20 de setembro de 2017

Capítulo nove

Sherlock apressou-se para trás apoiado nos cotovelos e joelhos, mas o homem o seguiu, preparando-se para atacar.
Das sombras, Matty se lançou no homem de terno, agarrando seu cotovelo erguido e puxando para trás. O homem cambaleou, com o peso de Matty levando-o para baixo. Matty tentou soltá-lo e ir para longe, mas tarde demais: o peso do homem caiu bem em cima dele. Sherlock ouviu o ar de seu amigo sair de seus pulmões com um sonoro Uuuuff!
Para adicionar lesões a feridas, o homem bateu com o cotovelo para trás, acertando Matty no estômago. Quando se afastou e se levantou, Matty enrolou-se em uma bola, gemendo.
O homem olhou de Sherlock para Matty e novamente para Sherlock, tentando decidir de qual deles trataria primeiro. Matty estava fora da luta por um tempo, então ele avançou em Sherlock, ainda segurando o atiçador.
Sherlock olhou em volta desesperadamente.  Ele também precisava de uma arma!
O homem balançou o atiçador na direção de Sherlock. Sherlock abaixou-se, então se moveu para um mergulho lateral que o levou ao chão. Ele rolou, terminando de pé próximo à lareira. Não havia mais atiçadores na prateleira, mas havia um grande par de pinças para pegar carvão. Ele agarrou-os e verificou brevemente Matty.
— Você está bem?
— Eu ficarei. — O garoto gemeu. — Apenas me dê um minuto. Ou dez.
Sherlock se endireitou e se virou quando o homem correu para ele, o rosto contorcido em um sorriso diabólico.
— Eu vou mutilá-lo, seu pequeno...
Antes que ele terminasse a sentença, ele atacou com o atiçador novamente. Sherlock bloqueou com as pinças. Uma nota metálica e alta ressoou pela sala. O choque do impacto entorpeceu o braço de Sherlock até o ombro. Ele recuou, ciente de que a porta aberta para a próxima sala estava logo atrás dele.
Quando o homem correu para ele novamente, balançando o atiçador como um porrete desta vez, Sherlock deu dois passos para trás, agarrou a maçaneta da porta e a fechou pela metade.
O homem correu diretamente para a lateral da porta. Ele saltou para trás, chorando de dor. Limpou a ferida acima de seu olho com a manga, manchando o rosto de sangue e avançando para a próxima sala, seguindo Sherlock.
— Você nunca para? — Sherlock sussurrou, meio para si mesmo.
— Nunca — o Homem replicou. — Você pode me matar, e eu ainda vou continuar. Meu trabalho é proteger este lugar de ladrõezinhos como vocês.
Sherlock diria que ele não era um ladrão, nem Matty, mas duvidava que o homem acreditasse nele. Ele era como algum tipo de mqquinaria de relógio imparável!
Ele atacou Sherlock repentinamente com o atiçador. Sherlock bloqueou com as pinças novamente, então empurrou as pinças diretamente nos olhos do homem. O homem inclinou-se para trás. De surpresa, Sherlock o seguiu, desequilibrando-se de repente.
O homem moveu abruptamente o controle sobre o atiçador, segurando-o pelo meio e empurrando alça em direção às costelas de Sherlock. Pareceu por um momento que ele havia quebrado uma delas. Sherlock colocou o braço esquerdo para baixo para proteger sua lateral enquanto batia as pinças na garganta do homem. Ele o certou logo abaixo do pomo de Adão, e o homem se dobrou, sufocando. Sherlock golpeou-o com força na cabeça com as pinças e ele caiu de joelhos, ofegante.
Sherlock retornou para o centro da sala, tomando pequenas respirações enquanto podia e olhando em volta para ver se havia algo mais que ele pudesse usar como arma. A sala era rodeada por tanques de vidro, também, mas nos segundos que ele teve para fazer a análise Sherlock viu que aqueles tanques continham cobras: algumas da cor de areia e algumas listradas em vermelho e amarelo; algumas do tamanho do dedo mindinho de Sherlock e uma, em um tanque três vezes maior, grossa como o seu braço. Sua atenção atraída pelo movimento repentino, os olhos da cobra seguiram Sherlock ansiosamente.
Sherlock percebeu que o homem havia se levantado mais uma vez. Sangue escorria de seu couro cabeludo, mas isso não o impedia. De fato, parecia deixa-lo mais irritado.
