12 de setembro de 2017

Capítulo oito

SHERLOCK SUBIU AS ESCADAS para ver como estava seu irmão, Mycroft, mas ele estava dormindo e Sherlock não quis acordá-lo. Ele parecia pálido e fraco, deitado na cama com uma bandagem em volta da cabeça. Quintillan tinha providenciado que um lacaio – feminino, é claro, dada a inversão de papéis na família Quintillan – ficasse do lado de fora do quarto de Mycroft a todo momento, certificando-se de que ninguém tentasse atacá-lo novamente. Dadas as suspeitas de Sherlock sobre os criados, ele não tinha certeza se isso era uma boa ideia ou não, porém a menos que Sherlock ou Amyus Crowe ficassem de guarda eles mesmos em turnos, dia e noite, não conseguia pensar em nenhuma alternativa. Além disso, se Mycroft fosse atacado novamente enquanto um criado estava supostamente guardando-o, a suspeita cairia automaticamente na equipe do castelo e, portanto, sobre o próprio Quintillan. Presumivelmente Sir Sadrach quereria evitar que isso acontecesse, se possível, o que significava que Mycroft estava, provavelmente, seguro. Pelo menos, era o que Sherlock esperava.
— Alguém veio vê-lo além de mim? — Sherlock perguntou à mulher que estava postada rigidamente para vigiar a porta do quarto. — O médico, senhor — disse ela, olhando para algum ponto acima da cabeça de Sherlock. — E esteve aqui um homem – um homem grande de terno branco. Ele falava com sotaque. — Dado que ela tinha o seu próprio pesado sotaque irlandês, Sherlock achou isso momentaneamente divertido.
Um grande homem de terno branco? Quase com certeza era Amyus Crowe. Ele havia dito mais cedo que subiria para ver Mycroft.
— Ninguém mais?
— Não, senhor.
Sherlock virou-se para ir embora, mas a mulher limpou a garganta como se tivesse algo mais a dizer. Ele se virou e levantou uma sobrancelha interrogativamente.
— Perdoe-me, senhor, mas é verdade? — ela perguntou.
— O quê?
Ela olhou para a esquerda e para a direita, verificando se alguém mais estava ao alcance da voz.
— Sobre o cavalheiro aqui dentro ter sido atacado.
— Sim, ele foi atacado.
— Pela Besta Negra? — seu olhar cintilou momentaneamente para baixo para encontrar com o seu. — A mesma que matou a pobre Máire, que Deus a tenha. Isso é o que estão dizendo lá em baixo na área dos criados.
Sherlock não pôde deixar de rir.
— Não, ele não foi atacado pela Besta Negra, e sua amiga morreu por causa de uma convulsão, ou de um ataque cardíaco. Isso é tudo que houve aqui.
— Mas é verdade que ninguém sabe quem atacou esse senhor?
— Sim.
— Portanto, pode ter sido a Besta Negra.
— Eu duvido.
— Mas a besta tem sido vista. Três dos funcionários já a avistaram, movendo-se pelo lado de fora ao redor do castelo. Máire a viu, e agora ela está morta, que Deus a tenha!
— Truques de luz, penso eu — disse Sherlock. — Talvez alguma espécie de grande animal movendo-se na névoa. Isso é tudo.
— Sim, senhor. É claro. — Havia algo em seu tom de voz que sugeria que ela não acreditou nele.
Conforme Sherlock se afastava, ele se lembrou da figura sombria que tinha visto no salão de festas do castelo, movendo-se por trás da cortina. Ali certamente aparentava algo se movendo nas sombras, e se estava dentro do castelo, então era pouco provável que fosse um animal. Mas aquilo não poderia ser uma besta sobrenatural. Isso iria contra toda a lógica e sentido.
Era fim de tarde agora. O almoço era uma memória distante, e o jantar ainda estava um pouco longe. Sherlock voltou para seu quarto para se lavar e trocar suas roupas que estavam enlameadas e amassadas depois de suas aventuras por aí afora. Ele encontrou um envelope em seu travesseiro. Continha uma nota manuscrita de Sir Sadrach Quintillan afirmando que o jantar seria às oito, e que, na ausência de Ambrose Albano, a sessão prevista para a noite teria de ser adiada. Baseado em sua discussão com Amyus Crowe, Sherlock suspeitava que o Sr. Albano faria uma reaparição surpresa no jantar, de modo que a sessão poderia seguir em frente com assomado entusiasmo e interesse, mas isso só o tempo diria.
