele abriu a porta.
Uma onda de calor emergiu para o corredor, fazendo com que os olhos de Sherlock lacrimejassem. Matty estremeceu.
¾    Alguém realmente não gosta do frio — ele murmurou.
Os dois entraram no aposento e fecharam a porta. Este cômodo era muito mais escuro que o anterior, não sendo iluminado por lâmpadas a gás, mas por carvão que rescendia ferozmente na lareira. Havia um cheiro de algo forte, como vinagre.
Ao invés de armários de vidro, o cômodo estava revestido de caixas de vidro. Eram, Sherlock pensou, aquários onde se colocar peixes, mas somente algumas delas estavam cheias de água. Outras continham areia, ou terra, ou ramos de árvore.
Por um momento, a memória de Sherlock voltou para o museu Passmore Edwards em Londres, onde ele havia sido atacado por um falcão uma vez. Lá também havia caixas de vidro, e cada caixa fora projetada para parecer um ambiente diferente – praia, floresta, campo. Os habitantes daquelas caixas eram animais empalhados, feitos para parecer o mais real possível. Sherlock teve um pressentimento terrível, baseado no calor intenso do fogo, que o que estivesse naquelas caixas não era empalhado.
Ele se aproximou de uma delas, sentindo uma estranha mistura de curiosidade e repulsa.
Esta caixa estava cheia até a metade de rochas e pedrinhas. Sherlock não conseguia ver mais nada dentro. Ele se aproximou mais, o nariz quase pressionado contra o vidro. Uma das pedras subitamente atacou em sua direção.
Sherlock pulou para trás. O que ele havia pensado ser uma enorme pedra era na verdade algum tipo de aracnídeo. Ela havia desdobrado suas pernas e estava armada, a parte traseira erguida. Seu corpo se estendia na parte de trás em uma longa cauda que acenava acima de sua cabeça abaixada. Um ferrão no fim da cauda batia no vidro com um barulho estalado, deixando borrões viscosos para trás. Um par de garras afiadas ondulava na frente do bicho, abrindo e fechando com uma intenção perversa. Sherlock nunca tinha visto nada como aquilo.
Ele se afastou, indo para a próxima caixa, e o aracnídeo acompanhou seu trajeto até alcançar o vidro que demarcava o fim de seu pequeno mundo.
A próxima caixa estava cheia com ramos, galhos e folhas. Cauteloso dessa vez, Sherlock se manteve afastado. Ele olhou pelo vidro, tentando descobrir que tipo de criatura estava lá dentro. Levou alguns minutos, mas enfim percebeu que um dos gravetos não era um graveto coisa nenhuma – era algum tipo de inseto, com um corpo fino e pernas mais finas ainda, e sua cor era quase a mesma da vegetação onde ele estava escondido. Sua cabeça era grande, seus olhos também, mas eles eram verdes, como uma folha.
Sherlock foi até a próxima caixa, sentindo-se ligeiramente doente.
A caixa estava cheia de água e tinha areia no fundo. No meio dela flutuava algo que se assemelhava a uma água-viva com tentáculos que se moviam calmamente na água. Um punhado de pequenos peixes listrados nadavam no tanque também, e Sherlock notou que eles se mantinham bem afastados da coisa que parecia uma água-viva – todos exceto um deles, que investigava a borda entre o vidro e a areia quando um dos tentáculos foi em sua direção. O peixe estremeceu repentinamente, então virou de barriga para cima e começou a flutuar na direção da superfície da água.
Veneno, Sherlock pensou. A criatura parecida com água-viva tinha veneno em seus tentáculos. O aracnídeo havia deixado rastros de algo no vidro que poderia muito bem ser veneno também. Sherlock teve um pressentimento de que, se tivesse colocado a mão dentro da caixa com o que parecia ser um graveto e tentado encostar nele, descobriria que ele também era venenoso.
— Olhe isso — Matty falou.
Sherlock foi ao seu encontro. A caixa de vidro que Matty observava com tanta fascinação estava cheia de folhas verde-brilhantes. Em algumas das folhas sapos estavam parados, mas estes eram diferentes dos tipos de sapo que Sherlock estava acostumado a ver em lagos. Estes eram  vermelho-vivo, e não muito maior que seu dedão.
— O que é esse lugar? Algum tipo de zoológico? — Matty perguntou em um tom amedrontado. — Eu ainda tenho pesadelos com aqueles dois enormes répteis que nos atacaram na América! O que encontraremos no próximo cômodo? Um leão? Um casal de crocodilos?
— Eu acho que não. — Sherlock olhou ao redor, tentando absorver tudo aquilo. — Qual a primeira coisa que vem a sua mente quando você olha em volta?