— Não haverá o suficiente de você para encher um balde quando eu terminar com você — ele resmungou. Ele atacou com o atiçador. Sherlock sentiu a brisa de sua passagem raspando o seu cabelo.
Atrás dele, Matty continuava curvado no chão.
O homem investiu, ainda balançando o atiçador.
Sherlock segurou as pinças com as duas mãos e bateu lateralmente. O atiçador voou da mão do homem e atingiu um dos tanques. O vidro se quebrou.
O homem agarrou o outro lado das pinças. Por um momento, os dois ficaram lá, lutando pelo controle, mas o homem era forte demais. Ele arrancou as pinças do aperto de Sherlock e as jogou para longe.
Diretamente em outro tanque. Mais vidro se estilhaçou.
O homem agarrou Sherlock pela garganta e levantou-o. Sherlock repentinamente não podia respirar. Seus pés não tocavam o chão. Uma névoa vermelha desceu sobre sua visão, tornando tudo nebuloso e distante. O homem estava dizendo alguma coisa, sua respiração quente no rosto de Sherlock, mas as palavras eram abafadas pelo latejar de sangue em seus ouvidos. Ele tentou olhar por cima do ombro do homem para o caso de Matty ter se levantado e estivesse vindo ajudar, mas o garoto continuava curvado em uma bola.
Parecia o fim. Não havia nada que Sherlock pudesse fazer. Nem toda a resolução de quebra-cabeças no mundo o ajudaria a sobreviver a um estrangulamento.
Alguma coisa se moveu em seu ombro. Ele podia ver algo vagamente, sua visão estava restrita por um túnel estreito e cercado de escuridão, mas havia definitivamente algo lá, oscilando lentamente para lá e para cá.
O homem também viu. Seu rosto ficou pálido. Antes que ele pudesse fazer algo mais do que aliviar seu aperto ligeiramente, a coisa atacou, agarrando-se na bochecha dele.
Era uma cobra: listrada em tons vividos de vermelho, amarelo e preto. Sherlock agarrou seu corpo, que chicoteava para frente e para trás. Tentou afastá-la, mas suas presas estavam fincadas na carne do homem. O próprio homem gritava agora, rosto contorcido em agonia e terror.
Matty apareceu de repente no ombro de Sherlock. Ele estava encurvado e pálido, obviamente ainda com dor, mas pelo menos ele estava se movendo.
— Vamos embora. — Ele disse urgentemente.
— Segure essa coisa! — Sherlock acenou para a serpente.
— Você está louco?
— Isso vai matá-lo!
Matty franziu o cenho.
— E daí? Você estava tentando matá-lo! E ele estava tentando matar você! Nós precisamos escapar!
Sherlock sentiu os lábios apertados em uma raiva teimosa.
— Não importa. Ele é um ser humano, e está com problemas por nossa causa. Segure isso agora!
Matty olhou fixamente para Sherlock por um segundo, então para a janela. Relutantemente, ele passou por Sherlock e agarrou o réptil que se contorcia.
— Eu não me ofereci para esse tipo de coisa — ele murmurou.
Uma vez que Matty tinha um aperto firme, Sherlock soltou e passou por ele, em direção ao homem atacado. Seus olhos estavam fechados e ele estava chorando agora.
— Nós estamos tentando ajudar — Sherlock falou. — Prepare-se.
Ele agarrou os maxilares da serpente, com o cuidado de usar a pele mais frouxa em torno da boca do bicho como proteção contra os dentes. Era seca e quente ao toque. Pressionando, ele fez a cobra abria mais a mandíbula. As presas nos maxilaress superior e inferior deslizaram para fora da bochecha do homem, deixando quatro buracos sangrentos para trás.
Matty deslizou as mãos para que ele estivesse segurando a cobra logo atrás de sua cabeça, impedindo que ela se movesse e o mordesse também. Os braços dele balançaram quando a cobra tentou desesperadamente se afastar.
O homem caiu de joelhos, ainda choramingando. Sherlock olhou para os buracos em sua bochecha. Haveria veneno na ferida agora, e ele não tinha ideia do que fazer sobre isso. Ele deveria tentar chamar um médico? Quanto tempo o veneno da cobra demoraria para fazer efeito? Era apenas incapacitante, ou mesmo mortal?
— Sherlock…
— Agora não, estou tentando pensar!
Ele não fazia ideia do que fazer em seguida. Nenhuma ideia.