Ele perambulou pelo térreo novamente, sentindo-se perdido sobre o que fazer a seguir. Ele já tinha examinado o quarto de Albano e os destroços da carruagem, então não havia mais nada a fazer lá. Supôs que poderia sentar-se em algum lugar calmo e tentar pensar em como Ambrose Albano forjara o seu próprio desaparecimento, ou, alternativamente, poderia tentar descobrir como Mycroft fora atacado na biblioteca.
Ele decidiu dar uma última procurada. Isso, pelo menos, requereria alguma ação de busca por entradas secretas e evidências de que alguém esteve na biblioteca. Ele queria fazer alguma coisa ativamente, não apenas ficar sentado e pensando. Esse era o forte de Mycroft, não o dele.
O problema era que ele já havia feito uma busca na biblioteca com o objetivo de encontrar passagens secretas. Na verdade, fizera isso antes de Mycroft ter sido atacado, mas não tinha encontrado nada. Qual era o ponto em procurar de novo?
Ele se perguntou se valia a pena contar os passos no comprimento e largura da biblioteca pelo lado de dentro e depois contar os mesmos passos pelo lado de fora, à procura de discrepâncias, mas isso levaria tempo e estaria propenso a pequenos erros. As pessoas também se perguntariam o que ele estava fazendo. O pensamento de tentar achar quaisquer passagens secretas pelo lado de fora deu origem a uma percepção, no entanto – uma passagem secreta tinha que ter duas extremidades. Uma seria na biblioteca, obviamente, mas a outra extremidade teria que estar em outro lugar do castelo. Talvez, se procurasse em todos os lugares possíveis, pudesse rastrear onde era a outra extremidade.
Entusiasmado com a ideia, Sherlock passou a próxima meia hora andando pelos corredores e cômodos ao redor da biblioteca à procura de algo que pudesse esconder uma entrada secreta – uma cortina ou uma decoração de parede, talvez, um guarda-roupa ou uma cômoda alta. Ele não encontrou nada. Terminou de volta à frente da porta da biblioteca, as mãos nos quadris, e frustrado.
Talvez não fosse uma passagem secreta. Talvez fosse uma escadaria secreta, ou degraus secretos. Isso exigiria muito menos espaço atrás das paredes.
Para cima ou para baixo? Sherlock pensou por um momento, e decidiu ver o que estava por baixo da biblioteca. Ele já havia passado tempo suficiente vagando pelos corredores do castelo sem encontrar ninguém, e sabia que sua sorte não duraria para sempre. Descendo para o porão, ele esperava poder manter-se longe das pessoas. Além disso, ele não tinha visto os andares mais baixos ainda, e estava curioso.
Ele ficou no corredor, tentando descobrir onde ficaria uma escada que levasse até o porão. Enquanto estava lá, ouviu um som atrás de si, como o arrastar de couro contra pedra. Ele virou-se rapidamente.
O criado do conde Shuvalov – o corpulento russo com o cabelo cortado rente – estava de pé nas sombras. Ele olhava para Sherlock sem nenhuma expressão no rosto. Quando percebeu que havia sido visto, ele balançou a cabeça uma vez e foi embora.
Sherlock o assistiu ir, sentindo-se desconfortável. O que o homem queria?
Ele sacudiu a cabeça para tentar expulsar a preocupação. Tinha agora outras coisas em que pensar. Ele já sabia que a escadaria principal não descia mais depois do térreo, mas ele havia notado anteriormente uma porta simples perto do fundo. Empurrando-a, ele descobriu uma estreito lance de degraus de pedra que levavam para baixo.
No final dela, Sherlock encontrou uma passagem que levava para a esquerda e para a direita. Uma lâmpada pendurada em um gancho na parede proporcionava uma escassa luz amarela tremeluzente, mas os dois ramos do corredor desapareciam na escuridão depois de alguns metros. O teto era baixo, quase tocando o seu cabelo, e as paredes eram de pedra nua. Ele tentou descobrir para onde a biblioteca ficava em relação ao local onde estava agora, e decidiu que teria que ir para a direita.
Ele desenganchou a lanterna e a levou consigo enquanto ia nessa direção, passando por uma série de entradas em arco, algumas com portas de madeira selando-as e outras sem. Eram, obviamente, depósitos.