— A primeira coisa que eu penso é “Eca!” A segunda coisa é que eu quero sair daqui logo e tomar um longo banho.
— Tem um motivo para você pensar isso — Sherlock observou.
— Sim... a razão é que estas coisas são todas horríveis e fazem minha pele arrepiar!
— Mas por que esses animais são tão horríveis? — Sherlock perguntou. — Por que eles fazem com que a sua pele se arrepie? Olhe em volta... o motivo é que eles são todos venenosos. — Ele apontou para o animal que parecia um aracnídeo, que havia parado de bater no vidro com sua cauda e agora os observava com pequenos olhos pretos. — Acho que aquilo se chama escorpião. Tem veneno na cauda. Eles existem na África, na América e em outros lugares. — Ele moveu seu dedo para apontar para os sapos. — A cor viva desses anfíbios é um aviso para pássaros e outros animais não os comerem, porque eles têm veneno na pele. Eu me lembro de ler em algum lugar que tribos da América do Sul usam esse veneno em suas flechas.
Ele andou até um dos tanques cheios d’água. Flutuando lá dentro havia um pequeno peixe. Sherlock bateu no vidro com os nós dos dedos. Em poucos segundos o peixe inchou até ficar várias vezes maior que seu tamanho anterior, e espinhos surgiram em sua pele.
— Isso é um baiacu. Ele infla para intimidar predadores, e seus espinhos contém veneno. Contaram-me sobre isso quando eu estava no Japão.
— Achei que você tivesse ido para a China — Matty observou.
Sherlock deu de ombros.
— Nós paramos no Japão por algumas semanas na volta.
— Você nunca mencionou isso antes.
— Por uma razão — Sherlock respondeu de maneira sombria. — Mas de qualquer maneira... este peixe é uma iguaria no Japão, mas os chefs precisam ter muito cuidado para remover os espinhos venenosos primeiro, caso contrário o cliente poderia morrer.
Matty indicou o tanque onde o animal que parecia uma água-viva flutuava:
— É uma água-viva, certo? Elas são encontradas na costa marítima.
— Não exatamente. Se eu identifiquei corretamente, isso é uma vespa-do-mar. Ela tem veneno em seus tentáculos que é centenas de vezes mais tóxico do que o veneno de uma cobra.
Ele olhou ao redor novamente, assimilando cada tanque.
— Sim, creio que tudo aqui é venenoso. Somando isso e as partes de corpos de cera, tudo faz sentido!
— Faz? — Matty não tinha tanta certeza.
— Sim, se você se perguntar por que alguém teria esse tipo de coleção? Para que usariam isso?
— Eu fico me perguntando isso. — Matty olhou ao redor duvidosamente. — Não consigo pensar em uma resposta.
Sherlock havia acabado de abrir a boca, pronto para dizer ao seu amigo o que havia desvendado, quando a porta lateral que levava ao próximo aposento se abriu repentinamente. Um homem estava parado sob a soleira da porta – não o homem grande e cheio de cicatrizes que Sherlock vira antes, mas um homem menor, vestindo um traje preto e colete listrado. Sua cabeça estava raspada, e seus olhos pequenos quase se escondiam na carne de seu rosto. Seu olhar foi instantaneamente de Sherlock para Matty, e então ele berrou:
— Chefe, nós temos ladrões!
— Rápido. — Sherlock gritou para Matty. — Vá até...
Ele foi interrompido quando o homem correu até ele, os punhos erguidos.
Sherlock se afastou, erguendo seu próprio punho em defesa. O homem lançou um soco firme na cabeça de Sherlock. Sherlock desviou para a direita e ergueu seu punho contra o queixo do homem. Foi como bater em tijolos. O homem deu um passo para trás, franzindo o cenho, enquanto Sherlock esfregava os nós dos dedos que latejavam.
O homem foi para frente de novo. Sangue gotejava de um lábio partido. Ele atacou com seu punho direito novamente, mas era uma estratégia. Sherlock não viu sua mão esquerda vindo pela lateral, e foi acertado em cheio na orelha. Uma pontada aguda de dor atravessou sua cabeça, e ele caiu de lado.
O homem chutou o estômago de Sherlock. Sherlock rolou de lado, e o pé o acertou nas costas. Dor explodiu por todo seu corpo, mas através da neblina de agonia, Sherlock sabia que isso era melhor do que se o pé tivesse acertado o alvo. Isso o teria incapacitado por horas.
O homem de cabeça raspada foi até a lareira e pegou um atiçador. Ele parecia brilhar na luz do fogo. O homem ergueu o atiçador sobre sua cabeça, tencionando descê-lo até o crânio de Sherlock.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)