— Sherlock. — Matty repetiu, a voz baixa e controlada. — Olha lá!
Sherlock virou-se e olhou para onde Matty encarava horrorizado. Lá, no tapete, havia outra cobra. Mais grossa que aquela que Matty segurava, e marrom. Devia ter vindo do segundo tanque quebrado. Enquanto Sherlock observava, sua cabeça se expandia em uma espécie de capuz que a fazia parecer mais ameaçadora. Um som repentino fez Sherlock olhar para a cauda, que estava erguida acima do tapete e balançava para frente e para trás. Havia pequenos discos ósseos ali que faziam barulho quando vibrava – talvez um aviso?
Não que Sherlock ou Matty precisassem de um aviso. Eles já estavam suficientemente assustados.
Sherlock congelou. Seu olhar deslizou pelo local, procurando por algo que pudesse usar contra a criatura, e não encontrando nada. As pinças estavam no tanque quebrado próximo à cabeça do homem, enquanto o atiçador estava no ouro lado da sala, deitado no tapete entre de cacos de vidro.
A cobra abriu a boca, mostrando a carne vermelha no interior. Outro aviso.
A única coisa que Sherlock conseguia pensar em fazer era pegá-la quando o atingisse. Era uma opção arriscada, mas ele não estava certo de que tivesse escolha.
A cabeça da cobra recuou. Ela iria se lançar para ele. Sherlock se preparou.
Algo se moveu na porta da sala, onde eles estavam alguns minutos antes. A cobra não reagiu, mas Sherlock olhou para os lados.
A porta foi preenchida por uma enorme figura. Era o homem que Sherlock tinha visto anteriormente pegando o pacote da caixa postal, e mais cedo do que isso, em uma carruagem entrando pelos portões da casa. Ele tirou o casaco e o chapéu de couro volumoso, mas ainda usava a máscara de retalhos ajustada. Na verdade, Sherlock agora viu que era um capuz que cobria inteiramente sua cabeça. Brilhantes olhos azuis apareciam pelos buracos dos olhos. Ele segurava uma arma na mão, uma mão tão grande que fazia a arma parecer um brinquedo. Seus olhos se moveram, captando a cena. Eles acabaram fixando-se em Sherlock.
Ele levantou a arma e atirou.
Sherlock apenas ficou parado, congelado no lugar. Ele tentou encontrar onde a bala o havia acertado. Não sentia nenhum impacto ou dor, ele deveria estar em choque, pensou. Em alguns segundos a agonia começaria, e sangue começaria a sair da ferida.
Depois de alguns segundos em que nada aconteceu, além da fumaça do barril da arma que atravessava a sala, Sherlock percebeu que não havia dor, nem sangue, nem ferida. Ele olhou para si mesmo para verificar e não viu nada. O recém-chegado errara? Ele dispararia novamente?
Ele olhou para cima novamente, mas o homem olhava por cima do ombro de Sherlock.
Sherlock seguiu seu olhar, para onde a cobra marrom estava em duas metades no tapete, rasgada pela bala da arma.
O olhar do homem se moveu da cobra para Sherlock, e dele para Matty.
— Eu poderia atirar em ambos — ele falou, a voz abafada pela máscara de couro. — Ou vocês podem me ajudar a salvar a vida de George, e então se explicarem. Vocês têm cinco segundos para decidir. — Sua voz soava como rocha triturada, tão profunda e rouca.
— Nós ajudaremos — Sherlock disse rapidamente. — E então explicamos.
— Boa escolha. — O homem baixou a arma e colocou-a no cós da calça. — Você, o menor, me dê a cobra. — Ele virou e rapidamente fechou a cobra em uma caixa. — Você, o maior, me passe esse instrumento e a faca da lareira.
Sherlock olhou para onde o homem apontava e viu um objeto do tamanho de um punho em cima da lareira. Ele o pegou. Era uma bola feita de uma estranha substância de borracha, conectada a uma válvula de metal e a um bico que brotava para uma abertura cônica, novamente feita com essa mesma substância de borracha. Ele entregou-o para o homem, que foi para onde o outro homem, George, estava ajoelhado – gemendo e mantendo os braços no peito – e dobrou-se para se ajoelhar ao lado dele.
— Qual o seu nome, garoto? — O homem perguntou assim que Sherlock lhe entregou o dispositivo.
— Sherlock. Sherlock Holmes. — Ele havia pensado em mentir, porém decidira que a honestidade era a melhor escolha no momento.