Algo no chão, na entrada de um dos cômodos, atraiu sua atenção. Ele parou para olhar.
Era um par de sapatos.
Sherlock se abaixou para examiná-los. Eram sapatos femininos, pretos, e o couro estava rachado pelo tempo. Eles tinham sido bem cuidados, mas estavam obviamente muito além da hora em que deveriam ter sido substituídos. Obviamente sua proprietária era pobre e não podia pagar por sapatos novos, mas as aparências eram importantes para ela, e por isso tinha tomado conta deles.
Lembrou-se da serva morta. Ela estava descalça. Seriam esses seus sapatos? Se sim, isso significa que ela tinha morrido aqui embaixo, nos porões, e seu corpo fora movido para cima e deixado no terreno do castelo? Os sapatos poderiam ter caído enquanto ela era arrastada para longe, ele supunha, mas por que alguém quereria esconder o lugar em que ela havia sofrido um ataque cardíaco, mas não teria escondido o corpo? Não fazia sentido.
Deixando os sapatos onde estavam, ele se endireitou e afastou-se. Este castelo estava cheio de mistérios.
Uma parede apareceu de repente nas sombras à frente, onde o corredor fazia uma abrupta curva à direita. Ele continuou, consciente de que estava se movendo cada vez mais para longe da biblioteca, mas interessado em ver aonde o corredor realmente levava. Ele virou à esquerda e depois à direita de novo enquanto caminhava, sem nenhuma razão óbvia.
Em alguns minutos, a pedra das paredes foi substituída por alvenaria antiga e em ruínas. O teto plano sobre a sua cabeça dera lugar a arcos. Manchas de musgo verde tomavam conta em alguns lugares, e estavam ali pendurados para uma vida sombria.
Um anel escuro em torno das paredes apareceu dentro da bolha de luz da lamparina. Conforme Sherlock chegou mais perto, viu que o musgo se espalhara em toda a volta nas paredes e no chão. Ele hesitou antes de pisar nele. Foi só então que ele contou os passos até ali e percebeu que estava agora sob o fosso do castelo, e que o musgo havia quase certamente crescido sobre a umidade que havia escoado através dos tijolos, então ele sentiu-se seguro o suficiente para continuar.
Sherlock continuou andando, sabendo agora que estava realmente fora dos limites do castelo. O corredor – mais propriamente um túnel agora, ele supunha – estava levando-o pelo terreno e para... onde? Para o interior da Irlanda, ele assumiu. Foi difícil de entender o caminho, pela maneira como o corredor girava em torno de si várias vezes, mas ele imaginou que estivesse caminhando paralelo às falésias.
Outros túneis começaram a brotar à partir daquele em Sherlock estava. Eles levavam para a escuridão, e Sherlock não sentiu particularmente que queria explorá-los – não no momento, de qualquer forma. Seguindo pelo mesmo túnel em linha reta, era pouco provável que ele se perdesse. Se ele começasse a se desviar a esmo, então provavelmente perderia completamente seu senso de direção.
De alguns dos túneis – geralmente os que levavam para a esquerda, na direção onde ele estimava que as falésias estivessem – ele podia sentir um leve toque de ar frio em sua pele. Também pensou poder detectar um ligeiro declive nesses túneis, mas era difícil ter certeza. Será que eles levavam às cavernas lá embaixo na praia?
Muito provavelmente.
Da próxima vez que ele descesse, prometeu a si mesmo, teria à mão papel e caneta, e faria um mapa conforme percorresse os túneis.
Era cada vez mais evidente para ele que o castelo tinha algum tipo de ligação histórica com o contrabando de mercadorias. Os contrabandistas provavelmente traziam seus bens até a terra de barco na praia e, em seguida, os armazenavam em cavernas. Outras pessoas – moradores locais – usavam os túneis para trazer os bens e transferi-los para o interior, possivelmente mantendo-os nas masmorras do castelo se houvesse algum sinal de que a polícia os estivesse procurando. Será que os proprietários do castelo estavam envolvidos, ou era mais provável que os criados do castelo estivessem, e ao longo de muitas gerações, tivessem cavado túneis e executado o seu negócio ilegal sob o castelo sem que os proprietários realmente soubessem? Não havia nenhuma como saber.