— E seu pequeno amigo?
— Eu não sou tão pequeno — Matty murmurou.
O recém-chegado esmagou a bola de borracha em sua mão, espremendo o ar para fora com um assovio.
Ele olhou para Sherlock.
— Meu nome é Ferny Weston. Sou o dono desta casa. O homem picado pela cobra é George Squier. Ele atua como meu criado, cozinheiro e faz-tudo geral em toda a casa. Ele é a única pessoa em quem confio, e não pretendo perdê-lo.
Ele entregou o dispositivo de borracha e metal para Sherlock.
— Mantenha essa bola espremida por tudo o que sua vida vale — disse ele, e pegou a faca da outra mão de Sherlock.
Ele se virou para o homem mordido e, antes que Sherlock pudesse dizer qualquer coisa, colocou a faca contra a pele da bochecha de George e fez dois cortes rápidos na forma de um X onde os dentes da serpente o perfuraram.
— O que você está fazendo? — Sherlock exclamou.
— Tirando o veneno. — Weston disse.
Ele agarrou o dispositivo do aperto de Sherlock e colocou o funil de borracha contra a pele onde cortara o X. Soltou a bola, e ela se expandiu lentamente, o funil de borracha fazendo um som de sucção contra o sangue na pele de George.
— O sangue sairá da ferida, trazendo o veneno com ele, não entrando, mas precisamos impedir o veneno de se difundir através do tecido. Quanto mais rápido sugarmos o veneno, mais chances temos de salvar sua vida.
Ele apertou a bola de borracha com força, expulsando o ar. Sherlock ouviu algo líquido em seu interior. Novamente ele colocou-o contra a ferida e sugou.
Enquanto o homem trabalhava, Sherlock não pôde impedir, mas observou o padrão de cicatrizes ao redor de seu pulso e seus dedos. Ele podia perceber como alguém da área local que o visse poderia ter a ideia de que ele tinha sido feito a partir de partes de corpos. Na verdade, além da simples impossibilidade da ideia, Sherlock não estava inteiramente convencido de que não era verdade.
Levou cinco repetições antes que Weston se convencesse de ter retirado todo o veneno da bochecha de George, ou que o veneno tinha difundido tão longe que não fazia sentido tentar. Quando ele puxou a esfera de borracha pela última vez, Sherlock pôde ouvir o líquido se mexendo dentro. Sangue e veneno, ele presumiu.
George pareceu ter caído na inconsciência. Suas pálpebras pestanejaram. Weston virou-o suavemente de barriga para cima.
— Nós precisamos levá-lo para seu quarto — ele falou. — Acho que ele vai ficar bem, mas tenho alguns remédios que podem ajudá-lo com o choque e a dor, e preciso cobrir a ferida. Vocês dois vão ajudar.
Não era uma pergunta.
— Você inventou esse aparelho? — Sherlock perguntou, indicando a bola que sugara o veneno.
Weston ergueu a mão para coçar o pescoço, afastando o capuz para que pudesse alcançar a pele abaixo. Havia cicatrizes lá também, estendendo-se ao redor de seu pescoço. Havia algum lugar de seu corpo que não tivesse cicatrizes?, Sherlock se perguntou.
— Pareceu uma boa ideia já que eu estava lidando com cobras — Weston respondeu.
— Por que cobras? — Sherlock perguntou. — Por que as... — ele apontou para a outra sala — partes do corpo de cera? Por que os roubos?
— Longa história, e não tenho certeza se quero contá-la a você. Não agora, pelo menos, e quero ouvir a sua história antes. Vamos levar George para a cama e tratar sua ferida, e então falaremos sobre o que acontecerá com vocês dois.
A próxima hora foi ocupada com os três manobrando o corpo inerte de George para fora do corredor, seguindo ao longo dele e virando a esquina até o salão, em seguida, subindo dois andares de escadas. O quarto de George ficava no topo da casa, e quando o colocaram em sua cama e esticaram um cobertor sobre ele, todos suspiraram de alívio.
Sherlock pensou ter ouvido a voz de uma mulher chamando do andar de baixo, embora não soubesse o que estava sendo dito. Ele se virou para olhar Weston interrogativamente. O grande homem fez uma pausa, ouvindo.
— Preciso descer as escadas — a máscara de couro virou-se para encarar Sherlock. — Preciso pegar o kit de primeiros socorros. Vocês ficam aqui com ele. Só vou demorar alguns minutos.
Matty e Sherlock ficaram lá por um momento. George dormia, sua respiração saindo ruidosamente pela boca.
Sherlock foi para a janela e olhou para fora. Continuava escuro. Ele achou que provavelmente estava olhando para o canal, embora não conseguisse vê-lo na escuridão. Olhando para o ponto em que, pouco mais de uma semana antes, ele via de baixo. Como as coisas mudaram durante esse tempo.
Em algum lugar abaixo ele pensou ouvir a voz de Weston falando, e então a voz da mulher respondendo. Tinha que haver alguém na casa que Weston estava protegendo, caso contrário por que não mencioná-la?
Depois de mais ou menos dez minutos Weston retornou com o kit de primeiros socorros e uma caixa com frascos de vidro. Ele tratou a bochecha de George com uma pomada que deixou uma mancha laranja, depois colocou um curativo e fixou-o no lugar com uma bandagem que enrolou na cabeça calva de George, então desceu por sua orelha e sob seu queixo. A última coisa que ele fez foi injetar no braço de seu criado o conteúdo de dois frascos de vidro diferentes.
— Ele deve ficar bem agora. Vamos deixá-lo dormir. — Ele se levantou, a cabeça encapuzada raspando contra o teto baixo. — Ele teve sorte de ter sido picado por uma cobra coral. Se fosse uma mamba negra, poderia estar morto em alguns minutos. E vocês dois tiveram sorte que a outra fosse uma cobra comum, não uma cobra cuspideira. Se o veneno tivesse entrado em seus olhos, vocês teriam morrido gritando.
— O que você tem com animais de estimação venenosos? — Matty perguntou. — Não podia ter apenas cachorros ou gatos?
O homem riu: um som áspero e sufocante.
— Eles não são animais de estimação, filho. São meu trabalho. Pelo menos, eram — ele olhou de Matty para Sherlock. — Venham, vamos descer. Eu preciso de uma cerveja, e tenho um pouco de limonada que vocês podem querer.
— Você não me parece alguém que goste de limonada — Sherlock observou, tentando levar Weston a dizer algo sobre a outra pessoa na casa.
Weston apenas riu.
— Eu gosto de ter escolhas — ele disse enigmaticamente. — Gosto de ter exemplos de coisas semelhantes que posso comparar.
Ele gesticulou para que os dois descessem as escadas. Quando chegaram no andar abaixo, Sherlock olhou em volta para ver se podia descobrir de onde viera a voz da mulher, mas todas as portas estavam fechadas. Eles continuaram até o piso térreo e foram para uma sala do outro lado da casa onde Sherlock e Matty tinham entrado.
A sala estava arrumada como uma sala de estar, com cadeiras e mesas de canto. Weston os deixou lá enquanto ia para a cozinha buscar a cerveja e a limonada.
Sherlock assumiu que aquilo era um teste para ver se eles tentariam fugir. Weston provavelmente havia trancado a porta da frente, assim como as janelas de todas as salas por onde eles poderiam fugir, então não havia nenhuma chance de escapar. Havia sempre a janela na sala de estar, mas quando abriu as cortinas, Sherlock descobriu que era uma janela francesa que levava a uma varanda de pedra. Ele verificou: estava trancada.
Depois de alguns minutos, Weston retornou com uma bandeja contendo uma garrafa, uma jarra cheia com um líquido esbranquiçado, dois copos e um prato contendo uma pilha de biscoitos.
Ele pegou a garrafa e caiu pesadamente em uma grande poltrona. Gesticulando para a bandeja, disse:
— Sirvam-se. Vocês tiveram uma noite corrida.
Matty apenas olhou para o líquido esbranquiçado.
— Como nós saberemos — ele perguntou — se você não colocou algum tipo de veneno aí? Talvez você tenha deixado cair um sapo e mexido com uma colher para escondê-lo.
Weston tirou a arma do cinto de suas calças e colocou-a na mesa ao lado.
— Interessante, porém seria mais rápido e mais direto apenas atirar em vocês. Na verdade, ainda posso fazer isso. Contem-me por que estão aqui, o que estão procurando e quem os enviou. Não mintam, eu saberei se você mentirem.
Sherlock respirou fundo. Ele estava tendo a perspectiva aqui de que a honestidade era a melhor política, mas Weston não atiraria nele como um vilão. Na verdade, Sherlock estava começando a gostar dele – ou, pelo menos, respeitá-lo. Ele era decidido, e parecia saber o que fazia.