Sherlock continuou andando, indo para longe do castelo. O túnel terminou sem aviso. Subitamente, à luz do lampião, Sherlock viu uma parede em frente. Por que alguém colocaria uma parede ali? Não fazia sentido, pensou ele, a não ser que tivesse sido erguida às pressas para disfarçar o túnel pelo lado de fora e impedir que alguém entrasse.
A parede era estranha. Para começar, era construída com um tipo diferente de material das outras paredes do túnel e do teto. Elas eram de tijolo, e esta era de pedra, mas não de um tipo simples – era a mesma pedra granítica de que o castelo era feito.
Não, esta parede era feita a partir de blocos de pedra mais escura e cinzenta, era mais áspera. Correndo os dedos em um dos blocos, ele pôde sentir a sensação de aspereza. Olhando mais de perto, pensou poder ver também pequenos buracos na pedra – orifícios naturais, não fabricados. Ele nunca tinha visto nada assim.
Sherlock percebeu com alguma surpresa que a parede tinha uma curvatura gradual na direção dele. Tinha que ser uma coisa planejada – mas por quê? Qual era o objetivo?
Os tijolos do túnel eram segurados por argamassa, Sherlock notou, mas havia uma lacuna entre os tijolos e as pedras cinza escuras. Através dessa lacuna ele pensou poder detectar uma leve brisa, e o cheiro do mar. Ele abaixou-se e verificou a junção entre as lajes do piso e da parede, e encontrou algo estranho. As lajes na verdade tinham sido cortadas para encaixar sob a curva da parede, e havia uma lacuna lá também.
Ele olhou para a junção da parede e do teto. O mesmo era verdade ali também: os tijolos estavam cortados para seguir a curva da parede, como se a parede subisse mais do que o túnel. E fosse mais para baixo também.
Não havia musgo na parede. O que pareceu a Sherlock particularmente estranho. As paredes e o teto arqueado do túnel estavam marcados por manchas ocasionais do material verde, mas a parede de pedra escura estava completamente limpa. Talvez tivesse algo a ver com a própria pedra, ele meditou. Talvez esse tipo de musgo não gostasse de proliferar naquele tipo de pedra.
Ele ficou lá por alguns momentos, as mãos nos quadris, frustrado com o fato de não poder ir mais longe. Com relutância, ele se virou para voltar, mas quando fez isso, estendeu a mão e pousou-a na parede.
Havia uma vibração.
A sensação era muito fraca, mas clara o suficiente para que ele parasse e colocasse as duas mãos contra a pedra. Havia definitivamente uma vibração lá, porém ele não tinha ideia de onde vinha.
Mais frustrado do que nunca, ele se virou para caminhar de volta para o castelo.
Levou trinta minutos para retornar aonde as escadas levavam para cima, em direção ao castelo, passando por todos os tentadores túneis laterais, mas sempre atento na direção em que seguia. Ele olhou para a entrada, onde encontrara o sapatos um pouco antes. Eles ainda estavam lá, o que de alguma forma o surpreendeu. Dadas as estranhas coisas que estavam acontecendo no castelo, quase se convenceu de que eles teriam desaparecido.
Quando chegou às escadas, ele olhou para a escuridão, em direção à porta fechada no topo, mas balançou a cabeça. Havia ainda o outro ramo do corredor subterrâneo para explorar, e ele sabia que sua mente ficaria remoendo as possibilidades caso não completasse suas investigações agora. Ele seguiu em frente, no centro de sua bolha brilhante de luz.
Nos primeiros minutos, o corredor à esquerda da escada era a imagem espelhada do corredor à direita. Ele se perguntou se estaria desperdiçando sua próxima hora como a última, inclusive encontrando-se em um caminho do lado de fora das muralhas do castelo e confrontando-se com uma parede curva de pedra escura. Em vez disso, somente por ele não estar esperando por isso, o corredor de repente virou à direita e terminou em outra entrada em arco selada por uma porta de madeira. Esta porta era maior do que as anteriores. Sherlock tentou abri-la, e para sua surpresa, ela abriu.
O cômodo que ele encontrou-se observando era bem grande, com um teto de pedra abobadado. A única iluminação vinha da lanterna que ele carregava. Era mais um cômodo de armazenamento, mas não havia dúvida do que estava sendo armazenado nele. O cômodo estava cheio, do chão ao teto, com prateleiras contendo garrafas de vinho.