— Eu ouvi sobre os roubos de partes de corpos da polícia de Oxford — falou calmamente. — Um dos meus amigos foi interrogado sobre isso, e o homem que está me ensinando também foi entrevistado pela polícia. Falei com o patologista e ele me deu informações suficientes para que eu pudesse desvendar quando o próximo roubo aconteceria. Matty e eu esperamos, vimos o ladrão e o seguimos de volta para onde ele morava.
— Fui eu — Matty murmurou. — Eu o encontrei.
Sherlock franziu a testa para Matty. Esta era a história dele.
— Nós rastreamos o ladrão até os correios e depois seguimos o pacote para Londres e de volta novamente, mas era um pacote diferente. Percebo isso agora. Nós o seguimos aqui e vimos você buscá-lo. Nós invadimos a casa…
— Isto também fui eu — Matty murmurou.
— … e vimos as coleções de partes do corpo de cera e de criaturas venenosas que você montou. É tudo muito impressionante – e “coleção” é a palavra certa, não é?
Em vez de responder, Weston olhou para Sherlock através dos olhos da capa de couro.
— Você sabe de algo mais — ele assinalou. — Conte-me.
— Como você sabe que eu sei algo mais?
— É a direção para onde olhava quando falava. Você estava olhando para frente durante a maior parte da sua história, mas seus olhos não estavam focados em nada em particular, o que indica que você estava reunindo uma série de memórias em uma ordem coerente, mas quando mencionou o patologista do necrotério de Oxford, você olhou para cima e para a esquerda. Isso indica que estava se lembrando de algo específico que ele disse, algo importante.
— E você pode dizer tudo isso apenas pela direção do meu olhar? — Sherlock perguntou, fascinado.
— Até certo ponto. É assim que posso dizer quando as pessoas estão mentindo para mim, seus olhos se dirigem para a direita e não para a esquerda. Isso significa que estão inventando histórias, em vez de lembrar de coisas. É algo que observei ao longo de muitos anos quando as pessoas me contavam mentiras e eu as fazia dizer a verdade. Então, o que você estava lembrando?
— O patologista, doutor Lukather, mencionou seu nome. Ele falou que... — Sherlock tentou se lembrar das palavras exatas e, de repente, estava muito consciente de que olhava para cima e para a esquerda. — Que você costumava ir falar com ele, fazer-lhe companhia, e então de repente parou. Ele pensou que você ficara muito entediado com as histórias dele.
— Nunca entediado — disse Weston, virando a cabeça e olhando para baixo. — Nunca assim. Algo aconteceu, só isso. Algo que significava que eu não poderia voltar.
— Um acidente? — Sherlock tentou.
Weston assentiu relutantemente.
— Mas estamos deixando a história fora de ordem — ele disse suavemente, algo que soou estranho em sua voz. — É importante lembrar que as histórias têm que ser contadas na ordem certa, e que você tem que ter certeza de quando elas começam.
— E sobre quando elas terminam? — Matty perguntou. — Isso não é importante?
— Histórias nunca terminam — Weston disse. — Elas continuam eternamente.
— E quanto a nossa história? — Sherlock encarou Weston. — Ela continua indo para sempre? Você acredita em nós?
— O que vocês disseram faz sentido. Todos os fatos se acumulam, e você não mostrou nenhuma evidência de mentir. Estou inclinado a dar-lhe o benefício da dúvida. Além disso, vocês não se parecem nem agem como ladrões.
— Então, conte-nos sua história — Sherlock desafiou.
— O que você já descobriu? — Weston replicou.
Sherlock respirou.
— Você tem uma coleção de criaturas venenosas — ele apontou. — Suspeito que seja o veneno que lhe interessa, não as criaturas por si mesmas. Elas são apenas um meio para um fim.
— Continue.
— Você está pesquisando os efeitos do veneno, quais são rápidos e quais são lentos, quais deixam sinais óbvios e quais não deixam vestígios — Sherlock pensou em sua conversa com o doutor Lukather. — Tem tudo a ver com a evidência que as substâncias deixam para trás, não é? O doutor Lukather também estava interessado nisso, mas você foi mais longe. Você está testando os venenos para poder observar os seus efeitos.
Matty, que tinha tomado um grande gole de limonada, de repente abaixou o copo.
— Eu sabia — ele falou amargamente.

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