Sherlock poderia dizer que a maioria das garrafas estava lá por um longo tempo – teias de aranha empoeiradas cobriam tudo, parecendo estranhamente com o ectoplasma que Ambrose Albano havia produzido durante a sessão da noite anterior.
A coisa que mais impactou Sherlock, no entanto, não foram as garrafas, ou as prateleiras, ou as teias de aranha. Era o fungo preto.
Não era como o musgo verde que ele vira nos túneis anteriores. Era algo muito mais sombrio e muito mais vivo. Este material não estava agarrado à borda da existência: ele explodia ativamente com vida. Enchia os cantos da adega da mesma forma que as algas cobriam as rochas na praia, ou a neve que se acumulava no inverno. Ele subia as prateleiras do vinho e cobria as garrafas menores como uma maré escura e maligna. Pendurava-se no teto em cortinas negras e drapeadas. Em todos os lugares que Sherlock olhava, ele podia vê-lo. Pareciam brilhar ligeiramente à luz da vela, como se estivessem molhados. Ele imaginou que, se ele o tocasse, o fungo se esmagaria sob seus dedos, vazando algum líquido preto estranho e potencialmente tóxico, mas ele não tinha a intenção de testar a teoria.
Depois de um tempo, percebendo que já era quase hora do jantar, ele deixou a adega de vinho e dirigiu-se para a escada que levava ao átrio. Estava prestes a avançar para o quarto de Mycroft para ver como ele estava quando ouviu vozes do lado de fora da porta da frente, que estava aberta. Ele olhou para lá e notou conde Shuvalov e seu criado militar ali de pé. Eles estavam discutindo – ou melhor, Shuvalov estava falando de forma rápida e com raiva e seu criado estava tentando interromper. Ao final, Shuvalov sacudiu a cabeça com desdém e saiu. O criado o assistiu ir com uma expressão de espanto no rosto normalmente impassível.
Sherlock subiu as escadas na direção do quarto de Mycroft. Havia uma empregada diferente guardando o lado de fora da porta.
Ela olhou para ele, reconheceu-o, e assentiu.
— Senhor.
Ele acenou com a cabeça de volta e entrou no quarto.
Mycroft estava acordado, lendo. Ele olhou para Sherlock.
— Ah, boa noite. Vejo que esteve fora e também no subsolo. Devo ter adormecido por mais tempo do que pensei.
Sherlock sorriu. Não havia como manter segredos de seu irmão, mas também não havia motivo para perguntar como seu irmão sabia das coisas que sabia. Ao contrário de Amyus Crowe, ele raramente dava aulas.
— Ambrose Albano é uma farsa — disse ele — o acidente da carruagem foi providenciado com antecedência, e há túneis que levam para longe do castelo em várias direções, provavelmente construídos por traficantes.
— Bastante conciso. Tenha a gentileza de explicar as evidências de sua primeira e segunda declarações.
Sherlock explicou sobre sua busca no quarto de Albano, e sobre encontrar o eixo serrado transversalmente. Perguntou-se se ele deveria contar a Mycroft sobre as histórias da Besta Negra e o vulto escuro que tinha visto se movimentando, mas decidiu não fazê-lo. Havia todos os tipos de explicações para isso, e nenhuma delas afetaria o trabalho pelo qual Mycroft e ele estavam lá, tanto quanto ele sabia.
— Albano reaparecerá esta noite — Mycroft concluiu. — Isso definirá o cenário perfeito para a segunda sessão.
— Essa foi a minha conclusão também. — Sherlock hesitou. — Você se sente bem o suficiente para juntar-se a nós para o jantar e para a sessão?
Mycroft balançou a cabeça.
— O médico me aconselhou a ficar na cama pela próximas vinte e quatro horas, pelo menos. Não há, felizmente, sinal de concussão, mas meu sistema tem ficado enfraquecido e precisa se recuperar. Sir Sadrach concordou muito gentilmente em fornecer o meu jantar em uma bandeja. — Ele fez uma pausa momentânea. — Na verdade, uma série de bandejas. Provavelmente um carrinho trazendo inúmeras bandejas. Ele indicou que seria de seu agrado que eu participasse da sessão e sugeriu que eu usasse uma de suas cadeiras de rodas, mas temo que a tensão de sair da cama seria demais no momento. Eu caio no sono nos momentos mais inoportunos. Não, Sherlock, temo que você terá que tomar o meu lugar tanto no jantar quanto na sessão.
— Você teme? — Sherlock repetiu.
— Uma escolha infeliz de palavras. Tenho plena confiança em você. — Ele olhou para Sherlock por um longo momento. — Tive uma conversa com o Sr. Crowe, e entendi que sua filha está aqui também. Você falou com ela?
Sherlock balançou a cabeça.
— Ainda não.
— Então seja gentil. Ela estará tão confusa e incerta quanto você.
— Disto — Sherlock devolveu — eu duvido seriamente. Você sabia, por sinal, que ele veio como representante americano?
— Eu suspeitei, mas não tive nenhuma evidência real, então não disse nada a você. Isto, no entanto, faz sentido do ponto de vista do governo dos EUA. — Ele voltou sua atenção para o livro em seu colo. — Dê-me um relatório após os eventos da noite. Estou curioso para descobrir o que acontecerá.
Sherlock assentiu, e saiu.
Um gongo soou para o jantar justamente enquanto ele descia as escadas. Dirigiu-se então para a sala de jantar.
A maioria dos outros convidados já estava reunida, com exceção de Amyus e Virginia Crowe, e, claro, a falta Ambrose Albano.
Sherlock tomou seu lugar na mesa, assentindo para o conde Shuvalov, Herr Holtzbrinck, von Webenau, Sir Sadrach Quintillan e Niamh Quintillan. Candelabros posicionados ao longo da mesa iluminavam o cômodo. As cortinas estavam abertas, e através das janelas Sherlock podia ver um céu escuro e tempestuoso. A chuva salpicava intermitentemente os vidros, soando como cascalho lançado.
Os criados estavam se preparando para servir a sopa quando Amyus Crowe e sua filha entraram na sala. Ele vestia seu terno branco de costume, enquanto Virginia estava quase irreconhecível para Sherlock em um vestido violeta pálido que combinava perfeitamente com seus olhos. Seu cabelo estava preso, e ela parecia muito mais velha e mais segura do que Sherlock se lembrava. Ela parecia uma mulher agora, não uma menina. Perguntou-se amargamente se ele parecia um homem para ela, em vez de um menino – agora que já era tarde demais.
Ela olhou para ele e sorriu nervosamente.
— Mil desculpas pelo meu ligeiro atraso — Crowe rugiu, segurando a cadeira para que Virginia pudesse se sentar. — Sir Sadrach, o senhor tem uma filha também, e uma bela. Deve saber, portanto, justamente o tempo que leva para que elas se prepararem para uma simples refeição noturna.
— As filhas são joias sem preço — disse Quintillan — e por isso temos que dar-lhes todas as oportunidades para apresentar-se em sua correta configuração.
Ele sorriu para a filha. Niamh sorriu para seu pai, em seguida, seu olhar procurou Sherlock, e ela compartilhou o sorriso com ele.
Virginia olhou para Niamh também, e Sherlock pensou ter pego um lampejo de emoção em seu rosto, embora ele não tivesse certeza exatamente de qual emoção fosse. Talvez várias.
Relâmpagos brilharam do lado de fora da janela, e uma súbita rajada de vento atingiu o vidro. Momentos depois, um estrondoso som de trovão ecoou pelos salões e corredores do castelo.
— Uma noite boa para comunicar-se com os mortos — disse Herr Holtzbrinck. — É uma pena que a sessão tenha sido adiada. Presumo que não haja notícias do paradeiro do Sr. Albano?
Quintillan abriu a boca para responder, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, outro relâmpago, maior desta vez, iluminou o cômodo em preto e branco absoluto. Em seguida veio uma rajada de vento tão forte que fez as janelas da sala de jantar se abrirem, deixando a chuva derramar-se no cômodo e soprando as chamas nas velas dos candelabros. A escuridão tomou conta de tudo.
— Não entrem em pânico — a voz de Quintillan ressoou. — Os criados reacenderão as velas em um...
As velas de repente voltaram à vida sozinhas. As chamas pareciam duas vezes mais altas, duas vezes mais brilhantes do que antes.
E à sua luz todos puderam ver a figura magra de Ambrose Albano de pé na ponta da mesa, os braços abertos.
— Eu voltei! — exclamou.

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